sexta-feira, 12 de abril de 2013

3158) A Voz e a Eletricidade (12.4.2013)




A literatura e a poesia sempre dependeram da voz, com exceção dos breves 500 anos após a invenção da imprensa. 

Antes da imprensa, quando os livros eram escritos à mão, palavra falada e palavra escrita pelo menos lutavam pau-a-pau pelo poder. 

Na Antiguidade e na Idade Média livros eram coisas muito caras. Somente quem tinha uma certa grana podia comprar a cópia de um livro para tê-lo em casa, ou podia pagar um escriba para copiá-lo. Poemas e textos circulavam, sob forma escrita, mas sua circulação oral era certamente grande.

A invenção da imprensa abarrotou o mundo de livros de papel, mesmo que em seus primeiros anos os livros impressos também fossem um luxo de quem podia pagar. Mas não importa; a palavra escrita tornou-se sinônimo de cultura. E ainda hoje vivemos isto. 

Se alguém tem uma sala cheia de livros, achamos que é um intelectual, mesmo que ao falar ele revele ser uma besta quadrada. E se alguém nos diz que não sabe ler nem escrever, pensamos de imediato que é um sujeito burro, quando às vezes é mais inteligente e bem informado do que nós (e sabe mais poemas de cor).

Quem resgatou a Poesia da Voz foi a eletricidade, a partir do século 20, com três invenções decisivas: o rádio, o disco e a televisão. 

Com a ajuda desses meios a palavra falada ultrapassou a palavra escrita em importância, inclusive pelo fato de que isso coincidiu com a explosão das populações. Em muitos países, como no Brasil, milhões de pessoas passaram a ter acesso a esses três canais de comunicação sem nunca terem lido um livro. 

Do ponto de vista poético, o século 20 foi o Século da Canção. Nunca essa forma de arte foi tão cultivada, tão disseminada e teve um papel tão grande (maior que o romance, o conto, o poema escrito, etc.) na formação das pessoas, no seu lazer, na sua convivência, no seu entendimento do mundo.

O que ocorre agora com a Cultura Digital Eletrônica é uma mistura desses acontecimentos cruciais, a popularização da palavra escrita pela imprensa e a massificação da palavra falada pelos meios elétricos. 

Na Cultura Digital, a palavra escrita se multiplica de forma incontrolável, e o mais interessante é que agora uma só tecnologia está beneficiando ambas, a escrita e a falada. 

A Voz não lucrou nada com a imprensa, a Palavra Escrita lucrou pouco com rádio, etc.; mas as tecnologias digitais, com essa espantosa flexibilidade que têm, são capazes de beneficiar igualmente a Palavra Falada e a Palavra Escrita. (Para não falar na Imagem!) 

Não é o Fim do Mundo nem é a aurora de uma Idade de Ouro, mas é um momento raro de redefinição dos alicerces da comunicação. Temos sorte de viver um momento tão cheio de novidades.









quinta-feira, 11 de abril de 2013

3157) L. Ron Hubbard (11.4.2013)







Lafayette Ronald Hubbard nasceu em 1911 e durante anos foi um dos colaboradores mais entusiastas e mais prolíficos de revistas de pulp fiction como “Unknown”, “Astounding Science Fiction”, etc. Atribui-se a ele uma das frases mais famosas da FC: “Estou cansado de escrever FC pra ganhar uma merreca. Vou fundar uma religião e ficar milionário”. Foi o que aconteceu a partir de 1950, quando ele criou a famigerada Dianética, uma mistura de psicanálise e auto-ajuda. Suas promessas de saúde mental e quem sabe até superpoderes psicológicos arrebataram um grande número de pessoas, inclusive escritores como A. E. Van Vogt, John W. Campbell, etc. Hubbard ficou mesmo milionário, mas brigas internas entre os administradores do grupo o fizeram trocar em 1952 o termo Dianética por Cientologia, uma igreja paracientífica ainda hoje em plena atividade.

A melhor coisa que já li de Hubbard é a noveleta “Fear” (1940), uma arrepiante história de horror sobre um professor universitário que constata, de repente, um buraco na própria memória: quatro horas seguidas onde ele não lembra onde estava nem o que fez. Suas alucinações “dickianas”, sua progressiva destruição psicológica, e a presença constante (diálogos que o leitor lê mas o personagem não percebe) de entidades misteriosas – tudo isto faz do livro uma curta e compacta obra-prima do gênero.

Nos anos 1980 Hubbard lançou uma “decalogia” intitulada “Missão: Terra”, dez volumes dos quais traduzi os dois primeiros (“O Plano dos Invasores”, “Gênesis Negra”). É uma mixórdia indescritível de pulp fiction dos anos 1930, prosa auto-indulgente repleta de encheção de lingüiça, e um humorismo adolescente que faz o “Mochileiro das Galáxias” soar como FC existencialista francesa. Os méritos que tem são do gênero, não do autor: aquele divertido vale-tudo imaginativo que arrasta o leitor consigo pela mera sucessão vertiginosa de peripécias, situações absurdas, reviravoltas incessantes. Os ziguezagues constantes do enredo (infelizmente travado o tempo todo por diálogos longuíssimos e descartáveis) nem nos dão tempo de questionar a burrice obrigatória dos vilões e a cascata de coincidências que não cessa de favorecer o mocinho.

A melhor herança deixada por ele foram o misto de concurso e oficina “Writers of the Future”, que selecionou e revelou dezenas de bons jovens escritores (entre eles David Zindell, Karen Joy Fowler, Robert Reed), e editou várias antologias de boa qualidade. Sua memória é preservada pela Igreja da Cientologia, uma corporação articulada e poderosa que adquiriu vida própria na zona indistinta entre religião, política e auto-ajuda.



quarta-feira, 10 de abril de 2013

3156) O último quadro (10.4.2013)






No dia em que a Revolução Descalça tomou a capital do país, Henryk  Rhysdael amaldiçoou-se pelo otimismo que o impedira de fugir. A família estava em segurança em Londres, com a promessa de que voltaria para casa quando o governo controlasse os rebeldes. Agora, por entre os vidros à prova de balas do terraço do seu bunker de banqueiro, ele via o tsunami de torsos negros superlotando as ruas, os móveis sendo arremessados das janelas, os incêndios se alastrando. Um ratatá ensurdecedor vindo do alto disse-lhe que os selvagens, além de armamento, contavam com helicópteros estrangeiros. Colado à porta blindada,  acompanhou o tiroteio no corredor. Vestiu a roupa suja de operário que guardava para uma emergência, lançou o último olhar para o duplex de 900 m2 onde fôra feliz, e desceu pelo alçapão para o apartamento de baixo, que sabia desocupado, dali para a escada de serviço, e dali, em meio à turba que saqueava tudo, para as ruas, a fronteira e o exílio.

Voltou ao país dez anos depois, numa missão humanitária para investigar denúncias de torturas por parte do governo revolucionário. Pela janela da limusine viu que os prédios ainda guardavam marcas de fogo e buracos de balas. Durante os debates, ficou amigo de um capitão do exército cujo pai lhe devia favores. Na véspera da partida, fez o pedido: queria visitar seu antigo endereço. Soube que o edifício era agora um alojamento para migrantes fugindo das epidemias do campo.

O prédio estava cercado de barracas de fruta e de peixe. No hall, eles abriram caminho por entre filas de pessoas com mochilas às costas e sacos na cabeça. Subiram pela escada; o elevador estava quebrado há dois anos. Crianças fugiram ao vê-los, escondendo-se nos apartamentos e espiando pela fresta da porta. Alguns andares tinham pintura recente, outros estavam cobertos de grafittis e de frases numa língua que ele não reconheceu.

Chegaram à cobertura. O salão estava cheio de redes armadas de parede a parede. As vidraças tinham sido arrancadas. A pérgola era agora um cercado onde cacarejavam galinhas. Cumprimentando, pedindo licença, ele percorreu os aposentos. Um quarto estava cheio de arroz até quase o teto; a porta mal abria. A suite principal era um berçário onde mulheres de seios pendidos o olharam com indiferença e cansaço. Nada restava da mobília, dos tapetes, dos quadros, mas em outra suite ele viu o milagre impossível: intacta, cobrindo toda a parede, sua reprodução (encomendada) da “Entrada de Cristo em Bruxelas”, de James Ensor. Percebendo sua emoção, um homem de uma perna só ergueu-se, apoiado em muletas, e veio ao seu encontro. “Esse aí ninguém queima”, explicou. “É bonito”.



terça-feira, 9 de abril de 2013

3155) Pelo Estado laico (9.4.2013)





Quem lê meus artigos ou me conhece pessoalmente, sabe duas coisas a meu respeito: 1) Eu sou agnóstico, não acredito na existência de um Deus nem de uma alma humana imortal; 2) Eu não me importo que outras pessoas acreditem nisso, desde que essa crença as torne pessoas melhores e não prejudique os demais. Acho a religião uma coisa importante, mas para mim (para MIM, pessoal e intransferivelmente) a Ciência fornece explicações mais sensatas sobre o Universo, o mundo e o ser humano. “Ah, mas há milhões de coisas no mundo que a Ciência não explica!”. É verdade, mas, e daí? O mundo é novo, minha gente! A Ciência mal começou!

O Brasil é uma República onde todo mundo (pelo menos no papel) tem os mesmos direitos, e que não dá preferência a uma religião sobre as demais. Dar precedência jurídica a qualquer grupo religioso – essa coisa tão subjetiva, tão alicerçada na fé, tão de-foro-íntimo, tão pessoal-e-intransferível – equivaleria a dar poder legislativo a um teoria estética sobre as demais. Permitir, por exemplo, que um gênero literário (ou um ritmo musical, ou um movimento teatral, etc.) tivesse o poder de bloquear todos os apoios governamentais aos outros. Ia ser muito engraçado ver ensaios intitulados – “O Declínio do Romance Realista Urbano no Brasil: Uma Ditadura da Ficção Científica?”.

Religião é uma coisa parecida com a Arte. Não se baseia em verdades universais, mas em crenças pessoais, acreditadas e disseminadas de início por pequenos grupos, que vão se ampliando à medida que ganham adeptos, mas que, em última análise, não têm o direito de impor sua visão sobre os demais. Não há provas consensuais de que qualquer um desses deuses (Deus, Iavé, Allah, Shiva, etc.) exista, assim como não há provas consensuais de que Picasso seja um bom pintor, Glauber Rocha um bom cineasta, H. G. Wells um bom escritor ou Pinto do Monteiro um bom repentista.

Não há como avaliar isso de modo imparcial, objetivo, distanciado. Arte e religião são certezas íntimas cultivadas por pessoas, e merecem o maior respeito. Pelo respeito que merecem, precisam ser deixadas de fora da atividade legislativa e jurídica: porque todas precisam ser levadas igualmente a sério, o que significa que nenhuma delas tem o direito de se sobrepor juridicamente às demais. O Estado brasileiro tem que ser laico em matéria de religião, como garantia de que todas as religiões terão livre curso para suas atividades; e que todas as formas de arte serão igualmente livres para criar.

Principalmente nesta época (“Oh, tempos! Oh, costumes!”) em que é muito mais fácil ficar rico inventando uma igreja do que criando obras de arte. Vamos lutar pelo Estado laico, sempre.


domingo, 7 de abril de 2013

3154) Uma crônica (7.4.2013)



Uma crônica começa a se desenrolar meio preguiçosamente. Precisa apenas de um fio de assunto, que pode ser encontrado num olhar pela janela, numa consulta à estante, na lembrança de um episódio da véspera ou mesmo no mergulho vagaroso em busca da raiz de um sentimento, como quando reagimos diante de um fato e mais tarde estranhamos nossa própria reação. 

Começa então aquele tatear de possibilidades, um jogo de redigir frases simples mas que nos deem a sensação de que uma pedra foi removida. Começa assim a crônica, frases intangíveis removendo pedras pesadas; ou então, quem sabe, como uma pérola ao contrário, um grão de areia que se abre e revela estar cheio de madrepérola por dentro.

Claro que tudo depende da paleta verbal do autor, e até de sua disposição naquele dia – a direção para onde ele foi virado pelos ventos da vida à sua volta. 

A crônica deve ter esse nome porque depende do Tempo, é um jogo de búzios verbais lançados pelo Tempo. Só poderia ser escrita assim hoje, porque amanhã os ingredientes já teriam sido outros, mesmo que o projeto original fosse o mesmo. A crônica não se sente obrigada a contar uma história. A história será bem recebida, se brotar alguma história no decorrer do processo; é uma convidada bem vinda, mas, se não aparecer, a festa acontece do mesmo modo.

O cronista é como um catador de lixo da História, ele procura o que não foi aproveitado, o que passou despercebido, o que ninguém se atreveu a comentar, o que não mereceu atenção, o que foi enxergado apenas por um lado, o que passou em branco, o que entrou pra lista negra, o que nos relatos oficiais ficou meio com uma cor-de-burro-quando-foge. 

Por outro lado, comparado aos autores de imensos murais realistas, o cronista é um cartunista, que em dois-três rabiscos resume uma vida anônima, um sentimento eterno, uma Revolução.

A crônica é plástica, é elástica, é flexível, é multiuso, é multimídia. Como aqueles monstros plasmáticos dos filmes de pesadelo radioativo, ela tudo absorve, tudo dissolve e assimila a si mesma. Pode falar de flores e de beija-flores, de armamentos e de Armageddons, de fantasmas e de malassombros, de política e de polícia, de donos do mundo e de donas de casa. 

Não pode ser definida pela sua temática, nem pela sua extensão, nem pela sua estrutura interna, nem pela emoção que provoca ou pela estante onde é colocada. Talvez seja a primeira das formas literárias, antes do Big Bang que a explodiu em gêneros; talvez seja a última, para onde fluíram todas as anteriores, a que aprendeu com todas e de todas pega algo emprestado. É a aluna prodígio da primeira fila, sempre atenta e sempre ligada, de óculos e sem calcinha.






sábado, 6 de abril de 2013

3153) O cientista Frank (6.4.2013)





Frank se considerou o sujeito mais azarado do mundo quando sua esposa o largou. Felizmente (pensou ele) tenho meu laboratório de Topologia Quântico-Temporal.  As descobertas que fiz nos últimos seis meses, e que estão sendo codificadas por meus assistentes, estão com resultados muito melhores do que os que eu previa, e o relatório está gerando uns três artigos que irão desencadear um novo “Ano Miraculoso” na ciência.

Serões e mais serões se sucediam, e ocorreu que num daqueles intervalos de descontração, que às vezes duravam duas ou três horas, Frank viu-se preenchendo cadastro num saite de relacionamentos. E considerou-se o sujeito mais sortudo do mundo quando, poucos dias depois de se pavonear nos chats, fóruns e assemelhados, descobriu que tinha uma alma gêmea. Uma modelo, muito conhecida e fotografada, mas sofrendo de solidão crônica, tédio e repulsa pelo meio dos paparazzi e do show-business. Queria jogar tudo pra cima, casar, ter uma casa bem tradicional e alegre, ter filhos... “Eu nasci de quina pra lua”, disse, numa frase-feita equivalente, o pobre Frank. “Com 68 anos, gordo, baixinho, vivendo de salário de universidade pública... e uma mulher dessa quer casar comigo”. A essa altura, Frank já conferira que a modelo existia mesmo, e uma rápida intimação ao Google lhe produziu fotos bastante animadoras.

Depois alguns meses de correspondência cada vez mais íntima, ele passou a insistir para que ela o visitasse em Oklahoma, e ela dizendo sempre que estava na ponta aérea entre Paris, Londres, Milão, Zurique e Istambul. Ele terminou de redigir o terceiro “paper” enquanto revisava o segundo e abria a revista que acabava de publicar o primeiro. Logo voltou a se achar o sujeito mais azarado do mundo, porque a prometida turnê dela pela Costa Oeste tinha sido cancelada. Teria sido o encontro dos dois face a face, certamente um jantar juntos, quem sabe mais o quê! Ela disse que ia fotografar uma campanha na Bolívia. Se ele quisesse...

O aeroporto da Bolívia parecia um posto de gasolina, mas quem disse isso foi o executivo da poltrona ao lado; para ele, que nunca saíra de seu Estado, aquilo era um mundo de pulp fiction ou de seriado de TV. O hotel era desconfortável, e na portaria ele recebeu um envelope. O bilhete explicava que a sessão fotográfica tinha sido cancelada. Que ela estava indo para Amsterdam. Mas que por acaso deixara para trás uma de suas malas. Será que ele podia ser um doce, e trazer a mala dela para Amsterdam, onde ele o esperava cheia do amor pra dar? Eu sou o sujeito mais sortudo do mundo, disse ele. Por uma mulher como essa eu faço qualquer coisa.



sexta-feira, 5 de abril de 2013

3152) Reality shows (5.4.2013)





Num artigo de 2001 sobre os “reality shows”, que ele comparava aos espetáculos sangrentos do Coliseu romano, Salman Rushdie perguntava quanto tempo iria demorar até acontecer a primeira morte ao vivo, e quanto tempo iria decorrer entre esta e a segunda. Essa pergunta começou a ser respondida, de certo modo, nos últimos dias, quando morreu um participante do programa Koh Lanta (a versão francesa do Survivor), e uma semana depois suicidou-se um médico da equipe do programa, acusado de negligência. As duas mortes não ocorreram ao vivo, diante das câmaras, mas acho que não devemos ser tão puristas. Aliás, acabará acontecendo.

Gerald Babin, de 25 anos, sentiu-se mal em 22 de março, no primeiro dia de gravação, durante um dos puxadíssimos exercícios que os participantes tinham de fazer. Foi retirado de barco da ilha onde as provas acontecem (a imprensa considerou que se o levassem de helicóptero talvez ele tivesse sido salvo), e morreu em seguida, de ataque cardíaco. A imprensa francesa, ao que parece, fez inúmeras críticas ao programa e responsabilizou o médico Thierry Costa, de 38 anos. Entre outras coisas, foi dito que a gravação continuou durante nove minutos sem ser interrompida, mesmo com o participante sentindo-se mal, e que ele ainda teria tido que dar uma entrevista antes de ser socorrido.

Uma semana após a morte de Babin, Costa suicidou-se num hotel do Camboja, pedindo que seu corpo fosse cremado e as cinzas espalhadas lá mesmo, e nunca fossem levadas de volta para a França. Numa nota manuscrita, o médico afirmou que a imprensa enxovalhou seu nome, e que nunca mais teria coragem de voltar para a França e encarar as pessoas.

Existem situações humanas tão viciadas e tortas desde a origem que todo mundo lá dentro é vítima e é culpado. Os programas tipo Big Brother que se misturam com esportes radicais ou técnicas de sobrevivência alimentam um voyeurismo doentio na platéia – aquela expectativa de que a qualquer momento vai acontecer alguma coisa séria. Não diferem muito de uma tourada, onde a expectativa do sangue e da morte (da morte humana) está implícita na fórmula. Uma morte humana ganha outro significado se existe uma câmara apontada para ela, acompanhando-a, registrando-a, preservando-a para sempre. Pouco importa se tudo foi arranjado de tal jeito que a morte, por caminhos aleatórios, acabe acontecendo; não se sabe bem quem vai morrer, como, nem quando, mas no momento em que essa morte é transmitida estamos tocando com o dedo numa medula proibida da existência. É como se víssemos o instante da fecundação de alguém; a forma mais requintada de invasão de privacidade.



quinta-feira, 4 de abril de 2013

3151) Carnacki (4.4.2013)






Um dos capítulos mais interessantes da literatura fantástica é o ocupado pelos chamados “detetives do sobrenatural”. Estiveram meio que na moda durante o fim do século 19 e começo do 20; depois foram sumindo, se bem que parecem estar voltando, inclusive no cinema. São detetives tipo Sherlock Holmes, mas que, ao invés de investigarem crimes comuns, investigam casas mal-assombradas, fenômenos poltergeist, possessões demoníacas, maldições, etc.  São, de certa forma, os precursores dos conhecidos “Caça Fantasmas”.

O que há de interessante neles é que conjugam um gênero literário extremamente cartesiano e materialista (o romance de mistério detetivesco) com a narrativa sobrenatural. Uma grande parte da literatura detetivesca consiste em crimes espantosos que parecem desafiar as leis da natureza, ou parecem resultados da ação de forças demoníacas, mas logo aparece um detetive (como nos livros de John Dickson Carr ou de Ellery Queen) que no final põe tudo nos eixos e mostra que aquilo não passou de um crime humano, muito bem urdido e muito bem executado.

Li agora The Casebook of Carnacki, the Ghost-Finder, de William H. Hodgson, com as aventuras deste “caçador de fantasmas”, contos publicados na imprensa inglesa entre 1910 e 1912.  Lidos cem anos depois, são contos bem estruturados e bem escritos, que se sustentam admiravelmente, embora sofram com uma estrutura formulaica. (A estrutura de todos os contos é idêntica: Carnacki convida quatro amigos para jantar em sua casa, e após o jantar conta uma aventura em que se meteu; finda a narrativa manda os amigos embora.)

Carnacki recorre a uma intrincada e semi-oculta mitologia de rituais, inscrições, invocações mágicas que o ajudam a lidar com o sobrenatural: “o manuscrito Sigsand”. “o Pentáculo Elétrico”, “o ritual Saaamaaa”, “o encantamento de Raaaee”, etc., sugerindo um panteão obscuro de criaturas e forças astrais. Por outro lado, em suas investigações usa lanternas elétricas, geradores, máquinas fotográficas com flash, gravadores de som. Ou seja, ele conjuga como nenhum outro nesse gênero o lado ocultista e o lado científico. E os casos que desvenda são, em proporção igual, histórias de influências sobrenaturais (Hodgson descreve muitíssimo bem esses confrontos com forças titânicas, malignas, inexplicáveis) e histórias de espertalhões ou gangsters fingindo a presença de fantasmas numa casa para alcançar seus objetivos. Essa constante indecisão, só resolvida no fim, entre a explicação sobrenatural e a explicação realista dá um suspense adicional a esses contos meio esquecidos, que influenciaram uma geração inteira de autores, a começar por H. P. Lovecraft.



quarta-feira, 3 de abril de 2013

3150) Futebol Vertical (3.4.2013)




Mais uma tarde de fortes emoções esportivas em nosso condomínio! Quando terminaram de montar as duas barras (uma no décimo andar, no fim do corredor; a outra no térreo, no saguão em frente ao elevador), os dois times subiram para o corredor do 5º  e se posicionaram. Eram 3 da tarde de um domingo de sol, e todo o bairro de Presidente JK estava mobilizado para a decisão do campeonato de Futebol Vertical. Câmaras de circuito interno de segurança transmitiam o jogo para tevês, notebooks e celulares num raio de dois km. O “toss” beneficiou o América, que previsivelmente escolheu atacar pra baixo no primeiro tempo. A saída pertenceu ao Humaitá. Bola rolando, Beto Xixi enfiou-se aos esbarrões entre os adversários e já diante da escada recebeu uma cavadinha-pelo-alto de Normando: matou no peito e conseguiu dar um bico lá para cima. A bola subiu quicando e os dois times subiram atrás dela aos esbarrões. Jogo de Futebol Vertical é pra homem, só tem falta quando ocorre algo muito grave. A manobra surtiu efeito e pegou a defesa do América ainda fria. Logo logo o bafafá tinha chegado ao oitavo andar, enquanto em cada porta a torcida rodava reco-recos e entornava latas de cerveja. Zé Martins, zagueiro do América, levou um tombo e abriu a testa num degrau, foi a primeira baixa. Com muita pressão o América empurrou a bola para baixo até o sexto, mas a dupla Beto Xixi e Leandrão abriu caminho de novo. A bola chegou ao décimo, sob ovação ensurdecedora, aos onze minutos; o ricochete era violento, mães escondiam filhos enquanto os maridos vociferavam na porta e davam gritos de “cazá, cazá”. Coube a Leandrão empurrar a bola para o gol. Abraços, espuma de Skol derramada no monte de jogadores, foguetes pipocando em todo o quarteirão. Nova saída. Desta vez o América não perdeu tempo, desencadeou uma blitz de esbarrões, fez o Humaitá recuar para o quarto andar, o terceiro, com boladas violentas em todas as direções à procura da escada, botando em prática a filosofia de que quando se ataca pra baixo o principal armador de jogo se chama Isaac Newton. Quando a bola chegava em cada andar era recebida por um coro de gritos, cornetas, bate-latas. Por fim desceram aos trambolhões até o térreo, onde emergiu, da escada do saguão, uma turbamulta suada, de roupas rasgadas, de homens que rolavam uns sobre os outros, por entre cotoveladas e sangramentos, até que Cidão, mesmo caído, desferiu um bico que agasalhou a redonda no filó. Foguetes pipocaram, charangas entoaram vassourinhas, houve beijos e lágrimas entre a torcida – emoções inesquecíveis que somente o Futebol Vertical pode proporcionar.


terça-feira, 2 de abril de 2013

3149) Um Jogo de Tronos (2.4.2013)




Recomeçou a série Game of Thrones pela HBO, movimentando um enorme fã-clube mundo afora, inclusive no Brasil.  Já me referi à série em artigos anteriores (aqui: http://bit.ly/10fKNKO, http://bit.ly/XRJr5Z, http://bit.ly/KHji6y, http://bit.ly/O5994l), e não custa nada repassar alguns aspectos importantes dela. 

O primeiro é o fato de que o mundo de Westeros, onde ela acontece, não tem relação visível com o nosso (Tolkien também era assim). A geografia, a história, a cultura de Westeros, tudo isso é criado a partir do zero pelo autor George R. R. Martin. Já é uma façanha fazer isso num romance; o que dizer de uma série de 5 romances (até agora), cada um deles variando entre 600 e 900 páginas?  

Não é fácil sustentar uma história onde é preciso inventar todas as religiões, todas as genealogias, todos os países, e assim por diante, com dezenas de protagonistas e centenas de personagens importantes pertencendo a uma dúzia de culturas/nações diferentes.

Outra coisa que seduz na série é a sua política, que, diferentemente de Tolkien – cuja moralidade é estritamente medieval, maniqueísta, idealizada – tem um cinismo e um realismo que a fazem tão moderna quanto qualquer luta pelo poder em Brasília ou em Wall Street. 

Na primeira temporada, a morte de Ned Stark anunciou que naquele mundo não há lugar para alguém que comete o pecado de ser ingênuo, de não ter traquejo político, e de não saber praticar “direção defensiva” no meio das raposas traiçoeiras da intriga palaciana. Stark era um personagem simpático mas ridiculamente fora de moda; sua inocência ética me lembrou o Rocco de Rocco e seus irmãos de Visconti. Um sujeito tão determinado em ser bom e honesto que destrói tudo que tentava defender. 

O mundo se encaminha para um terreno ético em que o Bem não pode ser mais defendido pela pureza de coração. Estamos adentrando um mundo manipulado por enganadores, por gente maquiavélica, por serpentes que roubam por instinto e matam por reflexo. Só quem pode salvar o Bem é a Malandragem: a capacidade de ser mais malicioso do que o Mal, de combater o gelo com o fogo e o fogo com o gelo.

Uma terceiro aspecto sedutor da série é de natureza técnica: uma complexa cena de negociação política e cabo-de-guerra psicológico é resolvida em um minuto, coisa que muitos filmes glosariam durante um tempo interminável. 

Excelentes diálogos, atores incisivos e intensos, cortes nos momentos precisos; a narrativa de Game of Thrones, onde uma temporada tem dez episódios de menos de uma hora cada, poderia dar lições de compactação narrativa a muitos filmes de hora-e-meia que passam por aí.