segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

1505) Alberto Cunha Melo (9.1.2008)


O ano de 2007 levou consigo muita gente no mundo das artes – talvez Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni tenham sido os nomes de maior repercussão internacional. Uma perda que me tocou de perto foi a do poeta Alberto Cunha Melo, que não sei se tenho o direito de chamar de amigo, porque nos encontramos apenas uma meia dúzia de vezes nos anos 1980, quando ele era (com Jaci Bezerra) um dos capitães das Edições Pirata, de Recife, onde publiquei meu primeiro livro de poemas em 1980. Nascido em Jaboatão em 1942, Alberto viveu a vida inteira (creio) no Recife. Era um grande admirador da poesia popular, e tenho aqui comigo seus fininhos mas preciosos livros sobre Job Patriota e Lourival Batista.

Como diz ele no poema “Alguma Pressa na Calçada”, “as pessoas se descobrem / muito tarde: / só se vêem / e se falam / (mesmo) / quando já passaram”. Mais peso do que as amizades pessoais tem, às vezes, a leitura calada e constante do que é escrito por alguém que apenas cumprimentamos à distância. Seu livro Noticiário (1979) me fez companhia em muitas viagens e mudanças, e não acho que seja pretensão de minha parte perceber sua influência sobre a dicção de numerosos textos de meu segundo livro (Sai do meio que lá vem o filósofo, 1982). Alberto fazia uma poesia madura e corajosa que olhava o Brasil como ele é. “Mas, às vezes, despertamos / para salvar / aqueles que se afogam / nas águas do nosso despertar” (“Nos Escombros da Comunidade”).

Os poemas curtos desse livro têm uma ternura e uma crueldade que lembram os melhores poemas de Brecht: “É assim que um homem / começa a sobrar na terra. / Justamente quando começa / a dispersar em suspiros / sua grande explosão” (“Neo-Romantismo à Nordestina”). São poemas que vão de cinco ou seis linhas até quinze ou vinte, sem forma fixa, mantendo um ritmo coloquial, coeso, que não exclui uma surpresa verbal a cada verso, uma imagem insólita, uma comparação dolorosa e verdadeira. Como quando ele diz (em “Operação Fênix: Relatório”) que “as crianças sempre encontram / muita coisa para brincar / depois dos bombardeios”. Ou quando, em “Aos Poetas Patriotas”, ironiza o trabalho burocrata dizendo: “estive sempre em salas / onde o tempo e as mãos / eram mais vigiados / do que o céu pelos camponeses”. Ou quando diz em “Help aos Periféricos”: “Londres pedia socorro / aos que nela buscavam / refugiar-se”.

Alberto morreu em outubro passado, de complicações surgidas após um transplante de fígado. Muito material seu pode ser encontrado em seu saite: http://www.albertocmelo.com/. Dele guardo os versos de “Oração Pelo Poema – XXVI”: ““A cem quilômetros por hora, / solto a direção do automóvel / para escrever alguma coisa / mais urgente que minha vida. / (...) Ó meu Deus, eu quero escrever / a minha vida, não teu Céu. / Eu estou só e enlouquecido / como as ovelhas mais longínquas. / Dá pelo menos a esperança / de terminar o doloroso / poema. Dá isso a teu filho, / caído, e coberto de sal”.

1504) “O Amor nos Tempos do Cólera” (8.1.2008)



Não li o romance de Gabriel Garcia Márquez em que se baseou este filme de Mike Newell, em cartaz na Paraíba. Talvez esta lacuna me dê um pouco de imparcialidade para julgar o filme, pois não estarei influenciado pela paixão que me desperta a prosa do colombiano. Numa entrevista à TV, Márquez já afirmou que o mais importante de seu texto é a voz narrativa e o ritmo encantatório que ela impõe ao leitor. Ele admite que muitas coisas ditas ou contadas por essa voz que cria seus livros são irrelevantes ou contraditórias, mas estão ali porque mantêm o ritmo, mantêm hipnotizado o leitor. “Bastaria uma palavra errada”, diz ele, “e todo o encantamento se quebraria, o leitor deixaria de acreditar no que lê”.

Sua prosa – inclusive os poucos trechos que já li do “Amor nos Tempos do Cólera” – consegue essa proeza de atingir um máximo de ritmo e melodia (inclusive pela escolha cuidadosa dos verbos, dos objetos de cena, do riquíssimo contexto cultural por trás de um simples quarto ou uma simples vestimenta), e um máximo de história contada. Porque a história (os enredos de GGM são sempre inusitados) poderia em tese ser contada por quaisquer outras palavras, mas ele consegue contá-las com aquela prosa emblemática, sensorial, cheia de carnaduras visuais inesquecíveis.

Na tela do cinema, esse brilhantismo estilístico se desfaz nas mãos de diretores que, talvez amarrados ao dever de fidelidade ao argumento original, conseguem mantê-lo, mas sem produzir uma voz narrativa que transfixe o espectador, obrigue-o a prender a respiração a cada mudança de cena, desoriente-o e seduza-o pelas imagens, a tal ponto que ele nem perceba a história que está assimilando. Esta adaptação de Mike Newell tem numerosas qualidades, mas são todas as qualidades daquilo que em crítica de cinema chamamos de “artesanato competente”. O filme é bem feito, inclusive nas colaborações a cargo de dois brasileiros, o fotógrafo Affonso Beato e o autor da trilha sonora, Antonio Pinto (filho de Ziraldo). Fernanda Montenegro faz com firmeza um papel secundário, e o elenco em geral é bom. Mas todos os triunfos do filme têm um gosto de gol de pênalte.

São muitas as adaptações de romances latino-americanos, por diretores europeus ou dos EUA, que têm esse mesmíssimo perfil. Nota-se que o cineasta ama a obra original, procura ser-lhe fiel, mas parece o tempo inteiro estar lidando com algo que, escrito em outro idioma, recusa-se obstinadamente a deixar-se traduzir. Falta doidice a esses filmes, a doidice e imprevisibilidade dos personagens de GGM. O filme é belo e agradável, mas nós não conseguimos ver a história de Florentino (e seu amor impossível pela mesma mulher, durante 51 anos) do ponto de vista desse sonhador. Vemo-la por um ponto de vista como o do seu rival, o médico: frio, correto, impassível, suavemente autoritário, e ao mesmo tempo totalmente cego para o que se passa à sua volta.

1503) O peixe e a pescaria (6.1.2008)


(ilustração: Julie Paschkis)

Todo mundo conhece aquela frase: “Se um homem está com fome, melhor do que dar-lhe um peixe é ensinar-lhe a pescaria”. Claro que depende das circunstâncias – se o sujeito está desfalecendo de fome e mal pode se mover, dar-lhe um prato de comida pode ser mais importante, num primeiro momento, do que oferecer-lhe um emprego. Esse processo reproduz mais ou menos o que fazemos com nossos filhos. Assim que nascem começamos a dar-lhes tudo: alimentação, cuidados médicos, carinho, educação. Aos poucos, vão adquirindo habilidades, responsabilidades, desenvoltura. Até que chega o dia em que consideramos que eles já sabem pescar, e os abraçamos, dizendo: “Vai, meu filho! Vai, minha filha! Voa alto, porque tuas asas já estão prontas e fortes!” (Problema é que essa cena tão bonita nunca acontece – são eles que decidem por conta própria cair fora, e somos os últimos a ficar sabendo).

Isto me vem à mente quando, por inusitado que pareça, estou vendo certas manifestações artísticas de qualidade constrangedoramente ruim. São os versos tatibitates da poetisa jovem, são os vídeos caóticos do aprendiz de cineasta, são as músicas banais do recém-compositor de MPB, são as peças de teatro estudantis que não passam de uma sucessão de clichês recitados com voz pomposa e postura rígida. O que devemos fazer diante disso? Encorajar? Criticar? Mandar mudar de vocação?

Talvez nessas horas a gente deva distinguir entre duas atitudes. Devemos perguntar: “Essa pessoa está me oferecendo um peixe que pescou. O que é importante, o peixe ou a pescaria?” Quando o jovem artista está ainda procurando seu caminho, devemos deixar de lado a qualidade do peixe, porque não é ele que conta. O peixe pode ir para o lixo, se não prestar, como é para o lixo que vão nossos rascunhos insatisfatórios, nossas cenas mal filmadas, e assim por diante. O produto é o que menos importa, porque ali se trata de um processo de aprendizado, de uma pescaria onde só conta a educação do pescador.

O problema é quando esses trabalhos já se dão dentro de um contexto profissional ou oficial, num contexto em que se pressupõe que o sujeito já é capaz de produzir obras ou trabalhos ao nível dos que constituem o que uns chamam O Mercado, mas que podemos chamar (atenuando o aspecto mercantilista da coisa) de A Cena Cultural – o ambiente em que obras são exibidas a sério e apreciadas pra valer. Aqui, parte-se do princípio de que o pescador já está pronto, e o que passa a ter importância é a qualidade do peixe que ele fornece. Um filme exibido num cinema, um romance enviado a uma editora profissional, uma peça que reserva pauta num teatro, um show que cobra ingressos – tudo isto deixa subentendido que seus autores não estão mais aprendendo a pescar. A benevolência que poderíamos ter para com suas limitações ou seus erros se dilui no momento em que eles nos tentam, literalmente, vender seu peixe.

domingo, 10 de janeiro de 2010

1502) A certeza dos profetas (5.1.2008)



As narrativas mitológicas nos acostumaram à idéia dos profetas desacreditados, como Tirésias ou Cassandra. Eles enxergaram o futuro e sabem o que vai acontecer, mas ninguém lhes dá crédito. Tirésias é expulso do palácio por Édipo, ao lhe revelar a verdade sobre a morte de seu pai, o rei Laio. Cassandra foi amaldiçoada por Apollo, o qual determinou que ela poderia ler o futuro, só que ninguém acreditaria no que ela revelasse. Mas os profetas continuam insistindo, com uma certeza íntima que acaba carreando para o seu lado um pequeno grupo de crentes, para os quais importa menos a plausibilidade da profecia do que a veemência com que é bradada.

“Virá, que eu vi!” O belo verso de Caetano Veloso em “Um Índio” exprime esse paradoxo temporal que está na raiz de toda profecia. Para nós, que ainda não chegamos àquele ponto na Linha do Tempo em que o tal fato vai acontecer, aquilo é futuro, é incerto, é duvidoso. Para o profeta, que teve o vislumbre, é algo que já aconteceu, algo líquido e certo. Aquela revelação virá, porque eu vi que ela já veio.

Uma vez eu estava numa mesa de bar com uma rapaziada paraibana, e a conversa acabou chegando em Zé Ramalho. Uns elogiaram, outros criticaram, dizendo que não entendiam as letras. E aí um dos que o defendiam falou: “Rapaz, eu também não entendo não, mas o cara canta aquilo com uma convicção tão grande que deve significar alguma coisa!” E de fato, cantores como Zé Ramalho e Bob Dylan são sempre associados a esse complicado adjetivo – “profético” – em parte pelo teor messiânico de algumas de suas canções, mas principalmente pelo tom de voz que empregam. No caso de artistas assim, a questão de “ter uma voz bonita” passou lá na esquina da frente e nem se virou. Não é disso que se trata. Zé Ramalho e Dylan têm vozes que para os puristas são desagradáveis, ásperas, ininteligíveis (no caso de Dylan, pelo menos), nada que se pareça a uma voz de “crooner” de “big band”. Nenhum dos dois seria convidado para fazer um show no Cassino da Urca ou em Las Vegas. Mas essas vozes têm algo da certeza inabalável e alucinatória dos profetas, a certeza de quem viu algo e pouco lhe importa se os outros conseguem ver o mesmo ou não.

Dylan, curiosamente, surgiu no seio da música folk norte-americana (esquerdista, contestadora) na época de sua maior mobilização política. Quando percebeu, depois de três discos, que estava virando profeta da esquerda, ele deu uma guinada rumo ao rock-and-roll com seus discos de 1965-66. As letras passaram a tratar de temas psicodélicos, surrealistas, E ironicamente ele acabou virando profeta de novo – o guru da geração rock. Para livar-se disso foi preciso uma retirada forçada – oito anos sem fazer turnê, e gravando apenas discos de música country. O fato de ter sido profeta de duas gerações simultâneas e antagônicas mostra o poder de convicção íntima com que compunha e cantava entre os 20 e os 25 anos, e neste aspecto ninguém o igualou.

1501) Onde começar a história (4.1.2008)


(Leon Tolstoi)

Um aspirante a escritor perguntou a um autor famoso como deveria escrever um romance, e ouviu como resposta: “Comece pelo princípio, e quando chegar ao fim, pare”. Típica resposta de quem está num coquetel, querendo conversar amenidades, e sem disposição para teorizar questões técnicas. Uma das principais dificuldades em contar histórias (seja na ficção, no jornalismo, onde quer que seja) é o fato de que começo e fim não são pontos claros e indiscutíveis. Qualquer evento pode ser começo de uma história e final de outra. Fazemos uma escolha arbitrária, dependendo de que história queremos contar.

Um texto de James Wood sobre Tolstoi no The New Yorker (em: http://www.newyorker.com/arts/critics/atlarge/2007/11/26/071126crat_atlarge_wood?currentPage=all) revela um detalhe curioso da concepção de Guerra e Paz. Diz ele: “Tolstoi queria, a princípio, escrever sobre 1856, narrando o retorno de um nobre com idéias revolucionárias, após seu exílio na Sibéria. Mas para escrever bem sobre 1856, no entanto, ele achou que precisaria retroceder até 1825, quando os rebeldes aristocratas chamados “dezembristas” foram executados ou exilados. Mas 1825 não poderia ser evocado, conforme Tolstoi explicou numa anotação, sem se falar no ano histórico de 1812, quando Napoleão invadiu a Rússia e ocupou Moscou por quatro semanas. Mas 1812 também precisaria de uma preparação, e é por isso que o romance se inicia em 1805”.

Este processo lembra o paradoxo de Zenão de Eléia, que diverte muito os estudiosos de filosofia. Diz ele que para ir do ponto A ao ponto B precisamos passar primeiro por um ponto C, que fica na metade da distância entre os dois. Muito bem. Mas para passar pelo ponto C é preciso passar pelo ponto D, que fica no meio do caminho entre A e C. Só que para chegar nesse ponto D precisamos passar primeiro pelo ponto E, que fica a meio caminho entre A e D. E assim por diante. Nunca podemos chegar no ponto que desejamos, porque antes dele temos que atingir outro, e outro, e outro.

Do ponto de vista filosófico, é uma falácia. Para atingir infinitos ponto, não precisamos de infinitos movimentos, mas de um movimento contínuo que cubra esses pontos num mesmo impulso. Qualquer pessoa que já foi até a geladeira pegar uma cerveja corta esse nó górdio. No caso da literatura, contudo, entram outros fatores. Imagino que Tolstoi queria criar um romance histórico gigantesco (como de fato criou) contando a história da Rússia, assim como Érico Veríssimo quis contar a história do Rio Grande do Sul em O Tempo e o Vento e Ariano Suassuna a da Paraíba no Romance da Pedra do Reino. O problema com o romance histórico é que a História não tem começo nem fim. Antes de cada fato histórico ocorreu outro que o influenciou. Definir onde se começa a narrativa é uma decisão literária que mais cedo ou mais tarde o autor tem que tomar, se pretende começar o livro pra valer.

1500) O bem sucedido (3.1.2008)


Era um ator maduro, bem-sucedido, cheio de prêmios e de admiradores. Dando entrevista num programa de TV, começou a rememorar seu início de carreira. “Nunca pensei que entraria para o teatro”, disse ele. “Mas quando eu tinha uns dezoito anos namorei com uma garota que era atriz de um grupo estudantil. Por causa dela, passei a frequentar os ensaios, e depois que a peça estreou eu ia todas as noites. Daí a pouco já era amigo de todo o grupo, inclusive o diretor. Um dia adoeceu um ator que fazia um papel pequeno, com duas ou três falas, e como eu tinha um tipo físico parecido, me pediram para substituí-lo por aquela noite. No outro dia o ator, que se chamava Oséas Martins, também não veio, e eu voltei a substituí-lo. E acabei fazendo o papel até o fim da temporada”.

Daí em diante ele foi pegando gosto pelo trabalho, e participou de outras peças. Entrou para um grupo profissional. Fez cursos, oficinas. Estudou teatro por conta própria, comprando livros e mais livros. Ganhou prêmios, Viajou pelo país. Participou de filmes, que o levaram, em imagem e em carne e osso, para outros continentes. Ficou famoso, rico, comprou uma mansão, casou e descasou várias vezes, teve meia-dúzia de filhos.

E ele encerrou o depoimento dizendo: “Mas olhe, ainda hoje, aos setenta anos de idade, eu tenho um receio. Sabe qual é? É que uma noite eu esteja na minha mansão no Morumbi, descansando, ou estudando o meu próximo papel, e a campainha toque. Um dos criados virá até meu escritório trazendo um rapazinho de dezoito anos, muito parecido comigo quando eu tinha essa idade. E esse rapaz me dirá: Eu sou Oséas Martins, e vim buscar tudo que é meu”.

Sartre, em As Palavras, tem um trecho muito divertido em que ele diz sentir-se, no Mundo, como um passageiro que está viajando de trem sem ter comprado bilhete, e temendo que a qualquer instante o condutor apareça para cobrá-lo. Todos nós temos, principalmente quando somos bem-sucedidos, essa sensação mista de culpa e de não-merecimento. No caso do ator, ele reconhece que todas as chances que teve e que aproveitou com mérito próprio resultaram de uma casualidade, do fato de um ator obscuro ter adoecido e abandonado uma peça. Claro que o que ele conseguiu na vida não era exatamente o que Oséas Martins conseguiria se tivesse prosseguido com o grupo. As situações, as opções, seriam todas diferentes. Mas ele reconhece, na sua angústia, que num momento decisivo entrou o fator sorte para colocá-lo no caminho certo, e isso enfraquece suas certezas.

Sartre livrou-se do condutor negando a religião. Afirmou que o trem, ou seja, o universo, não tem maquinista, não tem condutor, nada. O trem surgiu por acaso, não há nenhuma empresa emitindo bilhetes, e quem viaja ali não precisa ter cumprido nenhuma formalidade prévia. A existência precede a essência: a gente surge dentro do trem, e só depois é que as negociações começam, porque não existe estação nem bilheteria.

sábado, 9 de janeiro de 2010

1499) Os triângulos sagrados (2.1.2008)



Dentro do misticismo cristão, há dois conjuntos de símbolos sagrados que sempre chamaram minha atenção pela sua aparente simetria, mas uma simetria que num segundo exame se mostrava imprecisa ou incompleta. Refiro-me aos dois triângulos formados pela Santíssima Trindade e pela Sagrada Família. Ambos sugerem o triângulo familiar básico (pai, mãe, filho), mas em ambos falta ou sobra um elemento. Por quê?

Vejamos a Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e – no lugar da mãe – o Espírito Santo. Esta última entidade é para os não-cristãos a mais enigmática, a mais difícil de visualizar. No triângulo antropológico da família, ele é uma entidade misteriosa cuja função mais aparente é ocupar o lugar da mãe. Alguns analistas (especialmente da ala feminista) vêem nisso um sinal da impossibilidade da cultura judaica de colocar a mulher numa posição de destaque. Uma cultura patriarcal como a do Velho Testamento talvez ficasse pouco à vontade para definir Deus como “o Pai, a Mãe e o Filho”.

Comparada à Trindade, a Sagrada Família (Jesus, Maria e José) reproduz a estrutura real de uma família humana. Sua incompletude só se revela quando lembramos que, de acordo com os Evangelhos, coube a São José apenas o papel de pai adotivo de Cristo, sendo que a paternidade real é atribuída justamente ao Espírito Santo, emanação da Divindade.

Ao que parece, o Espírito Santo é uma metáfora para algo que a religião se sentia desconfortável em admitir: a relação fecundante que se dá entre o homem e a mulher. Se a Santíssima Trindade fosse composta por “o Pai, o Filho e a Mãe” isto implicaria na presença de uma relação sexual no cerne mesmo da Divindade. Isto foi evitado – talvez por preconceitos de ordem moral, talvez para evitar que a Trindade, uma entidade puramente espiritual, fosse contaminada pela sugestão de um processo reprodutivo típico dos seres de carne e osso.

No caso da Sagrada Família, o processo reprodutivo era indispensável, de vez que a intenção era fazer de Jesus Cristo um ser humano de origem divina mas de carne e osso. Desta vez, em vez de se suprimir a Mãe suprimiu-se o Pai, e mais uma vez suprimiu-se com isto a necessidade da relação sexual. O Espírito Santo encarregou-se da paternidade. Ele não está diretamente presente na Sagrada Família, mas está subentendido na figura de São José, pois cumpriu a função que teoricamente seria deste.

O Divino Espírito Santo é uma essência misteriosa cuja realidade é reconhecida e louvada pela cultura que produziu esses triângulos sagrados. É uma entidade que produz êxtase, iluminação, transcendência; que é capaz de iluminar as pessoas com um fogo sagrado e de fazê-las falar em línguas diferentes. Ele é a Esposa na Santíssima Trindade, e é o Marido na Sagrada Família. É a União Mística do homem e da mulher, o símbolo insolúvel mas evidente que conecta os triângulos do Espírito e da Matéria. Quem já o experimentou não precisa de provas de sua existência.

1498) Feliz Dois Mil e Outro (1.1.2008)



Os anos estão passando cada vez mais depressa desde que virou o milênio. Já repararam? Vapt! O reveillon emenda com o Carnaval, cujos derradeiros clarins já se misturam ao “Olha pro céu” do São João, aí vem a campanha política azucrinando corações e mentes. Quando sai o resultado e os garis varrem os panfletos, os shopping-centers já estão cheios de Papais Noéis. Vupt! Algumas teorias dizem que a Terra está se aproximando do Sol num trajeto em espiral para dentro, o que faz com que cada volta que ela dá seja um pouquinho menor que a anterior. Um ano hoje dura muito menos tempo do que um ano dez anos atrás.

Às vezes enxergamos o tempo como uma reta, e nós um ponto que se desloca da extremidade A, o passado, rumo à extremidade B, o futuro; e o local que ocupamos transitoriamente é o presente. Outras teorias nos ensinam a ver o Tempo como uma transformação de algo imóvel, e não como um deslocamento. Pense na exibição, em câmara acelerada, de uma planta brotando no solo, elevando-se, erguendo um talozinho verde, brotando folhas, encorpando-se, virando arvorezinha, brotando flores, abrigando passarinhos... (Um gremlin maldoso me sugere a próxima frase: “Sendo abatida por uma motosserra...”, mas não lhe demos ouvidos.) O tempo não é o percurso retilíneo de algo imutável, mas as transformações internas que, independentemente de deslocações externas, transportam uma coisa para o próximo estágio dela mesma.

Outra imagem que me ocorre com freqüência é a da coexistência de vários futuros encangados uns aos outros. Imaginem um cacho de bolhas de espuma, de diferentes tamanhos, coladas umas às outras. Cada uma delas é um dos universos possíveis que atravessamos com o transcurso do tempo; nós somos o ar que infla essas bolhas, e podemos passar de uma para outra sem transição intermediária, como num salto quântico. Cada vez que nos defrontamos com uma escolha (“passar o reveillon em casa, tomando vinho e ouvindo música, ou ir para a farra com os amigos?”) temos duas bolhas à nossa escolha, e quando por fim optamos por uma delas fazemos com que ela cresça e se desenvolva, porque somos nós o ar que a expande e a torna mais real.

Pois é, amigos. Final de ano, todo mundo me mandando mensagens de Feliz Ano Novo, de saúde e paz, de mais amor entre as pessoas e mais diplomacia entre as nações... e eu aqui, mais preocupado em entender o formato do Tempo do que em buscar a felicidade. Fazer o quê? Cada qual ostenta as deformações do seu ofício como se fossem outras tantas medalhas de honra ao mérito ou uma camisa em azul-claro que ganhou de presente no Natal. Nunca saberemos o que é o Tempo, talvez porque estejamos impregnados dele, assim como um peixe só percebe que a água existia no instante em que um anzol o arrebata para fora dela. Brindemos ao Tempo e seus mistérios. Melhor que o ponto final das respostas é a melodia inquisitiva das perguntas que nos mantêm vivos e acesos. Feliz Mistério Novo, tin-tin.

1497) O estrangeiro e o estranho (30.12.2007)


(Jamie Bishop, R.I.P.)

Meses atrás um estudante coreano meio descompensado pegou em armas e fuzilou dez ou quinze colegas num campus universitário dos EUA. A notícia me chocou, acompanhei a cobertura, coisa e tal. Um mês depois, li na revista Locus que uma das vítimas fatais era Jamie Bishop, estudante de cinema de vinte e poucos anos, e filho do escritor de ficção científica Michael Bishop. Só então o verdadeiro horror do crime se abateu sobre mim. Por que? Porque Michael Bishop eu sei quem é, já li pelo menos dois grandes livros escritos por ele (Transfigurations e Apartheid, Superstrings and Mordecai Thubana). Bishop, e por tabela seu filho Jamie, pertencem ao meu mundo. As outras vítimas, não. São uma lista de nomes, uma sucessão de fotos. São (aos meus olhos solipsistas, que só reconhecem o que já me pertence) uma mera ficção.

Comentei nesta coluna o quanto fiquei chocado com os atentados a bomba em Bagdá que mataram gente durante as comemorações de uma vitória da seleção iraquiana de futebol. É a mesma coisa. A morte alheia só nos fere e só nos incomoda quando existe um fio invisível, por mais tênue que seja, nos ligando à pessoa que morreu. Pode ser um fiozinho da finura de um fio de aranha e com mil quilômetros de extensão, mas se esse fio sofre qualquer estremeço na outra extremidade isso nos toca, nos modifica, nos faz sentir alguma coisa. Não havendo esse fio, meu amigo, é como alguém dizer: “Morreram 20 milhões de russos na II Guerra Mundial”. Sim – e daí?

Encontrei na Wikipedia uma citação de uma frase anônima na Revue de Paris referindo-se à peculiaríssima moral dos cidadãos de Roma Antiga. Diz o texto: “Os romanos, que tinham apenas uma palavra, ‘hostis’, para designar tanto ‘estrangeiro’ quanto ‘inimigo’, esses romanos, que se riam nos espetáculos da arena, esses romanos ainda assim choravam, como qualquer outro, quando ouviam no teatro um ator recitar: ‘Sou homem, e nada do que é humano me é estranho’”.

Parafraseando Orwell, é o caso de dizermos que todos os homens são humanos, mas alguns são mais humanos do que os outros. Nosso sentimento de clã, de tribo, de família, depende desses filetes de sentimento e de identificação simbólica que nos unem a algumas pessoas mas não a outras. O curioso da citação é que a palavra latina “hostis” signifique ao mesmo tempo “estrangeiro” e “inimigo”. Percebe-se que nessa época conceitualmente nebulosa quem não era um dos nossos estava contra nós. Foi preciso uma certa evolução civilizatória para que os dois conceitos se apartassem. Curiosamente essa duplicidade de sentidos da palavra latina “hostis” nos deu termos que a refletem de forma distante: “hostil” (alguém que nos ameaça), e a palavra inglesa “host”, anfitrião (aquele que recebe estranhos em sua casa). Do mesmo radical vieram, via “hospitus”, os termos “hóspede” e “hospitalidade”, e “hóstia” (simbolicamente, o objeto que recebe em si um espírito estranho, algo que vem de outro mundo).

1496) Repentes sob encomenda (29.12.2007)





É fácil escrever poesia de improviso, e sob encomenda? Parece que sim – aí estão os milhares de violeiros repentistas nordestinos. 

Um professor de uma escola pública em New Jersey pegou um grupo de estudantes do 2o. grau e lhes colocou essa tarefa: praticariam durante algum tempo, e num certo dia iriam instalar umas barracas no centro da cidade, oferecendo-se para escrever poemas na hora, conforme os pedidos dos transeuntes.

O professor Douglas Goetsch publicou um artigo em The American Scholar contando todos os detalhes do projeto. 

Os estudantes colocaram algumas questões logo de cara. Cobrariam dinheiro pelos poemas? “Não,” disse Goetsch. E se não aparecer ninguém para pedir um poema? “Faz parte do risco”. E se pedirem um poema rimado, que eu não sei fazer? “Vamos treinar”. E se não soubermos dizer nada sobre o assunto que pedirem? “Vamos treinar”.

O treinamento era em forma de exercícios obrigatórios, imaginados por ele. 

“Uma mulher tem um primo que está lutando no Iraque e vai dar baixa daqui a três meses. Ela quer um poema desejando-lhe boa sorte e boa volta à casa”. 

“Um torcedor do time de basquete da escola quer um poema para uma garota da torcida uniformizada chamada Francine. Ele quer um poema rimado. Você tem dois minutos”. 

“Um homem quer um poema para a esposa dele, pedindo desculpas por ter criticado seus talentos culinários; é a primeira briga conjugal dos dois”. 

O professor queria desenvolver neles aquilo que Keats chamava de “negative capability”, algo como “aptidão, ou capacidade para lidar com situações negativas” – o mistério, o conhecimento insuficiente. Ou seja: trabalhar, sem reclamar, com os dados disponíveis.

As primeiras semanas de treino foram duras. Diz Goetsch que os alunos tinham 16, 17 anos, e eram talentosos, mas tinham pouco conhecimento de técnica (tipos de poema, de métrica, de rima). Nunca tinham praticado a poesia a sério. 

O professor ensinou-lhes a praticar o hai-kai, o soneto, a vilanela, o limerick, a ode, a balada. No dia em que foram para a rua, atenderam todos os pedidos. Apareceu até um “freguês”, um professor da universidade local, que pediu uma vilanela tendo como assunto “macacos”. Uma das garotas produziu em poucos minutos o poema pedido: 

“Monkeys swinging in the trees 
small and brown with lots of hair 
staring strangely down to me...” 

O relato de Goetsch mostra como pessoas com talento podem, se treinadas, produzir improvisos de boa qualidade.

O que é preciso para fazer poesia assim? 

Primeiro: vasto repertório de técnicas, formas, recursos, truques criativos. 

Segundo: prática constante. 

Terceiro: a “negative capability” necessária para saber que naquele instante o mais importante não é produzir um grande poema, mas um poema rápido, legível e coerente, dentro do tema solicitado e do tempo disponível. 

Um dia, um desses poemas improvisados poderá ser um grande poema.