terça-feira, 12 de setembro de 2023

4981) Young Sheldon (12.9.2023)



 
Não assisto muitas sitcoms (“situation comedies”) na televisão. Não porque não goste, mas porque é algo como comer Batatas Pringle: de uma em uma você come uma caixa, e quando olha pela janela você percebe que agora é um septuagenário e ainda não leu A Divina Comédia.
 
Este argumento me saiu muito ao estilo de Sheldon, o personagem da sitcom The Big Bang Theory, cuja infância estou agora acompanhando via Netflix na série Young Sheldon (primeira temporada). É bastante pringle esse seriado, porque cada episódio tem menos de meia hora, e a narrativa é rapida, estilo vapt-vupt. Quando você menos espera o episódio terminou e você meio inconscientemente se permite saltar para o começo do próximo.
 
Sheldon é um dos meus personagens preferidos na televisão, uma espécie “do que eu gostaria de ser caso crescesse”. Ele tem a memória de um Funes O Memorioso, a objetividade de um Sherlock Holmes, o traquejo social de um Jerry Lewis e a empatia de uma maçaneta. Depois de anos de sucesso de The Big Bang Theory, o ator que o interpreta (Jim Parsons) teve uma idéia: por que não fazer outra série, contando a infância do personagem?


 

(Jim Parsons como Sheldon; Iain Armitage como o jovem Sheldon)
 
Sheldon, segundo os críticos, tem um comportamento com características de autismo (ou de “síndrome de Asperger”) e de personalidade obsessivo-compulsiva. Seus cacoetes são uma fonte permanente de humor nas histórias. Em Young Sheldon, aos dez anos de idade ele coloca em situações constrangedoras os pais, os irmãos, os professores e os colegas, pela sua mania  impassível de recitar respostas certas ou de fazer comparações despropositadas envolvendo a Física Quântica, a Astronáutica ou o Cálculo Diferencial. 
 
Todos os pais querem ter um filho brilhante, mas ninguém quer ter um filho cujo poder intelectual está na razão inversa de sua capacidade de conviver. Em Young Sheldon, o geniozinho  é de certa forma o eixo e o ponto de desequilíbrio de uma família assustadoramente comum. 



(Annie Potts, como a avó de Sheldon) 


Um episódio da primeira temporada mostra Sheldon e a avó Meemaw (a ótima Annie Potts, que sempre tem as melhores falas) assistindo um episódio de Star Trek. Sheldon, é claro, é fã de Mr. Spock, que ele vê como um modelo de inteligência, impassibilidade e invulnerabilidade emocional. Cabe à avó mostrar a ele que o herói dela na série é o Capitão Kirk, que tem mais jogo de cintura e é capaz de pequenas trapaças para conseguir o que quer. Com isso, ela ensina Sheldon a mentir e a trapacear – e de certa forma o liberta do automatismo. 
 
A série é divertida porque nos identificamos com a família de Sheldon – que não entende as fórmulas matemáticas e os conceitos científicos recitados por ele a qualquer pretexto. O garoto fica na condição de qualquer garoto-prodígio num contexto não hostil, onde a família tem afeto e admiração por ele e faz o possível para criá-lo “como um menino normal”. 
 
Sheldon, por sua vez, se encaixa naquela definição de Henri Bergson segundo a qual o humor nasce quando vemos uma pessoa se comportar de maneira mecânica, cega, repetitiva, sem atentar para o feedback que recebe do mundo à sua volta. Por outro lado, o fato de Sheldon não possuir um grande “simancol” no trato social o faz revelar verdades ocultas, abordar problemas que outras pessoas varrem para baixo do tapete, criticar “sem papas na língua” os defeitos que percebe em outras pessoas.



Young Sheldon é uma série-pipoca, divertida, que tem pontos de contato com outros trabalhos de maior espessura dramática. Desde o início me lembrei deste filme de Jean-Pierre Jeunet, um cineasta que aprecio muito: The Young and Prodigious T. S. Spivet (2013), onde um garoto também super-dotado manda um trabalho para o Smithsonian Institute (sem revelar a própria idade), e depois que o trabalho é aceito precisa fugir de casa (lá nos confins do Meio Oeste) para ir a Washington fazer a palestra (e aturdir de incredulidade os funcionários do Instituto).
 
Lembrei também da série O Gambito da Rainha (2020) de Scott Frank, com sua protagonista super-inteligente, fora-de-esquadro, meio antissocial, meio imprevisível.



E um filme talvez hoje esquecido, mas que na epoca me despertou muita atenção: Little Man Tate (“Mentes Que Brilham”, 1991), dirigido por Jodie Foster (ela própria uma criança excepcional) e que conta a história de um garoto super-inteligente e do cabo-de-guerra entre a mãe (que o adora, mas é uma mulher “simples”, e não sabe como cuidar dele) e a professora (que pode dar a ele um acompanhamento profissional).
 
Sheldon é uma versão bem-humorada desse problema – o que fazer com as crianças super-inteligentes, pontos-fora-da-curva. Trazê-las para a curva seria um desperdício, e além disso é impossível. É a curva que precisa diminuir a distância entre os dois.
 
 
 
 
 
 





sábado, 9 de setembro de 2023

4980) Uma mulher chamada James Tiptree (9.9.2023)


 
Nos anos 1960, um escritor misterioso chamado James Tiptree Jr. surgiu na ficção científica norte-americana, com uma série de contos inovadores, numa linguagem energética, calejada, cínica, que não recuava diante da violência. Demonstrava ter conhecimento direto dos bastidores do poder, da vida militar, do uso de armas e de tecnologias variadas. E, tendo uma escrita “máscula” e assertiva, demonstrava ao mesmo tempo um conhecimento surpreendente da psicologia feminina, e suas personagens mulheres geralmente eram protagonistas, tomando nas mãos as rédeas da narrativa. 
 
Tiptree não dava entrevistas, não telefonava, não comparecia às convenções de FC, não enviava fotos, fornecia escassos dados pessoais de si próprio, e comunicava-se apenas através de uma caixa postal no Estado da Virginia. Por outro lado, era um correspondente vibrante e dedicado, mandando cartas de dez ou quinze páginas para escritores e editores que sequer conhecia pessoalmente. Era um missivista compulsivo e envolvente, tal como Raymond Chandler ou H. P. Lovecraft. 
 
Seu nome começou a chamar a atenção por volta de 1968, ano em que saíram contos seus em revistas como Analog, Galaxy, Fantastic e If. Sua produção manteve-se constante a partir daí, e sua primeira coletânea de contos, Ten Thousand Light Years From Home saiu em 1973. Seguiram-se várias premiações importantes: o prêmio Hugo (1974, 1977), o Nebula (1973, 1976, 1977), o Jupiter (1977) e outros. 
 
Havia um certo consenso, na comunidade de FC, de que a discrição de James Tiptree era por ser ele um agente ou ex-agente da CIA (seus relatos pessoais indicavam isto) e precisava manter um low profile quando se envolvia em atividades profanas como a literatura popular. Havia consenso, também, de que se tratava de um homem, não apenas pelo nome. Robert Silverberg, um autor nem um pouco bobo, chegou a escrever, em 1975: 
 
Alguém sugeriu que “Tiptree” pode ser uma mulher, uma teoria que considero absurda, porque para mim existe algo de inelutavelmente masculino em sua escrita.
 
Depois, Silverberg confessou, numa carta pessoal: “Você não me enganou. Fui eu que enganei a mim mesmo.”
 
Sua identidade foi revelada em 1976. Tiptree mencionou casualmente que sua mãe havia morrido em Chicago. Seu correspondente Jeff Smith vasculhou os obituários, e conferiu os relatos de infância e juventude de “James Tiptree Jr.” com os textos sobre Mary Hastings Bradley, falecida aos 94 anos, escritora com vários livros sobre seus safaris na África ao lado do marido e da filhinha pequena. Jeff Smith escreveu ao seu amigo Tiptree: 
 
Meu caro Tip: OK, vou botar minhas cartas na mesa. Não se sinta obrigado a fazer o mesmo. Isto já deve ter chegado aos seus ouvidos, mas o fato é que está se espalhando um boato de que seu nome é Alice Sheldon.
 
Alice Bradley Sheldon admitiu a verdade; continuou usando o pseudônimo masculino para assinar seus livros, manteve a privacidade (recebia pouquíssimas pessoas). E sua vida anterior começou a ser mais conhecida.
 
Mary Hastings e seu marido Herbert Bradley (os pais de Alice) eram ricos, colecionavam objetos de arte, e eram fascinados pela África. Alice nasceu em 1915, e aos seis anos já acompanhava os pais em safaris, numa caravana com mais de 200 carregadores. Foram eles os primeiros brancos a alcançar as margens do Lago Kivu, entre Ruanda e o Congo, e fizeram as primeiras filmagens de gorilas em seu habitat.
 
A garota alternava momentos de pânico e de onipotência.
 
Se eu largasse alguma coisa no chão, já estava habituada a apenas bater palmas, e seis enormes canibais nus se precipitavam para recolher o objeto e me entregar de volta.


 
(Alice Sheldon na África, aos 6 anos) 

 
De volta a Chicago, Alice leu furiosamente durante a adolescência e início da vida adulta: Rudyard Kipling, Spinosa, William James, W. B. Yeats, Proust, Freud, Ibsen, Dostoievsky – e carradas de pulp magazines de ficção científica, que ela doou a uma biblioteca quando entrou para o Exército (WAAC, Women's Army Auxiliary Corps) em 1942, aos vinte e sete anos.
 
É grande a tentação de resumir aqui a vida de Alice, que casou com um militar (Huntington Sheldon, “Ting”), entrou com ele para a CIA em 1952, saiu de lá em 1955 e voltou para a vida universitária, onde se doutorou em Psicologia Experimental (1967).


 

A biografia de Julie Philips, James Tiptree Jr. – The Double Life of Alice B. Sheldon (St. Martin’s Press, 2006) é uma das melhores que já foram escritas sobre um autor de ficção científica. 
 
Ela revela a rivalidade entre Alice e a mãe (uma “escritora de verdade”, autora de livros sérios, elogiados pelos críticos), sua paixão pelo xadrez (consta que seu marido, Ting, apaixonou-se por ela ao ser derrotado num jogo de xadrez onde Alice estava com os olhos vendados), seu projeto de montar uma granja de aves (que só lhe deu prejuízo), sua mania de escrever aos autores que admirava (Ítalo Calvino lhe respondeu: “Uma carta como a sua é o melhor presente que um carteiro pode deixar na minha caixa. É para o leitor desconhecido que todo autor escreve, mas são raras as chances de encontrá-lo, mesmo por correspondência, e de descobrir que ele é uma pessoa tão bacana e tão espirituosa”). 
 
Tal como Philip K. Dick (com quem também trocou cartas), Alice era viciada em drogas permitidas, drogas de farmácia. Julie Philips relata (Cap. 36) que num período de duas semanas em maio de 1976 ela registrou em seu diário o uso de Seconal, fenobarbital, Dexedrine, Compazine, codeína, Percodan, Valium, Demerol e Numorphan. O desgaste da idade se abateu sobre ela e mais ainda sobre Ting, que era doze anos mais velho, e cuja condição de saúde se agravou aceleradamente. Ela falava aos amigos mais próximos sobre um “pacto de suicídio”. 
 
Em 1987, ela matou o marido e se suicidou em seguida, não sem antes avisar o advogado da família. Os dois foram encontrados na cama, lado a lado, de mãos dadas.
 
Alguns contos de James Tiptree Jr. já saíram no Brasil, na saudosa Isaac Asimov Magazine (Ed. Record), editada por Ronaldo di Biasi.
 
Agora, a Ímã Editorial, na sua coleção “Meia Azul”, lança o volume Mulheres Que os Homens Não Veem. O volume traz um prefácio da escritora e blogueira Lady Sybylla, a transcrição de trechos de cartas de Alice, e três contos dentre os melhores dela, traduzidos por mim: “Mulheres Que os Homens Não Veem” (“The Women Men Don’t See”, 1973), “Garota Plugada” (“The Girl Who Was Plugged In”, 1973) e “As Mulheres Que Morrem Como Moscas” (“The Screwfly Solution”, 1977, publicado sob o pseudônimo de Raccoona Sheldon).



 
James Tiptree Jr. é um desses casos de pseudônimo que acabou se tornando, como os heterônimos de Fernando Pessoa, um personagem em si, um “Eu dramatúrgico” que brota no momento da escrita e serve ao autor como uma personalidade postiça, capaz de mobilizar toda a sua energia criativa, e de acessar redutos emotivos que normalmente ficam vedados no dia a dia. 
 
A “máscara masculina” serviu a Alice Sheldon para a criação de uma persona biograficamente verdadeira mas com um espírito inventado. Depois que sua identidade se tornou pública, Alice explicou às pessoas com quem se correspondia (principalmente Ursula LeGuin e Joanna Russ) que tudo que dissera de si mesma era verdade, menos o fato de ser homem. E depois que o segredo vazou, ela confessou ser incapaz de “psicografar” novamente a voz de James Tiptree Jr.  Foi como se ele tivesse desaparecido, e tudo que ela publicou a partir dali custou-lhe muito mais esforço e teve menos impacto.
 
Ainda assim, o “menos impacto” de Sheldon/Tiptree está muitos pontos acima da maioria da FC norte-americana, onde a maioria dos autores não tem, nem de longe, a experiência de vida que ela teve, quando começou a publicar FC aos 50 anos. Neurótica, empoderada, desafiadora, sofisticada, ela dizia que um pseudônimo masculino a poupava de ser chamada pela enésima vez de “a primeira mulher a...”
 
Experiência múltipla de vida e cultura literária produziram essa autora capaz de usar títulos como:
 
“Her Smoke Rose Up Forever”
“Your Faces, Oh My Sisters! Your Faces Filled of Light!”
“The Psychologist Who Wouldn’t Do Awful Things to Rats”
“Faithful To Thee, Terra, In Our Fashion”
“The Snows Are Melted, The Snows Are Gone”
“Love Is The Plan, The Plan is Death”
 
Uma autora que declarou, numa carta a um amigo:
 
Eu sou metade mulher, metade ser humano.
 


 
 
 









quarta-feira, 6 de setembro de 2023

4979) A Barbárie de Queimadas (6.9.2023)



 
Numa noite de fevereiro de 2012, na cidade de Queimadas (PB), um grupo de homens armados e mascarados invadiu uma casa onde rolava uma festa de aniversário com rapazes e moças, alguns deles de famílias consideradas importantes na cidade. A luz foi apagada, as pessoas foram amarradas e distribuídas pelos vários quartos. Seguiu-se uma série de estupros, espancamentos, ameaças. A certa altura, duas das mulheres foram arrastadas para uma camionete, que partiu em seguida. Na mesma noite, as duas foram encontradas, mortas a tiros. Eram Izabella Pajuçara, “Ju”, e Michelle Domingos. 
 
O caso ficou conhecido como “a Barbárie de Queimadas”, e assim continua a ser chamado pela imprensa. Em princípio, é um caso de violência e feminicídio semelhante a muitos outros que acontecem no Brasil.  O escritor e jornalista Bruno Ribeiro acompanha o episódio há mais de dez anos, e entrevistou mais de cem pessoas para escrever o livro Era Apenas Um Presente Para o Meu Irmão (Todavia, 2023). 
 
No dia seguinte ao crime, o mistério começou a ser esclarecido. O mentor do assalto foi Eduardo dos Santos Pereira, o dono da casa onde acontecia a festa. Ele convidou várias moças da cidade, de famílias amigas, que conviviam no dia a dia com ele e com seu irmão, o aniversariante Luciano. O objetivo era fingir um assalto (recrutando alguns amigos) e permitir que todos pudessem estuprar as moças. 
 
O livro de Bruno Ribeiro destaca esses pontos que diferenciam este crime da maior parte dos gang rapes que se vê por aí. O primeiro ponto é o fato de que criminosos e vítimas se conheciam, conviviam no ambiente de uma cidade pequena. Ou seja, mesmo com o uso de máscaras e balaclavas cobrindo os rostos, era provável que algum deles acabasse sendo reconhecido, mesmo com a casa sob blecaute; e foi o que aconteceu. 
 
Outro ponto é que no grupo de dez estupradores havia pelo menos três menores de idade, e alguns indivíduos (descritos pelas testemunhas como “bobões”) que poderiam servir de bodes expiatórios. Alguns declararam que só tomaram parte no assalto porque a intenção (de acordo com o mandante, Eduardo) era de “fazer uma brincadeira”, “dar um susto nelas”. A explicação final do cabeça do crime é justamente a que deu o título ao livro de Bruno Ribeiro. Ou seja, o aniversariante iria receber de presente a chance de “comer na marra” algumas moças bonitas da cidade. 
 
Apenas duas mulheres da festa não foram tocadas: as esposas de Eduardo e Luciano, que foram trancadas juntas num quarto e poupadas pelo grupo. 
 
Tudo desandou quando Izabella reconheceu Eduardo e começou a gritar seu nome. Outros homens foram reconhecidos, pela voz, ou por adereços pessoais. No dia seguinte, as primeiras prisões ocorreram durante o velório das duas moças, à medida que os assaltantes entregavam uns aos outros. 




Bruno Ribeiro é autor de romances como Febre de Enxofre (Penalux, 2016), Glitter (Moinhos, 2019) e Porco de Raça (Darkside, 2021). O livro sobre a Barbárie de Queimadas ganhou o Prêmio Todavia de Não Ficção e faz um poderoso contraponto à sua ficção áspera, de prosa crispada e tensa, sobre a violência que perpassa o espírito do nosso tempo. 
 
Um aspecto interessante é que por volta da metade de Era Apenas Um Presente... já foi descrito o crime, já lemos os depoimentos dos envolvidos, já aconteceram as prisões e os julgamentos, as sentenças já foram proferidas. Temos a impressão de que o livro termina ali. O que resta para contar? 
 
Daí em diante começa a investigação do que rodeou o crime; do que o favoreceu; do que conduziu àquele estado de coisas; do que veio depois. Eduardo, o líder, foi condenado a 106 anos de prisão. Em novembro de 2020, ele fugiu andando, pela porta, do presídio de segurança máxima PB1, em João Pessoa. O escândalo dessa fuga fez estremecer novamente todos os fios que convergem para o crime de 2012. Lealdades de família, troca de favores, influência política, proteção, pesados subornos, tudo é discutido no ambiente dos advogados, dos jornalistas, dos policiais, dos defensores dos direitos humanos. 
 
O livro mostra essa rede tensa de relações sociais baseadas no dinheiro, na violência, na influência política, no machismo e na certeza da impunidade. Algumas pessoas, na época, chamaram os estupradores de Queimadas de “imbecis” por terem acreditado que um crime tão mal executado poderia passar impune. Na verdade, não houve tanta preocupação em esconder a identidade dos assaltantes. Os que estavam à frente tinham certeza da impunidade, e sabiam que, mesmo presos, dariam um jeito de escapar. 
 
Bruno Ribeiro deixou o romancista de lado e ligou o aplicativo-jornalista para fazer o levantamento minucioso das histórias, versões e interpretações de dezenas de pessoas. Na última parte do livro, ele traz a narrativa para o presente e descreve, numa tensa narrativa em tempo real, a visita que fez à Rocinha, no Rio de Janeiro, e as cervejas que tomou no bar do pai de Eduardo – o bar onde muita gente, inclusive a polícia, acha que Eduardo está escondido até hoje. Nesse momento, depois de tantas páginas de compilação e recapitulação de momentos passados, o romancista emerge com a habilidade de mostrar o momento presente: um galeto servido na mesa, a troca “casual” de frases com os parentes do criminoso, a presença de homens que bebem numa mesa afastada, uma ida ao banheiro, uma música que toca... 
 
É em ambientes assim que os crimes são gestados? Talvez, porque a possibilidade do crime permeia tudo, como uma umidade relativa do ar que está sempre presente e invisível, e a qualquer momento, em qualquer lugar, pode se concentrar em tempestade. 
 
Como diz o autor: 
 
“Quando se estuda crimes no Brasil, pode-se dizer que aquele que suja as mãos é pego, mas quem o mandou sujar as mãos, não. Há sempre uma parte que nunca é agarrada, algo movediço, alheio aos nossos esforços. No caso da Barbárie, o julgamento foi uma resolução clara do caso, resolvido até com certa destreza. Mas as raízes do crime, tudo que existiu para fazê-lo acontecer e, não só ele, mas tantos outros casos de feminicídio que foram praticados e ainda acontecem em Queimadas, parece ficar na escuridão, abafado. A resolução de grandes crimes é sempre uma metonímia: uma narrativa que nos entrega mais um pedaço que o todo.” (pág. 188)
 





domingo, 3 de setembro de 2023

4978) Quatro mentiras do bem (3.9.2023)




1
D. Hosana Silveira, 61 anos, dona de casa, foi até a feira livre de um bairro próximo, numa sexta, à procura de alguns ingredientes para o almoço de sábado. Fez as compras habituais em algumas barracas de vendedores já conhecidos, mas na última, a de melancia, teve uma decepção. “Tive um problema e só recebo amanhã,” explicou seu Arnaldo, alto, bigodão de ponta, prestativo. “Que pena,” disse ela, “meu cunhado vem almoçar com a gente amanhã, e ele adora”; mas comprou  algumas frutas menores e despediu-se. Depois que guardou tudo em casa, lembrou-se de uma quitanda perto da praça onde vira melancias tempos atrás. Foi, arriscando; e deu sorte, porque havia, e ela comprou logo duas, para se garantir. No dia seguinte, passava um pouco do meio dia quando tocaram no portão, e ela saiu e deu de cara com seu Arnaldo, retirando do bagageiro de uma moto uma sacola grande. “Quem me ensinou sua casa foi Seu Dão, o do peixe.” Afastou as duas alças da sacola e revelou duas enormes melancias. “Trouxe logo duas, pra garantir,” disse todo animado. “Meu Deus do céu, seu Arnaldo,” exclamou D. Hosana. “Salvou meu almoço! Quanto é?...” 
 
2
Bittencourt Juvino da Mota, 70 anos, metalúrgico aposentado, colaborador de semanários e tabloides trabalhistas, conhecido como “Bité do Sindicato”, intelectual auto-didata, amante dos livros e da música popular brasileira (“mas só a autêntica”), um auto-proclamado marxista-leninista, que rompera aos 19 anos com os pais ao se proclamar ateu e perseguidor de Papas, costumava de vez em quando tomar uma cervejinha de leve no bar do colega Damásio , lembrando os velhos tempos. Certa noite estava lá, perto da hora de fechar, quando elevou-se dos fundos do bar um alarido de choros femininos. “É a filha da cozinheira que o menino está com febre,” explicou Damásio, “não tem nem uma semana de nascido”. Os dois foram até o quarto dos fundos. Sentada na cama, uma moça magrinha de cabelos desgrenhados segurava ao colo um bebê minúsculo envolto num trapo, enquanto uma mulher idosa murmurava, debulhando um terço. A mocinha ergueu para os dois homens um rosto de lágrimas escorrendo. “Seu Damásio, o bichinho vai morrer pagão!”  Bité aproximou-se, tocou no peito arquejante do bebê, viu como os olhos já meio que se reviravam. Viu uma caneca de lata junto do filtro, derramou ali dois dedos de água, pegou na asa dobrando o indicador esquerdo, mandou que todos se afastassem. Perguntou o nome do menino; era Natanael.  Mergulhou o indicador direito no líquido, e fez o traçado regulamentar na testa que ardia em febre, dizendo: “Natanael, eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.” Todos murmuraram: “Para sempre seja louvado.” E a mocinha beijou a mão de Bité. 
 
3
Hélio  Fernando de Sousa, 54 anos, comerciante em Patos (PB), acompanhava com vibração a campanha da Seleção Brasileira na Copa de 2014. Apesar das performances pouco convincentes do time de Felipão, ele estava confiante no Hexa, conforme dizia a sua esposa Dona Rute e a todos os amigos. Em 7 de julho, ao voltar para casa às pressas (tinha esquecido uma pasta de documentos que precisava apresentar no fórum) perdeu o controle da direção, colidiu em dois outros carros e espatifou o seu Pálio de encontro a uma árvore. Gravemente ferido, foi conduzido à UTI de um hospital local, onde permaneceu sedado. Dois dias depois, mesmo com seu estado se agravando, recuperou a consciência e reconheceu Dona Rute, perguntou que dia era. “Já teve o jogo Brasil x Alemanha?”, perguntou. Dona Rute, que na véspera assistira taciturna o jogo inteiro, na esperança de um dia comentar os detalhes com o esposo, disse que sim. “O Brasil ganhou?...” disse ele. E ela respondeu, com um sorriso: “Ganhou de dois a zero.” “Eu sabia,” disse ele, e fechou os olhos. Minutos depois mergulhou num coma profundo do qual nunca veio a retornar. 
 
4
Leila Gonçalves, 28 anos, recepcionista, não cabia em si de felicidade após seu casamento com Djalma “Dêja” Antunes Ferreira, 33 anos, professor da rede pública. A grana era curta mas o amor não tinha mais tamanho, porque os dois tinham gostos e temperamentos harmônicos, conversavam muito, e estavam naquela fase inicial do casamento em que a alma se abre para o universo e o corpo só pensa numa coisa, que aliás estava mais que satisfatória para ambos. Leila era boa de receitas e gostava de cozinhar de vez em quando para ele (por questões de agenda e horário, durante a semana os dois comiam no trabalho). Certo fim de semana, Dêja acordou no bom humor de sempre e extraiu dela a promessa de que ficaria deitada até que ele a chamasse à sala. Quando o fez, ela se deparou com a mesa posta, uma terrina de arroz, outra de salada, outra de batatas, e uma travessa com dois enormes e suculentos bifes. Cobriu-o de beijos, sentaram-se, comeram, e a certa altura ele disse: “Seja honesta, seja amiga. Ficou bom?” Ela, que até então mastigara em silêncio, ergueu para ele dois olhos puros e límpidos de mulher apaixonada e disse baixinho: “Môzinho, está delicioso.” 
 
 




quinta-feira, 31 de agosto de 2023

4977) Os monstros do Loch Ness (31.8.2023)



 
Desde que eu me entendo por gente existe uma busca constante pelo famoso Monstro do Loch Ness, uma espécie de criatura aquática pré-histórica que se diz existir nesse lago da Escócia. Dezenas de pessoas dizem que já o viram, mas isto não prova a existência de nada. Algumas pessoas o fotografaram, mas isto nunca foi prova, mesmo no tempo dos filmes de celulóide e de negativos que podiam ser periciados. Depois da invenção do Photoshop, e, agora, com a famigerada Inteligência Artificial, fotos do monstro vão pipocar por todos os lados. O que também não serve de prova para coisa alguma.
 
A foto mais famosa do monstro (a do início deste texto) foi tirada em abril de 1934 pelo médico londrino Robert K. Wilson. É tão famosa quando a foto do Pé Grande (ou “Sasquatch”) – na verdade um fotograma de um curto trecho de filme captado em 1967 no norte da Califórnia por Roger Patterson e Robert Gimlin. As acusações de fraude são muitas, é claro. Vendo um monstro, quem resistiria a fotografá-lo? Não o vendo, quem resistiria a forjar uma foto? Vendo a foto, quem resistiria a questioná-la? E la nave va.



(O sasquatch)

 
Neste ano de 2023 foi desencadeada uma nova busca ao monstro do Loch Ness, ou “Nessie”, desta vez usando barcos com hidrófonos (que captam o som num meio líquido) e drones térmicos, que fotografam a água de cima para baixo, registrando imagens dos objetos com diferença de temperatura. “Nessie” deve ser o mais famoso dos criptídeos (animal cuja existência é suposta, mas não comprovada). Buscas deste tipo criam uma situação ambígua. Descobrir o monstro (vivo ou morto) não seria uma maneira de extinguir a curiosidade, a atração, as polêmicas?


 
Uma característica interessante do Loch Ness é a sua extensão. Ele é uma faixa de água estreita e comprida, num comprimento de cerca de 56 quilômetros por 2 ou 3 km de largura, e com uma profundidade máxima de 220 metros. A água é pouco transparente, devido às características do solo em volta. Ou seja – há uma série de circunstâncias físicas tornando a busca mais fácil ou mais difícil, conforme o ponto de vista.
 
Há uma verdadeira indústria local em torno dos avistamentos do monstro, e isso nos remete a uma coisa curiosa. As aparições da Virgem Maria em localidades como Lourdes (1858), Fátima (1917), La Vang (1798), Zeitoun (1968) são fatos que desencadeiam reações muito parecidas. Alguém vê (ou imagina ter visto) algo extraordinário. A notícia se espalha, multidões acorrem, a imprensa aproveita, os céticos ridicularizam, os crentes se encolerizam e acreditam cada vez mais...
 
E enquanto isto há um saudável aquecimento da indústria hoteleira local, dos restaurantes, dos postos de gasolina, das lojas de souvenires, dos postos de venda de produtos relacionados ao fenômeno – quadros, imagens, bonecos, panfletos, fotos, bonés, camisetas e por aí vai.



 
Fatos deste tipo lembram um conceito proposto por Kurt Vonnegut Jr. em seu livro Cama de Gato (“Cat’s Cradle”, 1963). É o conceito de “wampeter” – que, ao que eu saiba, nada tem a ver com o trêfego jogador Vampeta, ex-Corinthians e Seleção Brasileira.
 
Em seu livro, Vonnegut descreve uma religião bizarra, o “bokononismo”, organizada em torno de conceitos bem curiosos. Bem ao estilo do autor de Matadouro Cinco, são conceitos cheios de crítica corrosiva ao funcionamento do nosso mundo.
 
O wampeter precisa ser entendido em função de outro conceito, o karass, que ele explica logo nos capítulos iniciais do livro (Cama de Gato, Ed. Aleph, trad. Livia Koeppl):
 
Nós, bokononistas, acreditamos que a humanidade é organizada em equipes, equipes que realizam a Vontade de Deus, sem nunca descobrir o que estão fazendo. Bokonon chamou equipes como essas de karass (...). “O homem criou o tabuleiro de xadrez: Deus criou o karass”. Com isto ele quer dizer que um karass ignora fronteiras nacionais, institucionais, profissionais, familiares e de classe social. Tem a forma tão livre como a de uma ameba. (pág. 12)
 
No capítulo 24, ele explica:
 
Isto me leva ao conceito bokononista de wampeter.
 
Um wampeter é a base de um karass. Não existe karass sem wampeter, Bokonon diz, assim como não existe uma roda sem eixo.
 
Um wampeter pode ser qualquer coisa: uma árvore, uma pedra, um animal, uma idéia, um livro, uma melodia, o Santo Graal. Seja o que for, os membros do karass giram em torno do seu wampeter no caos majestoso de uma nebulosa espiral. É evidente que as órbitas dos membros do karass que estão em volta do wampeter em comum são órbitas espirituais. São as almas que giram, não os corpos. (pág. 58)
 
O monstro do Loch Ness é um wampeter, uma hipótese que atrai para si a vida e os esforços de dezenas de milhares de pessoas, talvez mais, mobilizadas para demonstrar sua existência ou sua não-existência. Nesse grupo heterogêneo cabe todo tipo de gente, desde os fanáticos que fazem disto uma religião até cientistas de bom senso tentando estabelecer a verdade dos fatos, e gente com dinheiro sobrando, tempo livre, e disposição para embarcar em alguma aventura divertida.
 
É possível (longinquamente possível, arrisco-me a supor) que haja algum ser pré-histórico no Loch Ness, ou se não pré-histórico pelo menos algum tipo raro de criatura volumosa e assustadiça. A busca por ela é algo mais justificável, por exemplo, do que a demanda dos defensores da Terra Plana. Ainda não podemos afirmar com certeza que “Nessie” não existe, então faz sentido investigar se ela é real ou não. Por outro lado, a redondeza da Terra foi comprovada de muitas maneiras. Que wampeter meio absurdo é este, que mobiliza tanta gente?



(O Lago Ness)
 

As pessoas precisam girar em torno de uma idéia, um projeto, um objetivo (=um wampeter), entre outros motivos pelo fato de que nossa sociedade se interessa por pessoas que agem assim. Vendo no streaming alguns documentários sobre terraplanistas, observei mais uma vez um padrão recorrente. Um número considerável deles são pessoas com certa segurança material (dinheiro herdado, ou profissões confortáveis) mas sem um objetivo mobilizador de suas energias, e muitas vezes com uma certa angústia de invisibilidade social, aquele pavor de “não ser ninguém”.
 
No momento em que se tornam parte de um karass e dedicam-se a um wampeter (um wampeter extraordinário, polêmico, fora do comum) essas pessoas saltam para outro patamar social. Ficam famosas. São convidadas para participar de convenções, seminários, mesas redondas; recebem bilhetes aéreos e vouchers de hospedagem; dão entrevistas para jornais e emissoras de TV; envolvem-se em polêmicas que do dia para a noite fazem a Web pegar fogo com acusações, questionamentos, desmentidos, solidariedades, traições... 
 
Em suma: por causa do wampeter que cultivam, esses John Does, esses Zé Ninguéms tornam-se pessoas importantes, e os mais espertos chegam mesmo a faturar uma boa grana.
 
O monstro existe? A Terra é plana? No fim das contas, isso é irrelevante. Existe a busca pelo monstro, existe a “demonstração” da idéia terraplanista, e é isto que faz mover a engrenagem de discussões, artigos, programas, debates, teses, documentários, notícias. O fenômeno de um karass em torno de um wampeter tem a forma de uma rosquinha, um “donut”, um toróide. O centro é vazio, sim, mas tudo que gira em torno dele é real.




 
 





segunda-feira, 28 de agosto de 2023

4976) A arte do nome do personagem (28.8.2023)




O nome é o rosto verbal do personagem, a senha que basta pronunciar para fazê-lo surgir por inteiro.  Na criação de um personagem, a escolha ou invenção de um nome próprio é uma decisão final que nem sempre é fácil.  Alguns escritores costumam fazer listas de nomes e sobrenomes, e os distribuem pelos personagens seguindo um pouco o instinto e um pouco a busca de verossimilhança. 
 
Pode ser que o autor queira fazer do seu personagem alguém típico, mediano, e nesse caso pode ser útil dar-lhe um nome quase invisível.  “José da Silva” já é caricatural, mas nomes como “Antonio Barbosa” ou “Paulo Ferreira” são nomes brasileiros que tendem a passar despercebidos.  Qualquer “Maria” se dilui em milhões de outras, a menos que traga um segundo nome fora do comum. 
  
Na antiga literatura satírica ou moralizante usava-se o nome do personagem para revelar desde logo sua característica principal.  Um indivíduo ingênuo chamava-se “Simplício” ou “Inocêncio”; um indivíduo decente e probo era “Honorato”.  “Fidélia” sugeria uma esposa digna, e  “Dolores” uma sofredora.  
 
Essas indicações óbvias destinavam-se talvez a um público leitor não muito sofisticado, para quem a iniciativa de associar o nome do personagem ao seu caráter era uma gratificante façanha intelectual.  Com o passar dos tempos este recurso foi se tornando mais sutil, mas não se perdeu de todo.  Em Dona Flor e Seus Dois Maridos Jorge Amado contrasta os dois esposos da protagonista chamando a um Vadinho, que sugere “vadio”, e ao outro Teodoro Madureira, que sugere um homem religioso e maduro.  
 
Os nomes dos personagens de Guimarães Rosa já mereceram numerosos estudos, começando pelo Recado do Nome de Ana Maria Machado, em 1976.   Na literatura de Rosa existe um propósito permanente de não tratar os nomes próprios como um dado imutável, documental, extraído da realidade e impossível de modificar.  Ele considera que o nome é um elemento literário a mais, e que cabe ao escritor interferir nele, torná-lo significante.  
 
Os nomes dos grandes personagens de sua obra (Riobaldo, Diadorim, Zé Bebelo, Augusto Matraga, Miguilim, etc.) já foram exaustivamente analisados pela crítica.  Mas basta pegarmos uma lista de coadjuvantes para perceber o ouvido e a memória afetiva do autor, como nas listagens que Riobaldo faz dos jagunços do bando: Alaripe, Sesfrêdo, João Concliz, Quipes, Joaquim Beijú, Tipote, Quêque, Mão de Lixa, Freitas Macho, Preto Mangaba, Coscorão, Jiribibe, Moçambicão, Sidurino, Rasga-em-Baixo, Dimas Doido...  Nomes tão peculiares e característicos quanto um rosto humano visto de perto.
 
Nomes abstratos foram muito usados na literatura romântica, onde apareciam “o Marquês de S...” ou “a Duquesa de D...”, quando não “o Barão de ***” – o que levou a Emília de Monteiro Lobato a proclamar-se “Condessa de Três Estrelinhas”. 
 
Osman Lins foi um dos raros escritores brasileiros a criar um sinal gráfico para designar um personagem, em vez de um nome.  Em seu romance Avalovara, uma personagem feminina é referida por um sinal: um círculo com um ponto no centro e duas pequenas saliências erguidas dos lados, como duas orelhas.  Um recurso ousado, até pelo fato de que o leitor não dispõe de um equivalente sonoro para este sinal, como ocorre com qualquer nome comum. Se um personagem se chama “Capitu”, existem sons correspondentes à combinação dessas seis letras nessa ordem.  Mas a personagem de Avalovara existe apenas para os olhos, na página; é um personagem fora do mundo oral.


 (Avalovara

 
Oswald de Andrade, embora mais conhecido como poeta e agitador literário, escreveu dois romances que estão entre as obras mais criativas de todo o Modernismo Brasileiro, Memórias Sentimentais de João Miramar  e Serafim Ponte Grande.  Neles, a verve satírica do escritor se volta contra a afetada e ignorante burguesia de sua época, e ele prega aos seus personagens nomes burlescos: Pinto Calçudo, Machado Penumbra, Madama Rocambola, Carlindoga, Mariquinhas Navegadeira...  São nomes que nada têm de realistas, mas que muitas vezes evocam justamente os apelidos cômicos que as pessoas de sobrenomes pomposos colocam nos parentes, na sua intimidade familiar. 
 
A literatura de ficção científica tem a obrigação de inventar outros mundos, outras civilizações, outras línguas e outras Histórias.  Como produzir nomes que reflitam essa enorme estranheza?  Um alienígena, vindo de outro sistema solar, não pode se chamar William nem Bóris.  Uma solução frequentemente empregada pelos autores é tentar reproduzir foneticamente os sons, teoricamente ininteligíveis, que constituem os nomes próprios.  Daí surgem nomes como “Ph’theri” e outros. 
 
Isaac Asimov, nas suas histórias sobre robôs inteligentes, dá aos seus robôs mecânicos siglas que são transformadas, na linguagem coloquial, em nomes próprios.  Assim, “NS-Two” torna-se “Nestor”, “LV-X” torna-se “Elvex” e assim por diante.  Já os nomes dos personagens humanos na sua série da “Fundação” são uma hábil mistura de radicais e sílabas aleatórias, que os tornam fáceis de pronunciar, mas com o grau de estranheza suficiente para parecerem nomes de outros mundos: Hari Seldon, Salvor Hardin, Golan Trevize, Dors Venabili, Ebling Mis, Eto Dermezel, etc.  
 
Cada escritor cria um laboratório de nomes de acordo com o universo que está criando.  Os planetas onde ocorrem as histórias de Cordwainer Smith têm um clima retrô, são civilizações avançadas que procuram reproduzir fases antigas da História da humanidade, recorrendo a idiomas extintos.  Isto o faz criar nomes próprios como Lord Jestocost, Dolores Oh, Magno Taliano, Lord Femtiosex, Lady Arabella, Lord Sto Odin, além de lugares como o planeta Viola Siderea e o Alpha Ralpha Boulevard, “a avenida que subia até as nuvens”.  
 
O ideal é que um nome literário seja marcante, único, e que fique colado àquele personagem para sempre: Quincas Borba, Jane Eyre, Gregor Samsa, Isaías Caminha, Emma Bovary, Dorian Gray, Maria Moura...  Nomes fortes, característicos, não tão comuns que se confundam com outros, não tão raros que sugiram um exotismo desnecessário. 
 
 
(Uma versão ligeiramente diferente deste texto apareceu na revista Língua Portuguesa, Editora Segmento (São Paulo), março de 2009)
 
 





quinta-feira, 24 de agosto de 2023

4975) Drummond: "Cabaré Mineiro" (24.8.2023)



 

Este poema do livro Alguma Poesia (1930) poderia aparecer numa antologia de poesia erótica brasileira, sem decepcionar. Decepcionaria, talvez, quem acha que a poesia erótica só é feita para excitar, para despertar um desejo bem empoderado de fazer “aquilo”. Nada contra; mas existe a poesia erótica que implica numa reflexão sobre o erotismo, num desvendar de sintomas do erotismo, como se mostrasse um ambiente (ou uma vitrine) e perguntasse mudamente ao leitor: “Isto te excita? E isso? E aquilo?”.
 
Ou, para lembrar o título impagável de um conto de Robert Sheckley: “Você sente alguma coisa quando eu faço assim?...”
 
“Cabaré Mineiro” é um título auto-explicativo e merecedor de comentário. Existem vários tipos de lugares chamados de "cabarés", que não são, necessariamente, casas de prostituição. Neste extremo, temos aqueles lugares onde os clientes entram, há um recinto com várias mulheres em exposição (ou elas são trazidas em grupo, para serem apreciadas), o cliente escolhe uma, e os dois se retiram rumo a um dos quartos.
 
É um sistema vapt-vupt, eminentemente prático; ninguém perde tempo com nhém-nhém-nhém. (Já ouvi muuuito esse argumento.) A gente vê isso em contos de Rubem Fonseca, em filmes como Domicílio Conjugal de François Truffaut ou A Bela da Tarde de Luís Buñuel, em filmes de Fellini como Roma, Amarcord etc.  Eu acho que chamar de cabaré um lugar desse tipo é usar um santo nome em vão.
 
No extremo oposto, o cabaré é um lugar alegre. Um night-club: tem mesas, pista de dança, palco com orquestra (ou, na faixa popularesca, vitrola de ficha), balcão e garçons servindo bebidas... Os quartos ficam no andar de cima ou na parte traseira, mas as mulheres circulam por entre os clientes, conversam, sentam na mesa, bebem, flertam... Ali o nhém-nhém-nhém impera, porque (também já ouvi muito este argumento) sem nhém-nhém-nhém que graça tem?!
 
O cabaré do poema de Drummond é bem assim, como os cabarés de Jorge Amado. É um espaço social onde os homens se exibem, gastam a rodo, disputam a atenção das mulheres mais bem cotadas, assistem danças, em alguns casos jogam baralho... O sexo é apenas um dos elementos envolvidos.
 
O poeta diz:
 
A dançarina espanhola de Montes Claros
dança e redança na sala mestiça.
 
A nacionalidade duvidosa da dançarina já carimba no primeiro verso a natureza fantasiosa do ambiente, onde o uísque escocês é paraguaio. A “sala mestiça” é um elemento confirmador de que não é nenhum “Tabarís” frequentado por coronéis ricaços; é um cabaré de classe média.
 
Com olhos morenos estou despindo
seu corpo gordo picado de mosquito.
Tem um sinal de bala na coxa direita,
o riso postiço de um dente de ouro,
mas é linda, linda, gorda e satisfeita.
 
É interessante o fato do poema ser narrado, sem pudor, na primeira pessoa. Não se trata de saber, biograficamente, se Drummond frequentava cabarés, mas de vê-lo como um personagem-narrador identificado com o ambiente.
 
É o mesmo poeta que no mesmo livro insiste em afirmar que já foi “brasileiro moreno como vocês”. O poeta afirma ter olhos morenos, como em outro poema queixava-se do “desprezo da morena”. Há uma busca consciente de brasileiridade, projeto meio confuso mas provavelmente sincero que os modernistas cultivaram em maior ou menor grau.
 
A descrição realista da dançarina torna mais clara essa tensão mental e simbólica entre a mente de um rapaz classe-média (que está ali, em princípio, pagando) e uma moça pobre. Ela é picada de mosquitos, tem marca de bala, tem dente de ouro, é gorda... Mas é linda, é linda! O desejo fala mais ato do que tudo. O poeta os supostos defeitos, mas não liga. E quem liga?! 
 
Lembra um poema muitíssimo posterior de Drummond, de Boitempo, onde ele diz: “eu quero a puta eu quero a puta”.
 
Ele (o narrador da historinha) quer descarregar a tensão sexual acumulada, é claro, mas é mais do que isso. Ele quer compartilhar (com ela, com o leitor, tanto faz) o instante de iluminação em que ele percebe que uma mulher feia pode ser linda, o desejo de quem precisa dela a torna linda; assim como um país feio pode ser um país lindo, se conseguirmos ter desejo por esse país.
 
Como rebola as nádegas amarelas!
Cem olhos brasileiros estão seguindo
o balanço doce e mole de suas tetas...
 
Estou exagerando? Não acho. Olha só o paralelismo dos versos “com olhos morenos... / cem olhos brasileiros...”. Ele pula da experiência particular para a experiência social, coletiva. Naquele salão, todos somos morenos, todos somos brasileiros, todos somos espanholas de Montes Claros. Há um desejo coletivo que serve de liga, de argamassa.
 
As tetas da dançarina, elemento atrator do desejo dos homens, equivalem às tetas da lavadeira em “Iniciação amorosa”. E lembra os versos do repentista Canhotinho:
 
Quando era injusto o Brasil,
os pretos se cativaram;
o choro dos filhos brancos,
as mães pretas consolaram,
e o leite dos filhos pretos,
os filhos brancos mamaram!
 
É mais um capítulo da nossa promiscuidade cruel e afetiva entre classes sociais, com sua mistura de desejo e repulsa, de dominação e submissão, de exploração e de armistício.
 


(Canhotinho)
 





segunda-feira, 21 de agosto de 2023

4974) Eu já fui cineasta (21.8.2023)



(Lydia Tár)


Em certos momentos tenho a impressão de que fui a única pessoa a gostar do fime Tár, estreado por Cate Blanchett e dirigido (com brilhantismo) por Todd Field, aquele rapaz que faz o pianista amigo de Tom Cruise no filme kubrickiano Eyes Wide Shut (“De Olhos Fechados”, 1999).
 
Sei que não sou o único, claro, e nas redes sociais vi inúmeros elogios. Mas vi também rejeições bruscas, irritadas: ao filme, ao enredo, à personagem principal, à narrativa, à verossimilhança da história contada.
 
Tar se passa num mundo que eu só aceito como real porque sei que o é. É o mundo das pessoas riquíssimas, sofisticadas, cosmopolitas, poderosas. Não é um mundo de executivos bilionários, de banqueiros, de políticos. Curiosamente, é o mundo da Cultura e da Arte, ou seja, em princípio este mesmo mundinho de fundilhos rasgados e mão-em-concha onde vivo e bulo há mais de meio século.  
 
Só que, no caso dela, é o mundo da alta cultura, da música orquestral, das grandes temporadas líricas... Alguém já afirmou que a música sinfônica e a física teórica são as maiores contribuições da Europa ao pensamento humano. Uma constatação que pode ser ampliada, é claro (eu incluiria o romance dos séculos 18-19), mas nunca reduzida. Estes dois monumentos ninguém discute. 
 
Lydia Tár é uma maestra talentosa, culta, articulada, articuladora, ambiciosa, sagaz, olimpicamente certa do próprio poder no mundo da música. Não é um papel difícil para Cate Blanchett. Ela já interpretou Bob Dylan, o Dylan elétrico do Royal Albert Hall Concert, o Dylan de 1966. E tira Lydia Tár de letra.
 
A maestra é do tipo capaz de passar o trator por cima de tudo, quando precisa alcançar um objetivo: namorar uma musicista jovem, demitir um funcionário, proteger a filhinha que sofre bullying na escola, acabar um namoro que perdeu o encanto. Tudo isto a ajudou na subida à Fama – e, como nos romances-para-costureirinhas, tudo isto vai provocar seu desmoronamento final. (Que, ao contrário da maioria dos espectadores, achei adequado, dramaturgicamente plausível, e narrado com desconcertante simplicidade.)
 
Gosto de fazer aproximações inesperadas, meio randômicas, entre coisas não-relacionadas. O nome da personagem de Cate Blanchett me foi trazido à memória quando assisti agora há pouco tempo o documentário Béla Tarr: I Used to be a Filmmaker (2013) de Jean-Marc Lamoure, sobre o cineasta húngaro conhecido por seus filmes austeros, enigmáticos, arrastados, filosóficos, tarkovskyanos. 

(Béla Tarr)


O documentário acompanha as filmagens de O Cavalo de Turim (2011) o último filme dirigido por Tarr, nascido em 1955, autor de Satantango, O Homem de Londres  e outros.
 
É um filme feito na borda do fim dos tempos, por assim dizer: uma campina semi-desértica, açoitada por uma ventania que parece obstinar-se em varrer dali a presença humana para que o mundo se acabe sem que haja testemunhas.
 
Numa casa de pedra vivem um homem de um braço só e uma mulher jovem, aparentemente sua filha. Ele tem uma carroça e um cavalo, e de vez em quando vai vender coisas num vilarejo. E só.
 
O filme é preto-e-branco, e tem uma música que parece uma ventania repetida em loop misturada a uivos de banshees carpindo a morte do sol.
 
No doc, vemos Béla Tarr dirigindo cenas deste filme impressionante, e conversando com membros da equipe, que dão breves entrevistas comentando seu trabalho. São artistas que criam juntos com o diretor há muitos anos: a montadora (e esposa) Agnes Hranitzky, o escritor Lazslo Krasznahorkai, o fotógrafo Fred Kelemen, o compositor Mihaly Vig, a atriz Erika Bok.
 
É o mundo da Arte e da Cultura, também. E ao ver as filmagens de O Cavalo de Turim tenho a sensação de que o diretor e sua equipe estão mais próximos, social e historicamente, daqueles personagens miseráveis cuja vida estão filmando do que do mundo glitzy, o mundo blasé, o mundo highbrow da maestra Lydia Tár. 
 
Tudo isso é cultura, por certo, e não estou aqui contrapondo maestras que vestem (o quê, Deus do céu? Eu só estudei até Dior e Givenchy) a cineastas intelectuais que trajam capote e botas. É um mundo só, e Béla Tarr não é propriamente um tresmundista rodando filme vencido e largando papagaios no comércio do vilarejo onde filmou. Seus filmes são produções internacionais, e aparecem nos grandes festivais de cinema. Ele não é um pobretão.
 
Mesmo assim, há um contraste tão desconcertante entre o mundo de Lydia Tár e o mundo de Béla Tarr que o primeiro impulso é achar que são polos opostos, e que os dois nada têm em comum. Eu vejo, contudo, no olhar de Cate Blanchett (quando “recebe” a maestra) e no olhar do diretor húngaro a mesma concentração, a mesma fixidez, a mesma imperturbabilidade das pessoas capazes de criar com grande intensidade e em alto nível. O olhar impiedoso do artista nos momentos em que deixa de ser gente como a gente e passa a ser o que é.
 
A maestra deixa que a vida pessoal lhe arruíne a carreira; o cineasta pára de filmar em 2011 e vai fazer outra coisa. Rica ou modesta, fashion ou ascética, a Arte de verdade cobra um preço alto. Feliz de quem tem uma vida com que pagá-lo. 
 









sexta-feira, 18 de agosto de 2023

4973) Otacílio Batista, cantador (18.8.2023)

 
 
O próximo mês de setembro trará as comemorações do centenário de nascimento de Otacílio Batista, um dos grandes cantadores de viola de sua geração. Um amigo-e-mestre com quem tive a sorte de conviver durante alguns anos, principalmente entre 1975 e 1980, quando eu morava no Nordeste (Campina Grande, Salvador) e convivia mais de perto com o Olimpo da cantoria.
 
Digo “Olimpo” na brincadeira, mas a cantoria é meio assim – uma montanha fabulosa habitada por deuses capazes de façanhas que nos parecem sobrenaturais, mas basta subir a ladeira e vê-los de perto para constatar que são “humanos, demasiado humanos”, com as mesmas paixões nossas, os mesmos sentimentos, as mesmas qualidades e defeitos... Ou seja: são duas vezes mais interessantes.
 
Otacílio Batista (28-9-1926 / 5-8-2003) era um dos três irmãos violeiros que muito fizeram para transformar São José do Egito (PE) numa das capitais simbólicas da cantoria. Junto com Lourival (1915-1992) e Dimas (1921-1986) ele representou a geração de meados do século 20, que viveu e impulsionou um dos vários ciclos de expansão e modernização da arte do repente.
 
E está pronta para ir às livrarias a biografia Otacílio Batista, uma história do repente brasileiro (São Paulo: Hedra & Acorde!, 2023), escrita pelo seu neto Sandino Patriota, pesquisador da Universidade Federal do ABC (UFABC). Não é o primeiro livro  abordar a pessoa e os versos de Otacílio, mas neste caso o autor, sendo da família, teve acesso a uma grande quantidade de material, inclusive narrativas orais que enriquecem o retrato.
 
Otacílio Batista Patriota já tem o nome na métrica perfeita do decassílabo em martelo agalopado, com acento nas sílabas 3, 6 e 10. Era um cantador de verso rápido, mas com uma dicção calma e cadenciada, a cabeça trabalhando como um chip Intel enquanto a voz escandia as sílabas sem vexame (=pressa), como se estivesse ditando o verso para alunos aplicados.
 
Fui um deles, aquele tipo de aluno de mesa de bar a quem ele sempre dava explicações pacientes, orgulhoso ao ver como os universitários cabeludos e intelectualóides estavam começando, em meados dos anos 1970, a querer saber quem inventou o galope beira-mar, quem foi Fabião das Queimadas, e a diferença entre sextilha e gemedeira.
 
 O livro de Sandino traz uma comparação detalhada e pitoresca entre os três irmãos Batista, traçando o perfil único de cada um.
 
Lourival: o mais velho, boêmio, farrista, humor sarcástico, lirismo delicado, trocadilhista emérito, vida profissional caótica.
 
Dimas (que não conheci pessoalmente) mais reservado, leitor voraz, lírico e erudito ao mesmo tempo, acabou deixando a viola de lado para ser professor e diretor de colégio.
 
Otacílio, grande observador, de verso elegante e resposta rápida, autor de inúmeros livros, capaz de belas poesias líricas e de versos fesceninos de fazer inveja a Bocage.
 
Como observa Sandino Patriota:
 
Apesar de ser apenas oito anos mais velho do que Otacílio e seis do que Dimas, a distância real entre esses cantadores era de uma geração inteira. Lourival pertenceu à geração dos Vates antigos: cantava, se portava e pensava como os cantadores que fizeram fama no fim do século XIX. (pág. 24)
 
Começando a carreira de cantador profissional em 1940, Otacílio foi um dos protagonistas do “boom” do repente após a II Guerra Mundial.
 
Em 1946, Ariano Suassuna quebrou um honorável tabu da cultura elitista ao levar cantadores (os Batista entre eles) para o palco do Teatro Santa Isabel, no Recife.
 
Em 1947, Rogaciano Leite organizou o primeiro congresso (=festival) de cantadores do Nordeste, no Teatro José de Alencar, em Fortaleza, onde a dupla vencedora foi Cego Aderaldo e Otacílio Batista.
 
Em 1948 Rogaciano “fechou o firo” ao levar para o Teatro Santa Isabel o segundo congresso de cantadores.
 
Em 1949, um grupo de políticos e jornalistas, admiradores do repente, produziram e organizaram uma viagem, ao Rio e São Paulo, de um grupo de violeiros que incluía os três Batistas, o veterano Severino Pinto (o “Pinto do Monteiro”) e Agostinho Lopes dos Santos. A revista O Cruzeiro (25-6-1949) dedicou várias páginas à caravana de poetas, que cantaram para ministros e autoridades, e foram celebrados por Carlos Drummond de Andrade e Joaquim Cardozo.
 

(Otacíio, Lourival,  Pinto e Dimas)


É bom destacar, sempre, que isto se deu num momento em que o baião de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira varria o Brasil radiofônico de ponta a ponta, e Gonzagão nunca deixou de lembrar o quanto sua música devia à batida da viola e às toadas dos cantadores. Foi um grande momento de evidência da cultura do Nordeste na indústria cultural (rádios, jornais, revistas) sudestina.
 
Sandino aborda também a questão do mito de Zé Limeira, “o Poeta do Absurdo” celebrado por Orlando Tejo. Como se sabe, muitos dos versos atribuídos por Tejo a Zé Limeira foram escritos por Otacílio. Hoje, destrinchar quem fez o quê é um pouco como pegar uma xícara de café com leite e separar os dois.
 
Otacílio era alto, corpulento, branco de olhos claros, sempre bem vestido, passo vagaroso, porte altivo. Sempre cortês e atencioso, mas avermelhava num segundo quando alguma coisa o irritava. Bem humorado na hora da anedota ou da piada ferina sobre algum incauto, tinha pavio curto quando se ofendia, erguia os ombros, ficava que era ver um touro. Mas não era homem de briga; se vingava no verso, porque Deus é grande.
 
Lourival Batista já foi objeto de alguns livros (de Ivo Mascena Veras, Alberto da Cunha Melo), e de filmes de curta-metragem, inclusive o Bom Dia, Poeta (2015) de Alexandre Alencar, onde colaborei no roteiro. Otacílio tem agora esta atenta e útil biografia. Fica faltando a de Dimas Batista, o homem que disse: “tudo passa na vida, tudo passa, mas nem tudo que passa a gente esquece”.