quarta-feira, 1 de maio de 2013

3174) Escrever pensando (1.5.2013)





Isaac Asimov dizia que quem escreve sem clareza é porque pensa sem clareza. Todos os nossos pensamentos brotam de uma maneira meio indisciplinada, com as idéias se entrechocando numa espécie de movimento browniano de partículas. É preciso comprimir essas idéias, ajustá-las, direcionar todas no mesmo sentido, fazer com que se harmonizem umas às outras, e só então verbalizar o resultado. 

Não se deve escrever tudo que passa pela nossa cabeça. A não ser que a intenção seja produzir poesia surrealista. Deve-se pensar com intensidade, arrumar os pensamentos com clareza, verbalizar o resultado – e só então passá-lo para o papel.

Existem autores que têm facilidade para imaginar enredos, mas não para escrever histórias (são duas coisas bem diferentes!). E existem autores que são o contrário disso. No melhor dos mundos, aprenderiam a trabalhar de parceria, abrindo mão do egocentrismo do crédito individual. 

Por que motivo tudo tem que ter um autor único? “Um livro de Fulano e Sicrano”. Por que motivo isso seria menos artístico do que “uma canção de Fulano e Sicrano”? 

A ficção de gênero (policial, ficção científica, horror) é cheia de autores que na verdade são pseudônimos ocultando bem-sucedidas duplas de parceiros: Lewis Padgett, Eando Binder, Lawrence O’Donnell,  Robert Randall, Ellery Queen, Emma Lathen, Patrick Quentin, etc. Para não falar nas parcerias oficiais: Frederik Pohl e Cyril Kornbluth; Fletcher Pratt e L. Sprague de Camp; etc.

Os roteiristas de Hollywood descobriram na prática dois arquétipos básicos da profissão: “the sitter and the talker”. Tem um que é falador, sente-se mais à vontade andando de um lado para o outro e improvisando em voz alta as situações e os diálogos. O outro fica sentado, ouvindo, fumando e pensando. De vez em quando corrige o outro em algum detalhe. De vez em quando anota algo num papel. Caberá a ele organizar por escrito a história que o colega imagina, ajudado por suas dicas. Isso se chama co-autoria.

A música popular é muito estimuladora da parceria entre talentos muitos diferentes entre si: Lennon e McCartney; João Bosco e Aldir Blanc; Tom Jobim e Vinicius de Moraes; Rodgers e Hammerstein... 

Será que algum desses artistas pensou em algum momento que estava se diminuindo, ou abrindo mão de sua criatividade, somente por estar trabalhando em conjunto com outra pessoa? Duvido. 

Escrever é pensar: escrever juntos é pensar em conjunto. Às vezes dá mais trabalho do que pensar sozinho. Às vezes é capaz de salvar dois autores que, sozinhos, jamais conseguiriam produzir no nível de qualidade e complexidade que o trabalho em parceria lhes proporciona.








3173) Dois desabamentos (30.4.2013)




(O minarete de Aleppo)


Abri a página da Wikipedia para consultar alguma coisa e vi essas notícias lado a lado. (Intervalo: Sim, eu consulto a Wikipedia. Já trabalhei anos em enciclopédia. Toda enciclopédia tem erros. A Britânica tem tantos erros quanto a Wiki. Para informação básica, nomes, fatos, datas, títulos, números, todas são igualmente (des)confiáveis. E a Wiki eletrônica remete direto às fontes, coisa que no papel é impossível fazer. Fim do intervalo.) Bem, eis as notícias:

1) A destruição do minarete da mesquita de Aleppo (Síria), no último dia 24 de abril, na luta entre o governo e os rebeldes, que se acusam mutuamente de ter bombardeado o monumento. A mesquita já foi destruída e reconstruída várias vezes: após um incêndio em 1159, após a invasão mongol em 1260, etc. O minarete, construído em 1090, era a parte mais antiga ainda intacta. Agora, é uma pilha de tijolos quebrados e poeira.

2) O desabamento (no mesmo dia 24) de um prédio comercial de oito andares em Bangladesh. No prédio trabalhavam operários em confecções de tecidos, inclusive para empresas como Benetton, Walmart, etc. Na véspera do acidente tinham sido avistadas rachaduras, mas os proprietários garantiram que não era nada de mais. Na hora do desabamento, 9 da manhã, havia 3.122 pessoas no prédio; até agora há 348 mortos e mais de mil feridos.

Quando vi essas duas notícias lado a lado, me entristeci pela destruição do minarete, uma relíquia histórica; a queda do prédio cheio de costureiras não me abalou tanto. Pelo menos foi assim durante uns dez segundos, até que resolvi voltar, reler tudo e descobrir por que dou mais valor a um minarete do que a trezentas pessoas.

A questão, me parece, é que o minarete é um indivíduo, e aquelas pessoas não são. É um indivíduo porque tem nome, tem foto, tem descrição, tem uma história própria. É cercado de fatos históricos, de análises arquitetônicas. Milhares de turistas já o fotografaram. Já as costureiras anônimas de Bangladesh não têm individualidade, são uma massa amorfa de estatísticas. Ninguém jamais saiu do Rio de Janeiro para tirar foto com uma delas.

Por isto o jornalismo nos aconselha: particularize. Ninguém se comove com a morte de mil pessoas, mas alguém se comoverá se você disser que uma delas tinha 22 anos, se chamava Salima, morava com o pai viúvo, era casada com um músico, e tinha acabado de deixar a filhinha de 2 anos na creche do andar térreo. Basta essa breve silhueta (inventada: não tive coragem de ler as histórias reais) para que o jornalismo deixe de lado a impessoalidade da estatísticas sociológicas e se aproxime da literatura, a quem cabe, no fim das contas, contar a comédia e a tragédia humana.



domingo, 28 de abril de 2013

3172) 14 lugares (28.4.2014)




A choupana onde Nuno Torga declarou seu amor à cozinheira Afonsina e teve que escutar quando ela disse “não quero teu amor, quero uma casa, uns filhos e alguma comida, podes levar teu amor para a beira dum poço e jogá-lo lá dentro”. 

O alambrado onde Dedé Mousinho estava encostado fumando quando uma falta cobrada pelo zagueiro do Guarani bateu na cabeça dele e o nocauteou. 

O elevador do edifício comercial onde Artur Bento ficou preso durante duas horas e meia numa noite de sábado, tempo suficiente para dar um balanço na sua vida e tomar algumas decisões que o salvaram. 

A alameda onde Yashev beijou Ruth na boca, e depois ela beijou suas duas mãos agradecendo a graça.

A desconjuntada escada de mão aberta em V em cujo topo balouçava uma lata, aberta, de tinta azul-cobalto. 

A cratera de dezenas de metros de fundura aberta pela explosão de um petardo governamental que enviou pedaços de dissidentes num raio de cem metros em volta do ponto marcado meio às cegas por um atirador com nota 6,4 em balística. 

A cadeira de engraxate no térreo do grande centro comercial onde um homem ficou sentado por trás de um jornal enquanto um casal específico passava aos beijos diante dele, sem notar sua presença e sem imaginar o que ele ali mesmo imaginou.

A cozinha atarefada do restaurante de hotel cinco estrelas por onde uma moça magra entrou de madrugada, pediu tímida a licença de todos, preparou um chá com as ervas que trouxe, arrolhou a garrafa, agradeceu, voltou para sua suíte e só então os funcionários perceberam que era a estrela inacessível cuja chegada estava anunciada há vários dias. 

O barreiro onde um menino chegou, olhou, examinou, depois afastou-se alguns passos, saiu correndo, tapou o nariz com os dedos, e tibungou no barreiro – e ali mesmo afundou direto e nunca mais ninguém o viu.

O quarto de pensão barata onde beijos foram trocados com alívio e fúria por pessoas que pouco estavam ligando se o mundo quisesse acabar ali mesmo e naquela hora. 

O cadafalso onde um homem, poucos segundos antes de ser enforcado, olhou uma praça com milhares de pessoas gritando, e gostou de sentir-se grande. 

O lixão onde um monte de folhas datilografadas ensopadas em querosene arderam e ajudaram a fazer arder a lenha que embalou uma noite de sono cálido para Estamira.  

A poça vagarosa que a chuva da noite foi alargando em torno do corpo da menina como se fosse uma mandala, protegendo-a, até o amanhecer, quando foi avistada e logo logo a polícia chegou. 

O lugar marcado com um X, porque por alguma razão que não se conhece o lugar marcado com um X é o lugar que vale por todos, é o mapa do lugar procurado por todos.






sábado, 27 de abril de 2013

3171) A Porca de Soledade (27.4.2013)





A Porca de Soledade “virou cultura”, como dizem certas senhoras. Ficou famosa, virou domínio público. Sua fama já cruzou fronteiras, já chegou a dezenas de países e centenas de milhões de pessoas, mas mesmo assim a curta vida do extraordinário animal continua a ser objeto de investigação e polêmica, mergulhada que está nas brumas da desmemória e nos torvelinhos da lenda.

A parte da desmemória está sendo compensada, porque uma auditoria independente exumou há pouco, nos porões de uma prefeitura, uma caixa de ventilador cheia de papéis concernentes à famosa Porca. São depoimentos colhidos no calor dos acontecimentos ou redigidos com mais vagar na crônica das efemérides. Conta-se ali o terror que se abateu sobre Soledade através da Porca Que Tinha De Comer Sem Parar.

A Porca nasceu numa fazenda, não se sabe de quem. Os que se dizem o ex-dono do animal original chegam às dezenas, de modo que é inútil arrolar aqui seus nomes. A história começa a ficar mais nítida a partir da intervenção de Dedé Merenciano, um bicheiro local autointitulado “o Zoo Tycon do sertão”.  Ele comprou a Porca depois que esta, recém-nascida, devorou em dias, com sua fome horripilante e suas mandíbulas insaciáveis, tudo que seu antigo dono possuía. Dedé Merenciano era da teoria de que a crise de um é a oportunidade de outro, e arrematou a Porca sem muito trabalho.

Adulta, a Porca era alimentada de forma contínua por duas filas de quinze homens que, de pá em punho, arremessavam comida em sua gigantesca boca como quem arremessa carvão numa fornalha. A Porca roncava, babujava, cuspia, mastigava, derramava, engolia, mas não parava de abocanhar as saraivadas de maionese, farofa, ração, torta, palma, espaguete à bolonhesa, sopa dos pobres, tudo que os alimentadores lhe jogavam sem parar. Dedé vendia merchandising, usava comida vencida, conseguia isenções, só se dava bem.

Os relatos divergem quanto às dimensões do mítico animal, que vão de um máximo de trinta metros de comprimento e seis de altura (mas num folheto de cordel, de modo que há de se considerar a licença poética) até uma mais razoável, mas não menos impressionante, de uma equipe norte-americana de membros de uma sigla qualquer, que veio, fotografou, filmou, mediu, pesou, tirou amostras, agradeceu e foi embora. Um dos registros que deixaram mostra que a porca tinha cerca de três metros de altura e oito do focinho à cauda. Mas de que adianta isso agora? A vida humana é imprevisível, até para os americanos. Numa noite qualquer deste ano, um dos trinta homens que a alimentavam teve que se interromper por um instante enquanto limpava o suor da testa. E com isso a Porca morreu de fome.



sexta-feira, 26 de abril de 2013

3170) Teorias da Conspiração (26.4.2013)






O atentado a bomba na Maratona de Boston e o subsequente cerco policial aos irmãos chechenos Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev estão sendo tomografados e dissecados na Internet. Muita gente questiona as explicações oficiais . Os mais veementes bradam que foi tudo mentira, tudo encenação, tudo é uma conspiração entre o Governo e algumas agências secretas, obscuras, cujos propósitos não podem ser coisa muito boa para qualquer país.

Acham que os irmãos entraram como bodes expiatórios. Que parte dos feridos eram atores, manchados de sangue artificial, que as verdadeiras bombas foram colocadas por outras pessoas, que Tamerlane foi preso vivo e chegou morto ao hospital, etc.  Há um vídeo absurdo, não explicado, em que ele (supõe-se que seja ele) aparece nu, algemado, entrando na viatura. E dizem que morreu no tiroteio, inclusive atropelado pelo irmão na fuga? Assim como o que ocorreu no 11 de setembro, há um matagal de coisas mal explicadas.

Já notei que os mais entusiastas defensores das Teorias da Conspiração são os jovens. Sua virtude é duvidar de tudo, seu defeito é crer de tudo, e passam de um para o outro com uma facilidade assombrosa. Sei disso porque fui e creio até que ainda sou um deles, dos que se apaixonam por uma teoria não pelo seu teor profético ou antecipatório, mas pela beleza da cambalhota mental de quem a fez. Uma teoria tem que ser como uma paranóia; um arranjo de idéias tão de-ferro que ninguém consiga produzir-lhe um “dente”; e tão flexível que assimile tudo, justifique tudo.

Os jovens acabaram de fazer a transição traumática entre certas crenças de criança e certas verdades de adolescente. Descobrem que foram frequente e variadamente enganados por pais, professores, presidentes. Desse dia em diante sua vida é regida por Kafka e George Orwell.  Eles não acreditam e não confiam mais em ninguém.

Sou assim. Dois dos meus livros fundadores são (ferozmente questionados, como também cultuados por toda parte): O Despertar dos Mágicos de Pauwels e Bergier, e As Veias Abertas da América Latina de Eduardo Galeano. Um é meio contracultura, o outro é meio de esquerda, mas mesmo quem ironiza essas épocas precisa recorrer a sua imaginação. Estes livros são dois exemplos cabais de teorias conspiratórias encharcadas de verdades, fervilhantes de fatos. Seja o delírio alquímico-surreal e FC-ocultista dos franceses, seja o jornalismo investigativo e imaginativo, a colagem de lendas e notícias do uruguaio. Mesmo que todos os nomes próprios ali fossem trocados, aquelas histórias continuariam substancialmente verdadeiras, como o são todas as fábulas, todas as grandes obras de ficção.



quinta-feira, 25 de abril de 2013

3169) "Repossession Man" (25.4.2013)





Nos anos 1950, os rebeldes sem causa dos EUA e os “angry young men” da Grã-Bretanha batiam de frente com pais caretas, moral e politicamente conservadores. O filme Repo Man de Alex Cox (1984) é de uma geração depois disto, e tem um perfil interessante. É um desses filmes rebeldes e roqueiros que a toda hora escapam por entre as frestas da indústria.  Em parte mostra o que significa ser punk: a briga surda e não-violenta entre o rapaz Emilio Estevez e seus pais é uma briga perfeitamente normal. Ou seria, se os pais não estivessem fumando baseados e não tivessem investido todas as suas economias num pastor evangélico.

O personagem Otto começa a trabalhar como “Repo(ssession) Man”, o cara a quem cabe tomar de volta os automóveis que foram comprados e não foram pagos. O filme, mais do que ser uma análise do meio social e cultural dos “repo men”, parece um filme financiado e co-roteirizado por repomen do mundo real. Tem a trilha sonora de alta octanagem e mistura de cenas de brigas, de perseguição, cenas que o diretor traz prontas na cabeça e depois dá um jeito de encaixar na história.

Meu personagem favorito é um maluco que vive elaborando teorias da conspiração e imagina que os discos voadores são máquinas do tempo, e que as pessoas desaparecidas nas grandes cidades foram na verdade enviadas para o Passado. Para quê? Não se sabe, porque tudo é muito mais complexo e cheio de surpresas do que a gente imagina. Nas franjas da cultura roqueira paira sempre esse universo cinza e pegajoso das fantasias cósmicas ou de espionagem megacorporativa, a noção (que a paranóia das drogas certamente deixa mais vívida) de que o mundo é manipulado por forças malignas que desconhecemos.

O filme tem uma cena em que um cara entra num carro e faz ligação direta dos fios da ignição. Isso durou uns trinta segundos, mostrando todas as tentativas de fazer o motor pegar, e foi uma eternidade, porque em filme americano o normal é um corte rápido e o carro já vai de estrada afora, satisfeitão. O plano insuportável deste filme amadorístico me abriu os olhos para a possível cronometragem de um roubo-de-carro real.

Há uma subtrama alienígena sobre alguma coisa radioativamente mortal na mala de um carro, o que acaba se tornando um “deus ex machina”, um raio mortal lançado por Zeus. Quando é preciso matar um personagem, basta fazê-lo abrir a mala desse carro. É um momento Arquivo X na história, mas feito num clima meio de humor, meio de filme-B-de-alien, que é o que Repo Man acaba sendo mesmo. Filme sem compromisso com bilheteria, a não ser o propósito de se pagar e poder fazer outro. Como aliás deveriam ser todos os filmes.




quarta-feira, 24 de abril de 2013

3168) Resolvi gostar (24.4.2013)





(by Jon Kuta)



O bisturi me descascou como uma cebola, desdobrou origamis das minhas vísceras, foi deixando listras de fogo-napalm por onde passava, e enquanto isso as algemas laceravam meus pulsos e eu cravava os dentes no trapo cheirando a querosene que me mandaram morder num acesso de piedade. A dor quando surge colapsa todo o resto do Real. Somente ela existe no Universo, somente os seus dois polos: o corpo que a sente e ela que ferve nesse corpo, como o bilhão de explosões nucleares que o Sol ruge por minuto. 

Resolvi gostar. Resolvi me entregar por completo àquela dor. Desisti de lutar contra ela, de pedir que parasse, resolvi aceitar que ela fazia parte de mim ou eu que fazia parte dela, e assim deixar que a dor crescesse a ponto de dissolver o conflito.

Fui manipulado como cabra-cega, seduzido por hipóteses e promessas, enleado por sorrisos, tapinhas nas costas e adiantamentos bancários, e todo dia pisava numa armadilha, caía numa arapuca, despencava num alçapão. Assinei folhas em branco confiando na descrição do que em breve seria impresso ali. Aceitei sem checar. Acreditei sem conferir. Fiz de conta que não vi o que se escancarou na minha frente, fiz de conta que não entendi o fato consumado que rolava de boca em boca. Fui bobo da corte, peão no roque alheio, inocente útil... 

Resolvi gostar. Virou um teste de até-onde-isso-vai. Virou uma experiência de laboratório onde o rato resolveu assumir o controle porque entendeu, enfim, que era uma experiência. Resolvi entender. Me interessei por tudo, como quem pela primeira vez entende um jogo de críquete, e transformei meu opróbrio em espetáculo.

Me depuseram, me manietaram, me sacanearam, me expuseram ao ridículo, me traíram, me bateram a carteira, me rasgaram os documentos, me enxovalharam a reputação em todos os órgãos de imprensa em quarenta idiomas, arrastaram minha estátua puxada por burros e alvejada por ovos podres. 

Meus partidários, meus cupinchas e meus apaniguados foram os primeiros a esfregar a sola suja do pé na minha cara. As mulheres me enxotaram rua afora com vassouras. As crianças surgiram excitadas à janela e gritaram à minha passagem seu primeiro palavrão. Aguentei as gargalhadas impiedosas dos bem-falantes, a mangação dos mendigos, a maledicência dos despeitados, o chute-no-traseiro com o sapato feroz dos ressentidos. 

Resolvi gostar. Resolvi permitir que aquele enxovalhamento fosse uma lavagem, uma purgação, um massacre de mim mesmo, uma sessão de bate-tapete que improvavelmente me restituísse a mim mais cru, mais mineral, mais resíduo de essência indestrutível. Àquela altura valia tudo. E eu só gosto quando chega nesse ponto.









terça-feira, 23 de abril de 2013

3167) Monteiro Lobato e Mark Twain (23.4.2013)





O que há em comum entre esses dois escritores, além do fato de que estão entre os primeiros que li, e os mais queridos? Uma porção de coisas.  Ambos foram escritores com uma obra para adultos séria e relevante, mas acabaram se tornando famosos como autores para jovens, em função de seus livros de maior sucesso. A imensa maioria dos que os conhecem leram apenas essas obras infanto-juvenis e desconhecem seus livros mais complexos.

Monteiro Lobato é famoso pela sua série de romances do Sítio do Picapau Amarelo, mas só é conhecido no Brasil. Às vezes imagino o susto e o maravilhamento de meninos ingleses, japoneses, norte-americanos, quenianos, se pudessem ler boas traduções dessas obras e conhecer um mundo de surpresas inesgotáveis. Mark Twain escreveu alguns livros com as aventuras de Tom Sawyer e Huckleberry Finn, dois garotos rurais num ambiente mais realista do que o de Lobato, mas igualmente divertido. Aliás, Lobato fez adaptações de livros de Twain para a Editora Brasiliense, e talvez tenha sido através dele que muitos brasileiros conheceram o norte-americano.

Ambos tiveram flertes com a ficção científica. Lobato com o histórico O Presidente Negro (1926) e alguns volumes infantis (A Chave do Tamanho, Viagem ao Céu, A Reforma da Natureza); Twain com Um Ianque na Corte do Rei Artur (1889), uma história clássica de viagem no tempo, mesmo que sem explicação técnica de como isso aconteceu, e numerosos contos já reunidos em coletâneas. Ambos tiveram interesse pelo lado prático da literatura: Lobato criando a Companhia Editora Nacional e outros empreendimentos semelhantes, e Twain investindo todo seu dinheiro (e dos amigos) numa máquina impressora que pretendia concorrer com o linotipo. (Ambos deram com os burros nágua e perderam fortunas.)

E ambos foram acusados de racismo por terem escrito romances em que adultos negros apareciam sendo maltratados ou ridicularizados por crianças brancas: a Tia Nastácia de Lobato e o escravo Jim de As aventuras de Huck. Uma acusação injusta por ignorar a pressão da mentalidade do tempo em que viveram. Talvez o mesmo venha a acontecer conosco, que os acusamos. Se o Brasil virar um dia uma democracia racial sem Casa Grande nem Senzala, nossos descendentes nos considerarão racistas e escravocratas pelo fato de que pagávamos pessoas negras para cozinharem nossa comida, lavarem nossa roupa e cuidarem dos nossos bebês. Achamos tudo isto uma coisa normal, faz parte do mecanismo social em que crescemos, e é difícil para nós imaginar que os brasileiros do futuro talvez olhem para nós com repulsa e mandem tirar nossos livros das bibliotecas eletrônicas de suas escolas.



sábado, 20 de abril de 2013

3166) Os Davis e os Golias (21.4.2013)




(Clayton Christensen)


Li mais duas matérias, num curto intervalo, dizendo sempre a mesma coisa. As megaempresas estão entrando num atoleiro preparado por elas mesmas, por seus métodos “certinhos” de buscar maxieficiência; e no espaço de seu desmoronamento surgem empresas pequenas, rápidas, que (ao contrário delas) correm riscos, fazem apostas, e se contentam com lucros menores mas certos.

A Wired de março traz uma entrevista (http://bit.ly/X3bbHe) com Clayton Christensen, autor de The Innovator’s Dilemma (1997) e The Innovator’s Solution (2003), onde argumenta que as grandes empresas preocupam-se demais com “fazer tudo de acordo com o manual” e isto lhe tira a flexibilidade de intuir o futuro e adaptar-se a ele. São dependentes do que já têm, e do que já sabem e podem fazer. E são vulneráveis ao que ele chama “inovações disruptivas” – invenções ou processos criados por companhias menores, menos lucrativas, mais ágeis, mais aflitas, precisando arriscar tudo numa cartada. Quando a cartada dá certo, a pequena companhia se agiganta e as gigantes desmoronam. Christensen apontou isso no mercado de disk-drives, de injeção eletrônica de carros, de cerâmica.

Christensen foi chamado pelo CEO da Intel, Andy Grove, e disse-lhe: “Não tenho uma opinião sobre a Intel, mas minha teoria tem”. Alertado, Grove comprou duas companhias pequenas (Cyrix e AMD) e produziu o processador Celeron. Christensen vê algumas área onde, agora, os Golias estão sendo engolidos pelos Davis: jornalismo, mercado editorial, tudo (segundo ele) “que depende de publicidade”, e a educação de alto nível. Jornalismo e educação estão começando a enfrentar concorrência via Web. A concorrência é heterogênea, difusa, mas de vez em quando surge um foco de alta qualidade. Ele cita um curso online de contabilidade da Brigham Young University que ajudou a fechar o curso de contabilidade de Harvard.

Algo parecido diz Bill Harris em seu blog Dubious Quality (http://bit.ly/XHZcBL), comparando o mercado de videogames com o de petróleo. As grandes companhias cresceram tanto que cada passo que dão custa fortunas. Só podem apostar no que é 100% certo (o que é raro aparecer). Resolvem comprar pequenas companhias de filão lucrativo, mas o leilão com os concorrentes é pesado. O lucro delas se torna um prejuízo: o preço não compensa.

Quanto mais exemplos chegarem mais nítida irá ficando essa tendência das atividades de alta previsibilidade, que já dominaram o mundo, serem suplantadas pela de alta incerteza. As disciplinas da certeza, da comprovação absoluta, dos vários níveis de redundância retroalimentada, darão lugar às que abraçam o acaso, o risco, o improviso e a imperfeição.



3165) O Samurai sem Sono (20.4.2013)



(by Gabriel Tavares)


Sua lâmina era capaz de passar pela asa de um beija-flor em pleno voo sem tocá-la.  Seus olhos eram capazes de dizer quantos grãos havia num punhado de sal. A chuva o fustigava sem enfraquecê-lo, o sol do deserto colidia com ele e recuava. Ao longo das Sete Ilhas, e das encostas do Monte Kuju até a baía de Wakaba, até as crianças reconheciam ao longe seu vulto magro e hirsuto, mas eram poucos os que sabiam o som da sua voz. Caminhava devagar como alguém que reduz o passo ao se aproximar do lugar para onde se dirige. Dizia-se dele que seus olhos brilhavam no escuro; que era capaz de passar um ano sem comer; que comandava as mulheres e os animais com o pensamento.

Uma crônica da Casa de Kenji relata um episódio provavelmente veraz de seu passado: que teria sido o causador (por arrogância e um erro de cálculo) da morte de alguém de sua família. Desde esse dia, jurou viver como um misto de mendigo e monge. Lutou por seis anos para o clã dos Hashikaya e aceitava como pagamento apenas um pão por dia. Data dessa época a lenda de que jamais dormia.  Pode ser um exagero causado pelo seu hábito de a qualquer hora do dia ou da noite estar em campo aberto, de espada em punho, treinando combinações complexas de aparas e de estocadas, ou postado imóvel sob uma árvore, aguardando a queda de alguma folha seca para seccioná-la no ar. “Ele não dorme”, diziam os guerreiros, e os velhos murmuravam (e as mulheres e crianças repetiam): “Quem não dorme é porque não morre”.

As crônicas do período Edo registram fatos como a batalha de Kan-Chi, em que ele sozinho bloqueou um exército no meio de uma ponte por uma manhã inteira, até a chegada de reforços.  Contam como ele travou duelos pessoais, em dias sucessivos, contra oito espadachins do clã Hinoruke, abatendo-os um a um; como, sem escudo no campo de batalha, sua espada veloz rebatia as flechas disparadas contra seu corpo. Durante os combates, não rugia nem blasfemava como a maioria dos soldados; executava seus gestos com a energia vibrante de quem dança, e com o olhar meio ausente de quem confere uma conta.

Sua morte, como sua vida, está soterrada por lendas. A mais recorrente delas o mostra encurralado por cem soldados que atearam fogo à choupana onde ele se refugiara, e depois espalharam as cinzas durante seu trajeto de volta, ao longo das quinze milhas, anunciando aos camponeses a morte do Samurai Sem Sono. Surgiu daí a versão de que essas cinzas são capazes de se recompor, brotando dos rios, da relva, dos bambuzais, um torvelinho de pó de onde surge, como um raio de prata, a lâmina vingadora de injustiças e de traições, a espada mais veloz das Sete Ilhas.