quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

0706) O patriotismo do gueto (23.6.2005)




(A pátria de Asterix)

Alguém famoso já disse que o patriotismo é o derradeiro refúgio de um canalha. A frase é meio forte, porque conheço muita gente patriota e sincera. Mas a verdade é que costuma-se invocar o patriotismo quando se trata de fazer sacrifícios pessoais (tipo pagar impostos ou ir para a guerra) em nome de uma entidade geográfica qualquer. 

Se alguém me gritasse: “O Brasil foi invadido! Tome aqui um fuzil e uma farda!” eu diria: “Meu amigo! Eu não tenho jeito para essas coisas, mas se precisarem de alguém pra compor um hino guerreiro, é comigo mesmo!”.

Existem dois tipos de patriotismo, aos quais eu chamo de “patriotismo Júlio César” e “patriotismo Asterix”. 

O patriotismo à la Júlio César é o patriotismo arrogante, expansionista, conquistador. Amo meu país porque é o maior país do mundo, o mais bonito, o mais livre, o mais rico, o mais forte, o mais cheio de qualidades, e estou disposto a ajudá-lo nessa difícil missão de sair invadindo os países discordantes e libertando-os para que fiquem iguaizinhos a nós.

O patriotismo à la Asterix é o daqueles caras que moram num lugarejo e têm milhares de reclamações e críticas à geografia do lugarejo, à administração pública, à flora e à fauna, aos hábitos sócio-culturais, mas ao primeiro sinal de que um país de fora está querendo anexar o lugarejo, os caras bufam de raiva e vão à guerra armados de ancinhos, enxadas, foices e (para as damas) rolos de amassar pastel e cabos de vassoura. Não se iludem nem um pouco quanto às virtudes e qualidades do lugarejo onde vivem, mas lutarão até a morte para terem o direito de resolverem eles próprios os seus problemas.

Nosso patriotismo brasileiro é contaminado pela retórica vazia e pelos exageros hipócritas dos políticos, mas os poetas têm também sua culpa no cartório. Olavo Bilac, um dos maiores que tivemos, perpetrou aquele famoso poema demagógico (“Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste...”) onde nos convoca para amar a vegetação brasileira. 

Este patriotismo de livro escolar com Hino Nacional e hasteamento da bandeira teve, no entanto, seu lado positivo. Foi capaz de fixar na mentes de gerações sucessivas a importância desta ficção geopolítica chamada “Brasil”, e bem ou mal precisamos dela, não porque corresponda a uma visão muito profunda da realidade, mas porque temos ficções concorrentes batendo à nossa porta, doidas para tomar o lugar da que herdamos de nossos avós.

Pátrias são ficções. São conceitos úteis, desde que não se transformem em símbolos absolutos. 

As pátrias não têm amor maternal por nós. O Brasil não é uma mãe mamífera cuidando de nós, seus filhotinhos travessos. É uma convenção geopolítica onde grupos de indivíduos se alternam no comando do Poder. E não me refiro ao Governo eleito: o Poder é algo mais amplo, mais disseminado e mais inoperável do que o Palácio do Planalto. 

Guardem o patriotismo para o Planeta Terra, colegas. Tudo que for menor que ele é gangue de bairro.





0705) Michael Jackson é inocente (22.6.2005)



Na mesma semana em que Mike Tyson sofria um melancólico e humilhante nocaute em sua mais recente tentativa de retorno ao ringue, Michael Jackson foi absolvido da acusação de pedofilia. Fiquei tão surpreso com este resultado quanto a maioria das pessoas, mas me parece óbvio que Jackson é um cara de 46 anos com o intelecto e a sexualidade de um cara de dez. Não é um desses pedófilos frios e cruéis que se deleitam violando crianças: é uma criança ele próprio, encalhado num pequeno círculo de perversõezinhas de descoberta genital, mescladas com ternura infantil e narcisismo. Como diria Olavo Bilac, Jackson não é bom nem é mau: é triste e humano.

A absolvição, pelo que andei lendo na imprensa, se deu basicamente porque o promotor Thomas Sneddon foi com muita sede ao pote. Muitas das testemunhas da acusação acabaram dando depoimentos a favor de Jackson, às mãos do advogado de defesa Thomas Mesereau. E acima de tudo o garoto apontado como vítima e sua mãe foram vistos pelo júri como pessoas muito pouco confiáveis. A mãe, em especial, parece ter um longo histórico de tentativas de extorquir dinheiro de gente famosa. É uma tática muito comum no show-business e atividades parecidas: as pessoas conseguem acesso ao Famoso, paparicam, adulam, tornam-se íntimas, e daí a pouco aparecem grávidas, ou pegam uma briga e deflagram um processo por maus tratos, ou caem fora e escrevem um best-seller escandaloso revelando detalhes íntimos do Famoso. O mundo está cheio de gente que topa tudo por dinheiro.

Acontece que o promotor Sneddon pôs o carro adiante dos bois, na sua impaciência em condenar o cantor. Dele, disse Michael Walsh no saite “World Socialist”: “Na brutalidade demonstrada por Sneddon é possível ver em microcosmo todo o caráter da elite governante norte-americana: ignorante, irresponsável, rancorosa, perseguindo sem descanso qualquer pessoa que pareça encarnar a oposição ou a contracultura. Por que Jackson estava, de fato, sendo processado? Porque seu estilo de vida é diferente, e até bizarro; porque é visto como gay; e porque é negro”. Ocorreu o mesmo que no caso O. J. Simpson, um caso onde a condenação parecia certa, mas a polícia cometeu tantos absurdos na manipulação das provas materiais (na impaciência de condenar o Negro Famoso) que desmoralizou-se a si própria.

Jackson é um personagem trágico que parece criado numa parceria entre Shakespeare e Andy Warhol. Seu rosto de caveira, coberto por uma pele esticada e amarelecida, lembra o da múmia de Tutancamon, o faraó-menino. Emocionalmente arrasado, cheio de dívidas, isolado do mundo real por numa ilha-da-fantasia auto-imposta, parece rumar para uma decadência irremediável. Uma pena para quem o viu na época de “Beat it” ou “Billy Jean”. Sua absolvição neste processo foi uma simples trégua. Espero estar errado, mas acho que seus inimigos ainda o destruirão, e com munição fornecida por ele próprio.

0704) Destampou a caçarola (21.6.2005)


(o deputado Roberto Jefferson)

Meu vôo para o Rio fez escala em Brasília no dia em que o Deputado Roberto Jefferson prestou depoimento na Comissão de Ética da Câmara. Tivemos quase duas horas de atraso. O piloto avisou que havia mais de 15 aviões à nossa frente na lista de decolagem, e um engraçadinho lá atrás comentou: “É o pessoal do PT abandonando o barco”. Depois, outro engraçadinho comentou que de agora em diante a palavra “corruto” tem que se escrever “corrupto”, porque o PT não pode ficar de fora. E quem está divulgando estas graçolas? Eu, que voto no PT há mais de vinte anos (com ocasionais puladas-da-cerca em benefício do PSDB).

A defesa da honestidade e da ética, que o PT sempre ergueu como bandeira, foram uma pedra no sapato de muitos políticos salafrários. Esse discurso ético, se repetido com a devida insistência, acaba incomodando indivíduos que passam a vida toda mergulhados no toma-lá-dá-cá dos favores por baixo do pano, das comissões de 10%, das concorrências fajutas, das sobras do caixa de campanha, das falcatruas que todo mundo sabe e finge que não vê. Eles não ligam a mínima para honestidade. Só ficam irritados porque percebem que aqueles comunistas metidos a besta acham-se superiores a eles. E, como é sabido, o ideal do desonesto é propagar a noção de que todo mundo é desonesto. Quanto mais esta idéia se espalha, mais ele se sente acobertado e autorizado a ir em frente.

O que tem acontecido em certos setores do poder em Brasília me parece aquelas histórias em que numa turma de amigos tem um que não bebe, não fuma, não joga e não freqüenta a Zona. Na primeira chance que têm, os amigos embebedam o cara e o levam para o Cabaré de Zefa, encorajando-o a todas as patifarias. No dia seguinte, mostram-lhe as fotos: “Tá vendo, camarada? Você não é melhor do que ninguém. Você é igual à gente”.

O PT tem nobres intenções e inevitáveis defeitos; o mais recente deles é ter chegado ao Poder. No Poder, o sujeito percebe mais do que nunca que vive entre feras, e sente uma augustiana “necessidade de também ser fera”. O pessoal do PT traz consigo aquela flama incorruptível de uma esquerda que se criou lendo Gorki e Maiakóvski. Um idealismo humanista, baseado na crença (talvez ingênua) de que os seres humanos são fundamentalmente bons.

Acontece que, em política, ninguém é mais honesto do que os aliados que arranja. Fazer alianças é (para usar uma oportuna e reveladora metáfora do presidente Lula) passar um cheque em branco. Tudo que o aliado fizer, estamos assinando embaixo. E no Brasil ninguém governa se não se aliar com a Direita. Não a Direita nazistóide dos integralistas ou da TFP: mas a Direita anti-ideológica que há séculos se dedica à atividade predatória de enriquecer por todos os meios disponíveis. O Brasil é governado há 500 anos por gente que topa tudo por dinheiro, e que sussurra sem parar no ouvido de cada recém-chegado ao Palácio: “Deixa disso. Você é igual à gente”.

0703) Lugares Sagrados (19.6.2005)


(Gruta de Lourdes)

Ouvimos isto com freqüência: existem lugares sagrados, lugares onde há séculos se praticam rituais, peregrinações ou cultos, e que estes lugares encerram em si um tipo especial de energia psíquica. Estão, por assim, dizer encharcados de emoção humana , dos resíduos emocionais dos milhões de pessoas que por ali passaram – mas não “passaram”, simplesmente como quem passa por uma estação do metro. Vieram até ali com a finalidade de viver ali uma das experiências mais intensas e profundas de suas vidas; e isto deixa marcas. Eu acho tudo isto plausível, quando penso em lugares como a Gruta de Lourdes, como o Juazeiro do Padre Cícero, como Stonehenge, como o Caminho de São Tiago, como a Capela Sistina.

Os que acreditam no sobrenatural postulam a existência de um “campo psíquico” ou coisa parecida onde essa energia fica acumulada, ou pelos menos resíduos dela. Acho meio fácil póstular a existência de coisas cuja existência não podemos provar. Até indícios em contrário, o Sobrenatural e o Espiritual são para mim criações literárias: coisas que inventamos por conta própria porque convém à nossa imaginação e às nossas crenças, e se passamos a acreditar na sua existência é problema nosso.

Eu proponho uma outra maneira de ver a questão. Não existe nenhum “éter” ou “plano espiritual” onde essa energia emocional se acumula. Existe, contudo, um campo material onde a existência dela pode ser facilmente detectada, medida, pesada, manipulada por estatísticas e descrita pelas fórmulas tão ao gosto dos materialistas da Ciência. Esse campo é o da Cultura. Cultura entendida no sentido de pensamentos compartilhados, de idéias coletivamente formadas e usufruídas, de manipulação sensorial (através de palavras, sons, imagens fixas ou em movimento) das idéias e emoções. O verdadeiro “campo psíquico” que dá significação aos Lugares Sagrados não está no mundo do espírito, e sim no mundo das preces, das lendas, das histórias, das fotografias, das estatuetas, dos filmes, dos documentários, dos livros, dos souvenirs, das relíquias, de todos os objetos materiais que nos evocam um lugar de adoração (seja a Basílica de Nossa Senhora Aparecida, seja a Kaaba de Meca, seja o Santo Sepulcro) e imediatamente despertam em nossa memória uma gigantesca cadeia de associações de idéias, com tudo que nossa Cultura nos injetou sobre aquele assunto, ao longo da toda a vida.

A energia psíquica dos Lugares Sagrados não está acumulada neles, e sim nas imagens deles que circulam aos milhões pelo mundo afora. É a energia emocional despertada num cristão pela simples visão de uma foto da Gruta de Fátima ou da Praça de São Pedro. Quando ele tem a chance de ir pessoalmente a estes lugares, sua emoção se intensifica, e ele pensa que é porque existe “uma energia pairando no ar”. A energia paira, sim, e muito forte: mas paira em toda a estrutura profana que deve sua existência a essa crença no sagrado. Por favor, não me chamem de cínico se eu afirmar que a maior prova da existência do mundo espiritual são os bilhões de dólares que ele movimenta por ano.

0702) A flor de Feynman (18.6.2005)



Um dos clichês mais irritantes que vejo por aí é quando alguém diz que os cientistas são indivíduos frios, objetivos, sem sensibilidade e sem emoções. “Como?! O sr. é químico, e gosta de música clássica? Mas que coisa surpreendente!” Alguém que diga coisas desse tipo perde algumas centenas de pontos em meu conceito. Um dos meus heróis no mundo da ciência é Richard Feynman, que ganhou um Prêmio Nobel de Física, e foi um dos indivíduos mais inteligentes, informais e irreverentes que a ciência americana já produziu. Recomendo com insistência sua autobiografia, Surely you’re joking, Mr. Feynman!, da qual há uma tradução portuguesa, Certamente está a brincar, Sr. Feynman! O título tem tudo a ver com o personagem. Feynman costumava dizer ou fazer coisas que chocavam, escandalizavam ou deixavam perplexas as pessoas; coisas que num primeiro instante pareciam absurdas. E que depois, bem examinadas, mostravam ser verdades límpidas, lógicas, irretorquíveis.

Falei no Prêmio Nobel para não pensarem que Feynman era um maluco-beleza, porque em seu livro ele conta como andava de quatro pelo tapete para descobrir se farejava tão bem quanto um cachorro, ou como, quando estudava em Princeton, passava dias examinando o comportamento das formigas para saber como elas tomavam decisões. Ou como fazia cálculos de cabeça que deixavam espantados os colegas, usando truques simples de substituição; ou como desenvolveu uma técnica própria para descobrir a combinação de um cofre. Feynman morou no Brasil e tocou tamborim numa escola de samba, mas... esta é outra história.

Em outro livro, The Pleasure of Finding Things Out: The Meaning of it All, Feynman se queixa de um amigo seu, artista, que diz: “Vocês cientistas não sabem entender a beleza de uma flor: vocês pegam a flor e separam parte por parte, até ela perder a graça”. Ele diz: “Ora, tudo que outras pessoas vêem numa flor eu também vejo, mas vejo muito mais. Eu posso imaginar as estruturas das células lá dentro, e ver como são bonitas. A flor tem beleza numa escala de centímetros, mas também numa escala muitíssimo menor. O fato de que a flor é capaz de desenvolver cores para atrair insetos também é interessante. Isto quer dizer que os insetos enxergam as cores. Será que eles têm também um senso estético? Como se vê, o conhecimento científico só faz aumentar a beleza e o mistério das coisas, não vejo como possa diminuí-lo”.

Eu me arrisco a dizer a Feynman que ele talvez não tenha percebido que grande parte das pessoas que elogia a beleza não se interessa por ela. Gostam das flores e dos crepúsculos como um enfeite para seu lazer, como algo que está ali com a função de proporcionar-lhes deleite. Grande parte da apreciação estética não tem nada dessa curiosidade desinteressada de Feynman. É apenas uma fruição egoísta de um prazer socialmente encorajado. Um sujeito só acha mesmo que uma flor é bonita no instante em que admitir que a flor é tão importante quanto ele.


terça-feira, 30 de dezembro de 2008

0701) O Raio da Silibrina (17.6.2005)



Me perguntam tanto que resolvi escrever um artigo encerrando esta questão de uma vez por todas. Quando alguém vier me perguntar: “Mas o que diabo quer dizer O Raio da Silibrina?...”, atacho o presente texto e estamos conversados.

Este termo surgiu para mim na infância. Tia Anunciada (que chamávamos Tia Nunum), minha tia mais jovem pelo lado materno, estava passando férias lá em casa. Meus pais foram ao cinema ou a um jantar, e ela juntou os sobrinhos para inventar uma travessura. Preparamos um boneco sentado no sofá da sala: um terno velho de meu pai, recheado de jornais amassados, sapatos, uma máscara de carnaval na cara, um chapéu, um copo na mão. Parecia uma pessoa de verdade. Como remate final, ela pendurou-lhe no pescoço um papel onde escreveu: “O Raio da Silibrina”. Quando meus pais chegaram e acenderam a luz da sala, tiveram um susto, e a gente morreu de rir.

Usei esse nome para batizar um personagem duma peça minha, com canções e tudo: Trupizupe, o Raio da Silibrina. Aí, já fiz uma mistura com o termo “trupizupe”, que é um dos diabos chamados para enfrentar Lampião no folheto de José Pacheco A Chegada de Lampião no Inferno. A música com o mesmo título acabou ficando conhecida, e alguém me disse que a origem do nome “silibrina” era um tipo de farol de carro que existia antigamente, “Sealed Beam”, que significa mais ou menos “brilho selado”, ou “farol blindado”. Quando um carro com este tipo de farol aparecia ao longe, de noite, nas estradas do interior, o raio de luz se via a quilômetros de distância, e os matutos diziam: “Eita, olha só o Rai do Silibim!” E aí ficou. Na década de 1960 houve um grupo de rock paulista, só de mulheres (acho que eram Rita Lee, Lúcia Turnbull, essa turma) que se chamava “As Cilibrinas”, o que levantou a interessante questão da grafia do nome – que continuo a preferir com “S”.

Recentemente minha irmã Clotilde levantou a questão mais uma vez, lembrando a lendária figura da “Sibila de Cuma”, uma daquelas pitonisas gregas que adivinhavam o futuro, e cuja história é contada num livro com o título “Oracula Sybyllina”. Pode ser mera coincidência que isto lembre o som de “O Raio da Silibrina”, mas é de se ficar pensando, devido aos pendores místicos, transcendentais, proféticos e ininteligíveis de ambas as entidades.

Em todo caso, devemos lembrar que no linguajar popular paraibano a expressão “o raio da silibrina” é aparentada a “o cão chupando pena”, “o cão chupando manga”, e semelhantes. Quando Ronaldinho Gaúcho arranca da intermediária, passa um pitu em três zagueiros e encaçapa a bola na gaveta de cima, a torcida brada: “Eita, que o cába hoje tá o raio da silibrina!” -- ou, em mais uma expressão equivalente, “tá virado num traque”.

Quanto a mim, prefiro considerar que se trata de uma operação fonético-numerológica, uma conta de somar com letras em vez de números: “SILIBRINA = sabedoria + livraria + adrenalina”. E estamos conversados.

0700) A prova do crime (16.6.2005)


Num crime recente em Nova York, um Blog na Internet ajudou a resolver um assassinato. Simon Ng era um rapaz de ascendência chinesa que morava num apartamento no bairro de Queens com sua irmã Sharon. Em 12 de maio, o namorado de Sharon ligou para a casa dela, e ela atendeu o telefone dizendo que estava ferida, e que ele pedisse ajuda depressa; não disse quem a tinha atacado. O rapaz chamou a polícia, mas quando esta chegou tanto Sharon quanto Simon estavam mortos, esfaqueados.

A polícia revistou a casa à procura de pistas, e acabou ligando o computador do rapaz (que ficava no quarto, no andar de cima). E encontrou no Blog dele, na Internet, uma última anotação datada das 5 horas da tarde em que o crime foi cometido. Dizia ele: “Ainda há pouco, às 3 horas, tocaram a campainha, e era o chato do Jin Lin, ex-namorado de Sharon, que pediu para ficar esperando por ela. Agora o cara está lá embaixo, fumando e andando de um lado para o outro, e eu não estou gostando nada disso”. Procurado pela polícia, Jin Lin negou que tivesse ido à casa das vítimas. Mas é aquela coisa – bastaram um apertinho e o testemunho da vítima para ele admitir que esperou a moça chegar, brigaram, e ele acabou matando os dois.

Vi a história no jornal e fui lá no Blog do cara (quem quiser conferir, é em: http://www.xanga.com/item.aspx?user=ToTo247&tab=weblogs&uid=261268578). Por ser um caso real, é comovente você ler as últimas palavras que um sujeito de 19 anos escreveu poucos minutos antes de ser morto a facadas. Quando olhei hoje no Blog, havia 255 comentários a este derradeiro “post” do garoto, a maior parte deles com mensagens de “R.I.P.” (Descanse em Paz).

Já falei aqui sobre o que Kurt Vonnegut Jr. chama de “wampeters”, objetos que tornam-se o ponto focal da atenção e das emoções de pessoas que não se conhecem entre si. A Internet pode fabricar essas coisas da noite para o dia, pela multiplicidade e instantaneidade das conexões (em forma de email e de chats). Pode também criar situações imaginárias e ver como as pessoas reagem a elas; fazer uma espécie de laboratório sociológico ao vivo e em tempo real, para avaliar tendências de idéias e de comportamento.

Alguns anos atrás, alguém me mandou uma URL indicando uma notícia num jornal americano sobre um viajante do Tempo que tinha sido preso pela polícia em Nova York. Fui lá, vi as fotos, li a matéria: o sujeito tinha vindo numa máquina do tempo e estava deixando a polícia perplexa com uma série de pequenas predições sobre fatos irrelevantes, que provavam sem sombra de dúvida que ele sabia o que ia acontecer nos dias seguintes a sua prisão. Pulei para umas três homepages diferentes, mandei o endereço para alguns amigos, até que de repente parei – e pensei: “Rapaz, tu tás ficando maluco? Viajante no Tempo?!” Durante meia-hora, o poder da Internet me convenceu. (O fato de eu já ter lido mil livros sobre viagens no Tempo deve ter ajudado um pouco)

0699) Deuses Americanos (15.6.2005)



Recomendo a quem gosta de literatura fantástica o romance de Neil Gaiman Deuses Americanos, lançado recentemente pela Conrad Editora. Gaiman é mais conhecido como roteirista da série de quadrinhos Sandman, mas de dez anos para cá tem publicados vários romances. Coraline, uma história de terror para crianças, é muito bom. Este American Gods também. A premissa do livro é que os antigos deuses e criaturas mitológicas européias se transportaram para a América do Norte durante a colonização, mas estão decadentes e sem poder. Eles andam pelas ruas, transformados em pessoas de carne e osso; têm uma enorme longevidade, mas podem morrer, tanto de morte-morrida quanto de morte-matada. E estão travando uma batalha feroz contra os Novos Deuses: os deuses da Mídia Ambiente, ou seja, da publicidade, do cinema, da TV, etc.

Gaiman é um escritor fluente e ótimo contador de histórias. Uma espécie de Stephen King sem a morbidez doentia que King muitas vezes tem, uma vontade de espremer até o fim o suco de terror e repulsa que uma cena pode fornecer. Gaiman oferece uma boa quantidade de imagens arrepiantes, mas concede apenas uma dúzia de linhas a elas, não mais, e segue em frente – o que me parece literariamente mais eficaz. O livro conta a história de Shadow, um sujeito que ao sair da prisão depois de uma pena leve por assalto vê sua vida familiar destruída e logo depois é contratado como guarda-costas de um sujeito que parece ter poderes sobrenaturais e está sendo perseguido por mafiosos igualmente estranhos.

A humanização dos deuses nórdicos, eslavos, africanos, etc. é um dos aspectos mais interessantes do livro, porque o autor consegue nos dar a idéia de que esses personagens têm poderes imensos e ao mesmo tempo são tão frágeis, complicados e indefesos quanto nós. Eles podem muita coisas que não podemos; mas não podem tudo. Eles também têm que “ir à luta”, têm que “batalhar pelo seu espaço”, etc. O mundo sobrenatural é tão competitivo quanto um escritório ou um mercado financeiro. Gaiman (que é inglês) tem um olho crítico muito arguto para certos aspectos da vida americana: os museus e atrações surrealistas de beira-de-estrada, a cidadezinha pacífica mas cheia de terrores sob a superfície ao estilo Twin Peaks, os golpes e falcatruas dos vigaristas profissionais. Tudo isto é misturado à narrativa sobrenatural com a mesma eficiência de um Tim Powers.

Cultura pop e mitologia milenar são duas galáxias em lenta colisão nos últimos cem anos da Literatura. São dois universos que à primeira vista não têm nada a ver um com o outro, mas que são gerados pelo mesmo impulso humano: o de fantasiar, criar um panteão imaginário de seres excepcionais, que nos servem de espelho, modelo, farol, alerta ou ameaça. O livro de Gaiman deveria interessar a quem gosta de ler sobre mitos. É o mesmo universo de Câmara Cascudo, Joseph Campbell, Mircea Eliade, J. G. Frazer, Umberto Eco (cultura medieval + cultura de massas).









0698) O gangsterismo musical (14.6.2005)



A palavra “gangster” nos evoca, por associação fílmica de idéias, a imagem de um sujeito de sobretudo empunhando uma metralhadora e executando desafetos à luz do dia. “Gang”, no entanto, significa quadrilha, e um gangster é qualquer sujeito que forma uma quadrilha, ou seja, reúne um grupo de pessoas para a prática de atos contra a lei. Em alguns casos, são bandidos que executam rivais à luz do dia (embora com um AR-15 em vez de metralhadora, e T-Shirt em vez de sobretudo). Em outros casos, os gangsters são sujeitos normais como eu e você, não usam armas, são incapazes de fazer mal a uma mosca, são bons maridos e bons pais, excelentes companheiros numa mesa de bar ou restaurante – mas fazem parte de um grupo que pratica atos contra a lei e contra o interesse público.

No mundo da música as opções para se tornar um gangster são muitas e variadas, como em qualquer atividade que produza rios de dinheiro, mordomias, notoriedade, capa de revista, rosto na TV. Não é segredo para ninguém que as multinacionais do disco investiram rios de dinheiro no país, e para cada amazonas investido receberam de volta um oceano-atlântico. Como a fórmula-um das multinacionais é uma disputa ferrenha pela pole-position, pela liderança da corrida, pelo podium no domingo e pelo título no fim do ano, as empresas recorrem a todos os artifícios, legais ou ilegais, para se manterem no topo. Ou, no jargão delas, “otimizar custos e maximizar resultados”.

Todo mundo sabe que no Brasil existe o “jabá”, a propina ou suborno que é paga às emissoras de rádio e aos titulares de programas, para que as músicas A e B sejam executadas e as músicas X e Y não toquem de jeito nenhum. É uma queda-de-braço entre empresas, onde o subornado faz leilão entre os subornadores para ver quem lhe paga melhor, em dinheiro ou favores. Num ambiente onde esta situação predomina, a disputa mais importante não é entre música estrangeira e música nacional, e sim entre música economicamente imposta e música livremente escolhida. Promulgar leis obrigando a tocar música brasileira nas rádios significa apenas que os gangsters, em vez de pagarem para que se toque um cantor americano de seu catálogo, vão pagar para que se toque um cantor brasileiro do mesmo catálogo.

O grande problema disto é que ter uma programa de música numa rádio tornou-se uma atividade muito lucrativa, devido ao jabá, e vai ser difícil convencer essas pessoas a abrirem mão do “depósito em conta”, da “verba de divulgação”, do contracheque por “serviços prestados”, dos convites para congressos com-tudo-pago, das mordomias, dos camarotes por conta da produção, dos presentes de fim de ano, e outros desfrutes de que já ouvi falar mas recuso-me a crer. O grande problemas das leis é que elas só existem para os que concordam em cumpri-las. Os que não concordam passam na frente deles, fazem o que querem, enchem os bolsos de dinheiro, e são quem manda de fato na história da música popular brasileira.

0697) O fim dos EUA (12.6.2005)




Como será que vai acontecer o fim dos Estados Unidos da América? Não digo que seja para breve, e é bem possível que não ocorra no meu tempo de vida, mas acho que vai acontecer com nossos sorridentes irmãos do Norte o mesmo que aconteceu com a União Soviética, a Iugoslávia, a Tchecoslováquia e outros países que, no meu tempo de estudante, eram tão reais (e pareciam tão para-sempre) quanto o Brasil. 

Quebrar os EUA em pedaços não vai ser fácil, e na verdade a metáfora está incorreta, pois não é alguém de fora que vai fazer-lhe isto: é a própria erosão interna que irá fazê-lo esboroar-se como um dente cariado.

Os países não são eternos. Cem anos atrás, quem mandava no mundo era o Império britânico “onde o sol nunca se punha”, ou seja qualquer parte do globo iluminada pelo sol tinha território pertencente aos bisavós do Príncipe Charles. Por isso o nariz dos ingleses ainda se ergue tão alto. 

Hoje, só resta o país-mãe (a própria Inglaterra), e algumas tias velhas que moram na vizinhança: a Escócia, a Irlanda, o País de Gales, etc. E assim passa a glória do mundo.

Países com nome coletivo, nome agregativo, estes me parecem os mais fáceis de desmanchar, porque nunca chegaram a uma síntese final, a uma fusão definitiva. Do ponto de vista químico, diríamos que os EUA não são uma solução, são uma mistura, que se reflete no próprio nome. 

Quando se diz que aqueles são alguns Estados que se uniram, continua a haver algo de provisório nessa união, como se os Estados pudessem se ver desunidos assim que fossem modificadas as condições iniciais de temperatura e pressão.

Philip K. Dick, em O Homem do Castelo Alto imaginou os EUA tendo perdido a II Guerra Mundial, e sendo dividido entre os alemães (que ocuparam a Costa Leste pelo Atlântico) e os japoneses (que ocuparam a Costa Oeste via Pacífico). 

Eu imagino que quando um dia torar-a-viga-do-meio, inviabilizando a possibilidade de um Governo central (digamos: um colapso total e simultâneo da economia e das telecomunicações, coisa mais fácil de ocorrer do que vocês imaginam) os Estados irão se agrupar por critérios de proximidade geográfica e de vínculos históricos e culturais.

Um país ao Nordeste, pegando toda a Nova Inglaterra, região dos lagos até Chicago, englobando New York e Washington. 

Outro a Sudeste, pegando das Carolinas à Flórida, e daí a Oeste com todo o país do “blues” (Mississipi, Louisiana, etc.). 

Tenho pra mim que o Texas será um país à parte, fechado em si mesmo, defendendo-se contra as hordas de mexicanos que começarão a penetrar pelo buraco onde ficam hoje o Novo México e o Arizona. 

E a Costa Leste será o local dos Estados Unidos da Califórnia ou coisa parecida. 

Não é viagem minha, colegas. A ficção científica americana vem trabalhando com cenários assim há décadas. A questão não é adivinhar exatamente como vai ser. É saber que pode acontecer, e que, num certo sentido, já começou.