domingo, 22 de dezembro de 2019

4534) Leituras 2019 - 1 (22.12.2019)




Os jornalistas têm uma rotina decemberista onde comentam as novidades do ano que se encerra. Não é o meu caso. Como ninguém me paga para monitorar os lançamentos, me desobrigo de acompanhá-los, o que é um alívio. Só leio um livro novo se me interessar muito e não for muito caro. Minha leituras são fruto do acaso (pessoas que encontro e que me dão seus livros), das amizades (livros remetidos por amigos, conhecidos e desconhecidos), e de impulsos inexplicáveis que me fazem pegar, hoje, um livro que estava intocado na estante há mais de 25 anos. Por que logo hoje? Não sei, e não preciso saber.


Poesia

Leio muita poesia, mas tenho o defeito (e sei que é defeito) de na maior parte do tempo estar lendo e relendo os mesmos vinte poetas que já leio há meio século. Fazer o que? Não leio para saber de novidades. Leio para saber se o que fazia sentido continua fazendo. (Spoiler: nem sempre faz.)

Mesmo livros de poesia, que em geral são fininhos e têm vastos latifúndios de página em branco, eu não leio do começo ao fim. Livro de poesia é como caixa de chocolate. De vez em quando a pessoa vai lá e saboreia um.

Eu tenho amigos poetas que não leem os livros dos amigos, nem sequer os meus, com esta imbatível desculpa: “Não quero correr o risco de ser influenciado pelos meus adversários.” Eu não vejo os outros poetas como adversários, assim como não vejo como adversários (nem sequer como concorrentes) aquelas pessoas silenciosas e resignadas na fila da Lotérica. Estão ali fazendo sua fezinha, tal como eu.

Dito isto, destacarei entre muita boa poesia que li uns poucos livros. Um deles é de um poeta que não conheço pessoalmente, Izalco Sardenberg, e me foi enviado através de um amigo comum. É um poeta da minha idade e de leituras aproximadas às minhas, o que de certo modo aproxima os diapasões. O livro é Remissão (São Paulo: Amar-Amaro, 2019), onde se leem coisas como:

Choro por besteira,
um dia chorei ao ver a mãe
com o filho de perna mais curta que a outra.
Iam de mãos dadas, sob a guarda de um anjo cruel.
Chorei ao ouvir no Spotify uns versos
que não entendi (mas os sons, encadeados
e escandidos naquela voz eram tão belos).
Talvez seja hora de desistir,
talvez suba de novo a montanha de lava
e então encare a boca ardente.  (p. 16)

Outro poeta da mesma geração é o nosso paraibano-por-consagração W. J. Solha, que nos últimos anos vem desenvolvendo em linhas paralelas uma série de romances muito pessoais sobre a Paraíba e o sertão paraibano, e uma série de livros de poemas em versos longos, salpicados de divertidas rimas internas, onde ele rastreia, identifica e coleciona as “rimas do mundo”, as pequenas continuidades que parecem tornar a nossa civilização uma obra de arte escrita por uma consciência coletiva.

O livro da vez é Vida aberta (Guaratinguetá: Penalux, 2019), onde ele comenta:

O trem, a enferrujar na mata que lhe sobrepuja os trilhos,
não se altera ante o outro que – de repente – ao lado lhe aflora,
a quinhentos quilômetros por hora.
Vida... é isso que te põe ao lado da estrada.  (p. 33)


Li muitos cordéis este ano, em função de uma série de TV que escrevi (No País da Poesia Popular, Truque Produções, Bahia, direção de José Araripe, lançamento previsto para 2020 no CineBrasilTV). Comentei vários deles aqui no Mundo Fantasmo ou em redes sociais. Vou destacar um, pela ousadia da idéia e pelo vigor da linguagem: Veredas – versão em cordel, de Edmilson Santini (Rio: ed. Do autor, s/d).

Santini faz num cordel de tamanho padrão um resumo dramatizado dos episódios principais do romance-fluxo de Guimarães Rosa, o Grande Sertão. Usando estrofes de extensão variável, mas sempre coladas à sextilha e à décima, e seus esquemas de rima tradicionais, ele recria a prosa de Rosa com seus recursos, que não são poucos, e produz um cordel com medidas iguais de reverência e de originalidade.

Diadorim, toda gateza,
o ódio, a faca, a vantagem:
seus verdes olhos: Coragem;
Coração, toda afoiteza...
Frente à tamanha proeza,
puxei da mente meus ais,
do fundo dos embornais,
tirei alegre um suspiro;
num clim de costelas, um tiro!
Ele arriou pra jamais...  (p. 35)


São amostras, apenas. Como falei acima, não faço balanços minuciosos da produção literária. Deixo isso para os profissionais.


Memorialismo

Por gosto pessoal e eventualmente por leituras de trabalho, acabo entrando em contato com livros de pessoas que em forma de crônicas, autobiografias ou relatos confessionais falam do passado, de suas experiências, do tempo que viveram sobre a terra.


Falam de sua história familiar, como o cearense Arievaldo Viana em Sertão em desencanto (Fortaleza: Queima Bucha, 2016), uma reconstituição que parece escrita a quatro mãos por um historiador e um memorialista. O primeiro retraça as árvores genealógicas de várias gerações até um passado distante, com nomes, datas e locais escrupulosamente anotados. O segundo vai pincelando comentários ao longo dessa história, registrando lembranças, encontros pessoais com um avô ou avó, histórias pitorescas ou estranhas que passam de geração em geração como uma moeda rara que se pode dar de presente mas é proibido gastar.

Numa raia parecida corre o livro Novas cartas do sertão do Seridó (Natal : edição do autor, 2009) de Paulo Bezerra “Balá”, que já comentei mais extensamente aqui no blog. Paulo Balá, já falecido, era um fazendeiro da velha estirpe, afeito ao trabalho manual e à lida com os trabalhadores. Seu livro reconstitui histórias de época, personagens esquecidos, e principalmente serve como um documento valioso de hábitos, costumes, técnicas, detalhes da vida cotidiana nas velhas fazendas nordestinas, que ele registra com olho infalível e uma prosa sóbria e vívida.



A crônica curta e leve também cumpre esse papel, e foi pra mim uma surpresa agradável o livro Onde davam esses trilhos, de Lido Loschi (Vitória: Cousa, 2019). O autor é ator do grupo Ponto de Partida, de Barbacena (MG) e suas crônicas são todas sobre lembranças de infância. Em vez do tom meramente nostálgico e individualista do “que saudades que eu tenho da aurora da minha vida”, o livro de Lido Loschi é cheio de episódios de traquinagens (algumas meio cruéis), brincadeiras, tristezas, desobediências, aventuras que tanto terminam bem como mal, a excitação coletiva de garotos que vivem na fazenda e parecem ter o mundo à sua disposição. A prosa não é nostálgica nem sentimental: narra e descreve em palavras poucas mas precisas.

Outra surpresa foi ter folheado um volume memorialístico carioca, Antonio’s – caleidoscópio de um bar (Rio: Record, 1992), de Mário de Almeida. O Antonio’s foi um bar famoso do Leblon carioca, frequentado por músicos da Bossa Nova, artistas plásticos, escritores, diplomatas, cineastas, jornalistas e o escambau, além de políticos importantes e gente com muita grana no bolso. Seu administrador, o Manolo, era um boa-praça que cuidava dos fregueses e eventualmente lhes servia de psicanalista, confessor, avalista, enfermeiro, consultor conjugal, e sei mais o que. É a história de algumas décadas da boemia carioca, com muitos textos do autor Mário de Almeida, e numerosas contribuições fornecidas por boêmios famosos e saudosos.


E gosto de pessoas contando (meio egoisticamente, mas somos todos egoístas) os episódios da própria vida, naquela narrativa eu-eu-eu onde o resto da humanidade aparece com meros coadjuvantes. É o caso do excelente Vivir para contarla, de Gabriel Garcia Márquez (já traduzido no Brasil). Márquez tem o dom da narração, e este livro tem camadas superpostas de memorialismo familiar (talvez um terço dele se ocupe das peripécias da conquista da mãe pelo pai), relato da vida política da Colômbia (que conheço muito pouco), apanhado de leituras, descobertas e influências. Pulando de Aracataca para Cartagena, daí para Bogotá, daí para alguma outra cidade, Márquez acumulou a experiência pessoal no trato com pessoas que acabou encorpando de maneira única o seu “realismo mágico”. É um livro longo, cheio de idas e vindas, que depois da última página dá uma vontade danada de voltar para a primeira e começar a re-entender tudo aquilo.











quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

4533) Minhas canções: "Sendo Amor" (18.12.2019)




(Sinedei Moura)

Tenho postado comentários sobre minhas canções gravadas, mais ou menos por ordem cronológica. Ocorre aqui um fato curioso: uma das minhas primeiras canções em parceria foi feita em 1978, foi cantada milhares de vezes em palcos e em mesas de bar, mas só foi gravada mais de vinte anos depois, quando o meu parceiro, Sinédei Moura (que não é cantor profissional, é professor universitário), gravou seu primeiro CD, Cena de Perigo (2002).

Eu e Sinédei (o nome dele não tem acento, mas a gente usa, para marcar a pronúncia, que muita gente confunde) passamos em 1973 no vestibular da FACE (Faculdade de Ciências Econômicas) da Universidade Federal da Paraíba, Campus II, em Campina Grande. Ele entrou para Economia e eu para Ciências Sociais, com meu plano meio utópico de estudar Antropologia Urbana (o que venho fazendo por conta própria desde então). 

Ele vinha de Fortaleza, e logo passou a fazer parte da turma que se reunia na “casa de Son”, dos irmãos Jakson e Marcos Agra. Com Son, que era um letrista transbordante, compôs dezenas de canções; quando me mudei para a Bahia, mandei-lhe uma letra, a de “Sendo amor”, que acabou se tornando a minha primeira música feita propriamente em parceria.

Eu tenho facilidade, talvez excessiva, para escrever letras com estrofes fechadas e rimadas, no estilo de Bob Dylan ou dos cantadores de viola. Algumas letras minhas que as pessoas acham quilométricas, e pensam que exigiram semanas de trabalho, foram rabiscadas ao longo de uma única tarde. Mas para fazer letras mais elaboradas (e num tom mais sentimental, mais introspectivo) eu nunca tive facilidade.

Esta canção surgiu numa época em que a gente escutava “até furar o disco” o álbum Minas, que Milton Nascimento tinha lançado poucos anos antes, e eu botei no juízo que iria escrever uma letra de amor tão séria (longe do tom satírico, que me sai tão natural quanto a respiração) quanto a de “Beijo Partido” de Toninho Horta, uma música que me fascinava pela tortuosidade da melodia e pelo peso misterioso de versos como “hoje não passa de um vaso quebrado no peito” ou “onde estará a rainha que a lucidez escondeu?”.

É sempre interessante a gente reavaliar uma canção, anos depois, tentando localizar de onde veio o primeiro impulso de fazê-la. Para mim, pelo menos, nasce muitas vezes disso: de ouvir uma canção impactante feita por alguém e pensar, “preciso fazer uma coisa assim”, ou seja, uma coisa que produza um impacto parecido. Seja na levada, no ritmo, no estado de espírito, na textura poética.

Geralmente, o resultado final fica a anos-luz de distância, como se pode ver aqui. Minha letra (pra variar) não tem nada a ver com a canção de Toninho Horta: é uma letra parnasiana, simétrica, toda medidinha. E meio de paletó-e-gravata pro meu gosto; mas é valorizada pela melodia de Sinédei, e foi a primeira vez na vida em que eu tive essa revelação estranha de ver alguém extrair, de uma penca de versos escritos “em branco”, uma melodia que, em retrospecto, já parecia estar contida neles.

Eu e Sinédei fizemos outras canções depois, mas esta ficou como um marco. É uma música que cantei pouco em meus shows, porque minha “persona” no palco sempre foi meio galhofeira, uma mistura de Raul Seixas e Jorge Mautner, ou seja, de um cara que não está nem um pouco preocupado em “cantar bem”, mas em dar uma sacudida no juízo de quem escuta.

Sinédei também não é um grande cantor – seria, se a Universidade não tivesse atrapalhado. Mas é um músico aplicado e cheio de sutilezas. Aqui no YouTube tem uma gravação com banda desta nossa primeira música, e que foi a primeira minha em mais de um critério. E é a cara de um tempo.

  


Sendo Amor
(BT / Sinédei Moura)


Seja o que for, que seja tudo
e seja até o fim;
e sendo amor, saiba que eu não me iludo
e não se iluda quanto a mim.

Que novamente dancem
nas velhas cordas fatigadas
as canções desenterradas
de dentro de mim;
que novamente cansem
os corpos extraviados
nos seus trajetos cruzados
que fogem do fim.

Até que se faça o silêncio de aço
que sempre coloca de novo seu braço em meus ombros,
e depois, sem que eu nem sequer acredite,
outro olhar desgarrado apareça e habite
meus escombros.













sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

4532) Dicionário Aldebarã XIX (13.12.2019)




(ilustração: Huang Yung Fu)

O planeta de Aldebarã-5 tem uma civilização influenciada pelos colonizadores terrestres.  Seu vocabulário exprime as características da natureza do planeta e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura.  Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.


“Lhossa”: reunião semanal numa rua, ou num bairro, onde as pessoas levam pequenos problemas de ordem prática para pedir conselhos aos demais: qual a melhor maneira de consertar uma cerca, como preparar determinada comida, o que fazer com um filho-problema, etc.

“Etrix”: pequenas molas que, acopladas aos pés das cadeiras, permitem à pessoa ficar sentada e mexer o corpo para exercitá-lo, pois a cadeira acompanha essas micro-mudanças de posição.

“Teruch”: diz-se de certas misturas de infusões vegetais com o poder de desentupir encanamentos, esgotos, etc., e por extensão diz-se o mesmo de bebidas alcoólicas de baixo preço.

“Quavryub”: cortinas com aberturas móveis, que podem ao mesmo tempo deixar um ambiente na penumbra e dirigir fachos de luminosidade na direção que for conveniente.

“Elkism”: a sensação permanente e às vezes inexplicável de que por mais que tudo pareça estar em paz essa paz pode ser estilhaçada a qualquer instante por alguém que chega, uma voz que se ouve, um recado que se recebe.

“Ardofoot”: dança coletiva, espécie de quadrilha, onde todos os participantes dançam de olhos vendados, sentindo-se pelo tato e trocando de pares de acordo com “deixas” da melodia. Usa-se também na linguagem diária para descrever uma situação que a pessoa não entende por completo mas está se saindo como pode, na base do improviso.

“Gelaya”: jardins de flores organizadas geometricamente para serem vistos de forma diferente, criando desenhos específicos, de cada janela da casa.

“Timpirol”: rito de passagem a que, em algumas regiões, se submetem os adolescentes de ambos os sexos, e que incluem a adoção de um apelido, a incineração de todas as roupas que possuíam, numa cerimônia em que vizinhos e parentes comparecem trazendo-lhes roupas novas e recados com pequenas surpresas (ofertas de trabalho, propostas para viagens, etc.).

“Riazons”: tubérculos avermelhados que servem tanto para a alimentação quanto para a fabricação de tintas, com as quais são pintados os passarinheiros, viveiros abertos que servem de abrigo às aves.

“Maytor”: período de lua-de-mel que precede o casamento; algumas semanas antes da data fixada para a cerimônia, os noivos têm direito a passar 10 dias a sós, liberados de trabalho e/ou estudos, para se conhecerem melhor. Findo este período, eles confirmam ou cancelam o matrimônio.

“Ormassycs”: trabalho típico de pessoas idosas, remuneradas por uma “caixinha” mantida pela comunidade, e que servem de cicerones ou guias aos pontos interessantes de um bairro, de um quarteirão, porque sabem tudo que aconteceu ali, os lugares onde moraram pessoas conhecidas, onde aconteceram fatos memoráveis, etc.

“Sokkun-Udis”: lugares onde ocorreram grandes batalhas no passado, e onde hoje as pessoas vão, em datas comemorativas, para meditar em silêncio, sem festas, sem homenagens, sem discursos; apenas sentam-se em círculo ao anoitecer, conversando o mínimo possível, e só se retiram ao nascer do sol.













terça-feira, 10 de dezembro de 2019

4531) O detetive e o mágico (10.12.2019)




Há um subgênero do romance (e do conto) policial voltado para os Crimes Impossíveis, aqueles crimes onde uma pessoa é encontrada morta num quarto trancado por dentro, ou apunhalada num campo coberto de neve onde só se veem suas próprias pegadas, ou entra num aposento vigiado pelo lado de fora, some... e não reaparece.

Para mim, os grandes mestres desse tipo de história são John Dickson Carr (que também se assinava “Carter Dickson”), Ellery Queen, S. S. Van Dine, Edward D. Hoch e outros.

São histórias tão intrincadas e cheias de detalhes insólitos que Jorge Luís Borges, numa conferência famosa (em Cinco Visões Pessoais, Editora da UnB, 1987, 2ª. ed., trad. Maria Rosinda Ramos da Silva), classifica esse tipo de história no interior da literatura fantástica.

"Fantástica" por que? De acordo com o meu critério pessoal, essas histórias não seriam fantásticas porque nelas tudo que acontece é fisicamente possível, nenhuma lei da física é violada, etc.  Mas são histórias fundamentadas em circunstâncias altamente improváveis. Criminosos engendram assassinatos utilizando mecanismos bizarros, contando com coincidências extraordinárias, recorrendo a métodos quase surrealistas para ocultar seus movimentos e suas motivações.

E o detetive deve ter a capacidade imaginativa de entender esses procedimentos, para chegar à solução. Não são histórias sobrenaturais. São histórias insólitas. A possibilidade de que pessoas se comportassem daquele jeito na “vida real” é praticamente zero, seja na execução do crime, na ocultação de pistas, na criação de um falso álibi.

É uma espécie de “literatura Rube Goldberg”, imitando a técnica do desenhista norte-americano, de engenhocas complicadíssimas para produzir efeitos banais:


(desenho de Rube Goldberg) 

A graça desse tipo de história é que se trata de um mistério colocado em termos de problema, que deve ser analisado, entendido e decifrado. Diz Borges:

Tudo isso já se encontra nesse primeiro conto policial escrito por [Edgar Allan] Poe – que não sabia estar dando início a um novo gênero – intitulado The Murders of the Rue Morgue. Poe não queria que o gênero policial fosse algo realista; queria que fosse um gênero intelectual, um gênero fantástico, se vocês preferirem, mas um gênero fantástico fruto da inteligência, não apenas da imaginação. De ambas, as coisas, naturalmente, mas, sobretudo, da inteligência. (p. 35-36)

É uma literatura da “Realidade vs. Ilusão” – a Realidade é o crime, o modo como foi praticado, o seu autor; a Ilusão são os detalhes complicadores com que o assassino busca disfarçar a própria identidade e o método que utilizou.

E dentro desse subgênero existe outro, mais fascinante ainda: os romances policiais envolvendo truques de magia-de-palco. Sim, porque existe uma imensa afinidade de espírito entre o ilusionismo de um mágico e o de um criminoso (um criminoso desse gênero em particular). Existe uma semelhança enorme de métodos entre um cara que serra uma mulher ao meio diante de uma audiência, e um sujeito que mata outro dentro de um quarto trancado por dentro (ou que dá a todos a impressão de que foi isto que aconteceu).

Um pioneiro notável desse subgênero foi Maxwell Grant (pseudônimo de Walter Gibson), o famoso autor de The Shadow. Grant foi durante muito tempo assistente de mágicos famosos dos EUA, como O Grande Blackstone, e transferiu essa experiência para os contos sobre Norgil o Mágico, que ele publicou na década de 1930 na revista Crime Busters. Cada história de Norgil envolvia um pequeno crime ou mistério que era produzido (ou solucionado) mediante o conhecimento de algum truque de mágica.



Clayton Rawson, um discípulo de J. D. Carr, era mais complexo em concepção e superior em execução. Seu “mágico-detetive” era O Grande Merlini, que apareceu em clássicos como Death From a Top Hat (1938), The Footprints in the Ceiling (1939), e outros. Seu conto “From Another World”, publicado no Ellery Queen’s Mystery Magazine (junho 1948) é de uma rara simplicidade e engenhosidade.



Li agora há pouco Black Aura (1974) de John Sladek (1937-2000). Este autor, que também produziu ficção científica de boa qualidade, escreveu também um volumoso tratado de desmascaramento de cultos de pseudo-ciência, The New Apocrypha – a Guide to Strange Science and Occult Beliefs (1978), onde ele mete o chanfalho em muitos casos de paranormalidade, mediunidade, curas “quânticas”, discos voadores, moto-perpétuo e outras coisas. Faz um bom par com o clássico de Martin Gardner, Mitos e Crendices em Nome da Ciência (1957).



O romance de Sladek tem como detetive um sujeito divertidamente excêntrico chamado Thackery Phin, um norte-americano vivendo em Londres, que se dedica a desmascarar um grupo de pessoas que cultuam uma médium famosa. Assassinatos e desaparecimentos impossíveis começam a acontecer, e ele acaba se envolvendo.

O mais interessante, do ponto de vista literário, é que o livro tem uma estrutura bem clássica, bem anos 1900 ou 1930, ajudado pela ambientação londrina; mas os personagens incluem figuras bem familiares ao leitor da década de 1970: um cantor pop assediado pelas fãs, indivíduos viciados em heroína, atores e técnicos de TV, e outros.

Thackery Phin não deixa de fazer citações, alusões e homenagens aos clássicos do gênero (Doyle, Chesterton, etc.) e deslinda com habilidade (e alguns lances de efeito teatral) o mistério. O livro vale pela escrita de Sladek, sempre interessante e perceptiva quanto a pequenos detalhes de ambientação e psicologia, não necessariamente (ao contrário de alguns autores desse gênero) os detalhes que terão importância na solução do caso.

É uma maneira de, tornando mais realista e mais verossímil o ambiente e as pessoas, tornar ainda mais fantástico o “crime impossível” quando acontece, e mais convincente a solução que no fim é apresentada.


(John T. Sladek)











sábado, 7 de dezembro de 2019

4530) Os spoilers e os whetters (7.12.2019)





São duas funções do discurso narrativo para as quais não temos um termo em português unanimemente aceito.

Um spoiler é qualquer tipo de informação capaz de estragar (=”to spoil”) o prazer da descoberta gradual de uma narrativa. Acontece na literatura, no cinema, na TV e por aí vai.

O spoiler fundador na minha infância foi um cartum do “Amigo da Onça”, o famoso personagem de Péricles na revista O Cruzeiro. O Amigo da Onça é aquele cara cujo prazer é sacanear os outros, botá-los em situações difíceis, pregar-lhes peças de mau gosto, passar-lhes a perna.


(O Amigo da Onça, de Péricles)

No cartum, uma fila enorme de pessoas está na bilheteria do cinema, comprando os ingressos, e o Amigo da Onça sai bem satisfeito ao final da sessão anterior, repetindo, enquanto caminha ao longo da fila: “O assassino é o pai da moça... o assassino é o pai da moça...”

Para quem gosta de filme policial, nada mais chato do que saber de antemão quem é o criminoso.

Li por aí que um estudo numa universidade dos EUA comprovou uma coisa interessante: o spoiler, para a maioria das pessoas, mais aumenta do que diminui o prazer de ler/ver uma história. Ou seja, justamente o contrário do que se imagina. Ao que parece, as pessoas preferem saber, desde antes, como a história acaba. Por que?

Acho que entra aqui um pouco da famosa teoria de Alfred Hitchcock sobre a surpresa e o suspense. Dizia ele que a surpresa, no cinema, produz um choque violento mas de curta duração, por ser algo inesperado que acontece de repente.

O suspense, por outro lado, é algo que a gente sabe que vai acontecer, ou que pode acontecer, e isso faz a gente ficar se roendo de angústia durante horas.

São dois efeitos diferentes; cabe ao autor perceber qual deles funciona melhor em cada episódio da história que está contando.

Quem gosta dos finais surpreendentes, da elucidação de um mistério, se chateia com o spoiler porque ele estraga o prazer da descoberta. O estudo nos EUA revelou, por outro lado, que muitas vezes o público, sabendo de antemão o desfecho do filme (ou do livro) sente-se mais à vontade para prestar atenção em outras coisas, saboreia melhor outros aspectos da narrativa, percebendo de antemão para onde apontam certos detalhes.



Quero defender agora a existência de outra função do discurso narrativo, da técnica de contar uma história. Uma função que é o contrário de um spoiler.

Eu o chamo de whetter, do verbo “to whet”, que significa estimular, aguçar, etc.

Para os que se incomodam com termos em inglês, sugiro que usem o seguinte:

Em vez de um spoiler, “um desmancha-prazer”.

Em vez de um whetter, “um abridor-de-apetite”.

Um abridor-de-apetite é um trecho da narrativa em que o narrador dá a impressão de que vai revelar alguma coisa importante lá na frente, mas não o faz. Faz apenas uma insinuação, uma indireta.

São aqueles trechos tipo assim:

Quando chegamos à casa do Dr. Alencar, ele guardou o carro na garagem e enquanto eu me encaminhava para porta de frente percebi que ele retirava alguma coisa da mala do carro, um detalhe que naquele momento não despertou minha curiosidade.

Não é um spoiler. Nenhuma revelação foi feita, mas o narrador levantou uma lebre, pôs uma pulga atrás da nossa orelha. Pode haver até um comentário mais explícito:

O choque da descoberta do cadáver me fez não dar muita importância ao fato de que havia um livro caído no chão, a certa distância. Não conferi o que era, e viria a me arrepender disso tempos depois.

Há sempre um toque de premonição por parte do personagem, ou de lembrança retrospectiva, quando é uma história narrada na primeira pessoa:

Ao chegar naquela vila do interior, minha única expectativa era a de alguns meses tranquilos enquanto finalizava meu livro; eu mal poderia imaginar o pesadelo que me aguardava por trás daquelas fachadas pacíficas e daqueles muros cobertos de hera.

Qual a função desses comentários, que em principio são desnecessários à narração em si? Sua função é jogar lá no futuro da história uma corda com gancho, daquelas usadas pelos alpinistas, que prenda nossa atenção lá adiante e nos ajude a seguir até o ponto do mistério anunciado.

O whetter serve para isso: para gerar uma interrogação, e não uma resposta antecipada, como é o caso do spoiler. São duas figuras do discurso narrativo que podem ser utilizadas, inclusive, dentro de um mesmo conto ou romance ou roteiro.

Ou até num mesmo trecho, como no famosíssimo começo de A Judgement in Stone (1977) de Ruth Rendell:

Eunice Parchman assassinou a família Coverdale porque não sabia ler nem escrever.



(A edição brasileira de A Judgement in Stone)

Esta frase inicial de um romance de crime é frequentemente citada porque rompe logo de início com um dogma do romance policial, ao dizer, de chofre, quem é o criminoso, quem foram as vítimas, e qual foi o motivo. Um mega-spoiler, se visto por um raciocínio tacanho.

A arte de Ms. Rendell (uma escritora fina, e uma frequentadora corajosa dos desvãos da alma) está em revelar os fatos (através de um possivel spoiler) e ao mesmo tempo instaurar uma interrogação gigantesca (através de um whetter).










quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

4529) Minhas canções: "A Roda do Tempo" (3.12.2019)




“A Roda do Tempo” não é minha primeira parceria com Lenine, que hoje talvez seja o parceiro com quem compus a maior quantidade de músicas gravadas. Outras vieram antes; mas esta foi nossa primeira música gravada por Elba Ramalho, minha eterna “madrinha”. Num momento importante para nós dois, numa dessas fases recorrentes em que você faz uma montanha de canções e ninguém se interessa por elas.

Foi composta no final de 1988, e gravada por Elba em 1989 no álbum Popular Brasileira, tendo Lenine participado da gravação tocando viola.

Na época a gente tinha umas idéias para composições mais complexas, que sempre avançavam mas não chegavam a lugar nenhum.

Lenine era, e é ainda, muito influenciado pelo universo musical do “Clube da Esquina” mineiro: harmonias complexas, melodias difíceis, letras introspectivas. E eu sempre tive o sonho (típico de quem foi adolescente na década de 1960) da “música pra ganhar festival”. Canções complexas em forma de suíte de 4 ou 5 partes sucessivas, com letras épicas, ritmo arrebatador.

E tome música que ficava pela metade!

Nosso objetivo era ter músicas gravadas por alguém, pois era no tempo em que discos vendiam muito. Ter uma música gravada por uma artista como Elba significava ter alguns meses de sobrevivência garantida, naquela época pré-filhos.

Aí resolvemos “ir às bases”.  Fazer uma música de Jackson do Pandeiro. Não uma imitação, mas usar as formas melódicas, as levadas rítmicas, o vocabulário poético usado por Jackson e seus compositores.

“A Roda do Tempo” foi uma dessas tentativas, e para mim foi bem sucedida, porque foi logo gravada. É aquela levada “tun-dun-dun” que eu chamo de “marcha quadrilha”. Jackson do Pandeiro chamava “marcha de arrasta pé”.

Pelo que me lembro, Lenine foi puxando a levada no violão e eu fui anotando quintilhas no papel. Chamo de “quintilhas” aquelas estrofes que na Cantoria de Viola são chamadas de Mourão de 5 Linhas, rimando ABCCB. E lembro que concordamos em ter um “responsório” depois dos primeiros versos, numa época em que a banda de Elba contava sempre com dois ou três vocalistas de apoio.

Daí veio:

Diz que o tempo é um mistério (deixa falar)
que cura qualquer paixão (deixa falar)...
Quem disse não conhecia
essa dor que noite e dia
martela meu coração.

Esse “deixa falar” (que retorna com variantes nas estrofes seguintes) está dentro daquele jogo de toma-lá-dá-cá entre o cantor principal e o coro, algo típico da música popular em geral, mas que Jackson do Pandeiro explorou com riqueza de variantes. E não só ele, aparece muito nas canções de Marinês (“Olê Laurindo”, “Balanceiro da Usina”), Trio Nordestino (“Na Emenda”), Genival Lacerda (“Noé, Noé”) e assim por diante.

Uma parte dessas letras é feita na base do clichê, da frase já conhecida, das frases falando em coração, amor, que vão se emendando por causa da rima e do encaixe na cadência. Têm a mesma intenção poética que um pão-com-manteiga tem de intenção culinária.  Como dizia John Lennon de suas composições pré-“Help”: “Era só besteira, a letra não dizia nada, o que importava era a levada, o som”.

Nem sempre. Relendo agora a segunda estrofe, lembro que era um tempo em que eu estava lendo sobre Tarô, mais precisamente o livro Jung e o Tarô de Sallie Nichols.


A imagem que me vem à cabeça quando penso nesta música é a capa da edição original de Cem Anos de Solidão de Garcia Márquez, capa de Carybé onde aparecem cartas de Tarô:



E veio certamente daí o verso que para mim é o verso principal da canção, que lhe dá o título, e que exprime (lá vou eu agora psicanalisar a mim mesmo!) a idéia que existe por trás dela.

A roda do tempo gira (deixa girar)
para a frente e para trás (deixa girar)
meu baralho eu já tracei
se você jogar um rei
eu tenho que jogar um ás.

A roda do tempo, que gira para a frente e para trás, é a mesma “Roda da Fortuna” do Tarô, que roda para cima e para baixo ao mesmo tempo. A roda da “Fortuna = Sorte, Destino”, e também “Fortuna = Riqueza, Dinheiro”. A roda que, infalivelmente, rebaixa uns para poder elevar outros. Uns empobrecem para que outros possam enriquecer. Ou como disse Chico Science, “o de cima sobe, e o de baixo desce” (até certo ponto do ciclo, pelo menos).

Essa idéia não é muito clara para algumas pessoas. Se você perguntar: “Num carro que anda normalmente na rua, as rodas dele estão girando para a frente ou para trás?”, as pessoas em geral respondem que obviamente as rodas estão girando para a frente, já que o carro está avançando.

E no entanto a resposta científica seria: “Cada roda está girando ao mesmo tempo para a frente, em seu semicírculo superior, e para trás, em seu semicírculo inferior, mas o carro só avança porque o semicírculo de baixo, o que toca no chão, está girando para trás, e, exercendo pressão sobre o solo nessa direção, impele o carro para a direção oposta, ou seja, para a frente”.

Os versos seguintes recorrem às cartas do baralho/tarô, com esta imagem: Qual é a carta mais poderosa: o ás ou o rei? Resposta: depende do jogo, porque esses valores de qualquer carta são atribuídos na natureza de cada jogo. A disputa mais interessante, contudo, é justamente entre a primeira carta, o ás, e a última, o rei. Se alguém perguntar: “Qual é a carta que, numa escala ascendente, vem depois do rei?” eu respondo: “O ás – num patamar superior”.

Aí vem a segunda parte da canção, ou parte intermediária:

Eu me criei escutando a melodia
da ventania castigando a beira-mar
me acostumei no tombo da ribanceira
quem sabe subir ladeira não tem pressa de chegar.

Esse trecho não tem nenhuma viagem esotérica, mas tem um detalhe biográfico divertido. Nessa época eu morava na rua Tavares Bastos, no Catete, e Lenine na São Sebastião, na Urca. Nenhum dos dois tinha carro. Tínhamos, em função do trabalho, um acordo de cada um ir na casa do outro, alternadamente. Eu saltava do ônibus perto da antiga TV Tupi e subia a São Sebastião; na vez dele, ele saltava na Rua do Catete e subia a minha rua.

Quem sabe subir ladeira não tem pressa de chegar. Pode ser uma metáfora para a vida de compositor, não é mesmo?

E aí vêm as estrofes finais:

Quem pensa que o céu é perto (deixa pensar)
e é só estender a mão (deixa pensar)
fica mal acostumado
vive com o braço esticado
e os pés fora do chão.

Mas a vida vai passando (deixa passar)
como o céu muda de cor (deixa passar)
cada curva do caminho
me leva devagarinho
mais perto do teu amor.

A estrofe de cima eu furtei de um mote antigo, que já dei em cantorias de pé-de-parede: “Quem pensa que o céu é perto / morre com o braço esticado”. E o resto da letra exprime aquela sensação do cara que, depois de uma tarde de trabalho (e uma música pronta, letra dobradinha no bolso da camisa) volta a pé, satisfeito, dever cumprido, pra jantar em casa.



A gravação original de Elba:












domingo, 1 de dezembro de 2019

4528) Guimarães Rosa: "As margens da alegria", "Os cimos" (1.12.2019)




(ilustração de Luís Jardim para a primeira edição, ed. José Olympio)

O livro Primeiras Estórias de Guimarães Rosa saiu em 1962, seis anos após o terremoto duplo que foi a publicação, em 1956, de Corpo de Baile e de Grande Sertão: Veredas. Foi uma mudança estilística importante do autor. Depois de dois livros gigantescos, seria difícil trazer algo de ainda mais peso. Ele optou por um volume de contos curtos, lapidados, sintéticos, como não tinha mostrado até então.

Primeiras Estórias tem uma estrutura interessante que se torna visível quando vemos que o primeiro conto (“As Margens da Alegria”) e o último (“Os Cimos”) formam praticamente uma unidade, e poderiam ter sido publicados como um texto só. O livro se abre com as aventuras do “Menino” – e se fecha com elas.

Como são 21 contos, o livro fica com uma estrutura espelhada, tornada óbvia pela presença de “O Espelho” como décimo-primeiro conto. Temos então dez histórias de um lado, dez histórias do outro, e “O Espelho”, simbolicamente, no meio.

Foi baseado nisto que o psicanalista M. D. Magno (ou “mdmagno”, como se assina) analisou o livro em seu Rosa Rosae (Rio: Aoutra, 1985). Ele vai mais longe, vendo esse espelhamento não apenas entre o primeiro e o último conto, mas em todos os demais, em parelhas simétricas: o segundo (“Famigerado”) e o penúltimo (“Tarantão, meu patrão”); o terceiro (“Soroco, sua mãe, sua filha”) e o antepenúltimo (“Substância”), e assim por diante.

Magno vê interessantes e claras simetrias nessas parelhas de contos.


“As margens da alegria” conta a viagem de um menino à fazenda de um tio, e introduz uma viagem de avião, como se o autor quisesse dizer: Sim, o Sertão continua a existir, e é contemporâneo da tecnologia. O menino embarca, paparicado, sentindo-se um principezinho:

Respondiam-lhe a todas as perguntas, até o piloto conversou com ele. (...) as satisfações antes da consciência das necessidades. Davam-lhe balas, chicles, à escolha. (...)

Pode parecer pouco, mas este conto inaugural introduz o avião, os “chicles” (sim, os chicletes já foram chamados assim), o jeep (assim mesmo, ainda em inglês). O Sertão de Rosa comporta tudo, convive com toda a extensão do real. Convive com a criação das cidades, porque o Tio é uma espécie de engenheiro ou administrador, que leva o menino em seus deslocamentos de supervisão.

A fazenda é ao mesmo tempo um canteiro de obras, porque “...a grande cidade apenas começava a fazer-se, num semi-ermo, no chapadão”. Como o livro é de 1962, não custa imaginar que a tal cidade seria Brasília. (O conto não tem nenhuma referência geográfica explícita.)

Essa primeira viagem do Menino, no primeiro conto, é marcada pelo encontro com uma ave, um peru; uma impressão muito forte, que transborda através do vocabulário:

O peru, imperial, dava-lhe as costas, para receber sua admiração. Estalara a cauda, e se entufou, fazendo roda: o rapar das asas no chão – brusco, rijo – se proclamara. Grugulejou, sacudindo o abotoado grosso de bagas rubras; e a cabeça possuía laivos de um azul-claro, raro, de céu e sanhaços; e ele, completo, torneado, redondoso, todo em esferas e planos, com reflexos de verdes metais em azul-e-preto – o peru para sempre. Belo, belo!

O peru acaba se tornando um arauto involuntário da morte, porque dias depois o menino tem notícias de que o peru foi imolado em função do “dia-de-anos do doutor”. Essa constatação da efemeridade das coisas (“soubesse que ia acontecer assim, ao menos teria olhado mais o peru – aquele.”) é reforçada mais adiante quando o menino é levado para o canteiro de obras “aonde a grande cidade vai ser, o lago...” e presencia a cena de uma máquina, “a derrubadora” botando abaixo uma árvore, assim como quem não quer nada.

E mais que a efemeridade, ele constata o Rodízio das Criaturas – porque logo depois tem um peru novo no quintal, mesmo com ressalvas:

E – a nem espetaculosa surpresa – viu-o, suave inesperado: o peru, ali estava! Oh, não. Não era o mesmo. Menor, menos muito. Tinha o coral, a arrecauda, a escova, o grugrulhar grufo, mas faltava em sua penosa elegância o recacho, o englobo, a beleza esticada do primeiro.

É interessante ver os processos de criação verbal de Rosa nessas descrições dos perus: como é uma ave nova e inédita para o menino, sua descrição se baseia em intensos flashes visuais (formas e cores) e na tentativa de inventar um vocabulário à altura da novidade, inclusive com aliterações, quase onomatopéias.

É uma novidade atrás da outra, porque o menino se horroriza em ver que o peru novo ataca com ferocidade, às bicadas, “a cabeça degolada do primeiro, atirada ao monturo”. E nesse quadro Boschiano se encerra o primeiro conto, “As Margens da Alegria”.

No último conto do livro, “Os Cimos”, o menino retorna: “Outra era a vez. De sorte que de novo o Menino viajava para o lugar onde as muitas mil pessoas faziam a grande cidade”. Fica muito clara a intenção de continuidade entre um conto e outro, e macacos me mordam se o manuscrito original não era um conto só que o Autor, por razões cabalísticas ou geométricas de seu foro íntimo, decidiu cortar ao meio e transformar em “bookends” para servir de capas aos demais.

Agora, o passeio do menino, que está crescendo e aprendendo, não é apenas “uma viagem inventada no feliz”: a mãe está doente e a família achou melhor tirá-lo de casa um pouco. E ele, já percebendo as ameaças da vida, imagina: “alguma coisa, maior que todas, podia, ia acontecer?”.

Neste conto há também a descoberta de uma ave, que agora é um tucano, “estapafrouxo, suspenso esplendentemente”, uma revelação animal simétrica à do peru no conto anterior.

As viagens do Menino produzem um ritual de perdas e resgates, coisa que são destruídas, substituídas, gerando um ritmo implacável, uma passagem do tempo que não se mede no relógio ou no calendário, mas na rapidez com que umas coisas deixam de existir e outras tomam o seu lugar.

A infância (um tema caro a Rosa, que nele melhor glosava) é essa constatação, acima de tudo, do Tempo e sua passagem:

A vida, mesmo, nunca parava. (“Cimos”)

O veloz nada. (“Cimos”)

Todas as coisas, surgidas do opaco (“Margens”)

Uma espécie de cinema de desconhecidos pensamentos. (“Cimos”)

Roa abre e fecha seu quarto livro com estes parênteses que, dentro da aventura de um Menino, englobam todas as outras experiências dos demais contos. Um Menino prévio a todos os grandes filosofismos, mas já enxergando com clareza: "Seu pensamentozinho estava ainda na fase hieroglífica." (“Margens”).


(ilustração de Luís Jardim para a primeira edição, ed. José Olympio)