terça-feira, 13 de abril de 2010

1905) O livro de Sivuca (17.4.2009)



Sivuca foi um dos maiores sanfoneiros do Brasil. A palavra “sanfoneiro” perdeu (espero) o tom levemente depreciativo que já a cercou, e isto se deve em grande parte a Sivuca, Dominguinhos, Oswaldinho e muitos outros mestres que mostraram que um sanfoneiro pode ser um músico tão completo e tão complexo quanto um pianista. Mesmo assim, foi como sanfoneiro que ele caiu no gosto e na memória do povo, principalmente na Paraíba; é com esse termo informal e próximo que nós da imprensa nos referimos ao músico de tantos talentos e tantas surpresas.

Hoje às 21 horas, no Espaço Cultural, será lançado num concerto da Orquestra de Câmara da UFPB, com Toninho Ferragutti como solista convidado, o álbum com partituras da obra sinfônica composta por Sivuca, É uma obra que a maioria dos paraibanos (eu incluído) desconhece. Desconhece porque as apresentações ao vivo foram raras, e porque o CD em que registrou a maioria delas (Sivuca Sinfônico, com o maestro Osman Gioia e a Orquestra Sinfônica do Recife) não se encontra com facilidade nas lojas nem é apregoado pelos ensurdecedores carrinhos-de-mão que vendem CDs piratas do Bessa ao Cabo Branco. É, em vários sentidos, uma obra rara.

Reza a lenda que Miles Davis teria escrito certa vez uma carta a Sivuca agradecendo-lhe por ter mostrado a ele que a sanfona era um instrumento musical tão sério e rico em possibilidades quanto qualquer outro. Para nós, isso passa como uma certa ingenuidade e desinformação do grande jazzista, mas é compreensível quando pensamos que nos EUA a sanfona é ainda mais marginalizada do que no Brasil, sendo apenas um instrumento acessório nas músicas “cajun” e “zydeco” na Louisiana. Ainda assim, os americanos produziram grandes mestres do instrumento, e Dominguinhos, por exemplo, já reconheceu sua dívida para com músicos como Tommy Gumina e Art Van Damme.

Um dos números mais pitorescos e mais aplaudidos dos shows de Sivuca era aquele em que ele executava “Vassourinhas” em estilo escocês, árabe, russo, argentino, etc. Apenas com a sanfona e a voz, ele fazia um “photoshop” étnico e sonoro no frevo. Era o seu lado popular, brincalhão, de menino risonho e vaidoso das próprias façanhas. O outro lado é o Sivuca meticuloso e erudito que transparece neste álbum, que inclui também arranjos seus para grupo de câmara incluídos no disco Sivuca e Quinteto Uirapuru e no DVD O Poeta do Som.

Sivuca foi a vida inteira um desafio e um questionamento à divisão entre música erudita e música popular. Divisão das mais incoerentes, porque lida com critérios heterogêneos. Se o critério fosse o grau de absorção, pelo músico, da “norma culta” musical, deveríamos dividir a música, talvez, em música erudita e música espontânea. Se fosse a origem social da forma praticada, deveríamos falar em música aristocrática e música popular. Sivuca é uma das muitas provas de que é possível ser de origem popular e alcançar o universo erudito, e vice-versa.

1904) Sequestro virtual (16.4.2009)



(drangooble)

É um dos golpes mais banais dos bandidos cariocas; não sei se já está em prática na Paraíba. Ligam para a família de uma pessoa, em geral uma criança ou adolescente, e dizem que o garoto foi sequestrado, está em poder deles. A família tem que levar não-sei-quantos-mil reais num lugar assim-assim, agora, já, senão o menino morre. A verossimilhança do golpe é garantida quando o bandido diz: “Se a senhora não acredita que é seu filho, escuta só”. O fone é passado para alguém e ouve-se uma voz abafada, histérica, tartamudeando pedidos de socorro; e logo retorna o primeiro interlocutor: “Vem logo, madame, porque seu filhote tá sangrando muito”.

Qual o pai ou a mãe que não treme na base quando uma bigorna dessas lhe cai na cabeça? Eu me considero um homem de sorte, porque já recebi uma dúzia desses telefonemas, mas na primeira vez que aconteceu era cedo da noite, e enquanto a voz desesperada gritava no receptor “pai, pai, eles vão me matar!” eu estava vendo meu filho a poucos metros, lanchando na cozinha. Desliguei o telefone, depois puxei-o para fora do gancho e deixei ali a noite toda, como a polícia aconselha fazer. Não tendo resposta, os caras ligam para o próximo número da lista e vão tentar a sorte com outro infeliz.

Na segunda vez foi mais dramático. Meu filho estava no colégio, era meio-dia, não tinha chegado ainda. A ladainha era parecida, “pai, pelo amor de Deus, tão me batendo!”. Bati o telefone. Mas ele ainda estava na rua... quem me garantia coisa alguma? Foram dez minutos de suplício psicológico até que a chave girou na porta e surgiu a silhueta desengonçada, mochila às costas, cabelão, camisa “Clockwork Orange”, e aquele ar desligado de quem está sempre pensando noutra coisa e nem sequer estranha chegar em casa para o almoço e ver o pai ajoelhado no centro da sala, beijando o sinteco.

A polícia aconselha ter um código para identificar se é ou não o filho. Zuenir Ventura, no “Globo” sugere tratar os bandidos com ironia. O bandido diz: “Quero dez mil pra devolver seu filho!” E a gente responde: “Dez mil?! Se você me devolver esse pentelho, eu vou querer vinte mil, de indenização!!!”. Talvez funcione. Mas já surgiu uma variante. Falsos pesquisadores ficam rondando a sala de espera dos cinemas, de prancheta em punho. Abordam um adolescente, dizem que é uma pesquisa do Ibope (todo brasileiro acredita na existência do Ibope), pedem nome completo, telefone de casa, nome dos pais, etc. Quando o garoto ou a garota entra na sala de exibição e desliga o celular, eles ligam para casa, já com a ficha completa, sabendo a aparência, como estava vestido, etc., e dizem: “Olhe, madame, só não boto pra falar com a senhora porque meus colegas acabaram de levar ela pro quarto dos fundos”. Os pais ficam no mesmo dilema de Pascal quanto à existência de Deus. A possibilidade de perda, se acreditarmos e aquilo for mentira, é pequena; mas se não acreditarmos e for verdade, quem pode calcular?

1903) O futuro de Terry Bisson (15.4.2009)




(Terry Bisson)

A revista norte-americana Locus está para a ficção científica assim como a Rolling Stone está para o rock. É ali que está a informação mais atualizada e mais confiável, mesmo que as análises mais críticas e mais profundas estejam em outra parte. 

Nos últimos anos, a Locus convidou o escritor Terry Bisson para contribuir com pequenas vinhetas de meia-dúzia de linhas sobre acontecimentos do futuro, sob o título “This Month in History”. O resultado, em forma de pequenas notícias sobre fatos espantosos ou surpreendentes, é um conjunto de pseudo-profecias que além de divertidas lançam uma certa luz sobre o nosso presente. Vejamos:

“29 de outubro de 2064. Chegaram os besouros. Atendendo a um pedido pessoal do Prefeito Trump, o Departamento de Saúde de New York aprova o Crunch Crazy, a primeira rede de fast-food baseada em insetos fritos, a tempo de permitir sua inauguração na semana de Halloween. As pequenas iguarias têm se mostrado populares principalmente entre os turistas de Times Square” (Locus, outubro 2008). 

A notícia sugere um prolongamento político da dinastia de Donald Trump e a invasão da cultura chinesa (e do dinheiro chinês) na economia americana – de onde seriam, afinal, esse turistas em Times Square?

“1 de outubro de 2123. Meca substitui Greenwich. Muçulmanos do mundo inteiro comemoram, e os cartógrafos lamentam, na data em que é oficializado o novo Primeiro Meridiano do globo terrestre” (Locus, outubro 2008). 

Achamos engraçado porque nunca nos perguntamos porque motivo o zero cartesiano dos fusos horários fica em Londres. Mas quem sabe se daqui a um século outro valor mais alto não se alevanta?

Estas duas historietas demonstram não apenas a leveza e mordacidade do humor de Terry Bisson, mas uma tendência do mundo e da FC norte-americana: a transferência gradual de poder do Ocidente para o Oriente, que começou com a criação da União Soviética, cuja decadência na segunda metade do século 20 correu paralela ao crescimento do Japão como uma das grandes economias mundiais. A crise do petróleo dos anos 1970 revelou o poder de um grupo de países árabes, contrastando com a pobreza de grande parte dos demais.

Na virada para este século, foi a China que disparou como grande potência. As nações do grupo chamado de Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) continuam a ser consideradas como forças ascendentes (reascendente, no caso da Rússia). A força política dos países islâmicos, aliada a suas riquezas, transferiu para países como Afeganistão, Iraque e Irã uma fronteira bélica-política que tem sido uma das principais sangrias financeiras dos EUA, e uma das maiores razões para sua perda de popularidade. 

Autores de FC, antenados com essa evolução, e sempre atentos para “a direção em que o vento sopra”, começam a diversificar seus cenários, como o irlandês Ian MacDonald que recentemente escreveu romances ambientados na Índia e no Brasil. O futuro é aqui fora, e os americanos sabem disso.







1902) O Espontaneísmo (14.4.2009)



Falar na contracultura dos anos 1960 é retomar alguns temas básicos: drogas, religiões orientais, vida comunitária, sexo livre, redes descentralizadas de produção e relacionamento. Existem, no entanto, aspectos que são típicos daquela época e que desde então não têm parado de se alastrar, e cada vez mais fazem parte do espírito do tempo. Se isto é algo bom ou ruim... “aí, varêia”, como diz o pessoal em Campina.

Falarei do Espontaneísmo. Naquela época e em toda a primeira metade do século 20 predominava na cultura uma mentalidade vertical, hierárquica. Os pais falam, os filhos escutam. Os professores ensinam, os alunos aprendem. Os mais velhos mandam, os mais novos obedecem. Pois bem, quando a Contracultura (incluídos aqui o rock, o movimento estudantil de maio de 68, a imprensa alternativa, a poesia marginal, a música independente, o cinema underground) começou a travar sua refrega contra a cultura oficial, passou a propor (e em algumas áreas a impor) a visão contrária. E na criação artística isto acabou se transformando no que chamo de Espontaneísmo.

O que é ele? É uma forma de anti-intelectualismo. A não-necessidade de treinamento, cultura, formação, etc. para fazer algo, especialmente nas artes. Todos são iguais. A criação de todos tem o mesmo valor. O que vale é a intuição, a sensibilidade, a auto-expressão, etc. De repente, para ser músico, não era mais preciso estudar em Conservatório: bastava um violão mal-afinado e uma voz cheia de entusiasmo e boas intenções. Para escrever um romance, não era preciso ter lido romances, bastava ter folheado uma edição do “Finnegans Wake” experimentando um baseado (ao que me dizem, esta é uma experiência irreversível, o cara nunca mais será o mesmo). Para ganhar a vida, não era preciso “se formar”: bastava ficar sentado numa praça criando arabescos com fios de cobre e vidrilhos coloridos. E assim por diante.

Era uma forma de anti-autoritarismo, anti-intelectualismo no bom sentido. Era uma das muitas utopias coletivistas e democratizantes daqueles anos em que um dos lemas era “Eu sou ele, como você é ele, como você é eu, e nós somos e estamos todos juntos”. Era uma forma de dizer “não” a uma velha geração travada, repressora porque insegura, autoritária porque sem argumentos, egoísta por medo e hipócrita por egoísmo. Uma maneira de dizer: “Isto que estamos fazendo é mal feito, é desordenado, é sujo, mas é nosso, isto exprime a totalidade do que somos, mais do que se fizéssemos uma obra-prima seguindo os critérios de vocês”.

Como explosão localizada de revolta, isto tem o mesmo valor terapêutico das rebeldias adolescentes e das “picardias estudantis” que toda geração experimenta. Quando isto passa, fica a questão: Como conciliar esse humanismo estético com critérios rigorosos de escolha? Os últimos 40 anos têm sido dedicados ao trabalho de criar um novo sistema de critérios, algo que faça a ponte entre a velha razão e o Espontaneísmo da contracultura.

1901) A cantoria de Viola (12.4.2009)



Peço desculpas aos apologistas do repente; este artigo não versa sobre um violeiro, mas sobre um artilheiro, que já fez as alegrias de muitas torcidas e deu dores de cabeça a todas. Vi-o pela primeira vez no longínquo 1988, quando eu assistia num domingo à noite os “Gols da Rodada” na Globo, e “a voz marcante de Léo Batista” anunciou: “E agora vamos ver a festa da torcida do Corinthians, que acaba de se sagrar campeão paulista, e ver também o gol do título, marcado pelo jovem jogador Viola...” E lá veio a imagem, nos últimos minutos do jogo, da bola cruzada rasteira da ponta direita e aquele neguinho magrela jogando-se de carrinho e empurrando-a para dentro do gol. No domingo passado, 5 de abril, Viola deu um depoimento a Pedro Motta Gueiros, do Globo, e o resultado é o perfil de um jogador cuja origem social não difere muito das de muitos repentistas. Foi um menino pobre, virou atleta rico, foi campeão do mundo pela Seleção em 94, hoje tem 40 anos e joga no Duque de Caxias (RJ).

Diz ele: “No mundo do futebol, você tira cinco que nasceram em berço de ouro. Pega o Kaká, o Caio... O Leonardo também era? Não sabia. O cara fala dez línguas, tinha que ter dinheiro. Eu não falo nem português. (...) Meu pai descarregava caminhão no Brás. Ele se chama Dor, de dor... celino. Dorcelino, dolorido. E a mãe, Joana, era empregada doméstica. A gente morava num barraquinho de madeira, chovia dentro porque os caras tacavam pedra”.

Viola fala da infância difícil, quando fugia da escola para jogar pelada ou carregar sacola de madame na feira. “A gente fazia muita fogueira para se alimentar. Batata-doce é de graça. Em qualquer mato, você capina e arranca uma fenomenal. Em volta do fogo, tinha cinco legais e outros cinco que saíam para roubar”. É uma estatística intuitiva, mas que expressa bem a visão dos rapazes de favela ou de periferia. Metade vira bandido, metade não vira. E sempre que vejo um cara assim, dando duro, fico me perguntando o que o fez preferir ser honesto e ganhar uma merreca, quando poderia entrar para o crime e ter a chance de viver uns poucos anos de riqueza. Claro que eu sei por que foi, uma vez que eu também não entrei para o crime. Mas fico pensando.

Viola tem amigos de infância, com quem convive até hoje, chamados Buteco, Sessenta e Calango. Ganhou dinheiro? “O que eu ganhei já se foi. Para mim, dinheiro continua sendo do capeta, mas num país como o nosso é preciso tê-lo. Se não, você vai no hospital público com dor de cabeça, te aplicam uma injeção, te matam e fazem negócio com a funerária para te vender”. Viola é falastrão, e não perdeu a “goga” de todo boleiro: “Quem encerrou a carreira do Baresi fui eu. Naqueles minutos que joguei na final da Copa de 94, dei dois cortes, ele já caiu sentindo um problema na coluna e nunca mais voltou. Tenho o vídeo.” Grande Viola, grande reportagem, grande Brasil.

domingo, 11 de abril de 2010

1900) “Cabeças Cortadas” (11.4.2009)



Nos 70 anos de nascimento de Glauber, surge outra raridade na TV a cabo: Cabeças Cortadas (1970), seu filme espanhol, que eu vira apenas uma vez, há 30 anos, no saudoso Festival de Verão de Areia, quando detestei o filme. Revendo-o agora, com muito menos expectativa, acabei gostando mais. A única lembrança visual que eu guardava era a do longuíssimo plano de abertura, em que o ditador Diaz (Francisco Rabal), sentado a uma mesa num palácio, tendo na parede ao fundo um belíssimo mural, fala em dois telefones ao mesmo tempo. Faz uma ligação de amor e outra de negócios, e logo está trocando os fones, misturando as falas.

Diaz é um personagem que já esteve em moda na narrativa latino-americana, o Ditador Delirante. Um arqui-vilão, mas ao mesmo tempo uma “sombra”, um Monstro-do-Id dos próprios autores. A figura satânica mas magnífica que concentra em si toda a Vontade de Poder e os abismos que esse Poder desencadeia quando exercido sem ligar para consequências.

Há algumas cenas buñuelescas, resultado da memória afetiva de Glauber sendo ativada pela língua e paisagens da Espanha. Um cego paralítico sendo carregado por uma multidão, e sendo curado pelo Pastor (Michel Clementi) que passa saliva em seus olhos. Os pés do ditador Diaz sendo lavados numa bacia, em cerimônia pública. Diaz e uma mulher rolando abraçados na lama (L’Âge d’Or). Diaz na praia empunhando um relógio, empunhando um ovo. Ressonâncias do cinema de Buñuel e do surrealismo em geral, nunca antes tão explícitos nos filmes de Glauber.

Depois de sua trilogia dialética (Deus e o Diabo, Terra em Transe, Dragão da Maldade), Glauber, exilado, mergulhou no inconsciente coletivo do Terceiro Mundo, produzindo um cinema de alegorias desvairadas, pesadelos políticos em forma de teatro de guerrilha, encenações barrocas que colidiam de frente com a retórica marxista dos diálogos. Filmes politicamente esquemáticos (cada personagem representava um “tipo”, uma categoria de agente político ou econômico), mas esse esquematismo e as possíveis lições políticas que poderiam resultar dele eram erodidos pelo excesso dionisíaco da encenação, o exagero gestual e vocal de atores que ele pressionava até quase um ponto de ruptura.

Em Cabeças Cortadas (1970), O Leão de 7 Cabeças (1971), indo até A Idade da Terra (1980), o cinema de Glauber se transformou em algo monstruoso, como “A Coisa” do filme de John Carpenter, um ser capaz de assimilar e reproduzir tudo com que entrava em contato. Estes filmes, no entanto, eram finalizados e exibidos ainda num estágio de semi-assimilação, como uma peça que estréia sem ter ensaiado até o ponto certo. O que se vê neles é uma colagem de idéias sem maturação, lances geniais e pirações descartáveis, homenagens explícitas, citações veladas, provocações impudentes. A peleja de um talento premido pela urgência contra um sistema repressor que tem todo o tempo do mundo. A peleja da pressão contra a panela.

1899) “Milk” (10.4.2009)



Este filme deu ao ótimo Sean Penn o Oscar de melhor ator. Penn dá ao personagem Harvey Milk o equilíbrio exato entre seriedade e descontração, entre contenção e trejeitos, entre coragem moral e fragilidade emocional. Milk existiu: era um ativista político, e o primeiro gay assumido a ser eleito para um cargo público nos EUA. Todo o período narrado pelo filme, até ele ser morto a tiros em 1978, coincide com a decadência do movimento hippie e do “flower power” em San Francisco (onde ele era simbolizado nas esquinas de Haight-Ashbury, uma espécie de “Ipiranga e Avenida São João” local) e o início da politização do movimento gay nos EUA.

Milk foi uma das locomotivas desse movimento, com duas proposições decisivas. “Meu nome é Harvey Milk, e estou aqui para recrutá-los” era a primeira delas. Um chamado à luta, uma espécie de “Come together!”. A segunda proposição era: “Saiam do armário, revelem-se, para que todo mundo fique sabendo que um de seus parentes ou amigos é homossexual, que somos gente como eles, não somos psicopatas nem criminosos”. Funcionou.

Este filme de Gus Van Sant comporia um bom programa duplo com, por exemplo, Brokeback Mountain de Ang Lee, formando um díptico tipo “Antes x Depois”. O Antes é aquela situação angustiada, destrutiva, de quem sabe que é diferente mas não pode sequer tocar no assunto. Era um tempo e um lugar (como lembra o personagem vivido por Heath Ledger) em que se dois homens fossem morar juntos num rancho eram presos, arrastados pelos cavalos, fuzilados e queimados. O Depois tornou-se possível graças ao ativismo de gente como Milk. Muitos deles sabiam que estavam arriscando a vida ao bater de frente com a América rancorosa e puritana, mas foram adiante assim mesmo. Como disse certa vez um jornalista norte-americano, “precisa ser muito macho para ser gay neste país”.

Embora a vida pessoal de Milk seja mostrada sem pudores, o filme não é (como Brokeback) sobre o homossexualismo em si, é um filme sobre política, sobre luta por direitos. É um filme sobre um dos paradoxos da democracia republicana ocidental: todos são iguais perante a lei, mas para conseguirem sê-lo vão ter que lutar muito. Como dizia George Orwell, “todos são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros”. Negros, pobres, mulheres, gays, deficientes físicos, imigrantes: todos precisam subir numa caixa de sabão, empunhar um megafone e berrar diariamente: “Nós também somos iguais!” Porque são muitos os chamados pelas Constituições, e poucos os escolhidos pela prática cotidiana.

Isto faz do filme de Van Sant um filme sobre ação política, sobre luta pelos direitos. Lembra O Homem de Kiev de John Frankenheimer, a história dramática do cara que é preso injustamente e pede para ser julgado. Mesmo quando a polícia diz que vai soltá-lo, ele diz: “Eu não quero ser solto. Quero ser julgado, e declarado inocente”. Este é o mais básico direito civil - o direito de ter os mesmos direitos que todo mundo.

1898) Para onde vai o mundo (9.4.2009)



(Anjo, do Museu do Vaticano)

Recebi emails de leitores a respeito do artigo recente “Os deserdados de Deus”, onde critiquei posições conservadoras da Igreja Católica (sobre aborto, celibato sacerdotal, virgindade, uniões civis, opções sexuais, controle da natalidade, doenças venéreas), e afirmei: “O mundo está indo noutra direção, uma direção que me parece mais saudável”. Confesso que me exprimi mal. Dei a impressão de que sou a favor da exploração do sexo na mídia, da pornografia, da permissividade narcisista, da pedofilia, do estupro, sei lá do que mais. Não é o caso.

O mal-entendido se deve ao fato de que muitos leitores acham que o mundo está indo nessa direção: a generalização do estupro, da pedofilia, etc. Ora, eu não acho. Isto são excessos que me desagradam, mas, paciência – já existiam na Roma dos Césares, nas cortes européias da Idade Média e do Renascimento, etc. e tal. Patifaria sempre vai existir; crime e violência, também. Exploração dos mais fracos pelos mais fortes (inclusive exploração sexual), também. Mas o mundo está indo numa direção que nem é essa, nem a que o Vaticano ordena.

Sou dum tempo em que se uma moça de 20 anos perdesse a virgindade (nem precisava engravidar; bastava-lhe perder o respectivo) os pais a expulsavam de casa, sob um coro de aprovações da sociedade inteira. Isso está acabando. Hoje muitos pais conversam com os filhos, explicam as vantagens e os perigos do sexo, aconselham que medidas tomar. Rapazes e moças deixam de ser virgens quando lhes convém, e casam pacificamente quando, depois de conhecerem alguns parceiros, encontram um com quem se identificam melhor. A maioria é assim.

Antigamente a gonorréia proliferava, porque pai não discutia esse assunto com um filho. Uma consequência positiva da Aids foi que ninguém pôde mais fazer de conta que essas coisas não existem. Hoje, os perigos, as medicações e precauções contra doenças venéreas se discutem na TV em horário nobre, nos colégios, nas salas de jantar. Essa é outra direção saudável que o mundo está tomando.

Antes, pessoas engravidavam sem querer e tinham filhos sob protesto, condenando-os à baixa auto-estima que aflige tantas crianças não-desejadas. Hoje, há inúmeros métodos (a maioria deles condenados pela Igreja) para evitar filhos, e trazê-los ao mundo apenas quando os pais acham que é o momento. Antes, rapazes e moças descobriam-se homossexuais e se suicidavam por puro horror (conheço casos). Hoje, a homossexualidade é questão de índole e gosto, e basta ter os mesmos cuidados que se tem numa vida heterossexual.

A “direção saudável para onde o mundo se encaminha” nada tem a ver com o que se vê na mídia – o achincalhamento e a banalização do sexo, e uma permissividade moral que só interessa a quem enche os bolsos à custa dela. Pedofilia é crime. Estupro (inclusive o estupro continuado da esposa pelo próprio marido) é crime. São coisas que existem, mas, daqui de onde vejo o mundo, não acho que ele esteja indo nessa direção.

1897) Poe: o olho-câmara (8.4.2009)



(foto: sydfish.wordpress.com)

Edgar Allan Poe tinha um olho moderno. Enxergava as coisas de uma maneira muito diferente do modo como seus contemporâneos as enxergavam, e parecida com nosso modo de enxergá-las hoje. Muitos indivíduos têm um modo diferente de ver o mundo, mas isto não fará deles “modernos” um dia. Moderno é, em retrospecto, alguém que tinha tempos atrás certas características que hoje achamos típicas do nosso tempo. Isto recupera e revive as obras que escreveram. Por mais diferentes que sejam da literatura de hoje, têm algo com que nos identificamos. Poe certamente teve centenas de contemporâneos talentosos e diferenciados. Para azar deles, o mundo não evoluiu na direção da visão deles, e sim na direção do modo-de-ver de Poe. Para um cara tão azarado como Poe, este pouco de sorte serve de consolo.

Em seu detalhado ensaio Fiction and the Camera Eye – Visual Consciousness in Film and the Modern Novel (1976), Alan Spiegel compara os estilos de descrição e visualização de vários escritores, com ênfase em Balzac, Flaubert, James Joyce. Diz ele que a cada geração sucessiva a literatura veio criando maneiras diferentes de visualizar verbalmente o mundo que descrevia. Spiegel dá (e analisa exaustivamente) exemplos esclarecedores retirados da obra desses autores, e mais de Henry James, Joseph Conrad, Virginia Woolf, Hemingway e outros. Ele não cita Poe; mas o “olho câmara” de Poe mereceria um estudo à parte.

Poe é moderno nesse sentido, porque antes de todos esses outros ele não apenas criou um estilo pessoal de descrever ambientes, mas também infiltra em suas narrativas pequenos detalhes de observação. Sua mente analítica não apenas observa o que acontece, observa também os observadores, e como é feita a observação. Seu conto “A Esfinge” fala do avistamento de um monstro gigantesco numa colina, que depois ele revela ser apenas um pequeno besouro caminhando na vidraça através da qual o narrador avistava a colina. É um conto emblemático do modo com que Poe percebia o ato de ver – com um distanciamento analítico que talvez já fosse usual em sua época, entre cientistas e filósofos, por exemplo, mas não era tão usual na literatura do seu tempo.

Poe explora repetidamente, nos seus contos, aquelas situações-limite, em que um indivíduo, seja ameaçado por um grave perigo, seja no clímax de uma prolongada tensão nervosa, seja por testemunhar algum fato espantoso e inexplicável, vê-se possuído por uma acuidade de visão extraordinária. “Visão”, aqui, entendido menos no aspecto ocular do que psicológico. Não apenas a capacidade de enxergar, mas a de “ler o que vê”, interpretar de modo diferente as imagens captadas pelos olhos, atribuir-lhes valores que não são percebidos por pessoas comuns. O narrador de Poe é um visionário, alguém que vê mais, vê além, não no sentido de ver o que não existe, mas de ser o único que vê de maneira correta o que está à vista de todos mas não é percebido por ninguém.

1896) O homem que perdeu seu reflexo (7.4.2009)




A imprudência fatal na vida de Ladislau Bartolo foi bater de frente com o dono das Comunicações Cosmos, o famigerado Dr. Sardônio. Sofreu demissão sumária por justa causa, perseguição por capangas, intimidação da família... Experimentou o cardápio completo de quem afrontava o cacique. O desemprego, a pobreza e o álcool o mataram anos depois, na indigência de um hospital público. 

Mas a vingança não parou por aí. Quando uma coligação partidária nomeou o magnata para o Ministério da Palavra, talvez ele já tivesse, não propriamente perdoado, mas esquecido as críticas de Ladislau. O mais provável é que algum dos seus apaniguados tivesse guardado rancor ao jornalista; e ele foi declarado extinto.

Percebi isto ao vivo, no ar, em tempo real. Ladislau, boêmio e poeta, era parceiro em algumas cançonetas gravadas por cantores obscuros. Uma madrugada, estava eu de locutor no programa “Voo Noturno”, da Rádio Vox Libris. Sentado à mesa manuseava papéis enquanto uma dama de voz plangente desfiava sua dor-de-cotovelo. 

Encerrada a música, peguei a ficha da programação e li distraído, pensando noutra coisa: “Acabamos de ouvir, com Marilda Calheiros, ‘Lágrimas de Cada Adeus’, de Vítor Gonçalves e Ladislau Bartolo”. Os head-phones ecoaram minhas palavras, mas depois do “Vitor Gonçalves e...” houve um quase imperceptível delay, e minha voz, transcodificada, recomposta digitalmente, fonema a fonema, disse: “Valdemar Barreto”. Assim. Sem mais nem menos. Olhei o técnico por trás do vidro do aquário. Folheava um gibi, bocejava como sempre, nada percebeu.

Entendi tudo e fui checar as provas da existência de Ladislau, afinal era meu ex-colega de emissora. 

Na foto enorme do andar térreo, tirada no aniversário da rádio dez anos atrás, Ladislau fora substituído por alguém, também moreno e magro, mas que não era ele. 

Nos dias seguintes, nos exemplares encadernados do jornal, no arquivo, vi, no lugar de suas colunas, outros textos e outros nomes. Nada na papelada trabalhista. Nada no setor de pessoal. Consultei os velhos livros de ponto, lembrando as vezes em que chegáramos e assináramos juntos: a assinatura esmaecida ao lado da minha já era outra. 

Abordada na rua, a filha pequena de Ladislau afirmou ser órfã de um tal de Laércio. O desbaste tinha sido minucioso, implacável. Nome, imagem, memória, tudo varrido do mapa pelo ressentimento e pelo menosprezo de um potentado republicano.

Ao voltar para casa, à noite, acendi um cigarro, e me desviei do meu trajeto para passar em frente à casa em que Ladislau nascera, e que me mostrara algumas vezes. Parei na esquina de sempre, vi o sobrado de sempre do lado esquerdo, e do lado direito o fundo de quintal de uma mansão que dava a frente para o quarteirão oposto. 

E entre os dois, onde houvera a casinha modesta da família Bartolo, havia agora uma igreja do século 18, meio estragada, mas com uma placa de tombamento do Instituto Histórico. Joguei fora o cigarro e fui dormir.