segunda-feira, 21 de março de 2022

4805) Dicionário Aldebarã 23 (21.3.2022)




(ilustração: Moebius)

O planeta de Aldebarã-5 tem uma civilização influenciada pelos colonizadores terrestres.  Seu vocabulário exprime as características da natureza do planeta e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura.  Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.
 
“Queninodis”: o súbito reencontro, ao longo do dia, com alguma coisa (um nome, uma pessoa, um lugar, um objeto) com a qual havíamos sonhado na noite anterior, e esquecêramos por completo.
 
“Mossonheims”: cargo oficial posto em prática quando ocorre um desentendimento entre duas famílias, ou dois grupos políticos; cada um deles nomeia seu mossonheim para ir dialogar com o líder do grupo oposto e trazer ao líder do seu próprio grupo as queixas e reivindicações do outro; depois de aplainado o terreno por esse processo, os dois líderes se encontram em pessoa para a mera formalização dos acordos.
 
“Dortrisse”: o intervalo noturno entre duas sessões de sono, quando, após dormir por três ou quatro horas logo ao escurecer, as pessoas acordam, e se entregam ao lazer, à conversa ou a alguma tarefa caseira leve, depois da qual dormem novamente até amanhecer o dia. 
 
“Serundy”: jogo de salão que consiste em fazer cada pessoa, depois de sentadas em roda, escolher um objeto qualquer no aposento e o segurar à vista de todos; em seguida, sorteia-se a pessoa que dará início a uma história inventada de improviso, quando mais amalucada e improvável melhor, e nessa sua invenção deverá incluir o objeto seguro por outra pessoa da sala, o qual, ao ser finalmente referido, dará ocasião a muita risada e divertimento; em seguida, passa a vez para a pessoa ao lado, que dá prosseguimento à história, às improvisações, e à referência a outro objeto em poder de mais alguém.
 
“Wanga-wanga”: bravatas ou gabolices que alguém faz meio descuidadamente, sem nenhuma intenção mais grave, mas às vezes vê aquilo tomar uma proporção inesperada, e é forçado a desmenti-las – ou pelo menos tentar desmenti-las de modo convincente, o que muitas vezes não é mais possível.
 
“Valallini”: dieta à base de flores, mel e sementes que serve para desintoxicar os noivos nos dias que antecedem o casamento, as parturientes alguns dias antes do parto, e os administradores públicos antes dos dias de votações decisivas.
 
“Andialas”: um tradicional sistema de repasses e “terceirizações” de tarefas, trabalhos, projetos, etc., mediante o qual uma pessoa, quando se desinteressa do uma tarefa da qual foi incumbido, pode transferi-la para uma segunda pessoa com certos direitos e deveres; esta pessoa pode fazer o mesmo com uma terceira, e esta com uma quarta, desde que fiquem implícitos os níveis da transferência, que são chamados “andiala-um”, “andiala-dois”, etc. Esse sistema cria uma condição de responsabilidade recíproca entre todos os participantes.
 
“Wizz-nizz”: espécie de doce ou compota feito de fruta, para o qual se prepara um creme especial feito com a casca da própria fruta, moída e transformada em uma pasta que se deixa decantar em açúcar por longo tempo; tipicamente, quando mais fresca a fruta e mais “curtido” o creme, melhor.
 
“Cavonsy”: a sensação inexplicável que temos diante de um pequeno fato do cotidiano que não entendemos ou não pudemos examinar direito; a compulsão crescente de tirar a limpo essa dúvida; a sensação ominosa de que seria melhor deixar tudo como está, porque a resposta pode nos acarretar um prejuízo maior do que o desconhecimento.
 
“Famaldy”: um presente especial que se dá a uma pessoa que completa uma idade especial, em geral redonda (60, 70, 80 anos...). Um caderno é circulado em segredo entre amigos e parentes, e cada um tem direito a uma página, não mais. E deixa ali uma frase, um verso, uma lembrança, um desenho, uma colagem... No dia da festa, o aniversariante recebe o presente coletivo.
 
“Serruvun-pep”: pequenas faixas de borracha colorida que algumas pessoas costumam pregar no teto do quarto de dormir, para que quando a luz do sol da manhã, entrando por uma fresta específica, atingir aquele ponto, indicar que está na hora de levantar.
 
“Caflant”: aquelas situações em que reencontramos uma pessoa e, a certa altura, uma fala ou uma atitude de sua parte nos mostra que não há mais entre nós tanta identificação ou cumplicidade quanto imaginávamos.
 
 
 
 
 
 
 






sexta-feira, 18 de março de 2022

4804) Minhas canções: "A Viagem Maravilhosa" (18.3.2022)




Canções que misturam música e teatro têm que ser, por um lado, canções independentes, autônomas. E, por outro lado, precisam ser fragmentos de uma obra maior.
 
Quem conhece bem o musical clássico, os grandes musicais do teatro e do cinema, escritos por gente como Cole Porter, Irving Berlin, George & Ira Gershwin, Richard Rodgers e Oscar Hammerstein – e tantos outros, sabe que essa forma é uma espécie de popularização do formato da ópera. E que as canções nunca são desvinculadas da história que se conta.
 
O trabalho de Antonio Nóbrega, meu parceiro há tantos anos, vem de uma tradição diferente, a tradição ibérica que no Brasil se popularizou através de espetáculos de rua como o teatro de mamulengos, os entremezes cômicos, etc. E o trabalho artístico de Nóbrega, que até certa altura era uma espécie de “teatro com música” (peças teatrais contendo canções, como as nossas Brincante e Segundas Estórias) acabou evoluindo para uma “música com teatro”, shows basicamente de canções, entremeadas por pequenos esquetes.
 
No ano de 2000, Nóbrega montou o espetáculo O Marco do Meio-Dia, e uma de suas idéias era fazer a certa altura o personagem Tonheta viajar pelo Brasil, mostrando diferentes paisagens e vivendo diferentes aventuras. Tudo muito resumido e compactado, é claro, para caber no espaço de uma canção.
 
E ao mesmo tempo não podia ser apenas um roteiro turístico mostrando uns lugares bonitos que todo mundo já sabe quais são. Seria uma viagem geográfica, mas mais do que isso seria uma viagem pela História do Brasil. Com brincadeiras, com poesia, com dança, com cavalo marinho... E (sugeriu Nóbrega) o nosso costumeiro interlúdio rabelaisiano, em que o insaciável Tonheta se dedica a devorar banquetes pantagruélicos e ceias gargantuescas.
 
Foi mais uma parceria a três, porque Wilson Freire (nosso habitual comparsa) mandava versos do Recife, eu mandava versos daqui do Rio, e por fim Nóbrega arrematava tudo lá em São Paulo, enquanto preparava o arranjo junto com a banda.
 
A Viagem Maravilhosa é um dos números mais divertidos daquele espetáculo, e é a nossa viagem sentimental por um Brasil cada vez mais distante e cada vez maior.
 
 
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YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=jKcNp5n8sbk
 
 
A VIAGEM MARAVILHOSA
(Wilson Freire / Antonio Nóbrega / BT)
 
I
Nosso Brasil
(acompanhe a minha idéia)
foi Atlântida e Pangéia
um Sertão que já foi mar.
Já foi Rodínia
foi Panótia e Gonduana, 
era belo e bacana
antes de Cabral chegar.
 
Também foi ilha
do Brasil, de São Brandão,
Vera Cruz, nome cristão
trazido de além-mar.
Foi Pindorama
foi Terra de Santa Cruz
Papagális, meu Jesus,
depois de Cabral chegar.
 
Nosso país
tem tesouros, tem arcanos,
tem mais de 30 mil anos    
de histórias pra contar...
São trinta mil
em que o índio teve vez,
500 que o português
e o negro chegaram cá...  
 
Aí um dia,
eu sentado na cadeira
um estalo-de-Vieira
clareou a minha mente!
Eu percebi
que tinha de procurar,
descobrir e encarar
minha terra a minha gente.
 
E sem demora
minha burra eu selei
pus um cabresto e montei
pus espelho e um radar.
Pus uma bússola
astrolábio e luneta
diário, mapa e caneta
e falei: "Vou viajar!"
 
E mesmo antes
do sol, do cantar do galo
do sino bater badalo
eu saí pelo caminho...
Os cascos dela
velozes matraqueavam,
pareciam que estavam
tocando "Brasileirinho".  
 
Refrão (2x):
Cavalgar, cavalgar,
eu cavalguei.
No país dos brasileiros
conheci o mundo inteiro
e por ele eu passeei.
 
II
No meu galope
mais veloz que um corisco 
eu cruzei o São Francisco
mergulhei no Iguaçu.
Fui despertar
no sol da Zona da Mata  
vestido de ouro e prata
sambando maracatu.
 
Passei por todas
as ladeiras de Olinda,
e muita morena linda
inda se lembra de mim...
Cantei seresta,
tirei verso na ciranda,
toquei tuba numa banda,
na outra toquei flautim.
 
No meu caminho
enchi o Brasil de pernas
até chegar nas cavernas
da Gruta de Maquiné.
Voltei de lá
com um papiro na mão
trazendo a decifração
dos segredos de Sumé.
 
Eu vi xamãs
dominando tempestades,
cavando Sete Cidades,
separando Marajó...
Vi o profeta
puxando com sua cruz
cada órfão de Jesus
que cruzou Cocorobó...
 
Refrão (2x):
Cavalgar, cavalgar,
eu cavalguei.
No país dos brasileiros
conheci o mundo inteiro
e por ele eu passeei.
 
 
III
Fiz um almoço
lá no "Buraco da Jia"
começou ao meio-dia
terminou pela manhã;
cuscus com fava,
bode assado, dobradinha,
macaxeira com farinha,
codorniz e ribaçã.
 
Bolo de milho
marisco no vinagrete
feijoada com croquete
kitut e baião-de-dois...
Comi de tudo
sem pressa, sem me cansar,
só para me preparar
para o que vinha depois...
 
Arroz de polvo
risoto de camarão
maionese e macarrão
salpicão, frutos-do-mar.
Feijão macaça
galinha de cabidela
e um bife de panela
bem leve, pra descansar...
 
Um ensopado
de carne com batatinha,
feijão verde e farofinha,
sanduíche de peru.
Pra terminar
um conhaque, um cafezinho,
mais um cálice de vinho
e três doses de Pitu...
 
Refrão (2x):
Cavalgar, cavalgar,
eu cavalguei.
No país dos brasileiros
conheci o mundo inteiro
e por ele eu passeei.
 
IV
Porém um dia
eu cruzei em meu caminho
com um cavalo-marinho
que era gêmeo com o meu!
Puxei a rédea
fiquei olhando pra ele:
ele achou que eu era ele,
eu achei que ele era eu!
 
Nesse momento
mais um galope se ouviu
outro cavalo surgiu
passando perto da gente.  
Uma figura
semelhante e parecida
mas como tudo na vida
tinha algo diferente.
 
E mais dois outros
chegaram no mesmo instante
mas logo mais adiante
outro ainda apareceu!   
Eu que pensava
que era único no mundo
encontrei num só segundo
muitos outros como eu!
 
Saí puxando
a Cavalhada Marinha:
parecia idéia minha
parecia carnaval...
Fomos dançando
na ponte do arco-íris
e quando eu rodei o pires
apurei quase um real...
 
Eu virei noite
galopando esse país
de metrópoles febris
e esquecida imensidão.
Vi a coragem
de quem enfrentou a morte,
vi um vento lá do Norte,
vi a vela em minha mão...
 
Vi uma luz
branca, azul, aparecida
e uma mulher parecida
com aquela lá do céu...
Vi tantas luzes
que lembrá-las é revê-las,
tantas luas e estrelas
entre as rendas do seu véu...
 
E da mão dela
uma luz se projetava
e essa luz me apontava
uma Tróia no sertão...
Uma muralha,
dentro dela uma cidade
fora dela a crueldade,
a morte, a escravidão.
 
Era o Quilombo
lá na Serra dos Palmares
erguendo alto nos ares
a bandeira de Zumbi...
Saltei da burra
devagar fui caminhando
me cheguei, fui escutando
o que acontecia ali...
 
Refrão (2x):
Cavalgar, cavalgar,
eu cavalguei.
No país dos brasileiros
conheci o mundo inteiro
e por ele eu passeei.
 
 
 
 








terça-feira, 15 de março de 2022

4803) Entrevistas Transcendentais: André Breton (15.3.2022)



(André Breton, por Victor Brauner, 1934) 
 
Uma neve fina e constante cobre as calçadas, e se deposita sobre os bancos de praça no canteiro central do bulevar. Os galhos nus das árvores parecem raios em negativo, congelados no instante em que se projetavam rumo ao céu. Há poucos arbustos da pracinha, encolhidos, tiritantes, como vultos escuros e indistintos, e só então percebo que tudo à minha volta é preto e branco: as fachadas, os lampiões, alguns trechos de grama visíveis junto aos gradis. O próprio Moulin Rouge, que avisto à distância, ergue uma torre cilíndrica de cor cinza-grafite, de encontro ao céu branco e sem luz. Suas pás imóveis parecem também congeladas.
 
Mais alguns passos e estou diante do Cabaré do Céu e do Inferno. Paro junto ao poste do lampião. Penso que aquela gigantesca carantonha à minha direita, com sua boca hiante e os olhos arregalados (gesso pintado? papel machê?) teria cores vívidas, em seu tempo; aqui e agora tem um contraste brutal de xilogravura, e parece ter sido pintada com a pegajosa tinta negra dos mimeógrafos. Toco a campainha. A concierge me introduz sem me dar muita atenção, acostumada à presença de tipos estranhos.


Subo as escadas. Um resto de latejo adolescente me obriga a pensar que por aqueles degraus já subiu Apollinaire, já subiu Desnos, já subiram Éluard, Max Ernst, Péret. Por esta escadaria terá subido um Luís Buñuel ainda jovem, atlético, truculento?... Nestes degraus já pisaram os pés de Raymond Queneau?...
 
Toco a campainha no quarto andar, a porta se abre, a senhora grisalha e de olhos graves ouve meu nome, assente, convida-me a entrar. Há um corredorzinho estreito e sou conduzido a uma sala espaçosa e atulhada. Sento, olho em redor. O primeiro pensamento é: “O cabaré do andar térreo é uma simples antecâmara disto aqui”.
 
A coleção de Arte. Nas paredes, no mantel da lareira, nas bancadas, nos aparadores, nos nichos, nas prateleiras, contempla-me uma galeria de duendes de cornos retorcidos, plantas carnívoras pintadas de batom, colares de olhos de vidro, guerreiros em ébano incrustados de balas de fuzil, buquês de espuma cadavérica, seios de odalisca virgem, absinto sólido esculpido em cacho de uvas, senadores cinocéfalos, fogueira de lâminas tetânicas, tigresas obesas expelindo letras em itálico, moedas triangulares de madeira com um prego cravado no centro, arlequins sem dentes agitando chicotes, baú transbordando de sereias xifópagas...
 
Ele entra devagar. É o ancião que vi nos obituários, e se aproxima vagaroso, meticuloso, com olhos que procuram, mãos trêmulas que experimentam os objetos antes de manuseá-los. Traja camisa e calças de flanela, em diferentes tons de azul, e um casaco de seda em cores vivas, que lhe desce até os joelhos. Aperta minhas mãos com gentileza, perscrutando meu rosto; tenho certeza de que não percebeu meus próprios trajes. Pede-me desculpas pela demora (que foi nenhuma), pergunta se quero algo: “Du thé?... Du vin?...” 
 
Ora que diabo, estou a trabalho mas estou em Paris, estou diante do homem que escreveu Os Campos Magnéticos. “Duvã !...”
 

 
BT – Monsieur Breton, estão se completando cem anos da explosão surrealista, ou da revolução surrealista, ou da revelação surrealista... Algum desses termos o satisfaz, levando em conta tudo que aconteceu?
 
AB – São palavras apenas, palavras que não eletrocutam mais ninguém. Toda nossa busca foi pelas palavras energizantes, as que inflamam e destroem, as palavras radioativas, tanto as que abrem a gruta de Sésamo quanto as que fazem a terra fender-se e engolir o arauto antes que ele chegue à última sílaba. Fomos esses arautos. Nossos versos eram granadas ativadas pelos olhos de quem sabia lê-los. E todos nós sucumbimos, não é verdade? Mergulhamos as mãos na lava borbulhante do inconsciente para esculpi-la, para dar-lhe formas de náiades, para fazer a lava arquejar de gozo. E descobrimos que a lava não se dobrava aos nossos desejos. Talvez tenhamos somente esculpido réplicas de nossas próprias mãos. (sorri, ergue a mão direita à luz que vem da janela) Mãos são aranhas que tecem livros.O senhor já esteve na guerra? Uma guerra não ensina coisa alguma, eis a nossa desgraça. Saímos da guerra e da vida sabendo tão pouco como quando entramos.
 
O vinho é servido; brindamos.
 
BT – A experiência da Primeira Guerra marcou sua geração. O surrealismo foi uma reação contra esse horror?...
 
AB – Não!  Jamais!  O surrealismo, no que para ele sonhávamos, seria sempre ação, nunca reação. Nunca uma resposta; nunca uma consequência. Queríamos, como tantos outros poetas, desvirginar o labirinto do velho e metafísico mistério. O dédalo sem saída das palavras formulaicas, que mascaram a realidade, produz um véu de tule que nos permite divisar silhuetas e tomá-las pelas coisas-em-si. Nosso gesto foi um gesto de ação; de agressão, se quiser, mas sempre um gesto de enfrentar a realidade. Precipitamo-nos sobre ela com a ousadia com que um suicida se precipita contra o pavimento. A guerra serviu para nos mostrar que a vida não tinha limites. Acreditávamos (me refiro aos homens, a nossa espécie como um todo) acreditávamos na paz, na natureza; mas se aquele horror era possível, então tudo que houvesse entre esses dois extremos tinha que ser levado em conta. Inclusive o crime sem motivo, a blasfêmia sem perdão, o irracional sem beleza, o martírio sem explicações, a depravação sem prazer, a loucura sem libertação... Os descarrilamentos do espírito. A guerra me apresentou à loucura, em Nantes, onde fui enfermeiro. E aqueles homens que babavam e balbuciavam sílabas sem sentido, queixas fantasiosas, que improvisavam palavras híbridas para vomitar o indizível... aqueles homens estavam sintonizados com o tempo em que viviam. Nós, os lúcidos, fomos os perdedores daquele conflito. O surrealismo foi a convulsão de um corpo que precisava descobrir se estava vivo ainda.
 
BT – Fala-se que o Surrealismo nasceu de uma visão pessimista do mundo, mas depois adotou o mais improvável dos otimismos, que foi o comunismo marxista. O senhor certamente vê essa questão num nível maior de complexidade.
 
AB – É preciso ter em mente que a cidade onde circulávamos era uma galeria de monstruosidades, de deformações em cera e arame, de batráquios galvanizados candidatando-se a cargos eletivos, de contrabandistas de estrume eleitos para as academias. Não há como descrever, para um sobrevivente dos séculos, a espantosa fermentação nauseabunda de ideologias bastardas em que se refocilava a Paris daquele tempo, a Paris dos andaimes sanguinolentos, das cadeiras de tribunal forradas de couro cabeludo, dos cartórios onde as penas dos necromantes eram molhadas em tinteiros de pus, das repartições públicas onde era preciso mastigar os pés de uma múmia para ter o direito de praticar felação num fuzil. Esse era o mundo normal que os Surrealistas escandalizaram, e que depois os comunistas ameaçaram dinamitar, e que os editorialistas de L’Humanité proclamaram morto um século após seu apodrecimento. Sim, nosso impulso era o de espezinhar os arquiduques, e de dirigir mangueiras de incêndio contra esses Panteões feitos de açúcar.



BT – Em suma, era muito mais um movimento de negação do que uma nova proposta de organização social...
 
AB – Mas meu caro senhor, como concebe uma “nova proposta de organização social”? O entendimento que nos inquietava, que nos bouleversava, era o entendimento de que a sociedade é ao mesmo tempo um desabrochar e um desmoronar sobre si mesma, um gêiser pagão, um jato dágua que se ergue vertical e depois desaba de volta em circunvoluções semelhantes ao deste cérebro onde nada existe em linha reta, onde dois mais dois não perfazem quatro porque se trata de duas calçadas e duas moscas... Mas ainda assim é notável o esforço da humanidade em tentar produzir ritos, formalidades que deem a impressão de mundo normal. A civilização é a tentativa de reger as chamas de um incêndio. Minha ironia final é constatar que a lógica, a cultura, a ordem social, são as proposições mais absurdas, mais bizarras, mais  insanas – mais Surrealistas, portanto – a que a Humanidade jamais se dedicou. Oh, sim, a última palavra é uma gargalhada. A História é escrita pelos vencedores, mas a última piada é sempre dos vencidos.

 
BT – Não sei se foi o seu caso. Talvez a última fala tenha sido de Salvador Dali, não? No mundo de hoje, a palavra surrealismo leva mais gente a pensar nele do que no senhor. Ou em Aragon, Péret, Desnos, Éluard...
 
AB – Ah, Dali, aquele manequim anguloso funcionando à bateria... Sim, sei muito bem a celebridade em que se tornou, ele e seu realejo de prodígios pré-fabricados... Suas bisnagas palpitantes de esperma, seus tigres feitos de tapete, seus espectros de veludo e fumaça... Dali (como outros, aliás) é a melhor comprovação da tese surrealista de que a libertação do espírito e o contato com o plasma ardente da poesia estão ao alcance de qualquer um. Quando dizíamos que a poesia deve ser feita por todos, é porque incluíamos nessa lista os canalhas, os traidores, os mercenários, os pavões cravejados de medalhas comemorativas, os gigolôs da fortuna alheia, os estripadores, os estupradores, os enfermeiros que injetam soporíferos na língua dos pacientes... Se o Surrealismo prevalecer um dia, meu caro senhor, todos esses indivíduos serão capazes de produzir poesia de alta qualidade, porque o Espírito (que é algo muito distinto da “alma” dos cristãos), se manifesta em todas as mentes humanas. Esse é o deslumbramento e a tragédia da condição humana: que as piores pessoas que temos sejam também capazes de produzir o que temos de mais elevado, porque – esta é uma das palavras de ordem do Surrealismo – em qualquer ser humano insignificante é possível fazer desencadear os poderes originais do Espírito.
 
BT – Que, como o senhor mesmo acabou de dizer, nada tem a ver com a existência de almas humanas imortais ou de um Além sobrenatural.
 
AB – Oh, não certamente. Não precisamos de outro mundo. Este mundo aqui já tem uma quantidade suficiente de ameaças, de recompensas, de prazeres, de deslumbramentos, de tragédias... O mundo é um oceano desmedido. Se mal raspamos a sua superfície, se mal tocamos a espuma de suas ondas, por que deixaríamos de mergulhar nele para tentar imaginar outro mundo, outro mar? Não, nosso mar é o mar do inconsciente humano compartilhado, temos que afundar nele de olhos escancarados para sua escuridão, temos que nos amarrar a bolas de ferro, às bolas e correntes da poesia convulsiva, do estranho, do bizarro, do inesperado. Temos que afundar no Real, quando mais não seja porque todas as pessoas que desprezamos e que nos desprezam nos dizem para fazer o contrário.
 
BT – Monsieur Breton, sempre tive uma curiosidade a respeito de Paris, é algo que se refere aos 365 apartamentos que estão interligados por passagens secretas... Essa descoberta se deve, na verdade, ao seu amigo Louis Aragon?
 
AB – Aragon era um visionário com senso de humor. Nossos caminhos divergiram, infelizmente, mas nossos corações, por assim dizer, continuam a flutuar próximos, neste oceano da impermanência. Aragon sugeriu essa idéia a Jules Romains, que a incluiu num romance. Verdade? Invenção? Eu não sei. Na época, era intensa a minha repulsa pela literatura, pela prosa de situações banais do cotidiano, pelas marquesas que saíam às cinco horas... Parecia-me uma arte inferior, comparável à do desenho de cartões de namorados ou decoração de bolos. Meus amigos viam uma perturbadora beleza nessa idéia de um fio de corredores secretos estendendo-se através de Paris – ou de qualquer outra cidade, à sua imaginação – por onde é possível caminhar sem ser visto, fugir sem ser apanhado, espionar sem ser pressentido, deslocar-se no espaço sem sofrer rastreamento...


 
BT – Eu pagaria por esse direito uma polpuda mensalidade, Monsieur Breton, mas a esta altura parece que tudo se circunscreve aos domínios do feuilleton, da pulp fiction...
 
AB – Ah, meu caro senhor, não menospreze o poder revelador, o poder encantatório das cerimônias profanas da ficção popular, da cultura das calçadas. É ali que vemos o desabrochar orgulhoso do Espírito coletivo, que, não se engane, não desce do Céu sobre nós para nos trazer lições de moral, mas emerge do asfalto, dos paralelepípedos, dos tijolos, da alvenaria, para nos trazer lições de sobrevida e transcendência. Pense em Rimbaud e seu fascínio pelo teatro de mamulengos, pense na brutalidade plebéia de Lautréamont, pense em Jarry e sua tradução da ciência para o idioma da sarjeta... Todos estes poetas acharam, cada um ao seu modo, um canal de comunicação permanente com essa correnteza obscura, maníaca, com o estado de furor, com o acaso objetivo, com as imagens convulsivas e fulgurantes, as truculências simbólicas.
 
Eu estava de olhos baixos, avaliando meio distraído os dragões laqueados do tampo da mesa. Ergo o rosto para encará-lo. Ele é agora o jovem altivo, leonino, imponente, que atraía olhares e provocava frêmitos à sua passagem. Em poucos minutos remoçou quarenta anos. É como se eu tivesse vindo até ali para trazer-lhe algo de que necessitava. Um olhar, uma reativação que talvez lhe proporcione mais cem anos de sobrevida. Quem pode saber?
 
Antes de nos despedirmos, ele me leva até a janela. Lá embaixo, vemos o mundo alvinegro, as calçadas, os pedestres, vemos aquele filme granulado e trêmulo do passado; e uma cidade de caligaris, uma cidade de zumbis, de pequenos burgueses em seus bigodões e seus capotes, que podem morrer carbonizados à simples visão de uma camisa amarela, uma bandeira vermelha, um par de sapatos azuis. 

Breton faz um gesto largo abarcando aquela avenida inteira, aquele século.
 
AB – Eles nos odeiam, caro senhor, mas não há propósito em odiá-los. Sabem que um mundo onde possamos viver é um mundo que os ameaça. Não é a nossa vontade que determina isto, é a natureza da coisas. Até hoje o mundo foi deles. Changer la vie! – foi o brado de Rimbaud. E o faremos. Temos quanto tempo pela frente? Uns diriam mil anos; outros diriam: a eternidade.
 
BT – Uma última provocação. Seu amigo Luís Buñuel reconheceu certa vez que, visto em retrospecto, o Surrealismo fracassou no essencial e triunfou no que era supérfluo e secundário. O que me diz?...
 
AB (pondo a mão no meu ombro, num gesto paternal) – Ah, Luís?... Luís é um garanhão coroado de papoulas.
 
Despeço-me e volto à calçada, ao mundo colorido de moças com cabelos roxos e piercings, de buttons fosforecentes, de bancas de revistas apregoando super-heróis e pilotos de Fórmula 1, de outdoors, de blusões de couro marrom, de óculos espelhados, de cabelinho verde espetado em gel, de boné revirado, de cavanhaque insolente. Em cada um deles, caminhando na direção do portal art-nouveau da estação do metrô, imagino rever aqueles olhos de um fogo feito de ferro, um ferro feito de céu.


(foto: Sergio Cohn)


(Nota necessária: esta série de "Entrevistas Transcendentais" é composta por textos imaginários. Eu não entrevistei essas pessoas.) 

Augusto dos Anjos:

Julio Cortázar:

Philip K. Dick:

Agatha Christie:










 
 









sábado, 12 de março de 2022

4802) Creio em Deus porque é absurdo (12.3.2022)




Eu discuto política, religião, futebol... discuto qualquer coisa. O que eu não discuto são os gestos totalizadores da vontade. Eu não discuto o que é questão de fé pessoal.
 
Um gesto totalizador da vontade é quando decidimos professar uma crença absoluta, um amor absoluto, uma obediência absoluta ao que quer que seja. É um gesto “totalizador” por causa desse caráter pessoal, “de foro íntimo”, incondicional, que nos faz crer numa religião, numa doutrina política. E que, num plano mais restrito, nos faz amar uma pessoa. Ou, num plano mais superficial, torcer por um time de futebol, ser fã de um artista...
 
Por que não discuto? Porque discutir significa tentar ver algo pelo lado de fora, e quando uma pessoa executa esse gesto (crer num Deus, ter uma ideologia, etc.) é como se não existisse mais a possibilidade de um “lá fora”. Aquela crença permeia tudo, impregna tudo. Ela explica e justifica, ou explica e condena, cada gota dágua, cada grão de areia.
 
Não discuto porque discutir significa tentar decompor essa crença em seus elementos: os argumentos que a justificam, as provas (mesmo provas meramente verbais, meramente retóricas) que a confirmam. Para quem tem fé absoluta em alguma coisa, essa fé é indivisível como um número primo. Não é composta de fatores que podem ser isolados, e depois analisados separadamente. Não há fatores. Não há argumentos. É algo totalizante.
 
Há uma famosa frase da tradição religiosa, “credo quia absurdum”, que vem sendo discutida há séculos pelos exegetas. Não entrarei aqui nos labirintos latinos e teológicos, mas comentarei a frase como ela é, hoje, percebida em português, pelas pessoas de hoje.
 
Por muito tempo imaginei que essa frase, uma justificativa frequente da fé religiosa, queria dizer algo como “Eu acredito nisso, mesmo que isso pareça absurdo.” O que do meu ponto de vista, aos quinze ou vinte anos, fazia sentido. Eu também acreditava em coisas que pareciam absurdas aos adultos da época. Não me era difícil ficar alternadamente tanto na posição dos que creem quanto na posição dos que ficam atônitos.
 
Depois, fui direto às fontes e me explicaram que não é bem assim. É o contrário: “Eu acredito nisso, justamente porque é absurdo”. É por ser absurdo que eu creio. Se fosse uma coisa lógica, eu não precisaria acreditar: bastaria prová-la com dois ou três silogismos.
 
E é engraçado, porque esse argumento aparentemente contraditório me pareceu mais forte do que o anterior. Porque ele se refere a outro tipo de crença. É a crença dos iluminados, dos que um dia são fulminados por um raio de compreensão e esse raio não se extingue dentro deles.
 
Há os que são convertidos a uma causa pela razão, pela lógica, pelos argumentos, pela força da persuasão alheia. E há os que vêm cavalgando pela Estrada de Damasco e são fulminados pelo relâmpago da Fé.


(“A Conversão de São Paulo”, Nicolas-Bernard Lepicie, 1767)
 
Como explicar isso? Não sei, só sei que é assim. E é porque é assim (dizem os crentes) que eu creio. Ninguém precisou me convencer. Ninguém me fez escalar degrau por degrau, lição por lição, apostila por apostila, até um dia chegar no alto da montanha. Eu vinha andando na rua, de repente houve um clarão e eu estava no alto da montanha, “e a Verdade se desvelou para sempre diante dos meus olhos”.
 
Vai se discutir o quê com uma pessoa como essa?
 
A fé filosófica ou religiosa não se distingue muito, nesse aspecto, de outras revelações que podemos comprovar de forma experimental, em laboratório. As descobertas científicas brotam às vezes do Inconsciente (olha aí, já é uma tentativa de decompor o relâmpago).
 
Alguns exemplos são clássicos. O cientista passa meses ou anos pesquisando uma coisa, sem resultado, e um belo dia está fumando charuto numa poltrona ou subindo no ônibus, e zapt! – a resposta brota prontinha em sua mente, armada da cabeça aos pés como a deusa Palas-Atena.
 
Em casos assim, é possível mostrar que houve uma pré-elaboração dessa idéia, ela não “caiu do céu”. Não é maluquice presumir que as faculdades analíticas da mente possam ficar “rodando” como aplicativos, fora da consciência, enquanto o cientista almoça, bota os filhos pra dormir, dá aula, joga xadrez com os colegas, troca afagos com a consorte.
 
O programa está rodando, caladinho, à sorrelfa, está checando caminhos, experimentando outras variáveis. Um belo dia, zapt! – aparece uma resposta, o cientista tem um sobressalto, e voilà!...
 
Um livro muito útil a respeito desse processos é The Psychology of Invention in the Mathematical Field (1943), de Jacques Hadamard.



Voltando à fé religiosa: talvez não seja despropositado imaginar que esse é um domínio onde iluminações desse tipo possam acontecer com maior frequência, até porque não precisam ser demonstradas mediante cálculos matemáticos ou experiências de laboratório, como ocorreu com as iluminações de Isaac Newton, Einstein, Descartes, Poincaré, Kékulé e tantos outros.
 
Os raios da fé religiosa dificilmente desabam no senador da república ou na verdureira da quitanda, que têm outras preocupações. Desabam em mentes já envolvidas com questões religiosas ou existenciais mal resolvidas, desabam em pessoas que passam noites em claro, com o juízo bouleversado, tentando fazer sentido das experiências de sua vida. Essas pessoas são pára-raios prontinhos para atrair o relâmpago da fé. (Que, sempre é bom lembrar, não cai do céu – cristaliza-se no inconsciente, e com tal força que emerge, de baixo para cima.)
 
Quando o crente diz “acredito justamente pelo fato de ser algo absurdo, inacreditável”, está dizendo, por um lado, que o que pudesse haver de análise, exame, avaliação, já foi feito pelos aplicativos do seu Inconsciente, nos quais ele instintivamente confia.
 
Por outro lado, está dizendo que essa crença não é o resultado de uma operação lógica, mas um gesto da Vontade. Acredito porque decidi acreditar. Acredito porque tudo que me mobiliza intelectualmente e emocionalmente me disse que acreditasse “sem discutir”.
 
Não é muito diferente de muitos exemplos do “amor romântico”, essa outra divindade onisciente, onipotente e onipresente em nossa cultura. Claro que a maioria dos apaixonados encontra laudas e laudas laudatórias para se justificar: ela é linda, é inteligente, é carinhosa, tem caráter, tem bom coração, tem rosto formoso, corpo bacana, é de boa família, se veste bem, gosta dos Beatles, torce pelo meu time... Argumentos nunca faltam, e mesmo que faltassem à donzela todas essas qualidades aí, o romeu acharia outras, igualmente importantes.
 
A raiz do fenômeno pode ser investigada melhor naqueles casos “quia absurdum”, em que o desafortunado se rói de paixão e ele mesmo comenta: “não sei que diabo está acontecendo comigo, isso não pode dar certo nunca.”  Ou (como cantavam os Beatles), “I don’t like you but I love you; I don’t want you, but I need you” (“You’ve Really Got a Hold On Me”, de Smokey Robinson).
 
– Mas John Lennon, essa mulher é muito feia!  
– É feia mesmo que eu gosto.



(foto: Susan Wood)
 
Um crente religioso sincero passa por um processo semelhante. Crer em Deus é uma iluminação totalizadora, que nem sempre brota da Vontade, no sentido da intenção original (veja-se o caso de São Paulo, o típico perseguidor que se converte à fé dos perseguidos), mas é encampada por ela no momento em que o intelecto orgulhoso abaixa a cabeça diante de uma certeza que seus raciocínios nem sonham em abarcar.
 
Como discutir com alguém assim? Como tentar convencê-lo de que o Deus dele não existe, de que o ideal político dele é falacioso ou historicamente datado?
 
Notem que estou me referindo aos sinceros, e não aos bilhões de zumbis que aceitam aquele credo como teriam aceitado outro qualquer, desde que lhes fosse imposto nas mesmas circunstâncias da vida e por meios semelhantes.
 
“Acredito porque é absurdo”, porque diante do absurdo só existem duas reações possíveis: a rejeição prudente ou a aceitação total.








quarta-feira, 9 de março de 2022

4801) Os assassinatos políticos (9.3.2022)



 
(Gabriel Garcia Márquez)
 
Escrevi dias atrás sobre o assassinato do primeiro ministro da Suécia, Olof Palme, ocorrido em 1986. Até hoje não se sabe com certeza quem foi o homem que o alvejou após a última sessão de um filme, por volta das 23:30, quando ele se dirigia com a esposa para o metrô.
 
Palme estava sem a proteção de seguranças. Era um dia comum de inverno, ruas nevadas e com poucos transeuntes. Um homem o seguiu por alguns metros. Quando o casal parou numa esquina, o cara chegou mais perto e disparou um tiro de revólver em cada um. A esposa foi ferida de raspão; Palme morreu minutos depois.
 
Aqui, sobre a série:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2022/02/4797-o-assassinato-de-olof-palme-2422022.html
 
A série Assassinato de Olof Palme (Netflix) reconstitui ficcionalmente o caso, denunciando um suspeito. Um detalhe que chama a atenção desde o início é que havia poucas pessoas em volta, os depoimentos às vezes se contradiziam, e tudo parecia beneficiar o criminoso.
 
Alguém pode pensar: "O melhor momento para um crime como esse, então, é tarde da noite, rua quase deserta, pouca gente em volta..."
 
Nem sempre. Me veio logo à lembrança outro assassinato político famoso e não explicado de forma 100% satisfatória. 

Esse crime foi testemunhado de perto por Gabriel Garcia Márquez, que o reconta em suas memórias (Vivir Para Contarla, Bogotá, Editorial Norma, 2002). Infelizmente o livro de Márquez não tem subdivisão em capítulos, mas os textos que vou citar estão da página 330 em diante (não tenho em mãos a tradução brasileira).
 
A Colômbia vivia em 1948 uma campanha presidencial num momento de extrema tensão e violência política. Márquez lembra uma tourada, em Bogotá, em que o toureiro demorou tanto a liquidar o touro que a torcida desceu das arquibancadas e esquartejou vivo o animal.



(Jorge Eliécer Gaitán, 1903-1948)
 
Um dos protagonistas políticos mais importantes era Jorge Eliécer Gaitán, líder da oposição de esquerda, que fazia discursos inflamados contra os opressores, as elites, a violência do governo, etc.  No dia 9 de abril de 1948, ele saiu em grupo para almoçar num restaurante no centro de Bogotá, a pé, cercado por meia dúzia de amigos e correligionários.
 
Garcia Márquez tinha nessa época 21 anos e era estudante; estava almoçando a três quadras dali, na pensão onde morava, quando alguém entrou correndo e gritou:
 
– Agora o país se fudeu mesmo! Acabam de matar Gaitán, em frente a "El Gato Negro".


(Garcia Márquez jovem)
 
Márquez saiu voando. No local do crime, homens agachavam-se, tiravam o lenço e o encharcavam na poça de sangue, para guardar como souvenir. O agressor havia se refugiado numa farmácia, cujo dono correu as portas, mas a multidão já fazia de tudo para botá-las abaixo. E Márquez, olhando tudo, recorda:
 
Um homem alto e muito senhor de si, com traje cinza impecável, como se estivesse indo para um casamento, os incitava com gritos bem calculados. (trad. BT)
 
GGM tem olho de jornalista e descreve o momento em que o dono da farmácia, apavorado, entregou à polícia o fugitivo.
 
Tinha o cabelo revolto, uma barba de dois dias e uma palidez mortal, com os olhos sobressaltados pelo terror. Seu traje era de pano marrom, de um tipo muito usado, com listras verticais; a gola já estava rasgada pela multidão. Foi uma aparição instantânea e eterna, porque os engraxates o arrancaram das mãos dos guardas a golpes de caixotes e o derrubaram a pontapés. Nos primeiros sopapos já havia perdido um pé de sapato.


(O crime foi mais ou menos aqui, na 
esquina de Av. Jiménez com Carrera 7)
 
O criminoso foi depois identificado como Juan Roa Sierra, um indivíduo insignificante do ponto de vista político, um “pawn in their game” da estirpe de Lee Harvey Oswald. O homem de cinza, sempre próximo, começou a gritar: “Ao palácio!... Ao palácio!...”  O corpo ensanguentado do pistoleiro foi arrastado rua afora, e ficou exposto diante do Palácio Presidencial. Diz o escritor:
 
O cadáver desfigurado a golpes ia deixando pedaços de roupa e do corpo nas pedras do calçamento. (...) Ali deixaram o que sobrou do cadáver, sem outra roupa senão os farrapos da cueca, o sapato esquerdo e duas gravatas inexplicáveis ao pescoço.
 
Para mim, são esses pequenos detalhes absurdos que conferem verossimilhança a um relato.  Conheço o estilo de Garcia Márquez o bastante, e creio que, para ele, inventar um detalhe assim seria um clichê banal, mas vê-lo no mundo real e registrá-lo é pura literatura de não ficção. (A segunda gravata é ligeiramente plausível, se imaginarmos que um dos linchadores achou mais prático tirar a própria gravata e usá-la para arrastar o corpo do linchado pelo pescoço.)

E ele relata:
 
Permaneci no lugar do crime uns dez minutos mais, surpreendido pela rapidez com que as versões das testemunhas iam mudando de forma e de conteúdo  até perder qualquer semelhança com a realidade.
 
Márquez faz um relato cheio de citações. Pessoas presenciaram o instante em que um correligionário do grupo de Gaitán, Plínio Mendoza Neira, o tomou pelo braço, quando caminhavam de volta do restaurante, para fazer-lhe um pedido, e viu quando o candidato ergueu o braço diante do rosto, num reflexo instintivo de defesa, antes de receber os três tiros na cabeça que o abateram.
 
E o escritor conclui:
 
Cinquenta anos depois, permanece nítida na minha memória a imagem do homem que parecia instigar o populacho em frente à farmácia, e não vi referências a ele em nenhum dos incontáveis testemunhos que li sobre aquele dia. Eu o vi muito de perto, elegantemente vestido, uma pele de alabastro e um controle milimétrico de cada gesto que executava. Tanto me chamou a atenção que fiquei de olho nele até que o recolheram num automóvel novinho em folha, com a mesma rapidez com que estava sendo levado embora o corpo do assassino; e desde então parece que ele foi apagado da memória histórica. Inclusive da minha, até muitos anos depois, em meus tempos de jornalista, quando me assaltou de súbito a noção de que aquele homem havia dado um jeito para que matassem um falso assassino, a fim de proteger o verdadeiro.
 
No crime de Olof Palme, a polícia sueca montou maquetes com bonequinhos, reconstituindo os passos da meia dúzia de pessoas que estavam naquele pedaço de quarteirão quase deserto. Nem isso lhe valeu. Já na morte de Gaitán, a polícia da Colômbia chegou ao local do crime segundos depois, mas o tumulto era tal que até hoje ninguém conseguiu deslindar as pistas. E o fato de que o possível criminoso foi linchado sem demora serve como uma espécie de “vire a página”, em muitos casos assim.
 
Além do mais, se é de fato um crime planejado por uma equipe, e não o gesto impulsivo de um maluco, não faltarão bodes expiatórios, indivíduos suspeitos que terão sido mandados para o local pelos “chefes” sem saber exatamente o que se espera deles, testemunhas com história pronta que rapidamente oferecerão seu despiste às autoridades.
 
Fico imaginando o quanto essa lembrança do “Homem de Cinza” deve ter incomodado Garcia Márquez durante a vida inteira. Por ironia, ele teria sido o único a ver o instigador direto do crime e a desconfiar dele, e nem o fato de ter se tornado um dos escritores mais famosos do mundo fez com que alguém um dia lhe desse ouvidos.
 
 







domingo, 6 de março de 2022

4800) Cinco fugas da prisão (6.3.2022)



1
Em 1956, vinte prisioneiros de uma ala especial da antiga prisão estadual de Hortendorf (em Klagenfurt, Áustria), conseguiram abrir por baixo de suas celas um túnel que se alongou por mais de cem metros na direção da floresta vizinha. Na noite da fuga, o nervosismo e o alvoroço levaram os fugitivos a derrubar algumas das escoras que mantinham o túnel de pé, e o terreno, já enfraquecido pelos meses de escavação constante, cedeu no interior do túnel, desmoronando na galeria de esgotos que ficava por baixo, e cuja cobertura de pedra elas tinham sido incapazes de perfurar. Todo o piso daquela ala afundou mais de dez metros no subsolo, rachando o terreno, fazendo desabar a torre de vigilância mais próxima, e com isto provocando um circuito na cerca eletrificada e um incêndio que consumiu duas alas maiores antes de ser apagado pelos bombeiros. Dos vinte fugitivos que estavam no túnel, dezessete morreram soterrados, mas durante o caos e o pandemônio do incêndio cerca de duzentos outros conseguiram fugir.
 
2
Em maio de 1844, na prisão da Santé, em Paris, o frade franciscano Jacques Beaurevert, autorizado pelo capelão da cadeia, foi admitido ao calabouço onde se achava trancafiado o notório ladrão Paul Riennes, cuja execução estava marcada para a semana seguinte. Ali, ouviu-lhe a confissão, absolveu-o e retirou-se murmurando bênçãos aos guardas que o conduziram de volta à rua. Duas horas depois, na ronda em que era servido o rústico bandejão dos presos, qual não foi a surpresa dos carcereiros quando descobriram, envergando o uniforme listrado de detento, o próprio frade de quem haviam se despedido pouco antes. Foi dado o alarma, inutilmente, e sob pesado interrogatório o frade explicou que havia sido hipnotizado – palavras que os oficiais da Santé desconheciam, mesmo já estando em circulação pelo menos desde 1620 o termo “hypnotique” para designar algo capaz de causar o sono, mas no idioma inglês o Dr. James Braid introduzira, apenas um ano antes, o termo “hypnotism”, para indicar “um tipo de transe induzido”. As autoridades concluíram que a história estava muito mal contada, e o fato oficial é que “Paul Riennes” foi executado na hora prevista, e sepultado às pressas.
 
3
A prisão federal de segurança máxima de Umlazi (África do Sul) mantém um corpo permanente de 85 guardas que se revezam em turnos, na vigilância de 64 prisioneiros. Revistas são feitas diariamente nas celas, em horários aleatórios. Comportamentos suspeitos fazem com que os guardas obriguem os prisioneiros a mudar de cela inesperadamente. Sensores sismológicos estão instalados em todas as paredes, e são semanalmente checados pelos guardas. As cercas são eletrificadas, com equipes de três guardas em cada torre, e há câmeras de monitoramento 24h, controladas por meio de duas centrais independentes, com patrulhas sempre a postos. Revistas médicas minuciosas são feitas nos presos, todos os meses, em datas e horários imprevisíveis. Um prêmio em dinheiro está permanentemente oferecido a quem ajudar na captura de algum preso foragido. E ainda assim, nas duas primeiras décadas deste século nada menos de dezoito guardas conseguiram fugir da prisão, fato que deixa as autoridades compreensivelmente perplexas.
 
4
Em 1735, o notório pirata Giancarlo Mezza Gamba, após uma incursão mal sucedida, caiu prisioneiro da fragata inglesa “Sparrow Song”, em cujo porão foi trancafiado, depois de ter correntes amarradas à cintura, e grilhões atados aos pés. Com 22 homens na tripulação para vigiá-lo, sendo três em guarda permanente no alçapão que dava acesso ao porão, imaginou-se que estariam em segurança durante os dois dias de viagem de volta a Portsmouth, onde o bucaneiro seria entregue às autoridades. Um dia e meio apenas foi bastante para que ele (deduziu-se depois, a partir das declarações dos sobreviventes) conseguisse apossar-se de uma haste metálica arrancada de um baú, e com ela escavar as ranhuras entre as tábuas do fundo, afrouxando-as, arrancando-as dos pregos; contou também com a tempestuosa noite final da véspera de sua planejada chegada a Portsmouth, para fazer com que parte inferior da fragata cedesse parcialmente, fizesse água, fosse ao fundo em pleno clamor da tormenta com trovões e relâmpagos, sendo que Mezza Gamba conseguiu, mesmo acorrentado, escapar para o meio das ondas, agarrar-se a um barril vazio e assim boiar durante vários dias até dar na costa irlandesa, onde foi reconhecido por um grupo de patriotas, dos quais tornou-se instantaneamente um herói ao explicar como conseguira afundar a fragata do capitão “Hook” Mulvaney, notório perseguidor daqueles patriotas rebeldes.  
 
5
Em Austin (Texas), em maio de 1995, um professor de matemática, apelidado pelos seus alunos The Human Computer, apostou com o editor de um programa de TV local que seria capaz de fugir de uma prisão de segurança máxima. Foi-lhe oferecido um prêmio de 10 mil dólares caso ele conseguisse, com a condição de que cada hora por ele efetivamente passada dentro da prisão diminuiria 1 dólar do total do prêmio. Quando se completou um ano, a emissora de TV consultou o professor para saber se ele queria dar a aposta por encerrada e receber o saldo remanescente do prêmio, que a esta altura tinha minguado para cerca 1.240 dólares, mas, teimoso que era, ele insistiu em continuar. O professor continua preso, e teve que vender seu apartamento para pagar a dívida dos 26 anos passados em sua cela.