sexta-feira, 24 de junho de 2022

4836) Nordestinense sem mestre (24.6.2022)



A fala nordestina é cheia de sutilezas, muitas delas compendiadas no indispensável Dicionário do Nordeste de Fred Navarro (Recife, CEPE Editora). Uma das minhas distrações é recolher exemplos durante minhas leituras.
 
RISCAR – Chegar de repente, às pressas.  “Eu já estava desistindo de esperar, e ia chamar um táxi, mas quando deu sete e meia ele riscou com o carro lá em frente, falou que tinha ficado preso num engarrafamento”.
 
Ela aí chamou o rei
Ligeiramente mostrou,
O rei também conheceu
Bastante se alegrou,
Bem na porta do palácio
O seu cavalo riscou.
 
Do seu cavalo apeou
Para no palácio entrar
Já o rei e a rainha
Vieram lhe encontrar
Levaram ele nos braços
Para a saudade matar.
 
(Minelvino Francisco da Silva, “O filho de João Acaba-Mundo e o Dragão do Reino Encantado”)
 
 
AMOLEGAR -- Apalpar com as pontas dos dedos, pressionando-as de leve para experimentar a textura ou a resistência de algo.  "Êi, dona!  Só amolegue as frutas se fôr comprar, senão estraga."  "Ela se faz de santa, mas o namorado passa a noite amolegando os peitos dela."
 
CLARABELA - (...) Você deite aqui no banco, que eu vou lhe dar uma massagem nas costas!
SIMÃO - Uma massagem?  O que é isso?
CLARABELA - Você se deita aqui, eu pego você por trás, vou amolegando assim, vou amolegando mais, devagar, bem devagar como quem prepara massa!  Agrado, esfrego, amolego: a dor, num instante, passa!”
(Ariano Suassuna, A Farsa da Boa Preguiça, Ato II)
 
Uma ligeira variante do gesto é registrada nesta sextilha do poeta Manoel Xudu:
 
João Batista tem repente
eu ouço sentindo medo
que só mocó que avista
um caçador no rochedo
de espingarda no rosto
já amulegando o dedo.
(em Poemas, Prosas e Glosas, de Zé Laurentino, pág. 57)
 
Por extensão, significa também "amolecer", inclusive no sentido figurado:
 
O Padre Gama nos fala de meninos que conheceu sempre "empapelados e envidraçados"; e tratados com tantas "cautelas de sol, de chuva, de sereno, e de tudo, que os pobres adquirem uma constituição debil, e tão impressionavel que qualquer ar os constipa, qualquer solzinho lhes causa febre, qualquer comida lhes produz indigestão, qualquer passeio os fadiga, e molesta".  Amolegado por tantos mimos e resguardos das mães e das negras, era natural que muito menino crescesse amarelo: a mesma palidez das irmãs e da mãe enclausuradas nas casas-grandes.
(Gilberto Freyre, Casa Grande & Senzala, pag. 426)
 
 
ESTOPOR – Doença imaginária que aparece em ameaças, pragas, imprecações, comparações exageradas, etc.  Visívelmente, uma corruptela de "estupor".  Frequentemente se usa a forma intensificada "estopor balaio".
 
Policarpo – (...) Porque eu gosto de cantar, gosto de malandragem.  Agora a mulé não deixa, não.  A minha mulé é uma disgraça.  É uma cobra cascavé.  É um istôpô balaio.
(Peça popular de mamulengos, em O Mundo Mágico de João Redondo, de Altimar de Alencar Pimentel, pag. 207)
 
 
GOGA -- Jactância; vanglória; presunção. (Pron.: góga“Fulano é muito metido a besta, mas qualquer dia eu vou acabar com a goga dele.”  “Deixe de goga e de falar que é valente, que eu já vi você pular uma janela com medo duma faca.”   Vem certamente de “gogó”, “garganta”. 
 
Os Pereira também forneciam homens-de-espingarda.  Por dinheiro, por prestígio, mediante troca de favores e, não raro, por goga.  Para serem falados e temidos.  Todo grande coronel agiu assim.
(Pedro Nunes Filho, Guerreiro Togado, pag. 17)
 
Godoy, que saíra da Bahia há mais de uma semana, ainda não tinha tentado agarrar o boi Mandingueiro. Foi chegando e apostando duas dúzias de cachaças que ia transformar esse tal de Mandingueiro num simples espalha-merda.  E tanto acreditou na façanha prometida, que resolveu beber a aposta adiantada, contando goga e farol a cada gole emborcado.
(Nei Leandro de Castro, As pelejas de Ojuara, pag. 199)
 
 
RODAGEM -- Estrada asfaltada. "Pra ir na casa dele você vira aqui à direita, vai em frente, atravessa a rodagem, do outro lado você continua até um ferro-velho que fica perto de uma vacaria, ele mora vizinho."  A origem da expressão deve ser a denominação do DNER, "Departamento Nacional de Estradas de Rodagem", a quem cabia asfaltar estradas.
 
Viera a pé, e não a cavalo.
Andava a pé, mas de sapato.
     A pé, pela rodagem,
     E em roupas de cidade.
(João Cabral de Melo Neto, “’Claros Varones’”, Serial, in Obras Completas, pag. 305)
 
Tem nega boa
da rodagem e Zé Pinheiro,
tem os cabras do Ligeiro
tudo armado de punhal...
(Jackson do Pandeiro, Forró de Zé Lagoa, de Rosil Cavalcanti)
 
O país e o estado que tem um pau com 20 metros de diâmetro, quer dizer, grossura, que a rodagem passa por dentro dele é nos Estados Unidos da América do Norte e na Califórnia o americano pegou, abriu este pau no meio encimentou por dentro e por fora, todos os transportes coletivos e transportes de cargas passam por dentro dele.  Este pau chama-se Secóia.
(José Américo II, Uma Vitória Dentro de Uma Derrota que Não Tive.  Esta Derrota Foi a Vitória do Meu Livro, Campina Grande, ed. do autor, pag. 77)
 
Uma brincadeira comum no Nordeste é pessoas de um Estado ou cidade atribuírem aos vizinhos deturpações engraçadas de títulos de filmes ou de músicas.  Em João Pessoa se diz que, em Campina Grande, a música de Erasmo Carlos “Sentado à beira do caminho” virou “De coca (=cócoras)  no aceiro da rodagem”.
 
 
NAQUELE TEMPO, ERA DINHEIRO MUITO -- Frase frequente na conversa de pessoas mais velhas, quando começam a referir quantias em moedas que já sumiram.  “Depois disso, meu avô vendeu a fazenda por cem contos de réis...  Naquele tempo, era dinheiro muito!”   “Dinheiro muito” carrega muito mais ênfase do que “muito dinheiro”. 
 
Um dia um cabra de Cabo Preto apareceu na fazenda com uma carta do chefe.  Deixou o clavinote encostado a um dos juazeiros do fim do pátio, e de longe ia varrendo o chão com a aba do chapéu de couro.  Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva soletrou o papel que o homem lhe deu e mandou Amaro laçar uma novilha.  O cabra jantou, recebeu uma nota de vinte mil-réis, que naquele tempo era muito dinheiro, e atravessou o Ipanema, tangendo o bicho.
(Graciliano Ramos, Angústia, pag. 25).
 
 
JUNTAR-SE – Amigar-se, amancebar-se, viver maritalmente.  "Depois que a mulher morreu, ele se juntou com a dona do botequim, e agora é que não sai mesmo de lá."  Existe o adjetivo "junto/a" que funciona quase como um estado civil oficial.  "Coitada de Comadre Dodô.  A filha mais velha casou mas ficou viúva; a outra é vitalina, e a mais nova é junta".
 
Baltazar (...) – Aquela menina é sua irmã?
Terezinha – É minha filha.
Baltazar – E a senhora é casada?
Terezinha – Não senhor.
Baltazar – E a senhora é junta?
Terezinha – Não senhor.
Baltazar – A senhora é viúva?
Terezinha – Não senhor.
Baltazar – E que diabo é isso?  Uma senhora que nem é casada nem junta?
Terezinha – É porque eu me casei e adepois que eu me casei o marido deixou-me.  Me abandonou-me.
(Peça popular de mamulengos, em O Mundo Mágico de João Redondo, de Altimar de Alencar Pimentel, pag. 182)
 
 
PÔPA -- A sacudidela brusca de um animal de montaria, acompanhada por uma tentativa de escoicear.  “O cavalo ficou dando pôpa no meio do terreiro, não tinha quem chegasse perto”.  Talvez tenha origem no termo náutico, "popa", que se refere à parte traseira da embarcação.
 
O uso mais generalizado acabou sendo o uso figurado, ou seja, a reação irritada de alguém: “Rapaz, minha mãe deu a maior pôpa comigo por causa da hora que eu cheguei ontem de noite”.  De um modo geral, “dar pôpa” equivale a “dar patadas”.  Existe o adjetivo “popeiro”: “Fulano é um ótimo professor, só é muito popeiro, é preciso ter paciência com as brutalidades dele.”   
 
Valentão do Mundo disse:
isso para mim é sopa;
o monstro fêz caracol
rodou e deu uma popa
saiu um fogo azulado
que quase lhe queima a roupa.
(Severino Milanês da Silva, Estória do Valentão do Mundo)
 
 
 
 
 
 







terça-feira, 21 de junho de 2022

4835) A arte do acróstico (21.6.2022)



 
Bons redatores assinam um livro iludindo olhares; teoricamente, a verdadeira arte revela-se entre segredos.
 
O parágrafo acima é um acróstico. Se você não sabe o que é um acróstico, mexa-se, bote para funcionar as pequeninas células cinzentas.
 
O acróstico é um dos muitos jogos de palavras (“wordgames”, “jeux de mots”) que são praticados há séculos, talvez há milênios, em muitas culturas, e sempre despertam nas pessoas de senso prático uma surpresa contrafeita: “Mas que besteira, que perda de tempo, para que serve isso?”
 
O acróstico, como recurso da escrita poética, por exemplo, não é muito diferente da rima. A rima consiste em repetir, a intervalos regulares, os mesmos sons, palavras que contenham sons iguais ou parecidos.
 
A rima tem o pretexto de produzir um efeito estético, quase melódico. Enquanto nossa mente intelectual decifra o “conteúdo” das palavras, nossa mente sensorial vai registrando essas repetições, uma série de pequenas expectativas sonoras que logo são satisfeitas.
 
Já o acróstico... é quase invisível. Ninguém lê um poema prestando atenção à letra inicial de cada linha, a menos que tenha uma razão prévia para isso.


Eis aqui um exemplo básico, do poeta Leandro Gomes de Barros, assinando seu nome no folheto História do Cachorro dos Mortos:
 
Leitor não levantei falso
Escrevi o que se deu,
Aquele grande sucesso
Na Bahia aconteceu,
Da forma que o velho cão,
Rolou morto sobre o chão
Onde o seu senhor morreu.

No tempo dos reis, os poetas costumavam usar o nome dos soberanos, numa coluna vertical de letras, para compor seus poemas. Poemas religiosos e devocionais eram feitos no mesmo sistema.


C. C. Bombaugh, em seu fascinante “almanaque” de curiosidades (Oddities and Curiosities of Words and Literature, Dover, 1961, ed. Martin Gardner) dá exemplos de três modalidades: o acróstico (onde palavras são formadas com as letras iniciais dos versos, lidas verticalmente), o mesóstico (o mesmo, só que com a letra mais ou menos no meio do verso) e teléstico (com a letra final de cada linha).
 
Ele chega a dar um exemplo latino, onde as três formas são usadas ao mesmo tempo:
 
Inter cuncta mitans   Igniti sidera coelI
Expellit tenebras  E todo Phoebus ut orbE
Sic caecas removet JeSus caliginis umbraS
Vivificansque simul Vero praecordia motV
Solem justitiae Sese probat esse beatiS
 
A palavra “Jesus” é formada três vezes na vertical, usando a tradição latina em que J e I se equivalem, e o mesmo para U e V.
 
Na literatura do cordel, o acróstico começou como uma forma do poeta assinar o folheto disfarçadamente, para se prevenir de plágios e apropriações. Depois que o recurso se revelou aos olhos de todos, os plagiários ficaram alerta, e ele deixou de servir de proteção. Tornou-se uma tradição, um floreio estilístico, como neste exemplo de Antonio Américo:



Assinar disfarçadamente um texto era um desafio e um passatempo para muita gente. Edgar Allan Poe, depois de ficar viúvo, teve um namoro breve com uma dama, Frances Sargent Osgood, e dedicou-lhe um poema, “A Valentine”, com assinatura disfarçada. As letras do nome dela apareciam de uma em uma: a primeira letra da primeira linha, a segunda letra da segunda linha, a terceira da terceira, e assim por diante.
 
Eis as quatro primeiras linhas do poema (que tem 20 linhas, usando as vinte letras do nome):
 
For her this rhyme is penned with luminous eyes,
BRightly expressive as the twins of Laeda,
ShAll find her own sweet name, that nestling lies
UpoN this page, enwrapped from every reader.
(…)
 
...e por aí vai. O poema completo pode ser lido aqui:
 
https://en.wikisource.org/wiki/The_Works_of_the_Late_Edgar_Allan_Poe/Volume_2/A_Valentine
 
Pode-se usar também o acróstico num texto em prosa, onde ele acaba se diluindo e praticamente desaparecendo.
 
Há um episódio literário em que um acróstico serviu de armadilha para enganar um autor. O escritor A. N. Wilson começou a escrever uma biografia de Sir John Betjeman, “Poeta Laureado” da Inglaterra. Esse trabalho provocou uma reação de ciúme de outro biógrafo do poeta, Bevis Hillier. Wilson publicou uma carta atribuída ao Poeta, e depois ficou provado ser ela uma falsificação: as letras iniciais das frases, a partir da segunda, formavam a frase em acróstico “A. N. Wilson is a shit” (“A. N. Wilson é um merda”). Depois, Hillier confessou ser o autor da “pegadinha”.
 
A imagem abaixo, que peguei na Internet, mostra uma experiência curiosa, aparentemente assinada por “Sairam Gudiseva, 3º. Período”. Ao invés de letras, usa palavras inteiras. É um trabalho escolar sobre Física Quântica, mas na vertical o autor ou autora colocou versos de uma canção pop de Rick Astley. 


As possibilidades, como sempre, são infinitas.
 
 
 
 
 





sábado, 18 de junho de 2022

4834) Chico Buarque: "Que Tal Um Samba?" (18.6.2022)



Chico Buarque deu o pontapé inicial de sua nova turnê, que começa pela Paraíba em setembro, com o lançamento online de uma canção inédita, “Que Tal Um Samba?”.
 
Aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=1yW77WeLYYc
 
A canção, pelo menos aos meus ouvidos, foge ao padrão costumeiro da canção popular que toca no rádio, o formato A-B-refrão-C, ou parecido. Não me soa como uma canção com “primeira parte e segunda parte”. É antes uma canção circular, uma canção carrossel, que desde o início propõe uma sequência de acordes em loop, e em cima deles a melodia e as letras se instalam, e começam a tecer pequenas variantes.
 
A música gira, gira, gira em torno de si mesma, e a cada volta do carrossel exibe um cavalinho novo, uma comparação esperta, uma rima bem lembrada antes de soar o gongo, ou uma síncope que dá molejo a uma estrutura baseada principalmente em cadências de 4 e de 8 sílabas.
 
Falei “circular”, mas seria mais preciso dizer que a estrutura é espiralada. De vez em quando esse círculo girante se eleva e se alarga, admite uma modulação para tom menor, que logo se conclui e retorna à base anterior. É como quando um carro vai numa pista de asfalto, pega à direita num trevo, traça uma volta completa e retorna à reta.
 
Ou como aquele avião de Santos Dumont, que avançava pela terra, aí alçava um voo confiante mas breve, flutuava, e descia para rodar na terra novamente.
 
Essa variante musical vem sucessivamente com os versos:
 
“uma samba pra alegrar o dia...”
“fazer um gol de bicicleta...”
“que tal uma beleza pura...”
 
Mas pelo meu ouvido não chega a constituir uma “segunda parte” propriamente dita. São decolagens melódicas de voo curto. (E em tudo isto não vai nenhum juízo de valor: esse tipo de canção é pra ser assim mesmo.)
 
Isso, pra mim, coloca “Que Tal Um Samba?” na mesma categoria de canções tão diferentes entre si quanto o “Samba da Bênção” (Baden/Vinícius) ou “Águas de Março” (Tom Jobim). São canções riocorrentes, em loop. Cada qual tem seu desenho próprio no interior de uma estrutura que é fechada (pela repetição quase hipnótica) e aberta – porque essa base constante oferece aos instrumentistas um território inesgotável para improvisações descontraídas; e aqui vale tirar a cartola para o bandolim de Hamilton de Holanda e suas filigranas milimétricas.
 
Quanto ao tema... O que dizer de uma canção de um autor como Chico, num momento como o atual? É uma canção convidando a sacudir a poeira e dar volta por cima.
 
Poeticamente, o que mais me atraiu foi essa célula fundamental da canção, esse quase intraduzivel “Que tal?...”, tão coloquial, tão brasileiramente intimo e igualitário. Equivale a um convite com uma cotovelada leve nas costelas do amigo, ou uma puxadinha carinhosa no braço da namorada. É um “ – Bora lá?...”, é um “ – Tás a fim?...”, uma sugestão sem compromisso mas focada, um indicador tocando o cardápio, um palpite feliz.
 
Acho que não serei o único a quem esta canção lançada ontem lembrou um pequeno clássico do primeiro LP de Chico, aquele que eu comprei na Olacanti aos dezesseis anos, talvez por dezesseis cruzeiros.
 
“Tem Mais Samba” era uma das músicas que não tocavam no rádio, ao contrário das minhas preferidas (“Olê, Olá” e “Pedro Pedreiro”). Ela é o que eu chamo de canção-manifesto, canções que se dirigem ao ouvinte para explicar-lhe a essência e o espírito de um gênero musical. Exemplos óbvios são os clássicos de Luiz Gonzaga “Baião” (com Humberto Teixeira) e “Imbalança” (com Zé Dantas), ou o “Rock and Roll Music” de Chuck Berry.  
 
Nessa canção o jovem Chico, muito circunspecto, como todo jovem talentoso buscando demarcar seu território, e com a segurança dos recém-convertidos, afirma:
 
Tem mais samba no encontro que na espera;
tem mais samba a maldade que a ferida;
tem mais samba no porto que na vela;
tem mais samba o perdão que a despedida...
 
Eu, que naquele tempo era ainda mais jovem do que ele, ficava matutando sobre estas inequações e pensava que de acordo com o soprar do vento cada formulação dessas podia muito bem ser invertida, sem perda filosófica alguma.
 
E agora o Chico septuagenário emerge com outro samba-manifesto. Menos sentencioso, menos taxativo... Agora é o Chico risonho da capa do disco, curtido, calejado, descontraído, que mesmo em tempos sombrios se limita a nos piscar o olho e a dizer: “Que tal?...”


 
************** 
 

QUE TAL UM SAMBA? (Chico Buarque)

  

Um samba,

que tal um samba?

Puxar um samba, que tal?

Para espantar o tempo feio,

para remediar o estrago...

que tal um trago?

Um desafogo, um devaneio?

Um samba pra alegrar o dia

pra zerar o jogo

coração pegando fogo

e cabeça fria;

um samba com categoria, com calma,

cair no mar, lavar a alma

tomar um banho de sal grosso, que tal?

Sair do fundo do poço,

andar de boa

ver um batuque lá no cais do Valongo

dançar o jongo lá na Pedra do Sal

entrar na roda da Gamboa...

Fazer um gol de bicicleta

dar de goleada

deitar na cama da amada

despertar poeta;

achar a rima que completa o estribilho...

Fazer um filho, que tal?

Pra ver crescer, criar um filho

num bom lugar, numa cidade legal,

um filho com a pele escura

com formosura

bem brasileiro, que tal?

Não com dinheiro,

mas a cultura...

Que tal uma beleza pura

no fim da borrasca?

Já depois de criar casca

e perder a ternura

depois de muita bola fora da meta

de novo com a coluna ereta, que tal?

Juntar os cacos, ir à luta,

manter o rumo e a cadência,

esconjurar a ignorância, que tal?

Desmantelar a força bruta,

então que tal puxar um samba

puxar um samba legal

puxar um samba porreta

depois de tanta mutreta

depois de tanta cascata

depois de tanta derrota

depois de tanta demência

e de uma dor filha da puta, que tal?

Puxar um samba,

que tal um samba?

Um samba...

 

 

quarta-feira, 15 de junho de 2022

4833) Primeiras Estórias: "Luas de Mel" (15.6.2022)



O décimo-quinto conto das Primeiras Estórias (1962) de Guimarães Rosa é uma celebração discreta ao tema do “Make Love, Not War”.
 
Joaquim Norberto é um fazendeiro idoso, ao que tudo indica um ex-jagunço, aposentado das valentias, acomodado no ramerrão da boa vida de comer e fazer a digestão na rede. Ele diz ter tido uma mocidade de “desmandos, desordens e despraças”. E agora, na fase grisalha, ocupa-se em “reconciliar, recatar e recompor”.
 
Um dia, desembarca na fazenda dele um casal de jovens, sob a proteção de um chefão rural, Seo Seotaziano, com um bilhete e o pedido para que sejam abrigados ali. O rapaz “roubou a moça pra casar”, e provavelmente os dois serão perseguidos pelos capangas do pai dela.
 
Joaquim Norberto pula da rede e toma providências, saindo “dos suspensos para os preparos”. O casal é rapidamente posto em quartos separados, e fica sob paternal vigilância. O fazendeiro arregimenta homens de armas das redondezas, além dos que já mantinha, para a hipótese de cerco e tiroteio. É uma pequena Tróia sertaneja que se esboça.
 
Passam-se dois, três dias. Chega um emissário da família da moça, que cedeu à realidade e se propõe a levar de volta os dois – que já se casaram, ali mesmo, com padre e testemunhas. E assim se vão em paz os jovens nubentes, rumo ao enfim-sós, por entre renques de homens armados de carabinas.



É uma historieta simples, sem nada de mais, e aborda um tema que não é apenas sertanejo, é nordestino e talvez brasileiro: o casal de namorados que querem viver juntos, enfrentam a resistência das famílias, e acabam fugindo para forçar o casório. Vários amigos meus casaram nesse sistema, e não foi na época em que o conto é ambientado, foi nos anos 1960.
 
Em “Luas de Mel”, o plural indica a importância dos dois casais: os jovens fugidos, e o casal de meia idade da fazenda que os acolhe: o narrador Joaquim Norberto e sua esposa Sa-Maria Andreza. A obrigação de atender um pedido do chefão protetor daquela região, Seo Seotaziano, põe em polvorosa a fazenda que andava na modorra, na rotina, na pisada vagarosa do nada-acontece. Dá uma sacudida na vida deles.
 
De um momento para outro, forma-se a defesa, mobilizam-se os pistoleiros, mensageiros são mandados às pressas para alertar os vizinhos. A fazenda Santa-Cruz-da-Onça começa a se pintar para guerra. Isso acaba elevando não apenas a temperatura bélica, mas a amorosa. Joaquim Norberto rejuvenesce, restaura as antigas forças. E, passo a passo, ele vai mudando a maneira de se referir à esposa.


Mary L. Daniel (em João Guimarães Rosa: Travessia Literária, Ed. José Olympio, 1968, pág. 158) faz a divertida enumeração dos sucessivos tratamentos que Joaquim Norberto dispensa à esposa, saboreando seu nome com lúdica formalidade (as indicações de página correspondem à primeira e à terceira edição):
 
“Sa-Maria Andreza, minha santa e meio passada mulher...” (PE, 106)
“Sa-Maria Andreza, minha correta mulher...” (PE, 107)
“Sa-Maria Andreza, minha mulher...” (PE, 108)
“Sa-Maria Andreza, minha conservada mulher...” (PE
“Sa-Maria Andreza, mulher...”
“Sa-Maria Andreza, minha...”
“Minha Sa-Maria Andreza...” (PE, 109)
“...minha sadia Sa-Maria Andreza – contemplada” (PE, 110)
“... Sa-Maria Andreza, mulher minha”
“Minha Sa-Maria Andreza, mulher...”
“Sa-Maria minha Andreza... (PE, 110-111)
“...Sa-Maria querida Andreza.” (PE, 112)
 
A gente nota assim o reaquecimento gradual das atrações pretéritas. No primeiro exemplo de todos, quando o casal ainda está na prateleira do descanso, incide o termo “meio passada”, que hoje seria considerado altamente pejorativo (lembrando até o chocarreiro “mulher rodada”). Por outro lado, a descrição que o fazendeiro faz de si mesmo é bonachona, mas nem um pouco elogiosa:
 
Por moleza do calor é que eu ficava a observar. Nesse dia, nada vezes nada. De enfastiado e sem-graça, é que eu comia demais. Do almoço, empós, me remitia, em rede, em quarto. Questão de idade, digestões e saúde: fígado. Sa-Maria Andreza, minha santa e meio passada mulher, ia ferver um chá, já, para o meu empacho. (pág. 106)
 
Joaquim Norberto é um líder rural intermediário. Ele afirma: “De pobre não me sujo, de rico não me emporcalho.” É dono de força própria, capaz de arregimentar combatentes leais, mas visivelmente submisso a Seo Seotaziano. Em cujo nome, aliás, a repetição do título (Seo = Seu = Senhor) é um reforço do respeito: o tratamento se incorpora ao nome (“Taziano”, “Taciano”) mas depois precisa ser restaurado diante do prenome modificado. E guarda a mesma função duplicadora, meio afetiva, de quando dizemos “Minha Nossa Senhora”.
 
Já vi vendedor na praia chamando um gringo: “Ô, seu míster!...”
 
E de repente desembarca ali o casal de jovens, apadrinhado e acobertado pelo mandachuva. O episódio é clássico, e a mim me lembra um dos “Mistérios” mais bonitos do “Retábulo de Santa Joana Carolina”, de Osman Lins (em Nove, Novena), em que a matriarca, sozinha, encara e peita um destacamento de jagunços que veio arrastar de volta um casal de jovens fugidos.
 
Proteger o amor alheio é proteger o amor. Joaquim Norberto e Sa-Maria Andreza se redescobrem durante aqueles poucos dias de tensão na fazenda, enquanto esperam de uma hora para outra uma invasão para tentar resgatar a moça.
 
A excitação do perigo:
 
“Homens comendo em pé, o prato na mão; alerta o ouvido. A gente, risonhos de guerra, a qualquer conta.” (pág. 111)
 
O chega-mais da valentia guerreira:
 
“—Ah, minha velha, vamos tocar rabecas...” – gracejei, limpando a parabélum. Sa-Maria Andreza, boa companheira, só disse, abanando os topes: “Aroeira de mato virgem não alisa...” Peguei na mão dela, meio afetuoso. Repensei em todas as minhas armas. Ai, ai, a longe mocidade. (pág. 108)
 
O reaquecimento da cumplicidade física:
 
Eu, feliz, olhei minha Sa-Maria Andreza; fogo de amor, verbigrácia. Mão na mão, eu lhe dizendo – na outra o rifle empunhado-: “Vamos dormir abraçados...”  As coisas que estão para a aurora, são antes à noite confiadas. Bom. Adormecemos.
Amanheci fora de horas, me nascendo dos conchegos. (pág. 111)
 
Outro aspecto interessante do conto é a convivência política entre poderes colaterais – senhores de terras com propriedades adjacentes, ou próximas o bastante para permitir o confronto de tropas rapidamente convocadas. A chegada do casal na fazenda Santa-Cruz-da-Onça leva Joaquim Norberto a se valer das tropas dos vizinhos:
 
Gente minha já galopava, nessa noite e madrugada. Um próprio à Fazenda Congonha, do meu compadre Veríssimo, por três rifles, três homens, emprestados. Pelo seguro. Povo de lá é de brasas. E um à Lagoa-dos-Cavalos, por outros três – para o meu compadre Serejério não se dar de melindrado. Bem. Eu tiro os outros por mim. (pág. 108)
 
Isso traz à mente a interpretação do Grande Sertão: Veredas de Willi Bolle (no livro grandesertão.br, Ed. Duas Cidades / 7Letras, 2004).
 
Ele vê o Riobaldo que conta a história como alguém que fez carreira dentro do sistema jagunço, e de empregado tornou-se patrão, fazendeiro estabelecido (tendo herdado as terras do seu pai biológico). Ele implanta ao seu redor, nas vizinhanças, pequenas propriedades doadas aos seus ex-companheiros de aventuras, homens de inteira confiança. E vive em paz com sua Otacília.  O Joaquim Norberto de “Luas de Mel” é decerto um personagem assim, vivendo o final-feliz possível para um personagem assim:
 
As passageiras consolações: fazer-de-conta-de-amor, o que era o meu cestinho de carregar água. (pág. 113)
 
  


 
 
 








domingo, 12 de junho de 2022

4832) O espião fantasma (12.6.2022)



 
Um curioso personagem de Alfred Hitchcock, no filme “Intriga Internacional” é o agente secreto Kaplan, com o qual Cary Grant é confundido logo no início da história. Durante grande parte da trama, o inofensivo publicitário Roger Thornhill (Grant) sofre sequestros e tentativas de assassinato por parte de outros espiões. 
 
A certa altura, Thornhill descobre que na verdade ninguém jamais vira o sr. Kaplan. Funcionários de hotéis e de aeroportos falam sobre ele com fluência... mas todos os contatos foram feitos por telefone, telegrama, etc.  Ninguém o viu em pessoa. Suas roupas estão no quarto do hotel, o sabonete foi usado, há caspa no pente... Mas ninguém o viu.
 
Kaplan não existe – é um disfarce criado pelo Serviço Secreto para desviar a atenção dos inimigos. Criou-se todo um universo de documentos falsos, recados, mensagens, fotos, registros... sobre um personagem imaginário. É o mais alto grau de rarefação em termos de falsas identidades. Kaplan é um ser humano puramente conceitual.
 
Já falei aqui (“O partido fantasma”, 2004) sobre esses truques de espiões, e sobre um inventado “partido comunista” holandês, criado pela espionagem ocidental, que durante anos enganou as autoridades da China. O partido inexistente tinha membros-de-carteirinha na Holanda (eles pensavam que o partido era de verdade), publicava jornais, etc.  Parecia de verdade, e com isso os holandeses conseguiram se infiltrar entre os comunistas chineses e descolar aqui e ali alguma informação importante.
 
Veja aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2008/09/0548-o-partido-fantasma-21122004.html
 
Uma nova variante dessas ficções políticas é narrada no bom filme O Soldado que Não Existiu (“Operation Mincemeat”, 2021), dirigido por John Madden, e que está em exibição no Netflix.
 
É uma história real da II Guerra, com uma premissa bem simples. Os Aliados estavam preparando a invasão do litoral sul da Europa, em 1943. Os generais do Eixo sabiam disso, e se preparavam para enfrentar a invasão; mas não sabiam onde ela iria acontecer.
 
Os ingleses queriam conquistar a Sicília, que estava bem defendida; tiveram a idéia de dar pistas falsas indicando que a invasão seria na Grécia, para que as defesas sicilianas fossem transferidas para lá.
 
Como fazer isso? Um grupo de estrategistas da Inteligência, do qual fazia parte o jovem Ian Fleming (criador de James Bond) deu uma sugestão. Os alemães tomariam conhecimento de que um oficial inglês, munido de uma  pasta com documentos secretos, fora descoberto, afogado, numa praia. Examinando os documentos, teriam pistas da suposta “invasão da Grécia”.
 
Começou então o fascinante processo de encontrar um corpo qualquer, muni-lo de roupas, objetos pessoais, fotos, documentos, uma história militar falsa que os espiões do Eixo pudessem consultar... E uma carta pessoal para uma autoridade, mencionado de passagem a suposta invasão da Grécia.
 
Esta é a premissa do filme, com Colin Firth à frente. Na Wikipédia há um bom verbete sobre a “Operação Mincemeat”, nome real do projeto, detalhando o modo como tudo foi concebido e executado. E aqui há um relato interessante (em português):
 
https://pt.worldwar-two.net/eventos/operacao_carne_picada/
 
É um daqueles filmes ingleses sólidos, convencionais, bem dirigidos, sem ousadias narrativas ou especulações históricas, com um bom elenco e algumas liberdades interpretativas – todo filme de guerra precisa ter um triângulo amoroso, por exemplo.
 
Filmes de espionagem nunca perdem a atualidade, ainda mais agora, quando todo mundo começa a se aperceber da existência de “fake news”, verdades cuidadosamente inventadas, construídas, impostas a um público crédulo ou desprevenido.
 
“Fake news” sempre existiram onde existiu imprensa. Walnice Nogueira Galvão, numa palestra na Flip, lembrou que na época da Guerra de Canudos, a imprensa brasileira estava cheia de notícias dizendo que o exército precisava exterminar logo os fanáticos, porque na costa brasileira havia navios com tropas monarquistas prontas para desembarcar e restaurar a monarquia, caso o Conselheiro triunfasse.
 
O Soldado Que Não Existiu mostra, no contexto de espionagem de guerra, a cuidadosa preparação de uma “notícia falsa” para passar informações errôneas ao inimigo. O fictício Capitão William Martin (nome atribuído ao cadáver do mendigo Glyndwr Michael) tem currículo militar completo, traz na pasta e nos bolsos uma porção de objetos miúdos que os membros da Inteligência britânica discutem exaustivamente – até porque seus superiores no gabinete de guerra duvidam que um plano tão mirabolante dê certo.
 
 
 





quinta-feira, 9 de junho de 2022

4831) Essa palavra existe (9.6.2022)


Toda vez que eu digo uma palavra inventada, as pessoas estranham. Falo, por exemplo: “Que comida feia a desse prato, eu é que não vou comer essas grangranhas.”  E alguém pergunta: “Mas, essa palavra existe?”
 
Claro que ela sabe que existe, pois acabou de ouvi-la. O que a pessoa pergunta, na verdade, é se a palavra é oficialmente reconhecida. Se está nos dicionários, por exemplo. E, principalmente, a pessoa pergunta (bem baixinho): “Se eu disser essa palava, alguém pode dizer que eu estou falando errado? Que eu não me alfabetizei? Que eu sou pobre?...”
 
É essa a preocupação.
 
Somos um país cartorial, como dizem alguns analistas e historiadores. Um país burocratizado, onde o Poder se exerce através de documentos: escrituras de terra, testamentos, acordos políticos, ordens de prisão, contratos financeiros... O documento é a instância mais importante da existência, e o que não pode ser confirmado por um documento não existe.
 
Vai daí que uma palavra não-dicionarizada é como uma pessoa que nunca tirou certidão de nascimento ou carteira de identidade, e oficialmente não existe. De nada adianta provar que é de carne e osso. Existe um Brasil mais elevado, que depende do país de carne e osso, mas que o transcende: um Brasil feito de papel e tinta. Ou, mais modernamente, de silício e pixels eletrônicos.
 
“Grangranha”, por exemplo, era uma coisa que meu pai dizia nesse contexto acima. Uma comida pouco apetitosa, geralmente de má aparência. Tem no dicionário? Não sei, e não ligo. Só ouvi essa palavra lá em casa. Não posso dizer que é uma expressão paraibana: talvez nem os nossos vizinhos na rua do Alto Branco a conhecessem. Mas para nós, existia, sim.
 
As palavras brotam desse jeito, inventadamente, improvisadamente, brincalhonamente, impacientemente. A pessoa quer exprimir uma idéia, mas as palavras oficiais não lhe servem nessa hora, porque são muito domesticadas, ou muito sofisticadas... Ele precisa de uma coisa mais forte, que exprima de maneira mais direta o que quer dizer, e que além disso dê um pequeno susto no ouvinte.
 
Darcy Ribeiro usava muito a palavra fazimento: o ato, o processo de fazer alguma coisa. Em inglês se diz “the making”. Ele fala do fazimento das leis, o fazimento do povo brasileiro... Muita gente acha que a palavra é canhestra, desajeitada. Não importa. Em seu lugar teríamos o quê? “Confecção”, “feitura”, “criação”, “produção”... Palavras sem muita força e pouco claras, porque têm conexões fortes com outros contextos e outros significados. Darcy se impacientava, e tascava fazimento
 
É a palavra ideal para exprimir essa idéia? Talvez não, mas é uma palavra que existe. Ninguém é obrigado a usar. Ninguém é proibido de usar.
 
O lado burlesco da política recente trouxe duas contribuições interessantes: “motociata” e “lanchaciata”. Esta última parece o nome de uma grangranha feita na Itália, mas corresponde a uma passeata de lanchas (e a outra a uma passeata de motos).
 
Isso mostra como o processo de invenção de palavras é insubordinado, desregrado, não dá ouvidos à gramática nem à etimologia (nem ao bom gosto), cria-se por mera associação ou derivação. “Passeata” vem de passos, os passos que damos com as pernas quando passeamos. Depois dele veio “carreata”, que mantém uma certa simetria e não precisa de muitas explicações. Quando surgiu “motociata” o problema ficou maior, até porque deveria se escrever talvez “motosseata”, para indicar de onde vinha, mas esses dois “SS”, que vêm de “passo”, já não tinham razão de ser; e “lanchaciata” já soa como galhofa. O problema é se inventarem um desfile coletivo de homens de negócios, porque nesse caso a imprensa vai ter que chamar de “negociata”.
 
E repito: são as palavras ideais para exprimir essas idéias? Talvez não, mas são palavras que existem. Ninguém é obrigado a usar. Ninguém é proibido de usar.
 
Expressões recentes como “mandar um zap” e “maratonar” não precisam de muita explicação, a não ser para aqueles que não costumam usar o WhatsApp e não costumam ver vários episódios seguidos de uma série. As palavras novas são inventadas em contextos onde rapidamente são compreendidas – é o mesmo processo da formação das gírias. Com o uso constante, acabam escapando para o mundo de fora, o nosso, que ouvimos aquilo pela primeira vez quando em alguns grupos já é coisa velha.
 
Uma vez eu estava trabalhando numa pesquisa e uma moça numa fábrica se referiu a alguma coisa relativa ao “instrutor” dela, que ajudou a prepará-la quando ela assumiu a função. E explicou: “Sabe o que é instrutor, né? É a pessoa que explica pra gente a instrutura do serviço.”
 
A linguagem não sofre erosão, com essas interferências. Sofre mutação genética. Não diminui: cresce. Não é um edifício, é um organismo. Podemos inventar um milhão de palavras por dia, e 99% delas sumirão na poeira sem ter merecido uma repetição sequer. Só fica o que “pega”. Só pega o que tem o mesmo DNA, o que não é rejeitado.
 
E outra – a língua brasileira não é a mesma em todo canto. Uma palavra nova pode ser facilmente aceita no Nordeste e parecer sempre estranha a ouvidos sulistas. Numa cidade como São Paulo, deve haver todo um glossário de jovens da Freguesia do Ó que jovens de Pinheiros não terão interesse em assimilar, e vice-versa.
 
O melhor de inventar palavras é quando ela surge como um improviso no meio de uma fala, como a do paciente de manicômio capaz de confessar ao jovem médico Guimarães Rosa que estava enxergando “umas pirilâmpsias”. Poesia pura.
 







segunda-feira, 6 de junho de 2022

4830) "Outer Range": as famílias karamazovianas (6.6.2022)



Entre as muitas obras-primas que nunca li, mas que às vezes é como se tivesse lido, está Os Irmãos Karamazov (1880) de Fédor Dostoiévski. É a história de um patriarca russo com três filhos, e da relação tensa e explosiva entre todos eles. Uma história que envolve patriarcado, política, homicídio, religião, poder.
 
Além da Margem (“Outer Range” 2022) é uma série de TV em exibição no Amazon Prime, criada por Brian Watkins e tendo no elenco Josh Brolin, Imogen Poots, Lili Taylor e outros. O canal de streaming já pôs no ar a primeira temporada completa, com oito capítulos.
 
É um faroeste de ficção científica, porque conta da descoberta de um portal de viagens no Tempo, localizado num terreno em disputa por duas famílias da rancheiros, os Abbott e os Tillerson. A ambientação é no Wyoming (com belas paisagens), e é explicitamente agro-pop. Há um Tillerson que quer ser cantor sertanejo, há um Abbott que quer ser peão de rodeio.
 
Como tantas outras tocas de coelho da ficção fantástica, o “buraco” descoberto na fazenda (um círculo escuro no meio da pastagem, com uns 10 metros de diâmetro, sem fundo visível) é um portal onde se entra sem saber onde se vai sair – ou quando. Tematicamente está conectado a portais semelhantes em Dark (série alemã) e em Night Sky (que comentei aqui, dias atrás: https://mundofantasmo.blogspot.com/2022/05/4828-night-sky-fc-da-terceira-idade.html .
 
Em alguns momentos, a descoberta do “buraco” e da massa escura que mina lá de dentro parece uma metáfora da descoberta do petróleo, este combustível que arruinou de forma indelével o equilíbrio biológico do planeta. Um portal para um futuro de fortunas espantosas e devastação cruel.
 
A briga dos Tillerson contra os Abbott lembra a briga de vizinhos em Giant (“Assim Caminha a Humanidade”, 1956) de George Stevens – a tensão entre Jett Rink, que fica milionário com o petróleo, e Bick Benedict, que quer continuar criando gado.  Lembra também outro faroeste moderno, Hud (“O Indomado”, 1963) de Martin Ritt, onde um velho fazendeiro criador de gado é confrontado pelo filho ambicioso e sem escrúpulos. (Comentei aqui: https://mundofantasmo.blogspot.com/2021/03/4680-crise-e-sinonimo-de-lucro-422021.html .
 
O Oeste é um campo de batalha histórico entre agricultores, criadores de gado, prospectadores de petróleo. Outer Range sugere um salto a mais, um salto futurista, introduzindo uma quarta força econômica: os portais do tempo (de cuja exploração futurista temos um breve vislumbre no Episódio 2).


Outer Range é acima de tudo uma história sobre poder, mas um poder desconjuntado, virado de pernas para o ar, onde famílias tradicionais sofrem uma erosão a olhos vistos (a imagem da mesa de jantar dos Abbott é recorrente). Onde o caos da modernização capitalista explode em pororoca contra o imobilismo das velhas fazendas. A autoridade local é uma xerife índia e lésbica; há um bar de heavy-metal onde homens de chapéu de cowboy pulam e dançam enlouquecidos; a esposa Abbott é uma matriarca severa e leal, e a esposa Tillerson é uma perua calejada e ambiciosa, que vive em estações de esqui. O Wyoming onde vive esse povo é um sertão sem Deus.
 
E assim voltamos ao conceito de família karamazoviana, porque todas essas famílias giram em torno de um patriarca que filosoficamente deveria servir de modelo moral, mas acaba sendo um problema a mais, um baú-trancado repleto de remorsos com mau cheiro. Daí que o protagonista da história toda seja Royal Abbott (nome que é uma dupla evocação de autoridade), interpretado pelo ótimo Josh Brolin (de Onde os Fracos Não Têm Vez). Royal tem dois filhos (Perry e Rhett) que não podiam ser mais diferentes – e atormentados, cada qual à sua maneira.
 
Tudo nessa família tão severa é baseado na mentira e na enganação, porque todos mentem uns aos outros sob o pretexto de proteger-se mutuamente. Só quem tem coragem de reclamar disso abertamente é a pequena Amy, a filhinha de Perry.


Os Tillerson estão em outro patamar (financeiro e conflitante) em relação aos Abbott. O patriarca, também muito bem interpretado por Will Patton, é um sujeito voraz, obcecado, fora dos gonzos, imprevisível. Os três filhos (Luke, Trevor e Billy) têm entre si uma rivalidade quase tão grande quanto a que alimentam com os dois filhos da família Abbott (Perry e Rhett). As duas fazendas parecem edificadas não sobre um campo de petróleo, mas sobre um barril de pólvora.
 
Como em qualquer série que pretende ficar no ar por alguns anos, os mistérios de Outer Range são desvelados pouco a pouco, e nesta primeira temporada convergem para um desfecho provisório. Há manadas de búfalos que emergem não se sabe de onde para atropelar as pradarias; há menção ao desaparecimento de montanhas, e ao avistamento de mastodontes, que não se sabe se são relatos verdadeiros ou “tall tales” típicos do Oeste. Há filhotes de urso feridos e indefesos que rapidamente se transformam num urso adulto e ameaçador.
 
É como se o próprio tecido do espaço-tempo estivesse se esgarçando, e encaramos isso como essas famílias rurais encaram o esgarçamento do tecido familiar. Pessoas sentam-se à mesa para a ceia, e alguém improvisa uma prece dizendo que não acredita em Deus. Um peão de boiadeiro ganha o primeiro lugar num rodeio e ao olhar para a arquibancada vê vazio o local da sua família. Uma mulher com revólver no cinto e distintivo no peito precisa se impor diante de uma população de homens agressivos usando algo que não seja apenas a arma e a estrela.


O mundo do faroeste, heróico e cavalariano (para usar um termo de Ariano Suassuna) foi criado e depois sabotado pelo cinema do século 20 ao longo de todo o século 20, quando se transformou no “cinema americano por excelência”. Logo foi invadido (como nos filmes citados acima) por automóveis, torres de petróleo, metralhadoras, máquinas fotográficas ou de escrever... E agora está sendo invadido por portais de teleporte.








sábado, 4 de junho de 2022

4829) Os reis do dinheiro (3.6.2022)



(Elon Musk)

Uma contradição permanente das democracias é que o poder vem nominalmente do povo, através do voto em representantes (no Executivo e no Legislativo), mas este é praticamente o único poder que o Povo tem. O melancólico poder de olhar uma lista que lhe fornecem e dizer: “Prefiro essa pessoa aqui.”
 
Porque poder econômico, o que de fato mexe as engrenagens do mundo, o cidadão comum (eu por exemplo) não tem nenhum. A façanha-de-super-herói dele é estar com os boletos em dia, sem dever a ninguém, e ter um extra para a cerveja no bar da esquina. 
 
E aí entram em cena os bilionários, essa casta de Super Heróis (ou Super Vilôes, conforme o ponto de vista) que hoje em dia é capaz de tudo. São muitos. Copio, do verbete da Wikipedia:
 
Em 2018, existem 2.200 bilionários (em dólar) no mundo inteiro, com uma soma de riquezas de mais de 9 trilhões, mais do que os 7 trilhões que possuíam em 2017. De acordo com um relatório de 2017 da Oxfam, os oito bilionários mais ricos possuem uma soma equivalente à das posses da metade mais pobre da humanidade.
 
E em 2019 surgiram 19 novos bilionários no mundo!




(Cory Doctorow)

O escritor Cory Doctorow publicou um texto recente em que ele questiona o modo como as democracias contemporâneas permitem essa concentração de riquezas. Ele faz uma comparação com as monarquias absolutistas, onde todo o dinheiro arrecadado ia para a família do rei, e o rei, por ser representante de Deus na Terra, podia fazer o que lhe desse na telha. Um dia, era deposto por um inimigo – que passava a ocupar seu posto e a fazer mais ou menos o que ele fazia antes.
 
Diz Doctorow:
 
Como disse o senador John Sherman ao Congresso, quando se esforçava para fazer aprovar sua histórica lei anti-truste em 1890: “Se não aceitamos um Rei como um poder político, não devemos aceitar um Rei como possuidor da produção, transporte e comercialização dos bens necessários à vida. (...) Se não nos submetemos à vontade de um imperador, não devemos nos submeter à vontade de um autocrata do comércio.”
 
A verdade é que esses indivíduos (como Bill Gates, Jeff Bezos, Elon Musk e outros) têm hoje um poder que deixa no chinelo monarcas como Luís XIV ou o Rei Leopoldo da Bélgica (aquele que foi dono do Congo e tornou-se um dos homens mais ricos da história). E esse poder não é apenas o do dinheiro. É também o do comando financeiro de tecnologias que podem ter na vida humana um impacto inimaginável no século 19.
 
A república continua a ser um sonho, uma miragem distante, mesmo na Europa e na América. Uma ficção coletiva que nos leva a votar de ano em ano. Vivemos sob monarquias. Se não as do sangue e das casas reais, a do dinheiro, do neo-liberalismo econômico, e da mitologia midiática. Assim como os reis de antigamente diziam ser os representantes de Deus na Terra (e sendo assim tudo que faziam estava certo) os bilionários de hoje são os nossos representantes. “Todo poder emana do povo, e em seu nome será exercido” – pelos bilionários, e em seu proveito próprio.


(Werner Herzog)

Numa entrevista recente ao The New Yorker, o cineasta Werner Herzog ironizou essa nossa fascinação pelos bilionários.
 
https://www.newyorker.com/culture/the-new-yorker-interview/werner-herzog-has-never-liked-introspection
 
[A corrida espacial dos bilionários] é uma competição movida a testosterona. Um indivíduo que se destaca nela é Elon Musk, porque constrói foguetes re-utilizáveis, o que é uma coisa bacana e muito nobre, mas ao mesmo tempo a sua idéia de levar um milhão de pessoas para colonizar Marte é uma obscenidade. Devíamos cuidar do nosso planeta, em vez de tentar tornar viável um planeta inóspito. Não é preciso ser cientista para perceber que colônias em Marte são um projeto sem futuro. Quanto a essa disputa dele com Bezos e outros bilionários, acho que é uma estratégia de marketing. Dá a ele o rótulo de – e estou dizendo isto entre aspas, ponha uma porção de aspas antes e depois – “visionário”. Ou seja: se você for comprar um carro elétrico, não compre dos alemães, não compre dos chineses, compre do “visionário”.
 (trad. BT)
 
Eu nem sou tão velho assim, mas me lembro de um tempo em que quando se queria dizer que um sujeito era rico dizia-se que ele morava “numa mansão” e “andava de Cadilaque”. O nível de enriquecimento a que se chegou nas últimas quatro décadas é algo que supera qualquer proeza imaginativa anterior. E o mais curioso é que se você fizer uma pesquisa no Brasil vai ver que a maioria das pessoas admira Jeff Bezos, Bill Gates, Elon Musk, etc. Por que? Ora, porque todo brasileiro acha que tem chances de virar bilionário um dia. Então, ele já vai falando bem do clube a partir de agora.
 
Por que motivo nos identificamos com os Imperadores do Dinheiro, numa república, numa democracia? Talvez porque a economia ainda esteja sujeita ao que Cory Doctorow citou acima: é um espaço onde ainda se podem realizar os sonhos de absolutismo, de poder total, um poder que não precise ser repassado de 4 em 4 anos para um oportunista qualquer, um antagonista qualquer.
 
Mesmo que Elon Musk seja filho de um dono de minas de esmeralda, os norte-americanos médios (e até os brasileiros médios) conseguem ver nele um “homem que fez a si próprio”, um meritocrata, que ficou bilionário por uma mistura de talento, esforço, e fé. Quem acha que tem essas três coisas, acha que pode juntar uma fortuna semelhante.
 
As antigas tragédias clássicas (desde as gregas até as elisabetanas) se concentravam nos reis porque eles eram o símbolo do povo. Rei triunfante, povo vencedor. Rei alquebrado, povo enfraquecido.
 
Nossos “reis do dinheiro” cumprem um papel parecido, com um detalhe diferente. Eles não foram empossados no trono por desígnio divino. Eles se elevaram da multidão informe e sem rosto, e se tornaram super-homens, dotados de um super-poder. É o mesmo sonho dos garotos pobres que graças à música popular ou ao esporte se tornam milionários – só que um sonho elevado a uma potência maior.
 
É o garoto que nasce nos Alagados, Trenchtown, Favela da Maré. Ele tem todo o direito de sonhar em ser um Neymar ou um Michael Jackson. Tornar-se bilionário como Musk ou Bezos é “outro patamar”, mas o direito ao sonho é o mesmo. Eles são vistos como visionários (como disse Herzog), e é esse o seu carisma: transformam cada um de nós num visionário, num cara que “acredita”.