sábado, 30 de agosto de 2025

5196) Luís Fernando Verissimo, 1936-2025 (30.8.2025)





O maior escritor brasileiro em atividade estava inativo há alguns anos, quando sofreu um AVC que agravou seu estado já debilitado pelo Mal de Parkinson. Não, não é esta a melhor maneira de começar um texto sobre uma pessoa tão pouco melodramática quando Luís Fernando Verissimo. 
 
Um cartunista, um saxofonista e um torcedor do Inter entram num bar e sentam no balcão. O barman pergunta: “O senhor vai querer o quê?”. Também não é a melhor saída. O pastiche é a mais avarenta forma de homenagem. 
 
Hoje é o dia em que todo sujeito como eu, que ganha (perde) a vida batucando num teclado sente-se no dever agradecido de pegar uma pedrinha qualquer na beira da estrada e vir colocá-la aos pés da deusa invisível que habitou aquele sujeito simpático e tartamudo. 
 
Devemos muito a ele aqui no Brasil, porque o fato de termos um DNA barroco não nos condena a afundar no barroquismo unânime. Precisamos do contrário, que não sei aqui como nomear, mas seria uma prosa com elementos de coloquialismo, maleabilidade, nitidez, simplicidade na-mosca, imprevisibilidade constante. 
 
A prosa de Verissimo tinha um segredo, que não revelarei aqui, mas era o mesmo segredo que fez os egípcios moverem aqueles blocos de granito como se fossem pacotinhos de algodão. Ele passou a vida fazendo isso diante dos olhos de todo mundo. 
 
Em algum texto antigo já me referi aos “começos-de-conto” de Verissimo e denominei esse modo de escrever “o estilo Saíram-Do-Bar-E-Foram-Andando”.   
 
Porque bastava a ele um pontapé-inicial desse tipo para se instalar, com 100% de credibilidade, ao volante da mente do leitor, e conduzi-lo para onde bem quisesse.
 
Saíram do bar e foram andando. De repente, João bateu com a mão no bolso traseiro da calça.
-- Minha carteira!  Perdi.
-- Perdeu não, idiota. Você deu de presente à garçonete, e nem foi à bonitinha, foi à que parecia com Robert de Niro.
 
Isso aí não é de Verissimo, claro, é meu, improvisei agora, para testar pela milésima vez o poder mágico desse mote inicial. Saíram do bar e foram andando! As palavras, especificamente, pouco importam. Basta que sejam capazes de invocar um portal de simplicidade e consenso. Perguntem a Nelson Rodrigues, a Fernando Sabino, a Mario Quintana. 
 
Em teatro e música existe um conceito que a gente chama às vezes de “presença de palco”. É um mini-carisma específico, uma magia-de-bolso que serve para aquilo e para nada mais; mas serve. A atriz surge no palco, avança alguns passos.  Antes que ela diga um oi, baixa o silêncio; todo mundo engole em seco e prende a respiração. 
 
Existe uma Presença ali, e essa presença dá credibilidade (ou seja, no dizer do poeta: Verdade e Beleza) a qualquer coisa que aconteça em seguida. 
 
Escrever é como discursar diante de um teatro repleto, mas com os olhos vendados. Nunca temos certeza de nada, mas é preciso exibir segurança em tudo.  A segurança de um dançarino de tango que já dá o primeiro passo sabendo o que vai fazer, e a segurança de um folião de rua que ao som do frevo começa a marcar o passo sem ter a mínima idéia do movimento que vai fazer em seguida. Existe uma equação do Tao embutida em tudo. Precisamos do Flexível capaz de se firmar, e do Firme que saiba fluir.   
 
Eu estava há pouco deslizando telas no celular e vendo nelas todas as mesmas Duas-Datas-Fatídicas, e o mesmo rosto bonachão e de óculos, com aquele meio sorriso de quem tenta se tornar invisível pelo mero esforço da vontade; e do-nada tropeço numa entrevista de George Martin, o quinto Beatle. 
 
Eu estava no estúdio quando me disseram: “Vamos trazer um grupo novo para você dizer se vale a pena produzir.” O nome era um nome brega, The Beatles, com A. Quando eles entraram... As canções eram banais, mas havia neles uma eletricidade, um carisma, uma presença... Quando eles saíram, eram como se alguém tivesse ido embora. E eu pensei: Se eu me senti assim, o público talvez se sinta também. 
 
Dou esse contra-exemplo porque Verissimo (disclaimer: nunca o encontrei pessoalmente) parecia fazer o possível para se esvaziar de carisma. Lembrava aquela conversa de Paulo Coelho, de que certas práticas da magia ritual tornam possível alguém cruzar um salão cheio sem ser visto por ninguém. 
 
Todo o carisma de Verissimo, por assim dizer, foi investido na sua escrita, como alguém que deposita todo o seu dinheiro no mesmo banco. 
 
Verissimo apostou todas as suas economias literárias (e eu acrescentaria: toda a sua herança, que não foi pouca) numa fórmula simples que não precisarei descobrir, porque Ítalo Calvino (Seis Propostas Para o Próximo Milênio) já o fez por mim: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade, consistência. 
 
Nada disso vem às nossas mãos para cancelar ou desmentir o nosso lado barroco, onde habitam Guimarães Rosa, o Padre Vieira, Coelho Neto, Jorge de Lima, Ariano Suassuna, Osman Lins, Euclides da Cunha e outros igualmente imprescindíveis.  
 
A contrapartida da exuberância barroca é a escrita dos que limpam a prosa até deixar o osso alvejando, dos que com dois ou três riscos de tinta permitem ver uma catedral ou uma ninfa nua, dos que em três linhas de verso conjuram uma floresta invernal, dos que nas dez páginas de um conto embutem a biblioteca do absurdo. 
 
Precisamos do Muito que se apóia no Pouco, e do Pouco que contém o Muito. 
 
Numa homenagem ao mestre acontecida alguns anos atrás, amigos gaúchos (alô, Fraga!) me pediram uma colaboração, e enviei um texto, “Verissimo e a Marca do Zorro”, onde dizia: 
 
(...) Verissimo ganhava a gente (o leitor jovem) por diferentes motivos: o humor, o nonsense, a linguagem, as situações, a comédia humana... No meu caso, era isso tudo e mais uma coisa: o exemplo de uma escrita de destreza absoluta, capaz de jogar qualquer leitor dentro de qualquer situação com duas ou três linhas, às vezes menos do que isto.
 
Temos entre nós a tendência ao nariz de cera, ao prelúdio interminável, por isso eu admiro quem apresenta uma situação complexa “em rápidas pinceladas”, como se diria antigamente. Como Machado – que nem sempre fazia isso, mas quando o fazia parecia a espada do Zorro traçando um “Z” mais depressa do que o olho podia acompanhar. (...)
 
Duas ou três linhas; e a isca foi mordida. Mordi o anzol de Verissimo com vinte e poucos anos, e até hoje deixo que ele me leve para onde está indo. 
 




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