quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

0674) José Sanz (17.5.2005)




(José Sanz e Arthur C. Clarke em 1969)


Espero não morrer sem escrever um perfil biográfico do editor e tradutor José Sanz, falecido em 1987, um dos sujeitos mais fascinantes que conheci. Já o homenageei num dos contos do meu livro Mundo Fantasmo, mas aquele personagem é uma colagem de fatos e invenção. 

O que eu gostaria mesmo é de manusear os documentos que Sanz deve ter deixado espalhados por aí, e tentar reconstituir algo de sua vida real, que foi, muito mais do que meu conto, uma colagem de fatos e invenção.

José Sanz foi jornalista, mas é mais conhecido como entusiasta do Cinema Novo brasileiro e da literatura de ficção científica; duas religiões laicas que nos aproximaram desde o nosso primeiro encontro. 

Eu ia passando pela livraria Dazibao, em Ipanema, e o vi lá dentro. Entrei, e na cara de pau me apresentei: “Sanz, eu sou o cara que escreveu o livro sobre FC na Coleção Primeiros Passos”. Abraçou-me como se eu fosse um filho pródigo que ele procurava há anos, e conversamos até a Livraria fechar. 

Tivemos outros encontros no mesmo lugar (ele morava ali pertinho), nos telefonávamos de vez em quando, e quando o câncer começou a fazer sua investida final ainda o visitei algumas vezes no Hospital da Beneficência, acompanhado por amigos do Clube de Leitores de Ficção Científica.

Sanz traduziu dezenas de livros de FC (sua tradução de Solaris foi republicada há pouco pela Relume-Dumará), conheceu pessoalmente dezenas de autores, e trouxe muitos deles para um Simpósio de FC que organizou no Rio em 1968. 

Como crítico de cinema, tinha uma frase famosa: “Cinema não se discute, faz-se” – frase que nunca o impediu de falar sobre o assunto durante tardes inteiras. 

Quando morreu, Rogério Sganzerla mandou ao “JB” uma extensa carta onde queixava-se, com amargura, de que um tal vulcão de idéias e de atividade (Sganzerla o chamava afetuosamente de “Sanz Fiction”) ficasse desaproveitado.

Não era rico, e parece-me que sempre viveu “de bicos”. Na verdade, nosso primeiro encontro se deu muito antes daquele. De passagem pelo Rio, fui à Livraria do Pasquim para deixar um livro meu em consignação, e tremi na base ao reconhecer o velhinho de barbas brancas e irascíveis que preenchia a nota. Não me apresentei, não falei que era seu fã. Mais do que tímido sou orgulhoso, só gosto de falar com alguém quando posso fazê-lo de igual para igual.

Sanz mentia mais do que cigano; contava histórias mirabolantes sobre condessas que namorou na Europa, farras que fez com Arthur C. Clarke ou Brian Aldiss, escaramuças com a polícia numa cidade obscura na Europa Central. Tudo que contava era vívido, interessante, e a coisa que menos importava era se tinha acontecido ou não. 

O mundo em que viveu era um mundo virtual, feito de ficção, filmes, romances futuristas, sonhos, aventuras, revoluções; noites de vinho, música, mulheres e conversa interminável sob as estrelas de um céu estrangeiro. Tomara que o Céu seja assim, e que Sanz nem tenha percebido a transição.






0673) Adeus às armas (15.5.2005)


(Carlos Ranna)

A campanha pelo desarmamento doméstico está de novo na imprensa, em vista do tal referendo que deverá acontecer ainda este ano, no qual a população dirá se a produção e venda de armas deve ou não ser proibida. É sempre delicado você chegar de uma hora para outra e, com uma canetada, colocar fora da lei centenas de empresas que fabricam e comercializam algum produto. Cria um problema social, vai desempregar muita gente, etc. Só vale a pena se for para um fim muito nobre, e num assunto de muita urgência. É este o caso?

Alguns defensores da tese “População armada é população segura” argumentam que um sujeito com uma arma em casa pode defender sua família melhor do que um sujeito desarmado. Discrepo, nobres colegas. Prefiro viver num país onde se desarmam os bandidos do que num país onde se armam os cidadãos. Me sinto meio inseguro no Rio de Janeiro, mas não me sentiria melhor se andasse com um 38 na cintura. Ia acabar fazendo “disparos preventivos” à la George W. Bush. Vocês já empunharam um revólver? É um design impressionante, aquilo se encaixa tão bem na mão da gente que apertar o gatilho parece uma coisa inevitável, obrigatória. Se não apertar, a gente fica se sentindo meio incompleto.

Robert Heinlein, um escritor que admiro mesmo discordando, era um fervoroso defensor (como toda a Direita norte-americana) da tese do “cidadão armado, cidadão livre”. Esta Direita Liberal desconfia profundamente do Estado, acha que o Estado quer apenas oprimir e sacanear o cidadão, e que se o cidadão ceder seu fuzil ao Estado estará se entregando de mão beijada ao inimigo. Heinlein afirmava que o direito de portar armas era a base de toda a liberdade humana. “Sou contra qualquer tentativa de licenciamento ou restrição ao porte de armas por parte de um indivíduo”, dizia ele. “A França tinha esse tipo de leis. Quando os nazistas a invadiram, tudo que precisaram fazer foi consultar os livros de registro nas delegacias locais e apreender todas as armas dos franceses.”

Direitistas como Heinlein ou Charlton Heston julgam viver numa selva onde a qualquer instante seremos assaltados por traficantes ou invadidos por nazistas, e é preciso estar atento e forte, com um AR-15 na parede da sala e um parabelo na mão. Se você sugerir a ele que a melhor solução seria eliminar o tráfico e impedir o surgimento do nazismo, ele dirá que não, “deixa que eles venham, que eles vão ver o que é bom pra tosse”. É uma cultura da agressividade que precisa desesperadamente de ameaças para ter a chance de usar suas armas “por uma boa causa”.

O erro dos atuais governos é que não estão conseguindo desarmar os traficantes, bloquear o contrabando de armas para o país, neutralizar a indústria do crime (seqüestros, assaltos a carretas, etc.). Estão tentando fazer algo que, mesmo difícil, ainda é a parte mais fácil: desarmar os cidadãos. Seu erro não é fazer o que está fazendo, é continuar a não fazer o que nunca fez.

0672) Ler e ver (14.5.2005)




(cartum de Caco Galhardo)

No debate sobre a competição “livros x TV” temos partidários do livro que atribuem à TV todos os males da humanidade, a transmissão de idéias nocivas, e o embotamento mental dos jovens. No campo oposto, os partidários da TV anunciam que a era do livro acabou, e quem é contra os meios eletrônicos de comunicação é uma meia-dúzia de intelectuais jurássicos que gostariam de congelar a civilização no século 19. Ambos (preciso dizer?) estão errados.

Acho que a TV parece mais com uma revista do que com um livro. A brevidade no trato dos assuntos, a relativa superficialidade, a linguagem mais aberta e descomplicada, a variedade e descontinuidade entre os temas. São experiências distintas da leitura de um livro, onde se supõe que haja uma leitura linear, de um único texto, de A a Z. (Claro que existem livros sobre assuntos variados, mas preciso generalizar.) Porque o que se defende, ao defender a leitura de livro, principalmente para crianças e jovens, é uma série de hábitos mentais – que a TV não cultiva, não porque não queira, mas porque não está ao seu alcance.

Número 1: concentração. A TV proporciona experiências fragmentadas, onde o programa padrão mais longo tem uma hora. Alguém aí conhece um programa de TV que explore o mesmo assunto durante 3 ou 4 horas seguidas? E é justamente essa concentração, essa continuidade de foco durante horas seguidas, que o livro exige do leitor. O leitor de livro acostuma-se a concentrar sua mente durante horas num mesmo conjunto de idéias, sem “mudar de canal”. A mente de quem vê apenas TV sofre de uma espécie de ejaculação precoce. Com poucos minutos “dá por visto” e quer ver outra coisa.

Número 2: abstração. A palavra serve para abstrair, generalizar. Os meios audiovisuais são excessivamente sensoriais e concretos. Já notei que essa garotada de 10 ou 12 anos tem dificuldade de resumir uma história. Quando a gente pergunta como foi o episódio do desenho animado, eles o recontam todo, cena por cena, diálogo por diálogo. São incapazes de resumir uma narração: “Eles chegam num planeta que é cheio de praias, sol, etc., e descobrem que os caras de lá querem vir morar na Terra, aí depois de muitas discussões eles entregam a nave pros caras virem, e ficam morando lá”. Garotos têm dificuldade de fazer esse tipo de abstração. Memorizam o concreto como ninguém; mas não sabem ir além dele.

Número 3: fecundação lingüística. Ver filmes ou TV não faz de ninguém um diretor, por mais que aguce nossa sensibilidade e memória visual. Mas a experiência de ler mobiliza de imediato todos os nossos recursos de assimilação verbal, ensina nossa mente a raciocinar verbalmente, dá instrumentos a nossa expressão. É um processo educativo que é mais intenso quando lemos uma grande obra literária, mas que também ocorre em níveis mais elementares. Abrir mão de ler nos deixa privados do melhor treinamento que existe para essas três habilidades, que não se aprendem na escola.



0671) Vorta pro gol, goleiro! (13.5.2005)


(gol do goleiro num Bangu x Botafogo)

Vi no “Globo Esporte” de algum tempo atrás dois lances ocorridos no mesmo fim-de-semana, lances que por alguma razão sádica me divertem imensamente. O primeiro ocorreu num jogo entre Sevilha e Español pelo campeonato da Espanha. O Espanhol perdia em casa por 2x1, e no finzinho do jogo houve um escanteio e o goleiro foi lá para a área adversária tentar o gol de cabeça. A defesa aliviou, o time puxou o contra-ataque e enquanto o pobre do goleiro, na maior afobação, tentava voltar para seu lugar, o cara entrou de área adentro e tocou para o gol vazio. O outro lance ocorreu no campeonato do Distrito Federal. Goleiro na área tentando o gol de cabeça, defesa alivia, e um jogador lá do meio de campo manda a bola por cobertura; o zagueiro tenta em vão tirar de cabeça, mas é bola na rede. (Eu, se fosse o zagueiro, agarrava a bola com a mão, e entregava pro goleiro dizendo: “Agora defende o pênalte, idiota”)

Eu acho uma idiotice um goleiro sair da própria área para tentar o gol de cabeça, sujeitando-se a esse tipo de vexame. Não vou dizer que nunca dê certo. Há pouco tempo, num Campeonato Brasileiro, um goleiro da Ponte Preta fez isso no minuto final de um jogo com o Flamengo, mas do jeito que anda o mundo, até eu faço gol no Flamengo. Mas essa atitude kamikaze serve para mim como um bom exemplo dos modismos no futebol, onde basta um sujeito fazer uma coisa e ter repercussão na imprensa para todo mundo começar a imitá-lo. Parece o cinema americano ou a música brasileira.

Se não me falha a memória, a primeira vez que vi um goleiro tentar esse recurso suicida foi na Copa de 86, quando o goleiro Prudhomme da Bélgica apareceu de repente na área adversária, num escanteio, tentando empatar um jogo no último minuto. Copa do Mundo é um dos melhores exemplos de como a exposição maciça à mídia gera um modismo qualquer. Dali em diante, qualquer goleiro do Ipiranga de Baturité ou do XV de Novembro de Conceição dos Coqueiros achou que seria capaz desta façanha, e a quantidade de “micos” resultante é um dos mais divertidos capítulos na história do futebol.

Nem sempre são divertidos. Vi uma vez, também num “Globo Esporte” de segunda-feira, um caso que ainda hoje me dói no coração. Foi num campeonato juvenil em algum campinho brasileiro. No último minuto, o goleiro do time que perdia foi para a área inimiga, para o último escanteio. Subiu junto com a zaga e fez o gol de cabeça. Os colegas fizeram uma pirâmide eufórica sobre ele. Quando se livrou dos abraços, correu para a lateral do campo e ficou acenando para a torcida, jogando beijos. Quando se virou, ouvindo os gritos dos companheiros, percebeu que o time adversário já tinha batido o centro, chutado do meio de campo, e lá ia a bola, mansinha, quicando tranqüila para o fundo das redes. É assim o futebol, principalmente quando temos 15 anos de idade: do Inferno ao Paraíso (ou vice-versa) em questão de segundos.

0670) Blowin’ in the Wind (12.5.2005)



Falei dias atrás sobre “Asa Branca” e o fato de ela ser uma grande pequena canção, sem grande riqueza musical, mas que por vários motivos tornou-se uma canção marcante, simbólica. Não é a única assim. De imediato me lembrei de “Blowin’ in the Wind”, a canção de Bob Dylan que tornou-se um hino do movimento pelos Direitos Civis. É uma das músicas mais conhecidas do cancioneiro norte-americano, e é uma coisa “desse tamanhinho”. Tem dez centavos de melodia, mas tem uma letra com imagens fortes, evocativas, e suficientemente amplas para poderem se encaixar em qualquer situação: “Quantas estradas um homem tem que percorrer, até ser considerado um homem? Quantos mares uma gaivota tem que cruzar, antes de poder dormir na areia? Por quanto tempo as balas de canhão ainda vão voar, antes de serem banidas para sempre? A resposta, meu amigo, está soprando no vento”.

Não tem a complexidade, a originalidade, o impacto poético-musical de outras canções de Dylan como “Hurricane”, “Jokerman”, “Brownsville Girl”, “Tangled up in Blue”. Nosso primeiro impulso é achar que é justamente esta simplicidade, esta acessibilidade, que fez o seu sucesso, mas... músicas de três acordes é só o que tem por aí, e nenhuma delas vira o hino de uma geração inteira. É preciso a confluência de uma série de coisas, e aí não deixo de pensar que quem faz a força destas canções é acima de tudo sua letra.

Um caso parecido é o de “Caminhando” de Geraldo Vandré (“Caminhando e cantando, e seguindo a canção...”). Certa vez a Veja fez uma matéria sobre Vandré e usou o título: “Ele compôs a Marselhesa e não sabia”. Vandré provavelmente não imaginava que sua música teria um impacto tão duradouro. Era uma musiquinha de apenas dois acordes, e com todas as rimas em “ão”; era quase uma caricatura de tudo que a MPB não era no momento. Para quem se lembra, a MPB estava dividida entre a sofisticação harmônica e poética de Tom Jobim e Chico Buarque (que acabaram ganhando aquele festival com “Sabiá”), e a exuberância tropicalista em letras, melodias, arranjos, figurinos, atitudes. Sem se identificar com nenhuma destas tendências, Vandré infiltrou uma canção propositalmente minimalista, rudimentar, com um discurso poético explícito, sem sutilezas. E entrou para a História.

“Caminhando” é o contrário de canções complexas como “Disparada” (em parceria com Théo de Barros), “Aroeira”, “Pequeno Concerto que Virou Canção” e outras preciosidades que Vandré mostrou ser capaz de criar. Assim como ocorre com “Asa Branca” e “Blowin’ in the Wind”, são dez-tostões de melodia que qualquer um é capaz de cantarolar ou de acompanhar ao violão, e quem faz a canção decolar é na verdade a letra. Melodias simples junto a letras de alto impacto são uma descrição adequada para estas canções, que fazem torcer o nariz dos músicos sofisticados, mas que corresponderam, em um momento histórico específico, a alguma coisa que todo mundo estava com vontade de dizer.

domingo, 14 de dezembro de 2008

0669) Ser e parecer (11.5.2005)





Certa vez o imperador Julio César passou um tempo fora, invadindo países alheios, e ao voltar para Roma soube que sua esposa tinha dado uma festinha em casa, ou convidado um amigo para um jantar a dois, algo assim. Nada demais, mas ele pediu-lhe que não fizesse de novo. 

Ela disse: “Ave, César! Estareis por acaso imaginando que não sou uma esposa honesta?!” E ele, político veterano, explicou: “Minha filha, a mulher de César não precisa apenas ser honesta: ela precisa também parecer honesta”. 

César sabia que a população nunca tem acesso à verdade, e sim às versões. Como não presencia os fatos acontecidos, fica conhecendo apenas o que se conta deles. Portanto, não basta fazer o que é certo, é preciso produzir versões que convençam as pessoas de que não se fez o errado.

Uma vez li uma matéria sobre indústria fonográfica, e soube que na fabricação de discos de vinil era preciso colocar tinta preta na matéria-prima, para que os LPs ficassem pretos. Por que? Porque no começo da indústria os discos eram feitos com matéria-prima preta, inclusive cera de carnaúba. Todo mundo se acostumou. Quando o vinil, que é transparente, foi introduzido, era preciso pintar os discos de preto para que o consumidor continuasse confiando no produto. Mas nada, afora isto, obrigava um LP a ser preto. Para quem se lembra, os disquinhos “compactos” infantis eram coloridos, Zé Ramalho fez um disco verde, Egberto Gismonti fez um disco branco, e assim por diante.

Não basta um produto ser autêntico, ele tem que parecer autêntico. Aqui no Rio, a via expressa chamada de Linha Vermelha é ladeada por uma longa estrutura de vigas metálicas, quando cruza os bairros de Bonsucesso e São Cristóvão. As vigas são cinza, mas quando cruzam a Avenida Brasil, a via mais movimentada do Rio, elas aparecem pintadas de vermelho. Para quê? Para que todo mundo saiba que aquela é a “Linha Vermelha”. É um nome que vem da cor do traçado na planta urbanística original, que levou décadas para sair do papel, e se todo mundo se acostumou a chamar de “Linha Vermelha” ela não pode ser cinza.

Este mecanismo de “não só ser, mas parecer”, é um dos ingredientes que geram, por exemplo, os clichês étnicos. Um baiano louro e de olhos azuis pode ter nascido em Salvador, de família tradicional local, mas “não parece baiano”. Aqui no Rio, todo mundo diz que eu “não pareço nordestino”, porque sou branquelo. Fora do Brasil, “não pareço brasileiro”, pela mesma razão. 

Dias atrás, quando o Treze derrotou o Coritiba pela Copa do Brasil (dá-lhe, Galô!), o “Globo Esporte” mostrou a comemoração da torcida e... um grupo de forró. Que relação tinha o forró com a vitória do Treze? Para mim, muito pouca. Mas jornalistas e público são grupos que se condicionam mutuamente. Se a matéria mostra a Paraíba, tem que ter forró, se não “não parece que foi na Paraíba”. Devia haver uma cadeira nas faculdades de Jornalismo só para estudar durante um semestre este fenômeno.





0668) Grandes pequenas canções (10.5.2005)




Conversando, num grupo de amigos, sobre canções da MPB que marcaram época, falei: 

“Vejam o caso de Asa Branca, por exemplo. Não é uma grande canção, mas virou um símbolo, uma espécie de hino”. 

Foi o que bastou para que alguns se sentissem pessoalmente ofendidos. Como é que é -- “Asa Branca” não é uma grande canção? Senti o bafo das fogueiras da Inquisição, e apressei-me a fazer minha defesa.

Vejam bem: “Asa Branca” é de uma simplicidade musical franciscana. Baseia-se num tema folclórico, que Gonzagão apenas pegou e deu uma ajeitada. Muita gente idosa já me garantiu que conhecia aquela melodia muito antes de Gonzaga nascer. 

São uma meia dúzia de notas que se repetem em meia dúzia de versos, e não mais. Melodia de tal simplicidade que ainda hoje é a música preferida pelos jovens que se iniciam nos mistérios da flauta-doce ou da sanfona. Sem os versos de Humberto Teixeira, seria apenas um temazinho instrumental agradável.

O que fez “Asa Branca” foi uma combinação feliz de melodia acessível a todos, mas com uma ressonância atávica de profundas raízes no passado folclórico, somada a um poema vigoroso, de imagens simples e fortes, uma interpretação carismática, e acima de tudo, o momento histórico em que a música surgiu, e o impacto de novidade que trouxe a um mercado fonográfico estagnado e repetitivo.

Quando digo que não é “uma grande canção”, é porque ela está bem atrás de outras músicas do próprio Gonzaga, do ponto de vista musical e poético. Comparem a música de “Asa Branca” à música de “Que nem jiló” (“Se a gente lembra só por lembrar, o amor que um dia a gente perdeu...”) ou “Algodão” (“Bate a enxada no chão, limpa o pé do algodão...”). 

Estas são grandes canções do ponto de vista da técnica musical, canções que trazem em seu desenvolvimento melódico e harmônico uma proposta nova para a música nordestina.

“Asa Branca” é folclore puro, canção de estrofe única, sem sequer um refrão para intercalar. Nada tenho contra isto. Que conhece minhas composições sabe que este é meu modelo preferido de compor: canção de estrofe única, um bloco melódico que se repete recursivamente, mudando apenas a letra. É um formato clássico, tradicional, mas limitado. 

Se quiserem perceber a contribuição musical de Gonzaga, ouçam a sucessão de idéias melódicas em “Algodão”, vejam como cada fraseado parece emergir do anterior, novas idéias brotando a cada passo, sem se repetir.

Novidade musical, novidade poética, novidade na interpretação ou no arranjo, são elementos que isoladamente fazem boas canções. Quando estão todos presentes ao mesmo tempo, fazem grandes canções – do ponto de vista musical. Se esta grande canção vai se transformar numa obra importante ou não, é outra história. 

“A Volta da Asa Branca”, por exemplo, também é uma canção mais complexa, mais trabalhada e mais criativa do que “Asa Branca”. Com todo respeito a esta pequena canção, que a História transformou em grande Obra de Arte.







0667) A vantagem do fracasso (8.5.2005)



A vantagem do fracasso é que você pode zerar tudo e começar de novo, de preferência fazendo uma coisa completamente diferente. A desvantagem do sucesso é que você não pode mais voltar atrás, tem que continuar fazendo aquilo, porque é o que todo mundo agora espera (ou exige) que você faça. O fracasso liberta. O sucesso escraviza.

Vocês acham que se Gauguin fosse um bancário bem sucedido ele poderia ter largado o escritório e ido para o Taiti, viver da pintura? Vocês acham que se a firma em que Raymond Chandler era executivo não tivesse falido, jogando-o no desemprego, ele teria virado escritor? Machado de Assis dizia que quando a Providência fecha uma porta abre uma janela, e foi pela janela da Arte que indivíduos como estes voltaram a fazer parte do mundo. Cuidado com aquilo que você pede a Deus, porque pode ser que ele atenda. O fato de desejar algo com muita intensidade faz com que às vezes a gente acabe tendo um retorno muito maior do que esperava. Já vi muito cantor de bom senso olhar uma música meio comercialesca, meio debilóide, e dizer: “Não, não vou gravar isso. Esse troço vai tocar pra caramba, vender pra caramba, e eu vou ter que gravar essas coisas pelo resto da vida”.

O sucesso é um avião que decola com você dentro, e nunca mais aterrissa. Poucas pessoas viam o sucesso de forma tão amarga quanto John Lennon e George Harrison, os dois maiores responsáveis pelo fim dos shows ao vivo dos Beatles de 1966 em diante (se fosse pelos eternamente otimistas Ringo e Paul, eles estariam tocando em estádios até hoje). Os Beatles, num gesto aparentemente suicida, interromperam uma carreira onde tudo estava dando certo. Pareciam estar matando a galinha dos ovos de ouro, mas na verdade acabaram com o circo insensato e rendoso que tinha se criado à sua volta, e foi somente depois disto que decolaram de fato como artistas. Há duas carreiras dos Beatles: um grupo pop cheio de talento, entre 1962-1966, e um grupo de músicos que revolucionaram as técnicas de estúdio e o próprio conceito de canção popular, entre 1966-1970. Há raros exemplos que uma quebra tão radical (e tão bem sucedida) com o próprio sucesso.

Por outro lado, o sucesso tardio serve como um bálsamo para quem já tinha se resignado ao fracasso. Os músicos septuagenários do “Buena Vista Social Club” passaram a vida mastigando um chiclete, e de repente ele começou a ficar cheio de açúcar. Em casos assim, qualquer incômodo, qualquer cansaço se esvai. O sujeito pensa: “Ora que diabo, passei 70 anos lutando para ter um décimo disto, e agora que me chega isto tudo vou afracar? Nem que a vaca tussa!” Deveria haver uma lei (refiro-me a uma Lei Cósmica, e não a esses irrelevantes documentos federais) estabelecendo que qualquer sujeito teria direito à fama e a fortuna em seu ramo de atividade, desde que o tivesse praticado por 50 anos ininterruptos sem obter nenhuma vantagem material. Talvez até já exista, e a gente é que não percebeu.

0666) Lendas urbanas campinenses (7.5.2005)



São esses personagens tão lendários que às vezes eu desconfio que eu mesmo os inventei. Estou brincando, claro. Suas histórias povoaram minha infância e a de muitos outros em Campina. Acreditei nas histórias sobre Engole Trave e Seu Alegria como acreditei durante muito tempo na existência de Papai Noel, e continuo acreditando ainda hoje na existência de gente como o Rei Artur ou Zumbi dos Palmares. Lendas são lendas, e repeti-las gera o oxigênio que as mantém vivas na memória de todos.

Algumas lendas são apenas um nome cercado por uma nuvem de pressentimentos e sentidos ocultos. Quando eu era pequeno, por exemplo, havia duas figuras que eram uma ameaça permanente, dois personagens ominosos cuja mera menção fazia as crianças tremerem de terror e entrarem em casa mais cedo para tomar banho e jantar. Havia “João Cabeludo”, que era um bandido, e havia “Barba Rala”, que era um tarado. A gente não sabia a diferença entre uma coisa e outra, ou pelo menos quem não o sabia era eu, na minha inocência de marcelino-pão-e-vinho. Sabíamos apenas que havia um bandido e um tarado à solta na cidade, e ai de quem saísse do raio-de-ação protetor dos olhares da mãe.

Ameaça ainda pior era a do Papa-Figo. Muitas e muitas vezes desci do Babilônia até em casa, depois da sessão das 7, olhando para todos os lados, por saber que estava cruzando o território do Papa-Figo – que não era a Rua Miguel Couto, mas a Noite. Quando cresci e me dediquei a leituras criminológicas, fiquei sabendo que a mesma lenda existia, tintim por tintim, em dezenas de cidades. O Papa-Figo é um velho rico que sofre de lepra, e a quem recomendam comer o fígado cru de uma criança. Há uma lógica monstruosa nisto; o fígado tenro da criança pode ter propriedades regenerativas, etc. E um empregado do Papa-Figo sai com um saco às costas, caçando crianças para alimentar o patrão. O corpo da criança é achado no mato, dias depois, com o fígado extraído e – este é o detalhe mais cruel – algumas notas de dinheiro enfiadas no ferimento, em pagamento pelo órgão arrancado. Já escrevi um curta-metragem (dirigido por Cláudio Barroso) inspirado no relato que Gilberto Freyre faz desta história.

Outra lenda campinense é a do Castelo da Prata (que ainda existe, segundo fui informado). O dono começou a construí-lo mas sonhou que morreria se a construção acabasse; o Castelo ficou incompleto desde então. Nos anos 1960 estava abandonado, invadido por mendigos. Eu tocava nos Sebomatos, a melhor banda de rock da Paraíba (eu, Marcelo, Bolívar e Sérgio), e lá no Castelo fizemos algumas fotos de que ainda hoje tenho cópias. É uma lenda semelhante à da Mansão Winchester, em San Jose (Califórnia), que passou décadas sendo construída. É cheia de excentricidades arquitetônicas, porque a proprietária tinha medo de terminar a casa, que tem 160 aposentos, 47 lareiras, e pode ser admirada em: http://www.winchestermysteryhouse.com/tours.html.

0665) Daniel Ellsberg (6.5.2005)



Vi na TV Segredos do Pentágono, a história de Daniel Ellsberg, o sujeito que abalou a administração Nixon, revelando segredos militares do Pentágono. Em 1970, os EUA estavam mergulhados na guerra do Vietnam, uma situação em alguns aspectos muito parecida com a de hoje no Iraque, só que aquela América era menos obscurantista do que a de hoje. Havia uma resistência muito forte à guerra, mas ao mesmo tempo havia aquele espírito patriótico, bem norte-americano, de que “nosso país está em guerra e devemos todos nos unir em torno do Governo, nos apoiar mutuamente”, etc.

Ellsberg trabalhava na Rand Corporation, uma espécie de instituto de futurologia e estratégia: analistas altamente treinados que examinam para o Governo alternativas de ação política, econômica, militar, etc. Ele percebeu que todo mundo sabia, desde o início, que era impossível ganhar a Guerra do Vietnam. As pesquisas encomendadas pelo Pentágono tinham revelações arrepiantes sobre o uso da guerra como instrumento para ganhar eleições. Ellsberg pressionou políticos, mas ninguém teve coragem de bater de frente com o Presidente Nixon, que era uma espécie de George W. Bush mais antipático e mais inescrupuloso.

Ellsberg passou meses xerocando em segredo 7 mil páginas de relatórios, e as repassou para os principais jornais americanos. Foi descoberto e preso, mas o governo enredou-se cada vez mais em problemas, porque na mesma época estourou o escândalo de Watergate, em que ficou comprovado que o Governo invadia de forma stalinista a privacidade de entidades e indivíduos. Ellsberg foi solto, e Nixon renunciou para não sofrer “impeachment”.

Guardo desta época uma imagem inesquecível, um cartum que saiu no jornal “Opinião”: Ellsberg de pé junto a uma pia, com uma caixa de sabão em pó, lavando a bandeira dos EUA. (Creio que esta imagem estava em meu subconsciente quando, no Carnaval de 1993, fiz com Lenine, para o bloco Suvaco do Cristo, um samba falando do impeachment de Fernando Collor, “Bundalelê”, que dizia: “Valeu lavar o verde e o amarelo; valeu atravessar 92”)

O interessante em tudo isto é o drama de Ellsberg. Ele considerava aquela uma guerra imoral, que não levava em conta as mortes de soldados americanos ou de civis vietnamitas; ele acusou o cinismo e a indiferença dos políticos para com a opinião pública, preocupando-se apenas em serem reeleitos. E ao mesmo tempo, ele hesitou durante anos. Por que? Acho que os americanos têm uma espantosa fé na lei, na legalidade, nos procedimentos juridicamente corretos. Aqui no Brasil, quando Fernando Collor extrapolou todos os limites da corrupção (que já eram largos, amplos, perdiam-se no horizonte), ninguém quis saber da Lei. Juntaram-se contra ele a Direita, a Esquerda, a Imprensa, o Congresso e o Judiciário. Cumpriram um mínimo de formalidades legais, e enxotaram o intruso. Restabeleceu-se o parâmetro anterior. Mas não sei o que Ellsberg pensaria de seus seguidores tupiniquins.