quarta-feira, 19 de agosto de 2026

5249) "Backrooms" e os espaços liminares (19.8.2026)



 
A mitologia dos espaços liminares está se propagando com rapidez. Ela envolve a noção do ambiente fantástico em si, e de uma estranheza que não brota da presença de monstros, nem de seres sobrenaturais, mas da própria natureza do espaço em que transcorre a ação.  
 
O espaço liminar nos produz a impressão contraditória de ser um espaço humano e ao mesmo tempo não-humano, um espaço que à primeira vista parece banal e cotidiano, mas à segunda vista passa uma impressão de uma estranha morbidez, de algo “que não está certo”. 
 
A Internet e seus grupos de malucos obsessivos contribuiu muito para isto através do meme do “Yellow Room”, sobre o qual já falei aqui: 
 
“The Yellow Room”:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2024/06/5068-os-espacos-liminares-362024.html
 
O recente filme Backrooms (Kane Parsons, 2026) deu uma esquentada nesse tema, o que aliás o jovem diretor de 20 anos já vinha fazendo através de uma série homônima de vídeos no YouTube, cujo sucesso fez surgir uma produtora capaz de bancar um filme dirigido com bastante segurança, apesar de várias concessões ao cinema-clichê (falo disso mais adiante). 
 
O conceito de espaço liminar flutua muito próximo do conceito de “Uncanny Valley” – aquela imprecisa região mental em que um rosto ou vulto nos parece estranhamente humano e ao mesmo tempo não-humano. Ou quando, de acordo com a descrição de Sigmund Freud (The Uncanny, 1919), vemos um manequim ou estátua e pensamos tratar-se de uma pessoa, ou vemos uma pessoa que nos dá a sensação de um ser artificial. 
 
No filme, Clark (Chiwetel Ejiafor) é um arquiteto frustrado que virou dono de loja de móveis. Ele separou da mulher, e está fazendo terapia com a dra. Mary (Renate Reinsve), a qual também tem lá seus traumas mal resolvidos. Ele descobre na parede da loja uma passagem para um “espaço liminar” surrealista, aleatório, inexplicável. E ali dentro acontecem coisas estranhas. 



(The Yellow Room)
 
Kane Parsons baseia sua paleta de cores e o senso de desorientação espacial na foto famosa do “salão amarelo”. É um espaço labiríntico, mas um labirinto desmiolado. Não parece destinado a confundir ninguém; ele próprio é confuso, ou é o produto confuso de alguma semi-inteligência super-poderosa. 
 
Sua geografia interna lembra o clássico exemplo de Jorge Luís Borges em “O Imortal” (1947): 
 
No palácio que imperfeitamente explorei, a arquitetura carecia de fim. Abundavam o corredor sem saída, a alta janela inalcançável, a porta aparatosa que dava para uma cela ou para um poço, as inacreditáveis escadas inversas, com os degraus e a balaustrada para baixo.
 
O conto de Borges vem influenciando gerações sucessivas, mas ele próprio já traz em si a influência de Piranesi, e talvez de seu contemporâneo M. C. Escher. 



Mais do que isto, porém, Kane Parsons, nascido em 2005, traz para seu labirinto o espaço dos jogos eletrônicos, o gamespace, algoritmicamente multiplicável, reprodutível, inexaurível. Há um excesso de espaço; não de um espaço preexistente, e sim de um espaço que se expande à medida que o jogador avança. Um espaço não-real, um espaço subjetivamente criado pelo desejo do jogador ao dar um passo à frente. 
 
O arquiteto Clark faz tentativas valentes de domesticar mentalmente este espaço: ele marca na parede os portais de entrada e saída, e tenta mapear os salões que percorreu. 








 
Backrooms tem sido chamado pela crítica de “Institutional Gothic”, que seria um “Gótico Corporativo” – um novo gênero que pode ser descrito (ou pelo menos evocado) a partir de um tipo específico de arquitetura. Cada época produz um tipo de arquitetura capaz de traduzir em si o delírio de grandeza que predomina nesse tempo. 
 
Clark descobre esse mundo de pesadelo ao atravessar uma parede, tal como a “Alice” de Lewis Carroll ou o “Orfeu” de Jean Cocteau atravessam o espelho. Depois de atravessar, ele se vê perdido num ambiente de espaços inúteis, espaços profissionalmente executados mas cheios de anomalias. 



 
Aquele espaço parece virtualmente inesgotável. É como o espaço aparentemente imensurável dos labirintos reiterativos de Doom, ou a planta baixa “que não bate” do Overlook Hotel de O Iluminado. 
 
E mais. Aqui e ali, salões vazios ocupados apenas por “coágulos de mobília”, ou móveis semi-afundados nas paredes ou no chão, como se tudo aquilo fosse feito de uma mesma massa informe, camuflada de materiais normais. Tudo começa a parecer uma tentativa de uma Inteligência Artificial de reproduzir um ambiente humano, mas cheio das aberrações que se pode esperar de um caso assim. 





O mesmo se aplica às criaturas aparentemente humanas que Clark encontra dentro dos “backrooms”.  Não são feitos de carne e osso, mas de um material indiferenciado, como uma espuma, só que (diz ele) uma espuma comestível. Elas lembram... o quê?  Lembram as aberrações gráficas produzidas pela Inteligência Artificial, que se atrapalha (ainda) ao reproduzir feições humanas, mãos, corpos. 





 
O filme oscila entre esse surrealismo arquitetônico e o filme-de-monstro convencional. Afinal de contas, o diretor tem vinte anos, e certamente está criando dentro dos horizontes de expectativa de sua geração – e o horizonte de expectativas dos grisalhos executivos da produtora não difere muito deste. 
 
O terço final do filme mostra Clark e a Dra. Mary sendo perseguidos por monstros nos quais identificamos pessoas do seu passado, o que nos leva inevitavelmente a ver naquele espaço fantasma (milhares de metros quadrados de área urbana, escondidos no interior de uma loja de móveis!) uma projeção simbólica do inconsciente deles dois. 
 
E como não faz muito sentido (num contexto assim) ter um labirinto e não ter um minotauro, o Monstro aparece, uma caricatura do próprio Clark, de sua agressividade, suas frustrações, etc. 
 
A minha diferença em relação ao público-alvo do filme é que para mim o labirinto bastaria; os monstros são uma concessão popularesca ao cinema-clichê. 
 
As últimas sequências sobem um nível em relação à narrativa central até aquele ponto, revelando uma moldura narrativa que projeta todo o enredo num plano de ficção científica – a revelação (ou pelo menos a insinuação) de uma “situação mais ampla” da qual a história daquele filme foi uma manifestação isolada. 
 
Filmes-sequência certamente virão. Este primeiro título tem muita coisa boa em termos de projeto visual, direção de arte, inserção esperta num universo “creepy pasta” (terror popularesco) que fervilha na Web, um senso intuitivo de desorientação espacial. 
 
É um filme híbrido, com uma premissa de Black Mirror e um terço final de Goosebumps. Em todo caso, é uma nova franquia que sai das telinhas do celular para a telona das salas, e tudo ainda está em aberto. Como num conto de Borges, é um universo invadindo outro, e quem viver verá. 











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