sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

4206) Menções ao cordel na literatura (3.2.2017)



A pesquisa sobre a história da literatura de cordel no Brasil tem dois caminhos.

O primeiro, mais importante para nós, nordestinos, parte de Leandro Gomes de Barros e os folhetos que ele começou a imprimir em meados da década de 1890, no Recife. É a raiz da nossa literatura popular impressa, porque versos recitados e copiados à mão já circulavam desde muito antes, usando os mesmos temas e as mesmas características formais (estrofes, rimas, etc.) que os folhetos iriam usar. Muitos destes versos estão em obras como Cantadores e Poetas Populares, de F. das Chagas Batista (1929, reeditado em 1997 pela UFPB, João Pessoa), que transcreve versos dos mestres do Teixeira na segunda metade do século 19.

O segundo caminho está plantado no Rio de Janeiro, e diz respeito aos folhetos impressos em Portugal e trazidos para cá ao longo de todo o século 19, como consequência da vinda da corte imperial para o Rio em 1808. São muitas as referências à venda de livretos populares de meados de 1850 em diante. O termo “cordel”, tão debatido pelos estudiosos do assunto, denota o uso de expor dessa forma não somente os folhetinhos em versos, mas (penso eu) todo tipo de livro.

Em seu Como e Por Que Sou Romancista (1873), capítulo VII, José de Alencar usa esta expressão ao contar os percalços de publicação do seu O Guarani (1857), e diz:

A edição avulsa que se tirou d’O Guarani, logo depois de concluída a publicação em folhetim, foi comprada pela livraria do Brandão, pôr um conto e quatrocentos mil réis que cedi à empresa. Era essa edição de mil exemplares, porém trezentos estavam truncados, com as vendas de volumes que se faziam à formiga na tipografia. Restavam pois setecentos, saindo o exemplar a 2$000. 

Foi isso em 1857. Dois anos depois comprava-se o exemplar a 5$000 e mais nos belchiores que o tinham a cavalo do cordel, embaixo dos arcos do Paço, donde o tirou o Xavier Pinto para a sua livraria da Rua dos Ciganos. A indiferença pública, senão o pretensioso desdém da roda literária, o tinha deixado cair nas pocilgas dos alfarrabistas.

A expressão “a cavalo no cordel” descreve bem o uso dos vendedores: um cordão esticado horizontalmente e os livretos, abertos ao meio, “montados” em cima do cordão.

O termo “belchior” usado por Alencar refere-se aos comerciantes de coisas usadas, que tanto podem ser roupas (vamos lembrar Noel Rosa: “O meu chapéu vai de mal a pior, e meu terno pertenceu a um defunto bem maior – dez tostões no belchior!”, O Orvalho Vem Caindo) como também livros – o Dicionário Houaiss registra o termo como “proprietário de sebo” e “alfarrabista”. Daí a queixa de Alencar.

Os “arcos do Paço” a que o escritor cearense se refere são provavelmente os arredores do Paço Imperial, na praça XV de hoje, como o Arco do Teles, por onde ainda passo eu de vez em quando.

Aquele largo servia como foco de um comércio popular dessa natureza, como confirma Machado de Assis no conto “Uns braços” (1885), recolhido em livro em Várias Histórias (1896), e cuja ação é devidamente datada:

Passava-se isto na Rua da Lapa, em 1870. (...)

É a história de um rapaz do interior que vai estudar no Rio, morando de favor com um casal mais velho, o que gera uma atração entre ele e a dona da casa, situação parecida com a do conto clássico Missa do Galo (em Páginas Recolhidas, 1899).

Um domingo, - nunca ele esqueceu esse domingo, - estava só no quarto, à janela, virado para o mar, que lhe falava a mesma linguagem obscura e nova de D. Severina. Divertia-se em olhar para as gaivotas, que faziam grandes giros no ar, ou pairavam em cima d'água, ou avoaçavam somente. O dia estava lindíssimo. Não era só um domingo cristão; era um imenso domingo universal.

Inácio passava-os todos ali no quarto ou à janela, ou relendo um dos três folhetos que trouxera consigo, contos de outros tempos, comprados a tostão, debaixo do passadiço do Largo do Paço. Eram duas horas da tarde. Estava cansado, dormira mal a noite, depois de haver andado muito na véspera; estirou-se na rede, pegou em um dos folhetos, a Princesa Magalona, e começou a ler. 

Nunca pôde entender por que é que todas as heroínas dessas velhas histórias tinham a mesma cara e talhe de D. Severina, mas a verdade é que os tinham. Ao cabo de meia hora, deixou cair o folheto e pôs os olhos na parede, donde, cinco minutos depois, viu sair a dama dos seus cuidados. O natural era que se espantasse; mas não se espantou. Embora com as pálpebras cerradas viu-a desprender-se de todo, parar, sorrir e andar para a rede. 

Machado confirma vários detalhes de Alencar, e é bom que “Uns braços” seja explicitamente situado por ele em 1870, o que permite imaginar que a ação descrita por ele era comum nessa época. Machado usa por duas vezes o termo “folheto”. Indica que foram comprados no Largo do Paço. Lembra que eram “contos de outros tempos” e que eram “comprados a tostão”, ou seja, estavam ao alcance da bolsa de um estudante pobre.

E o título lembrado por ele é justamente um dos clássicos, a História da Princesa Magalona, conto de origem francesa minuciosamente estudado por Câmara Cascudo em seus Cinco Livros do Povo (Ed. José Olympio, 1953), e que Cervantes também menciona de passagem no capítulo XL da segunda parte do Dom Quixote, no episódio do cavalo voador de madeira.

Cascudo refere a existência de edições portuguesas do romance em 1625 e 1783, além de numerosas outras em datas posteriores, até o surgimento das versões brasileiras da mão de vários autores, entre eles o inevitável João Martins de Athayde. E observa também que as versões portuguesas eram em quadras (ABCB) e as brasileiras em sextilhas (ABCBDB).

(continua)








quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

4205) As máscaras e os esqueletos de James Ensor (1.2.2017)




Um dos melhores investimentos da minha adolescência foi a coleção em fascículos Gênios da Pintura, que eu rachava com minha irmã Clotilde.  Eram álbuns fininhos (cerca de 30 páginas, acho), mas com tamanho grande, papel bom, e boa reprodução de quadros dos mestres. Os sebos estão cheios deles hoje em dia.

Fiquei conhecendo melhor alguns artistas que eu já sabia quem eram, como Leonardo da Vinci e Van Gogh; mas o melhor de coleções baratas, acho, é que elas nos dão a chance de investir no desconhecido.

É como livro em sebo. Às vezes eu estou numa livraria chique e vejo um livro de capa estranha, título esquisito, de autor desconhecido. Folheio, leio algo que me chama a atenção... mas o livro custa 70 reais. Adeus, livro!  Se está num sebo, custa 10. Eu levo. Pago pra ver.

Paguei pra ver um fascículo de um tal de James Ensor que durante alguns meses vertiginosos tornou-se meu pintor preferido (foi destronado quando chegou o fascículo de Max Ernst). Ensor era um belga que pintava monstros, máscaras, criaturas bizarras. Seus quadros prefiguram (para mim) o teatro de Samuel Beckett, o cinema de David Lynch e os contos de Lília Pereira da Silva. São situações enigmáticas, num clima indefinível e ameaçador, vividas por criaturas grotescas que se comportam de modo absurdo. Tem coisa melhor no mundo?!

Aliás, a Bélgica tem uma concepção do Fantástico muito peculiar, embora fique, injustamente, meio à sombra do Fantástico francês. As pinturas de Paul Delvaux, os filmes de seu filho André Delvaux, os contos de Jean Ray (autor de “Malpertuis”), a ficção científica de J. H. Rosny Ainé, todos compartilham um clima semelhante. Uma boa porta de entrada em português é a maciça antologia Entre o real e o surreal: antologia da literatura belga de língua francesa, ed. Marc Quaghebeur, Zilá Bernd, Leonor Lourenço de Abreu e Robert Ponge (Porto Alegre: Tomo Editorial, 2009).



O forte de Ensor (1860-1949) são seus quadros a óleo, mas era um artista versátil. Anos atrás vi na FAAP (São Paulo) uma exposição riquíssima com suas gravuras e águas-fortes, uma vertente completamente diversa, mas também roçando vez por outra no Fantástico.

“Esqueletos disputando um enforcado” (1891). Faz meio século que eu penso nesse quadro. Quem são, o quê são, essas criaturas, esqueletos vivos trajados com roupas de mulheres velhas, brandindo vassouras e guarda-chuvas, numa altercação violenta e trôpega, aprontando o maior barraco numa sala de portas escancaradas enquanto a vizinhança, igualmente carnavalesca e monstruosa, se deleita espreitando pela porta?



São talvez os mesmos que se reúnem em torno de um fogareiro em “Esqueletos se aquecendo”, ossadas vestidas com roupas extravagantes e cômicas que se reúnem em torno de um aquecedor. Um deles usa cartola e empunha um violino, como um comediante de music-hall. Outro (uma mulher?) tem um xale azul nos ombros e estende as mãos, para aquecê-las. Há outro esqueleto caído no chão, tendo ao lado uma paleta de pintor; ou talvez não seja um esqueleto completo, apenas a caveira, um capote comprido e as botas, como se o frio lhe tivesse derretido os ossos.



Esqueletos e máscaras são dois dos temas preferidos dele. As máscaras são sempre toscas, meio ameaçadoras, meio ridículas, como aqueles figurantes de filmes de Fellini ou de Pasolini em cuja fisionomia só acreditamos porque sabemos que não são atores caracterizados, são gente que é assim mesmo, e foram pegados na rua para nos assombrar por alguns segundos e sumir para sempre.



“O assombro da máscara Wouse” (1889) mostra uma mulher rubicunda e porcina entrando num aposento onde se vê, mais uma vez, uma caveira caída ao chão no meio de roupas vazias. “As máscaras escandalizadas” (1883) mostra um quartinho de pensão barata bem dostoievskiana. Um homem vestido e mascarado está sentado a uma mesinha, tendo uma garrafa à frente; a porta se abre e entra uma velha mascarada, empunhando um porrete. Escrevi aos 18 anos um continho surrealista em que batizei esses personagens de Tuunc e Géi-éi.



Seu painel mais famoso deve ser “A entrada de Cristo em Bruxelas” (1889) onde ele mostra Cristo em seu burrinho cercado por uma multidão de militares, autoridades, políticos, burgueses, fanfarras, bandeiras.



De onde vem isso?  Não sei.  Talvez Umberto Eco, em sua Histórioa da Feiura, tenha alguma coisa a nos dizer. A pintura de Ensor satisfaz talvez “essa necessidade do horroroso” que Augusto dos Anjos registrou tão bem; se este não fosse um poderoso impulso do inconsciente coletivo não teríamos as animações de Jan Svankmajer ou de Chris Cunningham, não teríamos o cinema de Luis Buñuel, não teríamos os painéis de Hieronymus Bosch, não teríamos os contos de Kafka nem os Edgar Poe, não teríamos o surrealismo francês ou o expressionismo alemão.


Ao contrário de muito do “horroroso contemporâneo”, no entanto, a pintura de Ensor não vem carregada de violência nem de sadismo. Seu horror tem algo de circo e de comédia; é um horror caquético e balbuciante, que num momento nos dá pena, em outro nos dá repulsa, e mais adiante provoca uma gargalhada. É uma paleta híbrida da experiência humana que me ajudou muito a entender desde cedo a mente alheia, as emoções alheias, a mesquinhez alheia, a ratonice alheia – e as minhas próprias. E, apesar dessa extensa lista de comparações enumeradas mais acima, é uma experiência que até hoje só encontrei nas máscaras e nos esqueletos de Ensor.

"Auto Retrato com Máscaras", 1899:











domingo, 29 de janeiro de 2017

4204) Zé Agra e a Máquina Arrasadora (29.1.2017)




Fiquei sabendo na tarde deste domingo, numa mensagem enviada por José Santos, o “Super-Zé” do futebol paraibano, do falecimento de José Agra, ex-presidente do Treze nos idos de 1974-75.

Zé Agra foi nosso presidente no ano do Cinquentenário (1925-1975) e marcou seu nome na história do Galo. Não somente por isso, nem pelo título de Campeão Paraibano de 1975 (dividido, num desses confusos tapetões do nosso futebol, com o Botafogo de João Pessoa), mas por uma das grandes arrancadas da história do alvinegro, que saiu de uma crise tremenda para se tornar vice-campeão estadual em 1974.

O campeonato daquele ano teria 4 turnos. O Campinense foi campeão dos três primeiros, já estava com a mão na taça. Tinha um ótimo time, e além do mais tinha a sua sempre eficientíssima equipe extra-campo trabalhando nos bastidores (juiz nenhum escapava). O Treze estava com salários atrasados e em crise quando Zé Agra assumiu a presidência, dias antes da estréia no quarto turno.

O novo presidente rodou o chapéu nas ruas João Pessoa e João Suassuna, saldou as dívidas (principalmente com os salários dos jogadores), e desencadeou uma campanha publicitária como nunca se viu no futebol paraibano.

Encorajado pelas primeiras vitórias (time com o bolso em dia corre mais; é uma coisa impressionante) ele emburacou numa série de entrevistas em que definia o time do Galo como “a Máquina Arrasadora do Futebol Paraibano”, o “Time de Gigantes”, etc.  

Afirmava que a torcida do Campinense era mixuruca, cabia numa carroça de burro. Com seu sotaque inconfundível (“o Treze é o maior time de futibó do mundo!”), ele levava nossa torcida à euforia e as torcidas adversárias à loucura.

Folclórico, falastrão, bem humorado, Zé Agra deu uma sacudida brusca num campeonato que já parecia decidido. As rendas dobraram. A torcida lotava todos os jogos (digo isso porque assisti todos).

Duas vitórias épicas seguidas deram ao Galo o título de campeão do quarto turno: 1x0 no Campinense (com gol de Marcos Itabaiana, que após o lance foi agredido com um soco e teve que ser hospitalizado) e 2x1 no Botafogo, no Estádio de Graça, em João Pessoa (gols de Fernando Canguru e Vandinho). E a gente lá, bandeiras e taróis em punho.

Tá cheio de gente aí que se lembra disso como se tivesse sido ontem.

Fomos para um jogo extra onde o Campinense, que jogava por um empate, venceu por 2x0 e se sagrou campeão de 1974.

No ano seguinte, Zé Agra formou uma equipe fantástica, um dos melhores times que o Treze já teve. Como técnicos, passaram por lá o ótimo Virgílio Trindade (ex-Nacional de Patos), o craque Miruca (ex-Náutico, ex-São Paulo) e o argentino Dante Bianchi.



Nessa época eu trabalhei por uns seis meses na secretaria do Treze, onde exercia as funções de datilógrafo, redator de contratos e pagador de vales, bichos e salários ao elenco. Zé Agra foi um dos patrões mais voluntariosos para quem já trabalhei. Toda dúvida eu corria para o centro da cidade, ao escritório dele no edifício Lucas. “Zé, a Federação exige o documento tal pro jogo de amanhã”. “Isso é frescura,” dizia ele, “precisa não.”

E tome uma noite em claro, ardendo em febre, pensando que no dia seguinte o Treze ia perder os pontos para o Santa Cruz de Santa Rita porque faltava o diabo do papel. Nunca aconteceu, mas os cabelos brancos continuam todos aqui.

Foi de Zé Agra a iniciativa de criar a Comissão dos Festejos do Cinquentenário do Treze, presidida por Hélio Soares, meu ex-professor no Colégio Estadual da Prata. Resolvemos fazer uma revista “pra desmoralizar a concorrência”, no caso o Campinense, que acabara de fazer uma revista comemorativa.



Meu pai e eu tomamos a frente na tarefa de redigir e pesquisar a revista. Cavani Rosas, artista plástico do Recife, morava em Campina na época: ele diagramou e ilustrou a revista inteira, e foi o criador do famoso Galo de chuteiras que ainda hoje ilustra tanta coisa relativa ao Treze. Eu vi esse galo sendo criado na prancheta da casa onde ele morava, em Bodocongó, vizinha à UFPB. Também se envolveram na revista José Umbelino Brasil, Rômulo e Romero Azevedo, Roberto Coura (fotógrafo) e outros.



Zé Agra rodava Campina pra cima e pra baixo no seu fusquinha. Eram os tempos heróicos em que cartolas botavam dinheiro do próprio bolso para pagar as dívidas do time, fosse material esportivo, com Fuba Véi da Casa Sport, fosse na lanchonete de Vamberto, perto da Praça do Trabalho.

Fiquei sabendo hoje da despedida de Zé Agra e encontrei aqui, no imprescindível saite RetalhosHistóricos de Campina Grande, um valioso áudio de mais de 1 hora com Zé Agra rememorando esses tempos e me produzindo um nó na garganta. Saudade de um tempo em que eu era tão inocente da realidade do mundo que torcia por times de futebol.

Um brinde ao nosso eterno presidente, Zé Agra, “trezeano autêntico”.






quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

4203) O cantador João Paraibano (26.1.2017)



Estou por aqui, me entretendo com a leitura vagarosa de João Paraibano, o Herdeiro dos Astros (Teresina: Gráfica e Editora Halley, 2016), coletânea de versos e de depoimentos organizada por Ésio Rafael, Marcos Passos e Santanna O Cantador, em homenagem ao grande repentista, amigo de todos nós, falecido em 2014.

Conheci João Paraibano por ocasião do II Congresso Nacional de Violeiros de Campina Grande, em 1975, quando ele cantou duplado com um dos seus parceiros mais constantes, Sebastião Dias. Naquele Olimpo de repentistas no auge da arrancada para o sucesso, e que eu estava encontrando pela primeira vez, João não se destacava. Era tranquilo, baixinho, meio tímido, ainda mais jovem do que eu, e ficava em segundo plano diante de presenças mais vigorosas.

Foi somente com o passar dos anos, a repetição dos Congressos, e as noitadas em pé-de-parede que se prolongavam após as disputas, que pude vê-lo cantar mais solto, mais confiante, agigantando-se por trás da viola, ficando do tamanho dos versos que fazia.

No mundo dos cantadores existem várias divisões informais, tipo “os que são isso, os que são aquilo”. Uma dessas divisões é: “Os que cantam leitura, e os que cantam sentimento”. (Claro que qualquer bom repentista canta as duas coisas; essa divisão aponta apenas a ênfase de cada um.) João era um cantador de sentimento, de observação da natureza, de conhecimento das minúcias da vida no sertão, da compreensão psicológica das atitudes do homem, da mulher e da criança sertaneja.

O livro organizado pelos três poetas faz uma recolha valiosa de grandes improvisos, grandes glosas e episódios pessoais, além de uma série de testemunhos de amigos e parentes.  João está inteiro ali, mesmo descontando-se a tendência sertaneja para a hipérbole sentimental.

Meu parceiro Cavani Rosas, que naqueles idos de 1975 morava em Campina Grande e acompanhava os congressos de cantadores, fez a capa e as belas ilustrações a bico-de-pena do livro, que traz ainda um “porta retratos” de fotos de João, sua família, suas cantorias.

Muitos versos de João, para mim, surgem naquele território poético da observação da natureza e da paisagem humana, dos costumes, dos pequenos gestos das pessoas. Um simples registro, um flash, mas numa concentração poética semelhante à do haikai japonês, capaz de em três linhas evocar uma paisagem física, uma estação do ano, um momento de introspecção e meditação por parte do poeta que observa.

Alguns versos de João Paraibano:

Ainda lembro do cheiro
que minha mãe dava n’eu
da cor da primeira nota
que meu padrinho me deu
eu não peguei com vergonha
papai foi quem recebeu. (pág. 120)
Veja-se a delicadeza psicológica desse verso: o carinho materno misturado à lembrança de um momento em que o menino é admitido no mundo adulto dos homens, onde circula o dinheiro. E o fato do menino lembrar a cor da nota, não o valor. E a fluência dessas duas expressões tão nordestinas: “cheiro”, “com vergonha” (=encabulado, constrangido).

Quem vive numa prisão
leva a vida no desprezo
pede uma esmola a quem passa
nas mãos um cigarro aceso
pernas do lado de fora
e o resto do corpo preso. (pág. 98)
Aqui é a observação do comportamento social. Em Campina Grande eu já morei vizinho à Casa de Detenção (no apartamento que minha tia Adiza tinha na Praça Félix Araújo, no Monte Santo). Esta é uma foto precisa de como os presos passavam o dia: sentados no peitoril da janela gradeada, com as pernas para fora, e tirando onda, por cima do muro, com quem passava na calçada.

Fiz capitão na bacia
de feijão verde e farinha
quando o angu tava feito
mãe saía da cozinha
subia em cima da cerca
dava um grito e papai vinha. (pág. 49)
“Capitão” é o que na minha casa chamavam de “raposa”: feijão e farinha amassados juntos na mão, formando um bolo compacto para ser comido com a mão mesmo. E esse detalhe da mãe subindo na cerca para gritar pro marido (no roçado) que o almoço está pronto só me lembra uma cena de filme de Kurosawa ou de Andrei Tarkovsky.

Ao passar em Afogados
diga a minha esposa bela
que derramei duas lágrimas
sentindo saudades dela
tive sede, bebi uma
e a outra guardei pra ela. (pág. 54)
Aqui vale mais uma vez a delicadeza da imagem, a lágrima guardada para a mulher querida, como algo minúsculo e precioso. 

Meu passado foi assim
comendo juá banido
o vento dando empurrão
no lençol velho estendido
com tanta velocidade
que mudava a qualidade
que a tinta dava ao tecido. (pág. 123)
“Banido”, em nordestinense, é “estragado” – juá é tipicamente uma frutinha que se esparrama com exagero pelo chão, e as crianças acabam comendo qualquer um. A impressão visual da imagem do lençol sacudido pelo vento é o que Ezra Pound chamava de “fanopéia”, a evocação vívida, com palavras, de uma impressão visual. É uma variante e um enriquecimento do famoso verso de Manuel Xudu sobre o pião “que roda na ponteira / com tanta velocidade / que muda a cor da madeira”.

Vou pro meu sertão antigo
pra ver tapera sem centro
ver minha mãe na cozinha
cortando cebola e coentro
botando um prato no pote
pra não cair mosca dentro. (pág. 70)
Numa sextilha de rimas limitadas (“...entro”), o poeta retrata com simplicidade a cozinha de casa de sítio, o pote de barro com água num recanto. Geralmente coberto com uma tábua ou bandeja, com copos emborcados em cima; mas João enriquece a imagem ao supor um pote sem tampa que a mulher cobre mesmo assim com um prato qualquer.

Toda noite quando deito
um pesadelo me abraça
meu cabelo que era preto
está da cor da fumaça
ficou branco após os trinta
eu não quis gastar com tinta
o tempo pintou de graça. (pág. 124)
Aqui, vale a naturalidade com que “tinta” é rimado com “trinta”, e o tom grisalho (olha a fanopéia) é sugerido pela “cor de fumaça” em contraste com o “preto”. O verso bom é o verso simples em que tudo parece inevitável, parece que aquelas palavras sempre andaram umas junto das outras, e mesmo assim se conjugam de repente para produzir uma imagem pequena, mas nítida, concisa, memorável.












domingo, 22 de janeiro de 2017

4202) Os checkpoints da vida (22.1.2017)



(ilustração: Christian Pierce)

Uma das coisas boas de ler vários livros ao mesmo tempo é que às vezes a gente tem a sensação de estar lendo uma história só, que vai passando por diferentes narradores.

Pois bem: estava eu lendo uma noveleta de Ted Chiang, The Lifecycle of Software Objects (2010). É a história de um grupo de programadores envolvidos na criação de digientes, criaturinhas virtuais que se comportam como personagens de videogames, mas têm inteligência própria, dialogam com os programadores, evoluem por conta própria.

Os personagens de Chiang começam a criar esses digientes como se fossem animaizinhos de estimação, mas logo veem neles algo como crianças humanas, porque são (com certas limitações, pois são inteligências sem corpo biológico) capazes de pensar, sentir emoções, fazer planos para o futuro, ter curiosidade pelo mundo.

A certa altura do processo, aliás, os pesquisadores conseguem fazer o upload dos digientes para os corpos de pequenos robôs dotados de sensores táteis, o que permite aos digientes sair do computador e andar pelo nosso mundo físico, experimentando texturas, tendo a noção de um espaço tridimensional, etc.

Surge então um episódio em que dois digientes, Marco e Polo, pegam uma briga feia e ficam zangados um com o outro. E eles pedem a Derek, o seu programador, que os remeta de volta ao “ponto de recuperação” (checkpoint) anterior à briga, para que ela possa ser apagada de suas memórias.

O checkpoint é um recurso que temos no computador. Às vezes eu quero fazer no sistema uma mudança muito arriscada, que pode dar zebra. Tipo instalar um programa novo, muito complicado. Por precaução, faço o sistema “tirar uma foto” do seu estado completo nesse momento. Este será o checkpoint. Depois, instalo a novidade. Deu zebra? Peço para voltar ao ponto de recuperação, e – abracadabra!  Meu computador está igualzinho ao que era antes do problema.

Os digientes têm consciência disso, sabem que pode ser feito. E fazem seu pedido a Derek, quando este liga o computador e acessa a plataforma.

Os dois digientes desde então mal se falam, de modo que Derek sente um certo alívio quando eles vêm procurá-lo, juntos.
- É bom ver vocês dois juntos de novo. Fizeram as pazes?
- Não! – diz Polo. – Zangado ainda.
- Lamento ouvir isso.
- A gente quer ajuda – diz Marco.
- Muito bem. Em quê?
- Que leve a gente para semana passada, antes da briga.
- O quê?! – Essa é a primeira vez em que ele vê um digiente pedindo para ser levado de volta a um ponto de recuperação. – Por que querem isso?
- Não quero lembrar a briga grande – diz Marco.
- Quero ficar feliz, não quero zangado – diz Polo. – Você quer a gente feliz, certo?

Derek não sabe o que fazer. Ele acha que esta seria uma solução muito simplista, e que na verdade os digientes, se querem evoluir como criaturas pensantes e sentintes, precisam aprender a assimilar esses maus momentos, os desgostos, as brigas, as tristezas. Não é assim que os humanos fazem?

Eu estava nesse ponto (meu texto está no computador, não num livro impresso) quando interrompi a leitura para me deitar um pouco. Os digientes, que não têm corpos biológicos, não sabem que escritores ou programadores de software sexagenários precisam muitas vezes deitar numa cama de verdade para repousar a coluna-prestes.

Eu costumo alternar uma hora sentado no computador e meia hora deitado, lendo, e para isso tenho sempre junto do meu travesseiro dois ou três livros abertos na página certa, para que eu possa retomar a leitura de onde parei.

E nesse dia, mal terminei de ler o trecho acima, deitei e peguei meio ao acaso a Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), de Lima Barreto, e daí a pouco enveredei por este trecho, no capítulo 9, quando o narrador, de nome Augusto Machado, pega um trem para o subúrbio. Machado observa seus companheiros de viagem, escuta sua conversa e começa a achá-los meio ridículos (é um indivíduo solitário, hipercrítico, meio casmurro). E diz:

Deixei de observar os quatro curiosos personagens, virei o rosto e, pela portinhola, pus-me a ver a paisagem, os morros altos e azulados, o verde-claro das campinas, o verde-escuro das encostas, as fagulhas de luz, as hastilhas de alegria no ar, as palmeiras melancólicas... Um dia viria que tudo isso havia de fugir dos meus olhos... Por que não sou assim como aquele barrigudo senhor, inconscientemente animalesco, que não pensa nos fins, nas restrições e nas limitações? Longe de me confortar, a educação que recebi só me exacerba, só fabrica desejos que me fazem desgraçado, dando-me ódios e, talvez despeitos! Porque m'a deram? Para eu ficar na vida sem amor, sem parentes e, porventura, sem amigos? Ah! se eu pudesse apagá-la do cérebro! Varreria uma por uma as noções, as teorias, as sentenças, as leis que me fizeram absorver; e ficaria sem a tentação danada da analogia, sem o veneno da análise.

O desejo do narrador de Lima Barreto é o mesmo desejo dos digientes de Ted Chiang: voltar a um ponto de recuperação anterior que preserve uma parte básica de sua mente e memória, mas elimine certas fontes de sofrimento.

Se isto nos fosse possível, muitas pessoas viveriam assim, sem dúvida, dando cinco passos à frente e quatro atrás, retroagindo cada vez que algum acontecimento as magoasse. E voltando, sem dúvida, a cometer de novo os mesmos erros, cair nas mesmas armadilhas, transformando-se num boneco amnésico capaz de pisar cem vezes na mesma casca de banana, como certos comediantes do cinema mudo.

Vejo essa continuidade de espírito entre o romance brasileiro de 1919 e o norte-americano de 2010, e o próprio Lima Barreto, se tivesse acesso a este último, talvez se visse um pouco nele, sem estranhar sua ousadia especulativa.

Pois, afinal, umas poucas linhas adiante o próprio “Augusto Machado” recorre à ficção científica para explicar a amizade que nutre por seu mestre Gonzaga de Sá, e a identificação espiritual entre os dois:

Arrependi-me da maldição e reconciliei-me comigo mesmo. Havia de curar-me. Gonzaga de Sá não me falava, mas eu sentia que a metade daqueles pensamentos eram dele. A nossa amizade era tão perfeita, que dispensava palavras. Entre nós havia aquele aperfeiçoamento de comunicação, que Wells tanto encomia nos marcianos: mal emitia um pensamento, um dos nossos cérebros, ia ele logo ao outro, sem intermediário algum, por via telepática.

Lima Barreto se refere, é claro, aos marcianos de The War of the Worlds (1898), de H. G. Wells.









sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

4201) Onze talismãs (20.1.2017)




(ilustração: Greg Craola Simkins)

1
A medalha do santinho, cerrada com força na mão direita de Luísa, durante a decolagem e aterrissagem, e a tentativa de não pensar numa possível futura matéria de jornal registrando que na mão de uma das vítimas foi encontrado uma medalha milagrosamente intacta.

2
Uma foto dela na carteira, apenas isto; uma foto de doçura especial, foto que Maurício leva consigo para toda vez que tiver uma raiva dela recorrer à foto e fazer a raiva passar mais depressa.

3
O botão de volume do rádio da sala, que Betinho ao abaixar fazia o time jogar mal e ao aumentar jogar bem; de modo que o recurso era ir aumentando de pouquinho até a mãe reclamar lá da cozinha, e então abaixar de vez e depois passar looongos minutos aumentando de pouquinho a chances de gol e vitória.

4
As sementes de romã mastigadas por Carlos na ceia do réveillon, dobradas em papel laminado, guardadas com esperança na carteira eternamente vazia.

5
O caldo de cana tomado à tarde por João Dias, naquela mesma esquina, encostado no mesmo balcão, vendo as gerações passarem diante dos seus olhos, cada vez que algo momentoso sucedia em sua vida, paixão nova, filho nascendo, eleição ganha ou perdida, sucesso no trabalho, demissão, cedo ou tarde ele dava um jeito de passar naquela rua, tomar aquele caldo, mesma esquina, mesmo balcão, como fazia há mais de trinta anos, olhando, lembrando, dizendo: “Eita mundo véio.”

6
Uma pedrinha qualquer achada na rua por Zuleika e guardada no bolso durante anos, à qual ela atribuiu por-decreto poderes miraculosos, que vem por outra se confirmavam.

7
O ritual que o dr. Amândio Correia executa para dar sorte, todos os anos, no dia do seu aniversário, quando ele manda rezar uma missa em honra dessa data na igreja próxima do engenho dos seus pais, onde ele foi criado, e para essa missa ele traz os parentes mais próximos, parteira, padre velho que o batizou, sacristão, um comício de gente, todos os anos sem falta ele convoca e financia a vinda de todos, sendo que após a missa é servido um lanche de biscoitos, salgadinhos e suco de maracujá aos presentes.

8
A água de coco gelada que para Jacira era tiro-e-queda contra inveja, olho grande e língua ferina, e que a ajudou a chegar aos 92 anos feliz como uma garota.

9
O gato que nas noites de verão miava pelas eiras e beiras do telhado; quando Jorge menos esperava o felino aparecia, arauto da sorte, mascote da magia, acordando as pessoas, e em noites assim, no andar abaixo do seu, a vizinha do 203 escancarava a janela com estardalhaço, como quem manda um sinal de fumaça privê, e o rapaz se sentia o dono do mundo, botava uma camisa, um perfume, e descia pra bater baixinho na porta dela.

10
A frase cabalística, inventada por ela mesma a partir de radicais e prefixos, que quando digitada no Google levava Ludmila sempre para algum saite inesperado, misterioso e fascinante.

11
Uma camisa cor-de-baunilha com uma faixa larga horizontal cor-de-maçã que um garoto de 16 anos usou na estréia do time no campeonato, que terminou com vitória, obrigando-o moralmente a repetir a camisa em todas as partidas da jornada invicta do time, até que no dia da decisão ele descobriu com horror que ela tinha sido mandada à lavadeira, o que desencadeou uma verdadeira operação de guerra até que a camisa úmida e amarfanhada foi trazida de volta, vestida às pressas, e horas depois agitada em triunfo nos ares, na comemoração do tão-sonhado título.







segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

4200) Flash Fiction (16.1.2017)




Os textos curtíssimos de ficção, dos quais falo aqui de vez em quando, estão para a prosa narrativa mais ou menos como o cartum está para a história em quadrinhos (HQ).

O cartum é algo que a gente olha, lê em alguns segundos, e recebe o impacto – pá!... – de uma idéia, que em geral vem sintetizada em uma imagem e uma ou duas frases (às vezes só a imagem mesmo).

Dizem os teóricos e praticantes da ficção curtíssima que ela serve como equivalente verbal disto.

Seriam as famosas “histórias em 6 palavras”: o exemplo famoso é atribuído a Hemingway: “Vende-se. Sapatinhos de bebê. Nunca usados.

Ou as “histórias em duas frases”. Gosto desta, que achei em inglês por aí, assinada com nickname: “Dia 312. A Internet ainda não está funcionando.” – fluffyponyza.

Ou as “histórias com 100 caracteres”: “Quando Gustavo C. acordou de sonhos intranquilos, estava metamorfoseado num livro escrito em húngaro.”, de Gustavo Melo Czekster.

Em inglês usa-se muito o Drabble, que são historietas de exatamente 100 palavras (não contando o título). Exemplos aqui:



Tudo isto, para mim, equivale a um cartum. Pá! – e o efeito acontece. Acho que a principal crítica que pode ser feita a isto, em termos de ficção em prosa, é que a ficção geralmente busca produzir uma impressão de passagem de tempo, de mudança, de transformação psicológica. E essas ficções curtíssimas proporcionam apenas a mais rápida e superficial das mudanças, que é a surpresa.

Em tese, qualquer história, com o mínimo de duas palavras, pode indicar permanência + mudança, identidade + alteridade, espaço + tempo. Mesmo a mais curta. “Eu morri” – está tudo aí.

Tem gente que pergunta: “Mas então o romance vai deixar de existir?! Vamos ser proibidos de escrever livros de 200 ou 300 páginas?!”  Não, colega. Ninguém vai proibir nem aposentar coisa nenhuma. Cada um faz o que lhe der na telha, conforme a altura de sua escada. Fazer microficções desse tipo é apenas um exercício que agrada a alguns porque parece aquelas esculturas de santos feitas num palito de fósforo, ou os caras que conseguem escrever o Pai Nosso numa cabeça de alfinete.

Quando comcei a escrever no “Jornal da Paraíba” em 2003, minha coluna tinha tamanho fixo entre 2.900 e 3.000 caracteres. Amigos perguntavam por que eu não publicava um conto de vez em quando, e eu dizia que era impossível escrever um conto que prestasse num tamanho tão pequeno. E o fato é que, olhando meus registros, vejo que só comecei a tentar fazer isso depois de mais de 800 colunas publicadas.

Depois, em 2011, o limite de espaço no jornal caiu para 2600 / 2800 caracteres com espaços. A esta altura eu já tinha “pegado o cacoete” e estava produzindo pequenos contos curtos que, sem serem textos extraordinários, eram compactos, precisos, tinham começo-meio-fim, e me deixavam satisfeito, porque sempre fui de escrever muito. Se eu me pegasse com dois ou três personagens conversando numa mesa, então, não tinha papel que chegasse.

Vários desses contos estão em Histórias Para Lembrar Dormindo (Casa da Palavra, 2013). Algum desses meus contos é uma obra prima? Não, e nenhum deles precisa ser. São exercícios. Obra-prima é algo que acontece como resultado do nosso trabalho, mas independente de nossa intenção. Resulta de uma mistura misteriosa entre Inevitabilidade e Acaso.

Sentar no computador com a intenção de produzir uma obra-prima é como ir para a cama com a esposa com a intenção de produzir um filho bonito. Não é assim que essas coisas acontecem.

A “flash fiction”, como se chama por aí, é uma boa escola para quem pertence ao time dos fluentes, dos caudalosos, dos escrevedores velozes e compulsivos.

É neste sentido que oficinas literárias podem ser muito úteis inclusive para quem já escreve bem, para quem já publicou, ganhou prêmios, o escambau. Escritores assim alcançam uma certa medida de sucesso pelas qualidades que de fato existem nas suas obras, mas têm defeitos (esse de escrever demais, no presente caso) que a médio prazo começam a cansar o leitor.

Já vi oficinas de roteiro de cinema em que se cobrava dos alunos: conte sua história em uma frase, depois em um parágrafo de cinco linhas, depois em uma lauda, depois em dez laudas. Claro que uma tarefa assim nunca é feita em sequência. O cara vai botando a história no papel e vai percebendo os detalhes que pertencem a cada um desses estágios.

Praticando essa forma, o escritor, se chegar a dominá-la em certa medida, percebe a força dos efeitos narrativos na prosa muito curta, onde cada palavra pesa, onde se diz “o casarão” sem poder descrever o telhado, as cornijas, as janelas, as balaustradas, o pórtico, o muro coberto de hera...

A grande maioria desses textos curtos não tem muita narrativa, no sentido de contar uma historinha completa com começo, meio e fim: tem mais de reflexão abstrata ou de descrição concreta de uma cenazinha do cotidiano.

Não importa, a não ser que o autor queira se tornar um mestre nesse estilo. Para quem o utiliza como um meio, apenas, pode ajudar muito. Raymond Chandler escrevia seus romances usando folhas de papel cortadas ao meio. Cada fragmento de cena específico tinha de caber ali. Cada meia-folha daquelas era reescrita várias vezes. A existência de um limite nos obriga a valorizar tudo que poderá caber lá dentro. A extensão é uma “contrainte”, uma restrição voluntariamente auto-aplicada e fielmente seguida.








quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

4199) Romances emprestados (12.1.2017)




Alguns escritores afirmam que as idéias caem do céu sobre a sua cabeça como cocô de pombo. O cara sai de casa para ir na papelaria da esquina a fim de comprar um cartucho de tinta 92 preto, e de repente sente alguma coisa quente a lhe escorrer pelo cérebro. É um conto policial pronto, protinho, saído do forno, desencadeado pela visão de um grupinho de pessoas conversando diante de um prédio enquanto um deles toca a campainha.

Por esses mecanismos inexplicáveis, ele percebe (não “imagina”; ele sabe, com a convicção dos verdadeiros ficcionistas) que aquele velhote é Fulano que tem tais ou quais objetivos inconfessáveis, aquela mocinha é Sicrana que está entrando de gaiata numa conspiração alheia, aquele senhor de terno é Beltrano que pensa estar dando um golpe mas também é vítima, aquela menina emburrada de óculos será a narradora de tudo, quando na velhice vier a entender de fato o que se passou.

Assim nascem muitos contos: como uma configuação casual que se cristaliza quando a imaginação malévola (mas em últimos termos inofensiva) de um escritor projeta sobre gente de verdade seus sonhos ou pesadelos de mentira.

Julio Cortázar comentou certa vez que a coisa que mais lhe ocorria em coquetéis ou reuniões sociais era alguém se aproximar dele e dizer algo na linha de:

-- Bem, já que você é escritor, escuta esse fato que se deu comigo, tenho certeza de que você vai fazer dele um conto sensacional.

O longilíneo Julio garante que nunca um conto lhe brotou depois de um ameaço dessa natureza, mas, em compensação, um papo casual entre algumas senhoras, entreouvido sem compromisso, lhe inspirou “Los buenos servicios”, um dos contos mais tocantes do livro Las Armas Secretas (1959) – a história de uma criada, uma mulher simples, que é contratada para fazer o papel da mãe de alguém desconhecido durante um velório.



Histórias emprestadas podem se transformar em grandes livros quando pousam no ouvido certo. Reza a lenda que o argentino Manuel Puig (o autor de O Beijo da Mulher Aranha e outros belos romances), quando morava no Rio de Janeiro, precisou fazer uma obra qualquer em sua casa e mandou vir um pedreiro. O pedreiro passava o dia trabalhando e conversando, e de seu monólogo autobiográfico Puig extraiu seu romance Sangue de amor correspondido (1982) – exercendo, sem dúvida, seu privilégio autoral de inventar quando lhe convinha.

Um dos clássicos da literatura brasileira, Memórias de um Sargento de Milícias (1852-53) foi publicado pelo seu autor, Manuel Antonio de Almeida, sob o pseudônimo de “Um Brasileiro”. Li em alguma parte – quem conhecer melhor a história que me ajude – que Almeida teve um certo pudor em se assinar como autor do romance (que saiu em folhetins nas páginas do suplemento “A Pacotilha”, do Correio Mercantil) porque toda a história lhe tinha sido passada verbalmente pelo sargento citado no título, e ele não fez mais do que registrá-la por escrito e publicá-la.



A prática do jornalismo é um dos principais canais deste veio da literatura em que a história narrada oralmente por A se transforma no romance escrito por B. No Rio de Janeiro contemporâneo os romances de Julio Ludemir sobre personagens obscuros do crime organizado têm também como base essas histórias de vida recriadas por escrito: No Coração do Comando (Ed. Record, 2002), Lembrancinha do Adeus (Ed. Planeta, 2004) e outros.




“Romance emprestado” talvez não seja o nome mais adequado para essa vertente, porque romance é o resultado final, e o que o primeiro narrador empresta é apenas o argumento errático, episódico, fragmentado, que serve de base ao trabalho estrutural e formal realizado pelo escritor. Mas não há dúvida de que quando não somos capazes, naquele momento, de conceber uma grande história, podemos pelo menos estar atento às histórias que o mundo coloca de bandeja no colo da gente.







domingo, 8 de janeiro de 2017

4198) A festa dos poetas (8.1.2017)




(foto: Dantinhas Vilar)


E lá fui eu mais uma vez parar em São José do Egito (PE), para a Festa do Rei, que celebra a data de nascimento do cantador Lourival Batista, o famoso “Louro do Pajeú”. Este ano o mote da festa foi: “102 anos de Louro / e 100 de Zezé Lulu”. Não cheguei a conhecer pessoalmente este último, cujos versos aparecem em todas as antologias, mas fui amigo de Louro, vi-o cantar pelo Brasil afora numa excursão, e muitas vezes nos bares de Campina Grande.

Louro era chamado o Rei do Trocadilho, pela sua obsessiva mania de desmontar e remontar palavras, refazendo-lhes o som e o sentido. Um dos seus versos mais famosos diz:

Você diz que eu sou pobre
isso é desgraça perene
mas tire o P, bote um N
e eu acabo sendo nobre...
Troque por C, fica cobre;
cobre é parente de ouro;
botando um T fica touro
como a carne e vendo a pele;
o T sem o traço é L
e eu fico mesmo por Louro. 

Isso é da mesma família dos “doublets” ("dublês"), as mutações verbais praticadas por Lewis Carroll (o de Alice no País das Maravilhas), onde ele transformava GOOD em EVIL trocando uma letra por vez (e cada palavra resultante tem que ser obrigatoriamente uma palavra de verdade, de uso corrente). Augusto de Campos adaptou essa brincadeira para o português, produzindo séries como BEM / sem / som / sol / sal / MAL, etc.

Acho que é o mesmo jogo a que Vladimir Nabokov (“Pale Fire”, na nota à linha 812 do poema) se refere como “Word Golf”, onde se transforma HATE em LOVE em três estágios, e LIVE em DEAD em cinco (“com LEND no meio”). Uma arte que no Brasil teve também entre seus praticantes o poeta Augusto de Campos:


("doublets" de Augusto de Campos)


Mas enfim. Lá me fui para São José do Egito na confortável carona de Leimar de Oliveira e Maria Inês, comparsas fiéis de várias décadas. No trajeto Campina-São José fomos vendo a caatinga esturricada. Entre o Natal e o Ano Novo caiu um dia de chuva em Campina, e bastou isso para que a vegetação na estrada para o Sertão estivesse verde pela metade.

Lancei na festa meu livro Cantoria: Regras e Estilos, volume 1 da série "Arte e Ciência da Cantoria de Viola" (Ed. Bagaço, Recife), o que só aconteceu graças à insistência de Amaro Filho e Cláudia Moraes, da Página 21 (que produz o evento) e à acolhida sempre carinhosa da família Marinho, descendentes de Louro, tendo à frente Antonio Marinho, meu parceiro em outros trabalhos. (O nome de Lourival era Lourival Batista Patriota; a família usa artisticamente o sobrenome Marinho, da linha materna, que descende do grande Antonio Marinho, o primeiro cantador que Ariano Suassuna viu cantar, quando era menino.)



Reencontrei Zé de Cazuza, o homem-gravador, paraibano véi que é a memória viva de cantoria, e com 87 anos sabe tanto verso que se fosse recitar tudo ia precisar de outro-tanto de prazo. Me recitou versos fesceninos, sonetos de Rogaciano Leite, repentes geniais de cantadores cujo nome nunca ouvi. 


(foto: Amaro Filho)

Aqui, um pequeno vídeo sobre Zé, pela TV Itararé de Campina Grande:

Reencontrei Dedé Monteiro, o poeta de Tabira que recentemente foi reconhecido como “Patrimônio Vivo de Pernambuco” pela Fundarpe, poeta do coração grande, do gesto elegante e da palavra precisa. Aqui, um vídeo de Dedé recitando um dos seus poemas mais conhecidos, “Fim de Feira”:


Direis agora: é uma festa da velha guarda?  Sim, mas a jovem guarda também pisa no palco. Vi apresentação de bandas heavy metal de São José homenageando um jovem integrante falecido no ano passado, Carlinhos Veras, cantando metal em inglês mas também um belo e vigoroso arranjo para “Assum Preto” de Gonzaga e Humberto Teixeira. (Furar os olhos dum passarinho pra ele cantar melhor. Tem coisa mais heavy metal do que a letra dessa música?!). 

Shows com bandas jovens como Em Canto e Poesia (dos irmãos Antonio, Greg e Miguel Marinho), Vozes e Versos (que fez uma bela recriação do meu “Caldeirão dos Mitos”), As Severinas (uma das melhores bandas femininas de forró que se pode encontrar por aí), e até do Spock Quinteto, do Recife, trazendo frevo e ciranda para a festa do Sertão.

Teve uma mesa de glosa cheia de suspense e bem conduzida por Jorge Filó; teve a projeção de filmes sobre o universo da cantoria, com destaque para "Maria" de Carol Correia e "O silêncio da noite é que tem sido testemunha das minhas amarguras" de Petrônio Lorena, sobre a dama-da-noite Severina Branca, musa de muitos poetas boêmios de São José, hoje octogenária e bem humorada, sentada na fila da frente.

Tive também a alegria de receber a visita de Dantas Suassuna e Dantinhas Vilar, que estavam em Taperoá e queimaram o chão quando souberam que eu estava em São José, porque temos projetos em comum que serão anunciados no momento propício.

E para que isto aqui não fique parecendo uma enorme coluna social, um pouquinho de reflexão. A festa de Louro é uma festa que celebra velhos poetas centenários, mas também é uma festa realizada por jovens. Jovens como eu fui um dia, curiosos de conhecer não apenas o andar térreo do mundo, que é o presente, mas todos os demais andares daí pra cima, que são os séculos acumulados no arranha-céu do Tempo.

Porque só o Passado existe. O presente é uma luz estroboscópica piscando entre o instante, a memória e a imaginação. Tudo que existe de material e imaterial no mundo pertence ao passado. O tênis que estou calçando, o café que tomo, o pão quente que estou comendo agora, tudo isto foi feito no passado. O futuro é uma aposta, uma suposição de fé.

Uma vez eu discutia com um amigo punk sobre “essa mania que os nordestinos têm de cultuar o passado”. Passado para ele, naquela conversa específica, eram os Beatles. Perguntei: “Quem é o presente, então?”. Ele disse “Os Ramones”. Eu disse: “Rapaz, os Ramones são passado também, aliás, se for fazer uma estatística, no cemitério já tem mais Ramone do que Beatle.”

Tudo é passado. A música do século 18, o cinema do século 20, o rock de 2016 e o jornal de ontem são passado. A epopéia de Gilgamesh, as lendas do Rei Artur, tudo são partes do passado, mas se mantêm vivas no presente, graças a nossa memória e nossa recriação.

Sim: na memória, que mantém vivos tanto os Beatles quanto os Ramones. Lá, os dois são contemporâneos de Dedé Monteiro e Zé de Cazuza, são contemporâneos de Lewis Carroll e de Lourival Batista.

O passado que continua acontecendo agora, através de alguém, é tão presente quanto as coisas que acabam de brotar pela primeira vez. Na frase famosa de William Faulkner, “o passado não morreu, ele nem terminou de passar ainda”. Podemos dizer também que não existem o passado, o presente e o futuro. Só existem dois tempos: o Passado e o Passando.

E dou a cara a bofete se na festa dos 200 anos de Louro não houver rock, forró, cantoria, mesa de glosa, cerveja em lata e churrasquinho no espeto de pau (porque ninguém é de ferro).