Existem algumas centenas de monstros-de-Frankenstein
espalhados pelo cinema, pela literatura, pelas artes gráficas. O cientista
criado por Mary Shelley, o doutor Victor Frankenstein, descobriu um ovo de
Colombo: a capacidade inesgotável de criar um ser a partir de pedaços de outras
criaturas.
O mito de Frankenstein completou duzentos anos (o livro
original de Mary Shelley é de 1818) e nada indica que esteja se esgotando. Cada
escritor, desenhista ou cineasta retalha pedaços das obras alheias e com eles
compõe a sua. “Frankenstein” é, de certo modo, uma vasta metáfora da
reciclagem, da pirataria, da canibalização (reutilização de obras já
existentes, em outro contexto), da colagem de pedaços alheios para produzir uma
criatura monstruosa que em princípio nem sequer conseguiria estar viva. “E no entanto ela se move.”
(Ilustração de Theodor von Holst para a edição de 1831 do livro)
O inglês Brian Aldiss advoga, desde a primeira edição de
seu estudo Billion Year Spree, que a
ficção científica começou com o livro de Mary Shelley, e tem bons argumentos
para isto. Aldiss define assim o gênero:
A ficção científica é a busca de uma definição do homem e de seu status
no universo, baseada em nosso atual estágio de conhecimento (avançado, ainda
que confuso) e é tipicamente delineada no modo Gótico ou pós-Gótico.
(The
Encyclopedia of Science Fiction, trad. BT)
Há um número espantoso de histórias de FC que de
científicas têm apenas a superfície, a parafernália, os adereços. Estão a
anos-luz de distância da mais básica verossimilhança científica. Parecem
ignorar o método científico. Passam por cima de verdades científicas básicas,
sem o menor constrangimento. Por exemplo: histórias de espaçonaves mais rápidas
que a luz, ou histórias de máquinas do tempo.
São fantasias científicas, na verdade. Histórias desbragadamente
fantásticas que pedem emprestados os figurinos da Ciência, não para ridicularizá-la,
mas para imaginar melhor, alcançar outras regiões do pensamento.
E algumas dessas histórias usam de maneira até exagerada certas
convenções da literatura Gótica, como sugere Aldiss. A impressão de que o mundo
é governado por forças inexplicáveis (e isto não se refere nem a Deus nem ao
Diabo). A sensação de pequenez e de impotência do ser humano diante de um
universo hostil. A carga e o peso de uma culpa cósmica, um pecado original que
não se refere ao critério religioso, mas ao simples fato de existir.
(Guillermo Del Toro)
Uma narrativa está vibrando num diapasão Gótico quando
nela se verifica uma invasão trágica do sobrenatural no mundo físico, e uma
invasão do Passado no Presente.
E nas histórias de Ciência Gótica, essa invasão se dá
mediante o uso alucinado da Ciência, o seu uso arrogante, egocêntrico,
desafiador, o uso de quem tenta ultrapassar limites, fazer o que não pode ser
feito. Daí que o título original do livro de Mary Shelley seja: Frankenstein, ou O Prometeu moderno. A
ciência é um desafio aos deuses.
A imaginação visual de Guillermo Del Toro parece feita
sob medida para esses temas, e o seu Frankenstein
está à altura da riqueza visual de seus outros filmes, em termos de direção
de arte, cenografia, fotografia, iluminação, etc. Numa entrevista, o diretor
lembra que o laboratório do Dr. Victor Frankenstein não é descrito no livro de
Mary Shelley. É uma criação do cinema e das artes visuais. Uma criação que não
cessa se se ampliar e se enriquecer, como este filme demonstra.
(A Noiva de Frankenstein, 1935)
Del Toro comenta também que para ele o filme é uma fábula
da paternidade, da relação pai/filho. Diz que se tivesse feito o filme vinte
anos atrás, estaria falando de sua relação com seu pai; fazendo-o agora, está
falando disto, mas também de sua relação com seus filhos.
O que não deixa de lembrar o conto de Jorge Luís Borges
“As Ruínas Circulares” (em Ficções, 1944),
onde um mago se dedica a sonhar um ser humano, imaginá-lo mentalmente com tal
intensidade que será capaz de dar-lhe existência física:
Todo pai se preocupa com o destino de um filho que gerou (que permitiu)
num momento de mera vertigem ou êxtase; era natural que o mago se preocupasse
com a sorte desse filho, pensado entranha por entranha, detalhe por detalhe, ao
longo de mil e uma secretas noites. (trad. BT)
Na lenda de Frankenstein a tragédia se desencadeia pela hubris do cientista, que se decepciona
com sua criatura, acha-a disforme, rudimentar, monstruosa, indigna do gênio que
a criou.
A criatura sempre se rebela contra o criador? O criador sempre subestima o poder da
criatura? O criador acaba sempre por desdenhar
a criatura?
Robert Ryan (em The
Penguin Encyclopedia of Horror and the Supernatural) faz um comentário
muito afinado com o filme de Del Toro:
Se [o Frankenstein de Mary Shelley] era de fato um protesto ou um alerta consciente, não o era contra a
tecnologia em si, mas contra a tendência humana de deixar a tecnologia à
vontade para criar ou descobrir sua própria ordem natural. O pecado de Victor
Frankenstein não é sua criatividade, mas sua falta de empatia e de
responsabilidade moral. O problema, sugeria Shelley, não é que as nossas
invenções sejam refratárias ao nosso controle, mas que nós perdemos a motivação
para as controlar e para lhes impor uma ordem humana capaz de refletir nossos
melhores valores e ideais. (p. 161, trad. BT)
Talvez o monstro mais frankensteiniano produzido pela
Ciência de hoje seja a Inteligência Artificial.
Ela também é fruto de um laboratório caríssimo, só que
agora um projeto coletivo, faraônico, espalhado por todo o planeta, trabalhando
em várias frentes simultâneas (ChatGPT, DeepSeek, Grok, Gemini, Midjourney...).
É também um processo que se dedica também a retalhar e
recombinar pedaços de uma cultura que já existe. Frankenstein recolhia e
recombinava partes de cadáveres. A I. A. recolhe e recombina, inclusive, obras ainda
em catálogo, de autores ainda vivos.
As reações diante desse novo “monstro” variam: existe a
fascinação temerosa, a exploração oportunista, e o desdém intelectual diante de
algo que julgamos “incapaz de um dia possuir uma inteligência igual à nossa”.
Enquanto isto, as I. A. vão proliferando,
desenvolvendo-se numa rapidez quase exponencial, acumulando erros, acumulando
acertos, incorporando lições, desenvolvendo um tipo de inteligência que aos
poucos, em vez de tentar imitar a nossa, procurará se afastar dela, desenvolver
as vantagens que têm em relação a nós, e contornar os aspectos em que lhe somos superiores.
A criatura verá com que olhos os seus criadores?
Nenhum comentário:
Postar um comentário