Circula pelas redes sociais um vídeo de uma entrevista do
ator Matt Damon comentando uma conversa que teve com Jack Nicholson anos atrás,
quando os dois trabalharam juntos em The
Departed (2006), de Martin Scorsese. Farei aqui um resumo, para quem não
viu.
Matt Damon diz que no intervalo de uma das reuniões
pré-filmagem Nicholson virou-se para ele e disse:
-- Sabe duma coisa, eu nunca teria chegado tão longe na
minha carreira se não fosse um roteirista tão foda.
Damon entendeu, claro – como ser um grande ator sem botar
algo de “autoral” nas próprias cenas, nos próprios diálogos? Sem deixar uma
marca?
E Damon lembra uma cena desse filme, uma cena curtíssima,
poucas linhas na página do roteiro: Costello
(Jack Nicholson) executa um homem que
está de joelhos na praia. Qualquer pessoa iria ler isso e pensar: “OK, a
cena começa e eles já estão ali, é só isso, e é somente um gesto, vai levar uma
hora no máximo pra gravar essa cena”.
Então Nicholson olhou a página e disse:
-- Está bem, mas
posso melhorar a cena. Olhe... eu venho da escola de Roger Corman. Não vou
esticar o tempo, não vou gastar mais grana. Mas... ao invés de um homem
ajoelhado no chão, eu poria uma mulher.
-- OK.
-- Muito bem. Eu vou executar uma mulher. Mas eu não vou
estar sozinho. Eu estou com Ray ao meu lado. [Trata-se de Ray Winstone, um
coadjuvante.] Ray está lá comigo, e eu faço o que vou fazer, executo a mulher
com um tiro na cabeça, como está no roteiro. Mas, se você deixar a câmera
rodando...
Pausa. Ele continua:
-- Se você deixar a câmera rodando, depois que ela cair
no chão eu me viro para Ray e digo: “Caramba, ela caiu de um jeito esquisito”. É
uma fala sinistra, não é mesmo? Porque eu faço muito isso, e as pessoas sempre
caem de um jeito. E ela caiu diferente. Bem – você poderia terminar a cena
neste ponto. Mas, se você deixar a câmera rodando...
Outra pausa.
-- Se você deixar a câmera rodando, Ray dá um passo
adiante, e então vemos que ele está segurando um machado. Ele vai cortá-la em
pedaços. Bem – você poderia terminar a cena neste ponto. Mas, se você deixar a
câmera rodando...
Mais uma pausa.
-- Se você deixar a câmera rodando, eu me viro para Ray e
digo: “Espere... acho que quero fodê-la de novo”. Uma fala sinistra, hein?...
-- De fato, -- responde Damon, -- muito sinistra.
-- Você podia terminar a cena aí – prossegue Nicholson. –
Mas se deixar a câmera rodando, Ray pode parar e se virar para mim. Aí tem uma
pausa, e eu faço: ha-ha-ha-ha-ha!...
E ele faz o gesto de gargalhar apontando para a cara do
outro, o gesto do “te peguei!...”
-- Também sinistro, não é? Porque eu estou transformando
aquela ação toda numa piada. E você pode terminar a cena ali. Mas se deixar a
câmera rodando, Ray poderia olhar para mim e dizer: “Olha, Francis, na moral...
Você precisa se consultar com alguém.”
Risadas gerais, e Matt Damon conclui:
-- E foi o que eles fizeram. Ele pegou, tipo, um-oitavo
de uma página de roteiro e transformou nisto tudo, e eles tinham duas câmeras
rodando, de modo que podiam cortar de uma para a outra. E na edição final da
cena Scorsese mostrou assim: ele atira na mulher, ela cai, ele diz, “Puxa vida,
ela caiu de um jeito esquisito”, e Ray diz: “Olha, Francis, na moral, você
precisa se consultar com alguém.”
“Ele deu ao diretor todas essas opções”, conclui Matt
Damon, “porque está criando o personagem de um assassino psicótico, e é assim
mesmo.”
A cena, que dura cerca de 20 segundos, pode ser vista
aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=b1etTOuXD8Y
Para além da inteligência mórbida de Jack Nicholson, o
detalhe que me parece interessante é ele dizer que é da escola de Roger Corman –
e Corman de fato lhe deu um pequeno papel em A Pequena Loja dos Horrores (1960). A escola de Corman é a escola
do filme com pouquíssima grana e pouquíssimo tempo disponível, por isto
Nicholson diz que as sugestões que vai fazer não vão dar nova despesa nem
exigir horas e horas de filmagem. São três ou quatro linhas de diálogo a mais –
mas são falas que revelam o abismo tenebroso da mente do personagem.
A despesa é a mesma, a equipe é a mesma, a iluminação,
tudo. Custo adicional: zero. Mas sempre existe a possibilidade de com pequenas
mudanças desse tipo você pegar uma cena que diz um tantinho-assim e fazer com
que ela diga muito mais.
E nem precisa “dizer”, falar. Pode ser um movimento de
câmera, pode ser a posição diferente da câmera que em vez de ficar aqui, fica acolá – e com isto revela um trecho diferente do cenário, traz uma
informação nova que pode ser crucial para a cena.
Raymond Chandler, que ficou rico escrevendo roteiros para
Hollywood , tinha uma teoria de que nas primeiras décadas do cinema qualquer
coisa filmada fazia sucesso, por causa da novidade. Tudo era novo, naquelas
aventuras movimentadíssimas. Tudo estava sendo mostrado pela primeira vez.
Houve um tempo em
que qualquer trucagem era interessante por si só, tal como houve um tempo em
que o mero fato de uma imagem estar se movendo era fascinante. A perseguição
através dos esgotos, ou por cima dos cabos de aço de uma ponte, ou nas
profundezas de uma represa, ou fosse lá onde fosse, tudo isto emocionava, mas
já se desgastou. O que nos resta são personagens, suas relações entre si, e as
coisas que têm para dizer.
(Selected Letters, Delta, p. 276, trad. BT)
Chandler estava sendo otimista, ou pessimista, talvez. Esta
observação é de uma carta dele para Sol Spiegel, em abril de 1951. De lá para
cá, a criação de trucagens e de esfeitos especiais se multiplicou
exponencialmente, todo ano aparece uma novidade nova. Aguardem, para 2025, o
primeiro filme com roteiro e imagens inteiramente criadas com Inteligência
Artificial. Estou sendo otimista? Pessimista? Tanto faz.
Três ou quatro linhas de diálogo, um movimento de câmera,
um gesto de um ator, um corte da montagem – tudo isto pode trazer para uma cena
de um filme, com um custo-extra zero,
um peso que a cena não teria antes.
Glauber Rocha queria mostrar, em Deus e o Diabo na Terra do Sol, o matador Antonio das Mortes
atacando os cangaceiros à frente de um destacamento de soldados. Não conseguiu
os extras. Tudo que tinha era o ator Maurício do Vale, de chapelão, capote e
rifle. Filmou Maurício pulando de várias direções diferentes na direção da
câmera, apontando e disparando pra lá, pra cá – e montou isso de forma brusca,
entrecortada. Claro, não deu a impressão de que havia um destacamento inteiro,
mas deu ao espectador o senso de desorientação, de fragmentação, de inesperado,
que se tem durante um tiroteio de verdade. A custo zero.
Robert De Niro improvisou a fala “Tá falando comigo?...” (“Are you talkin’ to me?...”) na
famosa cena de Taxi Driver, testando
a arma diante do espelho. “Tá falando
comigo?... Só tem eu aqui.” Improviso do ator, e um diretor capaz de dizer
“guarda isso aí, ficou muito bom”. A custo zero.
Reza a lenda que foi um improviso a famosa resposta de
Han Solo em Star Wars (1977). A
Princesa Leia diz: “I love you”. Parece que o roteiro previa: “I love you too”.
Ou seja, Hollywood em estado puro. Coube a Harrison Ford, replicar, “na lata”:
“I know”. Já perdi a conta de quantas vezes vi essa resposta cínica sendo
citada, no cinema, na TV, nas redes sociais, na vida real. Um upgrade no diálogo que fez uma cena
besta deixar de ser besta e entrar para a História. A custo zero.
E ainda no capítulo Harrison Ford, conta-se – e pode
muito bem ser verdade – que quando ele fez Indiana Jones nos Caçadores da Arca Perdida uma cena
previa que ele, ao cruzar um mercado oriental, fosse atacado por um enorme
espadachim vestido todo de preto, e o derrotasse depois de luta encarniçada.
Reza a lenda que Ford, no dia da filmagem, estava com um desarranjo físico
qualquer, e foi ele quem sugeriu uma das gags
clássicas da série: ao ver o espadachim, Indiana Jones saca o revólver e o
derruba com um só tiro, e guarda o revólver, com cara de “que saco, não me deixam em paz”.
“Vamos fazer a cena
assim,” prevê o roteiro. O roteiro, porém, não é uma linha de chegada, é um
ponto de partida. No momento da preparação da cena, para começar a filmagem,
passa-se em revista o que se tem em mãos, a começar pelo roteiro. Se ninguém
tiver uma idéia melhor, o roteiro está ali; é uma tábua de salvação. Se alguém
tiver uma idéia melhor... As possibilidades, como sempre, são infinitas.