sábado, 24 de outubro de 2009

1312) A caridade (27.5.2007)


(Myrtle Reed)

A caridade é uma das três virtudes teologais, juntamente com a fé e a esperança. Alguns doutores da Igreja a consideram a mais importante, mas das três é a que tem conotações mais negativas. “Caridade” (ou melhor, a condição de precisar da caridade alheia) virou sinônimo de miséria, mendicância, etc. “Fazer uma caridade” é sempre algo humilhante para a pessoa beneficiada. O “caixão da caridade”, que algumas igrejas emprestam para que os muito pobres levem seus mortos ao cemitério (e depois devolvam) é considerado por alguns a pior das humilhações, de quem “não tem onde cair morto”.

Ninguém quer ser miserável, ninguém quer estar na condição de nada ter, de nada poder dar. Se você chegar na casa de taipa de um sertanejo e tudo que ele tiver for um pão seco, ele lhe oferece metade. Em parte é generosidade; em parte é para mostrar que não está tão mal assim, que pode, sim, abrir mão daquilo. O ser humano é movido por impulsos contraditórios de abnegação e orgulho.

Caridade é sinônimo de esmola, e virou moeda de troca no comércio espiritual. Tem sujeito que quer ir para o Céu, vê um mendigo na rua e bota um donativo no seu chapéu. Sai dali satisfeito, imaginando que com isto melhorou seu saldo-médio, seu crédito, seu investimento, ou sei lá que conceito financeiro é adotado nessa contabilidade de valores. Será que é assim que funcionam os julgamentos do Altíssimo? Duvido muito.

Myrtle Reed, escritora norte-americana de cem anos atrás, disse: “Muita gente considera um ato de caridade dar a alguém suas roupas velhas e coisas de que não mais precisa. Não é caridade dar coisas das quais a gente quer se ver livre, assim como não é um sacrifício fazer algo que a gente não se importa de fazer”. Quando eu dou uma esmola, é um pouco nesse espírito. Vejo um guri com fome, um cara desempregado, meto a mão no bolso, dou a ele um real, dois reais, não importa quanto. Nem me passa pela cabeça que Deus (caso exista) bote isso no prato onde está escrito “CÉU” de uma balança com meu retrato. Não tem nada a ver com Deus. Dei o dinheiro pra o cara comprar um pão, isso fica entre mim e ele, e peço que esta ressalva seja registrada em ata.

Quando estou com livros sobrando em casa, chamo o pessoal da “Berinjela” e concedo-lhes 200 livros a troco de crédito. Não acho que tenha feito uma caridade: estou me livrando de algo que não me faz falta e que me tomava espaço. Uma negociação onde ambos os lados saem ganhando, mas, caridade? Nem pensar. Dar uma esmola é a mesma coisa.

É possível que eu tenha feito algum gesto de caridade na minha vida, afinal não me considero um caso perdido. Mas não fico pensando a respeito, porque ficar pensando significa ficar acendendo uma lanterna e chamando a atenção de Deus: “Ei! Olhe aqui! Deposite na minha conta!” Só existe caridade quando quem dá abre mão de alguma coisa que lhe era importante. Só existe sacrifício quando existe prejuízo. Quando nada se perde, nada se pode querer ganhar.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

1311) “Estamira” (26.5.2007)




Este impressionante documentário de Marcos Prado andou ganhando prêmios por aí e recebendo elogios da crítica. Consegui vê-lo em João Pessoa, na recente edição do Cineport, onde ele mais uma vez foi premiado. 

É um filme que nos marca pela tragédia humana que revela, e pela grandiosidade de suas imagens. Infelizmente, é o tipo do filme que aparece resumido assim nos roteiros de jornal: “Documentário sobre uma mulher esquizofrênica que vive de catar lixo na periferia do Rio”. 

Não é um resumo dos mais convidativos, e muita gente vai deixar de ver um dos melhores filmes brasileiros da atualidade.

Estamira é a personagem central, uma mulher nascida numa família de classe média que foi decaindo financeiramente até acabar praticamente na miséria. Aos 60 e tantos anos, ela cata lixo e mora numa casa humilde. 

Submeteu-se durante quatro anos a tratamentos variados em hospitais psiquiátricos. Durante esse período o diretor a acompanhou, registrando cenas do seu trabalho e fazendo entrevistas com ela e seus parentes.

Estamira é mais uma figura inesquecível na galeria de doidos iluminados brasileiros, junto com Artur Bispo do Rosário, com o Fernando Diniz cujos quadros aparecem em Imagens do Inconsciente, com a escritora Maura Lopes Cançado (autora de Hospício é Deus), com a protagonista do recente documentário Stella do Patrocínio. 

Todos eles são pessoas clinicamente consideradas doentes mentais, mas as coisas que pensam, dizem e fazem nos levam a reavaliar não apenas o nosso conceito do que é razão ou loucura, mas a pensar em como a sociedade é despreparada para lidar com suas próprias exceções.

O que mais empolga no filme é o modo como o diretor usa imagem e som escrupulosamente realistas para nos dar a sensação de que estamos mergulhados no universo alucinatório da personagem. 

Há uma cena magnífica filmada no lixão, quando uma tempestade se aproxima no horizonte, precedida por uma ventania que vai arrastando todo aquele lixo solto: sacos plásticos, papel, tufos de capim, pedaços de madeira, objetos pequenos, tudo sendo varrido por um vento que parece um princípio de furacão, enquanto Estamira, fincando pé contra a ventania, grita e esbraveja contra os elementos.

Simétrica a esta cena é a cena final, em que o diretor a leva para uma praia deserta, onde ela caminha em paz, mergulha os pés descalços na areia, aproxima-se do mar, cujas ondas parecem sentir sua aproximação e crescem, em paredões de espuma que se erguem a 10 ou 20 metros de altura e desmoronam com um ruído ensurdecedor. A onda arremete com força, derruba Estamira, que se molha toda, rola na areia, se reequilibra, ri, levanta, volta a esbravejar contra o Oceano sem que se entenda coisa alguma do que ela diz, porque o fragor da arrebentação é muito alto. 

Uma cena memorável, cinema puro, em que vemos a pequenez do ser humano diante das forças bravias do seu próprio Inconsciente.






1310) Milan 2x1 Liverpool (25.5.2007)



Dois anos atrás, Milan e Liverpool fizeram a final da Copa dos Campeões, que eu, pessoalmente, considero o melhor campeonato do mundo, melhor do que qualquer Copa do Mundo disputada por seleções. Mesmo antes da Seleção Brasileira pagar o mico histórico que pagou em 2006, eu já venho achando que os jogadores jogam melhor nos seus clubes europeus do que nas seleções dos seus países de origem. Uns dizem que é falta de patriotismo, outros dizem que é porque o clube paga fortunas e as seleções não pagam tão bem. Prefiro imaginar que o sujeito simplesmente passa 10 meses por ano jogando pelo clube. É uma convivência, é como um casamento, é um modo de vida. A Seleção aparece como uma obrigação periódica que vai tirá-lo do seu ambiente.

Voltando ao tema: em 2005, o Milan botou 3x0 no Liverpool e achou que a taça estava ganha. No segundo tempo, o Liverpool partiu para cima e encostou em 3x3. Nos pênaltis, o time dos Beatles ganhou o título merecidamente. Gerrard, capitão do Liverpool, afirma que na volta do intervalo os jogadores italianos tocaram com a ponta dos dedos na taça, ao retornar para o campo de jogo, o que segundo ele dá um azar danado.

Anteontem, a coisa foi diferente. Num jogo corrido e disputado, mas cheio de ferrolhos e de marcação duríssima, com poucas chances reais de gol, o Milan fez 1x0 no fim do primeiro tempo, numa cobrança de falta que resvalou no corpo do sortudo Inzaghi, que mesmo sem jogar nada foi o herói do jogo. No segundo tempo, os liverpudlianos partiram para cima, tiveram algumas chances, mas Kaká deu um jeito de botar Inzaghi novamente na cara do gol: 2x0. Tudo parecia liquidado quando o Liverpool aos 42 conseguiu um gol de cabeça, que deu emoção e desespero aos minutos finais, mas o jogo acabou com uma vitória merecida do Milan.

Um dos detalhes que acho mais interessantes nessa Copa é o fato de o jogo final ter sua sede marcada antecipadamente, sem que se saiba quem serão as equipes. Na final de 2005, Milan x Liverpool, um clube italiano e um clube inglês, jogaram em Istambul, na Turquia; anteontem, jogaram em Atenas, na Grécia. Ano passado, o Barcelona foi campeão derrotando o time inglês do Arsenal – em Paris.

Os melhores jogadores brasileiros disputam esse campeonato; nossa seleção está todinha ali. Os clubes são verdadeiras seleções internacionais, mesclando europeus, sul-americanos e africanos de grande talento. É o lado bom do grande capitalismo esportivo, num futebol onde, ao contrário do Brasil, os clubes têm estrutura e capital para usarem os empresários de atletas, em vez de serem usados por eles, como acontece com os clubes brasileiros em sua eterna pindaíba. Em vez de seleções nacionais repletas de estrangeiros jogando num país qualquer, temos jogos de ida e volta dos clubes diante de suas torcidas, sendo apenas a final em campo neutro. E durante cerca de seis meses a TV a cabo nos dá a chance de ver o melhor futebol do mundo.

1309) As árvores e a floresta (24.5.2007)


(Zé Lins, por Baptistão)

Num comentário sobre os romances do “ciclo da cana-de-açúcar” de José Lins do Rego, o saudoso presidente da Academia Brasileira de Letras, Austregésilo de Athayde, assim se expressou: “José Lins do Rego consignou um dos fenômenos sociais mais típicos da civilização latino-americana no século XX, e, com isso, deu vida a uma galeria de tipos psicológicos que ficarão para sempre em nossas letras”. É um juízo elogioso com o qual concordo em princípio, só que eu reverteria a ordem do argumento. Eu diria assim: “José Lins do Rego deu vida a uma galeria de tipos psicológicos que ficarão para sempre em nossas letras, e, com isso, consignou um dos fenômenos sociais mais típicos da civilização latino-americana no século XX”.

Parece bobagem, mas não é. Se Zé Lins conseguiu reproduzir em seus romances o que era aquele mundo dos Engenhos, que ele conheceu tão de perto, foi devido a sua capacidade de criar personagens e mostrá-los em sua relação profunda com o ambiente. Ao contrário da ficção sociologizante, que parte sempre de conceitos gerais como se lidasse com uma vasta equação matemática, Zé Lins reconta as histórias individuais dos moleques, das iaiás, das negras velhas, dos cambiteiros, de todas aquelas pessoas que marcaram sua memória, e, por entender em retrospecto (depois de adulto, depois de muitas leituras) a história social que aconteceu ali, ele consegue partir, como rezam os manuais literários, “do particular para o geral”.

Hoje em dia essa ficção sociologizante, que teve um peso tão grande nas décadas do meio do século passado, está em baixa. Com o afrouxamento das ideologias de esquerda (que em grande parte sobrevivem apenas no meio universitário) os jovens literatos não têm preocupação alguma em “retratar condições sociais”. Não lhes falta assunto porque falam do seu umbigo, que por sinal é mais vasto do que seu vocabulário, então fica tudo em casa. Mas para quem quer ler os autores das gerações precedentes, é preciso entender que a literatura se dava então num outro “horizonte de expectativas” em que Autores, Leitores e Críticos avaliavam os livros de acordo com outros critérios.

Naquele tempo, escritores de esquerda bem-intencionados pretendiam descrever ambientes sociais de acordo com descrições generalizantes como “os intelectuais da pequena burguesia urbana apóiam os operários ms têm que enfrentam o conservadorismo dos camponeses, além do papel ambíguo da Igreja, que se divide entre o assistencialismo e o conformismo...” Munido de generalidades assim, os autores obrigavam os personagem a se comportar de acordo com tais abstrações, e o resultado eram personagem mecânicos, repetitivos. Zé Lins fazia o contrário. Tinha espírito de escritor capaz de desenhar cada árvore individualmente, sem perder de vista o modo como todas elas se juntavam para formar a floresta. Quem começa desenhando a floresta, jamais vai saber fazer uma árvore.

1308) I love America (23.5.2007)




A classe média brasileira experimenta há séculos um imenso movimento migratório mental rumo a outras culturas e outros estilos de vida que ela procura adotar como modelo, para limpar de si a sujeira de brasilidade que a contamina desde o nascimento. Quando o brasileiro começa a ganhar um dinheirinho a mais, toda sua ascensão social se volta para o estrangeiro. No começo do século 19 era Portugal, cem anos depois era a França, hoje em dia são os Estados Unidos. São culturas que imaginamos superiores à nossa: mais antigas, mais nobres, mais eruditas, mais elegantes, mais poderosas...

No caso da cultura norte-americana, sua sedução não é a antiguidade ou a sofisticação, e sim o poder do dinheiro e a superabundância de posses e lazeres que ele proporciona. Abrimos mão de aprender com os americanos algumas coisas positivas que eles têm – o profissionalismo, o respeito aos ofícios braçais e manuais, a simplicidade na linguagem (nosso linguajar acadêmico, um paródia opaca e atravancada do alemão e do francês, teria muito a aprender com a clareza norte-americana), a crença na autonomia e na liberdade individual. Em vez de imitar isto, imitamos o que os americanos têm de mais vulgar: a frivolidade, o consumismo, a passividade mental diante das telecomunicações, o provincianismo que se traduz em desprezo e desinteresse por diferentes culturas e diferentes maneiras de ver.

Quando uma loja brasileira em liquidação coloca um letreiro de “SALE” ou quando uma pizzaria anuncia “DELIVERY” na esquina estão na verdade querendo tornar-se membros de um clube que sempre os rejeitou. Nossos coleguinhas da América do Norte acham que somos plantadores de banana ou trepadores de coqueiro, mas, quem sabe? Talvez, se descobrirem que sabemos usar os termos ingleses com propriedade, percebam que somos seres humanos e civilizados iguais a eles, e facilitem nosso visto de entrada. Talvez, até, ingressos grátis para a Disneyworld – que aqui no Brasil nossa imprensa chama “a Disney”, com aquela pseudo-intimidade de gente inferior querendo se enturmar.

Quem vos diz isto, caros leitores, não é um nacionalista radical, nem um americanófobo. Conheço e amo a cultura norte-americana mais do que grande parte da própria população deles. São um povo grande e admirável. Nós também poderíamos sê-lo, mas preferimos a atitude bajulatória e subalterna de achar que, por serem eles grandes, são a única forma acessível de grandeza. Quem ama a cultura americana como eu amo sabe a dificuldade que eles tiveram para fugir da sombra da Literatura Inglesa, do Teatro Inglês, da Música Européia em geral. Criaram (não sem conflitos, não sem sofrimento) coisas como a ficção científica, o jazz, o filme de faroeste, o romance policial “noir”, as novelas gráficas, o rock, o filme musical. Têm sua linguagem própria, sua visão-do-mundo própria, e devemos admirá-los por isso. Macaquear e adular os outros, e ter vergonha de nossa própria cara, isso jamais.

1307) O moído de Romário (22.5.2007)



“Acabou-se o moído de Romário / e o Gol Mil tá rodando na TV...” Pois é, amigos, em matéria de moído o futebol brasileiro há muito tempo não acompanhava uma novela tão comprida. Domingo passado, um juiz misericordioso apitou um pênalte, entregou metaforicamente a bola a Romário, e disse: “Vamos, cidadão, porque o País está parado há mais de um mês esperando essa bola entrar”. Estou exagerando, claro, mas tudo que cerca o Maior Baixinho do Mundo conduz à metáfora, à hipérbole, à prosopopéia. A bola, entrou, isso é o que conta. (Pelo meu gosto teria sido no Náutico, mas é pedir demais aos Deuses do Futebol).

Os mil gols de Romário reacenderam uma discussão curiosa, a das estatísticas que cercam o futebol. Uma das coisas mais fascinantes do Esporte é o fato de que nele a Humanidade descobriu como juntar dois universos aparentemente inconciliáveis: o Corpo e o Número. Nada mais concreto, palpável, único, individualizado do que o Corpo humano. E nada mais abstrato, imponderável, genérico e universal do que o Número. O Esporte (futebol incluído) é acima de tudo uma arte e uma ciência de utilizar as potencialidades do corpo (força, energia, flexibilidade, agilidade, coordenação motora, rapidez, etc.) para gerar estatísticas comparativas, e através delas estabelecer quem fez melhor e quem fez pior, quem ganhou e quem perdeu. Quando um nadador ganha a medalha de ouro (e o outro a de prata) por uma diferença de centésimos de segundo, isto é uma façanha do Corpo, mas estabelecida no domínio do Número, por um critério que o Corpo não distingue, e somente a Mente e a Máquina podem comprovar.

Romário fez mil gols? Ele e sua equipe dizem que sim, e aí entra a discussão sobre o que é um gol de verdade. Vale jogo amistoso? Vale jogo beneficente? Se eliminássemos esses golzinhos de partidas não-oficiais o Baixinho estaria com pouco mais de 900. O mesmo se diz das contas que atribuem 1.176 gols ao húngaro Puskas em cerca de 1.300 partidas, ou, num resultado ainda mais impressionante, ao craque carioca Friedenreich, das primeiras décadas do século 20, a quem são atribuídos 1.329 gols (bem mais do que os 1.283 de Pelé), mas que, descontados os gols não oficiais, teria marcado 554 gols em 561 jogos.
Parece conversa de sujeito desocupado em balcão de botequim, não é mesmo? As mulheres sentem um soberano desprezo pela categoria “Homem” quando nos vêem entregues a esse tipo de contabilidade. Para elas, o Corpo tem uma existência autônoma em si próprio, sem precisar de números de qualquer espécie. Nós, curiosamente, temos a mania do Número. O Corpo é uma máquina de produzir estatísticas, índices, escores. Só somos capazes de entendê-lo através de tabelas numéricas que descrevem suas performances. Pensando bem, é um milagre que a gente seja capaz de distinguir, sem recurso ao Número, quando um sujeito é um craque e quando é um cabeça-de-bagre.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

1306) A família do rei (20.5.2007)



Um dos quadros mais famosos de Francisco de Goya, sobre cujas gravuras falei recentemente nesta coluna, é aquele em que ele retratou a família do rei Carlos IV da Espanha. Foi uma dessas obras encomendadas que provocam em muitos artistas emoções contraditórias de júbilo e terror. Júbilo porque retratar a família real significa receber dinheiro, honrarias, pensões para familiares carentes, talvez um título de nobreza ou um salário vitalício – para não falar na fama. Terror porque os reis, como os doidos, são imprevisíveis. Tem muito caso por aí de rei que não gostou do retrato e mandou enforcar o retratista.

Vai daí que Goya pode se benzer e acender velas aos céus, porque se alguém retratasse minha família com a mesma sem-cerimônia com que ele retratou a do rei Carlos IV, meu amigo, era um caso para cadafalso em 48 horas. O quadro está no Museu do Prado mas versões digitalizadas podem ser encontradas na Web, como esta aqui: http://tinypic.com/1o1zxd. Os críticos consideram que ele fez um retrato devastador da família real. Fred Licht considera o quadro “uma obra única em sua descrição drástica da bancarrota humana”. Téophile Gautier assim o descreveu: “O padeiro da esquina e sua mulher, depois de ganharem na loteria”. H. W. e Anthony Janson dizem: “Eles parecem uma coleção de fantasmas: as crianças amedrontadas, a imagem embrutecida e balofa do rei, e num golpe de mestre de humor e sarcasmo, a rainha de uma vulgaridade grotesca. (...) Como, é o que nos perguntamos atualmente, a família real tolerou tal coisa? Estariam tão deslumbrados com a pintura esplêndida de seus trajes que não perceberam o que Goya havia feito com eles?”

Parece que não perceberam nada, pois a história registra que ficaram todos muito satisfeitos com o quadro. Principalmente a rainha, um tribufu horroroso, mas à qual o pintor sabiamente conferiu a posição central e mais iluminada da imagem, ressaltando o fato de que quem mandava no reino era mesmo ela. A sensação que nos produzem é a de pessoas vulgares, grosseiras, sem refinamento, o tipo de gente que não compreende uma ironia e que – como todos os ditadores e absolutistas – em caso de dúvida manda queimar tudo e prender todo mundo, porque não sabe distinguir o que é ironia e o que não é.

O quadro tem outros detalhes deliciosos, entre eles o fato de que a mulher do príncipe está de frente mas com o rosto virado para trás. No blog do espanhol “Rothko” (http://www.espacioblog.com/rothko/post/2006/04/16/la-familia-carlos-iv) encontro a informação de que na época ainda não se sabia a identidade da princesa, por isto seu rosto não aparece. E por trás do casal vê-se na penumbra a imagem de um homem de seus cinqüenta anos, meio de lado, como quem está prestes a se ocultar atrás de um enorme cavalete de pintura. É o próprio Goya, numa aparição hitchcockiana, incluindo-se no quadro, mas numa atitude de “não tenho nada a ver com essa turma”.

1305) Os ensaístas (19.5.2007)





(Ilustração: designsbylili.com)

Um típico ensaísta americano, analisando o estilo de um autor, diria algo como: 

“O estilo de John Smith se baseia na ambigüidade das palavras, das frases, e de períodos inteiros”. 

Um típico ensaísta francês diria algo como: 

“O texto de John Smith: devir que nunca se presentifica por completo, existindo em estado de fluxo impalpável, movimento puro, indefinível à observação; matéria coleante, dado mallarmeano em movimento, sempre a apresentar-nos uma face diferente, numa perpétua mutação cuja perpetuidade acaba por se cristalizar em sua fisionomia; seu ser consiste num vir-a-ser incessante”.

Ou seja: de um lado temos um estilo preciso, claro, cujo autor procura pensar longamente sobre o objeto estudado e depois registrar suas impressões da maneira mais direta possível. 

Do outro lado, temos um estilo que parece inventar a si próprio à medida que avança, repetindo as mesmas coisas com palavras diferentes enquanto vasculha os próprios bolsos de onde retira moedas de diferentes nacionalidades e valores.

Tenho para mim que estilos desse tipo crescem contemplando-se uns aos outros, e afirmam-se através da recusa, da dissensão. “Ah, é assim que você faz? Pois é assim que eu não vou fazer”. 

Deve ter havido um momento em que a linguagem oficial do ensaísmo universitário era seca, precisa, direta, assemelhando-se a um informe governamental ou ao relatório de um legista que acabou de dissecar um cadáver. Tudo era muito nítido e preciso. Alguns estudiosos sentiam-se desconfortáveis diante desse cientificismo burocrático, pseudo-objetivo, empobrecedor. 

Começaram a apelar para a literatura. No interior daquele ensaísmo sem nuances começou a brotar um grupo dissidente que escrevia do jeito que pensava: tortuosamente, emocionalmente, esbanjando metáforas e subentendidos, criando um percurso em ziguezague entre quaisquer duas idéias por mais próximas que fossem. Este estilo literário surgiu, na aridez vigente, como um oásis de exuberância, de subjetividade, de calor humano, de sabor estilístico para ser degustado por seus próprios méritos.

Tempo vem, tempo vai, de repente foi esta maneira de escrever que se encastelou na torre de comando. Para ser um ensaísta respeitado, era preciso escrever nessa mistura de cartesianismo conceitual e barroquismo retórico. 

Ao ler estes ensaístas, somos tentados muitas vezes a manter a ponta do indicador esquerdo em cima do sujeito da frase, para não perdê-lo de vista, à espera de que, depois de tantas interpolações, de digressões, de ressalvas parentéticas, possa enfim surgir várias linhas abaixo, como se fosse o troar distante de um trovão que só se faz presente algum tempo depois do relâmpago que o produziu, o respectivo complemento. 

O ensaísmo de alto nível virou um baile setecentista onde vigoram as perucas, os espartilhos, as múltiplas saias, as jaquetas bordadas, e onde é quase um “happening” nudista dizer uma frase curta com começo, meio e fim.




1304) Marinês (18.5.2007)




Durante mais de 50 anos Marinês foi a grande voz feminina do forró. Existem outras cantoras, claro, mas independentemente do seu talento e do seu merecido sucesso, nenhuma delas teve um impacto tão forte e uma presença tão contínua quando a Rainha do Xaxado. Na linha da frente dos grandes forrozeiros, ao lado de gigantes como Jackson, Gonzaga, Dominguinhos, de mulher só tinha ela. 

Num “relise” para seu disco de 1986, Tô Chegando, escrevi: “Estar chegando é um modo de dizer, porque ao longo de 25 anos Marinês sempre esteve na MPB”. A conta era modesta: onde se lê 25 leia-se agora 50, e o sentido fica mais exato. 

Na sua discografia do “Dicionário Cravo Albim On-Line” (http://www.dicionariompb.com.br/), começando em 1957, o único hiato significativo é entre 1988 e 1995 (e mesmo assim a omissão pode ser do saite).

Anos atrás Marinês participou de um show de Elba Ramalho no Canecão, e foi a sensação da noite. Quando as duas cantavam “Amor com Café” de Antonio Barros e Cecéu, a voz de Marinês parecia vir de todas as direções ao mesmo tempo, como se cada mesa tivesse uma caixa-de-som própria. Um grupo de cariocas elegantes sentados na mesa ao lado perguntou: “Meu Deus, onde é que Elba descobriu essa mulher? Como é mesmo o nome dela?” Eu tive vontade de dizer: “Essa mulher vive cantando pelo Brasil afora há cinqüenta anos, vocês é que nunca tiveram a sorte de saber”. 

Todos dependemos do rádio e da TV para saber da existência de um artista. Eu mesmo desconheço milhares de artistas brasileiros em atividade, só porque não aparecem na famigerada “mídia”. Quando eles tiverem 70 anos, nós os ouviremos pela primeira vez e ficaremos admirados: “Como é mesmo o nome dele?”

Vozes potentes como as de Gonzaga e de Marinês surgiram numa época em que as aparelhagens de som eram muito precárias. O cantor muitas vezes era obrigado a cantar “a capella” para uma praça cheia de gente. Na melhor das hipóteses, dispunha de microfones de locutor de rádio, e de amplificação improvisada. 

Daí que muitos cantores tiveram que desenvolver gogó e pulmão para se fazerem ouvir por algumas centenas ou milhares de pessoas ao ar livre. Hoje em dia, qualquer João Gilberto (com todo respeito) sussurra amenidades ao ouvido do microfone e é ouvido por todo o Vale do Anhangabaú. Naquele tempo, meu amigo, quem cantava tinha que cobrir o volume da própria sanfona.

Quando morre um artista, o amor que temos por ele nos leva sempre a achar que ele foi injustiçado, que não obteve todas as honrarias merecidas e todo o sucesso a que tinha direito. Quando George Harrison morreu, um crítico lamentou que ele fosse “o mais obscuro dos Beatles”, como se ser isto fosse pouco. 

Não é arrogância nem ambição, é porque lamentamos que haja gente no mundo que não conheceu aquele talento. Meu consolo egoísta é saber que eu tive este direito. Quando me lembro de Campina Grande, tem sempre um rádio ligado e a voz de Marinês no ar.





1303) K e W na Turquia (17.5.2007)



Existe uma campanha contra a americanização de nossa língua, contra o uso de termos em inglês quando temos equivalentes legítimos em português, e mesmo quando não os temos nada nos impede de criá-los. No futebol, por exemplo, inventamos “escanteio” para substituir “corner”, traduzimos “center-forward” para “centro-avante”, criamos nossos próprios termos – aí estão expressões como “cabeça de área” ou “ponta de lança”. Aportuguesar é apropriar-se culturalmente. Enquanto usarmos os termos ingleses é como se pagássemos royalties simbólicos, reconhecendo que os proprietários daqueles termos e daquelas idéias não somos nós, são os outros.

Radicalizar? Nunca. Palavras como “futebol”, “gol” ou “pênalte” reafirmam a origem. Mas isto são hoje exceções. Meu pai era do tempo em que se dizia: “O juiz marcou um free-kick perto da área”. E olhe que ele era do tipo radical, que dizia; “O inglês é uma língua burra, que escreve five, pronuncia faive, e quer dizer cinco”. Eu já acho que foi um exagero quando a reforma ortográfica fingiu eliminar as letras K, W e Y do nosso alfabeto, porque na verdade não as eliminou. São usadas o tempo todo, todas têm seções próprias nos dicionários, e precisamos explicar aos nossos filhos, na fase da alfabetização, que letras são aquelas que eles vêem por toda parte menos nas cartilhas.

A reforma foi positiva para que possamos escrever quilômetro em vez de kilômetro ou mistério em vez de mysterio. Foi um ganho. E não precisamos fazer como fizeram os turcos há poucos anos. A situação na Turquia é curiosa. Encravado entre a Ásia e a Europa, o país quer fazer parte da União Européia, mas como é de maioria islâmica é olhado com desconfiança. Já em 1928 houve uma reforma substituindo o alfabeto arábico pelo ocidental, mas as letras W e Q não são admitidas. Recentemente, a polícia turca prendeu dezenas de curdos que, nas comemorações do Ano Novo, usavam cartazes com as letras W e Q. Os curdos são uma minoria problemática não apenas na Turquia, mas também no Iraque. São um dos muitos povos sem nação que existem hoje, como os judeus o foram durante séculos. Querem manter sua cultura, suas tradições, e até mesmo sua ortografia, mas como vivem na casa alheia têm que se submeter às leis turcas. O dia era de festa, o pessoal tomou umas e outras, extrapolou, escreveu letras proibidas e cada um pegou uma multa de 75 dólares.

O Brasil chegará a este ponto? O deputado Aldo Rebelo já propôs leis proibindo o uso indiscriminado do inglês. Concordo com os diagnósticos dele (a invasão do inglesismo é de uma subserviência cultural que nos humilha), mas discordo quanto aos métodos. Proibir não adianta. Enquanto nossa classe média tiver esse complexo de inferioridade por não ser igual aos seus ídolos norte-americanos (sejam eles os cowboys motorizados do Texas ou as madames recauchutadas de Miami), não adianta proibir. O problema é a falta de personalidade dos próprios brasileiros.