domingo, 2 de agosto de 2020

4606) Os paradoxos das viagens no Tempo (2.8.2020)





Uma das histórias de paradoxo temporal mais complicadas que eu já li foi também uma das primeiras. A Máquina Infernal do Tempo (“Carrefour du Temps”, 1958) foi escrita por F. Richard-Bessière, um dos meus autores preferidos da pulp fiction francesa, muito traduzida aqui no Brasil nos anos 1960 pela TecnoPrint (Edições de Ouro), pela Vecchi, e por outras editoras.

Nesse livro, Sidney Gordon é um repórter novaiorquino que, junto com amigos, vai cobrir a descoberta de uma nave alienígena acidentada, que caiu em algum ponto dos EUA. Lá, ele entra na nave, que está aberta, e meio distraidamente aciona uma alavanca que tem entre os controles. Pronto. Daí em diante, nada mais no mundo dá certo. Sucedem-se catástrofes inexplicáveis, tipo “deu bug no sistema operacional do Universo”. Bessière é um desses autores pulp que a gente lê porque sabe que no próximo parágrafo qualquer coisa pode acontecer.

Os cientistas chamam Sidney Gordon e explicam que é preciso voltar ao Passado, para evitar que ele cometa aquele ato decisivo. Por motivos que não vêm ao caso, são inúmeras tentativas frustradas. Até que eles decidem voltar a uma época anterior ao nascimento de Gordon, e ele é levado, na máquina do tempo, junto com sua noiva Margaret. E por acaso encontra na rua com o próprio pai, que está voltando para casa, na hora do jantar. E ele percebe, preocupado, que nascerá exatamente daí a nove meses!

E então...

Minha noiva olhou-me espantada.
                – Margaret, acabo de pensar numa coisa horrível. Suponhamos que tenha acontecido uma grave avaria no “Tempojet” e que não nos possam vir buscar.
                Apontei para a casa dos Gordon:
                – De um momento para outro, meus pais vão me conceber. Você percebe em que situação me encontro? De acordo com as teorias de Delamare e de Archie, não pode haver duas cópias do mesmo indivíduo, em curso, na Natureza. (...)
                – Mas o que vai se passar, Syd?
                Eu não estava mais ao seu lado para responder. (...) No momento em que eu desaparecera diante dela, o ser que eu era, modificando bruscamente sua estrutura molecular, uma fração infinitesimal de Tempo, acabava de desaparecer, cedendo lugar a um simples óvulo fecundado, átomo original de um Sidney Gordon em potencial.
(p. 112-113, trad. David Jardim Júnior)

Preciso confessar que em meus verdes anos eu tinha apenas a mais vaga idéia do que acontecia entre os pais da gente para produzir essa coisa meio alienígena chamada de “óvulo fecundado”. Mas uma noção ficou, e ainda hoje me parece uma “escolha de Sofia” para quem escreve FC. Pode, ou não, haver duas cópias do mesmo indivíduo no mesmo Universo?

Essa escolha produz dois tipos de narrativa de FC muito distintos. Dark, a série alemã exibida no Netflix, opta claramente pelo “sim” – e um dos seus principais efeitos dramáticos é o confronto de um indivíduo consigo mesmo, em diferentes fases da vida.

É o caminho tomado por Robert Heinlein, autor de dois contos que são uma espécie de tutorial para quem escreve viagens no Tempo.

O primeiro deles, um clássico de 1941, é “By his Bootstraps”, cujo título, muito citado, alude à raiz do paradoxo temporal. “Bootstraps” são os cadarços das botas, e o paradoxo é comparado a uma pessoa que conseguisse se erguer do chão puxando os próprios cadarços – uma visível impossibilidade. (Muito usado também na teoria econômica, para aludir a economias que se recuperam sem ajuda externa – o trêfego Paulo Guedes usa isso a torto e a direito.)

No conto, Bob Wilson está em casa escrevendo sua tese sobre Metafísica quando de repente aparece um cara igual a ele, dizendo que veio do futuro (“eu sou você amanhã”), e daí a pouco aparece um terceiro Bob... A história tem uma mecânica implacavelmente bem urdida, e tornou-se um clássico porque Heinlein era um autor de raciocínio rigoroso. Os diálogos são vistos primeiro do ponto de vista do Bob-1, que com o decorrer do tempo se transforma no Bob-2, no Bob-3, e cada vez que ele volta a cena é a mesma, só que a consciência de Bob muda a cada vez, porque agora ele sabe o que já aconteceu.

É uma história literariamente tosca, os diálogos são meio Sessão da Tarde, mas enfim: é uma referência necessária, e pode ser lida aqui (o conto foi publicado sob o pseudônimo de "Anson MacDonald"):



Muita gente conhece aquela história popular do cara que vive com o pai viúvo e os dois conhecem uma mulher que vive com uma filha adulta. O rapaz casa com essa mulher. O pai do rapaz casa com a filha da mulher. Os dois casais têm bebês, e o narrador percebe a certa altura que é avô de si mesmo.

Outro conto de Heinlein, “All you Zombies”, publicado dezoito anos depois de "By his Bootstraps", vai ainda mais longe. É a história de um transexual que... bem, são vários paradoxos, mas basta dizer que o protagonista, nessas viagens temporais, engravida a si mesma (pois volta ao passado após a mudança de sexo) e o bebê resultante dessa união é ele mesmo, ou ela mesma.

O conto saiu no número de março de 1959 da revista The Magazine of Fantasy and Science Fiction, e pode ser lido no link abaixo:



Nas duas histórias de Heinlein, ficamos com a idéia de um tempo infinitamente acessível e infinitamente maleável, onde um viajante pode se encontrar consigo mesmo com as consequências mais imprevisíveis.

Essa é a linha do que eu chamo “os Divergentes” – os autores e os contos onde qualquer visita ao passado produz alterações na cadeia temporal e até na vida de quem se transporta de uma época para outra.

A linha oposta é a dos “Convergentes”: nessas histórias, tudo converge para uma versão única do Tempo, a que nós estamos. Qualquer tentativa de mexer com a História é reprimida pelo que em diferentes autores se chama “patrulha do tempo”, “polícia do tempo”, etc. – dando origem até à versão brasileira, a “Intempol”, criada por Octávio Aragão e explorada por numerosos autores. Uma versão brasileira, meio carnavalizada, desse FBI cósmico.


Um bom exemplo dessa tendência de “a História não pode ser mudada” é o conto de Fritz Leiber “Try and Change the Past”. Leiber escreveu uma série de histórias sobre a “Guerra da Mudança” (“The Change War”), onde dois grupos diferentes, as Serpentes e as Aranhas, lutam pelo poder viajando no tempo em todas as direções.

“Try and Change the Past” (publicado em Astounding Science Fiction, março de 1958) mostra o drama de um indivíduo que volta ao passado, ao momento em que sua esposa o matou com um tiro na testa, e faz o possível para que isso não tenha acontecido. O Universo se defende. O Universo faz qualquer contorcionismo para evitar que o Passado seja mudado.

O último parágrafo do conto diz:

Se um estatístico estiver procurando um exemplo de um fato altamente improvável, dificilmente achará um melhor do que a chance de um homem ser atingido por um meteorito. E se somar a isto a condição de que o meteorito o acerte bem entre os olhos, e de maneira a deixar um buraco equivalente ao de uma bala calibre 22, a improbabilidade é astronomicamente elevada ao cubo. Então, como é que alguém pode lutar contra um Universo que acha mais fácil matar um homem dessa forma do que adiar a data de sua morte? (trad. BT)



As histórias de viagem no Tempo são consideradas ficção científica, mesmo que a gente saiba que elas são, à luz da ciência de hoje, absolutamente impossíveis. Eu não creio que um dia seja possível – falo da vida real – viajar no Tempo. No máximo (estou sendo generoso) poderemos mandar sinais, mensagens eletrônicas telegrafadas por algum meio, que possam ser captadas no Passado ou no Futuro. É o tema de outro clássico: Timescape (1980), de Gregory Benford. Mas mandar pessoas, máquinas, espaçonaves?  Como dizia minha tia Adiza: cochila! 

Para mim, o que torna “científicas” as histórias de viagem no Tempo não é a possibilidade de que venham a acontecer. É que escrevê-las requer a criação de uma lógica causal rigorosa, e isto é um dos princípios básicos do nosso pensamento científico. Estabelecer parâmetros ou premissas, e esgotar todas as combinações possíveis – sem violentar os parâmetros. 

O leitor de mentalidade científica acompanha cada desdobramento – em uma série de TV como Dark, por exemplo –,   reconhece o esforço feito pelos autores para obedecer ao rigor do raciocínio, critica quando os autores “saem pela tangente” ou “mandam um 1-7-1”.  O espectador normal, por outro lado, começa a se perder a partir de certa altura, e nesse caso a solidez da dramaturgia precisa compensar os buracos do raciocínio.

São histórias humanas que estão sendo contadas, e a FC é aquilo que Marianne Moore descreveu tão bem: “jardins imaginários onde moram sapos de verdade”.












quinta-feira, 30 de julho de 2020

4605) Notas de uma tradução de Edgar Poe (30.7.2020)




“The Murders in the Rue Morgue” é um dos primeiros contos que li de Edgar Allan Poe, e foi na antologia Maravilhas do Conto Policial (Ed. Cultrix, 1960, 3ª. edição), organizada por José Paulo Paes. Fico em dúvida se terá sido antes de “O Poço e o Pêndulo”, também um dos meus preferidos, que li numa antologia do conto norte-americano por essa mesma época.

Tive a chance de traduzir esse conto agora, quase sessenta anos depois. Claro que o reli várias vezes depois da primeira, tanto em português quanto em inglês. Mas quando temos a incumbência de traduzir um conto bem conhecido, vem à nossa mente uma sensação que por causa de Jorge Luís Borges fiquei chamando “a Síndrome de Pierre Menard”. Pierre era aquele crítico e escritor francês que tinha lido anos atrás o Dom Quixote e resolveu reescrevê-lo de memória, na esperança de suas frases coincidissem com as de Cervantes!

Traduzindo a “Rua Morgue” agora, tirei minhas dúvidas consultando as duas primeiras traduções de Poe que li, na adolescência: aquela tradução de José Paulo Paes, e depois a de Oscar Mendes e Milton Amado, para a Poesia e Prosa de Poe, pela Editora Globo. Olhei também a tradução francesa de Baudelaire, fartamente anotada e comentada por Léon Lemonnier (Paris: Garnier, 1946).



Anotei alguns detalhes que me chamaram a atenção.

1)

Poe faz, no trecho inicial do conto, uma breve dissertação sobre o pensamento analítico, e diz a certa altura:

The faculty of re-solution is possibly much invigorated by mathematical study, and especially by that highest branch of it which, unjustly, and merely on account of its retrograde operations, has been called, as if par excellence, analysis.

Traduzi assim:

Esse talento para a re-solução pode ser muito fortalecido pelo estudo da Matemática, especialmente aquele seu ramo mais elevado que injustamente, e somente por conta de suas operações retroativas, tem sido denominada de “análise” par excellence.

Poe destaca o prefixo em “re-solution” e nesses casos acho que convém fazer o mesmo, chamando a atenção para o mesmo detalhe. (JPP traduz: “A faculdade de resolver”; OM-MA: “Essa faculdade de resolução”, com itálico).

Em todo caso, o ponto principal nesse trecho está quando o autor se refere às “retrograde operations” da análise. OM-MA traduzem como “operações retrógradas”, quando me parece mais esclarecedor usar “retroativas”.

A palavra “retrógrado”, em português, não deixa de estar correta – em astronomia falamos no “movimento retrógrado de Marte”, naqueles trechos da órbita da Terra em que a velocidade aparente do nosso planeta é maior, e o outro parece andar para trás.

Mas essa palavra acabou adquirindo um uso frequente, na linguagem cotidiana, com conotação moral pejorativa: “Fulano é um sujeito de mentalidade retrógrada; as leis e os costumes retrógrados desses países; etc.”

Se nos referimos aos processos de análise dos fatos, em suas relações de causa e efeito, “retroativas” é melhor (é assim que JPP traduz). Todo este arrazoado inicial de Poe serve para nos predispor a entender o episódio, que vem em seguida, de quando C. Auguste Dupin adivinha o pensamento do amigo, enquanto caminham de madrugada, e reconstitui de trás para diante os pontos sucessivos de sua associação de idéias.


2)

Eu sempre fantasiei nas minhas leituras o primeiro encontro do narrador (o “watson” de Edgar Poe) com o detetive Dupin numa livraria, os dois de dinheiro em punho, disputando um livro. Por que?  O conto diz, no original:

Our first meeting was at an obscure library in the Rue Montmartre, where the accident of our both being in search of the same very rare and very remarkable volume brought us into closer communion.

José Paulo Paes traduz:

Nosso primeiro encontro teve lugar numa obscura livraria da Rua Montmartre…

E Mendes & Amado traduzem:

Nosso primeiro encontro se deu numa escura livraria da Rua Montmartre...

Foram as duas primeiras traduções do conto que li na vida. Somente agora, pela primeira vez, esta lebre ergueu as orelhas e emitiu um miado inconfundível. Porque “library”, para nós, é biblioteca, e não livraria. Se fosse esse o interesse de Poe ele teria provavelmente usado “bookshop”.

E me pareceu muito mais redondo o fato de duas pessoas estarem buscando o mesmo livro “obscuro” numa biblioteca do que numa livraria. “Library” é sempre biblioteca em inglês, pelo que me consta. É só nas línguas românicas ou latinas que manteve o sentido de “loja onde se vendem livros”: librairie em francês, libraria em italiano, librería em espanhol.

Baudelaire traduz:

Notre première connaissance se fit dans un obscur cabinet de lecture de la rue Montmartre...

E dei-lhe total razão, não menos pelo fato de que instantaneamente visualizei a cena no Gabinete Português de Leitura, junto à Praça Tiradentes. E ficou assim:

Nosso primeiro encontro foi numa obscura biblioteca na Rua de Montmartre, onde por acaso estávamos ambos à procura do mesmo volume, muito raro e fora do comum; essa coincidência nos aproximou.



 3)

As leituras paralelas que se faz ao longo de uma tradução nos ajudam a escolher melhor o vocabulário a ser usado, chamando nossa atenção para detalhes que de outro modo poderiam passar despercebidos.

Dupin, na reta final da história, explica ao narrador o modo como suas deduções o levaram ao caminho certo, ou seja, a entender de que modo o assassino, depois de cometer os crimes, pudera fugir do quarto deixando-o aparentemente trancado por dentro.

Ele reconstitui suas deduções, explica o exame que fez em cada uma das pistas, e diz a certa altura:

You will say that I was puzzled; but, if you think so, you must have misunderstood the nature of the inductions. To use a sporting phrase, I had not been once ‘at fault.’ The scent had never for an instant been lost.

“At fault”: diz-se do cão que perdeu o rastro da caça.

Para me distrair, eu estava consultando nas horas vagas um dos livros mais enriquecedores sobre este tema: The Mystery to a Solution – Poe, Borges and the Analytical Detective Story, de John T. Irwin (Johns Hopkins University, 1994).

No capítulo 21, ele faz uma análise fascinante deste conto, comparando as palavras “clue” (“pista, em inglês), “clew” (“novelo de linha”, em inglês) e “clou” (“prego”, em francês), e reunindo o mito de Teseu e o Minotauro ao conto de Poe e a “A Morte e a Bússola” de Borges.

E ele chama a atenção justamente para esse trecho de Poe, mostrando que num sistema quase subliminar, falando em “caça” e em “faro”, Poe começa a colocar na mente do leitor a idéia de que é um animal, que está sendo caçado. O assassino é um animal, não um ser humano.

Ficou assim:

Você dirá que eu fiquei desconcertado; mas se pensar assim terá entendido mal a natureza das induções. Para usar uma frase cara aos caçadores esportistas, eu não estava “em falta’. Meu faro não havia perdido a pista nem por um instante.

Não achei nos glossários por aí nenhuma expressão de caça que pudesse se equivaler a esse “em falta”, acabou ficando uma tradução literal, meio limitada. Mas deu para me pegar com “scent” e manter viva a metáfora da “caça ao animal”.


4)

Aqui aconteceu um fato interessante, porque um comentário feito por Poe em seu texto original poderia até parecer, a um leitor desatento, ser um comentário interpolado por enchirimento do tradutor.

Referindo-se ao crime bárbaro que é o tema do conto, o jornal citado por Dupin expressa-se desta maneira:

“The Tragedy in the Rue Morgue.—Many individuals have been examined in relation to this most extraordinary and frightful affair” [the word affaire has not yet, in France, that levity of import which it conveys with us].”  (Nota: “affaire” é francês, “affair” é inglês.)

O texto de Poe é norte-americano, mas se passa em Paris. Ele provavelmente escolheu a França para dar um “distanciamento brechtiano” a um conto em que, mais do que a verossimilhança social de um ambiente, importava a mecânica interna dos acontecimentos (Brecht falava da Alemanha ambientando suas peças na China, no Cáucaso, na América.)

O texto, portanto, é cheio de expressões e citações francesas. Quando Poe repete a expressão que teria sido usada por um jornal francês, “affair”, ele se sente obrigado a fazer uma pausa e explicar, para seus leitores da Filadélfia em 1841, que a palavra está sendo usada noutro sentido.

E lembrei que hoje em dia não se pode abrir um portal de notícias ou uma revista sem encontrar essa palavra em manchetes como “Anitta exibe seu novo affair na Ilha de Caras”, ou “Neymar e modelo saem juntos mas negam affair”.

Inglês, francês e português mantêm um toma-lá-dá-cá permanente de significados e nuances, e não são poucas as vezes em que um tradutor precisa abrir mão de uma palavra perfeitamente aceitável do vernáculo brasileiro porque sabe que, naquele ano, naquela década, essa palavra está contaminada de conotações que farão estourar, mesmo por um segundo, a estrutura-da-bolha-de-sabão em que se baseia a crença do leitor.

Mais rara ainda é a chance de deixar que o próprio autor faça essas ressalvas em nosso nome. Ficou assim:

“Muitos indivíduos foram interrogados com relação a este extraordinário e aterrorizante affair” (a palavra affaire ainda não adquiriu, na França, a frivolidade de sentido que assumiu em nossa língua).”












segunda-feira, 27 de julho de 2020

4604) Palavras do Dicionário Paraibano (27.7.2020)




(xilogravuras: Stenio Diniz, Juazeiro-CE)

Uma confusão frequente de quem tenta se comunicar com um nordestino é o fato de que há inúmeras palavras da língua portuguesa que no Nordeste (ou em certas partes do Nordeste, região mais heterogênea do que se pensa) se usa de outra forma.

Esses usos, de palavras aparentemente banais, são tão tipicamente nordestinos quando termos tipo “oxente”, “gota serena” ou “amulestado”. Já referi neste blog termos como vexado – que no Sudeste significa “constrangido, envergonhado” e no Nordeste quer dizer “apressado”.

Aqui vão mais alguns desses “falsos amigos” que nos levam a ouvir uma coisa e entender outra.


MANEIRO
No Rio, é uma gíria relativamente recente (falo de quinze a vinte anos para cá) para dizer “bacana, legal, ótimo”. No Nordeste, quer dizer “leve”. 

“Deixe eu carregar a mala grande, você leva essa valise que é mais maneira”. 

“Ele falou que o baú era bem maneirinho, mas precisou de três pessoas pra botar em cima da caminhonete”. 

Depois de sessenta dias
alta noite em nevoeiro
Evangelista chegou
em seu pavão tão maneiro
desceu pela mesma trilha
a seu modo traiçoeiro.

(João Melquíades Ferreira, Romance do Pavão Misterioso)

Menina, minha menina,
me escuta, qu'eu te carrego,
ai, me bota dentro do seio
ai, qu'eu sou maneiro e não peso.

(Peça popular de mamulengos, em O Mundo Mágico de João Redondo, de Altimar de Alencar Pimentel, pag. 105)


ENGUIÇAR
Em todo lugar do mundo, “enguiçar” é “dar pane, dar defeito”, e se aplica a um carro, um motor, uma máquina qualquer.

No Nordeste, é passar andando por sobre o corpo ou as pernas estendidas de alguém que está sentado no chão.  Diz a superstição popular que quando isto acontece a pessoa que foi “enguiçada” não cresce mais. Acredita-se que para anular o efeito basta “desenguiçar”, desfazer o ato, passar de trás para diante. 

“--Ei!  Que história é essa de vir entrando e enguiçar a gente?  Pode voltar, e desenguiçar!”

Também já vi ser atribuído ao ato de “enguiçar” o poder de cura contra mau-olhado. 

“Esse menino só vive doente ultimamente!  Tá bom de alguém enguiçar ele, isso deve ser mau-olhado.”

E ali com um punhal
para Adriano avançou
mas Adriano ligeiro
por cima dele saltou
então quando o enguiçava
mesmo no vão lhe cravou.

(Expedito Sebastião da Silva, “Adriano e Joaninha”, em Expedito Sebastião da Silva, Ed. Hedra, SP, pag. 165)




RAZÃO
Usa-se muito como sinônimo exato de "arrogância, prepotência":

"Ei, que razão é essa?  Quem é você pra vir me dar ordens?"  

"Fulano é muito engraçado: a gente faz o trabalho todo, resolve todos os problemas, aí quando é depois ele chega, com a maior razão do mundo, botando defeito em tudo."  

É mais frequente na expressão "cheio de razão":

"Estava tudo muito tranquilo, mas de repente chegou um cara todo cheio de razão, dizendo que era amigo do dono do bar e que aquela mesa era dele."   


ABUSAR
O sentido mais comum hoje em dia tem a conotação de “abusar sexualmente, violentar”. Acho que a palavra vem de “ab + usar”, que significa algo como “usar excessivamente, extrapolar, ultrapassar os limites”. É essa a idéia base, e os usos particulares de cada ambiente social vão transferindo a palavra de um sentido para outro.

No Nordeste usamos o verbo como “enjoar, ficar saciado”.  Usa-se com diversas regências:

"Depois que eu abusei futebol, estou há mais de dez anos sem pisar num estádio". 

"Eu abusei daquele bar, porque os garçons tratam muito mal a gente". 

"O doce-de-leite que minha mãe faz é bom, mas abusa, eu só aguento comer um pratinho e pronto".  

Existe o provérbio "Tudo de mais abusa".  

Pinto fêz coisas difíceis
de outra pessoa fazer:
fez o tempo lhe esperar
e a morte lhe obedecer,
só aceitou ir com ela
quando abusou de viver.

(Zé Luiz, cit. em Um século e meio de repentes, de Edvaldo Muniz de Melo, pág. 269)




RAPOSA
Não sei que associação de idéias está por trás disso, mas “raposa” é um modo de comer feijão com farinha, amassando-o entre os dedos até formar pequenos bolos bem compactos; muitas mulheres preferem alimentar os filhos pequenos assim, em vez de com a colher. 

“Se lembre bem: quando chegar na casa do seu tio não é pra comer o feijão feito raposa não, é com o talher!” 

Também se chama “cancão” e "capitão".  


FEITO
Usa-se na mesma função de “como”; termo de comparação. 

“É uma comida esquisita, feito um pirão frio, temperado”. 

“Ele estava usando um troço de metal na cabeça, feito um capacete.” 

“Fiquei ali feito um idiota, e todo mundo mangando de mim.”



APITAR
Em todo canto “apitar” é soprar um apito. Em cresci ouvindo essa palavra como sinônimo de “buzinar” (o carro).  Já foi de uso generalizado no Nordeste, mas está desaparecendo nas últimas décadas, pelo menos nos ambientes por onde eu ando. 

Quando você chegar lá em casa, apite, que eu desço rapidinho”. 

“Olha que coisa, o cara passou direto no sinal vermelho, nem apitou nem nada”. 

“A coisa que eu tenho mais raiva é esse tipo de alarme que basta a gente encostar num carro e ele passa dez minutos apitando”.


RISCAR
Chegar de repente, às pressas. É uma imagem bem concreta, de quem chega fazendo atrito no chão, freando um carro, uma bicicleta, pisando com força etc.

“Eu já estava desistindo de esperar e ia chamar um táxi, mas quando deu sete e meia ele riscou com o carro lá em frente, falou que tinha ficado preso num engarrafamento”.

Ela aí chamou o rei
Ligeiramente mostrou,
O rei também conheceu
Bastante se alegrou,
Bem na porta do palácio
O seu cavalo riscou.

Do seu cavalo apeou
Para no palácio entrar
Já o rei e a rainha
Vieram lhe encontrar
Levaram ele nos braços
Para a saudade matar.

(Minelvino Francisco da Silva, “O filho de João Acaba-Mundo e o Dragão do Reino Encantado”, em Minelvino Francisco da Silva, pag. 112)



TIMÃO
Acho que no Brasil todo essa palavra já perdeu o sentido original de “a roda que se usa parar manobrar o leme e dar direção ao barco” e passou a ser visto como o apelido do time do Corinthians paulista. Cujo símbolo visual, aliás, é um timão, uma roda-do-leme.

No Nordeste é o termo (em desuso) que se dava a um tipo de camisão comprido, usado antigamente pelas crianças. 

Meia comprida,
não quer mais sapato baixo
vestido bem cintado
não quer mais vestir timão.
Ela só quer,
só pensa em namorar.

(Luiz Gonzaga, O Xote das Meninas, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas)


TORNAR
O sentido mais comum é de voltar, vir de volta, repetir uma ação (“Ele tornou a ligar para casa, mas ninguém atendia”. No Nordeste se usa como “voltar a si, recuperar a consciência”. 

"Minha mãe se sentiu mal na fila do banco, aí, quando tornou, estava deitada num sofá na sala do gerente, e ouviu uma moça dizendo: 'Tá viva, graças a Deus!'"

Quando acordei do "ataque", da "grande aura" que só acomete os gênios, Margarida estava sustentando minha cabeça em seu colo alvo e aristocrático, e um Soldado de Polícia esperava, impassível, que eu "tornasse", para me dar um copo d'água que ele segurava na mão, mantendo o resto do corpo em posição de sentido.
(Ariano Suassuna, Romance da Pedra do Reino, Folheto LXIV)



FITEIRO  
No Nordeste é substantivo, e corresponde ao que no Sudeste seria chamado de “quiosque”, “barraca” (na forma de tendas metálicas desmontáveis e portáteis, cobertas por uma lona ou um plástico): um pequeno ponto de venda de miudezas como brinquedos, cigarros, utilidades caseiras, balas, chocolates, flâmulas, e ocasionalmente revistas.

Geralmente na forma de uma estante de madeira, com portas que podem ser trancadas a cadeado, encostada num muro, na calçada. Não é exagero imaginar que em algum momento ali também se vendiam fitas de tecido, coloridas, para enfeite.

“O nome dele é Zezinho, ele tem um fiteiro ali perto da esquina”. 

“Corre ali no fiteiro e vê se acha um cortador de unhas.”


A MULHER
É um modo de tratamento curioso, meio machista, que alguém usa para se referir à esposa.  Quando diz “a mulher” está querendo dizer “minha esposa”, mas esse tratamento me parece mais ríspido e distanciado do que dizer “minha mulher”, que mesmo impondo o sentido de posse implica também numa proximidade afetiva. Quando o cara diz “a mulher” é como se dissesse “aquela mulher que tem lá em casa, a que toma conta das coisas.

“Acho que eu vou pra casa, por que eu disse à mulher que ia jantar cedo”. 

“Ontem teve um barulho lá no quintal, a mulher acordou assustada, eu achei melhor avisar o vigia”.









sexta-feira, 24 de julho de 2020

4603) Seis desmemoriados (24.7.2020)




1
Bartolomeu Correia Juçá, 66 anos, foi encontrado vagando na Praça Nossa Senhora da Paz, no Rio de Janeiro, e levado a um asilo. Tinha um documento com esse nome e a data de nascimento, e só. Não lembrava quem era. Não estava no Google, nem na Previdência Social. Dizia apenas que de repente acordou e estava ali, não lembra de nada que lhe aconteceu antes. Assistentes sociais e jornalistas pesquisaram todas as pistas possíveis, e nada encontraram. Era como se o mundo também não lembrasse mais quem ele era.

2
Lazslo Sandoi, 38 anos, foi descoberto ao chamar a atenção dos guardas e dos guias do Rijksmuseum, de Amsterdam, porque todos os dias entrava ali, sempre trajando a mesma roupa, e se postava na sala das “casas de bonecas”, onde ficava olhando para elas e chorando. Abordado, não soube dizer quem era nem o que fazia ali. Quando as notícias e fotos saíram nos jornais, alguém o identificou: era húngaro, representante comercial, tinha ido à Holanda a trabalho, e até aquele episódio nunca tinha sofrido nenhum problema neurológico ou emocional. Levaram-no de volta ao seu país, sob terríveis crises de nervos, apaziguadas apenas quando os médicos lhe forneceram copiosas fotografias das casas de bonecas que desencadearam o processo.

3
A Menina do Patriarca, 10 anos aproximadamente. Encontrada na Praça do Patriarca (São Paulo), sem documentos, aparentemente em estado de choque. Roupas novas, de boa qualidade. Saúde perfeita. Dentes bem tratados. Não dava mostras de entender o que lhe perguntavam. Foi mostrada em todos os telejornais. Foi conduzida a um abrigo. Não aparentava problema mentais e eventualmente conseguiu executar por iniciativa própria tarefas como dobrar roupas e lençóis, folhear revistas (não dava indicações de saber ler, mas manuseava as páginas com evidente familiaridade). Não demonstrava iniciativa para alimentar-se, ir ao banheiro. Está assim há dezenove anos. Nunca falou uma palavra sequer.

4
Charles Aronne, 47 anos, industrial, residente em Toulouse. Depois de um AVC, perdeu a capacidade retentiva da memória e vive recluso em casa, onde passa os dias, os meses e o anos maravilhando-se todos os dias com a beleza e a solicitude de sua esposa Marianne, de seus filhos Michel e Sophie, e de todos os amigos que se revezam diariamente contando-lhe quem é, o que já fez, do que gosta, em que acredita. Uma ou duas vezes por ano equipes de TV francesa e estrangeira vão entrevistá-lo: as entrevistas, vistas uma após a outra, parecem ter sido concedidas por diferentes pessoas, pois em cada época Aronne dá mostras de estar compondo uma identidade para si próprio a partir das conversas mais recentes que teve com as pessoas que lhe são próximas. Teve que reaprender a assinar o próprio nome, para poder firmar os documentos que os sócios trazem à sua casa.

5
Patrício Morais de Lautério, 49 anos, funcionário público, Belém do Pará. Aposentou-se por invalidez depois de ataques de amnésia que prejudicavam sobremaneira seu trabalho na repartição, e seus contatos com a família. Atualmente mora em casa, rodeado por parentes. Depois de vários dias em que está aparentemente normal, ele acorda sem saber quem é, mas acometido de um curiosidade intensa sobre os objetos em volta. Pergunta à família para que serve o travesseiro, o chinelo, a janela, a gaiola com pássaro, o prédio em frente. Pergunta a cada pessoa quem é, o que faz, do que gosta, que comidas prefere, que tipo de música escuta, qual sua cor favorita, que livro levaria para uma ilha deserta.  Não dá mostras de reconhecer a família, mas é gentil com todos. Isso dura um dia inteiro, até o próximo sono, do qual desperta normal e com um pouco de enxaqueca. Depois de mais de um ano de exames, os médico constataram que esses ataques ocorrem exatamente de 39 em 39 dias, mas além disso nenhum outro dado científico foi comprovado.

6
Lenny Grady, 40 anos, bluesman de Nashville, perdeu completamente a memória num acidente de carro aos 36 anos, mas foi cuidado com desvelo pela esposa Geraldine e pela filha Suzanne, até conseguir um relativo grau de autonomia. Perdeu a capacidade de falar e de lembrar as informações mais elementares, e durante meses permaneceu em casa, vagaroso, meio cambaleante, afável, sorridente, distraído, mas capaz de manter o próprio asseio e de se alimentar sozinho. Certo dia, um amigo o visitou levando o violão e nesse momento ele pareceu despertar parcialmente, pediu o instrumento e começou a cantar, meio hesitante, com a voz “enferrujada”, mas improvisando versos com relativa fluência para alguém naquele estado. “Nunca esquecerei aquele momento,” disse Suzanne, “quando ele dedilhou as cordas e me agradeceu pelo hamburger que eu lhe servira uma hora antes, dizendo apenas que estava muito apimentado, e estava mesmo, aquilo foi como um raio de luz numa noite escura, e desde esse dia tudo que ele quer dizer ele diz cantando... Só não lembra de nenhuma das músicas que fez.”













terça-feira, 21 de julho de 2020

4602) "Dark", temporada 3 (21.7.2020)




Vou começar com a coisa que eu detestei na série Dark: aquele insuportável clichê da pessoa que acorda de um pesadelo sentando na cama, arquejante, com os olhos arregalados, a boca aberta. Usar isso uma única vez, pra mim, já é um defeito grave. O diretor usa em praticamente TODOS os episódios da série, às vezes repetindo no mesmo episódio. É um dos clichês mais desgastados da História do Cinema. Como é que isso passa pelas mãos de uma equipe inteira e ninguém questiona?!  Não tem perdão.

Esse “macete” de fingir que uma coisa horrível está acontecendo e depois dizer: “Era só um sonho! Brincadeirinha!” é um erro elementar. Rarissimamente soma alguma coisa ao filme. Você obriga o espectador a investir sentimento, impulso emocional, e depois diz que estava mentindo. Nas próximas, o espectador não acredita, não investe emoção. Mesmo inconscientemente, ele hesita. Já foi enganado umas, duas, três, quatro, cinco vezes. Pra quer morder de novo a mesma isca?

Eu dou logo um passo atrás. Fico assistindo da calçada.

Um defeito grave são os diálogos. É quando a gente vê que falta uma referência de idéias mais ampla. Falta poltrona a esse pessoal, dizia uma professora minha, para indicar que faltava leitura.


A cada episódio, os personagens repetem uns para os outros a mesma ladainha: “Tudo está interligado: luz e sombra... vida e morte... o fim e o começo...”  São banalidades abstratas pomposas, como num livro de auto-ajuda. É por isso que em Hollywood usa-se muitas vezes contratar um cara para escrever o roteiro, e outro para escrever os diálogos. Porque sempre tem gente que só sabe fazer uma das coisas.

Não quero botar um peso muito grande nas costas da roteirista/criadora Jantje Friese: pelo que vi nas bios, é apenas o segundo roteiro dela, que antes de Dark tinha escrito apenas um filme. E cabe a ela, em princípio, o grande mérito da série, que é a combinação de uma idéia ousada, um desenvolvimento complexo, um trabalho braçal imenso, absurdo, de manter a continuidade de ação e de psicologia de 15 ou 20 personagens ao longo de 4 ou 5 ou mais épocas.


É um roteiro corajoso, ambicioso, e que deve ser louvado pelo que tem de bom, numa época em que todo mundo opta pelo feijão-com-arroz e tem medo de arriscar. Jantje Friese não teve medo, quis arriscar. Quando um malabarista está no picadeiro jogando e aparando 10 bolas, e duas ou três caem no chão, a gente tem que aplaudir, sim. Senão, estaríamos até hoje pagando para ver alguém fazer malabarismos com 3 bolas. 

Já falei aqui que o erro de Dark foi querer expandir demais a complexidade do enredo, ao invés de explorar melhor o território (já em si complexo) demarcado na Temporada 01. Na Temporada 02 já houve um difícil equilíbrio, e na 03 o que tivemos foi uma dispersão dramática entre uma porção de situações contraditórias que os personagens tinham que explicar o tempo inteiro uns para os outros – e para o público.

A série ganhou em complexidade, mas acabou perdendo em profundidade. A Temporada 03 teve momentos em que parecia que a gente estava assistindo um storyboard.

Tenho meia dúzia de perguntas mal-respondidas, mas nem vou tocar nesse assunto aqui. O elenco é quase todo muito bom. O casting, como já falei, é extraordinário. A direção tira leite de pedra em lidar com as situações obrigatoriamente repetitivas propostas pelo argumento (um risco muito grande, típico desse tipo de história, e assumido com consciência). 

A parte visual é também excelente, e dou uma nota 10 para o design das Máquinas do Tempo, todas elas. Todas têm algo de steampunk, de ciência gótica.



Fico imaginando que o sucesso da primeira temporada esticou desnecessariamente o restante. Pena que um sucesso semelhante não tivesse premiado uma das minhas séries preferidas, The Lost Room (Christopher Leone, 2006), mais misteriosa do que Dark, e que morreu depois de uma temporada e seis episódios, deixando mil mistérios no ar:


Falei, ao comentar a Temporada 01, que Dark é no fundo mais um folhetim com dramas de família. E de fato tudo gira em torno de quem casou, quem descasou, quem traiu, quem nasceu, quem morreu.



E todas essas histórias de Viagem no Tempo, curiosamente, giram em torno do nosso desejo de mudar o Passado. Ninguém volta ao Passado para rever os lugares que foram marcantes, como o velhinho seu-lunga do Morangos Silvestres de Bergman. Volta para interferir, volta para tentar corrigir erros, volta por esse inconformismo humano de nunca se dar por satisfeito e achar que a vida poderia ter sido perfeita, impecável, sem um erro sequer.

Ou que a História é uma batalha que ainda não cessou, que é possível voltar no tempo para matar Hitler ou salvar Abraham Lincoln. E o que muitas dessas histórias nos mostram é que não adianta. Você volta no Tempo, corrige um erro, e o erro volta a acontecer. O Universo é teimoso, não quer ser corrigido.

Como diz uma personagem de Dark: “As coisas podem não acontecer do mesmo jeito, ou no mesmo tempo, mas acontecem”. Quem traiu com A, trai agora com B. Quem chantageou C, agora chantageia D. Quem tem o vício X, está agora com o vício Y.  Detalhes assim só importam para nós; o Universo faz a concessão e segue em frente com seu tanque Panzer.


Há um conto de Lewis Shiner (“Voodoo Chile”, Asimov Magazine, julho de 1993) em que um fã de rock volta no tempo para evitar que Jimi Hendrix morra, como morreu, engasgado com o próprio vômito após uma noite de farra em Londres. Ele volta. Vai nos bares. Fica amigo de Hendrix, revelando coisas futuras (sem explicar por que) e ganhando a confiança do músico. Na noite fatal, dá um jeito de alguém cuidar de Hendrix. No dia seguinte, Jimi está vivo! Maravilha! Vamos comemorar!  Vão beber no bar de sempre e ao saírem, de madrugada, surge do nada um maluco e esvazia um revólver no autor de “If Six Was Nine”.

O que tem de acontecer, como se diz por aí, tem muita força.


(O diretor Baran Bo Odar e a roteirista/criadora Jantje Frieser)

Volto a louvar a roteirista/criadora Jantje Frieser por uma outra ousadia: a solução final que adota para a “guerra entre dois universos”. Para solucionar o “nó górdio temporal”, não adianta desatá-lo, é preciso voltar um pouco mais e cortar tudo, mesmo ao preço de que numerosas linhas temporais deixem de acontecer. (E ela foca a solução num personagem-chave que estava ali o tempo todo; não é um simples deus ex machina).

É a ousadia assustadora de Isaac Asimov num dos seus melhores romances, O Fim da Eternidade (1955). E é diferente do “sustozinho do pesadelo” que critiquei no início. Investimos nosso envolvimento emocional com personagens cuja vida, afinal de contas, será apagada. Mas é como dizia Drummond:

“Deixaram de existir, mas o existido
continua a doer eternamente”.