sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

3676) A maldição da trilogia (5.12.2014)



Há um mecanismo na mente humana que eu denomino Síndrome do Solitário Exemplo.  E defino assim: quando temos uma única experiência de algo, somos incapazes de perceber (e isto é mais do que compreensível) o que existe ali de necessário e o que existe de contingente. Em outras palavras: o que faz parte da própria essência daquilo, e o que não passa de um detalhe colateral, irrelevante, que tem importância naquele exemplo isolado mas não pertence à categoria como um todo.

Sou meio ruim de abstrações filosóficas e o jeito é correr para o abrigo do exemplo mais próximo.  Você desce num aeroporto na Turquia, país que visita pela primeira vez, e o taxista é barbudo, tem um terço católico pendurado no retrovisor, e usa óculos escuros.  Sua primeira conclusão é estender as características do Solitário Exemplo à categoria em geral e pensar que todos os turcos (ou todos os taxistas turcos) têm barba, terço e rayban. Quantas vezes ouvimos de um recém-chegado, desembarcados há meia hora, como “os cariocas” ou “os paraibanos” são gentis/grosseiros/prestativos/distraídos/faladores/...

Na literatura de Fantasia Heróica aconteceu algo parecido.  Muitos jovens leram O Senhor dos Anéis e botaram na cabeça a noção de que qualquer texto que se escreva em Fantasia Heróica tem que constar obrigatoriamente de três volumes.  Aí, o autor de 20 anos diz: “Estou com uma idéia ótima para a minha primeira trilogia”.

Sem querer entrar nos méritos estéticos ou estruturais do equívoco, me basta o argumento biográfico.  Tolkien detestava o conceito de trilogia.  Na cabeça dele, estava escrevendo um romance, a ser publicado como romance.  Seus editores tinham tido uma bela vendagem com O Hobbit e tiveram paciência bastante para passar meses argumentando.  Tolkien não era um escritor profissional.  Era um filólogo, um acadêmico, e livros com 1.500 páginas faziam parte de seu repertório de consulta habitual.  Ele mal lia a literatura de seu tempo, era carrança e ranzinza, e foi um trabalho para a editora Allen & Unwin convencê-lo a desmembrar o livro em três, mesmo tendo este uma estrutura que favorecia essa subdivisão.

Chegaram a um acordo: o livro seria apresentado como trilogia, mas a publicação seria em rápida sequência, num espaço de menos de dois anos.  Quando o leitor terminava um, o próximo já estava nas vitrines.  Mas... o carimbo tolkieniano foi forte.  O conceito de trilogia se impôs na Fantasia Heróica de um modo que nunca tinha se imposto na FC, apesar de exemplos como a Trilogia da Fundação de Asimov.  E se hoje você publica um livro no gênero, os fãs ficam perguntando “quando é que saem os outros dois”.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

3675) "Interestelar" - II (4.12.2014)



A produção visual e os roteiros de filmes de FC norte-americanos estão ficando tão parecidos que a gente começa a ver influência ou citação onde existe apenas a hegemonia de um estúdio ou o monopólio de um modo de fazer as coisas, atendendo a sucessivos clientes.  Em muitos momentos de Interestelar (2014) de Christopher Nolan, em cartaz por aí, eu achei que estava vendo uma sequela ou uma refilmagem de Prometeus de Ridley Scott.  Cascatas glaciais, aventura em planeta hostil que resulta em morte e fuga apressada para a nave-mãe, andróides ou computadores que imitam seres humanos, uma missão cuja verdadeira natureza só é sabida quando não tem mais volta, e por aí vai.  O que é uma injustiça, pois o filme vai bem além daquele.

Primeiro porque a Terra de Nolan é muito mais interessante. Uma Terra esfomeada, que parece viver exclusivamente de milho. Parece a Terra de Filhos da Esperança (Children of Man), de Alfonso Cuarón.  Nolan, com certo pudor, nem mostra o mundo terrível que deve ser aquele, mas nos dá um vislumbre assustador, numa diretora de escola, crente convicta de que a descida do homem na Lua foi forjada pela televisão.

O fantasma que assola no início a casa do piloto Cooper fornece um nó narrativo bem amarrado, que lembra o da “Continuidade dos Parques” de Julio Cortázar ou o de O Vagabundo das Estrelas (Sylbad) de Stefan Wul.  Imagino que alguns críticos irão torcer o nariz pelo fato de Nolan repetir seu efeito especial de A Origem, o dos quarteirões de Paris que se erguem e se dobram sobre si mesmos.  Ele o faz, mas com uma razão diegética bem humorada: o ambiente na face interior do cilindro da Estação, com gravidade induzida por rotação, é exatamente assim.  O labirinto pentadimensional onde Cooper se acha vagando, perto do final, é de uma realização visual fascinante.  Implausível?  Claro que é, não imagino nenhum ambiente pentadimensional que não o seja.

A Origem (Inception) era um filme de FC diferente porque pressupunha a possibilidade de invadir as mentes de outras pessoas e sonharem todos o mesmo sonho, admitindo distorções do espaçotempo a torto e a direito.  É um argumento mais original do que este aqui, embora Interestelar proponha um paradoxo temporal resolvido de uma maneira dramaturgicamente elegante, com um postulado gravitacional que, do ponto de vista científico, pode ser tão (in)questionável como qualquer outro.  O loop temporal que o argumento propõe fica ainda mais elegante quando superposto à gradual diferenciação de idade entre a filha, que envelhece na Terra, e o pai, numa missão em que uma hora de seu tempo físico correspondia a sete anos na Terra.





3674) Detetives do Sobrenatural (3.12.2014)



(ilustração: Romero Cavalcanti)

Corro o risco de estar cansando os leitores que me leem mais regularmente, mas vou comentar de novo minha antologia “Detetives do Sobrenatural”, que acabou de sair pela Casa da Palavra.  A melhor coisa de ser antologista é o dever moral de ler dezenas de volumes de contos alheios, e não tem coisa melhor do que isto, quando a gente tem plenos poderes para escolher o que publicar.  E em alguns casos nem precisa procurar muito, porque na primeira tomada de nota sobre o assunto já aparecem 15 ou 20 histórias já lidas, como opções mais imediatas.

Os Detetives do Oculto, como também são chamados, pisam um terreno minado, porque muitos deles não se limitam a fazer deducções numa poltrona: visitam ambientes “carregados”, encenam rituais, entram em combate direto com forças titânicas, ou satânicas, de ordem supra-material.  O gênero usa até com certa contenção o “mumbo-jumbo” teórico (com palavras tipo “plasma”, “etéreo”, etc.) além de conceitos bastante vitorianos como o duplo, o espelho, o simulacro, o mundo supramaterial... Eles examinam casas onde há fenômenos poltergeist, aparições de fantasmas, ataques de seres estranhos, eventos insólitos e inexplicáveis.

Têm um pouco de Sherlock Holmes, como é o caso (na minha antologia) de Bell (de Meade & Eustace), o Flaxman Low dos Heron, o Carnacki de Hodgson – o mais high-tech de todos, enfrentando horrores pré-lovecraftianos.  Eu chamaria a atenção para dois desses “sleuths”. Um deles é o Tio Abner, de Melville Davisson Post (autor de contos policiais de época, num meio rural austero e tenso).  No conto que escolhi, Abner enfrenta poderes do outro mundo, mas seu confronto é regido pela sua capacidade de ler pistas, de perceber intenções, de dar atenção a detalhezinhos que ninguém percebe.  Um varão tonitruante e contido do Velho Testamento, vestindo roupa de cowboy, com uma mão no revólver e a outra sobre a Bíblia.

O outro é o mais famoso detetive-do-oculto-cantador-de-viola que eu já vi: John the Balladeer, o violeiro errante de Manly Wade Wellman, informadíssimo e fluente em lendas e folclore e cultura de almanaques, sempre tirando da cartola de repentista (e da viola com cordas mágicas de prata) a canção certa para qualquer momento. Digo que ele é o mais famoso porque Wellmann tem também o John Thunstone, de perfil muito semelhante.  Mas os três livros que li com “Silver” John, the Balladeer, são uma espécie de romances regionalistas, com pequenos plots policiais ou de guerra entre poderes ocultos.  Na montanha, na floresta, no vale, no rio, nas estradas dos montes Apalaches, John vive esbarrando a toda hora em inimigos à sua altura.


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

3673) "Interestelar" - I (2.12.2014)




As gigantescas nuvens de poeira que o vento ergue numa terra estéril e ressequida, em Interestelar (2014) de Christopher Nolan são uma alusão clara às tempestades de areia dos anos 1930 no Dust Bowl, a região árida que inclui partes do Texas, Oklahoma e Estados vizinhos.  Um dos muitos infernos da Grande Depressão.  A última vez que as vi no cinema foi no filme de Hal Ashby Esta terra é minha terra (Bound for Glory, 1976), a biografia de Woody Guthrie, que compôs canções sobre essa fase, inclusive “Dust Bowl refugee”.

Uma Terra num futuro próximo. Crises ambientais e pragas agrícolas fora de controle puxaram o tapete da civilização. Diz o personagem de John Lithgow: “Seis bilhões de pessoas, e todas querendo o máximo que a civilização prometia.  Não ia dar certo nunca.”  Todos os recursos da Terra se voltam agora para a produção de alimentos, cada vez mais difícil. Como diz um mote de cantoria, “os pecados de domingo quem paga é segunda-feira”.  A chuva de areia é resultado de séculos de consumismo, desperdício, depredação ambiental, agrotóxicos, orgias de energia, farras de matérias-primas.  Um dia isso acaba.

Num mundo assim, um programa espacial seria visto como uma heresia, um acinte, de modo que a NASA torna-se algo clandestino como a Área 51.  Um prosseguimento da aventura tecnológica do nosso tempo, num momento em que a humanidade está na UTI?!  Claro que, sendo um filme de FC, é a aventura tecnológica que ele mais exalta.  Aquele otimismo arthurcclarkeano pela conquista do Universo.  Aquele fetichismo-de-veículos tão norte-americano, em que basta ter um piloto de munheca firme e reflexos rápidos para que a missão chegue a bom termo.  A humanidade é guerreira e não se entrega.  A terra agoniza?  As estrelas são meu destino.

Isso dá mais pungência ao leitmotiv do poema, que Dylan Thomas escreveu pensando no pai, na época lutando contra o câncer que acabou por levá-lo.  “Não siga mansamente para essa noite em paz.  Os velhos deviam arder e festejar, no fim do seu dia. Fúria, sinta fúria, fúria contra a luz que se vai.”  A humanidade não retornará mansamente à treva.  Ela prefere saltar para dentro de um buraco negro.  É a morte do planeta e a cambalhota às escuras para outro.  É a história de duas mulheres jovens e seus pais, uma história de aprendizados, heranças, cobranças, conflitos, uma solidariedade e cumplicidade que se estende para além do tempo e do espaço.  Mesmo que a humanidade esteja se suicidando, como deve estar hoje, até mesmo um suicida pode sentir fúria contra a luz que se vai.  A FC dos EUA nos presenteou essa fantasia tão necessária como espécie, a de que somos invencíveis.


domingo, 30 de novembro de 2014

3672) O enigma da Esfinge (30.11.2014)



Todo mundo conhece o enigma que a Esfinge da mitologia grega propunha aos viajantes: “Qual o animal que de manhã caminha com quatro patas, ao meio-dia com duas, e com três quando anoitece?”.  Somente Édipo resolveu a charada, dizendo: “É o homem, que engatinha quando criança, ou seja, no amanhecer da vida, depois anda com duas pernas quando adulto, e quando velho se apóia num bastão”. 

Os comentaristas dos textos clássicos observaram vários aspectos sutis dessa lenda.  Não sei se observaram que a aparência física da Esfinge (busto de mulher, asas de águia, corpo de leão, cauda de serpente) induzia os desafiantes a imaginar um “animal” igualmente extraordinário e híbrido, quando na verdade a resposta era bem simples – o animal era ele próprio, o Homem.  Isto pode servir de metáfora à literatura fantástica, que nos propõe enigmas bizarros que, bem examinados, têm sempre como resposta o Homem, o ser humano que escreve, publica e lê essas histórias.  Somos nós, humilde e gloriosamente, o princípio e o fim de toda literatura.

Um segundo aspecto é que o enigma é apresentado no contexto da história de Édipo, que é inteligente o bastante para decifrar a charada da Esfinge mas não a sua própria história.  Édipo (que, sem o saber, matou o pai e casou com a própria mãe) se vê diante de um problema (o misterioso indivíduo cujos pecados causaram a peste que assola Tebas) e quando finalmente resolve encará-lo descobre que a resposta é ele mesmo.  O homem é ele, ele é o homem que provocou aquilo tudo.

Eu arriscaria uma terceira interpretação, desta vez de caráter ciência-ficcional. O animal de quatro patas exprime, na manhã da História, a origem animal do ser humano, o fato de que, como os outros bichos, ele começou se arrastando de quatro sobre a Terra. Evoluiu, ganhou postura ereta, destacou-se entre os primatas. Tornou-se o que é.  E agora estamos entrando no terceiro estágio, o estágio da “terceira perna”, quando pela primeira vez surge, em nossa evolução biológica, a presença de próteses, de complementos artificiais, de partes mecânicas. O homem torna-se ciborgue, torna-se um híbrido entre o biológico e o mecânico (ou o eletrônico).  Édipo, o Édipo de Sófocles, poderia dizer: “Em seu terceiro estágio, o homem terá o apoio de tecnologias artificiais extra-corpo, com as quais nunca tinha contado, mas esse elemento estranho à sua natureza biológica virá para ficar. Sem ele, o homem não conseguirá mais caminhar sozinho; sem ele, será incapaz de viver, e apesar de num primeiro momento julgar-se superior ao que fora ao meio-dia, a presença dessa muleta comprova apenas que ele está vivendo seu estágio final”.




sexta-feira, 28 de novembro de 2014

3671) As eleições no futuro (29.11.2014)


(foto: Niur)

Segundo Edgar Allan Poe, não existe nada codificado por uma mente humana que outra mente humana não possa descodificar.  Dizer que uma urna eletrônica é à prova de hackers é como dizer que um ônibus espacial é à prova de acidentes.  Mas não há dúvida de que a era vídeo-eletrônico-digital deu ao pessoal das teorias da conspiração um combustível em expansão proporcional à da Internet. Uma dessas manias é achar que tudo que é eletrônico está sendo manipulado, pelo simples fato de poder ser manipulado sem deixar rastros materiais visíveis.

Votação em urnas eletrônicas são uma coisa ainda muito vulnerável, muito rudimentar. Minha suposição é de que um dia em vez de Título Eleitoral, Identidade e CPF teremos uma combinação de chipes subcutâneos (turbinados com o auxílio de drogas injetáveis periódicas) que captarão todas as nossas reações a tudo que estivermos recebendo em bio-wifi: noticiário ou futebol, canais de música online, de notícia, de opinião... Será através dessa interface permanente que nos comunicaremos, recitando SMSs em voz baixa, fazendo transferências bancárias, criptofirmando documentos, autografando o reconhecedor-vocal de algum fã. 

Isto (vejam a sutileza!) irá compondo aos poucos nossos votos. Quando estivermos todos assim, não precisaremos mais votar.  Os candidatos disputarão o eleitorado apresentando um cartel de propostas, recursos, e assinalando (num mutirão de uma semana com sua equipe) suas respectivas opções em, sei lá, 1.423 itens fornecidos pela Gerência Eleitoral.  Os itens refletem todas as variáveis de comportamento da população que estão sendo captados via os mencionados chips, etc.  A soma de todas as nossas reações emocionais e instintivas ao longo do dia vai sendo computada (temos com isso um substancial desconto de Imposto de Renda) e constitui o nosso voto. 

Estaremos registrando o tempo todo nossas reações emocionais diante de leis, obras, decretos, pronunciamentos públicos.  Na verdade, estaremos votando 24 horas por dia, cumulativamente, sete dias por semana, e nos apresentaremos à Justiça Eleitoral para que seja emitido o código de barras relativo a nossa história política.  De posse dele, iremos apresentá-lo em nossa seção e zona, um código de barras onde estarão registradas todas as nossas simpatias, antipatias, concordâncias, discordâncias.  E na hora do voto, essa soma total de opiniões contraditórias (que nem de longe é consciente) será instantaneamente computada, resultando num voto válido. E, como os sertanejos dos velhos currais eleitorais nordestinos, estaremos votando sem nem sequer saber em quem.




3670) Tradução e anacronismo (28.11.2014)


(Ilustração: Vita Wells)

“A folhas tantas do Wilhelm Meister, descreve Goethe um piquenique e assim conclui: ‘Seria tudo muito mais romântico se não houvesse ao fundo uma carruagem’.  E como, para nós, não há nada mais romântico do que uma carruagem – que vontade de substituí-la, dizendo que ficaria muito mais romântico se não houvesse ali um automóvel! A ‘tradução’ na verdade seria um anacronismo, mas que fielmente traduziria a intenção e o sentimento do autor”.

A citação é de Mario Quintana, em seu livro Da Preguiça Como Método de Trabalho (1987). Quintana era tradutor, sim; trabalhou para a Editora Globo de Porto Alegre, que por muitos anos foi uma das melhores, senão a melhor editora do Brasil.  O poeta traduziu Virginia Woolf, Joseph Conrad, Balzac, Proust, Aldous Huxley, Guy de Maupassant... 

Se bem que da longa lista de suas traduções que acabo de consultar (na Poesia Completa da Aguilar) lembro ter lido apenas os Romances e Contos de Voltaire (1951) e O Tio Prodigioso (The Fabulous Clipjoint) de Fredric Brown (1951).

No exemplo de Quintana, o autor indica, e o tradutor percebe, que o efeito pretendido é de estranhamento, mas a passagem do tempo dilui esse efeito porque confere a todos os elementos da cena (o piquenique, a carruagem) uma aura uniforme de romantismo.  A carruagem, que seria tão prosaica na época quanto o automóvel é hoje, perde esse poder de contraste. A intuição de Quintana é precisa, e a sua queixa é compreensível: para reproduzir o efeito pretendido pelo autor seria preciso recorrer talvez a um anacronismo, mas a liberdade de um tradutor (pelo menos numa obra com esse perfil) não deve ir tão longe.

É uma situação meio sem saída, porque se no original diz carruagem, é preciso dizer carruagem na tradução.  Uns leitores perceberão o efeito, e o próprio texto insiste nele; outros terão algum direito de estranhá-lo ou de mal percebê-lo.  

Já vi casos meio extremos em que o tradutor, ansioso para salvar cada migalha, pespega um asterisco e um comentário ao pé da página.  Pra mim, isso só se justifica em edições especiais, comentadas, anotadas, de obras de importância histórica.  Poderia até ser o caso do Wilhelm Meister hoje; mas num romance contemporâneo ou de menor prestígio (aqueles casos em que a história é mais importante do que a fama do autor), para que quebrar o fluxo da leitura a toda hora? Para que “dar pausa no DVD” e explicar esse nível de detalhe?  

Quem está entrando num livro pela primeira vez tem mais interesse (acho) em preservar a fluidez espontânea da história, o percurso sem muitas interrupções (mesmo informativas), deixar as anotações apenas para detalhes realmente indispensáveis.





quinta-feira, 27 de novembro de 2014

3669) O Inferno é um rehab (27.11.2014)



(ilustração de William Blake para a Divina Comédia de Dante)

Numa entrevista concedida certa vez a Geneton Moraes Neto, Ariano Suassuna falou sobre o assassinato de seu pai João Suassuna (morto de emboscada numa rua do Rio, por um pistoleiro a mando de líderes políticos adversários).  Sabendo que estava jurado de morte, João deixou uma longa carta para a esposa e os filhos, dizendo que era inocente do crime de que os inimigos o acusavam (de ter ordenado ou incentivado o assassinato do governador João Pessoa), e dizendo: “Se eu for morto, não se vinguem. Não se tornem assassinos por minha causa.”

O assassino foi condenado a quatro anos e cumpriu dois; viveu até uma certa idade, e houve uma época em que morou a poucos quilômetros de onde viviam a viúva e os filhos da vítima, a esta altura todos adultos. Inquirido pelo repórter, Ariano admitiu que passou a vida dividido entre essas duas forças opostas, a possibilidade de vingança (e, de acordo com um certo código sertanejo, a obrigatoriedade moral da vingança), e do lado oposto a serenidade do pai e a firmeza da mãe.  E ele diz a certa altura: “Eu já cheguei a rezar por ele”.  Geneton pergunta: “E o que falta para perdoá-lo?” Ele diz: “Sentir por ele o mesmo que sinto pela minha esposa, meus filhos, meus amigos”.

Ariano tinha essa angústia moral dostoievskiana diante da face torva do mundo. Diz ele na entrevista que considera o inferno como uma parte mais profunda do purgatório, um lugar de expiação, onde as almas sofrem uma purificação pelo sofrimento e de onde um dia podem emergir, redimidas.  “Eu me recuso a acreditar na eternidade do inferno,” diz ele na entrevista. “Isso seria um absoluto, e absoluto só Deus. E hoje, depois de pensar muito anos, eu diria que estou me aproximando do perdão, porque se dependesse de mim a permanência dele no inferno, eu diria: pode sair.”

Tenho uma formatação mental diferente, não acredito em inferno nem purgatório. Uso esses conceitos como parâmetros, porque são da nossa cultura e determinam as ações de muita gente. Sempre achei que, nesses termos, quando o cara vai para o inferno é uma queda sem volta, mas entendo também essa concepção de um inferno apenas temporário, um purgatório para as almas mais encardidas. O inferno é o “rehab” das almas recalcitrantes.  E me comove pensar que, pelo menos em vida, as vítimas sofrem mais do que os criminosos, porque estes, muitas vezes (assassinos, estupradores, etc.), não se arrependem, não estão nem aí.  Dão risada.  São as vítimas (algumas delas) que sofrem por eles.  Sofrem por terem sido maculadas pelo Mal, purgam dentro de si sua tragédia, acabam se purificando e se engrandecendo para poder neutralizar o Mal que as tocou.





quarta-feira, 26 de novembro de 2014

3668) "Teia de Cordéis" (26.11.2014)



Este catálogo-livro foi editado pela Fundação de Cultura Cidade do Recife (2013) para acompanhar a exposição homônima de folhetos de cordel, que esteve em cartaz de março de 2011 a maio de 2012, no Museu de Arte Popular (MAP) do Recife.  A exposição foi dividida em duas partes: “Cordéis Portugueses” (da Coleção de Arnaldo Saraiva) e “Cordéis Brasileiros” (da coleção de Maria Alice Amorim), com curadoria dos dois pesquisadores para a primeira parte, e de Alice Amorim para a segunda. Cabe aos dois, também, a redação dos textos do volume, que examinam e comentam o material exposto.

O livro, com 236 páginas, é um pequeno primor de projeto gráfico, com reproduções de mais de 240 capas, folhas de rosto ou páginas avulsas de cordéis, incluindo também algumas das chamadas “folhas volantes” com poemas impressos de um só lado, usadas tanto lá quanto cá. A reprodução de capas de cordéis, quando é muito boa (como neste caso) revela com clareza as cores exatas das tintas, sua tendência ou não a borrar, a textura do papel, sua aspereza ou lisura, sua tendência a escurecer e se esfarelar nas bordas.  As publicações portuguesas aqui reproduzidas mostram com perfeição, em obras dos anos 1600 ou 1700, as manchas e ondulações do original, a finura das capas deixando transparecer o que há impresso pelo lado de dentro, o desalinhamento eventual dos tipos.  Tudo isso conta; tudo isso revela o trabalho e as condições de trabalho de quem os produzia.  O aspecto editorial dos folhetos é tão rico e fascinante quanto o seu aspecto propriamente literário.

E há a questão recorrente do quanto o cordel brasileiro é uma mera expansão do corpus temático do português. A filiação dos dois me parece clara, e clara também a descoberta de novos territórios que aqui se fez, até porque nosso cordel atual vive numa sociedade mais complexa em possíveis temas, em possíveis abordagens, em novas atitudes mentais e criativas que seriam impensáveis num Portugal (e mesmo num Brasil) de 1800. Se Portugal como país é o caso de uma sociedade que deu origem a outra maior e mais complexa que ela mesma, acho que o mesmo pode-se dizer de sua poesia popular impressa, o que não a desmerece, pelo contrário.  Ali estão as sementes, o DNA: o restante se deve à evolução independente que a criatura tomou, sua força de falar com voz própria, de recriar com uma estética própria uma poética e uma tecnologia editorial herdadas.  Essa justaposição do cordel lusitano e brasileiro mostra a personalidade distinta de cada um e a criatividade de ambos, a decantação poética que ambos produziam e produzem no meio social que os escreve, decora e recita.


terça-feira, 25 de novembro de 2014

3667) O retrato com Vovó (25.11.2014)


Ninguém dormiu direito naquela noite, era um aperreio de gente chorando pelos cantos, a casa toda acesa, gente indo e voltando, as pessoas cochichando e pisando na ponta dos pés. E nós três no quarto, cada um na sua caminha, tentando escutar tudo através da porta fechada. De vez em quando um da gente chorava, quando ouvia mamãe chorando. Papai ia e vinha, dando instruções, com aquela voz mais baixa e mais grossa, que não dava vontade de chegar muito perto dele. O cansaço era grande e eu pelo menos acabei cochilando.

De manhã ninguém foi para o colégio, mas nem isso adiantou, eu preferiria ter um dia igual aos outros, o café com cuscuz e tapioca, a farda, a bolsa, o ônibus, o empurra-empurra no pátio, as turmas formando sob os berros do fiscal (“Menores na frente! Maiores atrás! Braço estendido, tocando com a mão esquerda no ombro do companheiro à frente!”), e depois as turmas sendo liberadas de uma em uma, marchando rumo à sala de aula que cheirava a óleo de peroba.

Não foi nada disso, passou a hora da aula e a gente não teve coragem de levantar da cama. Dava para sentir o cheiro do incenso aceso no quarto ao lado. Minha tia girou a chave na fechadura, entrou e mandou a gente se aprontar. Lavamos o rosto e sentamos na mesa da cozinha. Lá de fora vinha um barulho de vozes de homens entrando em casa, carregando alguma coisa comprida e pesada, meu pai bradando instruções.  Tomamos café com pão-com-manteiga e só, e minha tia nos levou de volta para o quarto. Nenhum da gente teve coragem de perguntar nada.

Mais tarde ela voltou. Fez cada um de nós se vestir como em dia de missa, penteou os cabelos da gente com um pente molhado na torneira, ajudou a dar o laço no sapato, fiscalizou as orelhas e mandou esperar.  Esperamos. Vieram e nos levaram para a sala, que cheirava a flores.

O caixão estava pronto, do lado oposto à janela. Na parede maior tinham afastado os outros móveis e Vovó estava com o vestido que usava no Natal, sentada na poltrona encostada à parede, com as mãos pousadas no colo, o retrato de papai e mamãe por cima dela. Tinha os olhos fechados e o rosto pintado de maquilagem, estranho, porque há muito tempo que ela não se pintava mais. Meus irmãos ficaram em pé de um lado, eu, o mais velho, fiquei do outro.  No meio da sala, o fotógrafo, Seu Sóter, amigo de papai, mandou que a gente levantasse mais o rosto. Empunhou a máquina, ergueu a lâmpada, e um instante antes do relâmpago eu virei o rosto para vovó, e vejam o que é criança, juro que ela abriu os olhos, piscou pra mim aquele olhinho bem azul dela e disse baixinho: “Deixei um livro pra você embaixo da imagem de São Jorge.” E não é que eu achei?!