sexta-feira, 12 de março de 2010

1783) Por que celular não vai dar certo (26.11.2008)



(um celular steampunk)

Historiadores do futuro, de meados do século 21, descobriram nos arquivos da Nokia Corporation, no Japão, um curioso documento datado das últimas décadas do século 20, quando tiveram inícios as pesquisas para a criação do telefone celular. Um grupo de trabalho examinou as propostas dos técnicos, chegou à conclusão de que a idéia de um telefone pessoal portátil era inviável, e deu as suas justificativas.

1) Portabilidade. As pessoas têm resistência a conduzirem mais e mais objetos consigo. A tendência do futuro é que as pessoas andem leves, sem sobrecarregarem seus bolsos e suas bolsas com um número excessivo de objetos. Além do mais, seria impraticável conduzir consigo, durante um dia inteiro, um aparelho que só vai ser usado poucas vezes. Ele acabaria sendo visto como um trambolho. Pessoas tenderiam a esquecê-los em mesas de reuniões ou de restaurantes, no cofre do carro, etc.

2) Invasão. Um telefone conduzido o tempo inteiro pelo próprio usuário acaba se transformando num meio de vigilância, permitindo que ele seja rastreado sem parar. Os conceitos modernos de individualismo se rebelam contra essa vigilância “Big Brother”, que é uma ameaça à liberdade individual. Será muito mais prático multiplicar o número de telefones públicos (“orelhões”) para que os usuários possam recorrer a eles sempre que necessário.

3) Sobrecarga dos sistemas. Nenhum sistema de telecomunicação conseguirá administrar a complexidade dos roteamentos necessários para manter conectado um telefone móvel. Suponhamos um casal que more em cidades diferentes (com celulares locais) e que esteja de visita a um terceiro lugar. Se A ligar para o telefone de B, a ligação terá que percorrer um trajeto do celular de A para uma estação em C (a cidade onde estão), de onde a chamada será direcionada para a central de A, de onde irá para a central de B, que em seguida contactará uma estação em C, que daí completará a chamada no celular de B. Multiplique-se isto para alguns milhões, e teremos o caos.

4) Preço. Aparelhos multi-funcionais deste tipo, conduzidos na rua junto ao corpo do usuário (bolsos, etc.) serão alvo preferencial de ladrões, por serem objetos relativamente pequenos e muito caros. Usuários de tais telefones terão que andar armados, além de pagarem seguros caríssimos para as hipóteses de roubo ou perda.

5) Complexidade. Existe a sugestão de que os telefones pessoais exerçam múltiplas funções: relógio, câmara fotográfica, transmissor de mensagens de texto, etc. Isto irá requerer que cada usuário faça cursos intensivos de habilitação para poder dominar técnicas tão diferentes e complexas. A mudança de comandos a cada mudança de função requer treinamento, concentração e rapidez, o que é muito difícil de adquirir sem um treinamento profissional e dispendioso. A situação é ainda mais grave no caso dos usuários jovens, cujo baixo limiar de atenção lhes vetará o uso de tais aparelhos.

1782) Dawkins versus Harry Potter (25.11.2008)


O professor Richard Dawkins é um cara que gosta de pegar briga pesada. Recentemente escreveu um livro contra Deus (A Ilusão de Deus). Agora, não satisfeito, foi mais longe e resolveu enfrentar Harry Potter. 

Numa entrevista recente, Dawkins protestou contra o que ele acredita serem hábitos nocivos que os livros de J. K. Rowling estão disseminando entre os jovens, os quais, segundo ele, “estão sendo criados no hábito de acreditar em feiticeiros e encantamentos”. “O livro que vou escrever no ano que vem,” disse Dawkins, “será um livro destinado às crianças, mostrando-lhes como refletir sobre o mundo, e mostrando o contraste entre o pensamento científico e o pensamento mítico”. 

Se for apenas isto, estou de acordo, porque pensamento científico e pensamento mítico são duas coisas muito diferentes, e que precisam ser identificadas com clareza. O nó da questão, no entanto, é que Dawkins provavelmente vai dizer no seu livro que o pensamento científico é o único que está certo, e o pensamento mítico está errado. É justamente nessa bifurcação que eu divirjo e discrepo do nobre pensador. 

O pensamento científico nos serve para entender o mundo material que nos cerca. As ciências que cultivamos deveriam ser chamadas de Ciências da Matéria, porque afinal não é de outra coisa que tratam. 

O pensamento mítico, por outro lado, trata das Ciências da Mente, um domínio totalmente diverso. Elas funcionam de outro jeito, e manipulam outros parâmetros. Dawkins talvez seja (espero não estar sendo injusto com o professor) um desses caras para quem a palavra grega “mito” significa “mentira”, e este simples fato torna desnecessário qualquer estudo a respeito. Se é mentira não é verdade, e se não é verdade, para que perder tempo com isto?! 

O professor ficaria surpreso se visse que grande parte dos garotos que lêem Harry Potter e suas aventuras feiticeiras também lêem autores de ficção científica como Isaac Asimov. As duas mentalidades não apenas podem coexistir, como a literatura é justamente o melhor espaço para essa coexistência. 

A literatura imaginativa desperta a curiosidade de garotos e garotas a respeito do mundo da matéria, do mundo da mente, do mundo dos átomos, do mundo da mitologia. Garotos e garotas inteligentes lêem com o mesmo prazer livros sobre feitiçaria e sobre espaçonaves, livros sobre cavaleiros medievais e sobre robôs. Para eles, tudo pertence ao mundo da imaginação, pertence às fronteiras da realidade. Se umas coisas funcionam na vida prática e outras não, qual é o problema? É de literatura e de imaginação que estamos falando. 

Dawkins me parece às vezes um Inquisidor ao contrário, um sujeito que está numa cruzada ateísta para banir a religião do mundo mesmo que seja à base de fogueira e Santo Ofício. Um procedimento nada científico, professor. Nada científico. Me dá às vezes a impressão de que ele sofreu algum tipo de enfeitiçamento, mas, cala-te boca.





1781) A liberdade de expressão (23.11.2008)



No ginásio, nas aulas de Ciência, surgia de vez em quando esta questão perturbadora: “O que acontece quando uma Força Irresistível encontra um Obstáculo Inabalável? Quem ganha?” Uns votavam numa, outros votavam no outro. Alguns tentavam ser salomônicos dizendo que o Obstáculo “balançava mas não caía”. (Uma variante do mesmo problema envolvia um Solvente Universal e um Recipiente Invulnerável.) Até que um dia um professor nos sugeriu considerar o seguinte: uma Força Irresistível e um Obstáculo Inabalável não podem existir no mesmo universo. A existência de um elimina o outro. Se existir uma Força Irresistível, nenhum obstáculo será inabalável, e vice-versa.

Existem casos, contudo, em que um termo entra em contradição consigo mesmo. É o caso desta misteriosa condição chamada “liberdade de expressão”. É uma noção que em princípio conta com a aprovação de qualquer pessoa – mas quando vamos pô-la em prática vemos que na medida em que aumenta a liberdade de expressão de A diminui a de B.

Sempre que coloquei em público esta questão apareceu alguém para dizer de imediato: “Então quer dizer que o sr. é contra a liberdade de expressão?” Este é a típica generalização apressada de quem só entende uma questão radicalizando-a em dois extremos. Não se trata de “ser contra” a liberdade de expressão, mas de reconhecer que ela tem limites por sua própria natureza. Não existe uma utópica e fantasiosa “liberdade de expressão universal e permanente”. Tudo que se ganha de um lado se perde do outro.

Como muita gente só entende imagens exageradas, costumo propor a seguinte questão: “O que é pior – a Censura ou o Nazismo?” Porque ou você tem uma coisa, ou tem a outra. Se você é a favor da liberdade de expressão, tem a obrigação moral de garanti-la também para essa rapaziada que tatua suásticas no bíceps, espanca nordestinos e judeus, e prepara atentados contra Barack Obama. Caso você seja um defensor da liberdade de expressão, precisa concedê-la a esses caras, para que se expressem, publiquem livros e artigos, façam comícios públicos, criem canais de TV divulgando suas idéias, elejam deputados e senadores, promulguem leis a seu favor, coloquem no currículo das escolas públicas cadeiras explicando que o Holocausto foi uma farsa.

Eu, por exemplo, não concordo com essas idéias. Acho que são prejudiciais à convivência pacífica entre as pessoas, e, portanto, sou a favor da Censura contra elas. Por mim, devem ser proibidas. Outras idéias com as quais não concordo – a Numerologia, a Teoria da Atlântida, etc. – me parecem inofensivas e não vejo razão para censurá-las.

Todo mundo é assim. Todo governo, todo cidadão. Permitimos aquilo que aprovamos e aquilo que nos parece irrelevante mas inofensivo; e censuramos o que faz mal. Liberdade universal de expressão não pode existir numa sociedade onde pessoas diferentes defendem idéias diferentes. Sempre vai haver uma idéia tão perigosa que alguém vai achar preciso proibir.

1780) “A Ilha dos Mortos” (22.11.2008)




Não sei o que é mais fascinante, se uma obra literária que nos evoca a impressão de um sonho, ou se uma pintura que consegue o mesmo efeito. 

“A Ilha dos Mortos” é um quadro de Arnold Böcklin que tem no campo do Fantástico uma posição parecida com a de “O Grito” de Edward Munch ou “Duas Crianças Ameaçadas por um Rouxinol” de Max Ernst, ambos já comentados nesta coluna. 

O quadro de Böcklin surgiu de uma idéia recorrente que fez o pintor produzir cinco versões sucessivas, entre os anos de 1880 e 1886. Das cinco, uma (a quarta) foi destruída durante a II Guerra Mundial, e as demais encontram-se em museus de Nova York, Basiléia, Berlim e Leipzig. Elas podem ser admiradas e comparadas no verbete da Wikipedia, em: http://en.wikipedia.org/wiki/Isle_of_the_Dead_(painting).

Trata-se de uma ilha rochosa que emerge abruptamente do oceano, com enormes paredões de pedra que parecem traçar um semi-círculo, tendo no seu interior um bosque de ciprestes negros que se erguem a imensa altura. Nos paredões, vemos as entradas de câmaras mortuárias escavadas na rocha. Diante do bosque, vêem-se os degraus de um atracadouro, para onde se dirige um barco com duas figuras humanas (um barqueiro, sentado, e um vulto de pé, envolto num sudário branco) e à frente deles um ataúde branco com guirlandas de flores vermelhas.

O quadro sugere um sonho ominoso, e não um pesadelo de terror propriamente dito. Há uma sensação opressiva de morte já ocorrida, não de ameaça. A ilha-cemitério surge da água como que do nada, sem outra função senão a de receber os corpos que para lá são transportados. É uma ilha sem praias, sem relva, sem vida: apenas um bosque de ciprestes sepulcrais, rodeado por penhascos rochosos onde alguém escavou imensas criptas. 

Em duas versões mais recentes, uma cripta do lado direito traz as iniciais do pintor, “A.B.” E o barco que chega parece trazer para ali uma alma que acompanha o sepultamento do próprio corpo.

O verbete da Wikipedia cita os personagens famosos que tiveram fascinação por este quadro (Sigmund Freud, Adolf Hitler), e numerosas obras literárias que se diz serem parcialmente inspiradas nessa paisagem, como A Invenção de Morel de Bioy Casares e alguns contos de J. G. Ballard. 

O escritor britânico Ian McDonald tem um conto intitulado “The Island of the Dead” que certamente também se inspirou nele. 

O quadro de Böcklin tem estranheza bastante para gerar significados contraditórios e mutuamente estimulantes – quanto mais pensamos nele como um quadro triste mais o achamos belo. Quanto mais é amedrontador, mais nos transmite uma impressão de paz e repouso. Isto é intensificado pelo fato de existirem diferentes versões do quadro – uma é diurna, outra é noturna, uma tem um céu tempestuoso, o céu da outra é uniforme... É o retrato de um portal para o Além e, como tudo que não pertence ao mundo da matéria, está diferente a cada vez que o fitamos.





1779) A palavra “aventura” (21.11.2008)



Sempre me foi difícil explicar o que seria o “romance de aventura”, um desses gêneros literários que a gente sabe intuitivamente o que é, mas não consegue definir com precisão científica. Não é fácil dizer o que têm em comum clássicos do gênero como A Ilha do Tesouro de Stevenson, As Minas de Salomão de Haggard, Robin Hood de autor anônimo, Cinco Semanas num Balão de Julio Verne, Os Três Mosqueteiros de Dumas, Scaramouche de Rafael Sabatini, Na Terra do Mahdi de Karl May...

Um dia uma voz me segredou: “Procure na etimologia. Qual era o significado mais antigo, o que fez surgir a palavra?...” Meu Dicionário Houaiss lista uma porção de fósseis linguísticos e chega ao latim, com o verbo “advenire”, que quer dizer: “chegar, sobrevir”. Vejam bem, trata-se de algo que “ad + vem”, algo que se aproxima de nós, que vem na nossa direção. Aventura é qualquer situação em que não somos totalmente donos do nosso destino, em que nos submetemos ao imprevisto, ao que não podemos controlar, ao que pode nos advir a qualquer momento.

A palavra contém também “ventura”, cujo sentido mais imediato é “boa sorte”. Dizemos: “Tive a ventura de nascer numa família de bons princípios...”, não é mesmo? “Ventura” também tem origem no verbo latino “venire”, vir. São as coisas que vêm até nós, tudo que nos advém, que nos sobrevem. (E a esta altura da Reforma Ortográfica já não sei se tais verbos se acentuam ou não). Mas “ventura”, no sentido de sorte, parece vir (mesmo que não venha) de alguma raiz latina de onde nos vem a palavra “vento”. Porque o vento é uma das mais antigas imagens do imprevisível, do que muda sem avisar, do que pode ser favorável num instante e desfavorável no outro, tudo de que dependemos (se somos navegadores antigos, em barcos à vela, trirremes, caravelas, galeões, jangadas) para viver ou morrer.

Viver uma aventura significa estarmos expostos aos ventos, dependentes de forças além da nossa vontade, do sopro de deuses invisíveis que podemos apenas cortejar, engambelar com sacrifícios, subornar com orações. A aventura é essa corda-bamba entre nosso livre arbítrio e um Destino imprevisível e indecifrável. E significa (porque a palavra tem raízes também em “venturum”, vindouro, fato futuro, fato que ainda não aconteceu) estar à mercê de um futuro que talvez já exista, um Destino que esteja vindo ao nosso encontro sem que ainda possamos saber do que se trata.

O romance de aventura se constelou em torno de imagens (balões, piratas, perseguições, espadachins, cavalgadas, tiroteios, viagens, expedições a lugares remotos) que dizem respeito às sociedades e culturas em que foi criado e escrito. No sentido mais amplo, contudo, romance de aventura é todo aquele no qual o autor nos transporta para um mundo onde tudo é possível, qualquer coisa pode acontecer. Um mundo (é curioso!) mais parecido com a vida, cada vez mais imprevisível, do que com a literatura, hoje tão convencional.

quinta-feira, 11 de março de 2010

1778) Os títulos mais estranhos (20.11.2008)




Entre as coisas inúteis que coleciono estão os livros com títulos excêntricos. Alguns são excêntricos porque são criativos, e pertencem a obras literárias notáveis. 

Exemplos que me ocorrem ao acaso são O acrobata pede desculpas e cai de Fausto Wolff, Que pequena bicicleta de guidom cromado no fundo do corredor? de Georges Perec ou Será que os andróides sonham com carneiros elétricos? de Philip K. Dick. 

Mas alguns são excêntricos porque seus próprios autores são fora-de-esquadro.

Vai daí que algum tempo atrás descobri a existência de um prêmio, o “Diagram Prize for Oddest Book Title of the Year”. O prêmio existe há 30 anos, e para celebrar a data foi publicada uma antologia de concorrentes e vencedores, sob o título (extraído de um dos premiados) de Como Evitar Grandes Navios. 

O livro reproduz em fac-símile as capas dos concorrentes. Quem quiser saber mais dê um pulo aqui:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Diagram_Prize_for_Oddest_Title_of_the_Year

Como diz o organizador, Philip Stone, “existe um alegre fascínio na fascinação do próprio público por algo que seja único e excêntrico”. Horace Bent, o curador do prêmio, recorda com carinho o primeiro livro a ser premiado: Atas da Segunda Oficina Internacional sobre Ratos Nus. 

Muitos títulos malucos acontecem porque seus autores (às vezes de mentalidade excessivamente técnica) estão tão concentrados no próprio livro que esquecem o mundo em volta. Não se apercebem das nuances ou dos duplos sentidos que eles venham a apresentar. É o caso de Estruturas Rígidas de Alto Desempenho (vencedor em 2000).

Títulos malucos podem corresponder a assuntos fora do comum, a mau gosto, a irrelevâncias, a expressão defeituosa. 

Na edição mais recente do prêmio, três concorrentes se afunilaram na reta de chegada: Problemas de Queijo Resolvidos e Eu fui Torturado por uma Rainha do Amor Pigméia acabaram sendo derrotados por Se Você Quer Encerrar Sua Relação, Comece Fechando Suas Pernas. 

O histórico dos últimos trinta anos nos presenteia algumas jóias como:

A Alegria das Galinhas 

A Madame como Empresária: Administração de Carreira em Casas de Prostituição 

O Livro da Marmelada: seus Antecedentes, sua História e seu Papel no Mundo de Hoje

Assuntos médicos ou psicológicos geram coisas surpreendentes como Manual de Segurança para o Sadomasoquismo Lésbico ou Sadismo Oral e a Personalidade Vegetariana. Ao passo que a auto-ajuda se expande rumo a novos horizontes em: 

A Arte de Rolar no Sentido do Comprimento 

Aumento Natural do Busto: Como Aumentar os Outros 90% de sua Mente para Aumentar o Tamanho dos Seus Seios 

Pessoas Que Não Sabem Que Estão Mortas: Como Elas se Agarram a Transeuntes Desprevenidos, e o que Fazer a Respeito Delas 

Como Defecar no Mato: Abordagem Ambientalista de uma Arte em Extinção. 

Enfim, amigos – mesmo depois de terminado o livro, as possibilidades, como sempre, são infinitas.






1777) O jeito certo de fazer (19.11.2008)




Muitos comportamentos se fixam por motivos aleatórios, sem relação com seu objetivo. Uma combinação casual de circunstâncias parece exigir que eles ocorram de uma maneira específica e não de outra. Ninguém se dá o trabalho de questionar esse fato, e com isto cria-se um ritual desnecessário, uma tradição com raízes no ar. Já referi aqui alguns procedimentos da ciência antiga que se mantinham em uso mesmo depois de desaparecidas, há muito, as circunstâncias que lhes deram origem (em “Os rituais da ciência”, 16.12.2006).

Num artigo recente na revista Edge, diz Richard Thaler: “Na primeira vez em que andei no metrô de Paris, recebi um daqueles tickets que a gente enfia na ranhura e eles saem do lado oposto. O bilhete tinha uma fita magnética de um lado, e coisas escritas do outro. Eu não sabia em que posição colocá-lo; coloquei com a parte magnética para cima, e funcionou. Passei os 25 anos seguintes repetindo este procedimento com todo cuidado. Tempos depois eu estava passeando em Paris com amigos e fui ensinar-lhes como colocar o bilhete. Minha mulher começou a rir e disse: ‘Não faz diferença de que jeito você coloque, ele funciona de ambas as formas’”.

O episódio me pareceu engraçado porque foi exatamente o que aconteceu comigo no metrô do Rio (embora meu equívoco parcial tenha durado apenas um ou dois meses até que me alertassem). Mas Thaler vai mais adiante e compara esse procedimento do metrô (que aceita o bilhete em qualquer posição) com o que ocorre nos estacionamentos de Chicago. O motorista, ao sair, precisa enfiar seu cartão de crédito numa ranhura para pagar. Há quatro posições possíveis: para cima, para baixo, do lado esquerdo e do lado direito. Somente uma única combinação entre essas posições funciona. Há um painel com instruções, mas elas também não são muito claras, e o resultado é que sempre se forma uma fila enorme atrás de um pobre coitado que não consegue acertar com a maneira correta de inserir o cartão.

Para piorar as coisas, quando o cartão é colocado da maneira errada o mecanismo simplesmente o devolve, mas sem dizer qual foi o erro. O motorista não sabe se foi a posição, ou se aquela marca de cartão que não é aceita, ou se é seu cartão que está com algum problema... Tenta de novo, erra de novo. Pensa um pouco; tenta outra coisa; erra; e a fila de carros atrás dele vai aumentando. Thaler comenta que na garagem do teatro da Sinfônica de Chicago eles designam um funcionário para ficar do lado da máquina e colocar os cartões na posição correta. E conclui: “É óbvio que seria possível construir uma máquina que, como a do metrô de Paris, lesse o cartão em qualquer posição. Seria um pouco mais cara, mas não seria necessário pagar um funcionário para ensinar as pessoas como colocar o cartão na posição certa”. São duas tendências da tecnologia: adaptar a máquina ao usuário, ou o usuário à máquina. Fico pensando qual das duas terá se firmado daqui a cinquenta anos.

1776) O escritor Barack Obama (18.11.2008)



O presidente eleito dos EUA, Barack Obama, virou de uma hora para outra uma espécie de Papai Noel ao contrário. É magro, mulato e de terno preto, mas mesmo assim parece desembarcar no mundo, neste fim-de-ano, trazendo um gigantesco saco de presentes que ainda não imaginamos o que sejam, mas já nos levam a comemorar alguma coisa. Obama pode se revelar um presidente decepcionante, como já ocorreu com tantos, mas a aura que cerca sua candidatura é a do carisma. Para ficar apenas no exemplo dos EUA, não me lembro de nenhum candidato democrata recente que tenha carregado tamanha aura consigo. Os derrotados John Kerry, Michael Dukakis, Al Gore, e mesmo o vitorioso Bill Clinton, nenhum deles parecia ter esse brilho de predestinação e sonho-realizado que Obama projeta.

Além de tudo, Obama é escritor! O ex-vice Al Gore foi provavelmente o primeiro Presidente dos EUA (cargo que exerceu interinamente de vez em quando, na era Clinton) que já ganhou um Oscar e um Prêmio Nobel (da Paz). Pois Obama é com certeza o primeiro que já ganhou um Grammy – pela versão em áudio-book de seu livro de memórias Dreams of my Father. Este livro (já traduzido como “A Origem dos meus Sonhos”, Editora Gente) é interessante porque é anterior à entrada de Obama na política. Ele o escreveu quando era um advogado de Chicago que trabalhava com populações carentes, e lhe pediram um relato autobiográfico. O livro, ao que parece, se concentra na sua infância no Havaí, e na história pessoal de seu pai, o qual se separou de sua mãe quando Barack tinha cerca de 2 anos, e voltou para o Quênia. O livro reconstitui esta história familiar, e foi motivado em parte pelo reencontro dos dois quando Barack tinha dez anos de idade, além de uma visita posterior que fez ao Quênia para conhecer sua família paterna.

Sobre seus hábitos como escritor, o presidente diz; “Eu sou uma ave noturna, e escrevo geralmente depois do meu dia de trabalho no Senado, quando a família já foi dormir. Ou seja, das 9:30 da noite até uma da madrugada. Primeiro preparo uma escaleta, uma relação de temas a serem abordados, ou de histórias que quero contar, e escrevo tudo à mão, num bloco de folhas amarelas. Depois, passo a limpo no computador, editando e corrigindo o texto enquanto digito”.

Obama cita entre seus livros preferidos Moby Dick de Melville, e obras de autores contemporâneos como Toni Morrison, E. L.Doctorow e Philip Roth. Outros títulos que ele elogia (e que desconheço) são Gilead de Marilynne Robinson e Team of Rivals de Doris Kearns Goodwin (sobre Abraham Lincoln). Seus filmes favoritos são Casablanca e Um estranho no ninho. Além disso, Obama confessa “ter uma queda” pelos romances de espionagem de John Le Carré, coleciona gibis do Homem Aranha e de Conan, O Bárbaro, e leu com suas filhas toda a série de livros de Harry Potter. Nem precisava o resto; bastaria este último item para fazê-lo dar uma goleada intelectual em George W. Bush.

1775) O acorde de George Harrison (16.11.2008)



Um mito cultural é algo que, não importa quantas vezes tenha sido analisado e explicado, sempre haverá alguém disposto a produzir uma nova análise e uma novíssima explicação. Veja-se por exemplo o sorriso da Mona Lisa, o monolito de 2001, uma Odisséia no Espaço, o “Barco Ébrio” de Arthur Rimbaud. Acha que já sabe tudo sobre isto? Pois aguarde, e semana que vem aparece uma teoria nova.

A obra dos Beatles parece produzir este tipo de comichão intelectual numa porção de desocupados como eu, sempre dispostos a descobrir uma sutileza nova. A mais recente é a do Dr. Jason Brown, do Departamento de Matemática e Estatística de Dalhousie. Seu objetivo de pesquisa não é um disco como o lendário Sgt. Pepper’s, não é uma canção como “Penny Lane”, não é nem sequer um verso clássico como “I am he, as you are he, as you are me, and we are all together”. É um simples acorde – o famoso acorde inicial da canção “A hard day’s night”, o qual, segundo o autor de uma matéria no Science Daily, é capaz de “produzir uma resposta pavloviana nos fãs dos Beatles”, fazendo-os entrar de imediato nos versos de abertura: “It’s been a hard day’s night, and I’ve been working like a dog...”

O Dr. Brown também trabalhou como um cão para decifrar o acorde que, reza a lenda, foi feito por George Harrison usando sua guitarra Rickenbacker de doze cordas. É um acorde caprichado, sem dúvida, com uma leve dissonância que o torna inconfundível. Se no saguão de um aeroporto ou num auditório repleto esse acorde for reproduzido, ele sozinho, sem aviso prévio, nas caixas de sons, algumas dezenas de senhores grisalhos terão um leve sobressalto e cantarolarão, em diferentes graus de emissão vocal: “It’s been a haard... daaaaays... niiiight...”

Para mim, a composição do acorde nunca teve muito mistério. Eu toco a música em Sol Maior, e o acorde inicial é simplesmente um Ré com Sétima (ou, na nomenclatura do velho método de violão de Paraguassu, onde aprendi, uma “segunda com preparação”), acrescido de um detalhezinho sutil: em vez de ser composto (nas quatro cordas de baixo do violão, no sentido descendente) pelas notas Ré, Lá, Dó e Sol-bemol, esta última nota é trocada por Sol simples. Este é o detalhe crucial. Não sei como os músicos de verdade classificam isto. Em Revolution in the Head, Ian MacDonald descreve o acorde como “G eleventh suspended fourth”, que para mim é grego.

A descoberta recente do Dr. Brown foi feita através da decomposição do som em suas frequência sonoras e análise em separado, o que o levou à conclusão de que o piano de George Martin soou em uníssono, produzindo uma nota que seria impossível de obter apenas com a guitarra de Harrison. MacDonald diz que este acorde abriu (e o acorde final de piano em “A Day In The Life” fechou), o período de maior criatividade do grupo, entre os anos de 1964 e 1967. Uma mina de diamantes onde a todo instante tem alguém descobrindo um brilho novo.

quarta-feira, 10 de março de 2010

1774) O capitalismo e a Starbucks (15.11.2008)




Hoje incomodarei os colegas que sofrem de adição à minha droga preferida: a cafeína. 

Bendita cafeína, a quem devo milhares de laudas jornalísticas ou literárias, poemas, letras de música. Se prestam ou não, é questão a ser arbitrada pelos pósteros, mas só escrevi aquilo tudo porque a bendita beberagem negra eletrificou meus neurônios e arrancou minha alma do torpor atávico que vive a empurrá-la para diante da tevê.

O leitor conhece as casas de café Starbucks? Há 19 delas no Brasil, todas em São Paulo. Conheço a da Alameda Santos, que é de marejar os olhos (e as papilas gustativas) de um viciado. 

Pois um artigo recente de Daniel Gross na revista Slate equaciona o café e o delírio capitalista que vem fazendo um estrago no mundo nestes últimos meses. Gross teoriza o seguinte: quanto maior a concentração de cafés Starbucks na capital financeira de um país, maior a probabilidade de que este país venha a sofrer perdas financeiras catastróficas no futuro.

A comprovação vem do fato de que somente na ilha de Manhattan há quase 200 cafés desse tipo. O café dessas lojas, diz ele, provê o combustível para um “boom” financeiro. Sua cafeína ajuda os especuladores a passarem horas a fio oferecendo papéis do mercado futuro, e agentes de hipotecas a sancionarem empréstimos pouco confiáveis. 

“Estrategicamente”, diz ele, “a Starbucks instalou muitas de suas lojas no andar térreo dos grandes bancos de investimento”.

Gross diz que, assim como o capitalismo financeiro dos EUA, a Starbucks pegou uma boa idéia e levou-a longe demais, diluindo desnecessariamente seus bons aspectos, e edificando suas apostas no futuro na fé desmesurada num crescimento ilimitado e sempre lucrativo. Não deu. 

Assim como o mercado imobiliário norte-americano, a Starbucks atingiu seu pico na primavera de 2006 e desde então vem caindo sem parar.

Haverá mesmo uma relação entre as egotrips da cafeína e o descontrole financeiro? Gross aponta que Londres tem 256 lojas Starbucks, Madri tem 48, e o paraíso financeiro de Dubai tem 48 lojas para uma população de 1,4 milhão de pessoas. A Coréia do Sul tem 253 lojas, e a cidade de Paris tem 35. 

Na outra ponta da estatística, por exemplo, fica o continente africano com apenas três lojas (todas no Egito); a Argentina tem apenas uma; o Brasil tem 14 diluídas numa população de 180 milhões. Países como Itália, Suécia, Finlância e Noruega não tem uma sequer.

Pouparei o leitor de mais números; quem quiser esmiuçá-los vá aqui (http://www.slate.com/id/2202707/). 

Em julho deste ano, a Starbucks fechou cerca de 600 lojas, quase um décimo de seu efetivo. Tal desmoronamento acontece ao mesmo tempo que a falência das financeiras e dos bancos ligados à área imobiliária. Haverá relação? Já vi muita gente reclamando que a voracidade do capitalismo era movida a cocaína, conhecida como A Droga do Egoísmo. Será que o café, o nosso santificado cafezinho, é mesmo um cúmplice neste apocalipse?