quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

4543) "Parasita": o filme (23.1.2020)





O marxismo criou a expressão “luta de classes” – se não a criou, pelo menos a transformou num utensílio do idioma. Ou seja, uma expressão que qualquer estagiário de redação usa com plena convicção de que sabe do que está falando. Foi o que aconteceu com “trauma” de Freud, “paradigma” de Thomas S. Kuhn ou “quântico” de Max Born.

Não importa quem inventou o termo. Na verdade, nem importa quem o gravou na linguagem popular, um suporte mais duradouro do que o mármore. Importa que após esse ato de nomear uma coisa abstrata ela se torna estranhamente concreta e as pessoas mais variadas (inclusive jornalistas culturais não-remunerados, como eu) se julgam no direito de botá-la no bolso e sacá-la sempre que for preciso.

O motivo deste nariz-de-cera é que pensei em falar do filme coreano Parasita (2019), de Bong Joon-Ho, sob a ótica da luta de classes, mas essa luta não é uma guerra tão nítida quanto – por exemplo – a guerra entre as formigas e os cupins. O que acontece entre os ricos e os pobres é luta, mas em certos aspectos é dança, em outros aspectos é intercurso sexual, em outros é esporte radical, em outros é combinação-contra-o-feda (como se diz na Paraíba), em outros é jogo de cena, em outros é bestialização coletiva...

“Luta”, apenas, não descreve a relação que neste filme une a família rica (os Park) e a família pobre (os Kim). As duas são simétricas: pai trabalhador, mãe atarefada e cheia de angústias, filha lindinha, filho voluntarioso. Dentro deste quadro, cada um dos oito personagens cresce no seu próprio formato, atira-se no caminho sem volta de suas próprias decisões, sejam pensadas ou aleatórias.

A “luta” entre as classes, em termos como estes, tem algo de sedução e algo de estupro, tem algo de convivência pacífica e de vizinhança em-pé-de-guerra, tem algo de libido predatória e algo de nojo controlado. Como se fosse uma luta entre iguais, mas com armamentos distintos.

Não estarei dando nenhum spoiler se disser que, por uma combinação de circunstâncias, a família de favelados consegue empregar um dos seus membros na casa da família rica; e depois, um segundo; e depois, um terceiro... E por aí vai.

O objetivo deles é previsível, e o resultado disso também. Conheço (aqui do lado de fora da tela) dezenas de histórias pitorescas sobre empregados que, no primeiro piscar de olhos dos patrões, aprontam uma, em sua ansiedade de sentir o gostinho do conforto e do consumo.

Quando vou numa casa bem rica, como a arquitetônica moradia da família Park, tenho às vezes a fantasia de que me empreguei ali como mordomo e que, mais dia, menos dia, a família vai passar férias fora e eu ficarei durante uma semana inteira por dono da casa, sozinho. A partir daí, como dizem as sinopses na web, “mayhem ensues”. Instala-se o caos.

É próprio das pessoas de classe baixa essa atitude contraditória com reação à riqueza: admirá-la, sonhar com ela, e, uma vez tendo-a ao alcance, destruí-la de forma pueril e negligente. Porque (aí é minha “mente rica” que interpreta) a gente só dá valor ao que conquistou com esforço, e quando um grupo de gente maltrapilha se apossa de uma adega, de uma despensa, de uma mansão, por que razão deveria tratar aquilo com reverência e parcimônia? O grande exemplo cinematográfico disto é a ceia dos mendigos no Viridiana (1960) de Luís Buñuel.



Parasita é um exemplo interessante da figura narrativa que denomino A Tomada, por inspiração do conto “Casa Tomada” (1951) de Julio Cortázar: uma situação em que pessoas permitem que seu ambiente seja gradativamente invadido, de forma aparentemente casual e pacífica, por pessoas estranhas que de repente tomam o controle de tudo.

Outro exemplo clássico disto é uma história de terror que nada tem de terror, mas que até hoje me dá arrepios quando lembro dela (como ocorreu ao ver este filme). É o conto de Hugh Walpole “A Máscara de Prata” (1932), que incluí na minha antologia Freud e o Estranho – Contos Fantásticos do Inconsciente (Casa da Palavra, 2007).  

Existe algo ominoso, algo cruelmente veraz na sua brutalidade: o vulcão virtual de violência que jaz sob cada jardim gramado onde uma família rica recebe convidados chiques – para uma festa-coquetel, para um casamento ao ar livre, um aniversário de criança...

Neste filme lembrei também, inexplicavelmente, do clássico pouco conhecido da FC, As Esposas de Stepford, livro de Ira Levin, filme de Bryan Forbes. Lembrei do arrepiante almoço-ao-sol no filme Corra! (Get Out) de Jordan Peele, em que um rapaz negro aceita o convite para um fim-de-semana na mansão dos pais da noiva. Neste último caso a lembrança é inevitável, pois vi este e Parasita, por acaso, no mesmo dia.

Todo roteirista pode bem avaliar as possibilidades de variados efeitos quando encaixamos uma cena de festa seguida por uma cena de carnagem. Carnagem é o que cada espectador está esperando ver, por este ou aquele motivo. Parasita é um desses filmes em que numa ocasião social cheia de tensão civilizada começa a se quebrar uma casca com força, e a gente sabe que alguém vai matar alguém de maneira horrenda. O bom é saber isto possível em cada um deles. E quando acontece, a surpresa é igual, a plausibilidade também.

A luta de classes é sempre encarada como o equivalente sociológico ao choque de placas tectônicas. As histórias humanas são as faíscas produzidas por esse atrito. “Luta” é adequado mas “parasitismo entre classes” talvez fosse um termo mais interessante, porque abriria caminho para comparações possivelmente úteis.

As duas famílias também são parasitas das telecomunicações. Tudo que fazem é mediado por selfies, wi-fi, mensagens, videofone, telefonemas, código Morse. Pode-se igualmente dizer que se, como dizia William Burroughs, “a linguagem é um vírus do espaço exterior”, então as web-comunicações são um vírus criado em laboratório e que está nos parasitando até agora.

Opor um núcleo rico e um núcleo pobre significa a possibilidade de jogar com cumplicidades recíprocas, quando convier à história, e antagonismos declarados, quando for o caso. As chanchadas de Oscarito e Grande Otelo não cansavam de arremessar essa dupla de toscos-simpáticos nos ambientes mais granfinos da época. E instalava-se o caos.

Sobre Parasita, declarou o diretor Bong Joon-Ho:

Para pessoas de diferentes condições sociais a vida em conjunto num mesmo espaço não é coisa fácil. É cada vez mais o que ocorre num mundo triste como o nosso: as relações humanas baseadas na co-existência ou na simbiose não podem se sustentar, e um grupo é levado a assumir uma relação parasítica quanto ao outro. No interior de um mundo assim, que poderá apontar seu dedo contra uma família que batalha, uma família travando uma verdadeira briga pela sobrevivência, e chamá-los de parasitas? Eles não eram parasitas desde sempre. Eles são nossos amigos, são nossos vizinhos, nossos colegas de trabalho. Tudo que aconteceu foi que eles foram empurrados por sobre a borda de um precipício. Ao ser a descrição da vida de pessoas comuns que caem numa tragédia inevitável, o filme é: uma comédia sem palhaços, uma tragédia sem vilões, e nele tudo conduz a em enfrentamento violento e uma queda de ponta-cabeça escada abaixo. Estejam convidados a assistir a ferocidade incontrolável desta tragicomédia.




 (poster: Andrew Bannister)

        






domingo, 19 de janeiro de 2020

4542) O parágrafo anunciado (19.1.2020)




É um gancho narrativo dos mais elementares, e que sempre funciona. Por isso mesmo, deve ser usado com parcimônia, porque depois da terceira vez o leitor pensa, meio sem pensar, “ih, lá vem isso de novo”.

Suponhamos o seguinte trecho de um romance:

“Smith deixou as coisas no hotel, lanchou num bar, assistiu um filme, e de noite foi para a orla da praia, onde pessoas caminhavam, andavam de bicicleta, passeavam com as crianças. Ele lembrou da última vez em que ele e Marybelle tinham ido para a casa dos amigos na Flórida.

Marybelle. Fazia tempos que não pensava nela. Há anos que ela sumira de sua vida por completo. (Etc e tal.)”

Mencionar o personagem, e usar o nome como uma espécie de crachá abrindo o parágrafo seguinte, é um procedimento para informar o leitor de que estão saindo do continuum de ação para o de digressão e memória.  

É um clichê narrativo, essa técnica de  abrir assim um parágrafo, anunciando um nome de pessoa, um lugar específico, um fato ou uma época (“Ah, aquelas férias na montanha com os primos!”). Basta isso para que o leitor ressete a bússola mental e acompanhe o novo canal narrativo, sem nenhum percalço.

O leitor acompanha as mais absurdistas das histórias, se a narração delas fizer um sentido minimamente narrativo: aí estão Campos de Carvalho, Robert Sheckley, Ionesco, Jarry. Acontecem somente coisas bizarras, mas o leitor não tem o menor problema em acompanhá-las.  Seu problema é quando a linguagem narrativa funciona de outra forma – como em James Joyce ou como o Catatau de Paulo Leminski, que são fluxos de frases pouco consequenciais.

Leminski... Os dois romances publicados pelo poeta curitibano (Agora é que são elas, Catatau) são muito diferentes, e nenhum dos dois obedece a essa estilística que poderíamos chamar “estilística de best-seller”, se isso não passasse a idéia errônea de que livros assim vendem mais do que os outros. Não vendem. Apenas são livros mais fáceis de entender, porque o autor vai sinalizando o rumo para o leitor, usando artifícios dessa natureza. Artifícios que funcionam como aquelas bandeirolas que o pessoal finca nas trilhas entre terras pantanosas, avisando aos transeuntes: “venha por aqui”.

O leitor precisa de continuidade, precisa saber onde está pisando, mesmo que a paisagem em torno seja de árvores desconhecidas.

O que mais atrapalha um leitor e impede o seu avanço no texto não é uma história difícil de compreender (embora isto possa pesar, é claro). É a sinalização gráfica.

Grande parte dos leitores de José Saramago – me refiro a leitores cultos, experientes – se queixa da sua maneira pouco ortodoxa de usar a pontuação, as letras maiúsculas, a troca de interlocutores (que ele às vezes amontoa num mesmo parágrafo, sem dar sinais muito claros de quem disse o quê).

A prosa de ficção da segunda metade do século 20 nos acostumou a uma série de liberdades. Mas não acostumou todo mundo ao mesmo tempo.

Hoje em dia, muitos leitores conseguem se virar sem muito problema diante de um parágrafo como este:

Cheguei no prédio que me indicaram. O porteiro era um cara grandão, sonolento. Boa tarde, mora aqui Doutor Altamiro? Pode ser e pode não ser. Quem quer falar com ele? Me botou um olhar de buldogue entre o almoço e a sesta. Olhe, ele não me conhece. Diga que é da parte de Felisberto. Ele mexeu no interfone, resmungou baixinho, de propósito, pousou o aparelho de volta. Seiscentos e um.

Existem aí três planos de discurso, a narração “de fora”, a voz de A e a voz de B. Como a cena é bastante clara, é natural esperar que o leitor faça a decodificação sem muito problema. E tem mais uma coisa: como os três planos vêm misturados, é preciso que depois de cada ponto e a cada início de frase o leitor interprete, compare e decida: “ah, agora é fulano quem está falando”. São microdecisões tomadas ao longo da leitura, e isso acaba sendo bom, porque, como diz o pessoal mais tarimbado, evita que o leitor pegue no sono.

O mesmo trecho, numa sinalização gráfica convencional, viria mais ou menos assim:

Cheguei no prédio que me indicaram. O porteiro era um cara grandão, sonolento.

– Boa tarde, mora aqui Doutor Altamiro?

– Pode ser e pode não ser. Quem quer falar com ele? – Me botou um olhar de buldogue entre o almoço e a sesta.

– Olhe, ele não me conhece. Diga que é da parte de Felisberto.

Ele mexeu no interfone, resmungou baixinho, de propósito, pousou o aparelho de volta.

– Seiscentos e um.

Fica mais óbvio, fica mais confortável, mais “conforme o figurino”, porque a sinalização está claríssima. Mas não se pode dizer que o primeiro exemplo está incompreensível. Pelo menos me parece mais fluido do que muitos parágrafos (brilhantes, por outros critérios) de José Saramago.

Saramago... Sua coragem de misturar um português clássico, castiço, e uma sinalização heterodoxa causaram surpresa em muitos leitores, para quem esses dois aspectos se excluíam mutuamente. Mas são combinações desse tipo que marcam um estilo, deixam-no totalmente pessoal – no que isto tem de bom ou de ruim.

E se a história que o autor está contando valer a pena, e se for complicada, e se tiver valores e qualidades como história em si... não custa nada sinalizar, deixar que o leitor perceba sem esforço adicional quem falou, quem respondeu, onde aquilo está acontecendo, se é fato real do momento, se está se passando na memória ou na imaginação do personagem. Pequenas sinalizações. Como faz o metrô, que nunca deixa de avisar o óbvio, sem se preocupar pensando que todo mundo já sabe: Próxima estação, Cinelândia. Desembarque pelo lado direito.

Se a história estiver bem sinalizada, o autor pode arrebatar o leitor para a viagem que bem entender.











quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

4541) "Os Dois Papas" (16.1.2020)






Este filme de Fernando Meireles, que está à disposição no Netflix, é uma experiência curiosa de visão romanceada da realidade.

Chamo de visão romanceada aquela narração de fatos reais, ou supostamente reais, em que o autor descreve as coisas como se elas tivessem de fato acontecido, mas está inventando. Com um enorme grau de liberdade para ousar dizer o que Fulano ou Sicrano estavam pensando naquele momento.

Muitas biografias são escritas assim, e fico sempre com um pé atrás em relação ao que está sendo narrado. Na verdade, não me preocupo muito por mim, porque sempre acho (meio irresponsavelmente, talvez) que sei distinguir entre verdade-dos-fatos e invenção literária.

Me preocupo por causa de outro tipo de leitor, o que acredita em tudo que lê, ao pé da letra. Se numa biografia de Cleópatra for descrito um longo diálogo romântico entre ela e Júlio César, esse leitor imagina que esse diálogo aconteceu mesmo, tintim por tintim.

Esse diálogo foi registrado pelos historiadores da época? Está transcrito, ou pelo menos resumido, nas memórias de Júlio César?  Teve testemunhas?  Se não, é um diálogo romanceado e, por mais verossímil que pareça, não pode ser citado como prova ou indicação de coisa alguma. É ficção, mesmo que seja uma ficção plausível.

O roteirista Anthony McCarten tem uma boa experiência da arte de imaginar os pensamentos alheios – entre vários outros filmes ele escreveu Bohemian Rhapsody, a cinebiografia de Freddie Mercury, e A Teoria de Tudo, cinebiografia de Stephen Hawkings. Suas fontes neste filme atual foram vários pronunciamentos de ambos os Papas, publicados em livros e periódicos, mas as conversas pessoais entre os dois, é claro, não foram divulgadas.

Diz o escritor: “A gente especula sempre. Nossa expectativa é de que essa especulação esteja baseada nos fatos e na verdade, e que sua inspiração seja correta”.

Por outro lado, a tradição de encenar encontros históricos (reais ou fictícios) entre personagens famosos serve mais para fantasiar debates filosóficos ou pessoais do que para obedecer ao rigor historiográfico.

Tem o famoso Encontro de Descartes com Pascal (1985) do dramaturgo francês Jean-Claude Brisvile, que vi no Rio anos atrás, com (se não me engana a memória) Rubens Corrêa como Descartes e Daniel Dantas como Pascal. Há uma outra peça famosa (também filmada) envolvendo diálogos entre dois grandes físicos, que imagino serem Erwin Schrodinger e Werner Heisenberg, mas não consegui localizar.

Para ficar perto do Vaticano, temos também a clássica peça de Julio Dantas, A Ceia dos Cardeais (1902) em que três cardeais idosos (um italiano, um francês e um português) se reúnem para cear e relembrar episódios românticos da juventude.

É um gênero teatral acima de tudo, mesmo que tenha um pé firme na literatura – nos séculos 17 e 18 o “Diálogo” era uma das formas literárias mais importantes, tanto quanto o romance, que começava ainda a adquirir a proeminência que tem hoje.

Histórias assim baseiam-se totalmente na substância do que é conversado e no possível carisma dos personagens (e dos atores, claro).

Eu veria com prazer (imagino) uma peça teatral baseada no famoso diálogo entre o conquistador huno Átila, o “Flagelo de Deus”, e o Papa Leão I, no ano 452.  Reza a lenda que os hunos se dispunham a invadir Roma, e o Papa, nesse encontro a dois, perto do acampamento huno, conseguiu dissuadi-lo – não se sabe como.

O filme de Meireles tem claramente uma tremenda limitação criativa, por tratar de indivíduos ainda vivos e em posições de poder. Mesmo com todos os cuidados que o autor tomou, a imprensa comentou várias imprecisões do roteiro. O peso jornalístico, historiográfico, impede que um filme assim tenha liberdade para imaginar, a menos que se trate de detalhes pouco significativos, embora divertidos, como mostrar o argentino ensinando passos de tango ao alemão, ou os dois comendo pizza, ou assistindo juntos a final da Copa de 2014.

A Igreja Católica Romana continua sendo uma fonte permanente de rituais, conspirações, fantasias, enredos melodramáticos.

Traduzi meses atrás o romance Conclave de Robert Harris, a sair pela Editora Intrínseca. É um thriller político ambientado no Vaticano, narrando todo o processo de eleição de um Papa – processo mostrado com rapidez no filme de Meireles. Com maior liberdade de criação, por não usar personagens reais, o livro é um passeio instrutivo pelos “subterrâneos do Vaticano”, suas intrigas, suas máfias, suas armações e traições.

Um Papa honesto teria que ser alguém como o detetive Philip Marlowe, de Raymond Chandler – um indivíduo honesto num mundo corrompido, sabendo que lhe é impossível mudar esse mundo, mas decidido apenas a não se deixar corromper por ele.










segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

4540) Eu me lembro XVII (13.1.2020)





1.
Eu me lembro que quando comecei a aprender violão, por volta de 1964, o “método” que a gente (eu e minha irmã Clotilde) tinha em casa era o método de Paraguassu, um cantor de valsas e serestas. A capa tinha o desenho de uma rua à noite, imitando a imagem de um violão, onde as seis cordas eram os fios elétricos entre um poste e outro e a boca do violão era uma lua cheia. Depois, ainda nos anos 1960, veio um método emprestado por Zezé Duarte: era o de Américo Jacomino, “Canhoto”, grande compositor de valsas. Eram métodos de violão “pé-duro”, quadrado, baseado numa sequência onde os acordes eram chamados de “primeira”, “acorde” (ou “preparação”), “terceira menor”, “terceira maior”, “segunda” e voltava à “primeira”. Já nos anos 1970 usava-se o método de Paulinho Nogueira, mais moderno, com explicações teóricas bem acessíveis, e acordes dissonantes tipo bossa-nova. O último dessa linhagem de manuais, já no Rio de Janeiro, foi o Dicionário de Acordes Cifrados, de Almir Chediak, que somente a preguiça e a resignação com meus próprios limites me impediu de estudar a fundo. Sou um violonista da escola Erasmo Carlos, que dizia: “Tudo que eu fiz na vida foi com cinco acordes, e acho que estou no lucro.”


2
Eu me lembro do “Bingo do Treze”, um episódio controverso na história de Campina. O Treze realizou um bingo sorteando os prêmios valiosos habituais (eletrodomésticos, e como prêmio principal um carro). O sorteio foi marcado para a noite, em algum ponto do lado do Açude Velho. Pelo que lembro, do lado do colégio S. Vicente de Paula, mas como eu não estava lá posso estar enganado. Milhares de cartelas foram vendidas, havia uma multidão enorme acompanhando a chamada dos números pelos altofalantes. De repente, alguma coisa provocou o estouro da boiada. Dizem que foram tiros de revólver; outros garantem que foi algum sujeito ligando a moto e assustando as pessoas com o barulho. O que eu sei é que houve uma debandada geral, um pânico que durou muito tempo, feriu centenas de pessoas e derrubou dezenas delas na lama do Açude. Nessa noite, a gente estava no terraço de casa, no Alto Branco, e nosso vizinho Zé do Bombo voltou pra casa, descalço e enlameado. Muita gente perdeu sapatos, bolsas, peças de roupa. Durante muitos anos, toda vez que se via alguém com uma peça de roupa extravagante ou descombinada, perguntava: “O que diabo é isso? Achasse no bingo do Treze?...”

3
Eu me lembro que os bingos, aliás, tiveram um surto naquele tempo. Não eram apenas os bingos grandes e profissionais que levavam multidões ao Estádio Municipal, ao Estádio Presidente Vargas ou à Praça da Bandeira. Era o jogo de bingo em casa, com cartelas impressas que a gente comprava na papelaria, ou mesmo com cartelas desenhadas domesticamente com caneta e régua. Os números, também manuscritos, eram puxados de dentro de uma sacola e chamados em voz alta. Minha mãe e minhas tias tinham o costume de marcar os números chamados colocando um caroço de milho em cima de cada um, para poderem reaproveitar a cartela noutro dia. Eu achava aquilo absurdo, porque de vez em quando uma ventania imprevista bagunçava o ritual todo. Havia um código brincalhão para dar animação à chamada dos números. O 44 era “Quá-quará-quaquá”. O 22 era “Dois patinhos na lagoa”, e assim por diante. Uma vez, duas pessoas lá de casa bateram ao mesmo tempo, a gente foi conferir e viu que as duas cartelas tinham números diferentes (poucos coincidiam) mas todos os números de ambas tinham de fato sido chamados, e o último número completou as duas cartelas simultaneamente. Eu não sei calcular as possibilidades matemáticas disso acontecer.

4
Eu me lembro que nos meus 14/15 anos, já estudando no Estadual da Prata, eu tinha o costume de economizar o dinheiro do ônibus para comprar livros e revistas. Na ida, 6:30 da manhã, sempre havia a carona de Frederico, nosso vizinho no Alto Branco, que enchia de garotos “fardados” sua Caiçara (e depois a camionete). Na volta, era cada um por si. Eu poupava avaramente os cobres do lotação, e saindo do Gigantão pegava a rua lateral da Igreja do Rosário (a Rodrigues Alves) e dali seguia uma reta comprida que ia acabar na lateral do Convento das Clarissas, de onde eu rodeava o balde do Açude Novo (àquela época seco, coberto de matagal e lamaçais, muito antes da construção do Parque, por Evaldo Cruz). Passando ao lado do Teatro Municipal, subia a Floriano Peixoto, dava uma olhada nos cartazes do Cine Capitólio e nas bancas de revistas. Pegava geralmente a Marquês do Herval até o Edifício Rique, e descia pela Epitácio Pessoa, seguindo a calçada do Chope do Alemão, até o começo da ladeira descendente da Vigolvino Vanderley. Dali, eu avistava ao longe a colina do Alto Branco e a fileirinha de casas, com a da gente em destaque. Era só descer até o Ponto Cem Réis, cruzar o canal, e subir dali beirando a estrada da Dr. Vasconcelos, virar na Rua José do Ó, passar em frente à casa de Marcelo dos Sebomatos, depois a casa de Umbelino e Severino Brasil, os gramados úmidos da Lavanderia, e chegar finalmente a minha rua. Isso tudo dava uma hora, uma hora e meia de caminhada.

5
Eu me lembro que uma coisa interessante das pessoas tímidas (como eu sempre fui) é que essa introversão compulsiva se rompe às vezes e faz emergir comportamentos não-tímidos totalmente destoantes. Quando eu tinha 9 ou 10 anos e morava na Miguel Couto fui uma vez (forçado por não sei que desespero de véspera-de-prova) estudar na casa de um colega. Coisa que até hoje me apavora, porque sempre acho que vou cometer alguma gafe. Era na rua Solon de Lucena, de modo que talvez o colega fosse Sílvio Coentro, de cujas irmãs Juliana e Silvana fiquei muito amigo depois de adulto. Fui lá, fizemos o dever de casa. E eu notei que no corredor da casa havia uma estante baixinha, de 3 ou 4 prateleiras, cheia de livros, entre os quais inúmeros livros da Coleção Amarela, de livros policiais, da Editora Globo, de Porto Alegre. Na hora de ir embora, tartamudo e gaguejante, perguntei à mãe do colega se eu poderia voltar noutro dia para olhar aqueles livros. Ela respondeu que sim, sorridente e incauta. No dia seguinte falei em casa que ia estudar de novo, rumei para lá, bati, alguma empregada veio à porta, eu disse que tinha vindo olhar os livros, ela me reconheceu, admitiu-me na casa e eu fui direto para a estante, onde me atraquei com uma Agatha Christie qualquer até que a família chegou na hora do jantar, e ficou sem saber direito o que fazer comigo.

6
Eu me lembro da “Hora dos Miseráveis”, que era o nome popular de um momento tradicional dos jogos no Estádio Presidente Vargas: faltando cinco ou dez minutos para terminar o jogo, os portões do estádio eram abertos, para permitir que a torcida começasse a sair, sem muito atropelo. A principal consequência disso era a entrada, com muita gritaria e alvoroço, de algumas dezenas (as vezes centenas) de torcedores sem dinheiro para comprar ingresso, a maioria deles meninos e rapazinhos. Ficavam do lado de fora do estádio o jogo inteiro, acompanhando pelo rádio, e ouvindo a gritaria da torcida. Quando os portões se abriam, eles entravam numa euforia danada, que fazia o pessoal da arquibancada se divertir: “Eita!... Chegou a hora dos miseráveis!...”  Ainda assim, muitos deles, assistindo os minutos finais de um clássico, de um jogo “pegado”, de uma decisão, conseguiram ver de graça alguns lances históricos, de partidas que só foram decididas nos acréscimos – algo que volta e meia está acontecendo no futebol.











domingo, 5 de janeiro de 2020

4539) Minhas canções: "Miragem do Porto" (5.1.2020)




Nas músicas em parceria existe um consenso meio equivocado de que o parceiro “A” faz a letra e o parceiro “B” faz a música. Isso até acontece, mas está longe de ser uma regra.

Muitas das minhas canções com Lenine foram feitas assim, mas muitas outras foram feitas “tudo ao mesmo tempo agora”. Uma sala, duas poltronas, dois violões, duas canetas, duas folhas de papel. Todos dois tocando, cantarolando, rabiscando, procurando rimas, experimentando acordes, treinando levadas, anotando idéias, ao longo de horas. Geralmente com o apoio de garrafas térmicas cheias de uma poção mágica chamada café.

O fato de que Lenine é um excelente letrista e de que eu consigo me virar tocando violão faz com que as músicas muitas vezes sejam na base do “eu fiz 80% da letra e ele fez 80% da música”.

Mesmo assim, há muitas parcerias nossas que sou incapaz de tocar e cantar sozinho, porque apesar de ter dado idéias para a melodia não consigo tocar no violão. Faltam duas coisas que meus parceiros geralmente têm mais do que eu: repertório harmônico na mão esquerda e precisão rítmica na mão direita.

“Miragem do Porto” surgiu de uma toada lenta que Lenine havia composto por encomenda para um trabalho qualquer, não lembro se era a trilha para algum trabalho de TV. Como ele usou uma toada de sextilhas, sugeriu que a gente desenvolvesse mais versos, até pelo fato de que as toadas de sextilhas dos cantadores de viola são melodias anônimas, de domínio público.

Eu peguei os versos que ele tinha feito, ajeitei uma rima aqui, uma palavra ali, e saiu a primeira estrofe, a que fala no navio perdido no oceano.

Para a coisa não ficar repetitiva, usando a mesma melodia (algo que eu faço nas minhas músicas sozinho, que seguem o modelo folk de “mesma música com outra letra”), ele pegou a toada da gemedeira, que é uma sextilha com melodia diferente e o refrão lamentoso “ai ai, ui ui” antes do verso final. E veio assim a estrofe da ilha deserta.

É uma história de amor que não dá certo – o navio que não consegue chegar num porto, e a ilha “onde ninguém quer chegar”.

E aí a gente sentiu que precisava partir para algo diferente, que fosse ao mesmo tempo uma segunda parte e um refrão, sintetizando a idéia. E me veio o trecho de “Ê, lá no mar / eu vi uma maravilha...”, onde ele completou a letra.

Eu chamo isso o “sistema Lennon-McCartney” de compor: um faz a primeira parte da música, o outro faz a segunda. Era assim que os Beatles criavam, e entre muitos autores acho que Ian MacDonald, em Revolution In The Head, é o que melhor descreve esse processo.

John e Paul assinavam juntos mas muitas canções eram 100% de um ou de outro. Raramente um deles entregava uma letra pronta para ser musicada pelo outro, ou uma melodia para ser “letrada”. Muitas vezes, usavam o sistema do “eu faço uma parte, você faz a outra”.

MacDonald analisa exemplos bem claros. Como “We Can Work It Out”, onde Paul fez a parte “Try to see it my way...” e Lennon a parte central de “Life is very short…”.  O caso mais famoso é o de “A Day In The Life”, onde Lennon fez sozinho toda a parte do “I read the news today, oh boy”, e McCartney fez o “Woke up, fell out of bed...”.

Lançada por Elba Ramalho no álbum Encanto (1992),“Miragem do Porto” foi composta nos últimos meses de 1988. Lembro bem disso porque depois da canção estar pronta houve no reveillon carioca o famoso acidente com o “Bateau Mouche”, onde morreram várias pessoas. E eu ficava pensando nos versos, de início tão abstratos: “Quem vai lá no mar bravio não sabe o que vai achar...”.




(BT & Lenine)

Eu sou aquele navio
no mar sem rumo e sem dono
tenho a miragem do porto
pra reconfortar meu sono
e flutuar sobre as águas
na maré do abandono.

Ê, lá no mar
eu vi uma maravilha
vi o rosto de uma ilha
numa noite de luar...
Êta luar, lumiou o meu navio
quem vai lá no mar bravio
não sabe o que vai achar...

E sou a ilha deserta
onde ninguém quer chegar
lendo a rota das estrelas
na imensidão do mar
chorando por um navio
ai, ai, ui, ui
que passou sem lhe avistar.

Ê, lá no mar
eu vi uma maravilha
vi o rosto de uma ilha
numa noite de luar...
Êta luar, lumiou o meu navio
quem vai lá no mar bravio
não sabe o que vai achar...









quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

4538) O autor sem nenhum caráter (2.1.2020)




(Monteiro Lobato)


Eu tinha acabado de comprar um livro na banquinha do sebo e ao passar na calçada de um bar vi alguns braços se erguerem: eram amigos que estavam tomando um chope para comemorar o fim do expediente. Meu expediente só começa pra valer de noite, mas num ato de solidariedade corporativa puxei uma cadeira e mostrei de longe, ao garçom, o indicador erguido.

– Comprou livro? – perguntou um deles, olhando o saco plástico que botei em cima da mesa.

Abri o saco e mostrei: era A Barca de Gleyre, de Monteiro Lobato. Livro de correspondências dele com Godofredo Rangel. Era um dos dez títulos favoritos de Guimarães Rosa.

– Lobato? – disse um deles, dando um gole. – Mas ele não era racista?

O racismo de Lobato acaba de ser descoberto pelas redes sociais, que são uma espécie de confessionário público onde todo mundo vai confessar os pecados alheios.

– E você é machista – respondi. – E nem por isso eu deixo de ler as porcarias que compro naquelas tuas noites de autógrafos, onde não vai ninguém.

Houve uma gargalhada geral, inclusive dele (cujas noites de autógrafos, diga-se de passagem, botam gente pelo ladrão), e ficou por 1x1. Mas a gente entrou num corredor-de-discussão interessante: o fato de um autor cultivar uma filhadaputice qualquer deve riscar a obra dele de nossas leituras possíveis?

No tiroteio da conversa alguém lembrou que William Faulkner era alcoólatra, pecado venial que foi minimizado por todos, com mais uma rodada de chope. Dostoiévsky perdeu fortunas no jogo, lembrou outro; mas desde quando o brasileiro acha que jogo é pecado? Jogo é um esporte nacional, mais generalizado do que o futebol. Céline era antissemita, disse alguém. Eu nunca li Céline, mas não seja por isso: já devo ter lido muitos antissemitas sem saber.

Chegamos a um veredito provisório: pode até existir algum indivíduo-ou-indivídua que não tenha defeitos de caráter, mas essas figuras certamente não serão escritores profissionais. Serão monges ou monjas em algum mosteiro remoto, numa cordilheira onde se fala o sânscrito.

Quem é escritor(a) é porque é humano, demasiado humano. Tem algum defeito de fábrica, e os primeiros da fila são a vaidade intelectual, a autoindulgência afetiva, a propensão para cagar regras e a ânsia de enriquecer sem fazer força. Depois vêm o machismo (em homens e em mulheres), o racismo, o classismo, o voto-do-partido-oposto-ao-nosso...

Não acaba nunca, até porque os defeitos que criticamos nos escritores, agora em 2019, não são necessariamente os mesmos que criticávamos vinte ou trinta anos atrás.

A questão que se coloca para muita gente ansiosa é expressa mais ou menos nesses termos: “Mas como ele pode ser um grande escritor, se em sua vida pessoal ele era um canalha, ou era desonesto, ou era cruel, ou era bajulador de poderosos, ou batia na mulher, ou apanhava da mulher?...”

Ser escritor (artista, etc.), muitas vezes, é um processo de compensação num indivíduo que sabe estar trilhando um caminho nebuloso em outras regiões da vida. Muitos autores de belos poemas sobre a espiritualidade humana derivaram para a religião movidos pelo tormento de se acharem grandes pecadores.  Talvez nem o fossem tanto, aos nossos olhos de 2019. Mas eles sabiam a vida que levavam. Achavam-se culpados de pecados inomináveis, e condenados ao inferno; e procuravam se redimir através da poesia, não pedindo desculpas ou escondendo suas “faltas”, mas lançando ao seu Deus perguntas sérias sobre sua própria condição e a condição humana em geral.

Quem espera de um escritor uma impossível pureza de caráter e uma improvável nobreza de sentimentos está atribuindo ao ofício literário um poder que ele não tem: o poder de servir de modelo para todos nós, para que digamos aos jovens, “olhem só, o Grande Escritor Fulano é assim, procurem ser como ele!”.  Não, não é isso.

Um livro é como uma chapa de raio-X. “Olhem só o estado do pulmão desse rapaz!...” A chapa é tirada para nos dar uma idéia do que acontece com aquela pessoa, e o livro é escrito por uma razão não muito diferente. Não temos que ser como os escritores. Nenhum desses caras deve servir de modelo para nós. Não são santos nem heróis da pátria. Alguns se metem a ser, e acabam se tornando figurões meio patéticos.

A literatura é feita para nos dizer o que somos, e não “como devemos ser”. E o que somos nem sempre é muito agradável ao espelho. Somos monstros? Não, somos até bonitinhos por fora (nas fotos, nos currículos Lattes, nas redes sociais) mas por dentro somos todos quasímodos. Me lembro de um bêbo que me confidenciava, anos atrás: “Rapaz, todo mundo me acha todo certinho, mas por dentro eu sou pior do que uma batida de trem.”

Não era um escritor, era um leitor. "Meu semelhante, meu irmão."


  



















segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

4537) Leituras 2019 - 3 (30.12.2019)




Encerrando as minhas anotações dos livros que li este ano, tenho aqui alguns títulos de obras que li ou reli depois de muito tempo. Este é um detalhe interessante, porque a gente lê um livro aos 25 anos e passa o resto da vida achando que já leu e que pode passar adiante. Nem sempre. Ninguém ouve um álbum de música (um disco realmente bom) uma vez somente. Um bom disco nos leva a revisitá-lo com alguma freqüência. Tudo bem que um disco dura uma hora, se tanto, e a leitura de um livro pode demorar muito mais. Mas a nossa lembrança do livro também precisa ser oxigenada de vez em quando.

Vão aqui, portanto, alguns títulos do Fantástico, ou do Insólito, ou da Ficção Científica, que não me incomodarei de reler daqui a mais alguns anos.



Tales of Neveryon (1978), de Samuel R. Delany.
O livro é de “Espada e Feitiçaria”, quando seria melhor descrevê-lo como “Espada e Economia Política”. Os contos interligados deste volume mostram uma sociedade escravocrata, no começo da sua história escrita, e mostra a enorme complexidade social, psicológica e política desses mundos pré-alfabeto. Sua abordagem dessas questões é comparável à da “Trilogia da Fundação” de Isaac Asimov, e mostra que um livro não precisa “pertencer” à ficção científica para descrever e interpretar cientificamente um mundo imaginário.



Les Fleurs Bleues (1965) de Raymond Queneau.
Este livro deveria ser incluído em toda lista de fantasias clássicas sobre o tempo.  Talvez não o seja porque não corresponde à estrutura clássica de uma aventura onde um personagem  se envolve num conflito que precisa de uma resolução. Um roteirista de Hollywood talvez se perdesse nesta narrativa onde dois indivíduos, separados por séculos, sonham que são o outro, e toda vez que o sonho de um se interrompe o do outro começa. Cidrolin, na Paris do século 20, e o Duque de Auge, na Idade Média, são duplos ou reflexos um do outro, e suas pequenas aventuras, que na têm nada de heróico, correm em paralelo – sendo que a história do Duque, a cada reiteração, está algumas décadas mais à frente, pulando de século em século, até no trecho final do romance ele aparece em Paris, com sua armadura, seu francês arcaico, seus escudeiros e seu cavalo falante. Os livros de Queneau são gostosos de ler mas devem ser difíceis de traduzir, pela exuberância de trocadilhos, arcaísmos, jogos de palavras, alusões históricas e outras referências obscuras, que mesmo assim não atravancam  a narrativa.



The Stepford Wives (1972), de Ira Levin.
Este romance curto e preciso me surpreendeu por sua economia narrativa, e me agradou pela semelhança estrutural com outro livro famoso do autor, O Bebê de Rosemary. Num subúrbio norte-americano, um casal jovem tenta se integrar à vizinhança de empresários bem sucedidos e suas esposas bem maquiladas, até que a mulher (uma feminista em botão) descobre a conspiração masculina que pretende transformar todas elas em robôs obedientes. É uma ficção científica narrativa com a estrutura revelatória de um conto de horror, onde uma personagem fica o tempo inteiro dizendo a si mesma que só pode estar ficando louca, que pessoas normais jamais seriam capazes de conceber e executar um plano tão diabólico... e a certa altura ela percebe que a “boa notícia” seria que de fato estava louca -- porque a conspiração é real.



Aura (1962), de Carlos Fuentes.
Um aspecto que muitas vezes fica em segundo plano na literatura fantástica latino-americana é que ela tem de um lado um Realismo Mágico fundamentado na mentalidade mágica, mítica, mitológica dos povos pré-colombianos, e pelo outro lado existe um Fantástico que busca inspiração nas práticas mágicas européias como o ocultismo, a alquimia, as artes divinatórias como o Tarô, a magia ritual, etc.  O choque entre Europa e América no século 16 não foi apenas do racionalismo europeu contra a mentalidade mágica indígena: foi também a pororoca entre os canais de contato com o sobrenatural que os invasores e colonizadores trouxeram consigo. Aura é também uma história de duplos e de reflexos – no caso, de uma mulher muito idosa que consegue projetar uma imagem física e palpável de si mesma, para seduzir um rapaz de quem ela precisa para cumprir uma tarefa. Aura traz também uma “aura” junguiana com sua narrativa de uma mulher que seria a encarnação de uma anima, um espírito vital feminino a cujo fascínio um homem não consegue resistir; e sua ambientação é quase expressionista, explorando uma mansão decadente, sombria, onde a iluminação é escassa e tudo se revela através de gritos, de sussurros, de ruídos, de passos, de perfumes, do toque de mãos no meio das trevas.



Del Amor y Otros Demonios (1994), de Gabriel Garcia Márquez.
Em relação ao livro de Fuentes é (como dizia o matuto) “uma coisa muito parecida, mas completamente diferente”. É a história do endemoninhamento de uma infanta, filha de um nobre decadente, que se suspeita ser vítima da hidrofobia e do vudu dos escravos negros. Seus acessos aterrorizantes de autoviolência física e de blasfêmia verbal levam a Igreja local a ordenar um exorcismo, e o padre exorcista, coitado, acaba se apaixonando (muito compreensivelmente, aliás) pela pré-adolescente que não era mais do que uma menina indomável que o desprezo dos pais levou a ser praticamente criada pelos negros da senzala. Um dos aspectos interessantes da narrativa é o prólogo em que Garcia Márquez explica que o enredo lhe surgiu a partir de um fato real que cobriu para um jornal em seu tempo de repórter – e o “fato real” que ele descreve é mais fantástico do que o livro inteiro. Que, inclusive por este detalhe, é um primor.




334 (1972), de Thomas M. Disch
Pertence ao subgênero da FC que pode ser descrito como “pesadelos das megalópoles num futuro próximo”, cultivado brilhantemente por J. G. Ballard, John Brunner, e outros. Disch descreve a vida cotidiana em torno de um enorme edifício residencial nas primeiras décadas do século 21, ou seja, hoje – num romance escrito nos anos 1970. “Romance” é um modo de dizer, porque Disch conta várias histórias paralelas, de famílias cujas vidas se entrelaçam. Ele examina essa Nova York do futuro não sob a ótica das inovações tecnológicas (que são poucas e discretas), mas das mudanças sociais provocadas por políticas de seguros, de emprego, de habitação, de estudo. Um romance mainstream ambientado no futuro, por assim dizer. Um bloco narrativo curioso envolve uma espécie de videogame ou RPG ambientado na Roma Antiga, que a personagem acessa através de drogas, e a respeito do qual ela se informa com um profissional que é meio psicólogo, meio consultor especializado. Outro bloco descreve as artimanhas de funcionários de um grande hospital para a venda clandestina de cadáveres recentes a pervertidos.




The Cosmicomics (1965), de Italo Calvino
Italo Calvino é talvez o autor mais bem informado cientificamente entre os muitos europeus recentes que cultivam um certo fantástico fabulatório, o que inclui algumas obras de Umberto Eco, Raymond Queneau, Salman Rushdie, José Saramago, Kazuo Ishiguro, Michel Houellebecq, e certamente inúmeros outros. Digo “bem informado cientificamente” do ponto de vista do leitor padrão de ficção científica: em suas Cosmicômicas, Calvino descreve a criação do Universo do ponto de vista de alguns seres primordiais que estão vagando pelo espaço desde as primeiras fusões de elementos pesados que dão origem às estrelas, seres que se comportam exatamente como italianos médios vivendo suas vidas cotidianas, suas brigas de vizinhos, seus problemas conjugais, suas disputas profissionais. Esta série de doze contos curtos (há uma sequência, T Zero, que ainda não li) é uma fusão incrivelmente bem sucedida entre a espantosa escala galáctica e supra-galáctica de (por exemplo) Olaf Stapledon e qualquer relato bem humorado da vida urbana da Itália moderna. É como se o Universo, em sua escala macro, fosse habitado por personagens de Federico Fellini.










sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

4536) Leituras 2019 - 2 (27.12.2019)





Prosseguindo no balanço do ano – e lembrando mais uma vez que não estou fazendo uma lista de “melhores livros”, apenas livros cuja leitura me marcou.

Os inclassificáveis

Gosto dos livros inclassificáveis. São como uma bolota de mercúrio líquido, que a gente escorre para o côncavo da palma, tenta apertar entre os dedos e ela se esmigalha, escorrendo por entre as falanges, e para recompô-la basta arrastar esses respingos uns na direção dos outros. Lá está ela. A mesma coisa de antes. Nem se lembra que acaba de nascer de novo.

São assim alguns escritores, que mesmo quando vêm de um excesso de leitura parecem imunes à literatura de que são feitos dos pés à cabeça.

Viagem em volta de uma ervilha é uma história em quadrinhos com texto de Sofia Nestrovsky e desenhos de Deborah Salles (São Paulo: Veneta, 2019), narrativa meio fatia-de-vida de uma moça que convive numa casa pequena com uma gata, sendo que as duas passam por aventuras surrealistas, meio Carrollianas, regadas a poesia romântica inglesa e com transferências para universos paralelos onde as duas acabam se entendendo.


Gostei do livro também porque ele pertence a uma biblioteca gigantesca e invisível de obras que mostram uma coisa óbvia e desconhecida: qualquer tipo de narrativa, com qualquer tipo de personagem e de ambientação, pode ser criada através de quadrinhos. Digo algo tão óbvio porque mostrei esse livro a um amigo e disse: “Olha que legal essa história em quadrinhos”, e ele folheou, pensou, pensou, e disse: “Engraçado, eu pensava que as histórias em quadrinhos só podiam falar de super-heróis, mutantes, etc.”.

Um inclassificável que descobri este ano foi o autor Manoel Carlos Karam, que é uma espécie de deus-pequenino para uma turma de amigos meus. Eu perguntava: “Mas ele escreve romance, conto, poesia, o quê?” e a resposta era sempre: “Não dá para classificar, nem descrever.”

Karam é o rei do fragmento, dos estilhaços narrativos que se multiplicam página após página, trazendo-nos de volta ao que estava sendo contado antes, incrustando coisas totalmente heterogêneas e heterodoxas numa historiazinha que se anunciava normal. Seus livros têm algo daquelas coleções que Mario Quintana fazia de aforismos, piadas, historietas de cinco linhas, comentários mordazes ou surrealistas – só que, no caso de Karam, o sentimento que predomina não é o lirismo meio sardônico do poeta, e sim uma espécie de absurdismo gerado por sete noites sem dormir.


Comendo bolacha maria no dia de são nunca (São Paulo: Ciência do Acidente, 1999) e Pescoço ladeado por parafusos (Curitiba: Arte & Letra, 2013) são os dois exemplares que me fizeram coçar a cabeça, desacorçoado, e dar gargalhadas eventuais diante dessas micronarrativas que lembram aqui a prosa sonambúlica de José Agrippino de Paula, e acolá a desenvoltura amalucada de Campos de Carvalho.


O fantástico brasileiro

Esta tem sido uma boa década para o fantástico, a fantasia e a ficção científica produzida por autores brasileiros. Pra variar, eles se queixam o tempo todo, e têm mais é que se queixar mesmo, senão todo mundo pensa que eles são como os Desincorporados, do romance de Samuel Delany, os mortos invisíveis que ajudam na astronavegação das espaçonaves, só que ninguém os percebe.

Contos do sul (Novo Hamburgo: Echo, 2013)Simone Saueressig
Back in the USSR (São Paulo: Patuá, 2019) Fabio Fernandes
O Romance da Besta Fubana (Belo Horizonte: Itatiaia, 1984) Luiz Berto


Os contos de Simone Saueressig fazem parte de uma tendência narrativa de dar novas roupagens e novos contextos a alguns mitos populares: o saco, o lobisomem, etc. Eu mesmo já fiz uma incursão nesse território, com Sete Monstros Brasileiros (2014). Os seus “contos do sul” são sulistas na ambientação, em alguns detalhes saborosos da voz narrativa e dos diálogos.

Os contos se aproximam do que os norte-americanos chamam de Dark Fantasy. Aqui no Brasil se traduz isso por “fantasia escura”, mas eu prefiro traduzir por “fantasia tenebrosa”, e a defino como uma fantasia que se aproxima do horror e de uma certa brutalidade existencial. Não é aquela fantasia aconchegante que desde o início nos garante um final feliz, ou pelo menos satisfatório. É uma fantasia onde se conta a história de uma tragédia desencadeada pelo contato com a treva do sobrenatural.



Já falei aqui no blog, mais extensamente, sobre o romance de Luís Berto, um clássico subterrâneo mas vivíssimo do romance nordestino. A Besta Fubana é uma criatura mítica inventada por Luís Berto mas que não fica muito distante da “Pavoa Devoradora” que seu cúmplice literário Orlando Tejo inventou para dar um colorido fantástico à sua lenda sobre o poeta Zé Limeira. É um ser gigantesco e multiforme, que vive num lugar remoto do Universo e parte na direção da nossa galáxia com a finalidade precípua de semear o terror e o assombro na população de Palmares (PE).  

É um épico-satírico barroco-sertanejo, na linha de outros romances de Ariano Suassuna, Nei Leandro de Castro, Carlos Emilio Corrêa Lima, Aldo Lopes, e outros. O seu viés do fantástico não procura ter a menor filiação às correntes européias ou norte-americanas – filiação frequentemente buscada pelos romancistas do Sudeste.  Luiz Berto inventa as regras à medida que o jogo é jogado; não se preocupa com regras, porque seu romance é uma explosão rabelaisiana (ih, olha ai a Europa, erguendo-se do túmulo) de erotismo, escatologia, sátira política e exuberância animal.

Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2019/02/4434-o-romance-da-besta-fubana-1422019.html

Na área da ficção científica brasileira, com a qual estou em dívida, pois confesso ter lido pouca coisa, destaco o Back in the USSR de Fábio Fernandes. É uma dessas sátiras amalucas descrevendo um futuro divergente onde graças à existência de técnicas científicas de ressuscitação John Lennon está vivo (é ele o protagonista do livro), e se envolve numa dessas tramas de espionagem política high-tech onde grupos terroristas ou anarquistas dissidentes uns dos outros se engalfinham em busca de objetivos políticos que nem eles mesmos entendem.

Narrativas malucas e desconjuntadas como esta não são privilégio de humoristas como o Monty Python: eu vejo semelhanças entre a trama delirante do livro de Fábio e obras de Stanislaw Lem como O Incrível Congresso de Futurologia ou Manuscrito Encontrado Numa Banheira, de John Sladek (The Muller-Fokker Effect) ou Rudy Rucker. É um absurdismo que só pode ser bem aproveitado se perdermos a ansiedade de que o enredo faça sentido, no sentido tradicional do termo. Não adianta ficar calculando: “Peraí... se A mandou matar B, por que então C disse a B que D ia matá-lo, quando o grupo de D se aliou ao grupo de F para eliminar, A, que deixou bem claro sua oposição a G...”

Melhor esquecer a lógica literária e embarcar na montanha-russa de surpresas, reviravoltas, alusões satíricas ao “mundo do lado de cá”, na vertigem das narrativas que se bastam a si mesmas.