sábado, 30 de janeiro de 2010

1590) O Transleitor (17.4.2008)




O romance The Translator(Nova York, Morrow, 2002), de John Crowley, é a história da convivência de Innokenti Falin, um poeta russo, com sua tradutora norte-americana, em 1962, antes, durante e depois da crise dos mísseis cubanos. Como tudo que Crowley escreve, é várias coisas ao mesmo tempo: uma delicada história de amor, discussão sobre a natureza da poesia e da literatura, estudo da dificuldade de comunicação entre as pessoas, retrato de época. Crowley escreveu ficção científica (Engine Summer, The Deep, Great Work of Time), e o livro tem algo do gênero, ao sugerir a existência de universos paralelos nos quais certos fatos históricos cruciais acontecem de maneira diferente. Crowley também é mestre da fantasia: Little, Big (ganhador do World Fantasy Award) lida com elfos, e o presente livro lida (de maneira indireta, simbólica) com anjos.

Nas últimas décadas Crowley dedicou-se a uma tetralogia de romances explorando a magia renascentista, livros ambientados na época atual e também no tempo do Dr. John Dee, o mago e alquimista que assessorava a Rainha da Inglaterra. Esses romances (Aegypt, 1987; Love & Sleep, 1994; Daemonomania, 2000; Endless Things, 2007) contam uma espécie de história secreta da História, fatos que talvez tenham acontecido sem que ficássemos sabendo. E The Translator tem algo disto.

À primeira vista o livro se intitularia “O Tradutor”, mas a protagonista é Kit Malone, então a tradução correta é “A Tradutora”. Em inglês, “translator” pronuncia-se “trans-LÊI-tor”, e não posso resistir a um trocadilho dado pronto, de bandeja. Um tradutor é um trans-leitor, um leitor que lê transversalmente um texto, procurando não uma correspondência mecânica entre palavras que só se assemelham na superfície, mas a reconstituição do maior número possível das muitas camadas de significação do poema. No livro, cabe a Kit, que mal começou a estudar russo, acompanhar o poeta estrangeiro em sua busca pela palavra inglesa adequada para transmitir nuances de significado que talvez só existam no original.

Quando Kit lhe mostra uma tradução e se refere ao “seu poema”, Falin lhe diz: “Não. Esse é o seu poema. O meu foi escrito em russo”. O que um tradutor faz é escrever – no seu próprio idioma, com seus próprios recursos, seu talento – um texto que seja isomórfico com um texto pré-existente, criado por outra pessoa em outra língua. Não é o mesmo texto. Nunca vai ser. Eu, por exemplo, sou fã de Brecht e de Maiakóvski sem nunca ter lido um só poema deles, porque não sei uma palavra nem de alemão nem de russo. Li traduções em português, inglês, espanhol. Comparando umas às outras, comparando o sentido das frases, o vocabulário, o “tom de voz”, o modo com os versos se quebram e se organizam, fico com uma idéia aproximada do que devem ser os poemas desses autores. Nunca os conhecerei – a menos, claro, que aprenda as duas línguas. Um poema estrangeiro é a foto de um relâmpago – em Braille.

1589) A Fundação e a Al-Qaeda (16.4.2008)




Duvido que alguém tivesse ouvido falar na Al-Qaeda antes do 11 de setembro de 2001. 

O nome de Osama Bin Laden me era familiar – um daqueles terroristas obscuros que vez por outra eram enumerados num “Globo Repórter”. Quando as Torres Gêmeas vieram abaixo, o governo dos EUA agiu como a polícia carioca. Tirou da gaveta a lista dos “habituais suspeitos”, e escolheu o mais provável. 

Bin Laden assumiu a autoria dos atentados. Eu também assumiria, se fosse acusado – perdido por um, perdido por mil. (Ademais, no mundo dos criminosos crime grande é sinônimo de Poder.) 

De quebra, foi-lhe atribuída a chefia de uma misteriosa organização chamada Al-Qaeda, responsável, desde então, pela maioria dos grandes atentados que têm ocorrido, da Indonésia à Espanha.

Não passou despercebido, aos leitores de ficção científica do mundo islâmico (que são legião), que o romance Fundação, o clássico de Isaac Asimov, tinha sido traduzido em árabe com o título “Al-Qaeda”. É esse o significado do termo árabe: base, fundação, alicerce, pilastra, ponto de apoio, e idéias correlatas, tanto literal quando simbolicamente. (Na imprensa brasileira, “Al-Qaeda” é em geral traduzido como A Base).

A coincidência mais perturbadora, no entanto, é a que já abordei na coluna “A voz do morto” (28.1.2004). Bin Laden se comunica com o mundo da mesma maneira que Hari Seldon, o protagonista de Fundação: através de depoimentos gravados que seus seguidores fazem exibir em momentos estratégicos. 

No caso de Hari Seldon, esses depoimentos (gravados há séculos, quando ele era vivo) servem como confirmações de sua teoria da Psico-História, uma ciência probabilística capaz de prever o desenvolvimento futuro da civilização. Duzentos anos depois de morto, Seldon reaparece no vídeo, dizendo: “Pelo que calculo, vocês devem estar enfrentando tais e tais problemas, de tal ou tal maneira. Aqui vão minhas instruções sobre o que devem fazer”. Perplexos e maravilhados com a precisão do diagnóstico, os governantes do futuro não têm saída senão seguir a receita.

Giles Foden tem um extenso artigo no “The Guardian” (http://books.guardian.co.uk/review/story/0,12084,779530,00.html) no qual faz uma fascinante análise dos paralelos entre terrorismo e FC. Uma conexão que eu desconhecia é a da seita Aum Shinrikyo, responsável pelos atentados com o gás “sarin” no metrô de Tóquio, em 1995. 

Foden cita um jornalista japonês, e diz que o propósito da seita, inspirada na série Fundação, era “reconstruir a civilização após um cataclisma, e combater as poderosas instituições globalizantes que estão produzindo o apocalipse”. A retórica delirante de certos terroristas lembra muito a de numerosos vilões da FC, os tais cientistas loucos que querem dominar o mundo. 

Será que a FC é uma influência nociva? Nada disso. Como raio-X do nosso inconsciente coletivo, a FC é um diagnóstico antecipado de tudo aquilo que já existe mas só vai se tornar manifesto daqui a décadas.






1588) As fotos construídas de Lori Nix (15.4.2008)




Tenho um interesse especial pelos trabalhos artísticos que procuram reunir mais de uma técnica. Quando falamos em fotografia, por exemplo, a primeira coisa que nos vem à mente é um fotógrafo com a câmara na mão, caminhando por aí e registrando as coisas que vê à sua frente. Existe uma arte mista, no entanto, que consiste em criar objetos e fotografá-los. Preparar cenas, e fotografá-las; armar cenários inteiros, com os respectivos personagens, e fotografá-los. Não me refiro à fotografia publicitária ou de moda, mas a criações com intenção artística, reunindo elementos que parecem teatro, parecem modelismo ou arquitetura... e fotografia.

É o caso da artista Lori Nix, cujos trabalhos podem ser vistos aqui (http://www.lorinix.net/). Ela prepara cenários em pequena escala, cheios de objetos em miniatura, e depois os fotografa. Em seu saite há diversas séries: “A Cidade”, “Perdidos”, “Insecta Magnifica”, “Algum outro lugar”, “Acidentalmente Kansas”. Em cada série, fotos desses cenários em miniatura que causam espanto pela riqueza e exatidão dos detalhes. Em “A Cidade”, por exemplo, “Biblioteca” nos mostra o salão de uma biblioteca abandonada, as paredes cobertas de livros empoeirados, móveis caídos, árvores imensas crescendo no meio do aposento e projetando-se para fora pelas aberturas do teto em ruínas. “Aquário” mostra um aposento quase circular, com as paredes cobertas de musgo ou de algas, tendo em certo ponto um aquário de verdade que reproduz o formato do ambiente onde se encontra. A “Torre do Relógio” mostra outro local abandonado, o teto cheio de buracos, nenhum sinal de presença humana, e vemos de dentro para fora as engrenagens mecânicas do relógio da torre.

Trabalhos assim envolvem partes iguais de artes plásticas e fotografia, e eu diria que também existe uma espécie de teatro implícito nisso tudo, porque cada um desses cenários pressupõe uma história que ocorreu ou que ainda está ocorrendo. Não se trata simplesmente de fotografar, mas de produzir uma realidade artificial e registrá-la através da foto. E a foto é indispensável, porque somente nela, pela ausência de proporções externas em relação ao mundo, podemos acreditar que aqueles cenários minúsculos são os espaços reais que representam.

Num texto que há no saite da artista, Jeffrey Hoone comenta que nos últimos trinta anos muitos artistas têm explorado essa mistura entre evidência e imaginação, através da ambigüidade da fotografia construída. Ele cita “as cenas cuidadosamente construídas de Bernard Faucon com manequins de crianças, as desconstruções de papéis sexuais levadas a cabo por Laurie Simmons e Cindy Sherman, os elegantes estudos arquitetônicos de Jim Casebere, e as produções monumentais de Jeff Wall e Gregory Crewdson”. Talvez seja excessivo chamar a isso “uma nova forma de arte”, mas não há dúvida de que é uma combinação muito rica de possibilidades.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

1587) A Potestade (13.4.2008)





(foto: Man Ray)

Sonhei que estava flutuando no espaço sideral, cercado de constelações, de portentos, de trevas fulgurantes. 

A Potestade rodeou-me com sua Presença, e dirigiu-se a mim: 

“Não crês na minha existência”, disse-me ela, e cada célula de meu corpo reverberou como um tímpano. “Por isso prefiro dirigir-me à totalidade do teu Ser, que só emerge quando adormece o cão de guarda que te sustenta vida afora, e ao qual chamas de Eu, ou Consciência”. 

Eu estava aterrado e sem palavras; só me restava escutar. Sentia-me esvoaçar em todas as direções, como uma pluma no epicentro de um tornado. 

“Admiro tua fidelidade a ti próprio,” prosseguiu. “São muitos os que não crêem, mas dizem crer por covardia, por conformismo, ou por imitação. Mais importante que a fé é a verdade. Mais importante do que crer em mim é ter a coragem de olhar dentro de si mesmo e dizer sem rebuços o que vê”.

O que via eu? Via galáxias coruscantes, aglomerados densos de matéria escura, estrelas que faiscavam como os grãos de areia no interior de um tornado. E aquela voz, que prosseguiu: 

“Deves estar te perguntando – por que eu? Por que logo eu fui chamado para este Contato, esta Revelação? E te responderei usando a linguagem do teu tempo e do teu povo. O Universo está contido em ti. Em teu corpo e tua alma estão gravados de forma indelével todas as informações necessárias para reconstruir tudo isto que vês à tua volta. Fosse este Universo destruído, bastaria que tu sobrevivesses para que toda a história dele pudesse ser reconstituída, a partir das leis que governam teus átomos e tuas células vivas. O Universo é auto-reflexo: está todo gravado em cada uma das partes vivas que contém.”  

Fez uma pausa. 

“Isto vale não só para ti, é claro, mas para qualquer outra criatura. Se te escolhi foi por mero Acaso. Quero te mostrar algo”.

Fez um gesto com a mão, e a esse gesto descerrou-se uma Cortina. Mas como posso dizer “um gesto”, se sua presença ocupava toda a face interna da esfera de espaço que me continha, como falar em mão se sua mera impressão digital era composta pelo turbilhão de galáxias que ali revoluteavam? 

Mas a esse gesto uma Dimensão abriu-se e vi ali justapostos todos os tempos, todos os passados e futuros, todos os fios entrelaçados dos mundos possíveis. 

“O mundo em que vives passa por uma crise que pode destruí-lo”, prosseguiu a Voz. “Falo do teu planeta, e do teu país. Quando crises assim se anunciam, escolho um habitante para me informar sobre a necessidade desse mundo. E é isso que te pergunto: Vale a pena que esse planeta e esse país existam? Vale a pena que prossigam? Se achares que não, desaparecerás com eles. Mas se achares que sim, desaparecerás só tu. Teu nome será obliterado, teus atos esquecidos, teus descendentes se estiolarão. Teu país prosseguirá, e desaparecerás apenas tu. Não tens que me responder agora. Vai – desperta!” 

Nesse instante o celular tocou na mesa de cabeceira. Atendi, e era engano.





1586) “O cristal dos verões” (12.4.2008)




Leio a poesia de Sérgio de Castro Pinto há mais de trinta anos. Gostaria de dizer que a leio há quarenta, porque acaba de sair a coletânea O cristal dos verões, reunindo sua produção poética entre 1967 e 2007. Mas em 1967 eu estava descobrindo Drummond e João Cabral. Ainda me levaria um certo tempo para descobrir os poetas paraibanos, devido à hipermetropia cultural de que sofremos, eu mais do que todos. Não importa, porque é próprio da Arte ter efeito retroativo, como uma lanterna acesa que a gente ergue para iluminar o caminho à frente mas que nem por isso deixa de clarear também para trás. A boa poesia é uma luz intemporal: a de ontem pode clarear nossos dias de hoje, e a que lemos hoje pode iluminar coisas que não víramos ontem.

Esta coletânea mostra como a evolução de um poeta não se dá meramente por uma sucessão de fases em que na primeira ele faz um tipo de verso, na segunda faz outro, e assim por diante. A evolução poética se dá por um processo de substituições e de retornos, em que uma técnica ou uma temática não são abandonadas por completo, mas deixadas de lado momentaneamente enquanto o poeta se interessa por outra coisa. Mal comparando, é como se dá com um percussionista de show, que tem à sua frente toda uma tenda de instrumentos, aos quais vai recorrendo, e retornando, sempre que a necessidade se apresenta.

Para mim existe uma continuidade, por exemplo, entre os poemas mais longos e mais complexos de A ilha na ostra (1970) e o minimalismo do recente Zoo imaginário (2005). No primeiro estão alguns dos poemas mais republicados de Sérgio, como o “Camões/Lampião” e a série de textos sobre fotografia, onde existe algo de João Cabral a abordagem analítica de processos. O segundo traz pequenos retratos minimalistas, que por um lado lembram certos textos de Mário Quintana, mas também as vinhetas poéticas com que Erik Satie acompanhava algumas de sua composições (como na série “Sports et Divertissements”). Mas podemos observar que o jogo de assonâncias do tipo palavra-puxa-palavra é raramente empregado tanto por Cabral quanto por Quintana; e que o poder observador do poeta o traz ainda mais próximo dos retratos zoológicos de Guimarães Rosa em Ave, Palavra, o que promove a fusão entre (como diz Sérgio) “a p(rosa) e a (poe)sia”.

O senso visual infalível do poeta o leva a registrar detalhes mínimos do cotidiano como “buquês de roletes”, a ver as noites como “folhas de papel carbono” entre as páginas brancas dos dias, a perceber no pavão um “narciso voyeur”, a ver móbiles de Calder nas costelas dos pobres, a explorar em todas as direções emblemáticas o “y” da Fazenda Guarany. No equilíbrio entre a percepção visual diferenciada e o malabarismo sonoro das aliterações, um livro de poesia de Sérgio de Castro Pinto é uma sucessão de flashes indeléveis em que a linha do verso costura e justapõe o visto, o imprevisto, o ouvido e o vivido.

1585) O ginecologista no harém (11.4.2008)

Todo sujeito muito perseguido se torna vingativo quando enriquece, mas se torna magnânimo se ficar muito milionário. 

É o caso do escritor Paulo Coelho. Cada livro que ele publica é tratado como se fosse um tapete velho que a gente pendura num varal e mete a pancada para tirar a poeira acumulada ali há cem anos. 

Bater nos livros de Paulo Coelho é um esporte nacional. E no entanto ele trata os críticos com uma benevolência zen, e afirma: “Cabe ao leitor ler, ao crítico criticar, e ao escritor escrever”. 

Numa coluna recente na revista dominical do “Globo”, PC citou uma frase de Brendan Behan: “Críticos são como eunucos em um harém. Teoricamente, eles sabem qual a melhor maneira de fazer, mas não conseguem ir além disso”. 

Na qualidade dupla de escritor e de crítico (embora qualquer um possa me considerar mau escritor e mau crítico), acho que posso contribuir com algo para essa descrição. Um crítico não é necessariamente um eunuco, alguém incapaz de fazer o que critica. Alguns dos melhores filmes da história do cinema foram feitos por críticos que um dia se meteram a dirigir: François Truffaut e Jean-Luc Godard são dois exemplos que me ocorrem (e muito diferentes entre si – a única coisa que têm em comum é que eram da mesma turma). 

Na literatura, temos o exemplo de Umberto Eco, que era um crítico ao quadrado, ou seja, professor de Semiologia numa Universidade, e quando estreou foi com um romance que botou os escritores profissionais no chinelo. 

Se é para comparar o crítico a alguém, melhor do que um eunuco é um ginecologista. O problema do crítico, quando se mete a escrever, não é a falta de imaginação criativa. O que lhe falta é a descontração lúdica de quem faz algo por mero prazer. 

O excesso de bagagem teórica pode ser uma vantagem na hora de criticar, mas é um peso na hora de criar. O escritor é um cara que olha para dentro de si mesmo; um crítico é um cara acostumado a olhar para dentro dos outros. É clínico, distanciado, brechtiano. Na hora de ser criativo, ele poderia lamentar-se como o robô dos quadrinhos de Barbarella, quando a heroína elogia seu desempenho na cama: “Madame é muito gentil, mas meus impulsos têm algo de mecânico”. 

O escritor acostuma-se a ser levado pela intuição, escreve sem precisar explicar muita coisa a si mesmo. Pode se dar o luxo de responder “Não sei” a quem lhe pergunta o porquê de tal ou tal detalhe do que escreveu. 

O crítico, que fez a própria fama explicando os porquês das obras alheias, sente-se pressionado a ter a mesma jurisdição sobre as próprias. Quando é um crítico meramente impressionista, que critica com base nas suas paixões subjetivas, ele até que se furta um pouco a essa cobrança. Mas os grandes críticos de nossa época são grandes racionalistas. São mentes apolíneas e implacáveis, acostumadas a analisar, dissecar, discernir. Na hora em que precisam do arrebatamento dionisíaco, o Deus do prazer se vinga e não comparece.





1584) Glauber vs. Madureira (10.4.2008)




O pessoal mais zombeteiro chama o Rio de Janeiro de “Capital do Factóide”. No Rio, quando nada de importante está acontecendo, inventa-se uma desimportância ruidosa, para que as moças da TV tenham a quem entrevistar, e para que os jornalistas sem assunto, como eu, resolvam o problema-de-sísifo intitulado “A Coluna de Hoje”. Feita esta ressalva, não posso deixar de comentar o factóide carioca mais recente. O “casseta” Marcelo Madureira, participando de um debate, disse: “Glauber Rocha é uma merda”. Foi o que bastou para que a cidade se mobilizasse em dois exércitos opostos. Me lembrei daquele dia em que Glauber falou: “O General Golbery é o Gênio da Raça Brasileira”.

Os intelectuais saíram em defesa de Glauber, é claro. Cartas aos jornais, artigos, reuniões de desagravo, exibições de filmes, e tudo o mais. Me solidarizei com isso, porque considero Glauber o maior cineasta brasileiro, e considero que seus três filmes realmente bons (Deus e o Diabo..., Terra em Transe, O Dragão da Maldade...) estão entre os melhores do mundo. Como se não bastasse isso, a pessoa pública de Glauber, como agitador cultural, foi algo que fez um bem enorme ao Brasil, e continua fazendo.

Acho melancólico o presente factóide porque toda essa repercussão é uma demonstração de força, não de Glauber, mas de Marcelo Madureira. A cidade inteira se mobilizou em função de uma imprecação desdenhosa que Madureira proferiu num momento “blasé”. Madureira (que não conheço pessoalmente) é um competente redator de humor para a TV, mas falando é uma espécie de Edmundo “Animal”, diz tudo o que lhe vem à cabeça. Se o que diz provoca tal comoção nos intelectuais, mostra apenas a reversão que houve no país. As manifestações de desagravo não comprovam a importância de Glauber, e sim a de Madureira. Comprovam apenas a fragilidade da imagem e do conteúdo de Glauber num país onde os poderosos não são mais os cineastas de vanguarda, e sim os humoristas de TV.

Digo isto sem preconceito de classe, porque eu também sou um humorista de TV (consultem meu currículo). E os humoristas são necessários por isso mesmo. Humorista é para ser irreverente e iconoclasta. O humorista é o ato-falho da consciência coletiva, aquele que diz o que estamos pensando mas jamais diríamos. É aquele que em plena corte pergunta ao Rei, diante da Rainha, se ele troca de cueca com a frequência com que troca de amante. Qualquer outro que dissesse isto iria para o machado e o cepo, mas o Bobo não.

A importância de Glauber independe da opinião de Marcelo Madureira sobre ele (e da minha). E não importa se para cada brasileiro que já viu um filme de Glauber existem 100 mil que já assistiram Casseta & Planeta. Os intelectuais esperneiam diante dessa provocações, mas adianta tão pouco quanto a rã de Galvani espernear sob uma corrente elétrica. Glauber Rocha e Marcelo Madureira são, cada um, exatamente o que fazem.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

1583) Janis e Joan (9.4.2008)



Foram as grandes damas do rock e da música folk, para a minha geração. Eram diferentíssimas entre si, foram contemporâneas, e até hoje não sei se chegaram a se encontrar pessoalmente. Em geral, quem era doido por uma delas olhava a outra com desconfiança, mas para mim, aos dezoito anos, eram as minhas Musas. Eu colocava seus elepês alternadamente, ouvia-os com a mesma paixão, acreditava, com a mesma intensidade, no que cada uma dizia. Quando cantavam seus males de amor, eu fantasiava que as estava recolhendo sob o meu braço protetor, e dando-lhes carradas daquele carinho de que tanto precisavam.

Janis Joplin era aquela contradição viva, uma branca que cantava como uma negra, rasgando a alma em tiras em cima do palco. Ela se queixava: “Faço amor com 20 mil pessoas durante três horas e depois volto para o hotel para dormir sozinha”. Era gordinha, branquela, sardenta, desajeitada. Tomava todas, provava de tudo. Não seria em hipótese alguma a garota que a gente gostaria de apresentar como namorada: “Papai, mamãe, esta aqui é Fulana...” Janis tinha aquele jeito escrachado e irreverente que ressurgiu anos depois em Cássia Eller, um jeito de bicho-do-mato difícil de domesticar. Ria alto, chamava nomes, escandalizava, cuspia no chão, coçava a mera hipótese de um saco. Cantava qualquer coisa, e quando cantava a música renascia, surgia pela primeira vez. Morreu de overdose aos 27 anos.

Joan Baez era o contrário disso, mas no mesmo patamar de intensidade. Tinha uma voz de soprano, cristalina, hipnótica. Quando começava a cantar, calavam-se, como nas lendas medievais, os pássaros nas árvores, as fontes nas colinas. O que tinha Janis de dionisíaca tinha ela de apolínea, sempre de branco, os cabelos negros muito longos e lisos, o perfil clássico de estátua grega. Era de ascendência mexicana, cantava em várias línguas. No primeiro LP seu que possuí, ela cantava “Muié Rendeira” e a “Bachiana no. 5” de Villa-Lobos. Era tímida, reservada, enigmática. Na música brasileira, seu jeito lembra o de Ná Ozetti. Preservava sua vida pessoal. Mas quem quiser a prova do estrago que Bob Dylan fez no seu coração, ouça “Diamonds and Rust”, composta para ele.

Falo das duas no passado, mas Baez ainda está viva, aos 67 anos, uma bela senhora cujos cabelos agora estão brancos e curtos. A voz, pelo que vi num especial de TV, continua a mesma. O mundo segue a ordem natural das coisas. Os dionisíacos queimam depressa, como uma lâmpada supervoltada. Os apolíneos queimam devagar como uma vela, cujo corpo diminui de tamanho mas a chama permanece a mesma. O olhar de Joan Baez revela hoje uma maturidade que parece sempre ter tido, e da qual ela precisa para aceitar o fato de que o mundo em que vive agora é o oposto do que sonhou um dia. Janis, neste mundo de hoje, seria muito mais feliz do que ela, mas explodiu cedo, o que para nós talvez não faça diferença, porque a luz que emitiu não dá sinais de arrefecer.

1582) Um crime imperdoável (8.4.2008)



Zezinho é operário da construção civil e gatuno contumaz, acostumado a dar-um-ganho nas posses alheias sempre que arranja um jeito. Trabalha no acabamento de edifícios, e não é raro que esteja finalizando um trabalho num prédio onde outros apartamentos já estão ocupados pelos moradores. No fim de uma tarde propícia, ele dá um jeito de ficar por último. Uma vez sozinho, pega uma gazua (ou cópia de chave, obtida em cumplicidade com o porteiro) e entra em algum apartamento cujos moradores estão fora. Pega coisas miúdas e cai fora. Seu grande golpe até hoje foi um notebook, que levou dentro de um jornal.

Uma noite, Zezinho fez a manobra habitual, mas teve azar. Estava no apartamento há poucos minutos quando ouviu a porta da frente se abrir e o dono da casa entrar. Pelo que o homem murmurava, Zezinho (que se escondeu rapidamente e prendeu a respiração) percebeu que ele trazia a filha semi-adormecida, que a deixava na cama de um dos quartos, e ia à garagem trazer o resto da família. Zezinho amaldiçoou-se pela falta de sorte, mas sabia que tinha alguns minutos para cair fora. Esperou o homem sair. Quando ouviu a batida da porta da frente, contou até vinte e saiu, pé ante pé.

Talvez tenha feito barulho, ou talvez a garota tenha levantado por algum motivo. Ela o viu passando no corredor, assustou-se, correu para a porta gritando pelo pai. Zezinho agarrou a menina, começou a bater nela; a garota chorava e chamava o pai. Desvencilhou-se dele e fugiu para o quarto. Zezinho a perseguiu, desesperado. Ele mesmo não lembra direito o que fez em seguida, mas depois de feito precisava ganhar tempo. A janela tinha uma tela de nylon. Ele a cortou com o que viu à mão. Enfiou por ali o corpo, deixou-o cair, achando que a queda atrairia todo mundo para o térreo. Saiu aos tropeções pela porta da frente do apartamento, e ao chegar às escadas ainda ouviu o elevador se abrindo e as vozes da família.

É absurda, minha história? Pode não ter acontecido, mas improvável não é. Por que até agora ninguém pensou numa história parecida com relação à morte da menina Isabela, dias atrás, em São Paulo? O pai e a madrasta da menina estão presos, e existe uma corrente-pra-frente, da imprensa e da opinião pública, querendo a punição dos dois. Talvez sejam culpados, por que não? Violências irrefletidas acontecem por aí, o tempo todo. Mas parece que, hoje em dia, a hipótese de um pai matar a filha dessa maneira é tão lógica, tão normal, tão previsível, que nem mesmo a hipótese de um suposto “Zezinho” (ou outra qualquer) é considerada. Espero que a polícia a esteja considerando, porque a imprensa em geral, até agora, já decidiu quem é o culpado (embora, escaldada, não o diga com todas as letras). É terrível o que vou dizer; mas de certo modo tenho esperança de que o culpado seja mesmo o casal. Porque se eles forem inocentes, o crime que está sendo cometido contra eles é tão grave quanto o assassinato de uma criança.

1581) Eu quero mudar o mundo (6.4.2008)




É um tique mental de nossa época. Todas as vezes que critico algo de errado, alguém diz: “Que é isso, rapaz! Você é um daqueles ingênuos que querem mudar o mundo?!” Claro que quero, sim, mudar o mundo, e não acho que seja ingênuo por querer isso. (Sou ingênuo noutras coisas; não nessa.) Querer mudar o mundo nunca foi ingenuidade, nunca foi utopia. Mudar o mundo não apenas é possível. É inevitável. Mudamos o mundo o tempo inteiro enquanto estamos vivos, enquanto estamos andando, agindo, falando, fazendo coisas. Optando, influenciando, interferindo.

Quando eu tinha dezesseis anos, a palavra de ordem era “mudar o mundo”. O cinema daquela época, a música popular, a literatura, o teatro, tudo que se fazia naquela época tinha como objetivo mudar o mundo. OK, nem tudo era assim – mas a parte mais significativa, mais inovadora, mais criativa e mais inteligente era assim. Todo mundo queria mudar o mundo. A expressão hoje na moda, “fazer sucesso”, já existia, mas era condicionada ao sucesso de cada um nessa tarefa, ou seja, à quantidade e qualidade de mudanças que cada um conseguia produzir.

Porque na verdade ninguém muda o mundo inteiro, instantaneamente, com um estalar dos dedos, uma batida da varinha-de-condão, não é mesmo? Os rapazes espertos de hoje, que só pensam em sucesso (leia-se: ganhar muito dinheiro), parecem supor que os projetos antigos de “mudar o mundo” buscavam isso – uma mudança tipo conto-de-fadas, um clique, um enter, um play. Pois olhe, naquele tempo não havia mudança que não exigisse esforço, trabalho, sacrifício; que não exigisse estudo ou preparação. O ideal de “mudar o mundo” não tinha a visão de hoje, quando tudo parece ser acessível e acessável, quando ninguém precisa nem saber ler para poder navegar, quando nem é preciso saber escrever para escolher o produto, basta levar até ele o dedinho do cursor e apertar o botão.

Estou sendo irônico com a cultura digital? É meu direito, porque foi minha geração, a dos cinquentões, que a inventou. Tim Berners-Lee, que inventou a World Wide Web, é mais novo do que eu; Bill Gates e Steve Jobs também. (Não digo isto para me gabar, porque além desse dado numérico não tenho muito a ver com esse pessoal.) Foram necessárias muitos milhões de noites em claro, simultaneamente, para criar os programas e protocolos que possibilitam a galera de hoje estar a um clique de distância do produto que querem comprar ou da foto de mulher pelada que estão procurando. (E, mais uma vez, não quero ser melhor do que ninguém – também compro produtos e olho foto de mulher pelada.) A poesia e o cinema talvez não mudem o mundo tanto quanto a informática e a política, mas mudam, sim, tudo muda. O mundo muda como o vento se move. Só é vento porque está se movendo, e só é mundo porque está mudando. Cabe à gente embarcar na mudança (que ocorrerá, queiramos ou não) e dizer: “Já que vai mudar, é pra mudar assim”. E mostrar como.