terça-feira, 11 de agosto de 2020

4609) O mistério das figuras de cera (11.8.2020)

 


Sigmund Freud elegeu, como um dos elementos mais propensos a nos transmitir a impressão do Estranho, do sobrenatural, do Unheimlich, a reprodução de figuras humanas sem vida – bonecos, estátuas, etc.  Quanto mais parecido com um ser humano, mais inquietante torna-se aquela imagem. Recuamos instintivamente, porque percebemos que tem algo estranho ali. E tem. Não é uma pessoa. Não tem vida.


As reflexões de Freud sobre o Unheimlich (“the Uncanny”) mostram uma zona limítrofe entre o ser e o não-ser. Há atualmente uma expressão muito usada hoje, no tempo das recriações digitais: “The Uncanny Valley”, O Vale do Estranho. É esse vacilo da razão em que vendo uma imagem somos incapazes de saber se aquilo é ou não uma pessoa. Sentimos essa estranheza que é um misto de susto, medo e repulsa.

 

Assunto importante, numa época de deep fake, falsificações digitais capazes de pegar (como já vi na web) uma cena de Onde os Fracos Não Têm Vez e substituir a imagem de Javier Bardem pela de Arnold Schwarzenegger, dizendo as mesmas frases, lançando os mesmos olhares, movendo do mesmo modo cada músculo do rosto.

Aqui:  https://www.youtube.com/watch?v=CO5ydSJzxLk


Sem falar nas imagens digitais criadas do nada, mas tão aparentemente reais quanto uma pessoa de verdade. Como Rei Toei, a cyber-cantora de Idoru (1996) de William Gibson, tão linda que um cantor de verdade se apaixona e quer casar com ela. Tão perfeita que a projeção 3-D de sua imagem num palco ou num restaurante requer “um iceberg, não, uma Antártida de informação binária”, diz alguém.

 

É o mesmo Gibson que já nos anos 1990 nos imaginava vendo na TV de casa uma versão de Casablanca com nossa imagem e nossa voz substituindo Humphrey Bogart.

 

As imagens de cera têm um papel importante nessa história, pela mitologia que criaram em torno de si. A partir do século 17, essa arte foi capaz de reproduzir com fidelidade espantosa as feições de uma pessoa. E de absorver toda a mística uncanny da ausência-presente.


Marina Warner, em seu livro Phantasmagoria (Oxford University Press, 2006) analisa as reproduções do corpo e da alma humana em dez capítulos (“Wax”, “Air”, “Clouds”, “Light”, “Shadow”, “Mirror”, “Ghost”, “Ether”, “Ectoplasm”, “Film”).

 

No primeiro destes, ela passa um pente-fino na história das imagens de cera. Imagens religiosas adoradas em catedrais e santuários. Reproduções anatômicas para o estudo da medicina. Museus de figuras históricas, como o de Madame Tussaud. “Carnivals” de barracas ambulantes com mostruários de vidro exibindo reproduções em cera de doenças, deformidades, males venéreos, raridades teratológicas que o mundo inteiro sempre pagou para ver.

 

A cera, segundo ela, tem a propriedade (em comum com o alabastro) de absorver luz, em vez de defleti-la, e assim parece emitir luminosidade de dentro para fora. Depois que se resfria, tal como o vidro, a cera não pode mais ser moldada, apenas quebrada.  Sua extrema maleabilidade quando ainda quente permite fazer moldes perfeitos por contato – e ela conta histórias arrepiantes de Madame Tussaud e seus assistentes, nos necrotérios da Revolução Francesa, fazendo moldes dos aristocratas decapitados. Por seu envolvimento com a realeza, a Madame acabou se transferindo para Londres em 1802, onde estabeleceu a sede do seu museu em 1835.


(Museu Tussaud, Londres: Madame Tussaud moldando)

Marina Warner lembra que essa febre por simulacros de cera coincidiu com o auge da popularidade do romance Gótico, e de seus descendentes como o Frankenstein (1818) de Mary Shelley. O Museu Tussaud, em Londres, tinha uma secção chamada “A Câmara dos Horrores”, com reconstituição de crimes e criminosos célebres. O terror vinha se somar à sensação do “uncanny valley”. E essa sensação é permeada pela uma fascinação erótica.

 

Diz Marina Warner que o século 18 teve “uma nebulosa convergência entre ciência e libertinagem”: o estudo de minúcias anatômicas não estava destituído de uma carga de fetichismo e de exploração pornográfica. A imagem mais antiga, hoje, do museu é a chamada “Sleeping Beauty”, a Bela Adormecida: uma mulher jovem que dorme num canapé.


(Museu Tussaud, Londres: Sleeping Beauty)


Digressão: há um episódio divertido envolvendo Jards Macalé, que quando morou em Londres nos anos 1970, junto com os tropicalistas exilados, tomou um ácido lisérgico e foi visitar o Museu Tussaud, tendo, diz ele, se apaixonado imediatamente pela Branca de Neve, e sendo retirado do museu aos prantos. Ele conta essa história no documentário de Geneton Moraes Neto A labareda que lambeu tudo (2011). Embora no relato ele fale em “Branca da Neve”, tudo indica que se trata da “Bela Adormecida”, inclusive pelo detalhe, lembrado por ele, de que um delicado mecanismo de relojoaria faz o peito da estátua deitada se expandir e se abaixar ritmicamente, dando a impressão de que respira (Marina Warner, pág. 47).

 

O filme, aqui. A fala de Macalé está em 1:18:00.

https://www.youtube.com/watch?v=WetMubGVcAo

 

Ao que se diz, a modelo para essa estátua teria sido a famosa Madame Du Barry (1743-1793), amante de Luís XV, guilhotinada na Revolução Francesa.

 

Aqui entra a minha memória afetiva pessoal. O que sei eu de Madame Du Barry, a beldade capaz de apaixonar um rei em vida, e um poeta brasileiro em simples efígie?


(Mme. Du Barry)

O bolero “Escultura”, de Nelson Gonçalves e Adelino Moreira, cantado por Nelson no filme O Camelô da Rua Larga (1958), de Eurides Ramos, conta a história de um homem que precisava criar para si mesmo a mulher ideal e recorre a detalhes de mulheres famosas (tal como o Dr. Frankenstein o fez com partes do corpo de vários cadáveres) para inventá-la. A certa altura, a letra diz:

 

Em Gioconda fui buscar o sorriso e o olhar;

em Du Barry o glamour.

E para maior beleza dei-lhe o toque de nobreza

de Madame Pompadour.

 

Nelson Gonçalves, “Escultura”:

https://www.youtube.com/watch?v=kXPm32kA-zI

 

A letra da canção é um raio-X curioso do nosso bolero, canção masculina em sua essência, o gênero mais revelador do que os homens brasileiros medianos pensavam (e ainda pensam) sobre a mulher, o amor e o sexo. Entre as mulheres convocadas para contribuir com a “escultura” ideal, estão Dulcinéia, Frinéia, a Virgem Maria, Gioconda, Du Barry, Mme. Pompadour.

 

E assim de retalho em retalho terminei o meu trabalho

o meu sonho de escultor;

e quando cheguei ao fim tinha diante de mim

você, só você, meu amor...

 

Das mulheres citadas temos três cortesãs famosas (Frinéia, Du Barry, Pompadour), duas figuras mais ou menos neutras (Dulcinéia, a amada platônica de Dom Quixote; e a Mona Lisa, cuja verdadeira identidade se debate até hoje). E Nossa Senhora, coitada, tendo que equilibrar sozinha os pratos dessa balança lúbrica.


O homem vê a mulher como uma boneca de cera, uma escultura, uma figura dúctil, maleável, que ele pode moldar a seu gosto, vestir e desvestir como lhe apraz, fazê-la representar papéis. Como faz o personagem de Scotty em Um Corpo Que Cai (filme de Hitchcock, também de 1958): ele tem um ideal de mulher na cabeça e quer que a mulher real à sua frente encarne essa fantasia.

(Um Corpo que Cai)


Madame Du Barry, bela e adormecida para sempre, está no Museu como a prostituta adolescente próxima e intangível do velho personagem de Garcia Márquez em Memória de Minhas Putas Tristes (2004), por sua vez inspirado nas cortesãs-meninas de Yasunari Kawabata em A Casa das Belas Adormecidas (1961).

 

Elas estão numa espécie de Uncanny Valley moral / afetivo / sexual / psicológico onde o homem oscila: essa criatura à sua frente é uma boneca ou uma mulher?

 

Eu passei minha casta infância e fescenina adolescência ouvindo canções deste tipo:

 

“Boneca de Pano”, de Assis Valente (com 4 Ases e 1 Coringa):

“Em vez de boneca de louça, hoje é boneca de pano, em um sombrio cabaré...”

https://www.youtube.com/watch?v=5Cp-LCGbiTs

 

“Boneca Cobiçada”, de Bolinha e Biá (com Palmeira e Biá)

“Boneca cobiçada das noites de sereno, teu corpo não tem dono, teus lábios têm veneno...”

https://www.youtube.com/watch?v=NevYSMS3EVw

 

“Boneca”, de Antonio Marcos, Celso Clóvis e Waldemar Soutello (com Ângela Maria)

“Boneca / ele falou quando passei / com um jeitinho / que eu gostei...”

https://www.youtube.com/watch?v=zgQvVL1gDg8

 

“Meu Vício é Você” de Adelino Moreira (com Nelson Gonçalves)

“Boneca de trapo, pedaço da vida, que vive perdida no mundo a rolar; farrapo de gente que, inconsciente, peca só por prazer, vive para pecar...”

https://www.youtube.com/watch?v=9vMBbcS4dEw&t=96s

 

É curioso perceber que pelo contexto de cada canção a boneca é sempre um sinônimo da prostituta, e não da moça de família. Boneca é um termo com que o homem busca a intimidade. A mulher que ele cobiça não se distingue muito, nesta última canção, da “bonequinha de luxo” de Truman Capote e Blake Edwards, no filme com Audrey Hepburn:

Boneca noturna que gosta da lua,

que é fã das estrelas, e adora o luar;

que sai pela noite e amanhece na rua

e há muito não sabe o que é luz solar.

 


(Museu Tussaud, Shangai: Audrey Hepburn)



É essa boneca dúctil, dócil, passiva, que ele procura, num sentimento não muito distante deste expresso por Rainer Maria Rilke, citado por Marina Warner (p. 55), a respeito da função das bonecas nas brincadeiras da infância:

 

Eu sei, eu sei que era necessário para nós possuir coisa desse tipo, que aquiescem em tudo. As mais simples das relações amorosas eram algo além da nossa compreensão; não seríamos capazes de viver e de lidar com uma pessoa que fosse alguém; na melhor das hipóteses, poderíamos apenas adentrar essa pessoa e nos perder lá dentro. Com a boneca, éramos forçados a assumir uma posição assertiva, porque, se nos submetêssemos a ela, então não haveria mais ninguém ali... ela era tão abissalmente desprovida de fantasia que nossa imaginação tinha que se tornar inesgotável, para poder lidar com ela.

(R. M. Rilke, “Some Reflections on Dolls – Occasioned by the Wax Dolls of Lotte Pritzel”, trad. BT)



(Museu Tussaud, Madrid: Marilyn Monroe)





sábado, 8 de agosto de 2020

4608) Entrevistas Transcendentais: Philip K. Dick (8.8.2020)

 

O carro, um Cadillac rabo-de-peixe, veio devagar ao longo da rua longuíssima e larga, sem prédios, sem muros. Fiquei olhando os gramados em diferentes tons de verde, casas largas de um ou dois andares, espalhando-se sem culpa por um terreno amplo. Árvores aqui e ali, céu brilhante, bem californiano. No horizonte erguiam-se colinas azuladas, pintalgadas pelas fachadas das mansões.

 

Paramos mansamente junto à calçada rebaixada, em frente ao endereço que eu trazia de cor. Desci, e quando me virei na direção da casa, ele já vinha devagar em minha direção. Calçava chinelos, e trajava uma calça preta, folgada, uma camisa de estampa colorida com as mangas arregaçadas, aberta na frente, deixando ver a camiseta branca que cobria o tórax possante e a barriga de cervejista. “Hail Brazil!”, ele exclamou, com a mão estendida. Apertamos as mãos, ele me abraçou como se eu fosse um amigo que não via há anos, e me conduziu para dentro de casa, com o braço paternalmente sobre os meus ombros.

 

BT – Obrigado por me receber, não sabe o trabalho que tive com a burocracia.

 

DICK – O prazer é meu. Sabe, há sempre uma fila de pessoas querendo ter a chance de uma conversa assim. Por mim receberia todos. Não é mais a mesma coisa. O mundo mudou, e a gente tem que aproveitar o que pode, dentro dos limites que tem. Mas quando vi suas recomendações separei logo seu nome, porque fiquei curioso. Seus ex-professores, suas atividades... Vamos entrando.


A casa ampla era na verdade um conjunto de apartamentos, com dois andares, virados para um pátio interno, onde subimos uma escada. A sala tinha a mobília previsível: posters de rock e de cinema nas paredes, uma estante de prateleiras simples atulhadas de livros, outra estante de madeira, fechada, com vidraças, onde pareciam estar obras de tamanho maior. Poltronas simples, tapete simples, uma ótima vitrola estéreo modelo 1980 e uma prateleira de vinis com uns dois metros de extensão.

 

Ele se inclinou sobre uma mesinha, onde havia uma bandeja com xícaras, etc., e uma garrafa térmica.

 

DICK – Como você é brasileiro, sei que não recusará um café. Se bem que muitas pessoas de fora se queixam do café daqui da América. (Serviu as xícaras, pus açúcar, bebi; o café estava ótimo.)  Dizem que nosso café é fraco, mas esses espressos atuais me dão dor de cabeça. Isto é arriscado – para quem tem um histórico médico como o meu, não acha?

 

BT – Meu café é exatamente como o seu. Faço um pouco mais fraco para poder ficar bebendo, em maior quantidade, ao longo do tempo.

 

DICK – Exatamente! Criou-se em torno do meu nome uma mística das drogas, mas deixe-me ser honesto, se criássemos uma escala de avaliação das drogas tendo num extremo um máximo de efeito positivo sobre a mente e no extremo oposto um mínimo de efeitos nocivos sobre a saúde, tenho certeza de que o café estaria situado num ponto ótimo entre os dois. Todas as outras drogas perdem pontos numa direção ou na outra, e acredite-me, já experimentei muitas.

 

BT – Mr. Dick, sem dúvida contam-se muitas histórias suas a esse respeito. Li em alguma parte, talvez num artigo de Paul Williams, que o senhor teve uma experiência com LSD mas tudo que escreveu saiu em latim ou em sânscrito...

 

DICK (erguendo um dedo em advertência) – Phil. Me chame de Phil. E sim, Paul está correto, aconteceu algo desse tipo, e o mais interessante é que eu compreendia tudo que estava ouvindo, mas tentava transcrever foneticamente, o que não faz sentido. Além do mais, eu olhava para o teclado da minha máquina, era uma Remington, e não achava as letras que estava procurando, mas não podia perder tempo, porque não só ouvia as vozes, o que os meus personagens estavam dizendo, eu tinha que transcrever os diálogos completos, e também dizer o que eles estavam fazendo, mostrar o ambiente... e eu não reconhecia as palavras, mas sabia o que significavam. Era um pouco como o fenômeno místico do “falar em línguas desconhecidas”. Você deve ter familiaridade com certos conceitos da psicologia e da linguística contemporânea, em que se determinadas áreas do cérebro forem estimuladas elas poderão produzir idéias não-verbais semelhantes às que temos às vezes nos sonhos. Sonhamos com algo e ao acordar, mesmo lembrando de tudo com clareza, percebemos que não há palavras associadas àquela impressão tão vívida, tão forte, que nosso cérebro retém.

 

BT – Achei interessante esse aspecto de que você parecia estar “vendo” a cena, e precisando descrevê-la.

 

DICK – Pelo que vi, você também é escritor, certo? Então você deve ter tido experiências similares, em algum momento. É como se estivesse acontecendo algo num palco, ou numa tela de TV, mais precisamente. É algo meio independente de nossa vontade. Não são visões no sentido religioso da palavra, eu diria antes que se trata de um processo imaginativo tão sofisticado que adquire um sistema operacional próprio, não necessita de decisões da nossa consciência para elaborar cada detalhe.

 

BT – Robert Louis Stevenson dizia que com ele acontecia um processo semelhante. Bastava-lhe fechar os olhos, às vezes, para presenciar pequenas cenas, onde aconteciam coisas que o deixavam totalmente surpreso.

 

DICK – Acho que acontece com muitos de nós. Como se tivéssemos duas mentes rodando em paralelo, uma delas imaginando situações e projetando nessa “telinha” que vemos com os olhos fechados, e a outra sendo capaz de olhar e de anotar o que está vendo. Porque para mim todos eles são reais, ou pelo menos tão reais quanto eu. Joe Chip é real. Ragle Gumm é real. Eu vejo o que acontece com eles mas não tenho poder de influir naquilo, assim como não tenho poder de influir num filme que passa na TV.

BT – Sempre fiquei admirado com a sua capacidade de escrever sem parar durante 15 ou 20 horas, de terminar um romance de três ou quatro dias.

 

DICK – Justamente por isso: porque não posso parar. Aquilo não para de acontecer, e eu tenho que ficar anotando. Se parar para fazer uma refeição e dormir, quando conseguir ligar aquilo de novo tudo já acabou, tudo já aconteceu. Se tiver sorte, está acontecendo uma história diferente, com outras pessoas, e então lá vou eu de novo. Mas a primeira história se perdeu.

 

BT – Você deixa muitas histórias inacabadas? Eu deixo centenas.

 

DICK – Ah, mas talvez você não dependa tanto da venda essas histórias, para sobreviver! Quando a gente vive disso, tem que terminar as histórias. Assim, há histórias que me arrebatam de início, seja um conto, seja um romance, e eu vou correndo atrás dela, horas seguidas, dias seguidos, mas aí acontece qualquer coisa, porque a vida da gente está sujeita a interferências, e preciso interromper. Depois, tudo acabou, não existe mais a visão inicial mas eu preciso me obrigar a terminar aquela história que não entendo mais, não sei mais o que os personagens queriam fazer... Às vezes a história se interrompe sozinha.

 

BT – Tenho essa impressão com Time Out of Joint, a história simplesmente se detém.

 

DICK – Pode ser. Tive algo parecido com Flow My Tears. Posso lhe oferecer um uísque?

 

Aceito; não é minha bebida preferida, mas não posso perder uma chance como esta. Dick continua falando enquanto serve duas doses otimistas de Laphroaig, gelo e soda, entrega-me uma. Começa a passear pela sala, de copo em punho, desafiador, altivo, baronial; passa os dedos pela barba alvinegra, com os olhos brilhando, parece a ponto de levantar voo.

 

DICK – Uma das minhas teorias a respeito das drogas, da maioria delas, é que elas não trazem inspiração, no sentido de que não fornecem idéia nenhuma. As idéias, pelo menos as idéias literárias, que são do reino da minha experiência pessoal, decorrem de um processo intelectual desencadeado por fatores emocionais. Veja o caso do álcool, por exemplo. Podemos passar o resto da tarde bebendo aqui, conversando, e iremos nos entusiasmando, porque a bebida nos provoca essa inebriação, essa euforia. Ela não dá idéias nem a mim nem a você. Acontece que – vamos fazer uma comparação com dirigir automóveis – as idéias intelectuais, para fluírem, requerem que o automóvel esteja na terceira ou quarta marcha, esteja avançando com bastante rapidez. Elas não ocorrem num carro parado. Quem põe o “carro” da nossa mente em movimento? As emoções. Um indivíduo deprimido, e olha que eu sei o que é depressão, não produz idéias, ele é incapaz de desenvolver uma história equivalente a “boy meets girl”, está além de sua capacidade. É a emoção que esquenta nossa mente e nos faz produzir idéias, quando vamos trocando de marcha e entramos na velocidade necessária. Nesse momento, nosso cérebro está excitado pelas emoções, o que acontece nele (Já sentado novamente, PKD ilustra pequenas “explosões” prendendo as pontas dos dedos com os polegares e soltando-as bruscamente) são girândolas de pensamentos. É o enthusiasmus, uma palavra latina que vem do grego, indicando que estamos possuídos por um espírito. Que espírito? Ora, o nosso.

 

BT – E o LSD? Os alucinógenos em geral?

 

DICK – Boa questão. Neste caso, é diferente. As drogas psicodélicas produzem alterações químicas permanentes no cérebro, se não permanentes, pelo menos demoradas, que custam a se dissipar; portanto, são de outra natureza. Por isso tenho certa retração em relação a elas, porque como você deve saber tenho tendências paranóides às vezes, esquizofrênicas, não quero ultrapassar certos limites. Mas as anfetaminas, as coisas que compramos na farmácia não são psicodélicas. Elas mexem com nosso estado emocional, acelerando-o, retardando-o, produzindo energia... São mais seguras, mais fáceis de controlar, embora também tenham um custo para o organismo, disso tenho consciência. Pago um preço. Mas e daí? Os livros ficam. 

 

BT – Nessa direção, eu diria que seus livros mais poderosos são Palmer Eldritch e Scanner Darkly.

 

DICK – São dois dos meus preferidos, porque sinto que neles fui bastante longe em assuntos que me tocam muito de perto, têm a ver com minha história pessoal. Alguns críticos elogiam o que esses livros têm de visionário ou de fantástico, outros até se queixam deles por esse mesmo motivo, mas para mim é como se fossem pedaços de um diário que eu tivesse mantido em certas fases da minha vida. Não tenho diário, meu diário são meus romances. Aquelas pessoas são eu.

 

(Editora Aleph, São Paulo)


BT – Você é os seus vilões, também? Você é Howard Straw, é Palmer Eldritch?...

 

DICK – Num certo sentido. Eu não sou Eldritch, no sentido de que ele não parece com a imagem que tenho de mim mesmo; ele pode ser a encarnação da minha percepção do Mal. Palmer Eldritch é uma criatura infra-humana, ao invés de sobre-humana, por maiores que sejam os seus poderes artificialmente aumentados. Ele me desperta terror, como desperta também em muitos leitores, ou pelo menos é o que ouvi dizer. Vejo-o em minha mente – e foi daí que surgiu sua imagem – como aquelas casamatas de cimento da I Guerra, duas aberturas horizontais no lugar dos olhos, onde ficam ocultos os canhões. É essa imagem destrutiva que brotou na minha mente como representação do Mal. Dei-lhe um nome, um corpo, uma história, e ele foi arrastando tudo. Mas também sou Leo Bulero, o homem comum que vive à sua sombra.

 

BT – Há uma certa unanimidade, sobre o fato de seus protagonistas não serem heróis de inteligência superior, coragem superior, qualidades superiores. São o Zé da Silva que trabalha num supermercado, num escritório, no balcão de uma loja... sujeitos comuns que de repente enfrentam poderes cósmicos ou grandes catástrofes.

 

DICK – Sim, porque eu sou um desses. Tenho minha vaidade, talvez, mas nunca me considerei um indivíduo excepcional, pelo menos em relação aos meus colegas escritores, aos meus amigos, à rapaziada da rua que vinha fumar maconha da minha casa. Eu me acho um cara comum e sei o que os caras comuns pensam.

 

BT – O que não impede que você tenha também seus personagens “maiores que a vida”.

 

DICK – Sim, porque como todo sujeito comum eu também tenho uma admiração meio infantil por heróis. Eu admiro muitos desses líderes: Sadat, Kadhafi, Che Guevara... Uma admiração meio irracional em alguns pontos, talvez, mas é a admiração que nós, os Zés da Silva, sentimos pelos homens que enfrentam os desafios do Poder.



BT – Gino Molinari, o governante mundial em Now Wait For Last Year, é um grande personagem.

 

DICK – Sim! Ele é imprevisível, ele morre, ele ressuscita, ele trai, ele manipula, ele blefa e ganha, ele vai para a cama com uma adolescente... Ele é cheio de defeitos, é mentiroso, é covarde, é aproveitador, mas é uma figura vital, ele não é Palmer Eldritch, que tem a energia da morte.

 

BT (olhando o relógio) – Phil, eles dão muito pouco tempo à gente. Eu ficaria aqui um dia inteiro, ou mais.

 

DICK (levantando-se, olhando o relógio da parede) – Eu também. Não posso me queixar. Todo dia vem uma pessoa diferente, pena que não posso encher a sala de gente, como em outras época, mas enfim... Vamos, é perigoso se atrasar.


Descemos os degraus, passamos pelo pequeno pátio e saímos de novo para a rua. Volto a olhar o relógio: faltam poucos minutos para o limite que me deram. Ele para na calçada, com o peito estufado, as mãos nos quadris. Faz um gesto com o queixo apontando a casa.

 

DICK – Não sei se percebeu... Aqui fora é Fullerton, aquele redutozinho republicano, chego a pensar que estou em Stepford. Minha sala lá dentro é minha sala em Santa Ana, mas não sei se você reparou.

 

BT – Não, não percebi, mas acho interessante.

 

DICK – Claro. Afinal, desde que nascemos vivemos num idio kosmos, numa simulação do que nossos sentidos nos informam, uma simulação permanentemente renovada. A realidade tem uma forma diluída, que é o mundo da matéria à nossa volta (faz um gesto largo, mostrando o ambiente). E uma forma concentrada, que é a mente humana, onde essa matéria é reprocessada. É como o oxigênio diluído que respiramos, e o oxigênio em combustão na chama de um fósforo. A mente é a chama do fósforo.

 

BT – Uma boa imagem.

 

O carro que me trouxe vem se aproximando. Olho para longe, e o horizonte que antes me parecera nítido agora está brumoso, desfocado, com pouca resolução; e não tem mais colinas, é como um areal amarelado, desbotado, que se expande e avança em nossa direção. Ergo os olhos: começa a anoitecer, o céu tem uma bela cor violeta com estrelas douradas, mas num determinado ponto a noroeste há um retângulo negro, vazio, como o local de onde uma placa se despregou. Aponto para lá e gracejo com Phil:

 

BT – Eles precisam construir um universo que não se faça em pedaços.

 

DICK (Olha para cima, mas parece não entender) Sim, parece que é mesmo.

 

O carro para junto ao meio-fio; o motorista faz um gesto, dizendo que eu me apresse. O mundo em volta começa a escurecer. O horizonte está se quadriculando em pixels cada vez maiores.

 

BT (estendendo a mão) – Phil, foi um prazer poder vir até aqui, conversar com você. Se cuida. Toma um spray de Ubik.

 

DICK – Ubik? (aperta minha mão) O que é isso?

 

Seu olhar está se esvaziando, está com aquela expressão lancinante de um pai com Alzheimer. Ergue a mão, numa despedida vaga, hesitante, volta para dentro de casa arrastando os chinelos. Entro no carro. O motorista acelera e comenta: “É sempre assim, ele sempre estoura os cinquenta minutos, adora conversar”.

 


(Nota necessária: esta série de "Entrevistas Transcendentais" é composta por textos imaginários. Eu não entrevistei essas pessoas.) 

Augusto dos Anjos:

Julio Cortázar:

Agatha Christie:





quarta-feira, 5 de agosto de 2020

4607) O Resumo da Ópera (5.8.2020)



“O resumo da ópera” é uma expressão coloquial muito popular e que se usa a respeito de tudo, não tem nada a ver com o canto lírico. Já teve até uma boate com esse nome no Rio de Janeiro. Alguém chega de viagem e você diz: “Como é que foi lá na Paraíba? Me faz aí o resumo da ópera”.

 

Matutando a respeito, deduzi o seguinte. Muitas pessoas vão para a ópera (ou iam) por se tratar de um hábito social, mas não tinham o menor interesse ou familiaridade com aquilo. Eram como aqueles caras que vão à missa porque a esposa é católica, e lá ficam o tempo inteiro pensando no futebol ou no pôquer.

 

As pessoas iam à ópera e ficavam perdidonas durante duas ou três horas. “Por que os homens estão todos vestidos de faraó?” perguntavam. “Por que a mulher de roxo está chorando?”  “O rapaz de botas foi preso pelos lanceiros, gente, o que foi que ele fez?” “Ele arrancou a orelha do outro com uma mordida!”  E assim por diante.

 

Daí inventaram os famosos resumos, distribuídos à entrada na forma de folders ou de caderninhos sofisticadamente impressos. “O Conde d’Alfazema é um viúvo, poderoso e solitário, que jurou nunca mais se apaixonar. Um dia...”  A situação básica é descrita, cheia de spoilers, e enquanto todo mundo se abana à espera do começo alguém pode ler tudo aquilo, ficar com uma idéia básica da função de cada coro e de cada dueto, e quando a cortina se abre seja o que Deus quiser.

 

Penso isto porque uma das coisas mais difíceis é resumir uma história. Uma vez entrei num projeto de roteiro onde o edital pedia que a gente mandasse uma frase capaz de condensar o filme, de forma inconfundível (eu pensei logo em “O Filho Que Era a Mãe”) e depois pedia uma descrição, um resumo e uma sinopse.

 

Já li em algum manual que quem faz um filme deve ser capaz de contá-lo em uma linha, em um parágrafo, em uma lauda, em dez laudas e em 120 laudas. Em princípio, concordo. Porque se for um filme profissional, de grande produção, quem trabalha com divulgação vai precisar a toda hora informar pessoas “de fora” do que trata o filme. Por questões de publicidade, regulamentação, parcerias, patrocínios, etc. E dependendo da circunstância, essa lauda, ou essas dez laudas, serão tudo que o co-financiador vai ler sobre o filme (porque está lidando com dezenas deles ao mesmo tempo). O filme tem que estar todo ali, com clareza.

 

O problema é que um filme é como o elefante da parábola dos cegos. Cada cego o apalpa num ponto diferente (a tromba, as pernas, as orelhas) e descreve o que está sentindo.



Digamos um filme relativamente simples e famoso como O Mágico de Oz. Digamos que chega às mãos de um possível co-produtor da Tailândia estes dois resumos:

 

A)

“Uma menina que mora na fazenda dos tios é conduzida para um país fantástico onde faz três amigos, cada um numa busca pessoal, e os 3 se juntam para protegê-la. Eles se envolvem em aventuras, passam por perigos e no final os amigos conseguem o que queriam, e a menina volta para casa.”

 

B)

“No interior do Kansas, visto em preto-e-branco, a menina Dorothy sonha com o arco-íris, até ser arrebatada por um tufão e cair no maravilhoso e colorido País de Oz, onde uma série de números musicais pontua seu duelo com uma Bruxa Malvada e sua busca da Cidade de Esmeralda onde vive o Mágico capaz de mandá-la de volta para casa – o que acontece finalmente.”

 

O produtor fica entusiasmado. “Vamos produzir ambos os filmes! Queremos variedade!”

 

São duas descrições bem diferentes, cada uma delas enfatizando outros elementos. Cada uma informa detalhes que não são referidos na outra. Qual das duas está certa, qual está errada? Em princípio, nenhuma está errada. Mas eu diria que a primeira, que fala em valores pessoais e psicológicos, seria um bom resumo para enviar à Liga da Decência ou órgão semelhante, que está interessada na mensagem humanista e moral da história. A outra, que enfatiza os aspectos “cor/P&B” e “números musicais”, poderia ir para a mesa do dono de uma cadeia de salas de exibição.

 

Sempre é possível resumir um filme, em poucas linhas, de maneira a qualquer pessoa poder reconhecê-lo sem ver o título.

 

Sempre é possível resumir um filme, em poucas linhas, de maneira a dar uma noção completamente errada a seu respeito, e sem mentir.

 

Tudo consiste em saber selecionar, saber escolher o que dizer. É um pouco como a arte da caricatura. Nada é mais diferente de um retrato (=uma fotografia) do que uma caricatura, com suas deformações bizarras, seus exageros, suas tortuosidades, suas lacunas...

 

O que faz o caricaturista? Ele percebe, porque treinou seu olho para isto, quais são os elementos mais característicos, mais inconfundíveis daquele rosto, e os reproduz, exagerando-os de tal modo que é só bater o olho e a gente diz quem é.

 

Como nesta série do paraibano William Medeiros:

 

Há uma brincadeira interessante proposta por Umberto Eco em seu livro Diário Mínimo (Record, 1994, trad. Sérgio Flaksman). Umberto Eco é um intelectual que admiro muito porque ele tem bom-humor, gosta de abobrinhas, de trocadilhos, de ludismo verbal gratuito. Admiro os intelectuais sérios, mas me sinto mais à vontade com os que gostam de curtir irrelevâncias, tretas, memes, apelidos...



Naquele livro, que reúne muitas de suas publicações informais na imprensa italiana, Eco propõe a seguinte brincadeira:

 

O LIVRO MASCARADO

O jogo, que me foi proposto por Omar Calabrese, consiste em extrair de uma obra famosa sua trama essencial, e narrá-la de maneira correta, mas criando algumas dificuldades de identificação de modo a fazer supor que se trate de outra obra. O título deve ser enganador e distanciar o leitor da solução. (p. 263 e seguintes)

 

Aqui vão alguns exemplos propostos por Eco. Para não dar spoiler, indico a resposta através de um link, para quem quiser conferir.

 

Pode me chamar de Ishmael

Nascido numa aldeia de carpinteiros, mestres na construção de lenhos velozes, brandindo uma vara aguçada segue pelos mares, entre monstros e portentos, seguindo o Leviatã. Sob o véu de muitas aventuras, a idéia é a de um rito-de-passagem à idade adulta, a conquista da plena condição humana. Post fata resurgo.

(Resposta: https://tinyurl.com/y524c3vn)

 

Meu caro Watson

Solteirão inveterado, com uma mania de exatidão que quase leva seu inseparável assistente à loucura, embarca numa aventura bizarra, praticamente uma insensatez. Quase por acaso encontra uma mulher, mas sabendo queé uma perda de tempo. Atrapalhado, acaba voltando antes do que era previsto.

(Resposta: https://tinyurl.com/y4szofe9)

 

Um eremita arrependido

Longe do convívio humano, bate no peito, reencontrando uma incontaminada proximidade da Origem, que deu vida a Adão e a seus filhos. Mas não poderá subtrair-se às seduções da civilização. No fundo, estava levando uma vida bestial.

(Resposta: https://tinyurl.com/y25s6hnv)  

 

E assim por diante. Essas brincadeiras de Eco nos mostram justamente como não resumir uma história, porque estamos resumindo “X” e induzindo o leitor a pensar em tudo menos naquilo.

 

Outra coisa: como falei acima, uma sinopse ou resumo dirigida ao público é diferente da sinopse ou resumo que circulou entre a equipe, os produtores, os patrocinadores. Se você faz uma sinopse de Psicose de Hitchcock para um possível produtor, tem que avisar logo o “gancho” do filme, o aspecto mais sensacional dele – que por motivos óbvios não poderá ser revelado ao público.

 

Todo filme (livro, etc.) tem alguns aspectos cruciais que precisam ser mencionados num resumo cuja finalidade é explicar do que trata o filme. Se você resume Bugsy Malone de Alan Parker, não adianta explicar que é um musical de gangsters: se não disse que todo o filme será interpretado por crianças, perdeu o mais importante.

 

Se você resumir A Arca Russa (2002) de Aleksander Sokurov ou Ainda Orangotangos (2008) de Gustavo Spolidoro sem dizer que o filme é feito numa tomada aparentemente única, ele vira um filme banal. É esse o “grande detalhe” que (sem falar em outros méritos) torna o filme diferente de todos os outros.



 


domingo, 2 de agosto de 2020

4606) Os paradoxos das viagens no Tempo (2.8.2020)





Uma das histórias de paradoxo temporal mais complicadas que eu já li foi também uma das primeiras. A Máquina Infernal do Tempo (“Carrefour du Temps”, 1958) foi escrita por F. Richard-Bessière, um dos meus autores preferidos da pulp fiction francesa, muito traduzida aqui no Brasil nos anos 1960 pela TecnoPrint (Edições de Ouro), pela Vecchi, e por outras editoras.

Nesse livro, Sidney Gordon é um repórter novaiorquino que, junto com amigos, vai cobrir a descoberta de uma nave alienígena acidentada, que caiu em algum ponto dos EUA. Lá, ele entra na nave, que está aberta, e meio distraidamente aciona uma alavanca que tem entre os controles. Pronto. Daí em diante, nada mais no mundo dá certo. Sucedem-se catástrofes inexplicáveis, tipo “deu bug no sistema operacional do Universo”. Bessière é um desses autores pulp que a gente lê porque sabe que no próximo parágrafo qualquer coisa pode acontecer.

Os cientistas chamam Sidney Gordon e explicam que é preciso voltar ao Passado, para evitar que ele cometa aquele ato decisivo. Por motivos que não vêm ao caso, são inúmeras tentativas frustradas. Até que eles decidem voltar a uma época anterior ao nascimento de Gordon, e ele é levado, na máquina do tempo, junto com sua noiva Margaret. E por acaso encontra na rua com o próprio pai, que está voltando para casa, na hora do jantar. E ele percebe, preocupado, que nascerá exatamente daí a nove meses!

E então...

Minha noiva olhou-me espantada.
                – Margaret, acabo de pensar numa coisa horrível. Suponhamos que tenha acontecido uma grave avaria no “Tempojet” e que não nos possam vir buscar.
                Apontei para a casa dos Gordon:
                – De um momento para outro, meus pais vão me conceber. Você percebe em que situação me encontro? De acordo com as teorias de Delamare e de Archie, não pode haver duas cópias do mesmo indivíduo, em curso, na Natureza. (...)
                – Mas o que vai se passar, Syd?
                Eu não estava mais ao seu lado para responder. (...) No momento em que eu desaparecera diante dela, o ser que eu era, modificando bruscamente sua estrutura molecular, uma fração infinitesimal de Tempo, acabava de desaparecer, cedendo lugar a um simples óvulo fecundado, átomo original de um Sidney Gordon em potencial.
(p. 112-113, trad. David Jardim Júnior)

Preciso confessar que em meus verdes anos eu tinha apenas a mais vaga idéia do que acontecia entre os pais da gente para produzir essa coisa meio alienígena chamada de “óvulo fecundado”. Mas uma noção ficou, e ainda hoje me parece uma “escolha de Sofia” para quem escreve FC. Pode, ou não, haver duas cópias do mesmo indivíduo no mesmo Universo?

Essa escolha produz dois tipos de narrativa de FC muito distintos. Dark, a série alemã exibida no Netflix, opta claramente pelo “sim” – e um dos seus principais efeitos dramáticos é o confronto de um indivíduo consigo mesmo, em diferentes fases da vida.

É o caminho tomado por Robert Heinlein, autor de dois contos que são uma espécie de tutorial para quem escreve viagens no Tempo.

O primeiro deles, um clássico de 1941, é “By his Bootstraps”, cujo título, muito citado, alude à raiz do paradoxo temporal. “Bootstraps” são os cadarços das botas, e o paradoxo é comparado a uma pessoa que conseguisse se erguer do chão puxando os próprios cadarços – uma visível impossibilidade. (Muito usado também na teoria econômica, para aludir a economias que se recuperam sem ajuda externa – o trêfego Paulo Guedes usa isso a torto e a direito.)

No conto, Bob Wilson está em casa escrevendo sua tese sobre Metafísica quando de repente aparece um cara igual a ele, dizendo que veio do futuro (“eu sou você amanhã”), e daí a pouco aparece um terceiro Bob... A história tem uma mecânica implacavelmente bem urdida, e tornou-se um clássico porque Heinlein era um autor de raciocínio rigoroso. Os diálogos são vistos primeiro do ponto de vista do Bob-1, que com o decorrer do tempo se transforma no Bob-2, no Bob-3, e cada vez que ele volta a cena é a mesma, só que a consciência de Bob muda a cada vez, porque agora ele sabe o que já aconteceu.

É uma história literariamente tosca, os diálogos são meio Sessão da Tarde, mas enfim: é uma referência necessária, e pode ser lida aqui (o conto foi publicado sob o pseudônimo de "Anson MacDonald"):



Muita gente conhece aquela história popular do cara que vive com o pai viúvo e os dois conhecem uma mulher que vive com uma filha adulta. O rapaz casa com essa mulher. O pai do rapaz casa com a filha da mulher. Os dois casais têm bebês, e o narrador percebe a certa altura que é avô de si mesmo.

Outro conto de Heinlein, “All you Zombies”, publicado dezoito anos depois de "By his Bootstraps", vai ainda mais longe. É a história de um transexual que... bem, são vários paradoxos, mas basta dizer que o protagonista, nessas viagens temporais, engravida a si mesma (pois volta ao passado após a mudança de sexo) e o bebê resultante dessa união é ele mesmo, ou ela mesma.

O conto saiu no número de março de 1959 da revista The Magazine of Fantasy and Science Fiction, e pode ser lido no link abaixo:



Nas duas histórias de Heinlein, ficamos com a idéia de um tempo infinitamente acessível e infinitamente maleável, onde um viajante pode se encontrar consigo mesmo com as consequências mais imprevisíveis.

Essa é a linha do que eu chamo “os Divergentes” – os autores e os contos onde qualquer visita ao passado produz alterações na cadeia temporal e até na vida de quem se transporta de uma época para outra.

A linha oposta é a dos “Convergentes”: nessas histórias, tudo converge para uma versão única do Tempo, a que nós estamos. Qualquer tentativa de mexer com a História é reprimida pelo que em diferentes autores se chama “patrulha do tempo”, “polícia do tempo”, etc. – dando origem até à versão brasileira, a “Intempol”, criada por Octávio Aragão e explorada por numerosos autores. Uma versão brasileira, meio carnavalizada, desse FBI cósmico.


Um bom exemplo dessa tendência de “a História não pode ser mudada” é o conto de Fritz Leiber “Try and Change the Past”. Leiber escreveu uma série de histórias sobre a “Guerra da Mudança” (“The Change War”), onde dois grupos diferentes, as Serpentes e as Aranhas, lutam pelo poder viajando no tempo em todas as direções.

“Try and Change the Past” (publicado em Astounding Science Fiction, março de 1958) mostra o drama de um indivíduo que volta ao passado, ao momento em que sua esposa o matou com um tiro na testa, e faz o possível para que isso não tenha acontecido. O Universo se defende. O Universo faz qualquer contorcionismo para evitar que o Passado seja mudado.

O último parágrafo do conto diz:

Se um estatístico estiver procurando um exemplo de um fato altamente improvável, dificilmente achará um melhor do que a chance de um homem ser atingido por um meteorito. E se somar a isto a condição de que o meteorito o acerte bem entre os olhos, e de maneira a deixar um buraco equivalente ao de uma bala calibre 22, a improbabilidade é astronomicamente elevada ao cubo. Então, como é que alguém pode lutar contra um Universo que acha mais fácil matar um homem dessa forma do que adiar a data de sua morte? (trad. BT)



As histórias de viagem no Tempo são consideradas ficção científica, mesmo que a gente saiba que elas são, à luz da ciência de hoje, absolutamente impossíveis. Eu não creio que um dia seja possível – falo da vida real – viajar no Tempo. No máximo (estou sendo generoso) poderemos mandar sinais, mensagens eletrônicas telegrafadas por algum meio, que possam ser captadas no Passado ou no Futuro. É o tema de outro clássico: Timescape (1980), de Gregory Benford. Mas mandar pessoas, máquinas, espaçonaves?  Como dizia minha tia Adiza: cochila! 

Para mim, o que torna “científicas” as histórias de viagem no Tempo não é a possibilidade de que venham a acontecer. É que escrevê-las requer a criação de uma lógica causal rigorosa, e isto é um dos princípios básicos do nosso pensamento científico. Estabelecer parâmetros ou premissas, e esgotar todas as combinações possíveis – sem violentar os parâmetros. 

O leitor de mentalidade científica acompanha cada desdobramento – em uma série de TV como Dark, por exemplo –,   reconhece o esforço feito pelos autores para obedecer ao rigor do raciocínio, critica quando os autores “saem pela tangente” ou “mandam um 1-7-1”.  O espectador normal, por outro lado, começa a se perder a partir de certa altura, e nesse caso a solidez da dramaturgia precisa compensar os buracos do raciocínio.

São histórias humanas que estão sendo contadas, e a FC é aquilo que Marianne Moore descreveu tão bem: “jardins imaginários onde moram sapos de verdade”.