segunda-feira, 10 de março de 2008

0169) Sombras da noite (5.10.2003)




(xilogravura de Frans Masereel, 1889-1972)

Todo dia meu é a Divina Comédia: a manhã é um inferno, a tarde um purgatório, e a noite um paraíso. Pode ser uma questão de metabolismo, porque há pessoas solares e pessoas lunares. Pode ser uma questão de horário de trabalho meio torto – 90% do que produzi de aproveitável na vida surgiu entre meia-noite e cinco da manhã. Pode ser também a angústia kafkeana que me embebe: quando acordo e me lembro de quem sou, e do país e do século em que vivo, o choque é tão brutal que levo algumas horas para me recuperar.

Usei há pouco as expressões “manhã”, “tarde” e “noite”, mas elas devem ser entendidas em sentido metafórico. Eu só acordo por volta do meio-dia, e “manhã” para mim é o trecho que vai até as 16:00, quando, depois de muito tempo ao computador e ao telefone, começo a acordar. Daí até a meia-noite é o que chamo de tarde: é almoço, jantar, ida ao cinema, convivência com a família, televisão, assuntos domésticos. À meia-noite, todo mundo em casa vai dormir. Vou até as janelas e as escancaro. A Baía de Guanabara se estende aos meus pés, imersa na treva, mas coruscante de estrelas e dos milhões de luzes dos edifícios da metrópole. A noite começou. O mundo nasceu outra vez.

Estou sendo metafórico de novo, porque quando abro a janela não vejo a Baía de Guanabara, e sim a casa da frente, a guarita do segurança e os carros estacionados no meio-fio. É tão poderoso, no entanto, o sopro espiritual das divindades noturnas a quem rendo tributo que me sinto como o próprio Cristo Redentor, escancarando o peito, o coração e a mente para captar com minhas antenas os sonhos que estão sendo sonhados pelos meus semelhantes, embeber-me de sua substância volátil, passá-los para o papel antes que se dissipem.

Nessas horas, lembro a estrofe de Guilherme de Almeida, que decorei na infância: “Busca a Sombra, o Silêncio, a Solidão: três “ésses”, / três serpentes do teu Paraíso interior. / Colhe o fruto que assim tu mesmo te ofereces: / chama-se Pensamento, e é até melhor que o Amor.” No silêncio da noite, é possível escutar a respiração profunda da cidade, a pulsação descansada do seu coração subterrâneo. O cérebro da gente respira aliviado, como se tivesse se libertado de uma pressão insuportável. Os humanos estão dormindo, e isso diminui a estática mental que polui o éter. Em ocasiões especiais é possível escutar ao longe o deslocamento da Lua através do espaço, que produz um ruído parecido com aquele distante ruído metálico que faz uma bacia quando é retirada obliquamente de uma banheira cheia dágua. É possível ouvir o crepitar distante das fornalhas nucleares das estrelas, o único fogo que aquece a alma das criaturas noturnas como eu. Às vezes, um bug civilizatório provoca um blecaute, e é possível avistar no céu a Via Láctea, que Vitor Hugo descreveu como “a hidra-universo torcendo seu corpo incrustado de astros”. O dia só existe na Terra. A noite é o estado natural do Cosmos.



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