domingo, 2 de setembro de 2012

2966) O artista sem corpo (2.9.2012)




Quem é Marc-Albert Santillo? Citando fatos decorados e repetindo interpretações alheias qualquer pessoa é capaz de conversar meia hora sobre a vida deste artista de vanguarda que durante a última década sobressaltou a vida cultural do Rio de Janeiro.  Fala-se que era neto de diplomata estrangeiro, e que, após a mudança da capital para Brasília sua família decidira continuar vivendo no Rio.  Marc-Albert queria ser artista, teve acesso aos melhores cursos e a professores particulares. Conquistou menções honrosas, e segundos e terceiros lugares em alguns Salões.  Isto o ajudou a conseguir a bolsa que lhe proporcionou doze anos entre Paris (onde preferia morar) e Londres (onde realizou seus trabalhos mais importantes).

De volta ao Rio, Santillo já tinha uma carreira estabelecida e uma obra: cartazes de cinema e teatro, capas de livros, algumas “graphic novels”, exposições individuais, projetos especiais – uma carreira de artista e de designer que seria igual a qualquer outra, se pelo menos as pessoas envolvidas já tivessem visto o artista. Porque ele não era uma pessoa. Era um nome, uma griffe, como Banksy ou como O Chacal. Perdera o contato com a família. Desde as primeiras entrevistas que deu, havia um grupo de pessoas respondendo às perguntas feitas ao artista.  “Qual de vocês é Santillo?”, perguntava sempre alguém. E eles: “Santillo é um de nós, mas na verdade é apenas uma idéia, um vetor, uma seta que aponta uma direção estética. Todos nós somos Santillo”.

Nas entrevistas, sentavam-se para responder, lado a lado, um jovem de barba rala e cabelos longos; outro rapaz, louro, de rosto quadrado e maneiras irrepreensíveis; um mulato envolto em roupas orientais e com expressão pétrea; uma mocinha magra, de óculos, postura agressiva; um rapaz gordo e com um raciocínio mais rápido do que aparentava; outro rapaz de rosto sardento, redondo, que falava com veemência. Havia outros, mas eram estes os que mais vezes apareciam nas ocasiões públicas, encarnando o espírito de Marc-Albert Santillo. “Ele não existe,” diziam; “é apenas um personagem que criamos, um artista cujas idéias inventamos em conjunto, e somos nós que escrevemos suas falas, produzimos suas obras”. Nas entrevistas, dependendo da pergunta, entreolhavam-se por alguns segundos, e então um deles se inclinava para o microfone e produzia uma resposta cabal, definitiva, arrasadora. Santillo era apenas um espírito criado e mediunizado por eles, e o mais impressionante era como sempre pousava em apenas um deles por vez. Algumas interpretações radicais chegavam a afirmar que o Santillo original morrera e havia sido fisicamente canibalizado pelo grupo.

sábado, 1 de setembro de 2012

2965) Charles Burns (1.9.2012)




A maturidade de um novo meio de expressão (p. ex., o cinema, os quadrinhos, a TV, o videogame) não é atingida quando produz obras que atingem milhões de pessoas, ou quando ganha prêmios internacionais, ou quando é analisada e louvada nas torres-de-marfim acadêmicas.  Penso às vezes que essa maturidade é atingida quando esse meio de expressão começa a abrigar cada vez mais artistas fora-de-esquadro, artistas idiossincráticos cujas obras não dá para entender muito bem, mas são obras que inquietam, desconfortam. Não trazem mensagens, palavras de ordem ideológicas ou fórmulas mágicas de auto-ajuda.  São obras excêntricas, personalistas, às vezes herméticas, às vezes chocantes – mas aquele meio de expressão está tão maduro e consolidado como arte e como mercado que essas obras são aceitas e incorporadas ao cardápio ofertado ao público, como a coisa mais natural do mundo.

A maturidade do cinema teria sido alcançada, por exemplo, com os primeiros filmes surrealistas de Luís Buñuel entre 1928 e 1930, e se mantém hoje com a obra anticonvencional e difícil de um David Lynch ou um Raul Ruiz.  Nos quadrinhos, um sinal atual dessa maturidade é a possibilidade de ver as novelas gráficas de um cara como Charles Burns, autor de Black Hole  e agora de Toxic (título da edição francesa). Existe muito de David Lynch nas histórias desse desenhista nascido em 1955: a atmosfera constante de pesadelo, uma sensação philipkdickiana de que aquilo que estamos vivendo não está acontecendo de verdade e vai ceder lugar, a qualquer instante, a algo um pouco mais verossímil mas igualmente delirante.  Seus personagens mudam de rosto e de traço ao longo da história, deparam-se com objetos insólitos que não reconhecem (mas que o leitor reconhece de um trecho anterior), são assaltados o tempo inteiro por flash-backs inexplicáveis de coisas terríveis que lhes aconteceram, ou com as quais eles simplesmente sonharam.

Por que a existência de quadrinhos assim avaliza o amadurecimento das HQs?  Acho que é porque demonstra que aquele meio de expressão acolhe o artista de visão intensamente pessoal e que nem faz sucesso de público (vender milhões) nem de crítica (o reconhecimento oficial da “intelligentzia”). É o artista peculiar que corre-por-fora, o azarão da cultura, o cara a quem cabe realimentar de novas idéias e novas formas um tipo de expressão já consagrado que corre o eterno risco de se cristalizar em função do sucesso financeiro ou do reconhecimento intelectual.  Os pesadelos existencialistas e surreais de Burns não pretendem ser best-seller nem mainstream; e o universo HQ, abrigando-os, prova que está vivo e respirando.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

2964) Fantasmas (31.8.2012)


“The Private Life”, de Henry James, é um conto de fantasmas pouco comum. Conta a história de dois indivíduos que se encontram num hotel dos Alpes, durante as férias. 

O primeiro é um dramaturgo que se divide em duas cópias de si mesmo. Uma das cópias conversa abobrinhas com as damas da sociedade, enquanto a outra fica no quarto do hotel, escrevendo. 

O segundo personagem é um general vaidoso e autoritário que, quando não está sendo visto por ninguém, some no ar. Não tem essência própria, tudo nele é pompa e circunstância, tudo nele é “a liturgia do cargo”. 

Este último personagem me lembrou de imediato o alferes do conto “O espelho” de Machado de Assis, que quando tira a farda deixa de existir e até mesmo de se ver no espelho, mas basta-lhe vestir de novo o uniforme e todos voltam a perceber sua existência e a tratá-lo com cortesia. (Para os rastreadores de plágios e de influências: o conto de James é de 1892; o conto de Machado é de Papéis Avulsos, 1882.)

Encontrei por aí este comentário, cujo autor infelizmente não guardei: 

“Os fantasmas de Henry James estão sujeitos a brotar tanto de dentro quanto de fora; embora sejam percebidos de forma vívida, muitas vezes são tanto emanações da psiquê quanto visitantes de ‘outro mundo’. Sem dúvida, é precisamente a indefinição entre essas duas condições que lhes confere poder imaginativo”.  

O comentário é pertinente porque o conceito de fantasma parece a alguns ser (e não é) ligado ao conceito religioso de alma. Um fantasma seria apenas um espírito que sobrevive à morte do corpo e consegue comunicar-se com os vivos, ou pelo menos ser percebido por eles.

Podemos fazer, a toque de caixa, uma pequena lista de hipóteses fantásticas, mas não-espirituais (no sentido religioso) para a existência de fantasmas. 

Um: emanações perceptíveis, produzidas pela mente de uma pessoa viva sob forte tensão (as aparições e desdobramentos, como a do dramaturgo descrito por James). 

Dois: a existência de frestas no espaço-tempo que captam uma “fotografia animada” de alguém que as atravessa, e as reproduz depois, quando tais ou tais condições forem preenchidas.  

Três: a existência em nossa mente de um “gatilho” alucinatório, espécie de esquizofrenia controlada, que é deflagrado em momentos de tensão fazendo nosso inconsciente projetar uma imagem aparentemente exterior a nós (o espectro) que interfere em nossa conduta. 

Quatro: a existência de redemoinhos localizados do espaço-tempo, onde visões do passado ou do futuro podem ser percebidas de modo aleatório por um observador externo.  

Só nestas sugestões já temos quatro pontos de partida para histórias de fantasmas sem fundo animista ou religioso.






quinta-feira, 30 de agosto de 2012

2963) Ser frila (30.8.2012)




(Stefan Karpiniec)



Ser frila é ser livre, leve e solto como um náufrago à sombra do coqueiro solitário de uma ilha deserta de cartum. 

Ser frila é estar sem trabalho e sem dinheiro e passar o dia vendo TV ao lado do telefone, porque é por lá que geralmente vêm as boas notícias, mas com o computador aberto na caixa de emails, que também proporciona aleluias.

“Free-lancer” é (para os despeitados) um simples eufemismo para “desemprego reiterativo”. 

Ser frila é viver ligando para colegas, não-colegas, ex-colegas, semi-desafetos,  ex-namoradas, quase-namoradas e completos desconhecidos com a pergunta “E aí, tá rolando algum lance, algum trabalho novo?... Qualquer coisa me dá um toque!”. 

Ser frila é pisar no abstrato, nadar no sólido, respirar no vácuo, acreditar no improvável e se alimentar do possível. 

Ser frila é ter uma vida regida pelo Acaso e por decisões alheias, e se dar por satisfeito, porque tem gente que nem isso tem a seu favor.

Ser frila é pegar um trabalho em janeiro, terminá-lo em fevereiro (só receber em julho), passar março roendo as unhas e reduzindo a feira, pegar outro serviço em abril com perspectivas de um semestre, receber em junho a má notícia do cancelamento, mas meia dúzia de trampos de pouca monta já zeraram o déficit do orçamento, e ainda bem que em julho surgem dois ao mesmo tempo, aos quais é prometida dedicação exclusiva e tempo integral (porque sem essas bigamias trabalhistas ninguém escapa!), e daí até agosto é o malabarismo de cumprir prazos e pedir compreensão; em setembro caem do céu duas propostas irrecusáveis e incompatíveis, e o frila tem vontade de morrer por ser obrigado a recusar uma das duas; mas em outubro o orçamento retorna ao azul, os juros do cheque especial se evaporam, a grana vem polpuda, novembro é um mês de orgias e esbórnias (nas livrarias e sebos, bem entendido), e quando chega em dezembro é preciso raspar o fundo do tacho para a catástrofe das Festas.  

Ser frila é abrir uma cerveja diante das girândolas do reveion e pensar consigo: “No fim das contas, foi um ano produtivo!”.

Ser frila é ser amigo de funcionários que têm contracheque pingando na conta no último dia útil do mês, têm estabilidade (são concursados, o governo só pode demiti-los em caso de infração grave), vão todos os dias pelo mesmo trajeto ao mesmo edifício, sobem para o mesmo andar, sentam à mesma mesa e manuseiam os papéis da véspera; trabalham de olho na aposentadoria, quando daquela rotina sobreviverá apenas o contracheque, enquanto fazem a contagem regressiva para o dia em que se aposentarão: “Faltam 3.518 dias... faltam 3.517... faltam 3.516...”  

Ser frila (para o bem e para o mal) é o contrário disto.










quarta-feira, 29 de agosto de 2012

2962) Gotham City (29.8.2012)





(Metropolis, de Fritz Lang)


A escolha do nome Gotham City para batizar a cidade onde atua o Batman tem implicações interessantes. Este apelido foi dado à cidade de Nova York desde muito tempo atrás. Em 1807, Washington Irving (o autor de clássicos do fantástico como “Sleepy Hollow” e “Rip Van Winkle”, ambos de 1820) usou este nome para se referir a Nova York em seu jornal satírico Salmagundi.  O nome pegou, e quando foi criada a série de quadrinhos do Batman escrita por Bob Kane, em 1939, já era um apelido popular entre os habitantes da cidade. 

O nome original vem de um vilarejo na Inglaterra cujos habitantes tinham a fama de ser um pouco malucos.  Conta-se que o Rei da Inglaterra quis certa vez atravessar o povoado durante uma caçada e a população quis botar terra nesse projeto.  Na tradição da época, qualquer lugar por onde passasse o Rei tornava-se uma estrada pública, e o pessoal queria evitar um aumento de trânsito.  A solução deles foi fazerem-se de doidos. Quando os emissários do rei chegaram lá, viram um deles tentando afogar uma enguia num balde de água e outro tentando construir uma cerca em torno de um pássaro para que ele não fugisse. O Rei achou mais prudente desviar o trajeto.

A lenda prosperou e já no século 16 existia um folheto de cordel (“chapbook”) intitulado Merry Tales of the Mad Men of Gotham, “histórias divertidas do povo maluco de Gotham”, com versinhos tipo: “Three wise men of Gotham / went to sea in a bowl / and if the bowl had been stronger / my song would have been longer” (“Três sábios de Gotham / puseram-se ao mar num barco / e se o barco fosse mais resistente / minha canção seria mais longa”). Esse folheto ajudou a propagar a lenda sobre o desequilíbrio mental e a excentricidade dos habitantes de Gotham.

A palavra original vem de “goat” (cabra), pois se refere a um aprisco; mas a pronúncia cultivada pelos criadores de Batman  para Gotham City aproxima a palavra de “Gothic”, o que traz uma conotação nova ao termo.  Gótica é toda a atmosfera dos melhores quadrinhos e dos melhores filmes de Batman.  Uma tensão constante entre o céu e a terra, o bem e o mal, a honestidade e o crime.  O romance gótico acabou virando sinônimo de romance de terror devido à intensidade dos sentimentos que evoca, e da ameaça constante de intervenção do sobrenatural sobre a Terra.  Na Gotham City do Batman, o povo é ausente, e só surge como vítima das catástrofes criadas pelos vilões. Na tela só se veem com destaque os convidados dos coquetéis de Bruce Wayne e a platéia dos discursos do Comissário Gordon.  O povo de Gotham é normal, anônimo, remoto; excêntricas e carnavalizadas são as suas elites e os seus vilões.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

2961) Augusto das Letras (28.8.2012)

Na sexta-feira passada participei, junto com Ângela Bezerra de Castro e Rinaldo Gama, de uma palestra-debate que abriu o “Augusto das Letras”, evento promovido em João Pessoa pela Funjope. A Paraíba está comemorando os 100 anos de publicação da primeira edição do Eu de Augusto dos Anjos, um livrinho de poemas que teve uma tiragem de mil exemplares financiados pelo irmão do poeta. Eu vejo tantos poetas jovens hoje em dia reclamando que as grandes editoras recusam seus livrinhos de versos.  Publiquem por conta própria, amigos. A obrigação de publicar por conta própria é última garantia de independência poética.  Se Augusto escrevesse sonetos imitando os de Olavo Bilac, teria sido publicado pela Garnier.

Existe na Paraíba uma idéia de trazer os restos mortais de Augusto que estão em Leopoldina (MG), onde ele morreu. Há um sentimento de culpa envolvido nisso, porque com seu livro Augusto fez mais pela Paraíba do que a Paraíba fez por ele em seus 30 anos de vida. Desiludido com as oportunidades de trabalho em seu Estado, ele migrou para o Rio de Janeiro, onde viveu numa pindaíba ainda maior. O emprego de professor em Leopoldina, em 1914, deve tê-lo feito pensar: “Agora vai!”. Não sabia que tinha apenas alguns meses de vida. Hoje, a cidade mineira o homenageia como a um dos seus. Por que tirá-lo de lá? Nós o celebramos como um grande poeta paraibano; Leopoldina o ama porque vê nele um grande poeta brasileiro, e existe nisso alguma lição.

Muitos talentos só são aceitos depois da morte, porque a pessoa é um atrapalho, um empecilho, um ruído que não permite aquela época despreparada enxergar a obra. Van Gogh, Edgar Poe, Lima Barreto, François Villon, Beethoven... nenhum desses gênios era flor que se cheirasse, e a obra só prosperou quando ficou sem eles. Augusto não era beberrão nem agressivo; os testemunhos dos contemporâneos mostram que era cordial, afetuoso, dedicado aos alunos. Mas era neurastênico, introvertido, cheio de excentricidades e cacoetes. Era pouco dado às finezas sociais de uma época arrebitada e metida a chique. Não era um poeta próprio para a Rua do Ouvidor, e entre aqueles bardos da “belle époque” carioca estaria tão deslocado quanto Nick Cave na Ilha de “Caras”.

Poeta de um livro só, mas livro definitivo, como foi Walt Whitman. E de um visionarismo como poucos em nossa língua. Quantos poetas de hoje, inclusive os grandes, os consagrados, ainda serão lidos em 2112? Se nessa época ainda houver algo como uma civilização e os homens futuros lerem algo equivalente a livros de poesia, provavelmente lerão o Eu, e talvez sejam os primeiros a entendê-lo por completo.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

2960) Uma frase (26.8.2012)



(manuscrito de Charles Dickens)


Uma frase que abre um livro e passa a escorrer como um rio, não se detém diante de obstáculos, antes os rodeia, fingindo ignorar sua presença, cosendo tudo com seu fio de água, ou quem sabe cortando tudo com sua lâmina prateada que fende a paisagem, pois uma frase que se alonga parece possuir também essa qualidade de gume quente penetrando o requeijão passivo da página em branco, sem ceder à tentação de descansar num ponto, numa aconchegante lagoa, mas pressionando a si própria para que siga além, não canse, procure se assemelhar à façanha praticada por Jonathan Coe em 2001 com uma frase de 13.955 palavras em seu romance The Rotter’s Club, no qual ele presta inclusive uma homenagem ao famoso monólogo de Molly Bloom no Ulisses de Joyce, se bem que ele poderia do mesmo modo ter homenageado o tcheco Bohumil Hrabal, que em Dancing Lessons for the Advanced in Age (1964) produziu uma frase ininterrupta de 117 páginas, uma notável façanha que pode inclusive ter sido uma tentativa de suplantar o seu vizinho polonês Jerzy Andrejewski em The Gates of Paradise (1960), romance de 158 páginas com apenas duas frases, sendo que a segunda delas consta de apenas cinco palavras; não devemos perder de vista, contudo, que estes cálculos baseados em páginas dependem de fatores como tamanho da página, da letra, da mancha gráfica, etc; e que no caso de uma comparação de nível acadêmico e científico o mecanismo “contar palavras” embutido em qualquer processador de texto que se preza teria que ser acionado, e uma tal providência bem que poderia, sem dúvida, ser aplicada retroativamente a outros exemplos citados no artigo de Ed Park no New York Times (aqui: http://nyti.ms/gzKa3q) de onde estou recolhendo estas informações, sendo tais exemplos a novela sem pontuação How it is de Samuel Beckett, composta de 147 páginas cobertas de blocos sem qualquer tipo de pontuação, o que num certo aspecto descaracteriza sua condição de frase, sendo o mesmo questionamento aplicável (segundo Park) ao romance Zone de Mathias Énard (2008), que se estende por 517 páginas mas é subdividido em 23 capítulos que mais uma vez colocam sob dúvida sua condição de uma só frase – e olha que Ed Park é um conhecedor do assunto, sendo ele próprio o autor de Personal Days, um romance que se encerra com uma frase de mais de 16 mil palavras, o que é mais do que suficiente para nos provar mais uma vez o incessante fascínio dos escritores pela Frase Sem Fim, por essa sentença de vida que se quer eterna, sempre indo à frente, sempre se alongando como a própria respiração do autor que se pendura à própria fala e recusa a bala-na-testa de um ponto final.









sábado, 25 de agosto de 2012

2959) O primeiro uísque (25.8.2012)


O primeiro uísque desceu queimando e desceu bem, labareda, vida boa garganta adentro, vertigem e turbilhão de desafio, vontade de dizer na cara de tudo, “pode vir quente que eu estou fervendo, sou imortal, não tenho medo de nada”, pé dentro no acelerador pra não chegar atrasado, para já estar lá, soltando uma gargalhada com a piada que Vivi Catanduva acabara de dizer, por entre o ruído das vozes e da música do coquetel, uma piada maldosa e compassiva, se é que isto pode haver, piada que ela torceu pelo canto da boca sem tirar os olhos do autor que, suado, autografava e sorria, posava para as fotos e os olhares. Foi a vez de Lucio Manhães balançar seu próprio drinque e comentar qualquer coisa inesquecível, enquanto os garçons passavam erguendo as bandejas por sobre as cabeças da multidão que se espremia. Eu vivia ali um pequeno momento de glória, os quinze microssegundos de fama das Edições Marco Franchesi, porque naquela noite tudo estava dando certo, meu autor estava vendendo espantosamente bem e me fazendo um homem rico, era a oitava noite de autógrafos em um mês, em oito capitais, a imprensa não largava o nome dele, como um cão não larga um osso. Na passagem do próximo garçon pesquei o segundo uísque, enquanto a voz de mulher ao meu lado murmurava, “Marco, vai devagar, você está correndo muito”, mas um uísque é pouco, dois é bom, dois dão o fogo ideal para dissolver na boa o turbilhão feérico de vozes e suores e perfumes, de multidão comprimida numa livraria da moda, a sensação de que meu modesto ombro está fazendo avançar o carro-de-boi da História.  Este segundo uísque é aquela bênção, aquela chancela de invulnerabilidade e deleite, aquela licença de entrar sambando no Paraíso. Segundo uísque é como segundo soco, pega o vitimado com 50% de si mesmo. E rápido.  Frase vai, frase vem. Quando vejo estou com o terceiro na mão. Olho o copo, um círculo com cubos de gelo translucentes, entrechocantes. Fico hipnotizado. Sinto algo fremir de encontro à minha perna, e uma melodia espalhafatosa que nunca escolhi emerge do meu celular. Ao meu toque, a tela revela uma estrada, à noite, imagem nítida que eu seguro, como um espelho. A traseira de um caminhão. Ele dá sinal de lanterna à direita. A guinada, a ultrapassagem, a aceleração, a constatação súbita dos dois gigantescos faróis à frente. O copo de uísque se espatifa no piso. Exclamações. Lucio Manhães faz gestos pedindo serviçais e esfregões. Vivi Catanduva ainda agarra convulsa o celular, numa crise de choro: “Me ligaram agora, meu Deus, uma tragédia com Marco Franchesi, ele e a esposa, vindo para cá, meu Deus, que coisa... Ele me disse que não perderia de jeito nenhum essa festa.”

2958) O Cavaleiro das Trevas (24.8.2012)



O terceiro filme da série Batman dirigido por Christopher Nolan tem competência e tem pequenas frustrações. É um diretor criativo querendo injetar novidade numa fórmula da cultura de massas. Ele não pode injetar tanta novidade que cause um estranhamento nas platéias.  Nolan e seus produtores sabem muito bem que o que a maioria dos fãs de Batman querem é “um pouco mais daquilo mesmo”, mas não são todos.  Se hoje em dia os fãs aceitam que Batman leve uma surra do vilão e tenha que passar um tempo se recuperando isto já é prova suficiente do amadurecimento mental (seja isto o que for) dessa platéia.

Nolan fez na sua trilogia uma espécie de compressão temática de tudo que compõe a mitologia Batman, utilizando um bom elenco fixo, e atraindo participações memoráveis. Um bilionário recluso, cercado por uma equipe high-tech de fazer inveja à de James Bond, decide combater o crime em sua cidade, em parte por motivos freudianos (a morte dos pais, o medo de morcegos).  As contradições e os desvãos escusos dessa decisão arrogantemente individual são explorados nestes três filmes, em que Batman deixa de ser um “cruzado de capuz” acima do Bem e do Mal. Ele se torna um livre atirador numa briga pesada que envolve a polícia, os gênios-do-mal e os pequenos transtornos (como a Mulher Gato) que se atravessam na sua frente.  E isto deixa mais visíveis as suas contradições como agente da lei. Bandido rico, bandido bem armado, mas bandido.

Batman é rico, é impaciente com a incompetência do Estado, e resolve criar um Estado-de-um-homem-só para salvar seus conterrâneos. O vigilantismo dessa atitude o deixou permanentemente em xeque. Ele não é um cruzado. É um bilionário que quer fazer administrar o mundo pelos seus próprios critérios.

O sucesso dos filmes mais recentes de Super-Heróis reflete dois processos.  Por um lado, o mundo real está ficando mais carnavalizado, mais decorativo, mais quadrinhesco; pessoas de 50 anos ficariam perplexas com o modo como nos vestimos, nos adornamos. Por outro lado, esse comércio forçado entre os dois mundos faz com que alguns heróis comecem a perder a invulnerabilidade infantil de sua fase “gibi” e passem a se contaminar de mundo real. Foi a novela gráfica de Frank Miller, “The Dark Knight Returns” (1986), que iniciou este processo. Agora, com os blockbusters do cinema, ele chega a um público maior. É uma lenta pororoca entre as mitologias e fantasias que criamos a respeito de nós mesmos, e o modo como elas deixam de ser fantasias consolatórias para serem fantasias neuróticas em que toda a energia do problema original ressurge intacta e resiste até à bomba atômica.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

2957) Um suicídio por dia (23.8.2012)




A revista Time deu matéria de capa sobre este assunto, com o ominoso título de “One a day”, um por dia.  É o número de suicídios entre os militares norte-americanos envolvidos na guerra do Afeganistão e do Iraque.  Em meses recentes, essa impressionante estatística atingiu uma marca cruel e irônica: o número de soldados norte-americanos que se mataram superou o número dos que foram mortos pelas tropas inimigas.  Não há como não pensar na famosa frase dos quadrinhos de Pogo, desenhados por Walt Kelly: “Encontramos o inimigo, e ele é nós”.

A vontade de morrer é uma companheira perigosa da vontade de matar, e na guerra muitas vezes não se sabe qual das duas pesou mais num suicídio assim. Não falta quem faça uma leitura moral, aludindo ao remorso, ao complexo de culpa, à auto-punição por estar combatendo um combate com o qual não concorda.  Isso pode pesar em alguns casos, mas há outros em que visivelmente o soldado sentia-se justificado por estar cumprindo seu dever, não tinha problema algum quanto às razões da guerra, seu problema era simplesmente não saber o que fazer durante a paz.

Famílias recebem apoio de psicólogos e elaboram cartilhas (http://healthland.time.com/2012/07/12/military-suicide-help-for-families-worried-about-their-service-member/) para acompanhar e interpretar as atitudes do ex-soldado. Durante a readaptação à vida civil, eles são analisados em busca de sintomas de depressão, ansiedade, agressividade, uso de bebida, pessimismo, etc.  Eles foram à guerra, conheceram meses ou anos de inferno, e voltaram.  Muitos são rapazes simples, caipiras bem intencionados, ou sujeitos num beco sem saída; viveram intensamente aquele pesadelo, mas não são capazes de criar uma moldura confortável de conceitos que justifique tudo que experimentaram.  Não adianta falar somente na honra do país ou na defesa da democracia.  Seria preciso encontrar um conceito de país ou de democracia que incorporasse os fatos que ele testemunhou; mas ele não consegue produzir essa concatenação, e sua cabeça entra em parafuso.

E não devemos esquecer que Iraque e Afeganistão são dois dos lugares habitados há mais tempo pelo ser humano. Países cuja história ainda é contada pelo seu passado. O que existe ali de lendas, feitiços, criaturas mitológicas, pragas e maldições, encantamentos, lugares ominosos... Mais do que a guerra de armas de fogo trava-se ali uma guerra psíquica contra entidades que presidem aquela parte do mundo, os enormes deuses com cabeça de fera que reduziram à animalidade o orgulho de Nabucodonosor.  Não é preciso ser Stephen King ou Lovecraft para imaginar o verdadeiro combate que se trava ali.