terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

1629) O Teletroscópio (1.6.2008)




Os espectadores do Jornal Nacional viram recentemente uma matéria a respeito de duas estruturas estranhíssimas surgidas em Nova York e Londres. Elas se assemelham à entrada de túneis ou às extremidades de algum gigantesco cano metálico, revestido de adornos que lhe dão uma aparência meio século 19. Só que a enorme abertura, por onde algumas pessoas poderiam entrar sem dificuldade, é tapada por um vidro, e podemos apenas espiar através dela. Surpreendentemente, um transeunte londrino que espie do seu lado verá, no que parece ser a extremidade oposta do enorme tubo, uma paisagem de Nova York; e um espectador novaiorquino verá, como se estivesse a apenas algumas dezenas de metros, uma paisagem de Londres.

A matéria da Globo foi simpática, mas não pôde aprofundar a descrição da engenhoca, que foi batizada de “Teletroscópio” por seus criadores. A idéia por trás do Teletroscópio é dar a impressão de que um enorme tubo retilíneo foi escavado terra adentro, ligando com uma linha reta as duas cidades. Se imaginarmos a curvatura da Terra como um arco de círculo, o tubo seria a “corda” desse arco, ligando os dois pontos pelo caminho mais curto, subterrâneo.

O projeto do Teletroscópio pode ser visto por inteiro no seu próprio websaite, que traz boas ilustrações sobre esse tubo fictício: http://tinyurl.com/4rb3pz. O saite conta a história fictícia de Alexander Stanhope St George (1848-1917), um inglês que, sendo admirador das grandes obras de engenharia, decidiu construir um túnel ligando Nova York a Londres, para que as pessoas pudessem fazer o trajeto por terra, e não por mar. Depois de constatar que o traslado dos passageiros envolvia uma série de dificuldades, ele alterou o plano para a construção de um gigantesco aparelho óptico através do qual as pessoas pudessem ver-se mutuamente, mesmo a milhares de quilômetros de distância.

As escavações tiveram início numa ilha descoberta por Stanhope no Atlântico, mais ou menos a meio caminho entre os dois continentes. Nela foi aberto um túnel vertical que, a certa profundidade, estendia-se lateralmente em dois sentidos opostos, rumo à Inglaterra de um lado e do outro rumo aos EUA. Depois de construídas as “saídas”, foi montada uma complicada aparelhagem de espelhos e de recursos de ampliação óptica, para fazer com que as imagens pudessem atravessar a enorme distância sem perda de qualidade.

Todo o projeto do Teletroscópio pode ser encarado como um romance de ficção científica complementado por uma obra de engenharia que lhe serve de ilustração. Claro que o túnel não existe, e mesmo que existisse dificilmente as pessoas poderiam se avistar de uma extremidade à outra com recursos puramente ópticos. O que existe é um sistema de câmaras de TV que transmitem as imagens de uma ponta à outra. Mas é belo o conceito do Teletroscópio como uma síntese entre a tecnologia do século 21 e a força imaginativa do século 19.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

1628) Gil e a nova música (31.5.2008)



Gilberto Gil vem dando entrevistas sobre seu novo CD, Banda Larga Cordel. Há alguns anos o ministro Gil vinha prejudicando o compositor, impedindo-o de trabalhar direito, em mais um flagrante desrespeito das autoridades brasileiras contra a livre expressão dos nossos artistas. Parece que, pelo menos neste momento, o dilema jekylliano de Gil está sendo resolvido. O disco novo traz algumas belas canções, e entre as marolas que vem gerando estão as entrevistas do baiano, sempre loquaz e percuciente.

Gil observa com propriedade que a música digital está fazendo desmoronar o conceito de álbum como obra íntegra e fechada. Discos como o Sgt. Pepper dos Beatles ficam cada vez mais difíceis de produzir. Foram os Beatles que, no universo da música pop, transformaram o álbum num veículo autônomo. Antes deles, tudo era fragmentado. Os artistas lançavam compactos simples (2 músicas) ou duplos (2 de cada lado). Esses discos iam vendendo, e quando o artista tinha um número razoável deles juntava todas aquelas canções num LP, ou álbum, de doze faixas. A obra era a canção, e o álbum uma simples coletânea. As canções de maior peso iam para o lado A do compacto, e para o lado B ia uma canção menor, porque se o cara tivesse outra canção de peso iria guardá-la para lançar noutro compacto no mês seguinte.

Com Sgt. Pepper (1967) os Beatles aperfeiçoaram algo que já tinham esboçado em Rubber Soul (1965) e Revolver (1966): um disco em que as faixas dialogavam entre si e adquiriam um sentido maior quando escutadas em conjunto. Sgt. Pepper era uma longa e complexa suite. Ainda não tinham morrido os últimos acordes de uma canção, e os primeiros sons da próxima já se faziam ouvir. Os temas eram interligados, a faixa título era repetida com alterações na letra e na estrutura, preparando o caminho para o encerramento triunfal com A day in the life. Um trabalho com essa amplitude e complexidade seria impensável cinco anos antes, quando predominava a fragmentação de um mercado que raciocinava apenas em termos de canções isoladas.

Pois é essa fragmentação que está voltando aos poucos. Ninguém precisa mais procurar “o disco que tem aquela música”, procura logo a música – e baixa, ou compra, ou copia, e faz o que quer. Diz Gil: “Eu já abri mão da seqüência de faixas, do encadeamento. Era impossível para mim, com todas essas referências de fragmentação, de criação coletiva." Esta é uma consequëncia importante da cultura digital. Falamos o tempo todo nas consequências financeiras, mas é crucial discutir o novo perfil estético que a música está adquirindo. A canção isolada está se tornando de novo o foco. O álbum perde coesão, volta a ser coleção de faixas, e vai ser preciso um gesto criativo tão radical quanto o dos Beatles para que público e imprensa voltem a considerar que uma certa dúzia de canções tem que ser ouvida em conjunto, porque assim têm a mesma densidade e unidade estética que uma canção isolada.

1627) Futebol e adrenalina (30.5.2008)




A noite de 4a.- feira foi o que os coleguinhas de imprensa esportiva chamam “um carrossel de emoções”. Um grande jogo pela Libertadores: Boca Juniors 2x2 Fluminense. Dois jogos nervosos pela Copa do Brasil: Corinthians 2x1 Botafogo (Corinthians classificado nos pênaltis) e Vasco 2x0 Sport (classificou-se o Leão da Ilha). Não vi o jogo do Morumbi. Assisti o do Sport porque em Recife sou rubronegro. E assisti (indo lá e cá) o do Fluminense porque apesar de não morrer de amores pelo meu vizinho de bairro é um time brasileiro contra um argentino, vou torcer por quem, então?

O Fluminense de Renato Gaúcho está fazendo história. Equipes melhores que esta não foram tão longe na Libertadores. Mas esta não é de se jogar fora. A defesa é lutadora e tecnicamente boa (o melhor é Luís Alberto, ex-Flamengo). O goleiro Fernando Henrique, como seu xará, é sempre um mistério, nunca se sabe o que pode aprontar. Desta vez, fez grandes defesas. O ataque não me convence muito, mesmo sendo Dodô um jogador habilidoso e mortal, e Washington um “tanque” que freqüentemente resolve. O time inteiro do Flu lutou muito. Talvez o Boca merecesse vencer, porque jogou mais e pressionou mais. Mas o Flu fez um gol perto do fim numa falha incrível do goleiro, e tem tudo na mão para ganhar do rival no Maracanã. Está no papo, viu, colegas? Igualzinho ao Flamengo. Podem relaxar.

Em São Januário o Sport, que tinha ganho o jogo do Recife por 2x0, entrou em campo embaixo de um foguetório aterrorizante armado pela torcida do Vasco, detonaram-se ali mais bombas do que no cerco de Stalingrado. Ainda assim, o time da Ilha jogou tranqüilo, tocou a bola, defendeu-se sem afobação, atacou sem medo. No segundo tempo, levou um gol de desatenção na zaga e o 1x0 inflamou o Vasco, que foi todo para cima. A expulsão de um vascaíno por uma falta boba devolveu o comando do jogo ao Sport, que perdeu várias chances de decidir logo o jogo.

Aí pousam em São Januário os deuses do futebol. Aos 46 minutos o juvenil Pablo acerta um chute lá da Feira de São Cristóvão e o goleiro do Sport larga a bola nos pés de Edmundo, que estufa as redes: 2x0. A gente sentia a câmara do Sportv balançando com o delírio da torcida vascaína, e a vibração de Edmundo, saltando por sobre as placas de propaganda e brandindo os punhos cerrados, era de arrepiar, de comover.

Vamos aos pênaltis, então. Falei que os deuses do futebol tinham descido ao estádio? Desta vez, amigos, o deus que veio dar expediente foi Loki, o zé-pelintra da mitologia escandinava, o “trickster”, o duende infantil e cruel para quem a tragédia humana é a mais divertida das comédias. Com a mão direita ele dera a Edmundo a glória do gol de empate, e com a esquerda fez o Animal chutar o pênalti lá na Feira de São Cristóvão. Os jogadores do Sport não erraram nenhum, e fizeram a festa. E Edmundo voltou a ser um Herói: um personagem que vai, num segundo, do píncaro ao abismo.

1626) O silêncio de Antonioni (29.5.2008)



O DVD do filme A Noite, de Michelangelo Antonioni, traz como bônus um documentário sobre o diretor, com entrevistas que ele deu ao longo de décadas de carreira. Entre elas, aquela que o filme afirma ser a última entrevista sua antes do derrame cerebral que o deixou impossibilitado de falar, embora tivesse continuado a dirigir (com o auxílio de outras pessoas, pois somente a sua fala foi prejudicada).

Antonioni sempre foi conhecido pela crítica como “o cineasta da incomunicabilidade”, principalmente devido à trilogia composta por A Aventura (1959), A Noite (1960) e O Eclipse (1961), em que ele analisa as difíceis relações afetivas entre personagens da pequena burguesia italiana. Seus personagens são arquitetos, escritores, operadores da Bolsa. Indivíduos mais ou menos bem de vida, que ganham razoavelmente, têm tempo livre, e podem se dedicar a cuidar de suas relações amorosas como quem cuida de um jardim. (Verdade que a maioria desses personagens deixa seu jardim entregue às ervas daninhas.) Numa das entrevistas do DVD, Antonioni lembra que um personagem assim é de certa forma dono do seu tempo, dos seus horários, da sua mobilidade. Para ele é mais fácil ir à procura de uma mulher que ama, assediá-la, segui-la, marcar encontros, etc. Já para um operário, que trabalha o dia inteiro preso numa fábrica, as limitações de ordem prática são muito maiores.

Os personagens de Antonioni são sempre uns caras elegantes, que moram em bons apartamentos, e mesmo dentro de casa só são vistos de terno e gravata. Apaixonam-se, cercam as mulheres que amam, mas sempre acabam botando tudo a perder, seja por infidelidade, seja por indiferença. Quanto às mulheres, são erráticas, instáveis, parecendo sempre em dúvida quanto ao que realmente querem. Costumam andar ao léu, perdidas em pensamentos que não conseguimos ler em seu semblante. Nenhuma atriz conseguiu exprimir tanto essas incertezas íntimas, e a angústia delas resultante, quanto Mônica Vitti, na época casada com o diretor, e que aparece nos três filmes da trilogia e mais em Deserto Vermelho (1964).

Diz Antonioni, na última entrevista: “Dizem que sou o cineasta da incomunicabilidade. Bem, se eu o sou, então é porque soube comunicar isto, portanto eu próprio não sou incomunicável”. Grande parte do fascínio dos filmes de Antonioni nasce do modo como ele encurrala seus personagens com a câmara, como se quisesse “por fina força” adivinhar, e revelar, o que estão sentindo. O crítico David Thomson disse que Antonioni é um cineasta “capaz de remover todas as camadas das pessoas até atingir peles tão frágeis que elas mal conseguem roçar umas nas outras sem produzir dor”. É irônico e simbólico que o cineasta da incomunicabilidade tivesse passado os seus últimos anos incapacitado de falar, mas ainda realizando filmes. Como ele mesmo diz na última entrevista, não poder falar não é o mesmo que não poder se comunicar.

1625) A aparente facilidade (28.5.2008)




Uma das pedras-de-toque para a gente reconhecer a Grande Arte no meio de inúmeras coisas mais ou menos boazinhas é que a Grande Arte, paradoxalmente, dá a impressão de ser uma coisa muito mais simples, que brota quase espontaneamente. 

Existe uma aparente facilidade no modo como o artista faz o que faz. Grande parte da beleza do resultado nasce da fluidez com que as coisas acontecem, quando se trata de uma das artes que ocorrem no Tempo, como o cinema ou a música. Tudo ocorre sem solavancos e sem rodeios, como se aquela fosse a única maneira possível das coisas terem acontecido, mesmo quando nos reservam surpresa e reviravoltas. Tudo parece inevitável, necessário, conseqüente. 

 No caso das artes estáticas, como a pintura e a escultura, temos a impressão de que aquela forma já brotou pronta e só fez crescer até ocupar por inteiro o espaço que lhe era destinado.

Dizem que Michelangelo teria dito, quando elogiaram alguma das suas esculturas: “É muito fácil. Eu pego um cubo de mármore, enxergo a figura lá dentro, e vou descascando o mármore até deixar somente a figura”. 

Um jornalista perguntou uma vez ao grande escritor mineiro Luiz Vilela, famoso pelos seus diálogos de espantosa naturalidade, se ele costumava deixar um gravador ligado embaixo da mesa do bar para captar a conversa das pessoas. Ele riu e disse: “Que nada, escrevo de memória. Mas parecer espontâneo dá um trabalho danado”.

Tenho essa sensação também quando estou vendo aqueles programas de futebol com “Os 10 Gols da Semana” ou “Os Gols Mais Bonitos do Ano”. Sei que, para algumas pessoas, considerar futebol uma Arte é uma heresia perigosa, mas só dizem isso porque não viram certas coisas que eu já vi. 

Ronaldo Fenômeno arrancando do meio de campo com a bola dominada, esquivando-se dos pontapés, evitando um carrinho, desvencilhando-se do zagueiro que tenta pendurar-se às suas costas, girando sobre si mesmo, dando uma quebra lateral de trajetória que o leva em diagonal para dentro da área, um penúltimo corte para a esquerda, um último corte para a direita, o chute preciso no derradeiro canto que o goleiro não alcança. Descrito assim, parece uma façanha. Visto, a gente vê como é simples.

A facilidade nasce de que? Do domínio da técnica (que só se adquire com muito estudo, muito treino, muita obsessão) e do impulso criativo, do excesso de energia propulsora que nasce muitas vezes da alegria e do prazer de estar criando. 

Vivo repisando nesta tecla, para alertar aqueles que acham que para criar Grande Arte basta emoção. Sem técnica não há Arte, nunca houve. E ao mesmo tempo não há nada mais distante da Grande Arte do que a pura técnica, a técnica que se exibe cansativamente a si própria, a técnica que soterra o espectador com uma lista de dificuldades penosamente superadas. 

Na Grande Arte, só vemos a aparente facilidade, como se cada artista tivesse um par de asas nos pés.





1624) “As aventuras de Huck” (27.5.2008)



Estive relendo As Aventuras de Huck, de Mark Twain, que já foi chamado “o romance mais divertido que já foi escrito”. Se não é, está perto de ser. Twain é um desses escritores adultos que sabem pensar como uma criança, contar a história do ponto de vista da criança, e ao mesmo tempo manter estilo e narrativa sob um controle de adulto. Alguns autores perdem esse controle. Passam a raciocinar como crianças e não como escritores, o que torna seus livros uma coisa infantilóide. Outros evitam isto indo na direção oposta – distanciam-se da criança e contam suas aventuras “de cima”, com um olhar paternalista cheio de ideologia. Mark Twain não. Ele faz tudo certo.

Huckleberry Finn é um garoto que foge de casa e percorre o rio Mississipi de canoa e jangada, metendo-se em aventuras tragicômicas. A descrição da vida beira-rio, o universo de infância de Twain, é de enorme beleza, porque decorre do seu conhecimento de milhares de detalhes e de aspectos secundários daquele ambiente, algo que só um nativo tem. Eu não sei nada do Mississipi, mas tudo que Huck Finn descreve e demonstra tem uma verossimilhança enorme, porque ele possui aquele “saber só de experiências feito”. Soa verdadeiro. Como devem soar verdadeiras a um leitor estrangeiro as aventuras do Carlinhos de Menino de Engenho e do Pedrinho do Sítio do Picapau Amarelo.

O livro tem uma posição curiosa na cultura dos EUA. A seu respeito já se escreveu uma estante inteira de estudos e teses. Ao mesmo tempo, é ferozmente perseguido em alguns setores politicamente corretos, porque, passando-se na época da escravatura, mostra sem culpa o modo como os negros eram tratados pelos brancos – e usa o tempo todo a palavra “nigger”, considerada hoje nos EUA umas das mais ofensivas do idioma, a ponto de ser mencionada na imprensa como “the N Word”, “a palavra que começa com N”. É tabu, e daqueles bem pesados.

Não era tabu em 1885 quando Mark Twain escreveu seu livro. Posso entender que leitores negros de hoje se compadeçam do escravo Jim, que tem um amor e uma fidelidade canina por Huck, e que na parte final serve de mero brinquedo para os divertimentos dele e de seu amigo e mentor, Tom Sawyer. A crueldade inocente dos garotos, para mim, tem menos a ver com o racismo (ou seja, com uma convicção profunda de que os negros são inferiores) do que com as diversões meio sádicas de qualquer criança, dentro das regras do seu mundo. Me lembra um pouco o modo como as crianças de Cem Anos de Solidão transformam a avó Úrsula em brinquedo, depois que esta fica gagá e indefesa. Parece também com o sofrimento de Tia Nastácia nas mãos dos garotos do Picapau Amarelo, que valeu igualmente a Lobato uma série de críticas pelo alegado racismo. O caso é que, em vez de criar histórias educativas sobre como os garotos deveriam se comportar (as quais têm lá sua utilidade, suponho), Twain, Lobato e Zé Lins são garotos grandes que contam exatamente como se comportavam.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

1623) Machadiana 01 (25.5.2008)



(foto: Ben Visbeek)

“Não, não lembro em que ano foi. Os anos são todos parecidos, e mudam com muita rapidez. Mal nos acostumamos aos seus algarismos, somos advertidos de que o último deles acaba de ser trocado. Acho o conceito de ano um refinamento desnecessário, deveríamos fixar-nos nas décadas, que estas, sim, consigo distingui-las umas das outras, principalmente antes do quinto uísque. Onde estávamos mesmo? Ah, sim, meu último encontro com o Comendador Fortunato. Foi na casa de campo em que ele enfrentou a aposentadoria, na Serra de Petrópolis, e se não me falha a memória isso aconteceu em agosto de 1997.

“Conheceu o Comendador? Pois deveria. Uma das mentes mais brilhantes de sua geração. Foi meu professor na Faculdade, embora só tivéssemos nos tornado amigos tempos depois, durante o escândalo policial e jurídico que foi a investigação do assassinato do Dr. Junqueira, sócio dele e meu cliente. Fui a principal testemunha na autenticação do testamento de Junqueira, mediante o qual Fortunato entrou em posse de tudo: latifúndios, indústrias, debêntures, controles acionários. Herdou também (não por testamento, claro) a viúva, Heloísa, a dos louros cabelos e olhos azuis.

“Junqueira era tão rico que todo mundo herdou algo com sua providencial desencarnação. Até o seu caseiro, que herdou uma condenação por provas circunstanciais e meses depois um estoque em pleno peito, nos recessos de uma cela superpovoada. E a vida foi em frente, Fortunato cada vez mais poderoso, Heloísa cada vez mais bela, e ambos cada vez mais agradecidos ao locutor que vos fala hoje, a sós, nesta biblioteca de estantes de mogno e lareira acesa, empunhando um tilintante uísque que o distrai da chuva lá fora.

“Chovia quando visitei Fortunato pela última vez. Já faz tantos anos. Recebeu-me com cortesia, mostrou-me o novo haras, a nova piscina, a estufa, as fotos do orfanato recém-inaugurado que mandara construir. Fê-lo com melancolia; após o almoço tomou duas pílulas de um vidrinho que trazia no bolso, e comentou com ironia os avanços da Ciência, que lhe salvava a vida três vezes por dia: após o café, após o almoço, e após o jantar. À noite, mostrou-me livros recém-importados de um antiquário em Milão, e eu lhe mostrei a versão autenticada do novo testamento, que incluía as incorporações mais recentes. “Se eu tivesse dez filhos, ficariam todos ricos com a minha morte,” suspirou ele, “mas Heloísa merece, ela tem sido meu esteio, a razão da minha vida”. Sem uma palavra, ela tomou-lhe nas mãos manicuradas a mão cheia de manchas marrons e veias azuis.

“Não pernoitei. A chuva amainou, aleguei um compromisso urgente e desci a Serra às dez da noite. Trazia no bolso o vidrinho que Fortunato deixara por descuido na mesinha da biblioteca. Em que ano foi? Não lembro. Perguntem a minha esposa, Heloísa, quando ela voltar de uma das suas intermináveis viagens à Europa. De onde, aliás, me traz este uísque com sabor de fogo, de sangue e de lótus.”

1622) O mundo que não existe (24.5.2008)




(Graham Greene)

O escritor (o artista imaginativo em geral) é um sujeito cuja maior preocupação na vida é uma porção de fatos que nunca aconteceram com pessoas que nunca existiram. 

O trabalho literário tem uma certa semelhança com os tais dos silogismos da Filosofia. Seu valor depende de sua adequação às próprias regras, e não do que está dizendo. 

Digo, por exemplo: “Todos os homens são mortais. Ora – Sócrates é um homem. Logo, Sócrates é mortal”. Para o leitor distraído, este raciocínio parece correto, mas ele pensa assim pelas razões erradas. Acredita porque sabe que Sócrates era um homem, e que já está morto. Provavelmente sabe que Sócrates foi obrigado a beber cicuta, um veneno daqueles do caba cair ciscando. Sabendo disso, ele acha que o raciocínio é verdadeiro.

Pois igualmente verdadeiro é este aqui: “Todos os kabungs são trambiáveis. Ora, Pampinello é um kabung. Logo, Pampinello é trambiável”. Se você não sabe o significado destes termos, então somos dois, porque eu, que acabo de inventá-los, também não sei. Mas a frase é verdadeira. 

Uma proposição de lógica formal (esta aí, por exemplo, chama-se, se não me equivoco, de “silogismo simples”) não é verdadeira porque corresponde a algo que enxergamos no mundo material: é verdadeira quando obedece às regras que ela mesma estabeleceu. Matemática é a mesma coisa. Cinco mais seis são onze, não importa se estamos nos referindo a laranjas ou a jogadores de futebol.

Vi uma citação do inglês Graham Greene: “Um escritor é um homem de barba por fazer e copo na mão, cercado de criaturas que não existem”. 

Isto me lembra um cartum de Jaguar no Pasquim, satirizando uma famosa frase de Paulo Francis. Primeiro quadrinho: Francis numa festa, cercado de gente inexpressiva. Segundo: Francis diz: “Bebo para tornar as outras pessoas mais interessantes”, e vira um copo de uísque. Terceiro quadro: Francis na mesma festa, mas cercado por gente famosa: escritores, poetas, pintores clássicos, filósofos, políticos.

A literatura cumpre a mesma função do uísque de Francis: fazer com que as pessoas que não existem se tornem mais interessantes do que as pessoas reais. Não por menosprezo a elas, mas porque entendê-las nos ajuda a entender as coisas de cá. 

Entender o porquê da trambiabilidade de Pampinello nos ajuda a entender o porquê da mortalidade de Sócrates. Como dizia Carlos Drummond, “a vida, quando vai aos livros, é para voltar mais vida”. 

As criaturas que não existem precisam da nossa atenção e da nossa crença. Quando atenção e crença ocorrem, a não-existência delas recede para segundo plano, e tudo que se passa em nossas mentes a partir daí é como se se passasse aqui no mundinho dos partidários da verossimilhança. 

Elas são como aqueles desenhos feitos com letras datilografadas que, superpostas, formam zonas de luz e de sombra, onde surge a imagem de um rosto humano. Personagens são uma inexistência por onde a existência se revela.





1621) Os Mutantes II (23.5.2008)




O segundo disco dos Mutantes, lançado em 1969, veio arredondar e tornar mais nítido o estilo musical do grupo. 

Alguém já disse que “estilo é a repetição organizada de certos cacoetes pessoais”. Coisas que no primeiro disco dos Mutantes pareciam pirações aleatórias ou doidices sem propósito foram repetidas, ampliadas e aprofundadas no segundo disco. Não era barulheira caótica, era um jeito pessoal de fazer as coisas. Se o segundo disco tivesse sido totalmente diferente do primeiro, ninguém iria entender nada. Do jeito que foi, cristalizou um estilo.

Os Mutantes experimentavam muito na parte vocal. Vocal infantilóide em “Rita Lee”, vocal gaguejante em “Qualquer Bobagem”, vocal caipira em “2001”, vocal distorcido em “Dia 36”. 

Cada canção parecia cantada por um grupo diferente, e ao mesmo tempo, depois que o ouvido acostumava, a gente via que eram sempre eles. 

As citações aos Beatles e Rolling Stones continuavam presentes em cada faixa, mas é difícil, para quem não estava vivo naquela época, entender a onipresença e o peso desses dois grupos, que eram uma espécie de duas Torres de Castelo numa paisagem cheia de cabanas de lavradores. Todo mundo estava à sua sombra.

Em “Fuga no. 2” o grupo retoma um tema recorrente da contracultura: o jovem que foge de casa (“She’s Leaving Home” dos Beatles, “Mamãe Coragem” de Torquato Neto). 

Pra mim, sempre exigente, o ponto fraco dos Mutantes eram as letras, que tinham aqui e ali uns ótimos achados, mas no geral... Ainda hoje contraio o rosto quando ouço, na belíssima “Caminhante Noturno”: “Vai, caminhante, antes do dia nascer... Vai, caminhante, antes da noite morrer!” 

Em “Rita Lee”, eles invertem duas proposições óbvias quando dizem: “Suas noites são vazias / porque são tão frias”. Mas, fazer o quê? Eram uns garotos. Tocavam pra caramba, cantavam pra caramba, tinham uma inventividade incansável e borbulhante. Querer que ainda por cima fossem grandes poetas era demais. 

A letra de Tom Zé para “2001” consegue se destacar de todas as demais e ainda assim estar no clima do grupo. E certas letras enigmáticas como “Dia 36” ganharam mais espessura com o passar do tempo (parece um diálogo de filme de FC distópica).

“Dom Quixote” é uma de suas melhores canções. Tem trechos de madrigal renascentista, poesia concreta, referências pop (chiclete, Crush); tem uma segunda parte com virada de bateria, sopros, guitarras estridentes, igualzinha ao que os ingleses estavam descobrindo na época. 

E quando leva Dom Quixote para um programa de TV (“Palmas para o Dom Quixote que ele merece!”) tem uma impudente antevisão da “pop-ficação” do mundo. 

É um final que me lembra o final de Simão do Deserto de Buñuel: o santo numa boate de Nova York, ao lado do Diabo metamorfoseado em loura, ouvindo um conjunto tocar rock. 

É como se dissessem: “Não existem mais heróis, não existem mais santos. Os heróis e os santos de hoje estão todos na Mídia”.








1620) “O Rosto” (22.5.2008)





Um dos filmes menos comentados da inesgotável filmografia de Ingmar Bergman, O Rosto (“Ansiktet”, 1958) é, juntamente com A Hora do Lobo, o mais próximo que o diretor chegou ao que chamamos de filme de terror. 

A ação decorre em pouco mais de um dia. Em 1846, um ilusionista e sua trupe chegam à mansão de um nobre onde têm que realizar seu espetáculo diante do nobre, do chefe de polícia e de um médico, todos três interessados em comprovar ou desmentir a existência de fenômenos sobrenaturais. O relacionamento da trupe com os moradores da mansão redunda em episódios cômicos, sinistros, maliciosos ou violentos.



Não existe nenhum elemento propriamente sobrenatural no filme. O que há é uma pervasiva atmosfera de medo, de misticismo e de mistério. A chegada do “Teatro de Saúde Magnética de Vogler”, com promessas de leitura do pensamento, levitação, poções mágicas, etc., cria na mansão um clima de tensão e incerteza, mesmo que todos ali desconfiem desde o início que aquilo não passa de um grupo de charlatães. 



Todo mundo tem uma máscara. Vogler (Max von Sydow) usa barbas postiças e finge que é mudo. Sua mulher Manda (Ingrid Thulin) se veste de homem. Seu assistente Tubal vende remédios comuns dizendo que são poções afrodisíacas. Simson, o cocheiro, tira onda de grande conquistador, mas quando leva a criada (Bibi Andersson) para o quarto vê-se que ela é muito mais traquejada nessas coisas do que ele. A única pessoa legítima é a avó de Vogler (Naima Vifstrand), uma estranha feiticeira de óculos. Ela parece demonstrar que o mundo dos espíritos é real.



As pessoas da mansão se perturbam com a presença do grupo, e as máscaras também começam a cair. A esposa do Cônsul Egerman (dono da casa) se deixa fascinar pela mudez e pelo jeitão de hipnotizador de Vogler, e tenta entregar-se a ele (sem saber que o marido a espreita e vê tudo). A esposa do Chefe de Polícia é chamada como cobaia de uma experiência de leitura do pensamento, e revela com loquacidade uma série de segredos constrangedores de sua intimidade com o marido. 

O único que parece autêntico é o Dr. Vergerus (Gunnar Bjornstrand), materialista convicto, que mesmo deixando-se apavorar por Vogler numa longa cena no sótão, permanece materialista até o fim. Ele é o oposto simétrico à Avó Vogler, e parece demonstrar que a descrença no sobrenatural é tão invulnerável quanto a crença nele.

Vogler é um charlatão e sabe disso, mas seu falso ilusionismo produz uma série de efeitos colaterais que sugerem uma teoria interessante. 

Grande parte dos nossos conceitos sobre o que é real se baseiam em premissas que nunca nos damos ao trabalho de checar. Algumas são falsas, outras não. Quando nos submetemos a experiências fora do comum, o estilhaçamento das premissas falsas põe em xeque nosso conceito do Real, e abre caminho para que aceitemos premissas sobrenaturais que são igualmente falsas. Não é que o sobrenatural exista, é o nosso conhecimento do Real que é defeituoso.