quarta-feira, 4 de julho de 2012

2913) Ser célebre (4.7.2012)






Um número imenso de páginas (cartas, diários, relatos de viagens, etc.), escritas nos séculos 18 e 19 antes da invenção da fotografia, é dedicado a encontros que o autor teve com personalidades ilustres do seu tempo: estadistas, artistas, aristocratas, etc.  Daria uma antologia que poderia furtar o título do livro de Peter Brook, Encontros com Homens Notáveis.  Stendhal conta um episódio divertido de sua estadia em Terracina (Itália) em 1817, quando, conversando com um grupo de italianos, entabulou um diálogo sobre música com um homem jovem, de cabelos claros, bem apessoado; Stendhal teceu os maiores elogios às óperas de Rossini, dizendo ser o único compositor de gênio daquela época, e pelas risadas dos outros acabou descobrindo que o jovem sentado à sua frente era o próprio Rossini.

Era uma época em que o nome de um indivíduo podia ser famoso e respeitado em toda a Europa sem que se tivesse uma idéia muito clara de como era seu rosto. A fotografia não tinha sido inventada. Nobres e reis eram conhecidos através de pinturas, desenhos e gravuras, que, como se sabe, nem sempre são unânimes em sua reconstrução de fisionomias, além de correrem o risco de ficarem rapidamente defasadas porque o indivíduo envelheceu, engordou, etc. Quantas pessoas, na Paris de Maria Antonieta, tinham visto de perto o rosto de Maria Antonieta?  Há um interessante filme sobre Napoleão (A Roupa Nova do Imperador, de Alan Taylor, 2001) em que ele foge do exílio, retorna a Paris para reconquistar o trono, mas a conspiração que o ajudou é desmontada. Ele se vê sozinho, anônimo e sem dinheiro numa cidade onde ninguém o reconhece, e não adianta dizer que é Napoleão porque há centenas de malucos dizendo o mesmo.

No conto “A Liga dos Cabeças Vermelhas” (1891), Sherlock Holmes a certa altura encontra-se frente a frente com John Clay, um bandido que ele classifica como “o quarto homem mais esperto de Londres”. Críticos perguntaram: esse homem tão esperto não saberia que aparência tinha Sherlock Holmes? Talvez sim, talvez não, mas essa é uma questão que hoje, 120 anos depois, em plena ditadura da imagem, se coloca de outra forma. No tempo de Jesus Cristo, se alguém chegasse numa cidade da Judéia dizendo ser o próprio ia ter que fazer um ou dois milagres para convencer os relutantes. Duvido que durante a vida de Jesus (mesmo durante os seus três anos de militância intensa, até a crucificação) tenham circulado desenhos ou pinturas com a representação do seu rosto. O que se tinha eram descrições e comparações verbais, imprecisas como sempre, e não era uma tarefa fácil a qualquer sujeito convencer os outros de sua própria identidade.

terça-feira, 3 de julho de 2012

2912) Os poemas de Darcy (3.7.2012)




Já aos 70 anos, depois de sucessivas batalhas contra o câncer, Darcy Ribeiro botou na cabeça que ia ser poeta. Já tinha sido antropólogo, educador, ministro, reitor, vice-governador, romancista... por que não poeta?  Esse “por que não poeta?” só ocorreria a um sujeito com um ego fenomenal, e era o caso do autor de O Processo Civilizatório. Por sorte, o seu ego era contrabalançado pelo senso crítico de quem teve formação científica, por um senso de humor permanente, presente até em suas obras mais sisudamente teóricas, e por um espírito de auto-depreciação que, curiosamente, acompanha muitos indivíduos narcisistas. (Por mais e melhor que façam, eles sempre torcem o nariz diante dos próprios feitos, porque sua expectativa íntima é sempre de que são capazes de fazer muito mais e melhor.)

Eros e Tânatos – a poesia de Darcy Ribeiro (Rio, Ed. Record, 1998) reúne esses poemas que são bem descritos pelo título. São meditações recorrentes e infatigáveis sobre amor, sexo e morte, escritas por um sujeito de imensa vitalidade, que, aos 70 anos e no meio da queda-de-braço final com o câncer, sabia que estava com os dias contados. (E não sabemos disso, nós todos?  Não, não sabemos.) A parte erótica tem a euforia desbragada e rabelaisiana de um Henry Miller, a celebração do sexo como prazer animal, gozo físico, seja ou não temperado pelo afeto. A alegria de viver no sentido mais biológico do termo, elevada ao quadrado como reação aos violentos golpes da doença e da velhice, em versos bem-humorados de sexo explícito que infelizmente não tenho espaço para reproduzir aqui. E a morte, algo que o autor reconhece como fatalidade científica, mas com a qual não se conforma: “Hoje fiz 70 anos. Quisera 700”.  “Acho que sei, afinal, a que vim / e já me vou”.

O poema de abertura, “Fagulhas de memória”, é num certo sentido o melhor: o registro em prosa telegráfica de pequenas epifanias, terrores e visões que marcaram a memória do autor, em parágrafos como: “O cacho de bananas amarelíssimas, que meu avô tirou do armário preto de papéis cartoriais. / A velha naturalista estrangeira, meio surda, se fazendo carregar pelos índios, de aldeia em aldeia. / Uma légua de piranhas mortas, dourando a baía ao amanhecer.” Usando uma classificação pouco acadêmica, eu diria que não são poemas de poeta, são poemas de pessoa. Mais preocupados em registrar a totalidade de um sentimento profundo e complexo do que em mexer no software da linguagem poética.  E não há pessoa que não assinasse versos como: “O que me arrasa é o terror pânico / de não mais ser, nem estar, jamais aí. / Vocês todos vivendo, seus filhos da puta. Só eu não”.

domingo, 1 de julho de 2012

2911) Supervilão séc. 21 (1.7.2012)






Os super-vilões da narrativa popular são encarnações monolíticas do Mal: Fu-Manchu, Prof. Moriarty, Dr. No, Lex Luthor.  O desafio da literatura contemporânea é criar vilões que exprimam o lado maligno do mundo mas tenham também uma dimensão realista, para torná-los acreditáveis pelo menos durante o tempo da leitura. Se a literatura aceitou há muito tempo o fato de que nenhum herói é sem defeitos, não custa admitir que nenhum vilão é sem qualidades.  Um vilão que, quem sabe, possa até nos despertar um pouco de identificação, de inveja.

Hubertus Bigend (BÁI-jend) é o inesperado vilão que William Gibson criou em sua recente trilogia (Reconhecimento de Padrões, 2003; Spook Country, 2007; Zero History, 2010).  Bigend é um bilionário capaz de em poucos minutos, ao celular, mover montanhas de dinheiro e mudar a vida de pessoas cuja existência ele desconhece e minimiza. Bigend não é um paranóico delirante que quer “ser o dono do mundo”, seja isto o que for.  É uma mistura de Eike Batista com Steve Jobs.  Tem uma empresa, a Blue Ant, que se apresenta como agência de publicidade, de marketing, de investigação de modas e tendências, mas serve de fachada para suas manobras por baixo do pano.  Fisicamente, Bigend parece com “Tom Cruise submetido a uma dieta de sangue de virgens e trufas de chocolate”.

“Hubertus organiza sua vida e seus negócios”, diz um personagem, “de um modo que o obriga a estar o tempo inteiro indo além do limite, e de um modo que fica produzindo sempre um novo limite para que ele vá além”.  Ele é um sujeito que, em crises onde outras pessoas se preocupariam, ele apenas fica um pouco mais interessado.  Não se altera.  Mesmo quando descobre (como em Zero History) que o diretor de informática de sua empresa é espião a serviço de um adversário, ele apenas aciona um escritório alternativo e passa a usá-lo, sem dar bandeira de que descobriu o que está acontecendo.  Seu objetivo profissional, diz ele, é conseguir perceber o fluxo de transações (ouro, ações, etc.) no mercado, em qualquer momento dado. Ele diz: “Essa informação existe, mas não há ninguém capaz de agregá-la.  Se alguém conseguir isto, o mercado deixará de ser real, porque o mercado reflete a impossibilidade de alguém vislumbrar o fluxo de transações por inteiro num dado momento”.  É uma ambição meio maluca, mas tem mais a ver com o mundo de hoje do que as ambições meramente monetárias ou absolutistas dos vilões de antigamente.  Bigend é a presença do grande capital gerando, num videogame para seu exclusivo deleite coletivo, a linguagem do nosso dia a dia: revistas, roupas, filmes, logotipos, exposições de arte.

sábado, 30 de junho de 2012

2910) Hora do recreio (30.6.2012)







(esculturas: William Bally, 1831)


A pior aula é a de matemática, pra não falar da de geografia, se bem que a unanimidade é a de desenho. O engraçado é que cada um de nós, mesmo detestando todas, detesta mais uma do que as outras. Às vezes discutimos tanto isto que perdemos minutos preciosos em que poderíamos brincar no pátio, jogar bola na quadra ou no ginásio, zoar na lanchonete. Vida de aluno interno é todo dia a mesma coisa, a mesma coisa, é de enlouquecer. Ainda sirenes tocando toda noite. Um de nós disse um dia, “nós somos um loop de imagens, eu tenho a impressão que todo dia eu digo isso de novo”, e rimos, e depois outro disse, “não, eu acho que nossos pais nos botaram aqui pra se ver livres de nós, eles têm a esperança que a gente se suicide”, e rimos, e outro disse, “nós não somos estudantes, somos espiões estrangeiros, e na verdade estamos num campo de concentração, eles nos deram uma droga pra gente pensar que tem 10 anos de idade e está no colégio”, e houve uma risadaria geral, na mesma hora cada um de nós pegou uma arma, uma régua (metralhadora), uma bola-de-papel (granada), e começamos a guerra, “morre, espião!”. Estamos em guerra (as explosões, os sinos). Nossos pais, na visita semanal, nos dizem que apesar do sofrimento e das baixas estamos ganhando, mas as despesas estão cada vez maiores e é melhor continuarmos aqui do que ir lá para fora. Sobem nuvens grossas de fumaça preta. Temos mais raiva da guerra do que das aulas. O bom mesmo são os recreios: uma vez na manhã, outra depois do almoço, outra no meio da tarde. É tanta coisa boa que ficamos ansiosos porque não podemos ter tudo ao mesmo tempo, os snacks e os refris da lanchonete, o corredor de fliperamas, as armas do play, os wargames do lan-room, e nós nos empurramos, nos acotovelamos, brigamos por uma cadeira, por um monitor, por uma bola, por uma posição no time. Se fosse só isso! Mas temos as aulas, a obrigação de estudar história, ética pública, bases constitucionais, metodologia das ciências, “para quando houver paz”, bradam os professores. Um dia um de nós quis saber por que motivo não havia meninas no colégio, e alguém disse, “porque eles estão nos treinando para ser homossexuais”, e nós rimos, e outro disse, “não, porque eles vão nos mandar para morrer na guerra e deixar a população com um homem para cada dez mulheres”, e todo mundo achou graça. Oba! Recreio de novo. Não está chovendo mas nos mandaram para o ginásio, nunca vimos o ginásio tão cheio, tão apertado, a gente mal consegue respirar, ainda bem que daqueles tubos lá no alto estão saindo jatos de vapor, estamos pensando agora que deve ser alguma coisa para que a gente consiga respirar melhor.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

2909) Antonio Silvino (29.6.2012)






Uma foto tem circulado nas redes sociais, mostrando dois homens de terno, frente a frente. São eles o presidente-ditador Getúlio Vargas e o ex-cangaceiro Antonio Silvino, que recebera indulto após 23 anos de cadeia, por bom comportamento (havia sido condenado a 239 anos). Diferentemente de Lampião, que em vinte anos de cangaço nunca foi preso, Silvino cumpriu pena, alfabetizou-se na prisão, converteu-se ao protestantismo  e trabalhou em vários tipos de artesanato até receber o indulto de Vargas. São duas histórias diferentes, dois finais diferentes.  Lampião, que era 23 anos mais novo, morreu numa emboscada na gruta de Angicos em 1938.  Silvino, aprisionado em 1914 (antes mesmo de Lampião entrar para o cangaço) morreu em 1944, na casa de uma prima, em Campina Grande. (Quando eu era menino, várias vezes me mostraram a vilazinha humilde onde ele findou seus dias, em frente à Praça Félix Araújo, esquina com a Arrojado Lisboa).

A carreira de Silvino está documentada nos folhetos de Francisco das Chagas Batista, que cobrem suas aventuras até 1912.  Uma ótima avaliação deles está em Memória de Lutas de Ruth Brito Lemos Terra (Global, 1983), onde ela compara a abordagem de Chagas Batista, mais documental, com a de Leandro Gomes de Barros, mais fantasiosa e romantizada. Tal como Lampião, Silvino foi exaltado por poetas e escritores como um guerreiro nobre e ético. Em As Infâncias de Quaderna, de Ariano Suassuna, é ele quem resgata o menino Quaderna, raptado por ciganos, e o devolve à família; em Menino de Engenho, José Lins do Rego reconstitui uma visita do cangaceiro ao coronel José Paulino, que o recebe à mesa, com todas as honras.

Foi, aliás, o próprio Zé Lins que em 1938 levou Graciliano Ramos a visitar Silvino na prisão, antes do seu indulto.  Numa crônica no Jornal de Alagoas (18-9-1938, aqui: http://bit.ly/NI7SRl), Graciliano faz um retrato elogioso do ex-cangaceiro, onde ficam evidentes os preconceitos de raça e classe que ambos inconscientemente compartilhavam. Diz ele: “Antonio Silvino é um homem branco. Seria mais razoável que fosse um representante das raças inferiores, que, no Nordeste e em outros lugares, constituem a maioria da classe inferior. Mas é um branco, e se for examinado convenientemente, não dá para bandido. (...) Homem de ordem, indispôs-se com outros homens de ordem, fez tropelias no sertão, caiu numa cilada e penou vinte anos para lá das grades. Continuou, porém, a ser o que era, apesar da cadeia: homem de ordem, membro da classe média, com todas as virtudes da classe média”. Sertanejos escritores, políticos ou cangaceiros que respiravam o mesmo ar, as mesmas idéias.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

2908) O Quarto do Pânico (28.6.2012)




Recebi (não, desta vez não é piada) uma circular eletrônica enaltecendo a utilidade do Quarto do Pânico, e me propondo uma avaliação sem compromisso. Para quem não sabe, o nome desse produto vem do filme com Jodie Foster, em que ela e a filhinha se trancam nesse cômodo para escapar de ladrões que invadem sua casa.  Por causa do filme, o nome pegou, o que aliás não acho muito bom em termos de marketing – deviam chamar de “Quarto Salva Vidas”, “Quarto de Segurança”, algo com um astral mais positivo.  O tal cômodo é um aposento blindado, no interior da casa, onde os moradores podem se refugiar e se trancar por dentro na hipótese de um assalto.  O quarto tem blindagem para resistir até a armas de fogo pesadas.  Tem energia com “No Break”, independente do resto da casa.  Tem câmaras que monitoram as partes internas e externas da casa, para que a família, ao se esconder ali, possa ver o que está acontecendo à sua volta.  Tem linhas de comunicação (rádio, celular, etc.) com várias alternativas para pedidos de socorro à polícia, aos vizinhos ou a uma empresa de segurança previamente contratada.  Tem oxigênio, água, comida, tudo que as pessoas possam precisar para passar um tempo razoavelmente longo até que os assaltantes desistam ou o socorro apareça.

A instalação (é cara, viu?) geralmente aproveita um espaço já existente (closet, banheiro, etc.) que não perde a utilidade no dia-a-dia normal, mas fica acessível para que as pessoas cheguem rapidamente a ele, se fechem por dentro, e acionem o socorro. O Quarto do Pânico é a versão contemporâneo dos abrigos nucleares dos anos 1950-60, quando, principalmente nos EUA, havia o pânico de uma guerra atômica. Muita gente cavou porões e os equipou com ar condicionado, água, mantimentos, gerador de eletricidade, etc., para se esconder em caso de guerra. Devia haver condições suficientes para que a família esperasse a queda dos níveis de radioatividade lá fora (meses? anos? não sei).  Bob Dylan fez uma canção famosa ironizando esse medo, “Let Me Die In My Footsteps”.

Hoje não temos mais medo da URSS, nem sequer da Al-Qaeda: temos medo dos humilhados e ofendidos das nossas periferias urbanas, que cedo ou tarde perdem a paciência e, como o “cobrador” de Rubem Fonseca, vêm exigir uma parte do muito que temos, parte que eles consideram ser-lhes devida.  O Quarto do Pânico é, depois dos edifícios com câmaras de segurança e dos condomínios com guardas armados na guarita, o último refúgio de uma culpa que nos envergonha, mesmo quando não a assumimos. Nossa casa será como a “Casa Tomada” de Cortázar, pouco a pouco invadida por alguém cujo rosto não temos coragem de encarar. 

quarta-feira, 27 de junho de 2012

2907) Um pequeno tesouro (27.6.2012)








Era tia-avó da minha esposa, e morava sozinha num casarão, numa capital nordestina cujo nome não preciso revelar. Quando tive que deixar São Paulo e passar uma semana lá, para trabalhar numa auditoria, minha mulher telefonou-lhe sem me consultar e as duas resolveram que eu me hospedaria na casa dela (a tia aproveitaria para me conhecer e, segundo minha mulher, “dar a nota”). Ficar na casa de uma pessoa de 70 anos não estava nos meus planos. Não que pretendesse cair na farra. Mas depois de um dia duro de trabalho, discutindo, argumentando, a única coisa que me interessa é tomar um banho, e depois dois uísques, sozinho, em silêncio, na beira da piscina do hotel. Mas esposa é esposa, e lá fui eu.

Dona Frederica me surpreendeu, não apenas por aparentar bem menos idade, mas porque na primeira noite em que voltei encontrei-a escutando música diante de uma garrafa de Dimple e um balde de gelo. Sentei ao lado e enveredamos numa longa cadeia de associação de idéias envolvendo boleros cubanos, orquestras tropicais e a arte da dança de salão, que ela me confessou não praticar há vinte anos, desde a morte do marido. Na segunda noite lá estava o Dimple, e desta vez conversamos sobre horóscopo, tipos psicológicos; ela contou “causos” saborosamente escabrosos ocorridos com amigas de juventude. Na terceira noite, Dimple e cinema (ela adorava musicais da Metro).

E assim foi, até que em minha última noite lá ela falou da mãe, e que a mãe lhe deixara um pequeno tesouro. Eu gostaria de vê-lo?... Diante da inevitável resposta, trouxe à sala uma caixinha laqueada, com cheiro de perfume antigo. Abri-a. Dentro era forrada de veludo, e havia uma folha de caderno amarelecida, dobrada, e sobre ela um anel de prata com pedra vermelha. Ela me disse que a mãe lhe dera a caixa ao morrer, sem mais explicações além de “É meu tesouro”. “É valioso?”, perguntei. “Mandei examinar, disseram que é bijuteria”, disse ela; “certamente tinha valor sentimental”. Retirei o papel do fundo da caixa, desdobrei-o. Era uma folha de caderno manuscrita, em tinta esmaecida e caligrafia equilibrada, com algumas poucas correções; o rascunho de um poema, dizendo algo como “No tempo de meu Pae, sob estes galhos...”. Perguntei o que era, ela deu de ombros: “Lembrança de um professor que ela teve, ao que parece. Valor sentimental”. Guardei o presente, devolvi-o, filosofamos um pouco sobre o sentido da palavra tesouro, sobre o sentido da palavra valor. “Veja como são as coisas”, disse ela, “isto aqui não tem valor nenhum, mas eu não venderia nem por mil reais”. Servi as duas últimas doses, brindamos e no outro dia vim embora.

terça-feira, 26 de junho de 2012

2906) "Blade Runner" 30 anos (26.6.2012)





Uma coisa fascinante no capitalismo é a capacidade que ele tem de nos fazer comprar a mesma coisa mais de uma vez. Ele cria em nós, primeiro, uma fascinação inesgotável por um produto; depois, nos ensina a fazer minúsculas, sutilíssimas distinções entre aspectos deste produto; em seguida, oferece-nos versões quase idênticas do produto, mas com diferenças suficientes para que digamos: “Quero todas duas!”. Ou todas três, ou trinta. 

Blade Runner (1982), foi um fracasso de bilheteria nos EUA, onde custou cerca de 28 milhões de dólares e rendeu 27. (Rendeu um pouco mais no mercado externo, mas em termos da contabilidade dos estúdios, que precisam de retorno rápido, isso não pesou muito.) Ao completar 30 anos, foi preparada uma caixa especial, custando cerca de 50 dólares, com nada menos de dez horas de cenas extras, e três versões integrais do filme.

Ao todo, existem cinco versões. Primeiro houve a versão original, exibida nos cinemas, e a versão internacional, que é quase a mesma, com a adição de algumas cenas de violência. Em 1992, o diretor Ridley Scott produziu a “Versão do Diretor” (“Director’s Cut”), removendo a narração em “off” e modificando algumas cenas, mas ainda assim não ficou satisfeito (ele é considerado um perfeccionista capaz de enlouquecer qualquer equipe), e em 2007 ele concluiu o chamado “Final Cut”, onde modificou tudo que achou necessário (inclusive chamando a atriz Joanna Cassidy para refazer, 25 anos depois, cenas que tinham sido feitas por uma dublê).  E existe uma quinta versão chamada “Work print”, que seria uma primeira edição do material filmado, com muitas cenas que foram excluídas depois. (Ao que parece, a caixa inclui as versões 1, 4 e 5.)

A cultura de massas é considerada o reino do descartável, do superficial.  Supõe-se que o espectador vê um filme, dá tchau e vai ver o próximo. Pertence ao mundo acadêmico essa disposição para examinar e comparar diferentes versões de uma obra. Quantas teses não já foram escritas comparando a versão em folhetim e a versão em livro de alguma obra de Dostoiévsky ou Dickens? Mas a tendência das últimas décadas é a de estimular a produção dessas versões, em primeiro lugar para vender as duas, é claro, mas com um efeito colateral: a criação de uma faixa crescente do público cada vez mais atenta a detalhes e a variantes. Isto é resultado do videocassete e do DVD, que pela primeira vez deram ao espectador comum a possibilidade de rever uma cena quantas vezes quisesse, parando, voltando, vendo de novo – uma experiência de espectador totalmente diferente da experiência passiva, meramente receptiva, do espectador tradicional do cinema.

domingo, 24 de junho de 2012

2905) "Tango de volta" (24.6.2012)





(Julio Cortázar)

Julio Cortázar foi um constante experimentador de formas narrativas, na estrutura aleatória e ziguezagueante de O Jogo da Amarelinha, na mescla de narrativa literária e notícias de jornal de Livro de Manuel, nos “almanaques” de estrutura verbo-visual como A Volta ao Dia em 80 Mundos.  Mas no interior de seus contos ele sempre estava testando novas maneiras de contar a história.  Uma de suas experimentações mais constantes é com o ponto de vista narrativo. Um conto narra uma história que acontece, mas, quem está contando a história?

“Tango de volta” é um dos contos de Queremos tanto a Glenda (1980, publicado no Brasil como Orientação dos gatos). É um conto narrado na 1ª. pessoa, e o narrador, como é de hábito em Cortázar, principia com um longo parágrafo aparentemente caótico em que salta de um ponto para outro entre informações desencontradas, referindo-se a pessoas como se imaginasse que já as conhecemos, comparando fragmentos de informações como se já as tivesse fornecido antes. A esse longo parágrafo segue-se outro que começa, paradoxalmente: “Como sou muito convencional, prefiro pegar desde o começo...”. Segue-se uma história em que uma argentina, Matilde, abandonou o marido no México e voltou a Buenos Aires, de onde forjou um atestado de óbito para dizer que era viúva, casou com um homem rico, teve um filho, e agora vê o primeiro marido rondando sua casa, namorando sua empregada Flora, tentando se infiltrar lá dentro.

O leitor prevê mais uma das bem urdidas histórias de crime de Cortázar. (É engraçado, nunca vi nenhuma delas nas antologias de contos policiais. Rotularam o rapaz de “autor fantástico” e pronto, morreu aí.) Tudo é narrado numa “falsa 3ª. pessoa” do ponto de vista de Matilde, a esposa, e depois de duas páginas já esquecemos que tudo começara com um “eu”. O conto vai até um desfecho violento, e no último parágrafo sabemos quem é o narrador: é o médico ou enfermeiro que chegou à casa logo após o crime, e a história é extraída da empregada, Flora, levando-o a reconstituir tudo que se passou. Acontece que tirando o primeiro e o último parágrafo tudo se passa dentro da mente de Matilde. Pegando os fragmentos de fatos fornecidos por Flora, o narrador romanceia por conta própria o que teria se passado na mente da mulher, seus medos, suas culpas, sua paranóia. É um narrador não-confiável, porque, embora os fatos provavelmente sejam aqueles, o texto está cheio de conjeturas e adivinhações do que Matilde teria sentido e pensado, e que ele não poderia conhecer. É mais uma das muitas experiências de Cortázar sobre um”eu” narrador que nunca é o “eu” narrador da literatura convencional.

sábado, 23 de junho de 2012

2904) O roubo digital (23.6.2012)

















Um artigo de Stuart P. Green no New York Times (http://nyti.ms/KmnlTw) aborda a questão do download não-autorizado de músicas, filmes e livros do ponto de vista do tipo de transgressão que isso constitui.  Para Green, não se trata de furto ou roubo, e esta é a questão crucial.  É um problema de nomenclatura, nada mais, mas dentro do nosso sistema jurídico, e do nosso sistema informal de valores e conceitos, o nome com que tratamos uma ação influencia e direciona nosso exame e nossas decisões futuras.  Se já começamos uma discussão dizendo que a ação tal ou tal é um roubo, vai ser difícil propor, depois, uma maneira de legalizar ou organizar o modo como isso vai ser feito, já que é um “roubo”, uma palavra condenada de antemão.

Dois aspectos são importantes: 1) ao contrário do roubo, o download não priva o proprietário original de um objeto único que ele possuía e não possui mais; trata-se apenas do ato de copiar o objeto e levar a cópia para si; 2) são poucas as pessoas, entre as que fazem essas cópias, que se dariam o trabalho (ou teriam o dinheiro) de comprar o objeto original que o “proprietário” supostamente está oferecendo à venda.  Se as cópias se multiplicam gratuitamente, deve existir alguma maneira de usar essa multiplicação para gerar um pequeno resíduo de renda que, acumulado e multiplicado por milhões ou bilhões, crie um bolo a ser repartido entre os produtores dos objetos culturais.  Ao invés de cobrar 20 reais por disco e vender milhares, cobrar 1 centavo e vender milhões.  Ou cobrar um imposto único e redistribuí-lo, proporcionalmente à contribuição de cada produtor cultural.

Nosso conceito de comércio cultural (livros, filmes, discos) foi criado em torno da idéia de que: 1) é caro e trabalhoso copiar uma obra; 2) quem tem essa despesa e esse trabalho precisa ser recompensado por isso; 3) essa recompensa geralmente se dá através do direito de explorar comercialmente essas cópias escassas e preciosas.  No momento em que o item 1 perdeu o sentido, o resto começa a perder o sentido também.  Precisamos agora achar um novo conceito de comércio, baseado na idéia de que é facílimo e gratuito reproduzir cópias de livros, filmes e músicas.  Há um oceano de cópias sendo trocadas, oferecidas e aproveitadas gratuitamente, e não adianta considerar isso um roubo, porque daqui a alguns anos vamos chegar a uma sociedade onde, como a Itaguaí de O Alienista de Machado de Assis, 99% da população estará presa e somente 1%  nas ruas.  Quando a vida real, avaliada por um conceito, mostra 1% de regra e 99% de exceção, um dos dois precisa ser substituído. É mais sensato substituir o conceito.