domingo, 24 de março de 2013

3142) O Vampiro Predador (24.3.2013)





O vampiro é um arquétipo múltiplo, que vai recebendo diferentes projeções conforme ressurge em cada época, em cada cultura.  Cada medo customiza o vampiro de que precisa. Se o medo, como dizem os psicólogos, é um desejo ao contrário, tem a mesma força do desejo, a mesma energia vital do desejo, a mesma dinâmica do desejo. 

Quando Bram Stoker publicou Drácula (1897), saiu catando fragmentos de folclore da Europa Oriental, da Irlanda, do Oriente. Havia precedentes literários importantes (Richard Francis Burton, John Polidori, Sheridan Le Fanu, etc.), mas há um certo consenso de que a obra de Stoker foi dentro do mito o que se chama de uma “mudança qualitativa”. O jogo inteiro foi zerado em função das novas premissas.

Numa palestra recente no evento “Noites com Vampiros” (Caixa Cultural, Rio), com Júlio França e Júlio César Jeha, discutimos algumas dessas máscaras que o vampiro usa, ou melhor dizendo rostos, porque o vampiro, sendo um mito, não tem existência física a não ser no rosto que dele enxergamos. O mito é um feixe de estímulos potentes, contraditórios, imperiosos. A experiência do mito é sempre única, intransferível, porque é a soma do estímulo (um livro, um filme, uma imagem, etc.) com a nossa resposta a ele.

O vampiro criado por Stoker acabou se encarnando num aristocrata da Europa Oriental, um trecho sempre problemático do império britânico, aquele “onde o sol nunca se punha”. A Transilvânia parece um local onde o sol nunca nasce, pelo menos na severa iconografia que o livro de Stoker inspirou. É um lugar atrasado onde se acredita em bruxas, maus-olhados e feiticeiros. 

Já a Inglaterra era a Inglaterra de Allain Quatermain, Sherlock Holmes, a Inglaterra hoje romantizada e até desmedulizada numa parte do Steampunk, que esquece o lado cruel daquele processo todo, um Casa Grande & Senzala muito mais brutal. 

A Inglaterra onde o Conde Drácula surge como um aristocrata cada vez (no cinema) mais sofisticado, mais byroniano, mais baronial, mais carismático e magnético, o nobre capaz de dar uma ordem com um simples olhar – a outro nobre.

É mais simples dizer que o poder de Drácula é o poder que a Europa já teve e com o qual sonha, com seu Impossível Retorno.  Mas numa sociedade cada vez menos aristocrática e mais propensa a mitologizar o aristocrático, Drácula tem o poder e o carisma do patrão cruel visto pelos olhos do escravo agradecido.  É a versão masculina da Ayesha de H. Rider Haggard: Aquela A Quem Devemos Obediência. O cavalheiro de olhar penetrante, o herói byroniano diante de quem todos se curvam, e se curvam com gratidão e maravilhamento.



sábado, 23 de março de 2013

3141) Dez anos (23.3.2013)





Não sou de comemorar datas. Nem mesmo meu aniversário eu comemoro. Prefiro comemorar façanhas: o lançamento de um livro, por exemplo. Aí, sim tenho a sensação de estar celebrando uma coisa concreta, real, e não uma simples coincidência aritmética. No presente caso, entretanto, acho que vale comemorar, porque as duas coisas estão juntas.

Hoje, 23 de março de 2013, completo dez anos como titular desta coluna no “Jornal da Paraíba”, para onde fui trazido, pela ordem de conversa, por Rômulo Azevedo, Luiz Carlos de Souza e Guilherme Lima. Orgulho-me de afirmar que, como bom jornalista, não faltei um dia sequer, e este é o artigo de número 3.141 (tenho todos devidamente salvos e com back-up). Além do mais, todos estão disponíveis no meu blog Mundo Fantasmo (http://mundofantasmo.blogspot.com), onde procuro postá-los diariamente, para quem se interessar. Duas coletâneas deles já foram publicadas: “A Nuvem de Hoje” (Editora Latus/UEPB, Campina Grande, 2011) e “A Arte de Olhar Diferente” (Ed. Hedra, São Paulo 2012).

Ao longo deste tempo o jornal passou por algumas reformas gráficas, e a partir de setembro de 2011 o tamanho máximo da coluna, que era de 3.000 caracteres com espaços, foi reduzido para 2.680.  De início chiei, porque para mim é mais fácil escrever muito do que escrever pouco; mas a gente se acostuma, quando tem que fazer algo todo dia. O que mais me incomodou foi o limite máximo de 21 caracteres para o título, porque muitas vezes não cabe o nome inteiro do filme ou do livro que a gente está comentando.

Me perguntam sempre: Como é que você consegue escrever um artigo por dia? Respondo dizendo que jornal é assim, tem que escrever, esteja inspirado ou não, esteja com boas idéias ou não. Às vezes a gente passa uma semana sem idéias, mas escreve. Às vezes tem seis idéias geniais antes do café da manhã, e nesse caso o melhor que faz é escrever logo todas seis e ficar com a semana pronta.

Agradeço aos leitores fiéis que acompanham esta coluna desde que ela começou, e aos outros que ganhei através do blog. Nem tudo que escrevo interessa ou agrada a todo mundo, e é bom que seja assim, para a gente não ficar esperando somente a aprovação, a concordância, o elogio. Quando eles vêm, são bem vindos e preciosos. Mas a gente não escreve para agradar, escreve para interferir, para provocar, para compartilhar, para prevenir. Escreve para deixar registrada uma informação que será importante daqui a mais dez ou vinte anos. Alguns escritores passam a vida redigindo um “Diário Íntimo”. Eu acho que vale mais a pena escrever um “Diário Público”, discutindo o que interessa a muita gente – ou pelo menos a intenção é esta.



sexta-feira, 22 de março de 2013

3140) Groucho Marx (22.3.2013)




(Groucho e seu neto Andy)


Li esse episódio no saite BoingBoing de Cory Doctorow. (Em: http://bit.ly/Y8yOeS) O autor é Andy Marx, neto de Groucho Marx, que em 1973 era estudante de cinema e costumava de vez em quando almoçar na casa do avô, em Beverly Hills. No dia em questão, estavam lá, visitando Groucho, os atores Elliot Gould e Jack Nicholson e o mímico Marcel Marceau. A certa altura, tocou o telefone e o neto foi atender. Era um cara do depósito-galpão da NBC. Eles tinham lá algumas caixas de filme em 16mm contendo os programas You Bet Your Life (1947-1961) que tinha Groucho como apresentador. “Precisamos abrir espaço no galpão, e se quiserem os rolos de filme deixaremos na sua casa. Se não, eles serão incinerados”.

Andy pediu que esperasse e foi contar ao avô, que, grouchianamente, respondeu: “Podem queimar aquela porcaria, não vale nada”. Nicholson e os outros intervieram dizendo que era importante salvar o programa, etc. E foi dada a ordem: “Tragam os rolos”. Dias depois Andy estava em casa e recebeu um telefonema do avô, furioso: “Venha ver o resultado da sua idiotice!”. Ele foi lá e viu cinco caminhões parados, e dezenas de funcionários descarregando caixas e mais caixas. Um motorista o informou de que havia 500 caixas, cada uma com 10 rolos de filme. A mansão de Groucho ficou abarrotada de caixas até o teto, numa cena que inevitavelmente parecia extraída de um filme dos irmãos Marx.

O fato é que o programa foi salvo e Andy, que tinha 20 e poucos anos, foi contratado para revisar, anotar e fichar rolo por rolo, ganhando 150 dólares por semana (“Eu teria PAGO isso a eles para poder fazer o serviço”, confessa ele.) E os programas (fui checar na Wikipedia: foram 528 episódios em 16 temporadas) foram reexibidos e hoje podem ser vistos pelo Netflix (nos EUA, pelo menos). O que conduz o autor do artigo a uma reflexão final: “Que sorte ter sido eu a atender aquele telefonema, e não meu avô”.

Muitos de nós já passamos por situações semelhantes. Eu defendo, por exemplo, que o arquivo do Diário da Borborema, ameaçado de destruição ou de expatriamento, seja mantido em Campina Grande. Mas não sei o que faria se me dissessem: “Está OK, entregaremos tudo amanhã, no seu apartamento”. O problema não é que sejamos hipócritas, é que a preservação da memória cultural, que tanto defendemos, exige espaço físico, funcionários, cuidados, climatização, manutenção. Nenhum de nós tem uma mansão para abarrotar de caixas. Sabemos apenas que essa preservação é necessária. Preservar o passado dá tanto trabalho quanto produzir o presente, e muitas vezes um dos dois é sacrificado pelo bem do outro.



quinta-feira, 21 de março de 2013

3139) Livros pirateados (21.3.2013)





Em 1907, Mark Twain estava de passagem por Londres, indo para Oxford, onde receberia um título “honoris causa”, e aproveitou para se encontrar com seu amigo Bram Stoker. Os dois conversaram sobre vários temas e Twain deu conselhos ao autor de Drácula sobre como escrever histórias fantásticas: “A única maneira de escrever histórias de bruxaria é surrupiá-las por inteiro da obra de Balzac. O francês atingiu a perfeição em um dos seus ‘Contes Drôlatiques’... conheço uma livraria no Strand onde você pode comprar uma edição pirata, reproduzida por câmera fotográfica, por apenas meia coroa”.

Esse detalhe, reproduzido na biografia de Barbara Belford (Bram Stoker, Phoenix Giant, 1996), dá uma pista da desenfreada pirataria de livros que alimentava os grandes mercados editoriais do Ocidente há cem anos. Se entendi bem, os piratas não se davam o trabalho de recompor um livro no linotipo: fotografavam a página aberta em duas, e reproduziam as imagens, certamente com um mínimo de qualidade que pelo menos permitia a leitura. Mais ou menos como a galera pirateia filmes inteiros hoje em dia levando câmaras (ou mesmo celulares) para o cinema (todo mundo já viu piratas onde se avistam as cabeças dos espectadores à frente da imagem).

Twain e Stoker já tinham sido sócios numa empreitada editorial falida do primeiro. Twain foi uma espécie de Monteiro Lobato – torrava todo o dinheiro dos seus best-sellers em empreitadas editoriais mirabolantes, que acabavam dando com os burros nágua. Em 1898, ele convenceu Stoker e seu patrão, o grande ator Henry Irving (dono do teatro Lyceum, do qual Stoker era o gerente), a comprar ações do projeto de uma máquina de composição tipográfica (o “Paige Compositor”) que concorreu com o linotipo lançado por Mergenthaler, e foi derrotada por ele.  Twain trabalhou muitos anos como tipógrafo, e era um entusiasta dos novos modos de produção gráfica – consta que a primeira obra literária que chegou à editora numa versão datilografada foi o seu Vida no Mississippi (1883).

Aliás, isto pode ter influenciado Bram Stoker a dar à máquina de escrever portátil um papel importante em Drácula (1897), pois é nela que Mina Harker escreve parte do seu diário que narra a caça ao vampiro. E um grande impulso para a popularização do romance de Stoker foi que, por causa de um detalhe técnico, Drácula sempre esteve em domínio público nos EUA desde seu lançamento. Cem anos atrás, edições piratas e direitos autorais de livros impressos eram um território tão fluido quanto é, hoje, o dos livros eletrônicos. Os sucessos desse período mostram um momento em que qualidade e venda não foram antônimos.

quarta-feira, 20 de março de 2013

3138) Clube da Barruada (20.3.2013)



Me desculpe quem tiver achado plebeu demais esse termo usado no título. Num dos clubes a que pertenço é assim que se designa colisão de veículos, quando são duas pessoas de verdade falando. Quando o cara se dirige a um público invisível ou indiferenciado, diz colisão de veículos. 

O termo completo em inglês é Party Crash, que poderia ser traduzido como “Festa da Barruada”, mas quem o está utilizando é Chuck Palahniuk, o mesmo cara que escreveu Clube da Luta, sua história mais conhecida.

Este livro é de 2007 e chama-se Rant. Numa época imprecisa, grupos de desocupados ou de aventureiros meio existencialistas passam a noite num incessante “pega” de automóveis. Cada grupo em seu carro, eles passam a noite inteira batendo uns nos outros, obedecendo a um complicado sistema de regras, penalidades e premiações simbólicas de variada natureza. Palahniuk aqui está usando parachoques como se fossem punhos, e tratando como iguais rosto humano e lataria.

A subcultura barruadeira dessa turma lembra a sensação de vício virtual produzida por algumas horas de jogar Grand Theft Auto (GTA), sacolejando por aquelas ruas tão verazes, capazes de seduzir e convencer o olho, se bem que não o corpo inteiro. 

A perseguição, em Rant, pode ter algo de Bullitt ou Operação França, pode ser algo galhofeiro e despropositado como qualquer invenção maluca dos irmãos Coen ou de Tarantino; pode mostrar a promiscuidade fria e entomológica de J. G. Ballard e de David Cronenberg no livro e no filme Crash.

Existe uma mini-humanidade completa no universos desses folguedos sobre quatro rodas, que lembram Halloween, galera que dá cavalo-de-pau na multidão.  A subcultura deles é constantemente alimentada por uma estação de rádio que descreve, com detalhes incômodos, os ferimentos sofridos pelas pessoas que acabam de sofrer acidente de carro em algum ponto da rodovia.  

Uma rádio que todos ligam, mas que, ao contrário do DJ negro em Vanishing Point de Richard Sarafian, age de forma impessoal e cuidadosamente planejada. Uma equivalente dos “Globocops” em geral, que mistura o sensacionalismo explícito dos tablóides populares e o ar sem-frescuras, direto-ao-ponto, da moça que recita as previsões da meteorologia.

Alguns personagens do livro poderiam ser chamados meteorólogos do trânsito urbano, e Palahniuk avisa que esse nicho da marginália ocupado por alguns milhares de “party crashers” surgiu de pesquisas sobre fluxo de trânsito, acidentes planejados que tornaram-se divertidos demais para que alguém os mantivesse sob controle por muito tempo.  Party Crash é apenas um dos cinco ou seis aspectos dignos de discussão em Rant.









terça-feira, 19 de março de 2013

3137) Romance e futebol (19.3.2013)




(Nelson Rodrigues)


Um espectro que nunca deixou de assombrar a crítica literária brasileira foi: Por que motivo não existe entre nós uma grande literatura de ficção (romances, contos) voltada para o futebol? Pode-se argumentar que há bons livros sobre o tema (Macedo Miranda, Edilberto Coutinho, etc.), mas é um “corpus” ainda desproporcional em relação à importância que o futebol tem em nosso país. Num post de 2010 em seu blog TodoProsa, Sérgio Rodrigues afirma: “Pois eu tenho uma pista. Nada de elitismo ou falência da arte brasileira. Aposto que o Grande Romance do Futebol Brasileiro está escondido no mesmo limbo em que dormem seus irmãos, os embriões eternos do Grande Romance do Basquete Americano, do Grande Romance da Fórmula 1 Italiana, do Grande Romance do Pingue-Pongue Chinês e do Grande Romance do Curling Escocês”.

Ou seja: é uma falácia esse raciocínio de que se um país é bom num esporte ele deveria ter uma literatura florescente voltada para esse esporte. Não é uma relação assim tão mecânica. No Brasil, o que temos de alto nível é a crônica futebolística, o que me parece lógico. Temos clubes de verdade, craques de verdade, espetáculos épicos de verdade. Quem gosta de futebol, gosta da adrenalina produzida pela disputa esportiva de verdade, entre grandes times. (Ou entre times pequenos, desde que o contexto emocional ou social dê a esse confronto uma dimensão épica qualquer.) E o que cresceu aqui no Brasil foi a literatura de não-ficção em torno desse universo real. Da crônica, que vem desde os irmãos Mário Filho e Nelson Rodrigues até os cronistas mais recentes, não temos do que nos queixar. Nossa crônica tem um alto nível literário.

O problema do romance e do conto talvez seja o mesmo do cinema. Ninguém gosta de ver num filme um jogo de futebol inventado, encenado por atores. A falsidade é evidente. Ninguém se emociona, mesmo quando um atacante dribla cinco e entra com bola e tudo. Qualquer espectador sabe que a jogada foi escrita, ensaiada e dirigida para acontecer daquele jeito, então qual é o mérito? O mérito do futebol é ser imprevisível, improvisado, sujeito a reviravoltas que não são determinadas por uma equipe roteirizadora. Numa história de ficção é dificílimo transmitir essa impressão de imprevisibilidade, de chances totalmente abertas. O futebol é familiar demais aos torcedores para que um jogo claramente escrito e coreografado possa se fazer passar pela coisa de verdade. Até um VT de quaisquer dois times pelos quais o espectador não torce é melhor, porque sabemos que, no momento da gravação, tudo aquilo estava acontecendo de verdade, tudo podia acontecer, e essa é a emoção principal do esporte.





domingo, 17 de março de 2013

3136) O medo da noite (17.3.2013)



(by Emma Dima)


Era uma cidade pequena e pacata. Vivia-se ali uma vida sem sobressaltos, mas houve uma época em que pessoas, cada vez mais numerosas, começaram a ser atacadas por surtos de insônia e medo. Deitavam-se à hora habitual mas não conseguiam adormecer. Enquanto maridos ou esposas ressonavam em paz, ao lado, esposas ou maridos retorciam-se sobre o colchão, ora de um lado, ora do outro, fitando as telhas do teto ou os traços à meia-luz da janela fechada, por onde se infiltrava um pouco da luz da rua. O sino próximo batia uma hora. Depois duas. Depois três. A madrugada avançava e as pessoas sofriam, de olhos abertos e com a mente em redemoinho. De nada adiantava a água com açúcar, o chá quente de camomila; de nada adiantava a garrafa de vinho sorvida sem prazer, o meio litro de uísque engolido como quem quer ganhar uma aposta. O sono não vinha.

Vinha a insônia, e com ela o medo da solidão, o medo da noite, o medo inexplicável daquela cidade que durante a noite parecia morta. Médicos ficavam sem ter o que receitar, esgotados todos os recursos de sua farmacopéia artesanal. Mulheres com olheiras despejavam lágrimas; homens embrutecidos pela incapacidade de dormir praguejavam, brigavam no trabalho, perdiam o emprego.

Alguns fizeram uma descoberta. Era melhor fingir que estava tudo normal e, madrugada afora, escancarar as janelas da rua, acender todas as luzes, agir como se fosse a horinha do anoitecer.  Os outros insones viam aquela única casa iluminada e saíam para a rua, levavam para a calçada suas cadeiras, sentavam-se ali e ficavam olhando aquela sala luminosa e colorida onde alguém lia um jornal ou regava flores.

A administração pública resolveu intervir; já eram muitas centenas os insones. E foi modificado o horário de funcionamento de alguns edifícios públicos: a cadeia, o hospital, o manicômio. Logo estes se revelaram ímãs poderosos para atrair o deserdados do sono. Naqueles prédios, sempre havia uma ala funcionando a todo vapor durante a madrugada, com luzes acesas, janelas escancaradas para a platéia de notívagos, por fim apaziguados, sentados no meio-fio, em banquinhos, em cadeiras de plástico de botequim, cadeiras de balanço. Trazidas de casa. Quem passasse na rua veria as pequenas multidões dos perseguidos da noite contemplando as enfermeiras que limpavam um doente, o interrogatório brutal de um ladrão de cavalos, ou as rotinas insensatas dos loucos do hospício, talvez os que aderiram com mais entusiasmo àquela reviravolta no mundo dos relógios; dormiam de dia e passavam a noite representando, conforme lhes dava na telha, a novelazinha de suas vidas para a platéia dos órfãos do sono.




sábado, 16 de março de 2013

3135) A carta misteriosa (16.3.2013)






O carteiro enfiou a correspondência por baixo da porta da rua. Quando a recolhi, lá estava o pequeno envelope branco. O endereço era o meu, mas tinha como destinatária uma mulher cujo nome não reconheci. Olhei o remetente: outro nome feminino, num endereço do interior da Bahia. Devia ser uma carta para alguma ex-inquilina da casa, onde eu morava há pouco tempo. 

Fazer o quê? Perguntar por ela à proprietária da casa, que morava na mesma rua, uns 50 metros mais acima? Colocar num envelope maior e devolver à remetente? Meu pequeno minuto de hesitação foi neutralizado pela fórmula mágica: “Depois eu resolvo”. Havia coisas mais urgentes para responder entre as cartas recolhidas embaixo da porta.

Anos depois, andei lendo um dos meus “coffee-table books”, aquele livros grandes, de capa dura e papel “couché”, que a gente bota na mesa da sala para que algum visitante chique sinta alívio, percebendo que também ali, e não só na casa dele, os livros são usados como adereços de decoração. 

Ao folhear (era um álbum de fotos do Rio de Janeiro), cai-me aos pés um envelope branco, pequeno, fechado. Examinei-o com estranheza. Era uma caligrafia feminina (era mulher, a remetente), aparentemente alguém que se alfabetizou às custas de esforço e determinação. A caligrafia era cursiva, mas cada letra surgia solta das demais, cada letra era mais desenhada do que escrita, marcando fundo o papel. 

Uma carta de uma desconhecida para outra desconhecida. Vaga lembrança. O que diabo esta carta está fazendo aqui? Como veio parar aqui? Fiquei desconcertado, larguei a carta e o livro sobre a mesa. Depois eu resolvo.

Hoje, aqui está ela pela terceira vez. Numa pasta de arquivo-morto, onde acumulo rascunhos, manuscritos, fragmentos, versões datilografadas de poemas, contos e canções que nunca chegaram a lugar nenhum. E que espero ter tempo de queimar antes de morrer, para que a posteridade não mangue de mim. 

Que diabo quer essa mulher, que não me deixa em paz? A carta continua intacta, fechada em si mesma. Seu mistério permanece virgem; o respeito (ou a indiferença) foi maior que a curiosidade. Vinte anos se passaram, já saí daquela casa, mas carrego comigo esse pequeno erro que herdei. 

Quem sabe se Dona Fulana, até hoje, espera o carteiro com a resposta. Não, Dona Fulana, sua resposta não chega. Nem mesmo a pergunta chegou. Está no cemitério das canções que não levantaram voo, dos poemas que foram interrompidos pelo mero constrangimento de estar escrevendo besteira. Se a senhora fosse escritora profissional saberia que mandar uma única carta não adianta. É preciso escrever uma carta por dia, uma carta por hora, uma carta por minuto.





sexta-feira, 15 de março de 2013

3134) Contracapa de Kobo (15.3.2013)





&  quando ele abriu o guarda-chuva desabou lá de dentro o maior toró  &  dizem que para acabar todas as guerras bastaria desativar meia dúzia de preposições  &  plantei um botão e nasceu um cabide, plantei uma ratoeira e nasceu um Banco 24 Horas  &  um dia os livros deixarão de ser assinados e serão lidos como se come uma fruta, uma coisa que ninguém fez  &  estou organizando uma máfia do bem, para fazer boas ações às escondidas  &  não existe nada mais ofensivo do que ser considerado um cara inofensivo  &  um dia consiste em seis horas de treva, doze de luz, e seis de treva de novo  &  do jeito que a coisa vai, os shoppings vão começar a cobrar pedágio em escada rolante  &  um marca-passo para o cérebro não seria má idéia  &  confessionários com alçapões, cuja mola o padre aperta se o pecado é muito feio  &  um dia, não existirá na superfície da Terra outra coisa senão oceanos e cidades  &  uma câmara de vigilância em cada esquina, em cada portaria, em cada porta, em cada testa  &  não ganho nada em falar mal da velhice, uma vez que é para lá que estou indo  &  ter a humildade de um PhD que se dedica a estudar helmintos  &  quando a gente finalmente entende uma coisa, quer dizer que ela acabou  &  na dúvida, grite: “você não passa de um lamelibrânquio!”, e saia correndo  &  não é a outra volta do parafuso, é o último aperto do garrote vil  &  tem político tratando cartão de crédito como se fosse o controle remoto de Deus  &  melhor fechar essa janela e pintar outra paisagem pelo lado de dentro  &  a boa pergunta já mostra a direção da resposta  &  toda dança ou é uma sublimação do sexo ou é uma preparação para ele  &   se o mundo fosse um lugar justo, choveriam bigornas de vez em quando  &  este livro deveria se intitular “Melhores Momentos de um Naufrágio a Longo Prazo”  &  quando o telefone toca, tanto pode ser a ressurreição quanto a guilhotina  &  toda estatística é uma foto desfocada de uma situação  &  estoicismo não é apenas suportar a dor, é também menosprezar o prazer  &  a vida é um suicídio a prestações auto-renováveis  &  tem sujeito tão burro que uma lobotomia o deixaria mais inteligente  &  quem esquece o seu passado está condenado a nunca sair dele  &  a arte de criar passarinhos em gaiolas abertas  &  houve um tempo em que sacolejar em carruagem era o ponto alto do conforto  &  nunca é cedo demais para dormir até mais tarde  &  se eu tivesse um milhão de dólares, ficaria motivado apenas a ganhar o meu próximo milhão de dólares  &  enquanto a banda tocar é sinal que o navio ainda não afundou  &  o melhor lugar para se esconder da polícia é na cadeia  & 



quinta-feira, 14 de março de 2013

3133) Drummond: "Música" (14.3.2013)




Carlos Drummond de Andrade dedicou a seu amigo Pedro Nava este poemazinho de Alguma Poesia, seu livro de estréia em 1930.  É um poema de época, flash de um tempo em que as casas tinham um piano na sala, para que as moçoilas exibissem seus dotes às visitas, após a ceia. Fazia parte nos namoros daquele tempo esse momento ao piano, em que sensibilidade, refinamento, traquejo social e outras qualidades eram aferidas ao som de um Noturno ou de uma Polonaise. Machado, no “Memorial de Aires”, tem belas páginas em que o  Conselheiro Aires observa o namoro de dois jovens durante essas sessões pianísticas.

O poema de Drummond, “Música”, diz: “Uma coisa triste no fundo da sala. / Me disseram que era Chopin. / A mulher de braços redondos que nem coxas / martelava na dentadura dura / sob o lustre complacente.”  O traço mais notável aí é uma certa rudeza nos símiles – os braços parecem coxas, o teclado é comparado a uma dentadura. Isto já condiz com a inapetência do narrador para com essa música que desde o início ele considera “uma coisa triste”, sem sequer chamar de música.

E ele prossegue: “Eu considerei as contas que preciso pagar, / os passos que era preciso dar, / as dificuldades... / Enquadrei o Chopin na minha tristeza / e na dentadura amarela e preta / meus cuidados voaram como borboletas.”  Na obra de Drummond, a criação artística redime tudo, recupera tudo. O Chopin deste poeminha é primo legítimo das canções que ele enumera em “A música barata”: “Paloma, Violetera, Feuilles Mortes, / Saudades de Matão e de mais quem? / A música barata me visita / e me conduz / para um pobre nirvana à minha imagem”.  Como acontece com o protagonista de “A Náusea” de Sartre, que em plena crise de bad-trip existencialista deixa-se resgatar de volta para o mundo e a vida através de um blues cantado por uma negra; “Some of these days / you’ll miss me honey...”.

No começo de século em que viveram esses escritores a música barata surgia como uma possibilidade de enlevo, de êxtase acessível. Era a música capaz de arrancá-los da tristeza e da banalidade do cotidiano. Tempo em que a música era uma salvação caída do céu, e não esse martelar constante e onipresente do mundo de hoje. Pra onde a gente se vire, há uma superfície eletrônica produzindo música, e mesmo que toda essa música fosse a música de que gostamos, isto não seria uma versão requintada do inferno? Estar preso numa gaiola com um milhão de pássaros cantores? No tempo de Drummond, tanto o Chopin erudito quanto as valsinhas kitsch dos salões eram capazes de fazer as preocupações humanas partirem todas numa revoada de borboletas.