quinta-feira, 21 de março de 2024

5044) Ballard e o império do sol (21.3.2024)




Poucos escritores contemporâneos tiveram uma infância tão inusitada quanto a do inglês J. G. Ballard. Ele narrou a sua, em forma romanceada, no livro O Império do Sol, filmado depois por Steven Spielberg; o ator-menino Christian Bale fez o papel do escritor. 
 
Menos romanceada, mas igualmente lúcida e bem escrita é a autobiografia Milagres da Vida – De Shanghai a Shepperton (Companhia das Letras, trad. Isa Mara Lando), que ele escreveu quando já estava com o câncer de próstata que o levou em 2009. 
 
Ballard, nascido em 1930, foi menino riquinho em Shanghai, onde seu pai era alto executivo de uma indústria britânica. A família morava numa mansão, com dez criados chineses cuidando de tudo, sempre calados, de olhos baixos. O menino ia para a escola num carro com chofer, vigiado por uma babá russa, e vendo pelo vidro do carro a miséria e a violência de uma das maiores cidades do mundo, e que era, diz ele, “90% chinesa e 100% americanizada”. 



(J. G. Ballard) 
 
Os pais eram distantes, envolvidos com trabalho e recepções sociais. Quando chegou aos dez ou onze anos o garoto Jim montava na bicicleta e costurava Shanghai inteira em busca de pequenas aventuras. Essa folga acabou quando os japoneses atacaram a China e ocuparam a cidade. As famílias européias foram transferidas para o campo de prisioneiros de Lunghua, instalado num colégio abandonado no subúrbio. Os três anos seguintes ele transpôs para O Império do Sol, com algumas liberdades literárias – no romance, o garoto “Jim” não está com os pais, mas sozinho. 
 
Sentia-me mais à vontade lá do que no número 31 da avenida Amherst. A prisão, que tanto confina os adultos, oferece possibilidades ilimitadas à imaginação de um garoto adolescente. No momento em que punha os pés para fora da cama pela manhã, enquanto minha mãe dormia embaixo do mosquiteiro rasgado e meu pai tentava fazer um pouco de chá para ela, havia uma centena de possibilidades à minha espera. (p. 105-106) 



(O campo de prisioneiros de Lunghua) 


Pode parecer um paradoxo, mas a prisão nivelava pais e filhos, ao extrair dos pais a maioria dos seus poderes. 
 
Sua função de pais tinha se tornado passiva, em vez de ativa. Eles não possuíam mais os meios usuais de fazer as coisas acontecerem. (...) Nunca senti desprezo pelos pais dos bairros pobres, tão impotentes, incapazes de controlar os filhos. Lembro-me bem dos meus pais no campo, sem ter meios de alertar, repreender, elogiar ou prometer coisa alguma. (p. 80, 81) 
 
Com o fim da guerra, a família Ballard voltou para a Inglaterra e Jim teve um choque ao perceber como “seu país” era diferente da Shanghai heterogênea e vibrante onde ele cresceu. O país estava exaurido pela guerra, econômica e emocionalmente. Os avós, com quem ele foi morar, pareciam viver noutro planeta, um planeta taciturno, avaro, mesquinho. Ballard comenta que em seu livro semi-autobiográfico A Bondade das Mulheres (1991) registrou como “os ingleses falavam como se tivessem vencido a guerra, mas agiam como se a tivessem perdido”
 
As pessoas de classe média, no fim dos anos 1940 até os anos 1950, viam a classe trabalhadora quase como se fosse uma espécie humana diferente, e se protegiam e se isolavam por trás de um complexo sistema de códigos sociais. (...) Mostrar respeito pelos mais velhos, nunca ficar muito ansioso para fazer nada, aguentar as dificuldades sem reclamar, ter um comportamento decente para com os inferiores, submeter-se à tradição, ficar em pé ao ouvir o hino nacional, oferecer-se para liderar, ser modesto e assim por diante. (...) Tudo na classe média inglesa girava em torno de códigos de comportamento que inconscientemente cultivavam uma mentalidade de segunda classe e baixas expectativas (p. 115) 
 
Ballard entrou numa escola secundária (The Leys) situada em Cambridge, e registra a importância do cineclube local, onde ele via e revia a produção européia do pós-guerra: Jean Cocteau, Marcel Carné, Henri-Georges Clouzot, além de filmes policiais “noir’ norte-americanos. E conta como aos dezesseis anos descobriu Freud e os surrealistas, que na época, diz ele, eram ainda considerados como uma piada, nos meios acadêmicos e literários. 
 
Isto o levou a estudar medicina: “Eu tinha interesse pela medicina, que me parecia fazer fronteira com a psicologia das anormalidades e o surrealismo.”  Não é uma trajetória muito habitual na comunidade dos escritores de FC, que em geral têm um namoro adolescente com a astronomia, a astronáutica, as engenhocas eletrônicas em geral e as revistas de aventuras. 



Ele passou dois anos estudando anatomia, fisiologia e patologia; as descrições clínicas e impassíveis da violência corporal (como em Crash, 1973) guardam um pouco dessa capacidade de ver o corpo humano, vivo ou morto, como uma coisa. Era uma experiência, diz ele, diferente dos inúmeros cadáveres chineses e japoneses que vira durante a guerra, principalmente porque em 1949 a maioria dos corpos dissecados pelos estudantes era de médicos professores, que doavam o cadáver para o estudo da anatomia. 
 
Embora fossem identificados apenas por números, cada cadáver parecia ter uma personalidade distinta - a compleição física geral, os ossos do contorno do rosto aparecendo pela pele, reafirmando sua primazia, e mais as cicatrizes, as manchas, as anomalias estranhas, como um terceiro mamilo ou dedos extras nos pés; e ainda vestígios de operações, tatuagens, marcas inexplicáveis – toda a história de uma vida escrita na pele, principalmente nas mãos e no rosto. Dissecar o rosto, revelar as camadas de músculos e nervos que geravam as expressões e as emoções era uma maneira de penetrar na vida pessoal desses médicos mortos, e quase trazê-los de volta à vida. (p. 132) 
 
Ballard largou os estudos de medicina, trabalhou com publicidade em Londres, passou a frequentar galerias de arte onde reencontrou a pintura surrealista, e principalmente a obra de Francis Bacon, que ele considerava “o maior pintor do mundo no pós-guerra”. Depois, o seu fascínio pelos aviões o levou a se alistar na RAF Real Força Aérea), que o mandou para um período de treinamento no Canadá. E ali, no tédio entre os exercícios e a neve onipresente, ele descobriu pra valer a pulp fiction de ficção científica nas bancas, e começou a escrever seus próprios contos. 
 
A sua carreira de escritor deve muito a editores como, por exemplo, Edward J.  Carnell: 
 
Carnell me disse que a ficção científica precisava mudar para continuar na linha de frente do futuro. Ele me incentivou a não imitar os escritores americanos, e me concentrar naquilo que eu chamava de “espaço interior”, ou seja, histórias psicológicas, de um espírito próximo dos surrealistas. Tudo isso era anátema para os editores americanos, que continuavam a rejeitar minha ficção. (p. 164) 




(Michael Moorcock (de barba) com Ballard)

 
Ballard publicou numerosos contos na vanguardista New Worlds, editada por seu amigo Michael Moorcock, e sua obra em romance foi levada por outro amigo, Kingsley Amis, para a editora Jonathan Cape. Isto certamente o ajudou a se estabelecer profissionalmente, porque em 1964 sua esposa Mary morreu de uma pneumonia repentina, e Ballard, aos 36 anos, passou a cuidar sozinho dos três filhos pequenos. 
 
Já morando no subúrbio de Shepperton (onde fica o famoso estúdio cinematográfico) ele não casou de novo nem contratou babás, e se limitava a chamar alguma baby sitter quando precisava sair à noite. O garoto “Jim” que teve uma infância distanciada dos pais dedicou-se a dar aos filhos uma presença emocional e um tipo de liberdade que ele próprio desconhecera. 



(Ballard e seus filhos Fay, Bea e Jim) 
 

Acredito que o principal perigo que a morte da mãe apresenta é, na verdade, um pai ausente ou frio. Se o pai for amoroso e ficar próximo das crianças, elas vão crescer e florescer. (...) Como era difícil conseguir uma babá que ficasse durante todo o dia, nós fazíamos tudo juntos – as compras, as visitas aos amigos, os museus, os passeios, de férias, a lição de casa, a televisão. Em 1965 fomos até a Grécia, onde ficamos quase dois meses – umas férias maravilhosas, em que estávamos sempre juntos. (p. 181, 182)
 
Consegui manter uma produção constante de romances e contos, sobretudo porque passava a maior parte do tempo em casa. Um conto, ou um capítulo de um romance, era escrito no intervalo entre passar a ferro a gravata da escola, servir a salsicha com purê de batatas e assistir Blue Peter. (p. 201)
 
Ao contrário da maioria dos escritores de FC que convivem no habitat natural da espécie, Ballard se sentia mais à vontade conversando com pessoas como o artista plástico Richard Hamilton, o médico Martin Bax que publicava a revista de poesia Ambit, o cientista Christopher Evans, o escultor Eduardo Paolozzi. Um ambiente onde (ele registra) a ficção científica não era esnobada, pelo contrário: era considerada a melhor literatura imaginativa dessa época (anos 1960-70). 



 

A obra de Ballard é uma tentativa de cartografar o absurdo da sua civilização, dos mundos contraditórios e incompatíveis onde ele cresceu. O esforço para ter uma família unida e alegre corria em paralelo com uma obra brutal em que (diz ele) 
 
eu estava tentando construir uma lógica imaginativa que conferisse sentido à morte de Mary, e provasse que o assassinato do presidente Kennedy e as incontáveis mortes da Segunda Guerra Mundial valeram a pena, ou quem sabe até tivessem algum significado ainda não descoberto. (p. 185) 
 
Ballard ficou famoso, de início, com um conjunto de romances da década de 1960 que lhe deram a fama de “escritor apocalíptico”, descrevendo diversos tipos de Fim do Mundo: The Wind from Nowhere (1962), The Drowned World (1962), The Burning World (1964) e The Crystal World (1966). Eram uma ficção científica pouco convencional, mas ainda trabalhando com os clichês do gênero. 



A brutalidade urbana nunca foi tão bem fantasiada quanto na trilogia Crash (1973), Concrete Island (1974) e High Rise  (1975). É uma ficção científica sociológica e antropológica, extrapolando de forma propositalmente bizarra o desumanismo das grandes cidades e as neuroses que dão sentido à vida de seus habitantes. 
 
Numa entrevista concedida em 2006 a Toby Litt, o autor dizia: 
 
Eu acho que o fascismo precisa, sim, de um líder. Mas esse líder pode vir de uma maneira inesperada. No meu livro [Kingdom Come, 2006], eu sugiro que o nosso equivalente ao Führer vociferante é o apresentador de talk-shows da TV a cabo. O curioso nos Führer e nos messias é que eles sempre brotam dos lugares mais inesperados – do deserto, em geral. Mas é claro que os shoppings e os centros comerciais ingleses são um deserto, por qualquer critério que se aplique. (...) As pessoas estão à caça de sua verdadeira psicopatologia. Precisam da loucura como uma válvula de escape. Estão entediadas, querendo quebrar a mobília. Estão como uma tribo de chimpanzés que cansam de mascar gravetos e decidem ir à caça. Para isso, eles criam em si mesmo um estado de raiva furiosa, e depois saem para esquartejar os outros. 



 
("SF Symposium", Rio de Janeiro, 1969: da dir. para a esq., Ballard, Robert Sheckley, Philip Jose Farmer e amigos)


Milagres da Vida foi o último livro publicado em vida por Ballard, e consegue juntar numa só imagem o homem discreto, afetuoso, bem humorado, e o escritor distanciado, analítico, com uma “prosa de medicina legal” (como diz sua filha Fay Ballard), capaz de dissecar “o estranho, o bizarro e o inesperado” do mundo que superou o Surrealismo em termos de absurdo. 
 




(duplo auto-retrato de Ballard; Cambridge, 1950) 
 
 
 






segunda-feira, 18 de março de 2024

5043) As dificuldades do inglês (18.3.2024)




O difícil de traduzir, no inglês, não são necessariamente os casos mais óbvios: arcaísmos, gírias, palavras obscuras, nomes de plantas ou insetos raros, etc.  A língua inglesa (como todas as outras) tem pequenas expressões que lhe são típicas, se a compararmos com a língua portuguesa-brasileira. 
 
Conectivos, locuções, frases feitas, expletivos, pequenos “modos de dizer” para os quais nem sempre temos um fiel correspondente semântico e sintático. É preciso às vezes fazer um circunlóquio, um “arrodeio”, desmontar a frase e remontá-la em outra ordem, para poder inserir um equivalente a essa expressãozinha complicada. 
 
“To be about (...)” Essa expressão inglesa tem dado origem à praga do “sobre”, nos últimos anos. As pessoas dizem: “Tocar música popular não é sobre técnica, é sobre sentimento”. Seria, claro, um possível equivalente a dizer em inglês “Playing popular music is not about technique, but about feeling”. 
 
Acontece que o “sobre” português-brasileiro não traduz todas as funções do “about” inglês-americano. Traduziria, corretamente, casos assim: “This book is about European history”, “este livro é sobre a história da Europa”, porque neste caso o “about” indica “a respeito de”, “acerca de”. 
 
No outro exemplo, pode-se perfeitamente traduzir: “Tocar música popular não é uma questão de técnica, é uma questão de sentimento”. Fica muito mais claro e elegante, porque a expressão “é uma questão de“ já está em uso na língua e todo mundo entende sem estranheza. 
 
A palavra “about” tem uma latitude de uso muito maior, no inglês, do que a palavra “sobre” tem em português. Em inglês é como um canivete suíço que tem sacarrolha, lanterna, corta-unhas, abridor de garrafa, etc., enquanto a nossa modesta “sobre” é um canivete comum, com uma lâmina grande e uma pequena. Mais ou menos.  
 
No entanto, são palavras tão frequentes nas duas línguas, tão aparentemente óbvias, que para muita gente o mais simples é traduzir direto. Esse atalho de traduzir direto me incomoda, mas não me parece burrice nem estupidez. É um fenômeno natural no confronto entre duas línguas quaisquer. Havendo uma “primeira opção” que parece satisfazer o sentido, e já é comum na língua, dezenas de milhões de pessoas a usam, e dezenas de milhões entendem “marromeno” qual foi a intenção do uso. Algumas dezenas de milhares de sheldoncoopers como eu ficam com crise alérgica, mas o fato é que muitos desses pinos-quadrados-em-buracos-redondos acabam se instalando. 
 
Outros, não tem como argumentar. Digamos um diálogo em inglês. 
 
-- How much time does it take to go there?...
-- About forty minutes, if you go by car.
 
Duvido que alguém tentasse fazer uma tradução direta tipo:
 
-- Quanto tempo leva para chegar lá?
-- Sobre quarenta minutos, se for de carro.
 
O sentido não encaixa nem com muita boa vontade, como “parece” (parece!) se encaixar em algo como “O problema do Brasil não é sobre pobreza, é sobre desigualdade.” Teríamos que dizer, por exemplo: "Cerca de quarenta minutos, se for de carro". 




Dizemos hoje uma porção de coisas que deviam soar “mal traduzidas” aos ouvidos de Machado de Assis, mas a força bruta da quantidade se impôs, o uso se normalizou, os gramáticos se adaptaram. Com o tempo e o uso, pinos se arredondam e buracos se enquadram. 
 
Isto significa que devemos usar o “sobre” que todo mundo usa? Jamais!  É preciso continuar lutando. Como diziam Jorge Luís Borges e Ariano Suassuna, a gente não luta somente pela vitória: luta para mostrar qual é o lado certo. 
 
Certas coisas incomodam o ouvido porque a tradução direta, sem refletir, é uma tentativa de gambiarra linguística. Funciona, mas a gente sempre acha que tem alguma-coisa-faltando. 
 
Digamos que a gente leia, num livro traduzido, um diálogo assim: 
 
– Puxa vida... Você soube o que aconteceu com nosso amigo John Smith? 
 
– Não. O que foi?
 
– Bateu com o carro ontem, saindo do bar.
 
– Serve-lhe bem. Eu já falei a ele para só ir ao bar se for de táxi.
 
Dá para entender? “Para os leigos, sim.”
 

(Digressão: esta expressão é homenagem ao grande Hugo Lima, o mago da eletro-eletrônica de Campina Grande, recentemente falecido.  Consertando uma vitrola, meio século atrás, ele disse: “Essa vitrola está com 33 rotações, em vez de 33 e um terço”. Eu disse: “Mas Hugo, não é a mesma coisa?...”  E ele: “Para os leigos, sim.”)
 

No exemplo acima, o contexto é claro, e a expressão “serve-lhe bem” acaba adquirindo uma pincelada de sentido. Se milhões de pessoas começarem a usá-la, outros milhões começarão a ratificar esse sentido, a confirmá-lo... e daí a pouco a tentar impô-lo como sentido obrigatório.
 
E lá atrás ficarão algumas dezenas de teimosos dizendo que se no original tem “Serves him well”, já existe entre nós a expressão “Bem feito!” que diz a mesma coisa. E que tem, pelos séculos de uso no Brasil, inúmeros filamentos de sentido e de contexto ligando-a a outras memórias linguísticas, as memórias que encorpam nosso entendimento das palavras. Letras de música, provérbios, expressões do cotidiano como “Bem feito pra sua cara!...”
 
Cartola:
https://www.youtube.com/watch?v=Xd0xM7pulo0
 
Toda língua está cheia dessas expressõezinhas, e para muitas a gente não encontra um equivalente. Uma delas é “what with”, que felizmente nenhum influêncer ainda traduziu por “o que com”. Ela indica as razões, causas, etc., para alguma coisa que está sendo explicada.
 
I didn’t go to the party, what with all the rain that fell yesterday.
 
A maneira mais simples e parecida que temos para dizer isso pode ser: “Eu não fui à festa, com toda a chuva que caiu ontem”.  Dizemos assim em português, e esse “com” é entendido corretamente. Não pensamos que a pessoa não foi “levando a chuva consigo”.
 
Outro termo que é sistematicamente mal usado é “eventually”, que eu mesmo já cansei de traduzir por “eventualmente”. O sentido mais imediato que se pode dar à palavra é “por fim”, “mais cedo ou mais tarde”.
 
“I do eventually get around to speaking of something other than myself, you see. (Raymond Chandler).
 
Eu traduziria: “Veja bem, mais cedo ou mais tarde eu acabo falando de outra coisa além de mim mesmo.”
 
E o que quer dizer “eventualmente” em português? Essa palavra se colou mais ao sentido de “de vez em quando, não-sistematicamente”. Talvez pela sugestão de vários “eventos” com uma certa distância entre si. “Não conheço bem esse restaurante, mas já fui lá, eventualmente, quando morava em Copacabana”.
 
Outro sentido que usamos em português é de “possivelmente, quem sabe”: “Guarde esta lanterna, eventualmente pode lhe ser útil”. Que é um sentido um tanto mais próximo do sentido dado em inglês, e são essas nuances, essas flutuações, essas equivalências apressadamente subentendidas, que acabam, ao longo de vários anos e dezenas de milhões de usos, fazendo a palavra ir numa ou noutra direção.
 
Veja-se que estes sentidos são catalogados sempre “a posteriori”. Primeiro o uso se consagra. Depois, os dicionários, gramáticas e manuais registram: “Usa-se assim, assim e assado”.
 
O erro ou o barbarismo de hoje pode se tornar o uso acadêmico de amanhã, tal como muitos usos acadêmicos de hoje foram barbarismos ou erros no tempo de Machado de Assis, de Eça de Queiroz ou do dr. Castro Lopes.
 
 
 
  
 




sexta-feira, 15 de março de 2024

5042) Quatro crimes insolúveis (15.3.2024)

 


1
A polícia de Shanghai nunca conseguiu desvendar o mistério do criminoso que a imprensa veio a apelidar (com alguma impropriedade) de “Cerberus”. Na década de 1930, Shanghai era uma das cidades mais populosas do planeta, e conhecida (de acordo com um memorialista célebre) como “a Paris do Oriente, e uma das cidades mais pervertidas do mundo”. 
 
Em 1939, durante a invasão japonesa que subjugou a cidade, um pacote foi descoberto nos degraus de entrada da Prefeitura. Aberto, revelou três cabeças de cão, decepadas a faca, e amarradas umas às outras com arame farpado. O pacote macabro foi interpretado como uma ameaça às autoridades locais. Duas semanas depois, outro pacote idêntico foi descoberto junto à piscina de um clube para oficiais, no resort de Tsingtao, uma praia ao norte da cidade, ex-base naval alemã. Nenhum bilhete, nenhum indício de quem era o autor ou qual a finalidade daquele presente brutal. 
 
Outros pacotes ou caixas, sempre com três cabeças, surgiram em locais associados à elite européia e americana: na porta do exclusivo Shanghai Race Club (o hipódromo frequentado pela classe endinheirada), da Cathedral School (escola para meninos), etc. A imprensa passou a anunciar as novas descobertas (foram oito no total, entre janeiro e outubro daquele ano) como “Cerberus manda novo recado”. Os corpos dos cães sacrificados nunca foram descobertos, o que não era de surpreender, numa cidade cujos rios arrastavam o tempo inteiro cadáveres de soldados. As entregas pararam bruscamente, e especula-se que o autor ou autores possam ter morrido nas escaramuças diárias entre japoneses invasores, chineses invadidos e militares do Ocidente. 
 
 



2
Permanece insolúvel o mistério dos envenenamentos em série ocorridos em 2003-2004 em restaurantes de Nápoles, Salerno e Pescara. Tudo começou com um pico inesperado e inexplicável de mortes, em diferentes pontos das cidades, de pessoas de todas as classes sociais, tendo como único fator em comum o envenenamento por cianeto de potássio. Cruzamento de informações pela polícia revelou que todos haviam se alimentado com comida doada ou descartada por vários restaurantes: eram mendigos, pedintes, parentes ou amigos dos cozinheiros, que recebiam restos de comida não consumida pelos fregueses, ou internos em casas de caridade que recebiam doações de comida dos próprios restaurantes. 
 
A polícia chegou à conclusão de que uma pessoa ou pessoas desconhecidas, após pedir uma refeição, deixava aparentemente intacta na mesa uma certa quantidade (lasanhas, bifes, etc.) que envenenava sem ser percebida, e essa comida era depois repassada para alguém. “Crueldade pura,” desabafou à imprensa o Comissário Castellani, da polícia napolitana, “porque é impossível saber quem iria consumir aquilo; um desses casos de maldade sem objetivo certo, onde a motivação não é ódio nem a vingança, é o puro prazer de fazer o mal”. 
 
A única pista relativamente plausível que chegou às mãos da polícia foi uma carta enviada a um jornal de Pescara (onde houve quatro mortes ao longo de dois meses), sem data, sem assinatura, numa caligrafia que os grafólogos atribuíram a “uma mulher adolescente, de pouca instrução”, alegando que tinha envenenado as refeições porque sua mãe morrera depois de comer comida estragada numa pizzaria; mas o remetente nunca foi identificado, e a polícia atribuiu a missiva a uma pessoa com desequilíbrio mental. 
 
 


3
A Scotland Yard fez de tudo para deixar em banho-maria o caso arquivado “em aberrto” sob a alcunha de “The Time Crimes”. 
 
Em agosto de 2013, o notório contrabandista Snatch Florian foi encontrado apunhalado num quarto de hotel londrino. A polícia examinou a faca, ainda cravada em seu corpo, e localizou impressões digitais bastante claras. Houve um momento de perplexidade quando descobriu serem de David Stong, contabilista de uma quadrilha do West End, morto num acidente dois anos antes. 
 
A investigação deu num beco sem saída até que em abril de 2014, em Birmingham, apareceu morto o pistoleiro Vic Mulroney, numa casa abandonada que lhe servia às vezes de esconderijo, e na arma que o matou foram encontradas impressões de Snatch Florian. A polícia teceu hipóteses, como a de que as duas armas tinham sido manuseadas pelos bandidos e depois guardadas por alguém para serem usadas num crime posterior e desviar suspeitas. 
 
Mas em novembro de 2015, em Liverpool, num crime que atraiu as atenções da imprensa, a cabeleireira Sandra Lindsay apareceu morta a facadas; descobriu-se que era chantagista; que tinha passagens na polícia; e que a arma do crime exibia as impressões digitais de Vic Mulroney. Não houve como esconder do público a evidente (conquanto absurda) relação entre os três crimes.
 
Seguiram-se meses de acaloradas polêmicas, marcadas pela perplexidade dos investigadores diante das aparente improbabilidade do caso, até que em junho de 2016, em Newcastle-upon-Tyne, o servidor público aposentado Zachary Hunnan apareceu morto num beco ao lado de um pub em Chinatown, e a polícia rapidamente identificou na arma as impressões (já esperadas, por alguns) da cabeleireira Lindsay. 
 
A realização do referendo relativo ao “Brexit” fez com que este último caso fosse pouco divulgado, e a última declaração pública da Yard a respeito foi do investigador-chefe Westford, que declarou: “Felizmente, o padrão dos crimes indica que quem tem que se preocupar com isto agora são os escoceses”.




 
4
O Ladrão do Vale incomodou e assustou a classe média carioca nos anos finais da década de 1950. Atuando sempre na Zona Sul do Rio, ele tinha como alvo principal jóias e obras de arte, geralmente roubadas quando a família estava viajando. 
 
Seu primeiro caso registrado pela polícia (suspeita-se que houve mais algum antes, sem que as vítimas prestassem queixa) ocorreu em 1958, em Copacabana, quando um pequeno quadro de Portinari, bastante valioso, foi roubado da mansão Costa Miranda, na rua Toneleros, e a família achou em seu lugar uma folha de papel pregada na parede com os dizeres: Vale um Portinari
 
Um mês depois, também em Copacabana, no apartamento da viúva Dóris Lencastre, um colar de rubis e ametistas, do tempo do Império, sumiu de seu cofre, mas foi encontrado um papel com as palavras Vale o Colar da Marquesa de Santos. Investigações subsequentes provaram que essa informação estava correta, sendo que nem a dona do colar conhecia essa procedência. 
 
O terceiro caso foi no Leblon, quando sumiu da residência do general da reserva Soscígenes Oberwald um espelho vitoriano triplo, dobrável, engastado de pedras preciosas, dando lugar a um bilhete: Vale um espelho triplo com 18 pedras, sendo duas falsas.   
 
Ao todo, foram oito furtos num espaço de dois anos, sempre na Zona Sul, e sempre sem deixar pistas além de um “vale”, uma janela forçada, um vidro quebrado, pequenos detalhes que a nada conduziram. O mercado de leilões e o mercado negro de objetos de arte foram vigiados durante muitos anos, mas nenhuma das peças reapareceu. Os “vales” ficaram em poder da polícia carioca. 
 
 





terça-feira, 12 de março de 2024

5041) O Intranslatável (12.3.2024)



 
Alguém irá apontar com o dedo e sugerir que o título acima ficaria muito melhor como “o Intraduzível”. Não é a mesma coisa. 
 
“O intraduzível” é uma tradução linear e correta da expressão “the untranslatable”; dizendo isto, estamos traduzindo o que se pode traduzir. 
 
O intranslatável é um termo metalinguístico. Exprime, poeticamente, o resultado de nossos esforços quando somos obrigados, pela sina da profissão, a trazer para o nosso idioma uma criaturinha verbal que pula, esperneia, morde, e se recusa a entrar na gaiola.  
 
O resultado é isso aí em cima: uma palavra que não está lá nem cá, um sem-pátria a mais vagando num mediterrâneo entre o norte e o sul, entre o ocidente e o oriente.  
 
Pouco tempo atrás me caiu nas mãos uma cópia de um ótimo filme, Céleste (1980), de Percy Adlon, baseado nas memórias da criada que serviu Marcel Proust durante a última década de sua vida. Céleste Albaret (1891-1984) atuou inclusive como secretária do escritor, ajudando-o com seus manuscritos e notas. A relação terna e respeitosa que se desenvolve entre os dois é narrada com muita finura psicológica, e um uso impecável da câmera, da montagem e do som. 
 
Comentei o filme aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2024/01/5023-marcel-proust-um-planeta-distante.html
 
Só tem um problema: o filme é alemão. 



E eu passei uma hora-e-meia em sobressalto, vendo aquele apartamento cenograficamente francês, aquelas chaleiras francesas, aquelas porcelanas francesíssimas (pelo menos aos meus olhos brucutus de paraibano), aqueles bigodes, aqueles móveis... e escutando o tempo inteiro uma enxurrada de “Bitte”, “Guten Morgen”, “Entschuldigen Sie”... Me veio à mente a decepção que tive no tempo do VHS quando finalmente encontrei uma cópia de Rocco e Seus Irmãos de Luchino Visconti, e quando cheguei em casa o filme era dublado em inglês. 
 
Alguém dirá que não há problema algum. É só escutar “Guten Morgen”, imaginar que a atriz está dizendo “Bonjour”, e compreender que sua intenção é desejar “Bom dia”. 
 
Não discuto a validez desse atalho mental, até porque o pratico o tempo inteiro. Mas o fato de o filme visualmente francês ser auditivamente alemão gera um interessante problema estético. Queremos, num filme assim, mergulhar na atmosfera social e histórica de um espaço e de um tempo específicos. Queremos ser psicologicamente transportados para uma imitação aceitável do ambiente em que Marcel Proust escreveu seus livros – livros impregnadíssimos de toda uma carga francesa de significantes e significados, inextricavelmente entrelaçados àquele ambiente social. 
 
O diretor (que é alemão) errou? Deveria ter feito uma versão falada em francês? Alguns o fazem, por interesses comerciais ou mesmo estéticos. Acabei de ver, dias atrás, o Casanova de Fellini, um filme italiano, na versão falada em inglês. Mas este filme não se passa (como alega) em Veneza, em Londres ou em Wurttemberg – ele se passa no espaçotempo surreal da imaginação de Fellini, e a verossimilhança linguística está tão distante dele quanto o rigor biográfico. O filme é tudo menos realista. Se os diálogos fossem em russo ou japonês, seria a mesma coisa. 
 
É outro o caso de Céleste, quando vemos a minúcia com que o apartamento de Proust é reconstituído (ou imaginado). Talvez algum estudioso proustiano veja erros ou anacronismos, mas neste aspecto eu sou “grande público”, e não vi nenhum. Mas ouvir os ótimos atores (Eva Mattes e Jurgen Arndt) falando em alemão me dava a sensação de ver um perfeito filme-de-época (ambientado entre 1912 e 1922) com atores vestidos à moda de 2024. 




Este filme me veio justamente quando eu estava consultando uma das minhas bíblias sobre tradução, Le Ton Beau de Marot (1997) de Douglas Hofstadter. É um livro em que o autor, apaixonado por um poema singelo do francês Clément Marot,  pede a amigos dezenas de traduções, paródias, adaptações, pastiches desse poema – e os comenta, discutindo cada opção, e os motivos de cada opção. 
 
E no meio disto tudo Hofstadter discorre longamente sobre o ofício. Ele é um pouco como Isaac Asimov – um divulgador de assuntos complexos, e o faz trazendo-os para o seu dia-a-dia autobiográfico, explicando cada passo de seus raciocínios, e quando fala de tradução vai buscar exemplos na música, na pintura, no cinema, na informática... 
 
E a certa altura Hofstadter começa a se perguntar se é possível, por exemplo, traduzir nomes de lugares, ou se estes devem ser deixados no idioma original. (É o tipo da questão que em geral a gente passa por cima, mas ele pára... e questiona isso durante um capítulo inteiro.) 
 
Uma coisa que me agrada no texto de Hofstadter é que ele tem um bom humor permanente e acha engraçadíssimos certos aspectos da linguagem. No Capítulo 14, ele transcreve o trecho de um livro, Sky! My Teacher, assinado por um tal de John-Wolf Whistle (nome real: Jean-Loup Chiflet). É um livro de humor sob a forma de um manual de ensino do inglês a quem fala francês, e boa parte da graça reside na tentativa de transportar, para uma língua, algo que é essencialmente vinculado à outra. 




Ele transcreve um parágrafo que vou me poupar de traduzir, já que o objetivo é divertir anglo-parlantes que têm um mínimo conhecimento dos nomes-de-lugares parisienses.

I like Paris. The streets I prefer are the streets of the Dry-Tree, the street of the Ferry, the boulevard Good-News, the street of the Cat-who-fishes, the street of the Look-for-noon, the street Mister-the-Prince, the street of the Little Fields, and the street Old-of-the-Temple. There are some places which I like very much, like the Game of Palm, the Doormanhouse, the theatre of the Madnesses-Shepherdesses, the hospital of the Fifteen-Twenty, the Prison of Health, and the big department stores like the Beautiful Gardener, the Good Market, the Spring.
(Le Ton Beau de Marot, Basic Books, 1997, p. 432)
 
Esta amostra, para mim, é tão engraçada quanto a enxurrada de gracejos que circula no Rio de Janeiro há anos, com sugestões de placas indicativas para os turistas estrangeiros, mostrando a direção de bairros e logradouros cariocas:
 
Rudder ………………….………… Leme
Orange Trees …………………… Laranjeiras
Flemish …………………………. Flamengo
Put Fire …………………………. Botafogo
Hard Bark ………………………  Cascadura
Wide of the Little Beach ..... Largo da Prainha
Will Go Soon ....................... Irajá
Nice To Meet You .......…….. Encantado
To Walk There .................... Andaraí
Bless You ............................ Saúde
 
Em outra minha “bíblia tradutória” (A Tradução Vivida, Paulo Rónai, Rio, Educom, 1976), o autor cita um exemplo parecido, uma tradução para o inglês do poema “Tragédia Brasileira”, de Manuel Bandeira. É a história de um casal carioca que vive na base do separa-volta-separa, mudando de endereço o tempo todo. A destemida Elizabeth Bishop verteu integralmente, ou adaptou, inclusive os nomes dos logradouros:
 
The lovers lived in Junction City. Boulder. On General Pedra Street. The Sties. The Brickyard. Glendale. Pay Dirt. (...) (pág. 30)
 
Claro que precisaremos recorrer ao original para perceber que “Brickyard” é “Olaria”, que “Pay Dirt” é “Bonsucesso”, e assim por diante.




Isto me trouxe à mente um trabalho antigo, que fiz em parceria com meu saudoso amigo, o fotógrafo Cafi. Uma revista estrangeira (Big Brazil) fez uma encomenda de um ensaio tipo fotos + texto, e ele tinha (tem, pois o acervo continua) uma coleção espantosamente grande e boa de fotos do interior de Pernambuco e principalmente da Zona da Mata, com seus carnavais e maracatus de baque solto.
 
Bolamos juntos uma matéria em forma dos ABCs da literatura de cordel, com verbetes e fotos correspondentes a cada letra do alfabeto: ABC dos Ultra-Terrestres, um trocadilho com o conceito de “extra-terrestres”.


 

Acontece que os editores queriam receber o texto em português e em inglês, e na hora de traduzir os verbetes tive que ir recriando nomes de cidades pernambucanas que de repente adquiriram uma estranha poesia.  Acho que tinha Beautiful Garden, Nazareth of the Woods, Lemon Tree, Little Salty, Good Advice, Stairs… (Big Brazil, n. 25, novembro de 1999)
 
É neste ponto que Douglas Hofstadter interfere e começa a matutar sobre a necessidade (ou não) de traduzir nomes de lugares, ou nomes próprios em geral, porque eles já estão carregados demais de ressonâncias culturais e afetivas.
 
E isto coloca para nós, brasileiros, uma questão interessante. Imagine se alguém abre um texto de Raymond Chandler, uma aventura inédita do detetive Philip Marlowe, e lê:
 
Era mais uma noite californiana, uma daquelas noites quentes e abafadas de Os Anjos, em que sopram apenas alguns raros ventos, parecendo bafos de uma fornalha invisível...
 
Teria a mesma crise de riso que eu tive anos atrás, ao folhear um Anuário traduzido, em que no verbete relativo ao rock-and-roll se dizia algo como: 

A temporada musical de verão foi intensa, com grandes shows ao ar livre de bandas como os Mortos Gratos e as Pedras Rolantes...
 
E no entanto somos o país, ou pelo menos a cultura-escrita de um país, que usa Londres em vez de London, usa Nova Iorque em vez de New York, usa Júlio Verne em vez de Jules Verne, usa Napoleão em vez de Napoléon... Livros brasileiros de cem anos atrás, ou até menos, referiam-se a autores como Carlos Marx, Frederico Nietzsche, Teófilo Gautier...
 
Deveríamos usar os termos originais? E quando se tratasse de nomes em russo, em chinês, em japonês? Deveríamos aportuguesar, ou simplesmente fonetizar? Sou antigo, ainda não me acostumei com o fato de que Pequim agora se chama Beijing, e que Bombaim virou Mumbai. Duas boas rimas jogadas no lixo; isso é um desaforo.
 
Essas palavras todas são intranslatáveis, porque mesmo traduzindo-as nunca conseguiremos trazê-las integralmente para o texto que estamos digitando. Traremos sempre pedaços, farrapos, uma casca sem miolo ou um miolo sem casca. De termos assim é feita toda a grande literatura e a grande poesia do mundo, porque, como já disse Robert Frost, “poesia é aquela parte que se perde na tradução”.  





 




sábado, 9 de março de 2024

5040) "Oppenheimer" (9.3.2024)



 
Não sei muitas coisas a respeito do físico J. Robert Oppenheimer, um dos criadores da bomba atômica. Mais da metade do que sei aprendi ontem, assistindo o filme Oppenheimer (2023) de Christopher Nolan, baseado numa biografia pesquisada durante décadas (American Prometheus, 2005, de Kai Bird e Martin J. Sherwin).
 
É um filme de três horas, muito bem dirigido, porque mostra homens de paletó discutindo o tempo inteiro, e ainda por cima conta uma história cujo final já sabemos: os cientistas conseguiram produzir duas bombas atômicas, que foram jogadas sobre o Japão, acabando a guerra. E o filme prende a nossa atenção.
 
Oppenheimer fala de ciência e de guerra, mas fala principalmente de política. E de um lado importante da política, a relação entre o Saber e o Poder, entre os que detêm o conhecimento técnico-científico, e os que financiam esse conhecimento e decidem como ele vai ser empregado.
 
São duas forças cegas, porque muitas vezes o Saber (Oppenheimer, no filme) pensa que sabe tudo, e não sabe; e o Poder (Lewis Strauss, no filme) pensa que pode tudo, e não pode. Os que melhor as utilizam são os mais conscientes dessas limitações.
 
Os homens do poder (nesse contexto, os políticos e os militares) precisam ganhar a guerra, e só podem ganhá-la se os cientistas fabricarem a Bomba. E Oppenheimer é uma encarnação convincente do cientista cujo primeiro compromisso é com a ciência, mas vê-se envolvido num jogo de moral e ética cujas manobras ele não domina.
 
Oppenheimer tem opiniões políticas – como muitos jovens de sua geração, leu livros de esquerda, interessou-se pelo comunismo, apoiou os Republicanos durante a Guerra Civil Espanhola. Não era de modo algum um apolítico: mas era despreparado para o varejo do poder, o toma-lá-dá-cá dos políticos profissionais, as intrigas de bastidores, as conspirações e as traições, as armações dos mais espertos contra os mais ingênuos.
 
Dias antes de Oppenheimer eu estava revendo um bom filme de espionagem, Tinker Tailor Soldier Spy (2011, Tomas Alfredson), baseado no romance de John Le Carré. A espionagem é, entre outras coisas, a arte de mentir sem ser descoberto e de ouvir mentiras sem ser enganado. Todo mundo mente o tempo todo.
 
O espião que havia em Los Alamos, no Projeto Manhattan, era Klaus Fuchs, e ele só aparece de passagem. A verdadeira batalha de espionagem se dá da parte de Lewis Strauss (Robert Downey Jr.) que se dedicou a destruir a reputação de Oppenheimer, acusando-o de espião comunista e de passar segredos para os russos.



(Robert Downey Jr., como Strauss, e Cillian Murphy, como Oppenheimer)


Lewis Strauss está para Oppenheimer como Salieri estava para Mozart no filme Amadeus. É um indivíduo que publicamente admira o talento real do outro, mas na surdina faz o que pode para destruí-lo, por uma combinação misteriosa de inveja, ressentimento, vingança, ambição e sei lá o que mais. Robert Downey Jr., neste papel, está fisicamente mais parecido com Sherlock Holmes do que quando fez Sherlock Holmes (2009, Guy Ritchie). Seu personagem é um político ambicioso que abala de forma irremediável a carreira de Oppenheimer, numa luta de egos que é um dos motores do filme.
 
Entre outras frentes, a luta se dá após o fim da Guerra, em torno da fabricação da bomba de hidrogênio, chamada “a Super”: Oppenheimer era contra (temendo consequências apocalípticas) e Strauss era a favor. Essa discussão, aliás, está presente em um bom filme alemão, muito parecido com Oppenheimer, e que está no Amazon Prime: Adventures of a Mathematician (2020, Thor Klein), que conta a vida do matemático Stanislaw Ulam, um dos cientistas presentes em Los Alamos.
 
Aqui:
https://www.imdb.com/title/tt6875374/?ref_=fn_al_tt_1
 
É um filme tecnicamente e comercialmente menos ambicioso do que Oppenheimer, mas pertence a essa mesma estirpe dos “filmes de cientistas e políticos, de paletó, discutindo diante de um quadro negro”. E é também muito bom.




Richard Feynman, um dos meus cientistas preferidos, estava lá também, e faz muitos comentários sobre Los Alamos (e alguns sobre Oppenheimer) em seu livro de memórias Surely You’re Joking, Mr. Feynman! (1985). Feynman foi para Los Alamos com cerca de 25 anos; era um aluno brilhante, e se incorporou ao grupo dos físicos teóricos.
 
Em seu livro, ele cita seu colega, o matemático Paul Olum:
 
Quando fizerem um filme sobre isto aqui, vão mostrar um cara chegando de Chicago para fazer um relatório sobre a Bomba e levar de volta aos homens [da Universidade] de Princeton. Ele vai estar de terno e empunhando uma pasta e tudo o mais – e em vez disso está você aqui, vestindo uma camisa suja e explicando coisas para a gente, mesmo sendo uma questão tão séria e tão dramática. (trad. BT)
 
Feynman narra alguns episódios pitorescos em que se envolveu (tudo em que ele se envolve torna-se “um episódio pitoresco”) e a certa altura descreve um fato que dá o que pensar.
 
Durante a fase final da II Guerra, os computadores tiveram um avanço excepcional, e em Los Alamos a IBM ajudou os cientistas a criar um sistema de máquinas calculadoras, necessário para testar numericamente todas as reações possíveis na desintegração do átomo, em diferente hipóteses de trabalho. Eram milhões de cálculos, em computadores muito rudimentares comparados aos de hoje.
 
Feynman recebeu a função de treinar um grupo de rapazes do Destacamento Especial de Engenharia. Eram rapazes brilhantes, recém-saídos da “high school” e com talento para a engenharia. Mas eram muito jovens, e passavam os dias perfurando cartões numéricos nas máquinas, e entregando os resultados, num tédio mortal.
 
Ele viu que aquilo não ia dar certo e pediu a Oppenheimer para explicar aos garotos (porque tudo ali era segredo de Estado) o que eles estavam fazendo, para dar uma sacudida no grupo.
 
Oppenheimer foi falar com a Segurança e conseguiu uma permissão especial para que eu explicasse aos rapazes o que estávamos fazendo. Fiz minha palestra e eles se entusiasmaram. “Uau, estamos lutando na guerra! Agora tudo faz sentido!” Agora estava claro o que aqueles números queriam dizer. Se a pressão aumentasse muito, havia uma liberação maior de energia, etc. e tal. Eles agora sabiam o que estavam fazendo!
 
Transformação completa! Eles começaram a inventar maneiras de executar melhor aquele trabalho. Melhoraram o esquema. Trabalhavam de noite. Não precisavam mais de supervisores, não precisavam de nada. Estavam entendendo tudo; inventaram vários dos programas que passamos a usar.
 
E assim os meus rapazes tornaram-se úteis, e para isto bastou explicar a eles o que estavam fazendo. O resultado é que, antes, eles tinham precisado de nove meses para resolver três problemas, e nos três meses seguintes nós resolvemos nove problemas, o que é quase dez vezes mais.
 
É um exemplo interessante de trabalho alienado em contraste com trabalho onde existe uma motivação pessoal, íntima, do trabalhador. No caso, o patriotismo (era preciso ganhar uma guerra) e o prazer que todo cientista e todo engenheiro tem ao enfrentar um problema concreto e resolvê-lo.
 
E este é um dos pontos em que o Poder e o Saber se conjugam de uma forma ameaçadora. Porque o Poder conhece bem esse fanatismo pelo Saber que existe nos cientistas, principalmente quando jovens: a curiosidade voraz de entender o mundo, de examinar dificuldades, propor explicações, testar soluções... Dê-lhe um laboratório, equipamento, recursos e diga: “Quero resultados.”


(Gary Oldman, como o presidente Truman)

 
Essa investimento maciço no Saber estava na raiz da Bomba Atômica e depois (mesmo com a oposição de Oppenheimer e outros) da Bomba de Hidrogênio – que é incrivelmente mais potente (dez mil vezes mais), e relativamente muito mais barata, “a um custo de centavos por cada grama de explosivo, e não centenas de dólares, como na bomba de fissão nuclear” (In Any Light: Scientists and the Decision to Build the Superbomb, 1952-1954, Peter Galison e Barton Bernstein).
 
Ver aqui:
https://www.jstor.org/stable/27757627
 
Um comentário no IMDB (Internet Movie Data Base) faz um lúcido comentário sobre a cegueira pessoal de Oppenheimer:
 
Ironicamente, apesar de ser um físico nuclear, alguém que naturalmente tem um conhecimento amplo a respeito de reações nucleares em cadeia, um tema recorrente no filme é que Oppenheimer não percebe a cadeia metafórica de consequências deflagradas pelas suas ações. Ele inicia e mantém relações com membros do Partido Comunista sem pensar no impacto futuro que isto pode ter na sua carreira como funcionário do governo norte-americano; e ele constrói a bomba atômica para derrotar o Eixo sem na verdade considerar os esmagadores efeitos que virão depois, como a subsequente corrida armamentista nuclear entre os EUA e a URSS. (Trad. BT)
 
Na queda-de-braço entre o Poder e o Saber, o Poder muitas vezes aposta na sede de conhecimento dos cientistas, na sua capacidade quase fanática de se concentrar num problema e não pensar em mais nada enquanto não o resolver. Pode ser a Bomba Atômica. Pode ser a Cura do Câncer. Pode ser a produção maciça de sistemas de Inteligência Artificial, de Fake News, de Deep Fake, de armas poderosas onde está sendo feito (hoje, agora) um investimento inédito de talento científico, recursos financeiros, e vontade política. Do jeito que ficou o mundo, existe sempre uma Guerra Mundial acontecendo.