quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

4781) O mundo sem os Beatles: "Yesterday" (6.1.2022)


Um truque frequente da ficção fantástica é imaginar o nosso mundo quase igual ao que é – mas com uma mudança essencial, radical. Tudo igual – menos aquilo.
 
E mais: tudo igual, menos aquilo... e as consequências daquilo. Há inúmeras histórias alternativas em torno de premissas como (olha o maior clichê de todos) a vitória de Hitler na II Guerra Mundial. Ou a derrota da União, na Guerra Civil norte-americana. Ou um império romano onde não existiu Jesus Cristo. Ou um mundo onde a América não foi descoberta.
 
Adolfo Bioy Casares imaginou um mundo sem os celtas (“A Trama  Celeste”). Kim Stanley Robinson imaginou um milênio inteiro sem a Europa (que teria sido dizimada pela Peste Negra), em The Years of Rice and Salt.  E assim por diante.
 
Essas ausências podem ser menores, e mais idiossincráticas, mais peculiares. Georges Perec imaginou um mundo sem a letra “E” (La Disparition), e Damon Knight imaginou um mundo sem a letra O (“O”). Stanislaw Lem imaginou uma máquina capaz de “desexistir” qualquer coisa começando com “N” (The Cyberiad).
 
E Danny Boyle, com seus roteiristas Richard Curtis e Jack Barth, imaginou um mundo de pesadelo onde os Beatles jamais teriam existido. Existe o rock, os produtores, os executivos de gravadora, existem bandas... mas não os Beatles.
 
Yesterday (2019) é um filmezinho simpático de sessão da tarde, cujo argumento bem poderia ter sido concebido para uma série tipo Além da Imaginação.


Jack Malik (Himesh Patel) é um roqueiro comum, tentando decolar na carreira. Tem a seu lado a amiga e empresária Ellie (Lily James), apaixonada por ele em segredo. Uma noite, ele sofre um acidente no instante em que um fenômeno totalmente Twilight Zone interrompe por doze segundos toda a energia do globo. Quando sai do hospital, ele constata que o mundo é o mesmo – só que ninguém conhece os Beatles. Nem mesmo o Google.
 
O passo seguinte para ele (com um remorso e uma hesitação bem desenvolvidos no roteiro) é dizer a todo mundo que é o autor de musiquinhas como “Back in the USSR”... “Yesterday”... “Hey Jude”...
 
O enredo é sem muitas surpresas. Em seguida à premissa inicial, brotam piadinhas menores, bem distribuídas. Além dos Beatles, no novo mundo de Jack Malik não existem nem cigarros nem Coca-Cola – e ninguém percebe. Nada é insubstituível.


O Danny Boyle deste filme nem parece o autor de Trainspotting (1996), aquele filme cru, debochado, angustiado e cínico sobre rapazes escoceses que não têm o que fazer da vida. Trainspotting é um filme alternadamente pessimista e bem-humorado, fala de droga, de crime, de trambique, de solidão, de amizade, de autoritarismo, de carinho.
 
Lembra os filmes britânicos dos anos 1960 sobre rapazes sem rumo das vilas operárias e da baixa classe média, filmes como Billy Liar (1963) ou Saturday Night, Sunday Morning (1960), ou Gosto de Mel (1961), ou The Loneliness of the Long Distance Runner (1962) e tantos outros. Nada de Hollywood, na Grã-Bretanha daquele tempo. Uma vida amarga, uma vida em preto-e-branco, uma vida sem graça, sem amor, sem liberdade, sem alegria, sem pílula, sem sexo. Uma vida onde os Beatles (ainda) não existiam.


Um ponto de inflexão na carreira do diretor talvez seja o premiado Quem Quer Ser Um Milionário? (2008), que é uma história beeeeem Hollywoodiana (ou “Bollywoodiana”) sobre o rapaz humilde que vira milionário.
 
Jack Malik, o herdeiro espiritual dos Beatles em Yesterday, nada tem dos rapazes de Trainspotting: Não é um personagem visível (mesmo com o esforço do ator que o interpreta). É uma silhueta de papelão destinada pelo roteiro a ser um milionário, num filme todo articulado com a previsibilidade de um conto-de-fadas para adultos. (Ao que parece, todo adulto, hoje em dia, acredita que pode se tornar milionário.)


O mais interessante no filme de Boyle é o modo como o mundo fantástico procura acomodar suas camadas.  A natureza tem horror ao vácuo. Uma vez postulada a existência de um universo paralelo onde os Beatles nunca se formaram, a narrativa se desenvolve como se aquelas canções continuassem latentes, num limbo, pedindo para serem escritas, pedindo para surgir à tona.
 
E Jack Malik percebe a sua enorme responsabilidade. Como somente ele (aparentemente) lembra da existência dos Beatles, cabe-lhe trazer ao mundo todo o cancioneiro do quarteto de Liverpool. Um momento particularmente amargo do filme é quando vemos que Jack não lembra a letra de “Eleanor Rigby”, com a aterrorizante certeza de que, se ele não lembrar, a canção nunca vai ser gravada.
 
Carl Sagan, em seu livro Cosmos (1980), comenta a facilidade com que os tesouros culturais se perdem com o passar dos milênios, e a gente não se dá conta. Sagan lembra que das 123 peças teatrais atribuídas a Sófocles apenas sete sobreviveram. Como podemos ter certeza de que eram estas as melhores?
 
É como (diz ele) se conhecêssemos apenas duas peças de um tal William Shakespeare: Coriolano e Conto de Inverno, e tivessem chegado a nós apenas os títulos de outras, como Hamlet, Macbeth, Romeu e Julieta...
 
É este o drama de Jack Malik, porque tudo passa a depender da memória dele, da sua capacidade de recordar letras, melodias, harmonias, concepções de arranjo... Porque ele corre o risco de ficar existindo num mundo onde se perderam “For No One”, “Happiness Is a Warm Gun” ou “Here Comes The Sun”, mas em compensação talvez ele consiga lembrar tintim por tintim “Not a Second Time”... “Little Child”... “The Night Before”...



É um pouco como o drama do personagem de Borges no conto “Pierre Menard, autor do Quixote”. O fictício escritor francês quer reescrever “de memória” o livro de Cervantes. Por sorte, o livro não se perdeu, tudo é apenas um projeto quixotesco do autor, mas vendo Yesterday não há como não pensar que reescrever de memória algumas canções dos Beatles é quase tão difícil quanto reescrever o Quixote.
 
O filme de Danny Boyle é bobinho, é sessão-da-tarde, mas acaba sendo indiretamente uma homenagem à memória, à capacidade de salvar alguma coisa através da lembrança. Como no Fahrenheit 451 (livro de Ray Bradbury, filme de François Truffaut), em que num futuro onde os livros são proibidos a existência de uma obra depende apenas da sobrevivência de uma pessoa (uma só, em toda a humanidade) que traz aquele livro todo de cor em sua lembrança.












segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

4780) Resoluções para 2022 (3.1.2022)



(foto: "D. Quixote e os Moinhos Elétricos", by BT)



Tornar menos desfocadas as letras dos livros e as legendas dos filmes.
 
Adquirir um robô da Boston Dynamics para trazer do supermercado refrigerante, mineral, cerveja, vinho, suco.
 
Avistar um OVNI e não perceber do que se trata.
 
Inventar um novo esquema de rimas para o soneto.

Criar um sistema industrial de aproveitamento das fibras do coco verde.
 
Anagramatizar em português um poema de Pablo Neruda, um de Arthur Rimbaud e um de W. H. Auden.
 
Juntar todo meu dinheiro e montar uma agência de banco, para viver de juros.
 
Já que estou sem aparelho de som na sala, comprar pelo menos uma luz estroboscópica!
 
Beber como se não houvesse amanhã (e aí é que não vai haver mesmo).
 
Escrever um romance onde todos os personagens masculinos têm os nomes de ex-jogadores do Treze, e ver quantos anos leva até alguém perceber.
 
Abrir o restante das caixas da mudança de dois anos atrás.
 
Fotografar a parte inferior do meu rosto e imprimi-la em uma dúzia de máscaras.
 
Enviar pedidos-de-desculpa telepáticos para todo mundo, e dormir em paz.
 
Visitar os cinco Estados brasileiros que me falta conhecer.
 
Caminhar dez voltas em torno do Maracanã toda vez que for dia de jogo.
 
Doar minha biblioteca a dez instituições culturais diferentes, e entregá-la a quem chegar primeiro.
 
Aprender a me portar como um cavalheiro.
 
Raspar a cabeça e tatuar um labirinto.
 
Trocar as cordas do violão (vamos e venhamos, dois anos é demais).
 
Comemorar o centenário da Semana de Arte Moderna repetindo seus eventos, e chamando-a de Semana de Arte Antiga.
 
Visitar livrarias discretamente e autografar cada exemplar de livro meu que houver por lá.
 
Assistir a pelo menos uma peça no teatro, um show no bar, um filme no cinema.
 
Mandar pintar um retrato meu     a óleo, todo velho, deformado, cheio de feridas, e escondê-lo no sótão.
 
Capturar os pássaros que pousarem na janela, escrever um poema em suas asas, e soltá-los.
 
Aproveitar o carnaval para ler Mikhail Bakhtin.
 
Amarrar o boi no pé da cajarana (por via das dúvidas).
 
Passar as minhas noites fugindo do inferno, dançando no escuro, subindo por onde se desce, cantando na chuva, brincando nos campos do Senhor.
 
 
 
 


quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

4779) A tradução e as cascas de banana (30.12.2021)



Ri bastante agora de tarde com uma postagem de Carlos Alberto Mattos, no Facebook. Para quem não conhece, Carlinhos é um dos grandes críticos de cinema neste país. Por paixão, profissão e determinismo histórico ele é obrigado a ver centenas, quiçá milhares, de filmes por ano. 

Não é fácil ser crítico. Bom é ser cinéfilo: o sujeito que só vê o que gosta, ou o que lhe desperta a curiosidade. O crítico de cinema é como um psiquiatra: é obrigado a examinar o que se passa nas cabeças alheias, e isso nem sempre é agradável de ver.
 
A obrigação de ver tanta coisa nos leva aos pântanos dos filmes dublados ou legendados. O trabalho de produzir legendas/dublagem de filmes é um dos territórios mais atoladiços desta profissão, e as chances de sobrevivência são menores  do que as de quem cruza a pé o Raso da Catarina.
 
Eis a queixa de Carlos:
 
Equívocos costumeiros de tradução que me irritam profundamente na legendagem de filmes:
- "Last night" por "Noite passada" em vez de "Ontem à noite"
- "Just do it" por "Apenas faça" em vez de "Faça, e pronto"
- "At the end of the day" por "No fim do dia" em vez de "No fim das contas"
- “By the book" por "Pelo livro" em vez de "Segundo as regras" ou "Como manda o figurino".
 
Ri bastante, ri com gosto. Foi a primeira gargalhada do dia, e talvez a última do ano. E o fiz por uma razão muito simples: a de que já cometi todos os erros acima, ao traduzir.  Provavelmente ainda os cometerei de novo, porque se a experiência dos erros passados ensinasse alguma coisa a um ser humano nós já estaríamos vivendo em alguma pós-Utopia.
 
É preciso fazer uma ressalva importante, para as pessoas que não traduzem. Tradução de filmes (para legendagem ou dublagem) é um terror, um sufoco, um serviço onde geralmente o profissional recebe uma maçaroca de frases em inglês, impressas em papel, e tem que vertê-las para o português sem ver o filme ou sequer escutar os diálogos que está traduzindo. E naquela base do: “Olha, são só 30 páginas, queremos isso amanhã de tarde, sem falta.”
 
Qual o problema com os exemplos de Carlos? Para mim, tudo reside no fato de que todas essas formas que ele critica (com razão), parecem corretas, soam corretas, simplesmente porque estão coladas, obedientemente, ao sentido das palavras.
 
Entra aqui o meu Primeiro Postulado de Tradução, que reza: “A gente não traduz palavras, traduz frases”.
 
(Algum espertinho vai querer aperfeiçoar isto estendendo o conceito para “parágrafo”, etc.  Fique à vontade, ou, como se diz na tevê, seja meu convidado.)
 
Existem frases-prontas em inglês nas quais a gente deve ignorar as palavras, porque temos equivalentes úteis em português. É o caso de “By the book” que pode ser traduzido por “Como manda o figurino”, e vice-versa.
 
Eu já traduzi “Just do it” por “apenas faça” (não sei onde, nem quando; apenas fiz). Parece fazer sentido, não é mesmo? A gente chega a esquecer que “just” é uma das palavras mais dispensáveis do inglês, um mero reforço, um expletivo, ou (como dizia John Lennon) uma palavra que a gente enfia no verso quando tem uma sílaba faltando. Mesmo quando necessária, é uma palavrinha arroz-de-festa. O “Faça, e pronto” sugerido por Carlos troca essa palavra-chuchu por um termo muito mais substancial, impositivo.
 
Sigo muitos tradutores nas redes sociais, e vou apanhando pelo caminho as cascas de idéias que eles jogam fora. Algum tempo atrás a tradutora Jana Bianchi, no Twitter, comentava que depois de ver a frase “What do you mean?!” cansativamente repetida desistiu de traduzir como “O que você quer dizer?!” e passou a usar “Como assim?!”.
 
Solução perfeita, porque plenamente coloquial (há alguns casos em que a outra seria melhor – um juiz interrogando uma testemunha no tribunal, p. ex.), plenamente “nossa”, e com o efeito extra de manter a sonoridade do original.
 
(Digressão: Eu posso cometer erros bobos, mas sempre que possível gosto de ficar próximo das sonoridades do texto em inglês – sonoridades vocálicas ou consonantais, etc. Quando consigo fazer minha frase traduzida rimar com o original, considero um pequeno triunfo. É o caso de “What do you mean?” e “Como assim?”. Necessário? Talvez não. Importante? Sim, com certeza. Na prosa de ficção principalmente, na prosa literária, há efeitos sinestésicos constantes, obtidos com os fonemas, com os padrões de ritmo das frases, as cadências marcadas pelas sílabas.)
 
E outra coisa. As palavras desencadeiam respostas diferentes, e o tradutor tem que adivinhar a resposta pretendida pelo autor em inglês, e tentar descobrir ou inventar um equivalente em nossa língua.
 
Um dos meus exemplos preferidos é uma frase que vi num filme legendado na TV. Madrugada, um escritório meio às escuras, dois ladrões arrombando um cofre. Ouve-se uma sirene aproximando-se à distância, a freada de um carro diante do prédio. Um ladrão exclama: “Christ! The cops are coming!” A legenda, aplicadamente, traduz: “Cristo! Os tiras estão vindo!”
 
Está certo? Está errado? Digamos que dá-pro-gasto. O importante (diria um autor) é que nossa intenção sobreviva.
 
Mas o tradutor poderia dizer, chegando mais perto do tom coloquial imposto pela cena: “Meu Deus, lá vem a polícia!”  Em português, “Meu Deus” é mais frequente como interjeição (de surpresa, susto, desagrado, etc.) do que “Cristo” ou “Jesus Cristo” (que entra nessa frase como Pilatos no “Credo”). E um tradutor mais cascudo ou mais irreverente poderia tentar traduzir como: “Agora fudeu, chegaram os hômi.”
 
Está certo? Está errado? Em tradução a gente não procura apenas o certo em detrimento do errado. Procura o que se “adéqüa” mais, o que se encaixa melhor, o que dá um recado instantâneo e vai embora, o que reflete implicitamente o meio social do personagem falante e do contexto em que a frase é dita...
 
Traduzir não é transpor, é refazer. A sorte é que não se refaz partindo do zero.
 
 






segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

4778) O ser e o seu contrário (27.12.2021)



(Ursula LeGuin, por Camila Fernandes: Instagram @mila.f.arte)
 
Na década de 1960, Ursula LeGuin deu início à série de livros de fantasia conhecida como “Earthsea” (“Terramar”). Era para ser uma trilogia apenas, mas novas idéias foram surgindo, e a série foi aumentando. Interrompeu-se com a morte da autora, com um total de seis livros, sendo cinco romances e uma coletânea de contos. Talvez haja mais alguma coisa, que desconheço.
 
As histórias de Earthsea ocorrem num planeta imaginário e num arquipélago com dezenas (talvez centenas) de ilhas de todos os tamanhos. Algo como o Havaí ou o Japão, por exemplo, só que em escala maior. Um mundo composto de uma parte fixa, as ilhas, e uma parte móvel, o mar, por onde todos se deslocam continuamente. Uma civilização de canoeiros e navegadores.
 
Esse nome composto, Terramar, me chamava a atenção porque revelava ser um paradoxo assimilado. Terra e Mar são tidos como antônimos, como contrários, mas na verdade são espaços que se complementam para formar uma terceira coisa que necessariamente inclui eles dois, e que poderíamos chamar de o(a) Terramar ou a(o) Marterra.


O mesmo poderia ser aplicado ao nosso planeta, não é verdade?  Ele é chamado de Terra mas cerca de três quintos dele, quase dois terços, são cobertos pelo mar. E por baixo do mar existe mais terra. E nas superfícies de terra existem rios, lagos, e outras coisas que valem como infiltrações do mar, ou do elemento líquido. Nosso planeta bem poderia ter o nome de Terramar.
 
Tudo isso tem a ver com a visão de LeGuin, uma escritora que traduziu para o inglês o Tao Te King (“O Livro do Caminho Perfeito”, de Lao Tse), e para a qual os polos opostos existem, mas cada extremidade de um oposto está permeada, invadida, impregnada pelo outro. É dentro do Yang que cresce o Yin, é dentro do Yin que cresce o Yang. O mar está cheio de terras, a terra está cheia de mares. A Terra é composta de terra e mar.
 
Isto e mais uma série de exemplos me levou a formular o seguinte postulado:
 
Em nossa cultura, temos o hábito, ao tratar de uma entidade composta por dois elementos distintos e aparentemente contrários, de dar a esse conjunto o nome do mais visível desses elementos, o elemento predominante, o mais imediatamente perceptível. É ele quem “batiza”, “registra” e denomina essa dualidade.
 
Poderíamos chamar nosso planeta de Mar, porque nele os oceanos predominam; mas escolhemos chamá-lo de Terra, porque é onde vivemos, e portanto consideramos egoisticamente a terra mais importante do que o mar.


(Yin-Yang, por Aimará Decor)
 
Ocorreu-me que tratamos do mesmo jeito o dia e a noite. Um dia é um espaço de 24 horas, o tempo de uma volta completa do planeta em torno de si mesmo.  Ora, acontece que em cada momento desse giro uma parte do planeta está voltada para a luz e outra parte para a sombra. Chamamos aos momentos de luz “Dia” e aos momentos de sombra “Noite”.
 
O Dia, portanto, é algo composto de duas metades: o Dia e a Noite.
 
Essa analogia pode ser ampliada para um terceiro exemplo? Talvez.  Estive pensando na questão da memória, por exemplo. Andei vendo entrevistas de alguns psicólogos e neurocientistas, e me chamou a atenção o modo como eles se referem à memória como um processo que envolve tanto o lembrar quanto o esquecer. A memória não é apenas a atividade de lembrar, é também a de esquecer, de deletar, de descartar, de substituir, de “gravar por cima” das coisas anteriormente gravadas.
 
A Memória é um processo complexo que envolve a memória e o esquecimento. Ou, para ser mais preciso, a Lembrança e o Esquecimento.
 
Penso também na dualidade entre o nosso corpo e a nossa mente. Tudo em nossa cultura nos induz a ver as duas coisas não apenas como diferentes, mas como antagônicas. Não são! A mente faz parte do corpo, do ponto de vista físico: ela depende do cérebro, da medula espinhal, dos nervos que comandam nossos movimentos etc. 
 
A mente é um fenômeno provocado no cérebro pelos sentidos, mas que ganhou um grau espantoso de autonomia e de auto-referencialidade (eita!), tornando-se capaz de administrar a si mesma, num processo constante de retro-alimentação. Mas ela é parte do corpo e não existe sem o corpo. A chama faz parte da vela.
 
O Corpo, portanto, é um processo complexo que inclui o Corpo e a Mente.


(Luiz Antonio Simas e "O Corpo Encantado das Ruas")
 
Vendo há algum tempo uma entrevista de Luiz Antonio Simas, o autor do Dicionário Social do Samba (com Nei Lopes), O Corpo Encantado das Ruas e outros livros, grande pesquisador da cultura popular, registrei este comentário dele:
 
Eu sou um sujeito que trabalho muito com a dimensão do cruzamento. Trabalho muito com a dimensão do “cruzo”, a dimensão do encontro. Tem um princípio da cosmopercepção de mundo que é Bantu, que é Bakongo, os povos que vieram ali do norte de Angola, do antigo Império do Congo e tal...  E o Bakongo diz sempre uma coisa que eu acho muito interessante: “O ser não é ele ou o outro. O ser é ele e o outro”. E o campo da cultura é um campo de circularidade né?
 
Não sei se estou entendendo certo, mas acho que isso bate um pouco com a minha idéia de que a noção do dia como “o contrário da noite” é útil em vários aspectos, mas a noção de dia como a soma entre o que chamamos dia e o que chamamos noite é mais completa. E assim por diante.





sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

4777) Natal 2021 (24.12.2021)



(ilustração: Yuri Malkov)

1
... e a Terra esturra em chamas de agonia
e mesmo assim não pára de crescer.
O mar, cobrindo a área de lazer,
está da cor de água-de-cimento.
O cortejo parou por um momento
frente ao portão lacrado onde se esconde
a multidão que ouve e não responde
o pesado metal de uma trombeta.
Os ciclones fervilham no planeta
varrendo o pó da civilização.
 
2
É sonho de uma noite de verão
quando acordo, com a lua no meu rosto,
e não sei se é Natal ou se é agosto
que me espreita na fresta da cortina?
E um trator enferruja na piscina.
E uma tribo acampou na catedral.
E tem gente trocando o sangue em sal.
E cachorros gritando a noite inteira
que esta vida é um livro com a primeira
e a última página faltando.
 
3
Quantas noites me restam, procurando
fazer o sol deter-se antes que nasça?
Escrevendo sextilhas com fumaça?
Martelando a bigorna do juízo?
Ninguém sabe de mim. O que eu preciso
é criar, é ser mais, é seguir sendo
como os galhos de mato que crescendo
dilaceram as teias das aranhas;
é crescer, como crescem as montanhas;
e passar – como passam todas elas.
 
4
Como naufragam tantas caravelas,
ou Maceió, que afunda em sumidouros;
o abismo engolindo seus tesouros,
uma cidade a se afogar na terra...
Ou o estrídulo som da motosserra
decepando a medula das sequóias,
e a cidade renderizando as nóias,
e o vírus de plantão se propagando...
e eu correndo, eu fugindo e eu pisando
nos corações de vidro no caminho.
 
 
5
E a multidão me arrasta, e eu sozinho,
e eu nunca mais dormi de olho fechado
e não consigo ficar acordado
(um zumbi esbarrando nas cadeiras);
pandemia comendo pelas beiras
e a alegria embandeirando a sala
e eu fiquei como quem perdeu a mala
numa estação do trem de língua estranha
ou o alpinista que sobe a montanha
e lhe falta a coragem pra descer.
 
6
É Natal!  Outro ano chega ao Z.
Meu Natal incompleto, esburacado,
falta uma banda sempre, falta um lado,
e o machado do tempo está se erguendo...
Não importa se o prédio está ardendo;
minha vida mental é só em mim.
Me deixem quéto, aqui, no meu cantim,
no aconchego da minha quarentena...
Eu capto o mundo inteiro em minha antena,
e afundarei com esse mundo em paz.
 
7
E chegam os bordões celestiais,
Papais Noel, guirlandas, fios de luzes...
Nos presépios, milhares de Jesuses
multiplicam as vidas severinas,
os jingobells, árvores naftalinas,
o vinho sub-20 em cada taça,
o brinde, a selfie, o riso, a uva-passa,
a dor entrelaçada à esperança
(quanto livro perdeu-se na mudança!)...
Passou um ano, e chega mais um dia...
 
 







terça-feira, 21 de dezembro de 2021

4776) Oito cidades (21.12.2021)

 

1
Nome: Simsim. População: Flutuante. Descrição: A cidade-espelho situada numa área com cerca de 10 km2, no deserto de Ambilach. Todas as superfícies e todas as construções tridimensionais (casas, pontes, monumentos) são repetidos por drones reflectivos em movimento constante. Esse processo teve início pela multiplicação desordenada das microcâmeras flutuantes de vigia ao espaçoporto local, o maior do planeta. O efeito potencializa a cidade, tornando-a aparentemente muito maior do que sua estrutura física original. Chamada por alguns velhos pilotos dos anderespaço “O Olho da Mosca”, perdeu importância militar e estratégica ao longo dos séculos, mas tornou-se referência cultural e meta-arqueológica. Reflexos na cultura popular: um ciclo fractal de canções, em forma de cânon, fazendo citando os “oito milhões de histórias na cidade grande” e potencializando esse número a cada nova história contada.
 
2
Nome: Vão-da-Cabra. População: 20 mil. Descrição: Cidade incrustada nas galerias refrescantes da serra escarpada que acompanha um trecho calcinante do deserto de Cumaru. Uma temperatura que é um alívio no verão, e serve de abrigo aos pastores de cabras selvagens. No inverno, basta trocar o roteamento dos canais de ventilação e canais exaustores, e é possível ter algum conforto bem agasalhado. Num ecopacto que envolvia uns vinte mil seres, tem um sistema de galerias para os humanos, e três sistemas não misturados para diferentes animais domésticos.
 
3
Nome: Don Perenna. População: 18.500. Descrição: Vila tradicional num rincão remoto da Espanha, onde ainda se cantam serestas com lutes e se cultivam as tradições do Bicho Sem Cabeça, do Monta-Leão, e da Corrida da Falsa Fuga. Nesta cerimônia, criou-se o costume de, em dias aleatórios, soltar nas ruas os prisioneiros de alguma cadeia local, os quais invariavelmente supõem que estão fugindo do cárcere por um descuido dos guardas. Os presos que conhecem a festividade muitas vezes deixam-se ficar na cela, sem esperanças. A maioria foge; o divertimento da população local é fingir que está lhes dando refúgio ou contribuindo para sua fuga, quando na verdade tudo se encaminha para levá-los de volta às mãos dos guardas. Noites assim são de festa ininterrupta, gritaria, quebra-quebra, risos, foguetões, tiroteios; e um alto índice de mortalidade em mesas de bar, tanto por consunção quanto por divergências.
 
4
Nome: Ambrellis. População: 7 mil. Descrição: A cidade-aqueduto, onde todas as pessoas vivem à sombra de um aqueduto construído milhares de anos atrás por outra civilização. As fontes de água já se esgotaram há séculos, mas a estrutura, em pedra esculpida, permanece. Com mais de vinte quilômetros de comprimento, o antigo aqueduto fornece a única sombra possível no deserto de Khytian. À medida que o sol executa seu movimento pendular ao longo das estações do ano, os moradores transferem pouco a pouco suas tendas para a parte com maior extensão de sombra.
 
5
Nome: Burguenthal-le-Couan. População: 320.  Teve toda sua população dizimada pela guerra há mais de um século, e tornou-se uma cidade corredor-da-morte. Os habitantes atuais descendem todos de alguma das famílias exterminadas, e só eles têm direito de morar na cidade, como forma de dar continuidade â suas linhagens. Um véu de lendas e superstições cobre a cidade, e algumas mortes inesperadas de turistas e visitantes fizeram propagar na região o boato infundado de que pessoas de fora que durmam lá correm o risco de morrer em circunstâncias misteriosas. Indivíduos condenados à morte no cantão de Villesburg, a que a cidade pertence, pedem para passar ali sua última noite. Há casos de pessoas que vão para lá com a intenção deliberada de praticar o suicídio, numa média de três por ano.
 
6
Nome: Caramanduva. População: 1.350. A cidade das casas com uma cozinha em comum. Todas as casas foram construídas duas a duas, com uma parede comum a ambas. Cada uma tem entrada própria, salas, quartos, corredores, banheiros. No fim de tudo, há uma cozinha ampla, larga, que serve às duas casas. Através dela as famílias interagem, e podem ter acesso ao interior da casa do vizinho. Mudar-se para uma casa em Caramanduva implica em aceitar essa convivência onde se vive numa linha delicada entre intimidade e privacidade, amizade e respeito.
 
7
Nome: Spinspace. Cidade agregativa formada por cápsulas em flutuação orbital livre em torno do planeta Acton 3. Cada cápsula (que eles chamam de “casas”) tem capacidade para até dez pessoas em compartimentos separados. Estão todas ligadas por feixes de cabos de nanofibra, e através deles recebem energia e telecomunicação. Acidentes e construção de novas casas mantêm a população da cidade oscilando em torno de 1 milhão de habitantes, num cinturão interconectado que circunda o equador do planeta.
 
8
Nome: Balde do Açude. População: 2.500. Em meados da década de 1960 a prefeitura de Santa Maria da Posse (PB) construiu, com verbas da Sudene e do governo do Estado, um açude que serviria para o abastecimento da sua população. O açude secou dentro de pouco tempo, e o crescimento de um bairro periférico próximo fez com que seu terreno fosse invadido pela população, que limpou o mato do local antes ocupado pelas águas, e ali começou a instalar barracos, e depois casas de alvenaria. A comunidade declarou sua independência do município em 2005, proclamando-se “Território Livre de Balde do Açude”. O prefeito local ameaça desviar um rio próximo para submergi-los. Santa Maria da Posse continua com problemas de abastecimento.





 




sábado, 18 de dezembro de 2021

4775) Paraibês (18.12.2021)




(Flávio Tavares, "Engenhos do Brejo Paraibano")


O linguajar nordestino não consta apenas de palavras exclusivas, palavras que só se usam por lá. Também inclui expressões, frases-feitas, “ditados” compostos por palavras que todo mundo usa, mas numa combinação diferente. Por isso, gera mal entendidos de vez em quando, porque quem é de fora fica tentando colocar essas palavras tão familiares num contexto diferente.

 

Quer se parecer

Parece um pouco; lembra um pouco.  “Aquela moça ali na mesa do canto quer se parecer com uma prima minha”.  “Chegando lá você procura Fulano, é um cara baixinho, que quer se parecer com Getúlio Vargas”.  O “quer se...” não implica vontade por parte da pessoa: funciona apenas como atenuante, em casos onde dizer “Fulano se parece com Sicrano” seria exagerar a semelhança.

 

Fazer besouro

Acho que em todas as escolas, de todos os continentes, em todas as épocas, garotos e garotas fizeram isto. Consiste em produzir um zumbido com os pulmões e as cordas vocais, mas com a boca fechada e o olhar inocentemente posto em alguma coisa inofensiva: “Mmmmmmm...” O professor levanta o olhar, vê a turma aparentemente entretida com seus deveres e exercícios, ninguém abre a boca, mas o zumbido irritante se eleva, e parece vir de todos os lugares ao mesmo tempo. Quando a turma está fazendo besouro no auge, de vez em quando um mais atrevido eleva um barulho de avião-dando-rasante: “Mmmmm... uuuóóóóóiinnn... mmmmmm...”

 

Pagar o novo e o velho

Pagar pelos mal-feitos antigos e pelos mais recentes; pagar os pecados.  “Venha cá, seu cabra, que você agora vai me pagar o novo e o velho!”  “Eu só estou esperando chegar em casa, que esses meninos vão me pagar o novo e o velho”.  Existe a variante “pagar o grosso e o fino”:

 

Eu juro pelo meu rifle

que o Padre José Paulino

cai sempre na ratoeira

e paga o grosso e o fino;

não há de casar mais homem

nem batizar mais menino.

(Leandro Gomes de Barros, "Antonio Silvino, o rei dos cangaceiros", em "Literatura popular em verso, Antologia, Tomo II", pag. 108)

 

Cobrar xêxo

Está aí uma expressão complexa. “Cobrar xêxo” (o acento é necessário, para não deixar dúvida quanto à pronúncia) é jogar pedrinhas ou bolas de papel amassado, em alguém, não para machucar, mas para irritar. “Xêxo” significa pedrinha, “seixo”. Mas “passar um xêxo” também significa “calote, cano, o ato de se escapulir sem pagar a conta”. Talvez por causa disso quando alguém joga uma bola de papel etc noutra pessoa, diz que está “cobrando um xêxo”, ou seja, cobrando algo que o outro supostamente lhe deve.

 

Bater pino

Recuar, desistir, fugir vergonhosamente diante de uma situação difícil. “A gente combinou que ia reclamar das notas com o professor, mas quando foi na hora uns dois ou três bateram pino e foram embora”.  Também se usa para qualificar uma pessoa: “Eu não confio em combinar essas coisas com Fulano, ele é muito batedor de pino, já umas duas vezes deixou a gente na mão.”  Também se usa assim, para descrever a ação: “Vocês viram o discurso do ministro Fulano ontem na TV? Eita batida de pino da porra!”

 

Queimar o chão

Partir bruscamente.  “Ele disse que ia ficar aqui no fim-de-semana, mas quando deu no sábado de manhã ele queimou o chão e na hora do almoço estava em João Pessoa.”  Por analogia a um carro que arranca de maneira brusca, queimando os pneus no asfalto.

 

Maldar

Interpretar com malícia um fato qualquer. “Você não devia sair sozinha com seu namorado e chegar uma hora dessa, os vizinhos ficam maldando”.  Também se usa uma forma atenuada, apenas para indicar que se está atento para segundas intenções, ou para detalhes pouco esclarecidos: “Esse livro diz que é primeira edição, mas eu maldo que é uma reimpressão, porque fui comparar com a que eu tenho e vi que nele já tem alguns erros corrigidos”.

 

Pegar ar

Enraivecer-se, ficar furioso, ficar puto.  "Fulano anda muito nervoso...  Já é a segunda vez que eu digo uma brincadeira besta e ele pega ar comigo""A gente acertou uma laranja no bandeirinha... rapaz, ele pegou um ar que só tu vendo!"  "Me disseram que ela achou não sei o que na carteira do marido e pegou o maior ar com ele."   "Não pegue ar, não, rapaz!  Você sabe que eu tô só brincando!"   Origem: talvez o fato de que o sujeito irritado "incha" como um pneu sendo enchido de ar.

 

Ir por dentro chupando imbu

Ir caminhando, sem pressa e sem afobação. Usa-se muito quando se quer diminuir a importância de ir a pé; para dizer que o trajeto não vai ser tão cansativo assim. O “por dentro” sugere a tomada de algum atalho, e o imbu (ou umbu) entra na história como complemento fantasioso, como quem diz: “Fica tranquilo, eu vou por aqui, me distraindo”.




 







quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

4774) O fantástico brasileiro e a visão do Paraíso (15.12.2021)



É uma pergunta recorrente, que volta e meia me fazem: "Por que a literatura brasileira explora tão pouco o Fantástico, prende-se tanto ao modo realista de narrar?"
 
Eu mesmo me pergunto isso há décadas. Um livro que recentemente comecei a folhear em busca de pistas é o ensaio Visão do Paraíso – Os Motivos Edênicos no Descobrimento e Colonização do Brasil (Rio: Livraria José Olympio Editora, 1959, 1ª. edição) de Sérgio Buarque de Holanda, o “pai de Chico”.
 
Sérgio Buarque não fala propriamente sobre literatura, mas sobre mentalidade coletiva, sobre o espírito do século. É o espírito de que os portugueses estavam possuídos durante aquele período crucial, quando os navegadores ibéricos descobriram a América, descobriram o caminho para as Índias, e fizeram a viagem de circunavegação.
 
Foram três façanhas movidas pela inspiração científico-geográfica e pelo impulso colonizador-mercantil. Tiveram consequências decisivas na nossa visão do mundo, do planeta. Agora ia ser preciso rever tudo, recalcular tudo, redesenhar tudo.
 
O autor abre o capítulo inicial fazendo a constatação:
 
O gosto da maravilha e do mistério, quase inseparável da literatura de viagens na era dos grandes descobrimentos marítimos, ocupa espaço singularmente reduzido nos escritos quinhentistas dos portugueses sobre o Novo Mundo. (pág. 3)
 
Ele reconhece nos portugueses da época um temperamento pragmático que, se por um lado os ajuda na resolução de problemas concretos, por outro os limita na capacidade fabulatória:
 
O que, ao primeiro relance, pode passar por uma característica “moderna” daqueles escritores e viajantes lusitanos – sua adesão ao real e ao imediato, sua capacidade, às vezes, de meticulosa observação, dirigida, quando muito, por algum interesse pragmático – não se relacionaria, ao contrário, com um tipo de mentalidade já arcaizante para sua época, e ainda submisso a padrões longamente ultrapassados pelas tendências que anima o pensamento dos humanistas e, em verdade, de todo o Renascimento? (pág. 3)
 


Sérgio Buarque principia sugerindo que realismo e particularismo seriam mais próprios da mentalidade medieval; e que o Renascimento foi também um resgate da fantasia, da capacidade de imaginar o inusitado, o surpreendente.
 
Desbravadores, exploradores, os portugueses entravam no mundo novo desconfiados, de cenho franzido, dispostos a não se deixar iludir:
 
Muito mais do que as especulações ou os desvairados sonhos, é a experiência imediata o que tende a reger a noção do mundo desses escritores e marinheiros, e é quase como se as coisas só existissem verdadeiramente a partir dela. (...) A obsessão de irrealidades é, com efeito, a que menos parece mover aqueles homens, em sua constante demanda de terras ignotas. (...) Podem admitir o maravilhoso, e admitiam-no até de bom grado, mas só enquanto se achasse além da órbita do seu saber empírico.  (pág. 8)

 

 
Riquezas espantosas, criaturas de pesadelo, monstros marinhos ou terrestres, tudo isto fez parte do folclore das navegações de todos os povos. 

Um bom catálogo do “monstruário” que passava de país em país, de século em século, de cultura em cultura, aparece em Esquecidos por Deus – Monstros no Mundo Europeu e Ibero-Americano (séculos XVI-XVIII) de Mary Del Priore (Companhia das Letras, 2000).  SBH vê a empresa portuguesa, de certa forma, como um combate da razão contra as trevas:
 
A exploração pelos portugueses da costa ocidental africana e, depois, dos distantes mares e terras do Oriente, poderia assimilar-se, de certo modo, a uma vasta empresa exorcística. Dos demônios e fantasmas que, através de milênios, tinham povoado aqueles mundos remotos, sua passagem irá deixar, se tanto, alguma vaga ou fugaz lembrança, em que as invenções mais delirantes só aparecem depois de filtradas pelas malhas de um comedido bom senso.  (pág. 15)
 
SBH admite, sem dúvida, o lado positivo dessa atitude geral, que de certo modo empurra para trás, em muitos aspectos, as sombras do irracionalismo, e ajuda a inaugurar “novos caminhos ao pensamento científico”.
 
Ele cita Joaquim de Carvalho, em seus Estudos sobre a Cultura Portuguesa do século XVI (1949):
 
“As idéias geográficas acerca da África começaram a ruir subitamente com a passagem do Equador, e com este rasgo audaz os nossos pilotos articulam, ao mesmo tempo, os primeiros desmentido à ciência oficial e aos prejuízos comumente admitidos. A inabitabilidade da zona tórrida, certas idéias sobre as dimensões da Terra, o ‘sítio do orbe’, as imaginadas proporções das massas líquida e sólida do nosso planeta, os horríveis monstros antropológicos e zoológicos, as lendas de ilhas fantásticas e de terrores inibitórios – tudo isso que obscurecia o entendimento e entorpecia a ação foi destruído pelos nossos pilotos com o soberano vigor dos fatos indisputáveis.”  (pág. 15-16)
 
Como se vê, é um movimento complexo de superposição de mentalidades, conflito de teorias, mas tudo isto num momento em que as conquistas da observação e experimentação direta acabaram se afirmando mais importantes e cruciais do que os voos imaginativos.
 
O mundo descoberto revela-se novo em tudo, surpreendente em sua flora e fauna, inexplicável nos usos e costumes dos nativos. De certo modo, tem-se a impressão de que nenhuma fantasia desregrada poderia superar em estranheza as descobertas feitas ano após ano, década após década.




SBH comenta, já no capítulo 6:
 
Ao lado disso, não é menos certo que todo o mundo lendário nascido nas conquistas castelhanas e que suscita eldorados, amazonas, serras de prata, lagoas mágicas, fontes de juventa, tende antes a adelgaçar-se, descolorir-se ou ofuscar-se desde que se penetra na América lusitana. (pág. 148)
 
Acontece aqui uma clivagem, uma separação brusca e nítida, em mais um aspecto que vem se somar a tantos outros, entre a América hispânica e a América lusitana (nós). Diferenças de espírito, de cultura, de visão do mundo. Os portugueses seriam, então, menos propensos do que os espanhóis ao cultivo fantasioso desses prodígios. Aqueles, por sua vez, teriam quem sabe preservado uma fidelidade maior a esse espírito:
 
De ilhas encantadas, fontes mágicas, terras de luzente metal, de homens e monstros discrepantes da ordem natural, de criações aprazíveis ou temerosas, com que os novelistas incessantemente deleitavam um público sequioso de gestos guerreiros e fantásticos sortilégios, rapidamente se foram povoando as conquistas de Castela. (pág. 149)
 
SBH lembra que o conceito de Renascimento é muito amplo, e que em cada nação e cultura faz surgir formas de pensar peculiares à História de cada uma, o que resulta num “estranho conluio de elementos tradicionais e expressões novas”.
 
Fica em aberto a questão da pouca evidência de literaturas fantásticas nos países da América espanhola. Pelos registros que temos, o fantástico latino-americano é um fenômeno do século 19, paralelo à ficção científica européia que nós costumamos, um tanto arbitrariamente, mas com lógica, traçar desde o Frankenstein (1818) de Mary Shelley até as Viagens Extraordinárias (segunda metade do século) de Jules Verne e os romances científicos britânicos das suas últimas décadas.



O estudo de Rachel Haywood-Ferreira, The Emergence of Latin American Science Fiction (Wesleyan University Press, 2011) inclui uma cronologia relativa a Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Guatemala, México, Peru e Uruguai.
 
A única obra anterior a 1800 é mexicana: “Siziglas y cuadraturas lunares ajustadas al meridiano de Mérida de Yucatán por um anctítona o habitador de la luna, y dirigidas al bachiller don Ambrosio de Echeverria, entonador de kyries funerales en la parroquia del Jesús de dicha ciudad, y al presente profesor de logarítmica en el pueblo de Mama de la península de Yucatán, para el año del Señor de 1775”, de autoria do Fray Manuel Antonio de Rivas (1775).
 
Tudo indica que se trata de uma viagem fantástica (o argumento fala numa viagem à Lua), um tipo de história bem contemporâneo dos escritos de Voltaire, Jonathan Swift ou Cyrano de Bergerac.
 
Existe um abismo gigantesco entre os relatos dos viajantes e marinheiros dos séculos 15-16 e a prosa de ficção brasileira dos séculos 19-20, mas não deve ser exagerado ver entre os dois alguma continuidade de espírito.
 
A narrativa brasileira, a prosa romanesca com certa extensão, só veio a se desenvolver plenamente em meados do século 19, e chega a dar um certo orgulho perceber que quando nosso romance deu seus primeiros vagidos (como gostam de dizer os historiadores), seja com Teixeira e Sousa (O Filho do Pescador, 1843), seja com Joaquim Manuel de Macedo (A Moreninha, 1844), não demoraria muito até o próprio Macedo conceber O Fim do Mundo (1857) e Joaquim Felício dos Santos as suas Páginas da História do Brasil, Escritas no Ano 2000 (1868-1872).
 
A mentalidade que explorou o Brasil Colônia revela traços variados que inevitavelmente se projetaram no futuro, e é preciso reconhecer que estes nossos primeiros esforços na prosa de ficção se deram no Brasil Império. Num contexto que, mesmo procurando a todo custo afirmar-se brasileiro, estava totalmente impregnado do espírito português e dos veios literários portugueses. Desse (segundo SBH) “conservantismo intrínseco, e tanto mais genuíno quanto não é, em geral, deliberado”.







 







domingo, 12 de dezembro de 2021

4773) "The Beatles -- Get Back" parte 3 (12.12.2021)



 
A série de Peter Jackson The Beatles: Get Back, da qual vi agora a Parte 3, está chegando para nós como um bom documento sobre o processo criativo da banda, e de muitos outros artistas.
 
Convivo com muita gente que gosta de música mas, como trabalha com outra coisa, tem apenas uma noção muito distante do que é o processo de gravação de um disco.
 
Uma vez vi uma pessoa explicando a outra (embora se referisse, no caso, a um disco de cantora de MPB):
 
-- O letrista faz as letras, depois o compositor bota as melodias, o maestro ouve isso, escreve os arranjos, e no dia marcado a cantora e os músicos vão para o estúdio, ela canta, eles tocam, e os técnicos de som gravam as músicas, de uma em uma.
 
É uma descrição muito boa. Equivale a dizer que num país republicano o Poder Legislativo cria as leis, o Executivo as põe em prática, e quando há alguma dúvida o Judiciário decide quem tem razão.
 
Mas... como se sabe, a teoria na prática é outra.
 
Acho que Get Back só deve interessar mesmo às pessoas que têm um certo apego afetivo aos Beatles e suas músicas; e às pessoas que gostam de acompanhar o processo criativo dos artistas em geral. Eu me enquadro nos dois grupos.



 

Recentemente foi descoberto, na Holanda, o rascunho ou esboço desenhado do quadro de Rembrandt A Ronda Noturna, mostrando as primeiras idéias do pintor, que foram consideravelmente modificadas até resultar no quadro que todo mundo conhece.
 
https://veja.abril.com.br/cultura/ronda-noturna-rascunho-secreto-de-rembrandt-e-encontrado-sob-pintura/
 
Vi uma vez com álbum com dezenas de esboços e rascunhos de Picasso para o famoso Guernica. Sim, enchem um álbum. O mesmo poderia ser feito sobre milhares de quadros famosos. Ninguém chegou e foi logo pintando. É um processo comprido.
 
A criação artística se dá por muitos caminhos diferentes. O caminho escolhido pelos Beatles não foi sempre o que aparece nesta série. Em seu primeiro álbum, Please Please Me, o produtor George Martin organizou uma sessão contínua tentando reproduzir o “pique” de um show de palco.


Em 11 de fevereiro de 1963, das 10 da manhã às 22:45, os Beatles gravaram nove faixas do disco: “There’s a Place”, ”A Taste of Honey”, “Do You Want To Know a Secret”, “Misery”, “Anna (Go To Him)”, “Boys”, “Chains”, “Baby It’s You” e “Twist and Shout”.  São as versões que ouvimos até hoje.
 
O processo não foi tão simples. “Misery”, por exemplo, requereu 11 takes. Houve outras faixas que foram descartadas por não terem ficado boas. O elepê foi complementado com canções já lançadas como “singles” (“Love Me Do”, etc.).
 
Quando acabaram as turnês, o tempo que os Beatles passaram a gastar compondo no estúdio (onde se paga por hora de utilização) passou a ser enorme, em discos como Revolver, Sgt. Pepper’s e o famoso Álbum Branco. Meses inteiros consumidos em busca de uma sonoridade aqui, de um verso acolá, um solo não-sei-do-quê não-sei-onde. É pra quem pode. É pra quem vende dezenas de milhões de discos e fica semanas inteiras no número 1 das paradas de sucesso.
 
Já falei num artigo anterior que os Beatles iam chegando à forma definitiva das canções por um processo de aproximações sucessivas, de infinitas repetições ao longo das quais tudo ia sendo ajeitado aqui e ali e ganhando formato. Acordes, pulsações, versos, vocalizações em harmonia, a ordem das partes da canção.

 
Existe uma coisa interessante na “arte em processo”, ou na “obra em progresso”, que é a busca de uma forma ideal. Enquanto o artista está buscando esse ideal impossível, ele não se cansa de repetir algo um milhão de vezes, porque cada repetição é como a gota dágua pingando numa estalactite, deixa um residuozinho a mais, que o anima a continuar buscando.
 
Quando ele acha que encontrou essa forma ideal (talvez até por mera exaustão), passa a repeti-la para garantir sua cristalização definitiva. E ai começa a se enjoar dela. Aquilo começa a encher-lhe a paciência. Ele deixa de ser “O Perseguidor da Beleza”, e passa a ser “O Administrador da Perfeição” – o que, convenhamos, é um saco. O artista é capaz de repetir algo um milhão de vezes, quando é movido pela ânsia de acertar. Depois que a perfeição foi conseguida, ele passa a ser movido pela obrigação de não-errar, e a coisa perde a graça.


Essas reflexões acabam sedo úteis num documentário como este, mostrando a criação e gravação do que não é nem de longe um dos melhores discos dos Beatles. Eu coloco o álbum Let It Be numa área de importância criativa próxima de Rubber Soul ou de Help. Era justamente para essa fase que eles estavam tentando retornar neste projeto – “nada de overdubs, nada de trucagens, vamos tocar como a gente tocava no palco antigamente”. Era essa a idéia que alavancou Let It Be.
 
Se víssemos 8 horas de “reality show” sobre a criação e gravação de Revolver ou de Sgt. Pepper’s, não sei não. Talvez só enxergássemos o lado bom, será?  Por outro lado, ver a criação de um disco meramente bonzinho nos abre melhor os olhos, o julgamento, a capacidade de comparar, de discriminar, de discernir. Não é um grande disco. Para quem gosta dos bastidores da música, no entanto, é um grande momento documental, pois mostra o trabalho de gente que nessa época estava empurrando as fronteiras à medida que avançava.
 
Sobre o famoso “Rooftop Concert”, não sei se foi o primeiro, como algumas pessoas afirmam. Outros grupos já tinham tocado em lugares mais-ou-menos públicos, provocando um certo tumulto. No filme, não é possível saber quem lançou primeiro a idéia do “Bora Tocar Na Laje”. Lembro que Paul, no Episódio 1, sonhava com uma coisa meio juvenil, o grupo tocando num lugar proibido e a polícia invadindo e prendendo todo mundo.


De qualquer modo, o Concerto Na Laje é algo no espírito de vários números musicais dos filmes deles. Nas gravações de estúdio de TV em A Hard Day’s Night, em “And I Love Her”, Richard Lester usava a mesa de corte da TV para multiplicar o ângulo da câmera-única do cinema usando as câmeras-múltiplas da televisão. Ringo, em “If I Fell”, montava sem pressa a bateria com a canção já rolando, a tempo de realizar a entrada-de-bateria mais cronometrada da história do rock. Algo dessa bagunça brincalhona se repete na laje de Saville Row.


Em Help!, a gravação em estúdio de “You’re Gonna Lose That Girl” é interrompida por uma interferência sonora que se escuta ao fundo, e que no final revela serra a serra com que o piso está sendo cortado para que os thugs indianos possam raptar Ringo. Essa mistura meio juvenil de James Bond com Monty Python é própria do espírito dos Beatles, e é claro que uma câmera foi instalada na recepção para documentar a chegada da polícia.
 
Uma das melhores decisões de Peter Jackson neste documentário foi preservar de forma nítida a ordem cronológica dos fatos. É praticamente um mês de discussões, ensaios, criação, becos sem saída, bate bocas, looongas horas-do-recreio, atrasos... E a última vez em que os Beatles tocaram juntos para uma platéia acabou sendo um encerramento honroso, mesmo que nada apoteótico. Como diz Paul, com total conhecimento de causa: “É quando estamos contra a parede que conseguimos dar o melhor que temos”.  
 
Dois fatos importantes passam rapidamente no filme.



(Allen Klein com John Lennon e Yoko Ono)

Um deles é quando Lennon, na ausência de Paul, comenta com George que se reuniu na véspera com o empresário Allen Klein e ficou muito impressionado com ele. “O cara sabe mais sobre mim do que eu mesmo!...”  Lennon nomeou Klein seu procurador; McCartney estava fazendo o mesmo com o pai e o irmão da namorada (Lee e John Eastman). Essa clivagem de interesses, acho, pesou muito mais no fim da banda do que a presença, até discreta, de Linda Eastman e de Yoko Ono.


(Paul McCartney, com Lee e John Eastman)

 
Claro que a imprensa prefere escrever "pensatas" sobre as rivalidades amorosas, terreno onde  qualquer um (inclusive eu) pode especular à vontade, sem ter que pesquisar orçamentos, contratos, percentagens, cotações da Bolsa e filigranas jurídicas sobre direitos autorais.


Nessa mesma tarde da ausência de Paul no estúdio (isto é sintomático), George Harrison, com certa timidez, fala para Lennon que pensa em fazer um álbum com suas próprias canções. Queixa-se de que tem muita coisa composta, quer mostrar aos fãs, quer “desimpedir o caminho” para compor mais... Lennon simpatiza com a idéia. O assunto morre aí, porque George certamente não ficava à vontade para discutir o assunto com McCartney.
 
Resultado: George foi se desmotivando com a banda. Os interesses dos dois líderes começaram a divergir. A banda acabou. George lançou o álbum triplo All Things Must Pass, cheio de excelentes canções, musicalmente muito superior a Let It Be.
 
Hoje em dia, é a coisa mais comum os membros de uma banda manterem a banda e alternarem esses discos em conjunto com seus trabalhos “solo”. Os Beatles, pioneiros em tantas coisas, bem que poderiam ter sobrevivido sendo pioneiros nisto.