quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

1639) Eu sou o Leão do Norte! (13.6.2008)




A vitória do Sport sobre o Corinthians por 2x0, na quarta-feira passada, não foi apenas de lavar a alma. Foi de lavar, enxaguar, secar ao vento e ao sol. Não faço conta das besteiras e das arrogâncias que vi na imprensa, pela Web afora, desde que na semana anterior o Corinthians tinha ganho o primeiro jogo das finais por 3x1. Para uma parte (sempre faço a ressalva: uma parte, e não calculo que seja a maior parte) da imprensa e da torcida de São Paulo, a decisão já estava ganha, e o único contratempo era ter que ir ao campo do adversário para receber a Copa do Brasil e dar a volta olímpica.

É impressionante como os times de futebol se comportam de maneira suicida, mesmo carecas de saber o que vai lhes acontecer. São como aqueles personagens dos filmes de terror, que ouvem um barulho no porão e levantam a tampa para ver o que tem lá embaixo. Os times de futebol geralmente ganham quando jogam para ganhar, e perdem quando jogam para se defender. No Morumbi, o Corinthians encurralou o Sport no primeiro tempo, botou 2x0. Contou com a sorte no segundo, porque quando o Sport dominou por completo a partida e perdeu várias chances, o time alvinegro fez o terceiro num contra-ataque implacável. Os 3x0 em São Paulo obrigavam o Sport a uma vitória de 4x0 em Recife, o que, convenhamos, seria dificílimo. Mas no fim do jogo Enílton fez um gol cuja pedra eu cantei na hora: “Vamos ganhar o título por causa desse gol”.

No Recife, aconteceu o que eu rezava para que acontecesse: o Corinthians entrou para se defender, chamando o Sport sobre si. Tire-se o chapéu à marcação corinthiana, que, à parte algumas violências, foi incansável e prendeu o Sport, até que num lançamento rápido Carlinhos Bala (uma espécie de Chico César atlético) desferiu um tijolo no canto direito, e cinco minutos depois o bom goleiro Felipe acabou aceitando um chute que ele pensava que ia desviar no atacante.

Vi na imprensa que o time do Sport tem média de idade de 30 anos. Deve ser. Tem até Leandro Machado, que jogou aqui no Flamengo quando meus cabelos eram todos pretos. Não vejo jogos do Sport, que só passam na TV daqui quando ele enfrenta um time carioca. Vi os dois jogos com o Vasco e os dois com o Corinthians. O Sport atual é um time rápido, habilidoso, firme, com a cabeça equilibrada. Jogou no Morumbi e em São Januário com desenvoltura, com cabeça erguida, como se estivesse em sua própria casa. Vi-o jogar mal em vários momentos das partidas, mas não o vi nunca jogando como time pequeno.

Quando eu era garoto, meu pai me levou de Campina ao Recife para assistir um Sport x Corinthians na Ilha do Retiro, que o Corinthians ganhou de 5x2. Vi Alemão, zagueiro rubronegro que tinha o chute mais forte do Brasil, ir cobrar uma falta dentro do grande círculo, e o goleiro Cabeção pedir barreira. Jornadas épicas que não esqueço, como meu filho talvez não esqueça o jogo que vimos esta noite, a noite em que o Leão rugiu mais alto.

1638) A visão da FC (12.6.2008)



Existem muitas diferenças entre a literatura fantástica e a literatura do “mainstream”. (“Mainstream”, correnteza principal, é um termo muito usado pela crítica para designar a parte principal da literatura de uma época, a tendência dominante. A correnteza principal da literatura de hoje no Ocidente é o romance realista.) Se considerarmos todos os títulos produzidos durante um ano, ou dez anos, veremos que a literatura fantástica (incluindo ficção científica, terror, fantasia, etc.) é apenas uma pequena parte disso. Apenas uma fatia numa pizza redonda e gigantesca. Em outras culturas (no Oriente, p. ex.) o romance realista é cultivado mas não tem uma predominância tão grande. Achar que a literatura serve para reconstituir o mundo em que vive o autor é um cacoete cultural do Ocidente.

Vista desse modo, a literatura fantástica é uma literatura menor: menos títulos, menos autores, menos leitores. É como os partidos pequenos num Congresso, que precisam sempre estar se associando aos partidos maiores para ganharem um mínimo de visibilidade.

Tudo isso ocorre porque a literatura realista pretende lidar com algo mais importante, a Realidade, e o fantástico atrai menos leitores porque lida com coisas tidas como secundárias como a imaginação, o sonho, o irreal, etc. Mas se pegarmos essas duas formas de narrativa e examinarmos como elas abordam a Realidade, vamos ter um gráfico que é o contrário do anterior. Porque o Realismo aborda apenas uma fatia de uma imensa pizza, e o Fantástico aborda a pizza inteira.

O mundo que vemos à nossa volta não é a única coisa real. Coisas imateriais, como as representações subjetivas do pensamento, são reais. O que se passa na cabeça de cada um de nós também é real. Um pensamento não precisa estar “certo” para ser real. As idéias erradas também existem, também são entes, mesmo que sua interpretação dos fatos esteja equivocada. A teoria de que a Terra é oca, por exemplo, é real, existe, embora a Terra não seja oca. Os discos voadores, para Jung, eram uma realidade psíquica tão verdadeira quanto qualquer outra realidade psíquica baseada em objetos concretos. É um erro afirmar que algo, simplesmente por não existir no mundo material, não existe. Se fosse assim, toda a Filosofia seria irreal, porque os conceitos da Filosofia só existem em nossas mentes. Não há filosofia na Natureza.

O fantástico lida com sonhos, com fantasias; propõe situações absurdas que jamais poderiam ocorre no mundo aqui em redor. Através da ficção científica, descreve planetas imaginários, civilizações inexistentes. E tudo isso, curiosamente, é tão real – no plano das idéias – quanto descrições de cavalos e bois, ou histórias ambientadas na corte de Luís XIV. É irônico que a parte maior da pizza literária (o mainstream) se dedique apenas à parte menor do Real, e que caiba à fatiazinha representada pelo Fantástico a abordagem da pizza inteira do Universo.

1637) A micropulverização do empreendedorismo (11.6.2008)



No meio das entrevistas que cercam o lançamento de seu disco Banda Larga Cordel, Gilberto Gil fez alguns comentários sobre aquilo que o pessoal chama “a nova cena musical”. Estão brotando nas periferias e nas regiões remotas do Brasil uma série de fenômenos musicais que a gente não sabe classificar facilmente. É baile funk, é forró de plástico, é tecnobrega, é reggae-maranhense... Sabemos pouco a respeito disso, até porque o que sabemos é de segunda mão, pelo menos no meu caso. Assistir DVDs ou matérias de TV não vale. Se valesse, amigo, eu já tinha ido à Lua e voltado, nas asas de Stanley Kubrick. O que vale é conhecimento “in loco”, é ter mergulhado durante alguns dias, no mínimo, no olho desses furacões, conversado com as pessoas, visto o mundo delas e examinado a relação entre aquela música e aquele mundo.

Diz Gil do tecnobrega paraense: "Eles têm ali palcos ambulantes, ao estilo do trio elétrico, e essa nova cena passa batida pelos jornais, rádios e estúdios de TV de São Paulo e Rio de Janeiro. Muitas vezes não ficam sabendo de nada disso, dessas realidades novas com maquinarias novas." Para algumas pessoas a simples menção da palavra tecnobrega produz comichões equivalentes aos do pó-de-mico, mas essas bandas, como a famigerada Calypso, representam, pelo menos como alternativa de comércio, uma realidade nova. Não do ponto de vista estético, porque sua música nada traz de novo (ou, para mim, de interessante), mas porque começam a demonstrar a força econômica do show-business paralelo. É diferente da tradicional “música alternativa”.

Em primeiro lugar, essas bandas – que se auto-produzem – ganham rios de dinheiro. Seu perfil é diferente do perfil das bandas tipos mastruz-com-leite, bandas de um nome só, nas mãos de um único empresário. A Calypso chama a atenção por suas vendas milionárias, mas ela é a ponta de um iceberg de bandas que vendem menos do que ela – mas vendem. Diz o ministro Gil que o que está havendo, com o enfraquecimento das gravadoras e a proliferação de música digital gratuita, é um florescimento do show como principal atividade econômica da música. Nas palavras dele, uma “micropulverização do empreendedorismo”. Já que se torna cada vez mais difícil vender os 100 mil discos que há dez anos eram favas contadas a partir de certo patamar de sucesso, o que conta agora é a expansão do mercado e a tentativa de assegurar continuidade a longo prazo, em vez do enriquecimento a curto prazo.

"Não há condição de todo mundo ser rico, então todo mundo quer viver e sobreviver”, diz Gil. “Então a arte passa a ser informada por isso, a produção passa a ser informada por isso. Enfim, a vida. Processos organizados com liberdade, com fragmentação empreendedora, protagonística". A banda Calypso já vendeu milhões de discos e recusou todos os convites das gravadoras. É o equivalente atual dos 100 mil discos do Boca Livre e 150 mil de Arrigo Barnabé no começo dos anos 1980.

1636) Um boi filosofando (10.6.2008)




(The Minotaur, de George Frederick Watts)

“Os seres humanos são angustiados por serem bípedes. Vivem sempre com medo de cair, por isso constroem tantas edificações, para servir-lhes de apoio. Falta-lhes a base sólida das quatro patas. Locomovem-se mal, sempre à feição de quedas para a frente. Uma perna os projeta para diante, como numa queda auto-produzida, e a outra perna tem que se adiantar para salvá-los deste pequeno suicídio; mas olhem, agora é esta própria perna salvadora que os arremessa de novo para diante e cabe à outra avançar para salvá-los. Como pode prosperar em paz uma espécie assim masoquista, sempre presa à vertigem da queda?

“Como não sabem caminhar, são forçados a inventar meios de transporte pesadíssimos, custosos, que demandam a brutal extração de milhões de toneladas de minérios. Destroem tudo em volta para poderem dispor desses veículos ruidosos, porque para eles caminhar é um suplício, e precisam ser conduzidos sentados de um local para outro. Como a vertigem da queda e da auto-destruição está gravada em seus cromossomos, fazem com que suas engenhocas mecânicas se projetem pelo ar ou rolem pelo solo a velocidades absurdas, que freqüentemente os levam a colisões, esfrangalhamento físico, mortandades coletivas. Tudo isto porque não aprenderam a caminhar de quatro.

“Não sabem se alimentar. Não sabem pastar em paz como o fazemos, nem são aparelhados para a caça como a onça e outros predadores nossos. São poucas as criaturas que eles conseguem abater com as mãos nuas. Criam, para a caça, instrumentos cada vez mais complicados e custosos, indo na contra-mão da Ciência que deveria possibilitar-lhes a evolução rumo ao mais simples e mais eficaz. Com os instrumentos acaba ocorrendo o mesmo que com os transportes. Seus criadores acabam sentindo-se na obrigação de utilizá-los o tempo inteiro, e utilizá-los no máximo de sua eficiência, o que significa que acabam utilizando-os contra si próprios, para que os instrumentos não fiquem ociosos.

“Vai ver que tudo decorre da tragédia que lhes sobreveio um dia: a de deixarem de fitar o chão. Quem fita o chão não esquece a terra. Quem fita o chão é obrigado a lembrar-se o tempo inteiro de que vive num planeta onde existem a terra, a grama, a areia, a pedra, as formigas, as minhocas. Quem fita o chão nunca esquece que faz parte dele. O homem desprendeu do chão sua metade da frente, verticalizou-se, lançou seu corpo no desequilíbrio e no trauma de uma queda permanentemente evitada. Deixou de prestar atenção no lugar onde pousa os pés para fixá-la no horizonte inatingível e no céu mais inatingível ainda. Começou a imaginar como seria chegar ao horizonte, e como seria pisar no céu como se fosse um chão. Enfeitiçado pelo horizonte, pôs-se em movimento. Enfeitiçado pelo céu, passou a desprezar a terra onde pisa, e esqueceu que é feito de terra, que vive da terra, que só come o que vem da terra – e que não passa, como nós, de uma refeição que a terra prepara para si própria.”




1635) Com música nos ouvidos (8.6.2008)



(Kipling, por Don Coker)

Já se disse que a poesia vai deixando de ser poesia à medida que se afasta da música. Claro que isto não vale para as formas mais recentes de poesia, formas visualistas, geometrizadas, que usam o Espaço em vez do Tempo; formas que são criadas para a Página e só se realizam na Página. Nada contra! Mas a presente consagração acadêmica que esse tipo de poesia vem obtendo desde o Concretismo dos anos 1960 precisa ser contrabalançada com um saudável retorno à poesia que se realiza no Tempo, e não no Espaço; a poesia que pensa nos sons das palavras, e não no formato das letras que as compõem. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, companheiros!

Deus me livre que um dia alguém baixe uma Medida Provisória obrigando todo poema a ter métrica e rima. Digo isto, não porque deteste a métrica e a rima, mas porque as reverencio, cultivo e defendo. Não quero ninguém legislando minha liberdade, ninguém interferindo de fora num domínio que pertence apenas a nós. Porque existem dois tipos de poetas. (OK, existem muitos mais – mas para efeito do presente artigo são dois.) O primeiro é o Poeta Músico, aquele que vê na poesia uma extensão da canção oral das tribos antigas, dos cantos em volta da fogueira, dos contadores de histórias que recorriam a melodias monocórdias e recorrentes para hipnotizar suas audiências e implantar nelas os memes do seu conto. E existe o Poeta Artista Plástico, filho de Johann Gutenberg e Marshall McLuhan (esse casal perpetuamente em crise), filho da revista ilustrada, da foto, da TV, do desenho industrial, da letra-set e do computador. O poeta que trabalha e retrabalha seus caligramas, seus poemas-processo, seus grafismos e leiautes.

Augusto dos Anjos declarou que compunha seus poemas mentalmente, recitando-os e repetindo-os de forma compulsiva, antes de passá-los para a página. Ainda hoje me pergunto se poemas gigantescos como “As Cismas do Destino” foram compostos assim (o que duvido). Outros autores fazem o mesmo por uma questão de hardware. Poetas com deficiência visual, como Jorge Luís Borges e Glauco Mattoso, sentem-se mais à vontade com formas fixas, como o soneto. Elas lhes possibilitam a composição puramente mental (tanto Borges quanto Glauco são notórios insones), pois a própria estrutura de métrica e rima auxilia a memorização.

Diz-se que Rudyard Kipling costumava compor seus poemas de cabeça, enquanto cuidava do jardim. Ficava solfejando hinos protestantes, baixinho, mas as pessoas da família sabiam que ele estava de certa forma “botando letra” nesses hinos – estava compondo um poema valendo-se da estrutura mnemônica do hino. Fico pensando que curiosa tese de doutorado isto poderia render, se alguém de cultura inglesa-protestante se desse o trabalho de comparar os poemas do mestre aos hinos em voga durante o seu tempo de vida. Como dizia o poeta – “de la musique, avant toute chose!”

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

1634) O que é cyberpunk (7.6.2008)



(capa de Rick Berry para Neuromancer)

A FC “cyberpunk” surgiu na década de 1980, tendo como deflagradores William Gibson com o romance Neuromancer (1984) e Bruce Sterling com a antologia Mirrorshades (1986), que definiu o perfil do movimento. 

A palavra, criada por Bruce Bethke, foi logo assimilada por autores que se identificavam com seu conceito básico: “high tech and low life”, “alta tecnologia e baixa classe social”. 

As histórias cyberpunk lidam com personagens marginais, solitários e cínicos (o lado punk) num ambiente onde a cibernética e a informática controlam tudo, inclusive os corpos e cérebros humanos.

Uma típica história cyberpunk (tão típica que esta fórmula já se diluiu em clichê) mostra um indivíduo desajustado e sem rumo sendo contratado por uma megacorporação que precisa dos seus talentos para obter algum tipo de lucro. 

Ele usa cabos, fios, etc. para conectar seu cérebro ao “ciberespaço”, o espaço virtual formado para conexão simultânea de todos os grandes bancos de dados, nos quais ele se infiltra como um mergulhador penetrando em vastas estruturas submarinas.

O título Neuromancer de Gibson pode ser lido como uma variante de “necromancer”, necromante, o feiticeiro que adivinha o futuro através da invocação do espírito dos mortos. O elemento “necro” (=morte) vira “neuro” (=nervos, fibras). 

A antevisão do futuro não se dá aqui através do contato com o sobrenatural, mas do contato entre os neurônios do ser humano e as fibras ou cabos da máquina cibernética a que ele está plugado. O neuromante põe seu cérebro em contato com o cérebro cibernético do mundo, com esse novo Sobrenatural criado pelas máquinas, e que substitui o plano do espírito.

Por outro lado, o termo pode ser lido como “new romance”, um novo romance ou nova encarnação do Romantismo literário dos séculos 18-19. Existe na literatura cyberpunk algo do romantismo de Byron, Shelley e outros poetas que flertavam com a morte e o sobrenatural, e que se deleitavam com seu papel de marginais numa sociedade materialista, cautelosa, mesquinha, refratária ao sonho e à imaginação, além de inimiga do individualismo. 

A palavra “romance” tem em inglês conotações que não tem em português; está mais ligada a obras de características imaginativas, não realistas, e o realismo é cultivado através da novela (“novel”). O título do primeiro livro de Gibson já traz em si uma proposta estética, a criação de um novo gênero.

Os romances “cyberpunk” de Gibson adotaram em muitos casos o tipo de narrativa distanciada e irônica dos detetives do romance policial “noir” (também usada em filmes como Blade Runner). 

Seus heróis são marginais, descrentes, apaixonados por tecnologia, deslumbrados com a possibilidade de conexão total. E são uma espécie de bruxos: indivíduos com o inexplicável poder de perceber intuitivamente, no meio do caos e do excesso de informações, o que é relevante. Tal como os adivinhos da antiguidade, o neuromante sabe, mas não sabe como veio a saber.






1633) Dominguinhos (6.6.2008)




Não pude assistir à festa do Prêmio TIM de Música, no Rio, que homenageou o sanfoneiro e compositor Dominguinhos. 

Pelo que vi na imprensa, foi uma festa belíssima. Espero que tenha sido tão bela quanto a que vi ontem no Teatro Tobias Barreto, em Aracaju, na abertura do VII Fórum Junino. O Fórum foi criado pela Prefeitura de Aracaju para acompanhar, com palestras, debates e projeções, as festas de São João, e discutir os caminhos que elas vêm tomando. 

Entre os já homenageados do Fórum estão Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Humberto Teixeira, Marinês, Carmélia Alves, Genival Lacerda, etc.

As palestras do Fórum abordam a vida e a obra do homenageado, mas também discutem as manifestações folclóricas do Estado, o mercado de shows e de discos, a distinção entre diferentes ritmos, a história discográfica da música regional, etc. Um tema recorrente nas discussões é o curioso fenômeno do “forró eletrônico”, com seus ritmos do interior paulista, suas coreografias de lambada, suas dançarinas seminuas e suas letras que só falam de sexo.

A abertura do VII Fórum (terça-feira, dia 3) teve um debate sobre a carreira de Dominguinhos, com a presença do Prof. Paulino da UFSE, de Anastácia (parceira de Dominguinhos em cerca de 200 canções), do compositor Climério e do cantor Silvério Pessoa. 

Dominguinhos lembrou episódios de sua carreira, recordou amigos e mestres, e divertiu a platéia com seu bom humor. Indagado sobre o seu notório medo de viajar de avião, ele confessou que muita gente já tentou dissuadi-lo, e que o próprio Luiz Gonzaga lhe disse certa vez: “Mas Dominguinhos, avião é uma coisa segura. Todo mundo viaja de avião: Sarney, Antonio Carlos Magalhães... O avião não cai com essas pestes, vai cair com a gente?!”

Indagado sobre as bandas de forró eletrônico, o mestre do forró tradicional foi generoso e diplomático: 

“Olhe, quando a bossa-nova começou, todo mundo que tocava sanfona teve que parar. Ninguém queria saber mais de forró. Todo sanfoneiro foi tocar órgão, piano... Ficamos eu, Chiquinho do Acordeon, Caçulinha, e mais meia dúzia. Agora começaram essas bandas a fazer sucesso. Só em Fortaleza, terra de Waldonys, tem umas mil bandas. Eu acho que eles ainda não acharam um nome para botar na música deles, por isso chamam de forró. Mas é até bom, porque por causa dessas bandas o povo começou a falar em forró de novo, a imprensa voltou a cobrir o forró... Então, os forrozeiros agradecem”.

Depois, Dominguinhos fez um show, e teve a certa altura a participação da Orquestra Sanfônica de Aracaju. Foi bonito ver Dominguinhos e mais de 20 sanfoneiros tocando “Só quero um xodó” e o teatro inteiro cantando a plenos pulmões. 

Numa cena assim a gente podia ver o poder multiplicador do gênio. Um grande artista não cria consumidores, cria discípulos e futuros mestres. O lema do VII Fórum diz: “O discípulo inovou a arte do mestre”. Essa é a diferença entre o artista que cria e o que se apropria.






1632) O Beletrista Teórico (5.6.2008)




Conheço o Beletrista Teórico desde que vim morar no Rio. Ele freqüentava o antigo Bar do Violeiro no Baixo Leblon, e findava a noite no Diagonal, tomando chope acompanhado da tradicional sopa de cebola com torradinhas. 

Era um desses talentos loquazes, cachoeirísticos, um derramamento contínuo de idéias brilhantes, frases bem-humoradas, sacações originais. Conversar com ele pagava a noite, inclusive porque, diferentemente da maioria dos intelectuais de mesa de bar, não costumava criar polêmicas. Pelo contrário. Era um colaborador entusiasta.

O Beletrista tinha a mania de me dar idéias. “Olha, você não escreve ficção científica? Pois veja bem: alienígenas entre nós, só que são iguais a nós e passam despercebidos. Casam, têm filhos... Depois não sabem mais o que são! Já pensou? Um filme de ET existencialista!” 

Eu dizia: “Taí, ninguém nunca tinha pensado nisso”. E ele, em pleno entusiasmo: “Claro! Olha, quando você terminar o livro, não esquece de me mandar, pra eu fazer uma revisão, ver se está tudo certo”.

Entendeu? O Beletrista Teórico é aquele cara que, se for amigo de Ronaldinho Gaúcho ou de Kaká, liga para ele numa terça-feira e diz: “Velho, tive uma idéia sensacional para um gol. É assim; você recebe na meia-lua, e parte com a bola na direção da esquerda. Quando os zagueiros fecharem, você corta para a direita de repente, eles passam, você atrai o goleiro e manda por cima dele... Que tal?” 

A vantagem, no caso do futebol, é que ele não pode pedir ao jogador para “revisar o gol”.

O Beletrista Teórico é aquele cara para quem uma boa idéia corresponde a 50% de uma obra, e a execução aos outros 50. Nada disso, companheiro. Sem querer desmerecer o valor das boas idéias, eu diria que delas o chão do Amarelinho está repleto. Se você passar lá num sábado de noite com um aspirador de pó, vai chegar em casa com uma média de 2 ou 3 mil boas idéias que nossos gênios em potencial derramaram nababescamente pelo chão, ao longo de uma noite de chope. 

O mundo está cheio de gente disposta a ter boas idéias, mas o que faz mais falta hoje em dia é gente disposta a sentar numa cadeira dez horas por dia, seis dias por semana, e botar essas idéias na ordem em que elas precisam ser botadas.

Um amigo que trabalhou no Globo me contou que de vez em quando o telefone tocava para Chico Caruso, ele atendia, desligava, e suspirava: “Mais um cara com uma ótima idéia para um cartum... O pessoal quer ficar com a parte boa, e deixar comigo o trabalho braçal”. A parte boa de um cartum é ter a idéia. O trabalho braçal é transformá-la num cartum publicável. 

O mesmo ocorre com contos, romances, canções. Todo mundo tem boas idéias. Eu já tive no mínimo um milhão. Desse milhão de boas idéias resultaram algumas músicas, alguns livros. Não mais. Enquanto isto, o Beletrista Teórico liga para um amigo, grande Don Juan, e diz: “Tive uma idéia para uma noitada com uma garota. Você deita ela na cama, e...”






1631) As células-tronco (4.6.2008)




Parece que o debate sobre células-tronco desenganchou no Supremo Tribunal Federal, e que de agora em diante as pesquisas podem prosseguir. A discussão pró e contra se arrastou durante anos. E todo o episódio foi mais uma vez um confronto entre a Igreja Católica e a Ciência. Eu ia colocar “entre a Religião e a Ciência”, mas achei melhor especificar. Cada crença religiosa tem seus dogmas, seus princípios, e eles são muito diferentes uns dos outros. As Testemunhas de Jeová, por exemplo, não permitem transfusões de sangue, porque em alguma altura da Bíblia há uma frase que parece proibir isto (embora transfusões certamente não fossem de uso da época, e a frase deva estar sendo usada noutro sentido).

A Igreja Católica é contra as pesquisas de células-tronco porque elas usam embriões, e do ponto de vista ético da Igreja constituem um crime contra a vida, semelhante ao aborto. Os defensores das pesquisas argumentam que os embriões utilizados são embriões já fecundados mas que não viriam a se desenvolver em seres humanos completos. São produtos de fertilização artificial, em proveta, e se destinam apenas à pesquisa, sem chance de “nascer”.

Em princípio em sou a favor das pesquisas científicas, porque pelo que já li existem grandes possibilidades de descobrirmos a cura para muitas doenças. A ciência tem um problema médico pela frente e procura resolvê-lo cientificamente. Se a Igreja Católica é contra, é um direito dela – mas como ficam os cidadãos que precisam da pesquisa e não são católicos? Eu, que não sou Testemunha de Jeová, acho que tenho direito a fazer transfusões de sangue, se preciso for. Respeito a religião deles, mas, como não pertenço a ela, me acho livre para agir de acordo com as minhas crenças, não com as crenças de A, B e C (que por sinal discordam todos entre si). Do mesmo modo, não sendo católico, não me acho na obrigação de obedecer às proibições da igreja do meu vizinho. Respeito, converso civilizadamente, coisa e tal, mas não posso agir de acordo com a crenças alheias. (Aliás seria interessante saber o que acham da pesquisa com células-tronco os meus amigos budistas, judeus, muçulmanos, taoístas, umbandistas e baha’i).

Mas eu defendo o patrulhamento feito pela Igreja, porque a Ciência tem dois defeitos: é excessivamente fria e impessoal, e se deixa manipular facilmente pelas corporações, pela indústria farmacêutica e outros grupos interessados em lucros. Se não existirem pressões como essa da Igreja, os laboratórios em breve estarão extraindo órgãos de pessoas vivas para comercialização (lembram do filme Coma?). O comércio de órgãos humanos no Nordeste, p. ex., onde o sujeito vende um rim por mil reais, é tão florescente quando o de DVDs piratas. A Igreja tem, pelo menos em tese, um compromisso humanista não condicionado pelo lucro, e precisa estar sempre segurando as rédeas da Ciência, senão... Leiam Admirável Mundo Novo (Huxley), leiam A Ilha do dr. Moreau (H. G. Wells).

1630) “Príncipe Caspian” (3.6.2008)




O segundo filme da série As Crônicas de Narnia, em cartaz na Paraíba, tem efeitos especiais bem bolados e usados sem exagero, um quarteto de protagonistas infanto-juvenis (o que é uma raridade no gênero, que geralmente se concentra em um ou dois) e uma trama de fantasia clássica – um reino em perigo, ameaçado por nobres ambiciosos. C. S. Lewis e seu amigo J. R. R. Tolkien geraram uma mega-franquia editorial e cinematográfica, mais de meio século depois que escreveram suas obras.

C. S. Lewis era um professor de Oxford, um sujeito erudito e profundamente religioso. Pertencia a um grupo de intelectuais de perfil semelhante que incluía Tolkien e Charles Williams. Denominavam-se “os Inklings”, e todos escreveram histórias fantásticas ou de ficção científica. Lewis e Tolkien tinham uma daquelas amizades polêmicas, feitas de profundo afeto mútuo e profundas divergências (Lewis era anglicano, Tolkien era católico). Tolkien estava escrevendo sua série do Senhor dos Anéis desde 1937 com O Hobbit; os três volumes principais da trilogia saíram entre 1954 e 1955, embora Tolkien já viesse trabalhando neles há mais de dez anos. Lewis, por sua vez, publicou toda a série “Narnia” entre 1950 e 56. Os dois costumavam ler trechos dos respectivos manuscritos em suas noitadas literárias em Oxford. Tinham numerosos pontos de concordância e de divergências, e hoje não há dúvida de que essa relação de crítica e encorajamento recíproco contribuiu muito para o alto nível literário de ambas as séries. A gente sempre escreve melhor quando sente que tem leitores atentos, respeitosos e exigentes, ainda mais quando são amigos, e amigos mais chegados a um debate do que a fazer elogios protocolares e mudar de assunto.

Este segundo filme de Narnia mostra o quanto o universo de Lewis se parece com o de Tolkien. Em ambos, coabitam seres humanos e seres fantásticos ou mitológicos. Em Tolkien são os elfos, hobbits, anões, orcs, etc. Em Lewis são faunos, centauros, animais falantes. O mundo de Tolkien se situa no planeta Terra, mas numa época antiqüíssima, anterior à nossa; Narnia é um outro mundo, paralelo ao nosso, que pode ser acessado através de “fendas” em lugares especiais (como o guarda-roupa mostrado na primeira história).

O leão Aslan, em “Narnia”, é um símbolo de Cristo: ele morre e ressuscita, serve como um símbolo de grandeza moral, ajuda as crianças a enfrentarem seus inimigos mas na maioria das vezes se mantém à distância, intervindo apenas em alguns momentos. Em Príncipe Caspian há um momento em que Lucy diz ao leão: “Eu sabia que você estava aqui, mas os outros não acreditaram em mim”. E Aslan responde: “Mas, se você acreditava, por que não veio?” É uma resposta cristã e sábia, porque na verdade a medida de uma fé é o tipo de conseqüências que ela produz em nossa atitude diante da vida. Se você acredita em alguma coisa, por que não vai atrás dela? Por que não pratica?