quinta-feira, 17 de julho de 2008

0450) Cuidado com os robôs (28.8.2004)



No mesmo dia em que assisti Eu, Robô de Alex Proyas liguei a TV à noite e um canal a cabo estava exibindo Minority Report de Spielberg. Por alguns instantes tive a sensação de estar revendo o filme anterior. A mesma metrópole futurista, prédios com aquela mesma textura mista de alumínio, vidro fumê e filtros óticos. Os mesmos carros reluzentes executando deslocamentos imprevistos. Os mesmos interiores assépticos, cheios de vidros e acrílicos. O mesmo protagonista problemático: um policial divorciado, com uma tragédia no passado, às turras com a corporação a que pertence, e forçado a agir contra a lei para desmascarar uma conspiração.

Seria injustiça dizer que o filme copia de uma só fonte. A primeira saída de Spooner (Will Smith) à rua não é menos do que um pastiche diurno das caminhadas de Rick Deckard em Blade Runner; até a cena da perseguição ao robô que parece ter roubado uma bolsa lembra Deckard perseguindo a andróide Zora (Joanna Cassidy). Os dois caminhões fechando o carro de Spooner no “minhocão” futurista parece uma tentativa de “pagar” a cena da perseguição dos carros em Matrix 2. O robô Sonny fala com o mesmo tom expectante e aveludado da voz do computador Hal 9000 de 2001, uma Odisséia no Espaço. A multiplicação final do exército de monstros idênticos lembra a horda de nosferatus calvos em Dark City, com a atenuante de que este filme foi dirigido pelo próprio Proyas.

Os filmes ficam cada vez mais parecidos porque sempre que um “produto” (é assim que os estúdios os chamam) obtém uma “boa resposta de mercado” os concorrentes, os colegas e os imitadores profissionais passam um pente fino nele, tentando descobrir o que o fez dar certo, e de que maneira é possível reproduzir esse mecanismo. Tais filmes são concebidos exatamente como se concebe um robô: analisando um aspecto do corpo humano (visão, audição, movimento, etc.) e tentando construir uma engenhoca que o reproduza.

Gostei de algumas coisas no filme de Prohyas. Não há uma só novidade, nem mesmo nos efeitos, que pelo menos para mim são um mero refinamento do que já vem sendo realizado. Em termos de roteiro, é banal, consegue ser mais banal até do que as histórias originais de Asimov, cujos “plots” sempre padeceram de um certo ar mecânico, com tudo planejado e raríssimas surpresas. Gostei, por exemplo, do comportamento insetóide dos robôs, que individualmente parecem delicados e até femininos como um computador Macintosh, mas em grupo assumem um ar de malignidade coletiva – e que lembra, em alguns momentos, a famosa cena do combate dos esqueletos de Ray Harryhausen no clássico Jasão e os Argonautas (1963). É mais perturbador ainda porque reconhecemos, nos seus movimentos, a mesma cadência de movimentos que vemos na maioria das computações gráficas. É como se eles fossem reais. Como se estivessem invadindo vários filmes ao mesmo tempo. Como se tivessem vindo para ficar.

0449) O ovo olímpico (27.8.2004)



Brasileiro adora contar com o ovo no asterisco da galinha. Ainda mais quando se trata da galinha-dos-ovos-de-ouro da glória olímpica. É engraçado comparar a empáfia brasileira com a empáfia norte-americana. Os nossos simpáticos irmãos do Norte se acham os donos do mundo em qualquer coisa. O campeonato de beisebol deles é chamado de “World Series”, mas tudo bem – afinal, quantos países jogam beisebol além dos EUA, Cuba e Japão? Faz um pouco de sentido. Não faz é no basquetebol. O nível da NBA americana pode ser impressionante, mas fora dos EUA sempre existiram escolas de basquete respeitadíssimas. Não importa: me lembro de que um dia desembarquei em Chicago e vi o aeroporto de Ohare totalmente decorado com faixas dizendo: “Saudamos os Campeões do Mundo!” Era o Chicago Bulls que tinha acabado de conquistar o campeonato americano.

O Brasil é o contrário. Tirando o bendito futebol, que anda numa fase boa (duas Copas e um vice nos últimos 10 anos), os vôleis e alguns esportes aquáticos, estamos entre os melhores em que, mesmo? Note a sutileza, leitor: não falei “somos os melhores”, e sim “estamos entre os melhores”, o que na minha modesta opinião exprime muito melhor a realidade do esporte. Ninguém “é o melhor” em coisa nenhuma. No esporte, o que existe é uma espécie de grupo de elite que vai de dois ou três até uma dúzia de competidores, todos mais ou menos num mesmo nível. Os resultados se decidem por detalhes: preparação técnica e física, inovações táticas, nervos no lugar, etc. Sem falar no Sobrenatural de Almeida, o personagem criado por Nelson Rodrigues, e que melhor traduz o elemento imponderável e imprevisível que tantas vezes decide uma competição.

O engraçado é que quando se trata da honra da pátria brasileira, parece que até o Sobrenatural de Almeida é barrado na porta. Vi numa TV, semana passada, o locutor anunciando eufórico: “E não percam, na próxima segunda-feira, a transmissão do ouro olímpico de Daiane dos Santos!” Pobre de Daiane, que treina 7 horas por dia. Parecia ser ela a única a saber que ao trilar do apito tudo é zerado, e você tem alguns segundos para tentar a perfeição pela milésima vez. De nada adiantam os resultados anteriores. Na véspera da final, ela disse: “Treinei, repassei a série toda, o joelho não doeu, estou bem. Agora, quando for na hora tem que sair tudo certo.”

Certa vez Zico comentou um fracasso da nossa Seleção: “Parece que eles não foram disputar uma medalha, foram buscar uma medalha.” Daiane foi disputar. Tinha vencido cinco competições seguidas, mas isto nunca garante que alguém vencerá a sexta. Resultados não se acumulam. O que se acumula (e é patético termos que reconhecer isto) é o nosso complexo de inferioridade de terceiro-mundistas, sempre esperando o salvador-da-pátria que vingue todas as nossas humilhações passadas. Peso demais para quem busca a perfeição em um minuto e meio.

0448) Deus e o gueto de Varsóvia (26.8.2004)




(a guerra no Gueto de Varsóvia)

Comentei nesta coluna o livro de Zvi Kolitz Yossel Rakover dirige-se a Deus, onde um judeu do gueto de Varsóvia registra seus últimos pensamentos antes de ser morto pelas tropas nazistas. Publicado em Buenos Aires em 1946, o texto curto de Kolitz conheceu uma imensa popularidade. 

A criação do Estado de Israel em 1948 acendeu, principalmente, na Europa, uma imensa discussão sobre o Holocausto e sobre aspectos da cultura e da fé judaica. A edição brasileira (Ed. Perspectiva, São Paulo, 2003) traz o texto original, um longo ensaio de Paul Badde sobre o autor, e um texto de Emmanuel Levina, “Amar mais a Torá que Deus”, de 1955.

No conto de Kolitz, Yossel Rakover está cercado pelos nazistas num sobrado do gueto, combatendo as tropas alemãs com o auxílio de coquetéis Molotov. Ao perceber que só lhe restam algumas horas de vida, ele escreve esse documento, onde pede contas a Deus pelos fatos terríveis que estão acontecendo. E afirma que, por mais que Deus abandone seu povo, ele continuará a amá-Lo, e a amar a sua Lei. É um documento emocionante, onde um indivíduo sozinho, ferido, encurralado, fica de pé e interpela Deus, pedindo-lhe uma explicação por ter abandonado o seu povo.

A história de Rakover me trouxe à memória um conto clássico de ficção científica: “Pois sou um Povo Ciumento” (“For I am a Jealous People”), de Lester del Rey (1954). 

A história se passa no interior dos EUA, quando a Terra está sofrendo uma invasão alienígena. Os invasores são ferozes, impiedosos, destroem tudo. O protagonista é um sujeito profundamente religioso que ajuda a população da cidade a combater, se entrincheirar, bater em retirada quando é preciso. Durante todo o tempo ele se indaga como é possível que Deus, que é tão bondoso, permita algo assim.

A certa altura, ele retorna durante a noite à cidade, que já está ocupada pelos alienígenas. Ele percebe que um grupo deles encaminha-se para a igreja local, e vai atrás. Consegue entrar na igreja às escondidas, e de lá observa espantado que os extraterrestres estão diante do altar, fazendo uma espécie de ritual. E de repente, surge ali uma Luz quase insuportável. 

Transido de horror e de deslumbramento, ele tem a revelação: é Deus que está se manifestando ali. Deus surge e se revela como nunca se havia revelado naquela igreja. E nesse instante ele entende que está acontecendo. Deus existe, sim, mas o Seu povo não somos nós, os terrestres. Deus fêz uma Aliança com aquele povo de outro planeta, e o autorizou a invadir a Terra e nos exterminar.

Não revelarei aqui o final da história (que envolve um desfecho teológico, não militar). Mas para mim existe um parentesco muito próximo entre essa aventura de FC e textos como o de Zvi Kolitz. 

Diante da vitória de uma abominação aparentemente permitida por Deus, muitos deixam de crer em tudo. Outros afirmam que é preciso crer em algo, e crer numa Lei de Deus acima do próprio Deus me parece de uma ousadia comovente.






0447) Yossel Rakover e Deus (25.8.2004)




“Nas ruínas do gueto de Varsóvia encontrou-se, enterrada sob montanhas de pedras calcinadas e restos humanos, uma pequena garrafa. Ela guardava o seguinte testamento, escrito por um judeu chamado Yossel Rakover algumas horas antes do aniquilamento do gueto.” 

Assim começa um dos mais inquietantes documentos literários judeus, Yossel Rakover dirige-se a Deus, publicado em setembro de 1946 no Ídiche Zeitung, diário israelita de Buenos Aires. 

Seu autor, Zvi Kolitz, nasceu em 1919 num vilarejo da Lituânia, de onde fugiu às perseguições anti-semitas em 1937, com a mãe e os irmãos. Vagueou pela Europa durante a Guerra, e depois de 1945 foi para a Argentina, onde participou do movimento pela criação do Estado de Israel, e escreveu este conto.

O texto (SP, Ed. Perspectiva, 2003) é atribuído a um judeu fictício durante a II Guerra: 

“Escrevo estas linhas no gueto de Varsóvia em chamas. A casa em que me encontro é uma das últimas que ainda não queima. Há algumas horas estamos sob um contínuo bombardeio de artilharia...” 

Sabendo que a morte é iminente, Rakover dirige-se a Deus, e pede-lhe contas sobre que está acontecendo. É um documento religioso impressionante, apesar de ser uma história fictícia. Rakover lembra os tormentos sofridos por Jó, no Antigo Testamento, mas afirma: 

“Mas não lhe peço, como Job, para que me esclareça sobre os meus pecados, para dessa forma eu saber por que mereci isso. Porque maiores e melhores do que eu estão firmemente convencidos de que não se trata mais, atualmente, de castigo por faltas cometidas. Aconteceu alguma coisa absolutamente peculiar e isso chama-se ´Hastores Ponim´: Deus velou a Sua face.”

Por que motivo Deus permite que isto aconteça? É uma das perguntas mais antigas do mundo, mas no contexto dos massacres da Europa nazista ela ganhou um novo significado. Rakover não pede piedade, não pede um milagre, não pede pela própria vida. Afirma seu orgulho em pertencer a um povo humilhado e perseguido, e lembra as palavras de um rabino: “Não existe nada mais inteiro do que um coração despedaçado”. 

Ele admite não entender a vontade de Deus, mas afirma: 

“Creio no Deus de Israel, mesmo que ele tenha feito de tudo para que eu não acredite Nele. Creio em Suas leis, mesmo que eu não possa encontrar justificativa para os Seus atos. Eu O amo. Mas amo ainda mais a Sua Torá. Mesmo que eu tenha estado iludido com Ele, continuarei a observar a Sua lei.”

Crer que a lei de Deus está acima de Deus é, para mim, um salto filosófico de primeira grandeza. É crer que existe uma Ordem superior no universo, e que, se Deus às vezes é insondável e ininteligível, essa Ordem não o é. E é só por acreditar nela que Rakover, em seu desespero final, recusa-se a afastar-se de Deus: 

“Isto não te valerá de nada! Fizeste de tudo para fazer-me duvidar de Ti, para que eu não creia em Ti. Mas morro exatamente como vivi, com uma fé inquebrantável.”








0446) O robô e o corpo-objeto (24.8.2004)



Um robô é uma criatura metálica, de forma vagamente humana. Um clone é um ser humano normal, criado em laboratório a partir de células de um único indivíduo. Um andróide é uma criatura artificial (pele e ossos sintéticos, cérebro eletrônico) que por fora parece idêntica a uma pessoa. Um cyborg é um misto de ser humano e robô; em geral, um ser humano com próteses enxertadas (neste sentido, o pirata com olho de vidro, mão de gancho e perna de pau é um proto-cyborg).

A verdade é que todos nós estamos nos transformando em cyborgs, desde o sujeito idoso que usa uma dentadura postiça até as pessoas que precisam recorrer a membros mecânicos, marca-passos cardíacos e máquinas de hemodiálise. Conheço várias pessoas que não podem funcionar ou sobreviver sem a porção-máquina que possuem.

No filme Eu, robô de Alex Proyas os robôs são programados para tarefas manuais ou repetitivas: trabalhos domésticos, coleta do lixo, transporte de encomendas, etc. Exercem o papel tradicional de “escravos cibernéticos” que a ficção científica sempre lhes designou. Parece que temos um software antropológico embutido em nossa cultura, e devido a ele precisamos sempre de escravos mansos, obedientes e estóicos para fazer os trabalhos que desprezamos ou que nos cansam demais. O robô é o escravo no futuro politicamente correto.

A série de contos sobre robôs de Isaac Asimov tem como personagem principal a doutora Susan Calvin, a cientista mais assexuada da história da ficção científica. No filme, Bridget Moynahan a interpreta de modo muito próximo à concepção de Asimov. Há uma cena, contudo, que pode ser considerada a única cena erótica do filme, quando ela vai ao apartamento do detetive Spooner (Will Smith) e ele lhe confessa que possui um braço mecânico. Ela pede para tocá-lo, e ele concorda. Ela apalpa sua mão, seu antebraço, o braço, o ombro, as costelas... Ao tocar numa das costelas, ele se retrai um pouco e diz: “Ooops, aqui já sou eu.” É uma cena perversamente erótica, e é pena que o filme não pudesse ou não quisesse explorar mais essa área (afinal, ele se destinava ao público adolescente e não podia correr o risco de uma censura por faixa etária).

O fato de que a dra. Calvin, tão puritana, excita-se sexualmente com robôs nunca foi tão bem ilustrado, com o dado adicional de ela ser branca e o policial-cyborg ser negro. Ademais, a erotização das próteses corporais tem uma longa história. A perna mecânica de Catherine Deneuve em Tristana (Buñuel) é um objeto de desejo que ilustra essa fascinação fetichista pelo corpo-objeto, o corpo-coisa, tratado como um instrumento de prazer e nada mais. As andróides de Blade Runner são criadas como objetos sexuais, assim como o robô-gigolô de Inteligência Artificial. Por trás disso jazem fantasias eróticas como a do criador que se apaixona pela criatura (o mito grego de Pigmalião e Galatéia) e a da submissão total da pessoa amada.

domingo, 13 de julho de 2008

0445) Diego Maradona (22.8.2004)



Vi Maradona na TV. Ele sempre foi gordinho, mas agora está estufado. Lembro de um provérbio cruel que já ouvi muitas vezes: “Jogador de futebol e rapariga só tem 15 anos de vida útil.” A pessoa tem esse período para fazer o que tiver de fazer, ganhar o que puder ganhar. Depois, vai ser técnico ou cafetina. O caso de Maradona me lembra também o fato de que a vida é cheia de yins e yangs, como dizia o Budista Tibetano. Forças opostas, que vivem da tensão recíproca, que se atraem e se repelem, e que podem ser destruídas tanto pela ausência quanto pela presença excessiva da outra.

Muita gente pensa que sucesso e fracasso são o contrário um do outro. Na verdade, sucesso e fracasso são as extremidades opostas de uma outra coisa: o controle sobre o próprio destino. Quando o indivíduo consegue manter esse controle, ele evita ser destruído pelo sucesso e pelo fracasso; pelo excesso e pela falta. Existem milhões de exemplos de indivíduos destruídos pelo fracasso, ou seja, pela incapacidade de seguir uma carreira, de arranjar um emprego, de se sustentar, de se alimentar. E existem exemplos mais raros (porém muito mais visíveis) de indivíduos destruídos pelo sucesso, pelo fato de terem perdido o controle sobre suas vidas justamente quanto tudo parecia estar indo bem até demais.

(Talvez seja melhor dizer, então, que existe um “sucesso-fracasso”, que implica na perda do controle, e um sucesso propriamente dito, que é quando o indivíduo consegue manter-se em equilíbrio com tudo de bom que lhe acontece. Sucesso-fracasso: a implosão precoce dos Beatles, Hendrix, Joplin. Sucesso: a continuidade profissional dos Rolling Stones, Bob Dylan.)

Maradona fêz no futebol, com uma perna só, o que Pelé fêz com duas. Foi um desses canhotos de gênio que o futebol nos apresenta com tanta freqüência. Na Copa de 86, fêz gol de mão, fêz gol de placa, e com dois lançamentos geniais deu a Valdano e Burruchaga os gols que deram o título à Argentina. E conheceu o lado mais tenebroso do sucesso: o dinheiro excessivo, a notoriedade asfixiante, a adulação generalizada, a manipulação política, os amigos de ocasião, os bajuladores, os parasitas, os fornecedores de drogas pesadas e de mulheres posudas. Não seria exagero comparar sua ascensão e queda com a de Michael Jackson: outro garoto de talento cuja ambição pôs em marcha um mecanismo tão poderoso que acabou por ultrapassá-lo, arrastá-lo e reduzi-lo a pó.

Comparar Maradona com Pelé? Prefiro compará-lo com Garrincha. Dentro do gramado era um Deus; quando saía, mergulhava no caos. Ficava cercado de aproveitadores, de maus conselheiros, e até mesmo de gente bem intencionada que queria apenas pedir um favor ou desfrutar de sua proximidade. Dizer que foi destruído pela droga é uma verdade incompleta. O vício foi apenas o ingrediente mais cruel de uma receita que já teria sido cruel sem ele.

0444) Os robôs de Asimov (21.8.2004)



Já li uns quinze livros de Isaac Asimov, traduzi dois, e se contar a quantidade de artigos científicos dele que já li em revistas dá mais uma meia-dúzia de volumes. O filme Eu, Robô de Alex Prohyas, atualmente em cartaz, tem muitas qualidades e muitos defeitos, mas pouca coisa nele tem a ver com a obra literária que o inspirou. É um mau filme? Não propriamente, se considerarmos que tem coisa muito pior passando por aí. É, no entanto, um filme caro, e como todo filme norte-americano caro é um filme que não arrisca nada. Tem que ter o pacote habitual: efeitos especiais, perseguições de automóveis (se não tiver isso, não é filme-de-ação americano), brigas espantosamente ruidosas, e uma trilha sonora que nos agarra pelos cabelos e esfrega em nossa cara a emoção que devemos sentir.

Tem que ter um roteiro com um crime misterioso cuja solução nunca fica muito bem explicada porque a explicação se concentra em meio minuto de diálogo, nas cenas finais, entre uma briga e outra. Tem que ter um suspense com um personagem pendurado sobre um abismo, esperneando. Tem que ter outro suspense com um objeto que precisa ser levado de um lugar para outro e chegar lá no segundo exato, ou tudo vai dar errado (e sempre chega, no derradeiro instante).

O que me leva a imaginar que esses filmes são feitos para serem visto por um tipo muito especial de robôs: os espectadores de filmes norte-americanos de ação. Esses indivíduos foram educados vendo tais filmes, e voltam ao cinema, repetidas vezes, para verem filmes diferentes que fazem coisas semelhantes. A mesma perseguição, milhares de vezes repetidas. O mesmo suspense, milhares de vezes esticado até o máximo. A mesma briga, milhares de vezes coreografada e treinada por profissionais que não fazem outra coisa, e pressionam roteiristas a incluírem pelo menos uma cena de briga, para que eles possam ganhar decentemente o leite das crianças.

O problema com o cinema industrial não é propriamente o tipo de filme que produz – eu gosto desses filmes, juro, me divirto bastante. Acho-os equivalentes à “pulp fiction” dos anos 1930-40, com aquelas histórias de aventuras mirabolantes, de peripécias improváveis, de monstros e vilões inverossímeis. (Aqui no Rio já está passando o trailer de Alien versus Predador, que vem logo depois de Jason contra Freddy Kruger. Coalizões desse tipo são o último prego no caixão de um gênero.) O problema com essas coisas são as centenas de milhões de dólares em jogo a cada filme. Para não terem prejuízo eles precisam nos massacrar com uma publicidade maciça, uma distribuição predatória, contratos leoninos de exibição, jabás indescritíveis para a imprensa. O problema não é serem filmes bobos, porque a “pulp fiction” também era feita de histórias bobas. Serem bobos é o lado simpático deles. O problema é serem caros, ambiciosos, e acima de tudo são reiterativos: um gênero que a cada ano que passa vai se tornando a pornografia-de-si-mesmo.

0443) No Olimpo da arrogância (20.8.2004)



Escrevo estas linhas na terça-feira passada, dia 17, e os Jogos de Atenas já mostraram algumas cenas memoráveis. O Brasil já ganhou dois bronzes no judô, e no vôlei travou uma batalha memorável com a Itália (33 x 31 no “tie-break”). Vi a pernambucana Joana Maranhão arrasando na piscina, vi Guga sofrendo na quadra, vi nosso futebol feminino matando de inveja o masculino, vi o basquete de Porto Rico derrotar o Dream Team americano.

O que me traz ao assunto principal: a arrogância dos americanos. Já comentei nesta coluna que poucas pessoas são tão americanizadas quanto eu, mas é duro agüentar o marketing, a pose, a marra, o desprezo-pelo-mundo que passa nas atitudes de muitos atletas dos EUA. Vai daí que ninguém torceu tanto quanto eu para que o truculento Michael Phelps não conseguisse ganhar as 8 medalhas de ouro que prometeu. (Até agora ganhou 2 e perdeu 2) O basquete já tomou sua sapecadazinha, e o futebol tem-com-que-me-pague daqui pro fim. E hoje de tarde, paradoxalmente, vi a derrota da única equipe americana que não me incomodaria de ver ganhar: a da ginástica feminina. Todas aquelas meninas, não importa o país, me parecem igualmente frágeis e fortes, intensamente físicas e misteriosamente etéreas. Ganharam o ouro as romenas. Menos mal.

Quando falo na arrogância, não é preconceito nacionalista. Uma das grandes qualidades do povo americano é a sensatez, a simplicidade, os pés-no-chão. É o dinheiro que está acabando com isso. Mas há quem mantenha os olhos abertos. Dan Wetzel, comentarista de esportes do Yahoo, pergunta: “Afinal, quem inventou essa história de Phelps ganhar 8 medalhas de ouro? Foi ele mesmo, num rompante de audácia juvenil, que pensou: ´Por que não sugerir o impossível´? Foi sua equipe de marketing no Octagon Group, ansiosa para ganhar a guerra da mídia? Foi a USA Swimming, desesperada por atenção, e vendo nisto uma bela chance? Foi a Speedo, cuja equipe de relações públicas faturou um milhão de dólares em publicidade gratuita ao oferecer um milhão a Phelps, se ele conseguisse?”

Vinte anos atrás, em plena Guerra Fria, o espírito olímpico transformou-se numa guerra particular entre comunistas e capitalistas, com boicotes, perseguições e acusações de parte a parte. Tivemos olimpíadas sucessivas sem os melhores atletas do mundo, só porque se realizavam “em território inimigo”. Depois que a URSS caiu de podre, quem tomou conta foi o espírito do marketing comercial, de badalação, de mercado onipotente, de vitória a qualquer custo. Sem um adversário específico à altura, os americanos assumiram uma postura imperial, de insuportável arrogância. Wetzel lembra o slogan da Nike para os Jogos de Sidney: “Você não ganha a prata. Você perde o ouro”. É essa a mentalidade esportiva que se quer passar para a garotada em volta das quadras, dos campos, das piscinas. A prata e o bronze são um símbolo de derrota, num mundo dominado por marqueteiros que nunca praticaram esporte.

0442) O aleph da Rua Brasil (19.8.2004)




“O Aleph” é um dos contos mais famosos de Jorge Luís Borges, e título de um de seus livros mais vendidos. É um dos contos mais dissecados e discutidos pela crítica no final do século 20. 

Embora tenha sido publicado em 1949, só veio a se tornar famoso da década de 1970 em diante, quando a ironia do Destino concedeu a Borges, já velho e cego, a glória com que sonhara na juventude. 

O narrador de “O Aleph” descobre, após a morte da mulher que amava (sem ser correspondido), que no porão da casa em que ela vivia, num bairro de Buenos Aires, existia um ponto luminoso no espaço no qual era possível contemplar todos os pontos do Universo. É o aleph, o objeto numinoso indicado pela letra com que o matemático George Cantor designava os conjuntos transfinitos (aqueles cujas partes são iguais ao Todo).

Em suas entrevistas, Borges costumava lembrar o jornalista espanhol que insistiu em fazer uma matéria sobre “a casa em Buenos Aires onde havia um pequeno disco resplandecente onde estava todo o Universo”. Borges explicou que se tratava de um conto fantástico, e que se um tal objeto existisse toda a nossa ciência estaria de pernas para o ar. 

O jornalista insistia: “Mas o sr. citou até a rua onde ele está situado...” No conto de Borges, a casa da família de Beatriz Viterbo, sua amada inatingível, fica na Rua Garay, no bairro de Constitución.




Recentemente folheei o livro Borges à Contraluz, da escritora argentina Estela Canto (Ed. Iluminuras, 1991), a qual foi namorada de Borges durante um período crucial da vida do autor. É a ela que está dedicado o conto “O Aleph”, e alguns documentos que ela anexa ao seu texto lançam uma luz curiosa sobre a sua criação. 

Borges e Estela tinham o costume de fazer longas caminhadas a pé nas noites tranqüilas da Buenos Aires de 1940, e iam até o bairro Constitución e o Parque Lezama, que ao que parece (não conheço Buenos Aires) fica perto da Rua Brasil. 

Num bilhete de fevereiro de 1945, Borges escreveu para Estela: “Esta semana concluirei o rascunho da história que gostaria de te dedicar: a de um lugar (na rua Brasil) onde estão todos os lugares do mundo.” 

A própria Estela, em seu livro, comenta: “Os místicos contam experiências em que se transcende, por um momento, a carne. Em ´O Aleph´, nesse porão de uma casa da rua Brasil, o autor transcende a carne.” 

Borges teria mudado de idéia? A Rua Brasil teria mudado de nome e virado Rua Garay? É um detalhe curioso. Na entrevista em que cita o crédulo jornalista de Madri, Borges comenta: “Enfim, que dificuldade pode haver em se inventar uma rua e um número? Me lembro que escrevi Rua Garay como poderia ter escrito Rua Chile ou Rua México...” 

O bilhete de 1945, contudo, mostra que a primeira rua onde ele ambientou o conto era a Rua Brasil, que teria algum significado nostálgico na sua história pessoal com Estela Canto. 

Por um triz o Brasil não ficou famoso!




0441) O fantasma do Comunismo (18.8.2004)



Passei a vida cercado de comunistas à esquerda e de anti-comunistas à direita. E todos me diziam: “Eu não sei como é que um cara inteligente como você consegue andar na companhia daquele pessoal.” Aqui entre nós, eu considero essa façanha uma bela prova da minha inteligência, porque sempre consegui uma convivência equilibrada com todo mundo, sem ter que dar a qualquer um dos grupos a ilusão de que eu iria me tornar um sócio “de carteirinha”.

Existe uma diferença fundamental, no entanto. Quando a ditadura militar brasileira começou, eu tinha 13 anos. Quando acabou, eu tinha 34. Isto significa que passei os meus “anos formativos”, a transição da adolescência para a juventude, e desta para a maturidade, num regime anticomunista, cujas barbaridades faziam empalidecer as barbaridades semelhantes praticadas pelo Comunismo em outras regiões do mundo. Nunca simpatizei com Stálin, nem com Kruschev, nem com Brejnev, nem com Kossiguin, nem com Andropov, nem com nenhum desses outros golems fabricados pelo laboratório-de-frankenstein do Kremlin. Mas eu sabia que podia ser chamado de comunista pelo simples fato de andar na “companhia” de Maiakóvski, Eisenstein, Prokofiev, Górki... Era do lado deles que eu estava. (Só para esclarecer – nesse mesmo período eu estava ao lado de Jimi Hendrix, Bob Dylan e outros marginais do grupo adversário).

Condenar as idéias socialistas por causa dos “gulags” soviéticos, albaneses ou cubanos é o mesmo que condenar a religião católica por causa das torturas da Inquisição espanhola ou da pedofilia nas dioceses norte-americanas. Quanto mais idealista uma teoria, maior a desilusão dos que tentam praticá-la. Isto vale em especial para sistemas filosóficos que são concebidos por meia-dúzia de sujeitos cheios de boas intenções, e na hora H caem nas mãos de milhares de pessoas que só querem “se dar bem”.

No tempo em que eu era estudante, muita gente afirmava ser comunista por uma questão de dignidade pessoal, de vergonha na cara, porque não dizer isto significaria dizer: “Estou de acordo com tudo isto que está acontecendo: os seqüestros, a Censura, as prisões arbitrárias, as torturas, as mortes mal-explicadas, os desaparecimentos nunca esclarecidos, o fechamento de jornais e cineclubes, a proibição de livros e de discos.” Se todas estas coisas eram feitas em nome do anticomunismo, tinha que haver um mínimo de hombridade e de ética que nos empurrava para o Comunismo; assim como o oposto certamente ocorria em países onde em nome do Comunismo se praticavam as mesmas violências.

A Ética é o maior engodo da política. Todos temos a ilusão de que aderindo àquela atividade estaremos ajudando a transformar o mundo num lugar melhor e mais justo. Mas a História parece dar razão a uma frase que o finado Paulo Francis costumava citar: “O Comunismo apela para o que há de melhor na Humanidade, e por isto deu errado. O Capitalismo apela para o que ela tem de pior, e por isto deu certo.”