domingo, 4 de julho de 2010

2228) Maiakóvski e a FC (29.4.2010)



A comemoração dos 80 anos da morte de Vladimir Maiakóvski tem trazido aos suplementos culturais em geral novas traduções e adaptações dos seus poemas. Suas peças de teatro também têm sido lembradas, tendo novas montagens no palco ou merecendo estudos críticos. Um aspecto pouco conhecido da obra do grande poeta é a sua ligação com a ficção científica. Os poetas futuristas russos flertaram com o Futuro, literalmente, em numerosas obras. Maiakóvski foi exposto à FC como qualquer garoto de sua época. Em seu texto autobiográfico Eu Mesmo, ele diz, falando de sua época de curso ginasial: “Leio Julio Verne. O fantástico em geral”.

Fantástico que teria influência em duas de suas peças principais. A primeira, O Percevejo (“Klop”), de 1929 (há uma tradução brasileira recente da Editora 34, São Paulo). Nela, a primeira parte descreve o casamento do burocrata Prysipkin e a destruição de sua casa por um incêndio. A segunda parte se passa no futuro, em 1979, quando escavações no local onde ficava a casa descobrem Prysipkin ainda vivo, congelado num bloco de gelo. A partir daí, seguem-se as costumeiras situações satíricas em que um personagem, como o Dorminhoco de Woody Allen, acorda num mundo futuro e dá origem a uma infinidade de mal-entendidos. No final, Prysipkin acaba sendo confundido com um inseto, o percevejo do título, e trancafiado num jardim zoológico.

A segunda peça futurista foi O Banheiro (“Banya”) de 1930, em que um cientista inventa uma máquina do tempo e precisa de financiamento do Estado soviético para finalizá-la, ao mesmo tempo em que é perseguido por uma espécie de espião industrial britânico que pretende roubar a idéia para a viagem no tempo. Quando a máquina é posta em funcionamento, traz para o presente uma “mulher fosforescente” vinda do futuro. Ela anuncia que o socialismo é triunfante e que levará para o futuro todos os que comungam do seu verdadeiro espírito; e quando a máquina parte, deixa para trás, no presente, todos os burocratas que tinham passado o tempo inteiro dificultando as coisas para o cientista.

Na Revolução Soviética, o futuro era real para esses artistas que viviam a construção de uma projeto de Utopia (que havia na cabeça deles), de construção da sociedade ideal, e ao mesmo tempo a tragédia de ver essa Utopia desfigurada pela violência, pela burocracia e pela visão tacanha dos políticos. O Percevejo salta de um 1929 corroído pela ganância dos burocratas ignorantes para um 1979 insuportavelmente asséptico, que para os críticos lembra Nós, o clássico da FC escrito em 1920 por Yevgêni Zamiátin. O livro de Zamiátin circulou clandestinamente até sua tradução em 1924 (a primeira edição oficial em russo só ocorreu em 1952). Sua descrição de um Estado totalitário e cerebralista influenciou o 1984 de George Orwell, e também o teatro de Maiakóvski, cujo entusiasmo pela Revolução não o impediu de perceber desde cedo o abismo stalinista para onde ela marchava.

2227) E tudo acaba num samba (28.4.2010)



(Jamelão)

Diz um clichê que os artistas são uns sujeitos talentosos que vivem tentando criar, e sofrem pressão de indivíduos poderosos que tomam as rédeas do processo, prejudicam sua criação, etc. Quem não acha familiar a imagem do cineasta genial cujo filme, depois que vai parar nas mãos do produtor, é irremediavelmente mutilado, distorcendo por completo as intenções do autor? Quem não conhece mil histórias sobre o cantor-compositor de talento que entra no estúdio com um punhado de canções geniais e sai dali com um álbum cheio de versões pasteurizadas?

Nem sempre é assim. Artistas também são preguiçosos, ou se equivocam, ou simplesmente não conseguem se focar no que estão fazendo. Produtores, editores ou administradores em geral podem não saber criar, mas muitas vezes sabem coordenar o esforço dos artistas a quem promovem, exigindo e extraindo o melhor deles. Nem toda interferência num artista é para castrá-lo ou censurá-lo. Artistas precisam muitas vezes de uma sacudidela, uma crítica negativa, uma pressão para que deixem de ser comodistas e façam algo melhor. A interferência de um editor pode transformar um ótimo poema numa obra-prima – foi o que Ezra Pound fez com “The Waste Land” de Eliot.

O saite Cifrantiga (cifrantiga.blogspot.com) conta uma história interessante sobre o samba clássico “Exaltação à Mangueira”, gravado por Jamelão para o carnaval de 1956, e que todo mundo conhece: “Mangueira, teu cenário é uma beleza / que a natureza criou... / O morro com seus barracões de zinco / quando amanhece, que esplendor!” Composto por Enéas Brites e Aloísio Augusto da Costa, dois trabalhadores de uma cerâmica que ficava próxima ao morro, o samba é uma beleza de composição, gravada por muita gente. O samba (diz o saite) foi uma idéia de Enéas, e os dois o compuseram um dia, num intervalo de almoço (ver aqui: http://tinyurl.com/y2lq526). Acontece que na sequência da letra os dois poetas escreveram os seguintes versos: “Todo mundo te conhece / até no interior / não é bafo de boca / nem mania, não senhor”. O presidente da Mangueira, que se chamava Hermes Rodrigues, não gostou destes versos, e disse aos compositores que trouxessem alguma coisa melhor. Algum tempo depois, eles voltaram com os versos imortais: “Todo mundo te conhece ao longe / pelo som dos teus tamborins / e o rufar do teu tambor... / Chegou, ô-ô-ô, a Mangueira chegou, ô-ô”.

A interferência de um mero presidente de clube deu aos compositores a chance de substituir um verso medíocre por um verso que exprime a essência do que eles queriam dizer, porque se há uma coisa de que os mangueirenses de fato se orgulham é a batida característica de sua Escola. É o mesmo samba de todos, mas é diferente, assim como o pandeiro de Jackson é o mesmo coco de todo mundo, mas é diferente. Os compositores sabiam disso, mas só foram buscar lá dentro depois que alguém lhes fez uma cobrança e os forçou a focar melhor a criatividade. .

2226) Utopias e horrores (27.4.2010)



(Lúcifer, por Gustave Doré)

Isaac Asimov, num artigo famoso sobre vilões literários, comentou o Paraíso Perdido de John Milton dizendo: “O Satã de Milton é indomável mesmo derrotado, e apresenta lampejos de piedade, e por isto é um personagem interessante, enquanto que o Deus de Milton nunca se permite ser menos do que perfeito, e por isto é tedioso”. Isto me parece uma regra geral para a contraposição entre heróis e vilões. Os heróis populares de 50 anos atrás eram muito mais certinhos e mais politicamente corretos do que os de hoje. Deixaram de ser: vejam Batman, Superman, etc. O que causou essa mudança foi o fato de que o público – principalmente o público jovem, consumidor de filmes e de histórias em quadrinhos – começou a se impacientar com heróis muito bem comportados e a ficar fã dos vilões. Os vilões eram muito mais excitantes! Para recuperar o terreno perdido, os roteiristas e escritores tiveram que tornar os heróis mais complexos, dando-lhes traços de cinismo, uma certa crueldade, uma esperteza malandra, etc.

Quando um herói tem que ser um modelo de conduta, ele perde a liberdade – que é o que mais fascina o público jovem. A rapaziada começa a se interessar pelo vilão, porque este, sim, é livre, faz o que lhe dá na telha, não dá satisfações a ninguém, não tem medo de nada, não tem superego, não tem código de conduta... Leitores jovens são mais seduzidos por isto do que por um diploma de bom rapaz. Essa falta de liberdade implodiu os heróis clássicos, dando origem, principalmente nos quadrinhos, aos moralmente complexos heróis contemporâneos, com quem os leitores se identificam melhor.

Isto me lembra uma frase de Evelyn Waugh: “A mente humana é muito inspirada quando se trata de inventar horrores, mas quando se trata de inventar um paraíso ela mostra suas limitações”. Se dermos uma olhada nas Utopias clássicas da literatura, da poesia, do cinema, veremos que nenhuma delas se sustenta como algo plausível, e algumas chegam mesmo a se aproximar da Distopia, do pesadelo. Por outro lado, para inventar pesadelos nosso talento parece ilimitado. (Existe também uma espécie de consenso de que o Inferno de Dante é muito mais vívido, interessante, movimentado e bem escrito do que seu Paraíso).

A verdade é que a Realidade é muito mais próxima do Horror do que do paraíso ou da utopia. O propósito da ficção é alçar voo elevando-se desse horror, mas sabendo que o céu é inatingível. As coisas terríveis nos parecem mais vívidas, mais fáceis de imaginar e de assimilar porque são parte da nossa experiência real, ao passo que os paraísos são uma incógnita. Se pudéssemos visualizar o conjunto das literatura humanas em relação a esses dois extremos, veríamos que a maior parte do que criamos está bem mais próxima do pesadelo do que do paraíso, pelo simples fato de que o pesadelo é inteligível e tem abundantes exemplos, e o paraíso não. Nossas literaturas têm voo baixo: enxergam de longe o céu, mas mal conseguem se afastar do chão.

2225) O blues (25.4.2010)





(Mississippi John Hurt, por Douglas Egolf)

Alguém já disse que “blues” é qualquer canção que comece com a frase “I woke up this morning...” Se formos dar um balanço no gênero, vamos ver que milhares de músicas começam com essa frase, ou variantes. 

O blues é a crônica melancólica e reiterada de alguém que acorda mal, acorda sem forças e sem entusiasmo para começar um novo dia, acorda com a bateria descarregada. 

É o gênero musical preferido daqueles que, como Gregor Samsa, acordam de manhã sentindo-se o mais monstruoso e mais repugnante dos insetos, ou que, como Josef K., acordam de manhã com a sensação (geralmente justificada) de que o mundo inteiro conspira para encarcerá-los e destruí-los.

Existem dois tipos de pessoas. 

O Tipo A são aquelas cujo sono é repousante, restaurador das energias. Mal abrem os olhos, pulam da cama cheias de alegria e disposição, escancaram as janelas e gritam de braços abertos: “Bom dia, sol! Bom dia, mundo! Que coisa boa é estar vivo! Vamos à luta! Mais um dia maravilhoso vai começar! Mal posso esperar para fazer todas as coisas legais que estão à minha espera, inclusive resolver todos os problemas da minha vida, coisa que me dá indescritível prazer!!!” Tipo isso.

O Tipo B são aquelas pessoas que simplesmente wake up in the morning. Basta uma noite de sono para deixá-las exaustas, derrubadas, com a bateria descarregada a zero, pegando no tranco. Abrir os olhos é como abrir dois alçapões que dão acesso a um porão de cenas boschianas, dantescas. Para o Tipo B, o mundo é, como dizia Drummond, “um vácuo atormentado, um sistema de erros”. Seu corpo está embrutecido e sem forças, a mente destroçada e sem foco. Não lhe dirijam a palavra. O indivíduo do Tipo B acorda todos os dias numa situação de pós-operatório.

Os grandes bluseiros dizem que o blues é a música que os faz emergir desse pântano de desassossego e pessimismo. Percutindo as cordas, repetindo aqueles três acordezinhos intermináveis, num loop que gira eternamente sobre si mesmo, o bluseiro vai produzindo em si mesmo a energia que lhe falta, vai recarregando a bateria por esforço próprio, vai encadeando frases, riffs melódicos e outras pequenas coisas que acendem na treva do seu mundo um fosforozinho trêmulo de prazer estético. 

A palavra “blues” significa duas coisas ao mesmo tempo. Significa a depressão, a tristeza, o abatimento físico e moral de quem acorda extenuado e sem perspectivas, e significa a música criada nessas circunstâncias, para atenuá-las. Canta-se o blues para escapar ao blues. 

Ouso imaginar que a maioria das grandes canções de blues foram compostas por um sujeito de cuecas, barba por fazer, em jejum, de ressaca, sozinho em casa, sem dinheiro no bolso, e que acabou de despertar. 

Toda a sua energia lhe permitiu apenas abrir os olhos, passar uma ou duas horas pensando na vida e no dia que o aguardava, depois sentar na beira da cama, pegar o violão que estava no chão e começar: “I woke up this morning...”






sexta-feira, 2 de julho de 2010

2224) O viveiro das serpentes (24.4.2010)





(Kris Kuksi, The House of Fascism)

A primeira estratégia do fascismo é desmoralizar a democracia. Enquanto o braço militar se arma em surdina, o braço propagandístico desencadeia uma antipropaganda: a divulgação maciça e constante de todos os erros e corrupções (que não são poucos) do regime democrático, para desmoralizar não só o Presidente, não só o partido governista, não só o governo, mas todo o sistema democrático de livre escolha.


Campanhas do tipo “Todo Político é Corrupto” servem ao fascismo porque induzem ao desânimo, ao desprezo pelos que se candidatam, e a uma receptividade a qualquer “solução excepcional” que se apresente, como o fascismo geralmente faz, com slogans moralizadores, falando em “limpeza”, em “expurgo”, em “eliminação” de todos que fazem mal ao país. 

O fascismo se aproveita de episódios de impunidade de toda natureza: esquemas de enriquecimento ilícito, desvios de verbas públicas, nepotismo, suborno do Judiciário, indo até a impunidade dos autores de crimes comuns que aterrorizam a população: assassinatos, estupros, sequestros com morte, chacinas, etc. 

Historicamente, muitos regimes fascistas chegaram ao poder sucedendo (pelo voto ou pelas armas) um regime democrático onde a corrupção era generalizada (havia “falta de moral”), a violência nas ruas era ascendente (“falta de autoridade”) e havia uma crise econômica (“falta de competência”). 

Ao mesmo tempo, grupos organizados elegem-se para o Congresso, garantindo uma base de suporte de que o fascismo precisará nos momentos em que, sob pressões internas e externas, tiver que passar uma tinta de legitimidade sobre a ferrugem das suas medidas.

Interessa ao fascismo fazer crer que a situação é gravíssima e requer medidas excepcionais. Interessa-lhe fazer crer que o povo é burro e não sabe votar, e que os que se apresentam como candidatos são, invariavelmente, malfeitores de algum tipo.

Quando maior o número de crimes impunes, mais receptiva estará uma parte da população à chegada de um pretenso líder “da mão forte”, que vem para punir de forma rápida e exemplar os culpados, sem se deixar enredar nas firulas e nas tecnicalidades de um processo judicial. Alguém capaz de prometer e de executar uma justiça sumária e rápida contra os criminosos mais notórios, ganhando, assim, credibilidade para quando quiser agir da mesma forma contra quem quer que seja.

O fascismo promete à população preencher essas três faltas. 

A primeira, através de um discurso moralista e conservador cuja primeira providência é eliminar a possibilidade de retorno dos políticos corruptos (cancelam-se as eleições). 

A segunda, através da repressão policial em todos os níveis. 

A terceira, através do atrelamento a alguma potência estrangeira para a importação de tecnocratas, conselheiros militares, empresas, projetos, know-how e um conjunto de medidas bombásticas com efeito paliativo a curto prazo. A população se entusiasma com os “novos tempos” e ajuda o fascismo a fincar raízes.






2223) Brasília 50 Anos (23.4.2010)



Brincando, brincando, Brasília completou cinquenta anos e o Brasil ainda não sabe direito o que fazer com ela. É uma cidade cheia de homens, mulheres, histórias, destinos, acasos, dramas, comédias, tragédias como qualquer outra; mas virou símbolo visual e concreto daquela entidade abstrata a que chamamos Governo. Isto tem certa lógica inevitável, pois foi uma cidade criada com esse fim. Tudo que não presta nos Governos é atribuído à cidade, e tudo que não presta na cidade (que para muitos é a cidade como um todo) a culpa é do Governo. Moro no Rio há quase trinta anos e não conheço um carioca, um sequer, que goste sinceramente de Brasília. O que é compreensível. O Rio perdeu para Brasília a importância de ser Capital, as benesses de ser Capital, e essa ferida talvez não feche nunca. Menos mal que, na mentalidade do carioca, a Capital continua sendo aqui.

Como não sou carioca e essa briga pra mim é tão remota quanto um Gre-Nal, ouso dizer que gosto de Brasília. Pode ter qualquer defeito, mas é uma cidade com perfil único, dinâmica interna única, uma cidade que não pode ser confundida com nenhuma outra. Já fui a certos subúrbios no Rio ou São Paulo em que, virando uma esquina, me acreditava no bairro do Centenário ou do Quarenta. Uma quadra de Brasília só pode ser confundida com outra quadra de Brasília, e aliás é o que acontece o tempo todo.

Eu nunca moraria lá porque não dirijo carro, e aquela é uma cidade em cujas veias circula gasolina, não foi feita para pedestres, flâneurs, noctâmbulos ou peripatéticos. Tirando isso, eu me sentiria totalmente à vontade naquele xadrez geométrico, naqueles setores de serviços que parecem traçados na prancheta de um escritor de ficção científica do século 19. Brasília é uma das raras utopias que passaram do papel para o cimento. Se foi estragada é outra coisa; tudo que é essência platônica se estraga quando vira carne e osso, argamassa e ferro. Paciência. O que sei é que ali existe uma relação entre a terra e o céu que nenhuma outra cidade tem. As cidades litorâneas admitem o céu, mas só porque isto lhes é imposto pelo mar. Brasília, não. Em Brasília, à noite, tocamos a Via Láctea com a ponta do dedo.

Em 1969 o escritor Frederik Pohl veio para um Simpósio de Ficção Científica organizado no Rio de Janeiro por José Sanz, e aproveitou para conhecer Brasília. Diz ele: “Brasília é uma estranha cidade futurista no planalto. É o único lugar onde já fui em que os guias turísticos apontam um cruzamento e lhe dizem, não o que aconteceu ali em 1066, mas o que vai acontecer no próximo ano. Existe lá um impressionante edifício chamado Museu da História de Brasília. Está vazio”. Pohl visitou a cidade meros nove anos depois de criada, mas ainda hoje Brasília é uma cidade onde o futuro pesa mais do que o passado. Outras cidades mostram o que foi feito por todas as gerações de brasileiros. Brasília é a única que foi feita inteiramente por nós.

2222) Bolando um comercial (22.4.2010)



Raimundo era diretor de criação de uma agência de publicidade. Chegou-lhe às mãos um cliente, Seu Alfredo, em busca de um bom comercial de TV. Seu Alfredo era dono de uma loja revendedora de ferragens que recentemente tinha se expandido para absorver todo tipo de equipamento elétrico: serras, grampeadores industriais, máquinas de aplicar rebites, limas elétricas, soldadoras, enfim, tudo que funcionasse eletricamente e que fosse voltada para a manipulação de placas e máquinas de metal. Seu Alfredo gastou pesado na aquisição das lojas de um concorrente, e sentiu que era preciso investir também na publicidade, porque precisava de altos retornos dentro dos doze meses seguintes. Ele se reuniu com Raimundo e passou-lhe todas as informações. O publicitário pediu-lhe um prazo para apresentar o projeto. Algum tempo depois Seu Alfredo foi chamado à agência, e Raimundo abriu à sua frente um gigantesco storyboard.

“Vai ser um balé”, disse ele. “Uma estrutura metálica suspensa no ar, com vigas de ferro se entrecruzando, e quinze dançarinos executando essa coreografia... começa aqui... vem assim... se cruza aqui, depois ali... Eu sei que o sr. vai perceber, mas, para poupar tempo: é o movimento dos elétrons num átomo de ferro”. “Um átomo de ferro,” repetiu Seu Alfredo, olhando o desenho das dançarinas com “collants” metálicos, seios pontiagudos e coques futuristas no cabelo. “O ferro e a eletricidade são os conceitos básicos”, concordou Raimundo, tamborilando com o lápis no queixo. “Isso exprime ao mesmo tempo modernidade e tradição, porque ambos são a base da ciência do século 19, e ao mesmo tempo estão presentes em tudo no século 21”. “Pois é,” disse Seu Alfredo, espreitando as folhas de baixo, “já pensou?!”.

“Note que todas as bailarinas são mulheres”, continuou Raimundo. “O contraste entre Eros e Tecnologia, Afrodite e Vulcano”. Seu Alfredo criou coragem e perguntou: “Não dá pra ter uma foto da loja?...” “Pensei nisto”, disse Raimundo, “mas escolhemos privilegiar o impacto estético.” “E essas vigas de ferro?...” perguntou timidamente o comerciante. “Tudo virtual. Computação gráfica, feita aqui mesmo. Ninguém nunca fez um comercial destas dimensões na Paraíba”. “Que bom,” murmurou Seu Alfredo. “Mas vai ser um balé? Esse negócio de música clássica não é fora de moda?...” “Quem falou em música clássica?! Vai ser um rock!” Raimundo apertou um botão e das caixas de som brotou um rangido de guitarras que lembrava um duelo de esgrima entre serras elétricas texanas. “Heavy metal. Entendeu – a alusão?…”

Meia hora depois Seu Alfredo saiu, levando na pasta três páginas de orçamento e pelo menos um mês de insônia pela frente, e uma admiração desmedida pela época cosmopolita em que tinha o privilégio de estar vivendo. Raimundo enxugou o suor da testa. Tinha conseguido, numa só tacada, encomendas para a firma de computação gráfica do sobrinho, o balé da cunhada e a banda de rock do filho. Ufa!

2221) Neymar (21.4.2010)



Dias atrás fiz nesta coluna uma porção de rapapés diante das chuteiras de Lionel Messi, o craque argentino que joga no Barcelona. Meu senso de equilíbrio me obriga a fazer o mesmo, agora, diante das chuteiras coloridas (e cheias de chinfra) de Neymar, o craque adolescente do Santos. Não só por equilíbrio, mas por patriotismo, porque eu, curiosamente, só concebo a Pátria como algo que calça chuteiras. Não existe melhor expressão do Brasil do que os nossos defeitos e virtudes na prática do futebol. Mais do que a literatura, o cinema ou a música, é ele quem nos descreve e nos revela de maneira mais imediata e não negociada pela Razão.

A Razão, que nunca dá o braço a torcer, me traz pela mão até este teclado, dizendo-me: “Está na hora de escrever sobre Neymar, você é o único cronista do Brasil que ainda não falou dele”. Neymar e o Santos são hoje, por uma espécie de consenso, o melhor jogador e o melhor time do Brasil. Domingo passado o Santos eliminou o poderoso São Paulo numa das semifinais do Campeonato Paulista: aplicou-lhe 3x2 no Morumbi e 3x0 na Vila Belmiro. Só uma catástrofe lhe tirará o título, a ser disputado contra o Santo André.

O Santos é um time que dá alegria ver jogar. Como o Barcelona de Messi e a Holanda da Copa de 1974, é um time de jogadores rápidos, leves, habilidosos, que raciocinam em frações de segundo e quase invariavelmente escolhem a melhor jogada a fazer sem precisar ficar pensando. O futebol de hoje é cheio de jogadores que, quando recebem um passe perto da área, iniciam uma sessão de Meditação Transcendental. Concentram-se, começam a rodar como dervixes, fecham os olhos, avaliam as mil possibilidades do que fazer. Nisto, algum jogador do Santos já lhes roubou a bola com asas de beija-flor, e Neymar já a empurrou para o fundo das redes.

Neymar vai ser convocado para a Seleção? É o que a imprensa pergunta, e eu ouso responder que não. Por mim, iria, mas Dunga é um prussiano da velha guarda. Não direi que tem raiva do talento, mas ele segue a filosofia de que talento é como ar, só tem poder de empuxo se for comprimido. Neymar é enjoado, encardido, usa um cabelo moicano horroroso, faz dancinhas bestas a cada gol que marca, é catimbeiro, arengueiro, gosta de fingir pênaltis, de provocar o adversário. Ou seja, na alfândega de Dunga ele teria todo o seu repertório confiscado.

Dunga deveria convocá-lo, levá-lo à Copa e mantê-lo sob vigilância e custódia, para aparar as arestas do garoto, fazê-lo sentir o peso de uma disputa internacional. Dar-lhe o que Ronaldo Fenômeno teve em 1994, e Kaká teve em 2002: a chance de assistir uma Copa do banco de reservas, pensando: “Daqui a quatro anos estarei em campo”. Dunga dificilmente fará isso, o que é uma pena. O melhor jogador brasileiro de hoje só deverá estrear numa Copa do Mundo em 2014. Até lá pode explodir na Europa; pode também se perder, como tantos talentos iguais já se perderam, neste país carente de heróis e perdulário de talentos.

2220) Ler Maiakóvski (20.4.2010)




O mundo comemora os 80 anos da morte de Vladimir Maiakóvski, um dos maiores poetas que já existiram, ao menos pelo meu gosto. 

Conheci sua obra numa edição dos anos 1960, com traduções de Augusto & Haroldo de Campos e Boris Schnaidermann. A edição atual deste volume, Poemas, é da Ed. Perspectiva (São Paulo, 2002, Coleção Signos). Traz um bom número de poemas traduzidos, vários pequenos ensaios biográficos e críticos, e o texto completo de Eu Mesmo, um saboroso conjunto de fragmentos autobiográficos do poeta. É sua melhor coletânea de poemas traduzidos.

Depois, veio um volume que hoje é relativamente raro: Maiakóvski – Vida e Obra de Fernando Peixoto (José Álvaro Editor, 1969). Faz parte de uma inestimável coleção de capas amarelas, lançada nessa época, que também teve volumes sobre Sartre, Kafka, Brecht, Henry Miller... 

O livro de Fernando Peixoto, que é um homem de teatro, tem a vantagem de dar muito espaço ao trabalho de Maiakóvski no teatro e no cinema, onde ele foi muitíssimo atuante. E de dar traduções alternativas para inúmeras estrofes. 

Maiakóvski era um poeta complexo, fazia intrincados jogos de rimas, assonância, métrica, etc. Cada tradutor é forçado a puxar para um lado ou para outro, ao adaptar seus versos. Se o leitor não sabe russo (como eu), quanto mais traduções diferentes ler, mais tem uma idéia do que é o poema original, pois cada tradução o vê de um ângulo diferente.

O terceiro volume essencial para entender o poeta é A Poética de Maiakóvski de Boris Schnaidermann (também da Ed. Perspectiva, São Paulo). Schnaidermann faz uma detalhada e anotadíssima análise da obra do poeta, dando-lhe um contexto amplo e minucioso. E transcreve numerosos artigos do próprio Maiakóvski, entre eles a mesma versão de Eu Mesmo já referida acima, e uma versão completa do Como fazer versos?, o livrinho em que Maiakóvski explica seu modo de ver a poesia, suas técnicas, seus truques, seu processo de criação. É uma das melhores coisas já escritas sobre poesia por um poeta.

Se alguém pretende ser um poeta, a sério, irá ganhar muito não apenas lendo estes três livros, mas relendo-os a vida inteira, como tenho feito. 

Não que isto possa tornar a gente um grande poeta (no meu caso, por exemplo, não tornou – considero-me um poeta mediano, no contexto do meu Estado e da minha geração). Mas nos dá algo que pra mim é muito mais importante do que ser um Grande Poeta: ser capaz de entender um Grande Poeta. Em outros termos: ser um grande leitor de poesia. Porque nem todo mundo nasceu para escrever, não é verdade? Uns nascem para ser médicos, outros músicos, engenheiros, futebolistas, administradores, dentistas, o escambau. 

Nem todo mundo precisa ser Poeta. Mas todo mundo pode ser um Grande Leitor de Poesia. No momento de ler um poema de Maiakóvski, cada um de nós vive alguns minutos de ser Maiakóvski. E isto não tem preço.





2219) Sobrado Mardito (18.4.2010)




Pense num caba teimoso era Dedé. Depois que ele bateu o olho no portão de ferro daquele sobrado ele num falava noutra coisa. Bora, maluco, ele dizia, se a gente meter o ombro aquela butina vem abaixo e a gente entra. É, eu dizia, e quando entrar vem o maior pitibu em cima da gente, tá ligado? Oxente, rapaz, ele dizia, ali num tem cachorro nem nada, uma noite dessa eu fiz o teste, joguei um peido-de-véia aceso e fiquei esperando, quando pipocou latiu cachorro no prédio da esquina, latiu na casa rosa em frente, latiu até na outra rua, e no sobrado nada.

Ele dizia que o povo do sobrado devia estar veraneando na Europa. A gente passava ali de vez em quando quando voltava do pega-bebo de Alaôr, era o caminho mais curto pra pensão. Eu trabalhava na obra dum viaduto e Dedé fazia bico de flanelinha. A viage dele era entrar em casa de bacana e passar dois três dias. Num era nem pra roubar, que se ele roubasse num ia nem saber como vender, era alesado, ia ser pego num instante. Ele dizia: dormir em lençol de seda, tá ligado? Abrir a geladeira, escolher coisa, sentar em sofá, andar nu por dentro da casa.

Aí um dia a gente tomou umas caeba e na volta putufo, botou o portão abaixo, arrodeou o jardim, quebrou uma janela e quando viu tava dentro. Só acendemo a luz depois de puxar as cortinas de pano. Rapaz, a festa não teve mais tamanho. A geladeira era cheia de comida. A gente abriu vinho, abriu uísque, fez um melelê danado na sala, logo na primeira noite! Lá mesmo dormiu. No outro dia, quedê que ninguém queria ia trabalhar? Trabalhar pra que, o caba dormindo num sofazão daquele? Eu saí, arrumei duas quenga e trouxe pra dentro, aí num prestou não. A gente não acertou a ligar o som mas ligou a TV, achou um canal de música e tome uísque, e tome sarrafo nas nega.

Foi só na outra noite que eu resolvi subir no primeiro andar. Dedé bebo, a nega dele fazendo espuma na banheira feito no cinema, e a minha dormindo, porque o serviço foi pesado. Subi e fui olhando de quarto em quarto. Um deles tava trancado por dentro, mas eu desci, busquei uns ferro e arrombei. Rapaz... melhor não tivesse feito. Era um quarto vazio, sem um móvel, sem uma coisa, nada, nada. Quer dizer – num recanto eu vi um negoço que parecia uma nuvem cinzenta, a meio metro de altura. Cheguei perto, era uma coisa redonda do tamanho dum prato, suspensa no ar. Eu arrodeei e olhei pelo outro lado. Era como uma lâmpada grande, um refletor, só que não projetava luz, projetava treva. Fiquei tonto e caí de joelhos. O rosto a um palmo de distância daquilo. Diante dos meus olhos um túnel cilíndrico, se alargando até virar uma esfera pelo avesso, e uma treva, absoluta e sólida como o mármore, fluiu para dentro de mim, saturou minhas retinas, galvanizou meus nervos, meus neurônios, minhas sinapses, e me petrificou e eternizou como estátua sólida de treva, me transformou no menor grão de treva num universo só de treva feito, e ficou assim para sempre.