Ufa.
segunda-feira, 15 de maio de 2023
4942) O erro traz uma idéia (15.5.2023)
Ufa.
sexta-feira, 12 de maio de 2023
4941) Minhas Canções: "Chegada" (12.5.2023)
Já escrevi aqui neste Mundo Fantasmo alguns artigos tentando explicar minha concepção do que é rock. Não me refiro apenas ao rock-and-roll ingênuo e cinquentão (=dos anos 50) de Bill Haley e Seus Cometas, mas a tudo que aconteceu depois dele, e de Elvis Presley, Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan, The Who, Led Zeppelin, Sex Pistols, The Clash... Et coetera.
O rock norte-americano é a eletrificação das formas de música rural brotadas nos próprios EUA: primeiro, o blues dos negros do Mississipi; depois, as canções “country” dos vaqueiros do Oeste, a música “bluegrass” de raiz (com seus vertiginosos solos de banjo e de rabeca), a tradição de música “gospel” das igrejas batistas da população negra urbana.
CHEGADA (Letra e música: BT)
Gravação: Abissal & Várzea do Capibaribe
São tambores de chamada
motores da força e luz
jogando eletricidade nos terreiros.
Guitarras de feiticeiros
vibrando embaixo do som
da avenida que surgiu de madrugada.
São cabeças coroadas
de fumaça de vulcão
e uns olhos de lua cheia na lagoa.
É um milhão de pessoas
no mesmo raio de sol
e o baque dos pés no chão da noite inteira.
Chegou na tela do mundo
chegou na letra da mão
chegou no colo da fera
chegou no X da paixão;
chegou no brilho da faca
chegou no lixo da feira
chegou no arranco do grito
chegou no chão da ladeira;
chegou um rosto e um nome
nascendo dentro de mim
e continuando assim a vida inteira.
(Maracatu Real
Várzea do Capibaribe)
terça-feira, 9 de maio de 2023
4940) Rita Lee (1947-2023) (9.5.2023)
“A mais completa tradução de São Paulo”, no verso de Caetano Veloso. Eu não diria a mais completa, porque acho meio utópica a idéia de que uma parte possa representar bem o todo. Eu diria que era a idéia mais femininamente charmosa de São Paulo, pois naquele tempo eu (falo de eu-adolescente, eu-dezesseis anos quando ela tinha dezenove) via São Paulo como uma cidade lúgubre, cinzenta, fuliginosa, tchecoslovaca, uma espécie de 1984 dublado em português. A São Paulo terrificante do Lugar Público de José Agrippino de Paula.
Volto a dizer aqui algo que já falei sobre a imagem da
mulher sexy. Minha geração (não falo pelas outras) foi submetida a um
bombardeio de mulheres fatais do cinema, aquelas que Carlos Drummond chamava de
“as sereias vulcânicas da Broadway”. Era Elizabeth Taylor, Jayne Mansfield, Rachel Welch, Kim Novak, Ursula
Andress... Mulheres fatais, mulheres capazes de descarrilar uma
locomotiva com um olhar. E vigorosas. Lembro de uma palestra de Antonio Callado
em que ele se referia a personagens femininas “tão atemorizantes quanto uma
nadadora olímpica iugoslava”.
Rita Lee era o contrário disso, e se não foi a mais
completa tradução de sua cidade foi a de sua época, a época das garotas de
minissaia, botinhas, boné, casaco, gola olímpica, as Annas Karinas, as Jeannes
Moreaus, as garotas-do-apartamento-ao-lado. Jogando em cima disto, claro, a
carnavalização figural dos Tropicalistas. Com ou sem fantasia, eram garotas da
vida real que se comportavam (inclusive no palco) como gente. Você não imagina
Marlene Dietrich dando uma topada no palco. Eu conseguia imaginar Rita Lee
dando uma topada, se estabacando no chão, e levantando às gargalhadas.
Os Mutantes traziam também um fio de ficção científica –
a FC que nunca mais deixei de associar à capital paulistana. Ao que parece
(versões divergem), o grupo tirou seu nome do livro O Império dos Mutantes (“La Mort Vivante”, Stefan Wul, 1958), que o
grupo leu sob este título na edição portuguesa (a tradução brasileira se chamou
“A Cadeia das 7”).
Era um livro sobre clonagem, em que o DNA de uma menina é
reproduzido sete vezes (por segurança, para o caso de alguma falha) em
laboratório. Algo foge ao controle (ou não seria FC) e daí a pouco temos sete
meninas clones, idênticas, telepáticas e (pouco a pouco) todo-poderosas.
Havia nos Mutantes, talvez, essa utopia ingênua do “somos
todos um só”, o famoso “I am he, as you are he, as you are me, and we are all
together”. Não eram: a banda brigou, Rita foi expelida, decolou numa carreira
solo, voltou arrasadoramente no fim dos anos 1970 com “Mania de Você”, ao lado
de Roberto de Carvalho; e o resto é história. Um pop brasileiro com voz
feminina, pegada roqueira, doçura bolerística, sarcasmo urbano, letras de quem
gostava de ler.
A história de Rita foi se me revelando de pouquinho, ao
longo dos anos. Eu sabia desde o início que ela tinha ascendência
norte-americana, e achei que “Lee” era sobrenome da família, sendo seu nome completo
“Rita Lee Jones”.
Nos anos 1980, já morando no Rio de Janeiro, comecei a
ajudar Duncan Lindsay (“o irmão de Arto”) numa pesquisa dele sobre ex-Confederados
norte-americanos que, derrotados na Guerra da Secessão, vieram morar no Brasil
a partir de 1867. Entre eles, algum antepassado de Rita, cujo “Lee” não era
sobrenome de família, e sim homenagem ao famoso General Lee.
Segundo descobri através de Duncan, havia toda uma
história de Confederados que se auto-exilaram no Brasil após a derrota, muitos
indo morar na Amazônia, e outros no interior de São Paulo. Em Santa Bárbara d’Oeste,
terra do pai de Rita, há um Cemitério dos Americanos. A cidade de Americana
(SP), deve seu nome a essa corrente migratória. Que nos deu, afinal, a “ovelha
negra” da família Jones.
É mais um fio-de-aranha da História, daqueles difíceis de
enxergar e difíceis de romper, ligando a guerra de libertação dos escravos
norte-americanos e a formação do rock brasileiro. Como diziam os dialéticos,
tudo se relaciona, tudo está interligado. Isto não quer dizer que tudo seja
causa de tudo, mas que tudo é efeito-conjunto de um tecido, de um
entrecruzamento de presenças.
Quando algum artista morre, os coleguinhas de imprensa
sempre vêm nos perguntar “qual é o legado que Fulana de Tal nos deixa”. O
legado somos nós, companheiro. O legado de uma pessoa como Rita Lee é a pessoa
que eu sou hoje, e não desmereço o legado dela dizendo que há mil outros
legados, além do dela, teclando estas palavras.
Somos um tecido, um texto, fios entrecruzados por onde
passa uma corrente de alguns ampères. E o mais interessante é que, mesmo que a
partir de hoje um desses fios não esteja mais aqui, a corrente vai continuar passando. Por
que? Não sei, só sei que a gente faz amor por telepatia.
(ilustração by Fraga)
sábado, 6 de maio de 2023
4939) Nick Cave e a coroação do Rei Charles (6.5.2023)
No próximo sábado (estou escrevendo na 4ª. feira, dia 3) o Rei Charles da Inglaterra vai ser coroado, e o Reino Unido fervilha de piadas, memes, debates, fofocas. Para isso servem as monarquias, afinal – para tirar dinheiro dos turistas, e para aquecer as fantasias-de-poder das multidões.
“Pode dizer, Excelência! Eu absolutamente não me incomodo mais de ser filho-da-puta! Ou melhor, de ser neto-da-puta, porque minha Mãe, coitada, é que era filha-da-puta, filha bastarda do Barão do Cariri e portanto irmã por vias travessas de Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto. Antes, eu ficava danado da vida quando alguém falava nessa filho-da-putice nossa. Mas lá um dia, numa discussão, Samuel declarou que isso de bastardia não tem a menor importância nessas coisas de fidalguia e linhagens reais, tanto assim que os Braganças, descendentes de Dom João I e Nuno Álvares Pereira, são várias vezes bastardos e netos de padre! Depois daí, fiquei descansado e perdi a vergonha!” (Folheto 53)
Satirizar a espetacularização do poder e a glamurização da banalidade é um dos esportes favoritos de escritores, intelectuais, artistas em geral. E quando o roqueiro Nick Cave, um dos expoentes do dark rock de língua inglesa, foi anunciado dias atrás como um dos convidados para a coroação de Charles, houve no meio roqueiro um certo movimento sísmico de incredulidade e deboche.
-- Que diabos, você vai pra coroação do Rei? (Jon)-- Fiquei sabendo que você vai para a coroação, fazendo parte da delegação da Austrália. Você é monarquista? Por que está indo? (Adrian)-- A co-ro-a-ção? Fala sério. (Roger)-- Nick Cave vai à coroação? O que será que o jovem Nick Cave ia pensar disto?! (Matt)
Caros John, Adrian, Roger e Matt:Vou dar uma resposta breve, porque ainda estou escolhendo uma roupa para usar na Coroação.Não sou monarquista, nem sou roialista [Nota do tradutor: neologismo português recente], como também, por falar nisto, não sou o mais ardente dos republicanos. O que também não sou é espetacularmente desinteressado pelo mundo e pela maneira como ele funciona; não sou tão ideologicamente sequestrado nem tão ranzinza a ponto de recusar um convite para (talvez) o evento histórico mais importante no Reino Unido em nossa geração. Não apenas o mais importante, mas o mais estranho, o mais bizarro.Encontrei a falecida Rainha uma vez, no Palácio de Buckingham, num evento dedicado aos “Australianos Mais Promissores Morando no Reino Unido” (ou coisa parecida). Foi uma ocasião meio canhestra, mas a Rainha em pessoa, vestida num conjunto cor de salmão, parecia quase extraterrestre, e era a mulher mais carismática que conheci. Talvez fosse a iluminação, mas ela de fato emitia uma espécie de brilho. Quando contei a minha mãe – a qual tinha a mesma idade da Rainha e, como ela, morreu com mais de 90 anos – a respeito dessa ocasião, seus velhos olhos se encheram de lágrimas.Quando acompanhei o funeral da Rainha pela TV no ano passado percebi, para meu próprio pasmo, que também eu estava chorando quando retiraram do ataúde a coroa, o orbe e o cetro, e o abaixaram para a abertura sob o piso da catedral de São Jorge. Estou tentando dizer a vocês que, para além do interminável mas necessário debate sobre a abolição da monarquia, tenho um inexplicável vínculo emotivo com a família real – sua estranheza, e a natureza profundamente excêntrica de todo esse fenômeno, o qual reflete com perfeição a bizarrice inigualável da próprio Grã-Bretanha. Eu simplesmente sinto uma atração por esse tipo de coisa – tudo que é bizarro, estranho, extraordinariamente espetacular, tudo que nos deixa pasmos.Quanto ao que o jovem Nick Cave iria pensar... bem, o jovem Nick Cave era, com todo o respeito ao jovem Nick Cave, jovem, e como muitos outros jovens, era ligeiramente insano, e eu procuro ter uma certa moderação ao usá-lo como parâmetro para o que eu devo ou não devo fazer. Mas era um cara legal, eu tenho que admitir. Era insano, mas era um cara legal.Com tudo isto em mente, estou me preparando para ir à Coroação. Acho que vou de terno.Com amor, Nick
Sou um admirador de Nick Cave, um dos grandes poetas do rock em sua geração. Ele é uma espécie de Edgar Allan Poe com auto-controle. Tem a fagulha demoníaca, a vulnerabilidade angelical, o cinismo neo-urbano, o romantismo temperado pelo senso da fatalidade, a influência má dos signos do Zodíaco. E é australiano, ou seja, vem de uma espécie de Brasil-do-império-britânico, um país posto de pé com o muque de degredados, bandidos, fanáticos, aventureiros, religiosos de maus costumes, fidalgos de má reputação.
“Acho que vou de terno” (Nick Cave)
quarta-feira, 3 de maio de 2023
4938) O Cavaleiro Não-Existente (3.5.2023)
Por baixo dos parapeitos vermelhos das muralhas de Paris, o exército da França estava reunido. Carlos Magno preparava-se para passar em revista os seus paladinos. Eles já estavam à espera há mais de três horas... (trad. BT)
Eu, que conto esta história, sou a Irmã Teodora, freira da ordem de Santa Columba. Escrevo de um convento, baseando-me em velhos papéis descobertos, ou relatos escutados em nosso parlatório, ou ainda em raros depoimentos de testemunhas. Nós, freiras, temos raras oportunidades de conversar com soldados; portanto, aquilo que eu não sei sou obrigada a imaginar, e digam-me, que outro recurso eu teria? Nem toda esta história está clara para mim. Tenho que implorar indulgência; nós, moças do campo, mesmo de sangue nobre, vivemos vidas reclusas, em castelos e conventos afastados; e a não ser por cerimônias religiosas, tríduos, novenas, jardinagem, plantio, cuidados com a vindima, punições pelo chicote, escravidão, incestos, incêndios, enforcamentos, invasões, saques, estupros e epidemias, somos pessoas com pouca experiência do mundo. (trad. BT)
domingo, 30 de abril de 2023
4937) As chamadas telefônicas de Roberto Bolaño (30.4.2023)
(Roberto Bolaño)
https://mundofantasmo.blogspot.com/2013/02/3113-literatura-nazista-1922013.html
Tony jamais se irritava, jamais discutia, como se considerasse absolutamente inútil forçar outra pessoa a compartilhar seu ponto de vista, como se acreditasse que todas as pessoas estão extraviadas e que é muito pretensioso um extraviado tentar ensinar a outro a melhor maneira de achar o caminho. Um caminho que não apenas ninguém conhece, mas que provavelmente não existe.
quinta-feira, 27 de abril de 2023
4936) Sete mortes misteriosas (27.4.2023)
Oleg Demerov, russo, 48 anos, investidor em criptomoedas, proprietário de minas de estanho, produtor cinematográfico, caiu, jogou-se ou foi jogado da janela de seu quarto de hotel no trigésimo andar, em Santiago do Chile, onde se encontrava a passeio com sua noiva Masha Kurulenko, 22 anos. Demerov estava num ritmo alucinante de trabalho, envolvido no seu super-projeto de uma cinebiografia não-autorizada de Vladimir Putin, a ser interpretado por Daniel Craig por um cachê na ordem dos oito dígitos. Demerov acabava de chegar ao Chile depois de passar um mês entre Auckland e Dresden, acompanhando um grupo de pesquisadores, e tinha uma entrevista agendada com a CNN na semana seguinte, no Texas, na qual iria fazer importantes revelações.
Sylvie Froussière, 19 anos, moradora de Nantes, desapareceu na noite de seu aniversário, até seu corpo ser encontrado dias depois numa floresta nos arrabaldes da cidade. Crises histéricas de sofrimento por parte de alguns amigos e amigas, estranhamente ausentes no velório, despertaram a curiosidade da polícia, que apertou os interrogatórios até descobrir que o grupo se cotizara para pregar-lhe uma surpresa, abordando-a, todos de macacão escuro e touca ninja, numa rua deserta, vendando seus olhos, conduzindo-a a uma granja da família de um deles onde a esperavam champanhe, balões comemorativos, muita música, muitos salgadinhos na companhia de sua dúzia de amigos mais próximos, os quais perderam a cabeça quando a retiraram da van e constataram sua parada cardíaca de puro susto, sendo baldadas todas as tentativas de reanimação, dando origem a uma briga feroz entre os que advogavam a confissão total às autoridades e os que queriam ocultar o corpo como se nada tivesse acontecido.
Igor Ivanovich Oblamov, 71 anos, foi assassinado misteriosamente na mesma noite que seus filhos Piotr (46 anos), Lev (42 anos) e Andrei (39 anos), todos solteiros e que moravam com ele, nos arredores de Oblonska, na Geórgia meridional. Pai e filhos eram caçadores e colecionadores de armas, e foram mortos com uma metralhadora, em diferentes cômodos de “dacha” onde estavam passando o verão. Os corpos foram encontrados ao amanhecer pelo leiteiro que os servia; a única pessoa sobrevivente do massacre foi a cozinheira Nadezhda, 33 anos, que servia à família desde garota, e foi achada em estado de choque, agachada no interior de um banheiro. As autoridades locais teceram suposições de tentativa de assalto e de vingança, pois as vítimas eram conhecidas pelo seu temperamento explosivo e autoritário. A cozinheira foi levada a um hospital, onde ficou sob cuidados médicos durante duas semanas, e ao receber alta guardou suas coisas numa malinha, pegou um trem e nunca mais foi vista.
Ralph Kaprinski, 61 anos, dono de uma cadeia de lanchonetes em Minneapolis, preparou com cuidado a próprio suicídio após descobrir-se no estágio terminal de uma grave doença. Depois de tomar várias providências jurídicas (testamento, liquidação de dívidas, etc.), trancou-se na cabana que lhe servia de escritório, nos fundos de sua casa de fazenda, redigiu e datou de próprio punho um bilhete de despedida para sua esposa Marjorie, 60 anos, colocou na mesa à sua frente a caixa de comprimidos que iria tomar, junto com uma garrafa de seu vinho preferido, e foi encontrado pela manhã, vítima de um tiro na nuca, disparado por uma pistola que não foi encontrada na cabana, trancada pelo lado de dentro.
Henry Koshavik, 30 anos, publicitário numa agência em Manhattan, bolou uma surpresa para o aniversário de sua namorada, Judy Plimpton, 27 anos, a qual tinha um fetiche erótico (publicamente assumido) pelo Homem Aranha. Cedinho naquela manhã do ano de 2001, foi para a garagem de uma empresa de entregas, vestiu-se de Homem Aranha, e fez-se encerrar num contêiner vertical, do tamanho de uma cabine telefônica, o qual foi embarcado num furgão e remetido para a casa onde morava a moça, a algumas quadras dali. Foi durante este curto trajeto, e naquele mesmo trecho da cidade, que os aviões terroristas derrubaram as Torres Gêmeas, espalhando o caos e cobrindo de poeira e de detritos inúmeras ruas e centenas de veículos, inclusive o tal furgão, cujo motorista morreu na hora. O veículo permaneceu soterrado e dias depois foi removido e rebocado, sem maiores exames, para um depósito de emergência situado em Staten Island, onde uma intrigante descoberta está à espera dos investigadores de uma década futura.
Funcionários de um hotel em Harrogate (Yorkshire), chamaram a polícia depois de ouvir disparos num quarto recém-ocupado. Arrombada a porta, foram encontrados três corpos: Stephen Miller (41 anos), Samson Duncalf (35 anos) e Annabelle Ridgeway (40 anos). Foi comprovado, por vários depoimentos, que Miller e Ridgeway moravam na cidade e tinham um caso amoroso há alguns anos, apesar de não viverem juntos; outras testemunhas garantiram que Samson Duncalf, que morava em Londres, vinha nos últimos meses encontrando-se às escondidas com ela. Os três chegaram juntos ao hotel, sem bagagem, pouco depois do meio-dia, e três horas depois ouviram-se os tiros. Pela posição dos corpos e pelo exame dos ferimentos, foi estabelecido que os três estavam sentados no chão, cada um com uma arma de fogo (Miller tinha uma pistola automática, os outros tinham revólveres) e dispararam simultaneamente uns sobre os outros, na cabeça: Miller acertou Duncalf, este acertou Ridgeway, e ela atingiu Miller. O Inspetor Pettinger, da polícia local, declarou aos repórteres: “Tudo sugere tratar-se de um pacto de suicídio, a três, planejado e executado com uma mistura de desespero e frieza. E cada um deles com absoluta confiança de que os outros dois fariam o que foi combinado”.
No terceiro mês do terceiro Tenwa, na corte do Lorde Wakimodo, em Yedo, o seu principal samurai, Yamasuké, apareceu certo dia com um ar transtornado, e ajoelhando-se diante dos seu lorde anunciou que tinha cometido um crime inominável e que por isso devia praticar o sepukku ou haraquiri, o suicídio ritual. Foi grande a comoção na casa nobre e o espanto do lorde, mas ninguém conseguiu arrancar de Yamasuké qualquer informação sobre a baixeza ou o crime bestial que cometera. Depois de um dia inteiro de discussões, o lorde curvou-se aos imperativos da honra, e os preparativos começaram a ser feitos no pátio, para a cerimônia na manhã seguinte. Yamasuké pediu a seu wakatö (escudeiro), Yokushi, que o assistisse nos procedimentos, como seu kaishakunin, e cortasse sua cabeça, conforme o costume, no momento adequado. Pela manhã, estavam todos os membros da casa nobre prontos para assistir o ritual. Yamasuké, agindo como que num sonho, fez as abluções e os demais preparativos e sentou-se na posição tradicional. Quando empunhou a tantö e se preparou para o golpe, houve no céu um relâmpago fortíssimo que cegou momentaneamente todos os presentes, seguido por alguns segundos de escuridão total e de um trovão ensurdecedor, que fez a casa estremecer. Quando todos se recuperaram do susto e puderam enxergar novamente, perceberam horrorizados que Yokushi, o escudeiro, estava caído sobre a própria espada que empunhava instantes atrás, morto; e que no grupo dos assistentes estava também caída no chão, lívida e morta, a jovem e bela esposa de Yamasuké. Quanto a este, pareceu emergir de um pesadelo, saltou, ficou de pé horrorizado e pôs-se a perguntar a todos o que estava acontecendo. As crônicas da época registram apenas que depois desse dia Yamasuké raspou a cabeça e tornou-se monge andarilho.
segunda-feira, 24 de abril de 2023
4935) O deserto dos tártaros (24.4.2023)
É a obsessão de ver sangue, é o instinto horrendode subir, na ordem cósmica, descendoà irracionalidade primitiva...É a Natureza que, no seu arcano,precisa de encharcar-se em sangue humanopara mostrar aos homens que está viva!(“Guerra”, 1914)
É este um dos temas do filme O Deserto dos Tártaros (”Il deserto dei Tartari”, 1976) de Valerio
Zurlini. Baseado num livro famoso de Dino Buzzatti (que ainda não li), ele
conta o dia-a-dia de um posto avançado do exército de um país vagamente
equivalente à Itália, à beira do deserto. Aqueles oficiais e soldados estão
estacionados num Forte onde Judas perdeu as botas, esperando um inimigo que
nunca vem.
Enquanto isso, os soldados ociosos descarregam uns sobre
os outros a raiva, a impaciência, a irritação, a agressividade acumulada ao
longo daquela guerra que nunca acontece.
Jacques Perrin é o oficial jovem que chega lá, inocente e
deslocado, e aos poucos vai se enredando na teia de intrigas dos oficiais mais
velhos (Giuliano Gemma, Fernando Rey, Philippe Noiret, Vittorio Gassman,
Jean-Louis Trintignant, Laurent Terzieff, Max von Sydow, Fernando Rabal, etc.),
cada um deles um ambicioso, maluco ou criminoso em potencial.
O Deserto dos
Tártaros, livro e filme, é geralmente descrito como uma obra kafkeana, por
mostrar uma estrutura enorme e dispendiosa que existe para nada, para esperar
uma coisa que não acontece. Um exército que custa caro, financiando carreiras
profissionais de gente bem preparada. Homens para quem a guerra seria
preferível àquela expectativa constante de guerra.
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