quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

4306) "Com amor, Van Gogh" (18.1.2018)



Existe uma grande semelhança de resultado entre o filme Com amor, Van Gogh (“Loving Vincent”) de Dorota Kobiela e Hugh Welchman (em cartaz no Brasil) e os dois longas de animação rotoscópica feitos anos atrás por Richard Linklater (Waking Life, 2001, e O Homem Duplo, 2006). São filmes onde primeiro a câmera registra os atores falando e agindo, e depois essas imagens são “pintadas por cima”.

No caso de Loving Vincent, ao invés das técnicas costumeiras de estúdio foram usadas tela e tinta a óleo, semelhantes às que Van Gogh usava para pintar. Isto dá a este filme uma textura totalmente original.

Filmes rotoscópicos (total ou parcialmente) há muitos, mas gosto muito dos dois de Linklater porque eles evocam (principalmente o segundo) o universo de Philip K. Dick. O Homem Duplo é baseado no romance A Scanner Darkly, de Dick.

A primeira impressão produzida por Loving Vincent, um filme de “pintura animada”, como o chamou João Batista de Brito, é de um senso permanente de irrealidade. Isso já estava presente nos filmes de Linklater. Ambientes, corpos, rostos, objetos, tudo parece se comportar como na “vida real”, mas tudo é recoberto por uma ficção visual permanente, uma textura escandalosamente não-real que em momento algum nos permite entrar numa zona-de-conforto perceptiva.

Vendo um filme assim, o “distanciamento brechtiano” é inevitável: sabemos, o tempo inteiro, que é um filme, uma coisa construída a poder de borrões, manchas, pinceladas coloridas.

Isto entra em choque com o tom naturalista dos gestos, movimentos, expressões faciais, porque afinal de contas houve em algum momento um ator ou um  atriz sendo filmada. Cada cena tem como base da imagem uma infraestrutura realista de aparência e de movimentos, e sobre esta foi aplicada uma camada permanente de cores irreais e texturas impossíveis.


O resultado – em mim, pelo menos – é semelhante ao que temos nos sonhos, em que a intensa e falsa sensação de realidade (tem sonhos que parecem mais reais que o Real) é contaminada o tempo inteiro por uma certa incompletude, uma incoerência, um esgarçamento.

No sonho, a emoção parece 100% autêntica, mas isso é comprometido por um ruído constante de percepção, porque vemos as coisas com distorções, lacunas, falta de substância.

No filme de Van Gogh, isso fica ainda mais evidente em certas cenas de transição em que uma parede torna-se em alguns segundos o céu noturno, e só então percebemos o quanto o recurso técnico de fusão/superposição de imagens, geralmente para passar de uma cena a outra, já está tão assimilado pelo nosso cérebro que não percebemos o seu poder de desmobilizar nosso código de visão. E a vemos aqui como os espectadores de 100, 120 anos atrás viam as primeiras fusões de imagens fílmicas.

Loving Vincent é dessa maneira um alucinação sob controle que dura 95 minutos. É curioso e adequado que os filmes de Richard Linklater, que adotam esse processo técnico, tenham tido como inspirador Philip K. Dick. Tanto Dick quanto Van Gogh tiveram vidas alucinatórias. Drogas, loucura, imersão suicida na maginação criativa, dificuldade de sobrevivência... tudo isto os dois tinham em comum. E um descolamento contínuo do real, do banal, do feijão-com-arroz, para mergulhar num universo perceptivo só seu.

Adequado também que tanto Scanner quanto Vincent sejam histórias de investigações policiais, porque isto traz à tona o substrato existencialista de todo whodunit: O que é o real? O que foi que de fato aconteceu? O que existe de concreto por trás das versões conflitantes, da alucinação privada de cada um, o idiokosmos, como Dick gostava de chamar?

Aldous Huxley foi um dos primeiros a traçar o paralelo (em As Portas da Percepção, 1954) entre drogas, loucura e a experiência visual de certos artistas.

A exuberância lisérgica de Vincent nos dá uma idéia do mundo tão deslumbrante quanto exaustivo em que vivem os indivíduos mergulhados em estados alterados de consciência. As portas da percepção, talvez, devam ficar apenas entreabertas, somente uma rachadura deixando a luz entrar (como dizia Leonard Cohen), pois ninguém suporta uma vida inteira experimentada assim.



A percepção fraturada da realidade dá-se de maneira distinta no sonho, no uso de diferentes drogas, nas várias formas de loucura. (Tem gente que prefere dizer “transtorno mental” ou equivalente, mas eu não acho que loucura seja um termo pejorativo ou uma ofensa. É uma experiência humana como tantas outras.)

Talvez nenhum outro meio possa, como o cinema, produzir em nós essa impressão de estar vivendo algo que é real, palpável, indiscutível, e ao mesmo tempo incompleto, descontínuo, cheio de solavancos mentais.

Loving Vincent mostra essa contradição entre beleza e sofrimento. Agonia e Êxtase, título de um cinebiografia de Michelangelo, serviria também a este filme, que nos induz a ver a vida de Van Gogh como uma espécie de viagem-de-LSD permanente em seu misto de intensidade sensorial e desorientação cognitiva.

Um mundo de beleza insuportável, onde os objetos e os seres parecem perder sua historicidade e função para virar apenas uma série de manchas coloridas, de camadas pastosas que se superpõem emitindo luz e cor. E cabe a quem vive aquilo criar um sentido para tudo aquilo. Quem pode?






segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

4305) Oito acidentes de rotina (14.1.2018)



1
Suvrinda Amantchali, 48, agente imobiliária, moradora de Nova Delhi, estava sozinha em casa à noitinha quando houve um black-out.  Resolveu fazer um café, foi à cozinha no escuro com uma vela acesa em cima de um pires, ligou o gás, constatou que como se não bastasse a falta de luz o gás também tinha acabado, foi no quartinho dos fundos, trouxe o bujão de reserva, ligou-o com impaciência, sem perceber que tinha deixado o bico do fogão aberto, e a vela a meio metro de distância em cima da pia.

2
Paulo Alcides Monteiro, 27 anos, carioca, vinha andando pela rua quando percebeu que seu tênis direito estava com o cadarço solto.  Deu mais alguns passos e parou junto a um portão de chapas de metal, um tanto elevado em relação à calçada, e pousou ali o pé para amarrar o laço. O portão tinha uma brecha de uns quatro dedos em relação ao chão de cimento, e foi por ali que o doberman trancado abocanhou o pé dele.

3
Helmut Weissberg, 48 anos, morador de Munique, vinha voltando para casa de madrugada, numa estrada rural, ao volante de sua picape, após uma noitada numa cervejaria, quando ao entrar no povoado onde morava derrapou numa curva, desceu aos trambolhões pelo barranco, destruiu algums cercas e se chocou com o muro de uma casa, e como estava sem cinto de segurança foi arremessado no ar através de uma janela aberta onde aterrissou no quarto onde sua esposa, inadvertidamente, entregava-se a folguedos inconfessáveis com Mathias Brommberg, 51 anos, carteiro municipal.

4
Ananda Molinaro, 44 anos, manicure, residente em Palermo (Sicília), estava sozinha em casa à noite quando viu um escorpião sair de entre as pedras da parede e cruzar a sala. Lembrou-se da lenda a respeito de cercar o escorpião com um círculo de fogo para que ele se suicidasse, muniu-se de álcool e fósforos, e acabou ateando fogo ao animal, que disparou pela casa transferindo as chamas para o tapete, as cortinas, a toalha da mesa, o carrinho do bebê.

5
Barney Duclane, 48 anos, operário da construção civil em Baltimore, estava trabalhando no sexto andar de um edifício em construção quando, ao desferir uma martelada mais forte na tábua que estava pregando, viu a cabeça do martelo escapar do cabo e descrever um arco veloz cortando o espaço e terminando do outro lado da rua à altura da calçada, onde se chocou diretamente com a têmpora direita de James R. Martindale, 34 anos, corretor de seguros, cujo último pensamento foi a respeito da casa de praia que pretendia comprar dali a dois anos, quando recebesse uma promoção.

6
Damião Barbosa da Cunha, 31 anos, ambulante na praia de Ponta Negra (Natal), subiu num coqueiro para tirar um coco e vender a uma turista mas o coco escapou-lhe das mãos e caiu lá de cima sobre o fogareiro de uma barraca vizinha, ateando fogo ao plástico que a recobria e causando um corre-corre que foi causa de uma colisão envolvendo seis veículos, entre eles o Porsche de um deputado que quebrou o nariz e processou Damião por danos físicos e psicológicos.

7
Luzia Maria da Silva Oliveira, 23 anos, dona de casa, acordou sozinha em casa com o bebê chorando, deu-lhe uma aguinha, ligou o fogo e botou a mamadeira para escaldar, arrastou o tamborete para perto, agradeceu em silêncio pelo bebê ter se calado, pensou na vida, pensou no futuro, pensou quando o bebê já fosse grandinho e ela pudesse passear no parque, comprar sorvete, correr na grama atrás de um cachorro, fazer festinha temática de aniversário, as brincadeiras, as prendas, e de repente um cheiro acre no nariz e ela despertou para a realidade do dia claro, o bebê chorando e a fumaça preta se elevando da panela por entre o odor pungente de plástico derretido.

8
Lourival Carmelo da Silveira, 51 anos, funcionário público, reuniu em casa, num domingo de sol, uma horda vociferante de torcedores uniformizados, para acompanhar pela TV um clássico qualquer, entre caipirinhas e tiragostos variados, e para tirar onda abriu com cuidado a tampa de uma garrafa de cachaça e depois a colocou de volta, deixando-a na mesa da sala, até que alguém ergueu a garrafa e pediu o abridor adrede surrupiado, e Lourival bazofiou, “isso eu abro é com o dente!”, ergueu a garrafa, encaixou com firmeza o dente na tampa já preparada, e com um gesto firme do pulso deu-lhe um sacolejo forte que fez voar pelos ares um canino sanguinolento.








quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

4304) O mundo submerso de J. G. Ballard (11.1.2018)



Este romance de meio século atrás é parte de uma série de obras em que J. G. Ballard (1930-2009), no início de sua carreira, explorou diferentes versões do fim do mundo em catástrofes planetárias: em The Wind From Nowhere (1962), tufões arrasadores; em The Burning World (1964), uma seca que transforma o mundo num deserto; em The Crystal World (1966), um fenômeno misterioso que se alastra, cristalizando as florestas e os animais.

Em The Drowned World (1962) é o aumento da radiação solar que derrete os pólos, alaga a maior parte do mundo civilizado e aumenta insuportavelmente a temperatura das zonas temperadas, obrigando o que resta da humanidade a migrar na direção dos pólos, que agora são habitáveis.

E o mundo visualizado por Ballard não é meramente uma superfície lisa de água onde despontam os andares superiores do que resta dos antigos arranha-céus submersos. É um mundo de calor sufocante e de uma proliferação grotesca da vida vegetal e animal. O que um dia foi a Inglaterra é agora uma sucessão de lagoas e pântanos onde a vida fervilha e os seres humanos tornaram-se insignificantes como insetos raros.

Alguns títulos de capítulos dão uma idéia do mundo que Ballard (um autor visualista acima de tudo) descreve: “A Chegada dos Iguanas”, “A Arca Submersa”, “Carnaval dos Aligátores”, “A Festa das Caveiras”.



Entre as inúmeras polarizações que a gente pode traçar dentro da FC, existe uma que opõe uma tendência da FC norte-americana a uma tendência da FC britânica.

Em uma parte da FC norte-americana há uma tendência triunfalista. Ela postula que o ser humano (visto nela como uma mera extensão do americano médio) é uma criatura de recursos inesgotáveis, capaz de enfrentar os maiores desafios e obstáculos, para no fim, contra todas as probabilidades, sair vencedor, graças a sua inteligência, astúcia e espírito de luta. Autores típicos seriam Robert Heinlein, Isaac Asimov.

É uma ficção otimista, afirmativa, “pra cima”.

Já a FC britânica que se opõe a esta é sacrificialista. Ela reconhece que o Universo precede o ser humano, e que é este que deve se adaptar àquele. O Universo vai passar o rodo na humanidade mais cedo ou mais tarde, e haverá uma certa grandeza, da parte de nossa espécie, em reconhecer e aceitar isso quando chegar a hora, com a serenidade com que tantas pessoas aceitam sua morte individual. E J. G. Ballard é um autor típico dessa tendência.

Como em toda generalização, as exceções são numerosas de parte a pate. O pessimismo cósmico do norte-americano H. P. Lovecraft tem pouco a ver com o seu país; e a Inglaterra tem todo um veio de space-operas tão triunfalistas quanto as dos EUA.

Em The Drowned World, tão interessante quanto a transformação climática e biológica dos continentes é o processo de regressão psíquica por que passam alguns personagens, entre eles o biólogo Robert Kerans, o protagonista.

Kerans sente que a transformação do mundo à sua volta deflagra uma transformação mental em si próprio. Sua consciência individual começa a encolher, dando espaço a conteúdos inconscientes que emergem e o arrebatam.  Ele se sente voltar a um tempo pré-histórico (“archeopsychic time”) em que o mundo era daquele jeito, e sente a compulsão de se fundir a esse novo ambiente selvagem.



É um tempo em que o futuro projeta a humanidade no passado, no Período Triássico, a última era geológica em que aquelas características de temperatura vigoraram na Terra.

Ballard sempre gostou de jogar seus protagonistas em contextos cósmicos hostis e inacessíveis. Muitos dos seus livros-catástrofes são fantasias de impotência em que os heróis percebem desde cedo a inutilidade de lutar contra o Universo e são forçados a se adaptar a ele.

O contraponto ao fatalismo estóico de Kerans cabe ao Coronel Riggs, o comandante do posto militar que supervisiona a estação científica. É o típico militar da pulp fiction, resoluto, prático, incuravelmente otimista; um militar de filme B norte-americano. Ballard não o ridiculariza, mas mostra o que há de patético na luta de um homem que se opõe a uma catástrofe planetária tentando fazer cumprir as tarefas e obedecer o regulamento.

Não que não haja alguma sátira, como neste trecho:

De fato, o dr. Bodkin, assistente de Kerans na estação, tinha preparado às escondidas um documento que fingia ser o relatório de uma testemunha ocular, um dos sargentos do Coronel Riggs, do avistamento de um enorme lagarto com barbatana dorsal cruzando uma das lagoas, um monstro indistinguível, sob qualquer critério, de um Pelicossauro, um réptil ancestral da Pensilvânia. Se este relatório tivesse sido aceito como verdadeiro, anunciando a volta triunfal da era dos répteis gigantes, um exército de ecologistas teria desembarcado ali imediatamente, reforçado por uma unidade tática portando armas atômicas, e com ordens para se dirigir rumo sul a uma velocidade constante de vinte nós. No entanto, a não ser o registro rotineiro de “mensagem recebida”, nenhuma resposta chegou. Talvez os especialistas em Camp Byrd estivessem cansados demais até para dar risada. (p. 8-9)

Os filmes B de ficção científica dos anos 1950 mostravam essas equipes conjuntas de cientistas, políticos e militares reunindo-se para enfrentar tarântulas gigantes, louva-a-deuses gigantes, formigas gigantes, sempre com um certo atrito interno mas com a euforia bélica de quem se sabe dono do planeta. Ballard sempre tratou esse tipo pueril de FC com um desdém bem humorado. Ele era da linha de aceitar a catástrofe, ou de ficar, como dizia Buñuel, “contente com o extermínio”.

O futuro imaginado por Ballard é uma regressão brutal ao passado pré-histórico, uma fusão vertical de camadas do Tempo que se misturam, tanto na paisagem física quanto no ambiente psíquico dos personagens.

Quando mais devagar um relógio, mais ele está se aproximando da progressão majestosa e infinitamente gradual do tempo cósmico – e na verdade, ao fazermos um relógio andar para trás estamos criando um instrumento que se move mais devagar do que o universo, e que consequentemente faz parte de um sistema espaço-temporal ainda mais amplo.

O antirrelógio sugerido por Ballard, é claro, é meramente metafórico: não estaria da verdade “andando às avessas” mas meramente substituindo uma progressão de elementos por uma regressão, sem que isso o projetasse num outro contínuo. Tão impossível quando a máquina do Tempo de H. G. Wells, ele serve no entanto como um indicador da rebeldia do autor e de sua determinação em andar na contramão da FC triunfalista de sua época.












quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

4303) Dias de poesia e festa (9.1.2018)




Este ano, a tradicional festa dos cantadores em São José do Egito teve, como mote de homenagem, “103 anos de Louro / 100 anos de Zé Catota”. Louro é o famoso Lourival Batista, um dos grandes cantadores do Pajeú, nascido em 1915 e falecido em 1992; Zé Catota (José Lopes Neto) era um poeta local menos famoso, mas igualmente querido, e foi bonito ver no último dia um neto e quatro netas dele subirem ao palco para recitar e agradecer a homenagem.

Tenho ido à festa nos últimos cinco anos, meio que tentando tirar o atraso. Desde os idos dos anos 1970 que meus amigos violeiros me chamavam para ir lá, curtir dois ou três dias de versos e de libação, que eram ainda mais animados no tempo em que Louro era vivo, com sua hospitalidade, sua verve trocadilhesca, seu senso de humor ferino.

Convivi com Louro durante alguns anos, viajei com ele, vi-o cantar em uma dúzia de Estados brasileiros. Nunca o vi em São José do Egito, que era sua fonte e seu castelo. Mas é assim mesmo; toda história é tecida de fios e vazios.

Desta vez, o pretexto profissional da minha ida foi duplo. Fui lançar meu romance Bandeira Sobrinho – uma vida e alguns versos (Editora Imeph, Fortaleza), história de um cantador da geração de Louro, poeta fictício onde tentei reunir traços humanos de muitos poetas cinqüentões ou sessentões com quem convivi quando tinha vinte-e-poucos.



O segundo pretexto foi mediar uma mesa-redonda de estudiosos e amantes da poesia, cada qual com seu foco de interesse e seu estilo de abordagem.

Gilmar Leite, filho de São José do Egito, apresentou seu livro Corpo e Poesia – para uma Educação do Sensível, resultado de sua tese de mestrado. Um debate freqüente entre nós, admiradores da Cantoria de Viola e da Literatura de Cordel, é sobre a distinção entre palavra (e poesia) falada e palavra (e poesia) escrita. Gilmar lembrou a importância da fala para a inspiração poética, e puxou uma recordação de Zeto, poeta da região, genro de Louro, que quando cantava ou recitava mobilizava o corpo inteiro e parecia entrar em transe.

A fala de Gilmar me trouxe à memória uma resposta de Allen Ginsberg, o poeta beatnik de Nova York. Perguntaram a ele por que tinha usado versos livres tão extensos em seu famoso poema “Uivo” (“Howl”), e ele disse: “Cada verso tem a medida exata do ar dos pulmões; eu vou dizendo em voz alta o verso, e quando o ar acaba eu corto e começo a linha seguinte.”  O corpo (o pulmão) usado como régua da métrica.

Em seguida veio Antonio José de Lima, “Tõe Zé”, outra figura muito querida do Pajeú, que lançou o livro Legado Filosófico de Poetas e Repentistas Semianalfabetos, onde ele compara trechos e frases de filósofos e poetas, desde a Antiguidade até a era moderna, com os versos dos cantadores humildes do Nordeste, que por vias transversas e heranças orais acabam chegando a reflexões semelhantes.

Tõe Zé se fez acompanhar por uma dupla de violeiros jovens, Bondoso e Silvano. No livro ele, “apologista” de muitos anos, recorre à extensa memória para trazer versos antigos e esquecidos, mas também cita versos de João do Vale, Patativa do Assaré e outros. O termo “semianalfabeto” sempre gera alguma discussão, porque algumas pessoas o acham um tanto ofensivo. Todo mundo lembrou a resposta famosa de Pinto do Monteiro, quando um jornalista começou a dizer algo tipo: “Seus versos são incríveis, o senhor, semianalfabeto...” e Pinto interrompeu: “Não, eu sou analfabeto mesmo. Semianalfabeto é você.”

Finalmente, Antonio Nóbrega trouxe uma pesquisa longa e bem documentada com exemplos sobre as origens da décima, a estrofe mais cultivada pelos cantadores, seja para glosar motes, seja para fornecer o esquema de rimas para gêneros como o martelo agalopado, o galope beira-mar, o martelo alagoano e outros. As rimas da décima se organizam no esquema ABBAACCDDC, usado por Gregório de Matos no século 17, e que ainda está vivo no Nordeste, e ecoa diariamente no vale do Pajeú.

Tudo isso sem falar nos quatro dias de shows e recitações. A família Passos cantando e recitando versos em lembrança ao seu patriarca, falecido em agosto; um show inesquecível de Cátia de França, roqueira e baiãozeira vigorosa no esplendor dos 70 anos; Silvério Pessoa lembrando canções de Ivan Santos e Rosil Cavalcanti. 

Uma boa mesa de glosas comandada por Jorge Filó (sempre com presença feminina acentuada), e baiões de viola com Valdir Teles e Diomedes Mariano.  Vi uma banda de coco azeitadíssima de Triunfo (PE), com uma vocalista de rapidez e precisão impressionantes, e que se apresenta em versão eletrônica como “Radiola Serra Alta” e em versão acústico-percussiva como A Cristaleira.

Vi a bela voz de Aline Paes acompanhada pelo pandeiro de Bernardo Aguiar e pelo violão onipresente de Greg Marinho. Os shows da família Marinho, filhos e netos de Louro que (com a “Página 21”, do Recife) produzem o evento: desde Tonfil cantando MPB até Val Patriota cantando dor de cotovelo, Bia Marinho desfiando um belo repertório de canções suas e de outros, e seus filhos Antonio, Greg e Miguel Marinho liderando a banda Em Canto e Poesia, em cuja apresentação Nóbrega deu uma bela canja e me chamou para cantar estrofes (inclusive não-gravadas) de nossa ciranda “Carrossel do Destino”).

A festa de Louro é como a Lua: cresce agora, diminui mais tarde, depois volta a crescer, e se mantém há cerca de meio século abrindo com poesia o ano civil do Pajeú. Hoje são seus netos que tomam a frente, amanhã serão seus bisnetos. As crises políticas e econômicas vêm e passam, e a poesia continua firme e leve, fotografando a alma do tempo.

Um dia eu ainda vou recortar todos esses dias que passo na Festa de Louro, sair juntando todos os trechos e depois emendar o último no primeiro pra fazer um loop. Aí resolve tudo.

Quero deixar de ser eu
porque ser eu é ser muitos;
eu sou tantos outros juntos
que nenhum prevaleceu.
Eu tenho um lado judeu
tenho outro palestino
um lado novaiorquino
e outro de Kandahar...
Licença, que eu vou rodar
no carrossel do Destino.









segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

4302) "Martín Fierro": um romance de cordel (8.1.2018)



(ilustração: Molina Campos)

É curioso que o livro considerado pelos argentinos como a epopéia nacional argentina, a obra canônica que define a nação de Julio Cortázar, Ricardo Piglia e Jorge Luís Borges, seja uma espécie de romance de cordel.

O Martín Fierro (1872, 1879) de José Hernández é descrito em geral como um poema épico, pela sua longa extensão e temática guerreira. Borges, num ensaio famoso (El “Martín Fierro”, 1953, com Margarita Guerrero) acrescenta que isso só se dá porque alguém convencionou que todo povo precisa ter um Ilíada ou uma Eneida.

Diz Borges que a tradição homérica cria um senso de obrigação de tal peso que no século 18 Voltaire se obrigou a escrever a Henriade para que não faltasse um epopéia à literatura francesa.

Não faltou à argentina. O Martín Fierro foi um enorme sucesso popular desde 1872, quando foi publicada aquela que é hoje sua primeira parte, intitulada El gaucho Martín Fierro. A vendagem impressionante do livro fez o autor publicar sete anos depois A volta de Martín Fierro.

Desde então as duas partes são editadas em conjunto. O livro de Hernández tornou-se um desses clássicos compostos de duas partes lançadas com um longo intervalo, como ocorreu com o Dom Quixote de Cervantes, o Fausto de Goethe e os livros da Alice de Lewis Carroll.


O Martín Fierro é uma história de aventuras e desgraças ambientada no pampa argentino. Fierro é um pequeno agricultor com mulher, filhos e um ranchinho. É recrutado na marra pelo exército, para combater os índios. Daí em diante, sua vida nunca mais se apruma. Vira desertor, comete crimes, é preso pelos índios e passa anos como cativo. Quando volta, muitos anos depois, a mulher morreu e os filhos contam os problemas por que passaram.

Chamei o livro de Hernández de “romance de cordel” pelo fato de que esse épico argentino não foi escrito nos hexâmetros de Homero nem organizado nas oitavas de Camões. É um poema em sextilhas, basicamente, com raras interpolações de outras estrofes, como a quadra.

A sextilha de Hernández é diferente da nossa sextilha cordelesca. Ambas são estrofes de seis versos com sete sílabas. (Os argentinos dizem que esse verso é octossílabo, mas eles contam a última sílaba átona, e nós não.) Nossa sextilha nordestina tem o esquema de rimas ABCBDB, com o segundo, o quarto e o sexto verso rimando entre si. A sextilha de Hernández segue quase sempre o modelo abaixo (traduzo a estrofe inicial do poema):

Aqui me ponho a cantar
ao compasso da viola,
que o homem a quem assola
uma pena extraordinária
como a ave solitária
com o cantar se consola.

Seria portanto um esquema ABBCCB, mas não é preciso muito exame para perceber que esse curioso formato não passa de uma décima decapitada, uma décima tipo ABBAACCDDC da qual foram cortados os quatro primeiros versos. Não faço idéia da origem desse formato.

(ilustração: Molina Campos)

Em todo caso, é curioso que esse poema de tema rústico seja aceito pelos eurófilos argentinos como um retrato fiel de sua nação. Talvez seja a eterna ilusão do Bom Selvagem tornado mau pelo atrito com a civilização. Ou aquela dívida atávica de toda cultura urbanóide para com o mundo rural que lhe mata a fome. Ou o fascínio milenar dos versos contendo o que Ariano Suassuna chamava de espírito cavalariano e aventuroso.

Em todo caso, Borges, no seu livrinho, propõe uma discussão importante sobre o gênero da obra. Diz ele que não se pode confundir a natureza do poema com as epopéias genuínas, que são outro tipo de literatura; mas que o MF tem, sim, uma faceta épica, porque parece mais com as sagas nórdicas e com a Odisséia do que com os versos de Verlaine.

Ou seja: quem lê o poema o lê para conhecer as peripécias da história, não para admirar a beleza do fraseado. O MF é épico porque é narrativo, é aventuroso, é de prender a respiração e de arregalar os olhos.



E Borges esclarece:

Além disso, a palavra [epopéia] pode nos prestar outro serviço. O prazer que proporcionavam as epopéias aos primitivos ouvintes era o que hoje proporcionam os romances: o de ouvir que aconteceram tais coisas a tal homem. A epopéia foi uma pré-forma do romance. Assim, descontado o acidente do verso, caberia definir Martín Fierro como um romance. Esta definição é a única que pode transmitir com exatidão o tipo de prazer que nos dá e que coincide, sem causar espécie, com sua data, que foi – quem não o sabe? – a do século novelístico por excelência: o de Dickens, o de Dostoiévski, o de Flaubert. A épica exige a perfeição dos personagens; o romance vive de sua imperfeição e complexidade.
(p. 94-95, trad. Carmem Vera Cirne Lima)

Daí minha afirmação, lá no início, de que o poema nacional argentino é um cordel. Não é por acaso que chamamos de “romances” os cordéis longos, de histórias aventurosas. Isso nada tem a ver com o nosso conceito de romance em prosa (Guerra e Paz, Menino de Engenho, etc.). Tem a ver com os romances em versos da cultura ibérica, o famoso Romanceiro Popular.

O Martín Fierro é uma dessas narrativas em verso com começo, meio e fim, ricas de episódios intermediários, narrativas que não têm a ambição realista, e sim a volúpia da imaginação e da aventura. São realistas por reflexo, porque revelam de forma quase inconsciente a realidade física e mental das pessoas que escrevem e leem essas histórias.

José Hernández fez com as sextilhas dos payadores do pampa o que um seu contemporâneo, igualmente erudito, como José de Alencar, poderia ter feito caso dominasse as formas poéticas de outros contemporâneos de ambos, como os poetas da Escola do Teixeira – Francisco Romano, Silvino Pirauá e outros.

Talvez uma das razões para a celebridade e o sucesso perene do Martín Fierro seja o fato de que o povo argentino reencontra ali, entre tantas outras coisas, a sua poesia oral, inclusive com a realização, na II Parte, de um desafio de viola, ou payada en contrapunto, entre Martín Fierro e outro payador.

Aqui, o texto completo original, com comentários, glossários e ilustrações:


















segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

4301) Resoluções para 2018 (1.1.2018)




(ilustração: James Turrell)



Fazer como o doidim de Taperoá, que toda vez que lhe mostravam duas moedas escolhia sempre a menor, porque no dia em que escolhesse a maior a brincadeira acabava.

Fazer como Jorge Luis Borges, que considerava Waterloo uma vitória.

Fazer como Isadora Duncan, que disse: “Está soprando um vento frio, acho que vou de cachecol.”

Fazer como a cartuxa de Parma e a toutinegra do moinho, que viveram só para inspirar um título.

Fazer como Juquinha, que quando já estava na Faculdade reencontrou a professora e a levou para tomar umas cervejas.

Fazer como C. G. Jung, que entendeu que a blasfêmia não é para insultar quem ouve, mas para libertar quem diz.

Fazer como aquela moça da Bíblia que se deixou levar à tenda do general invasor e saiu de lá com a cabeça dele.

Fazer como os Harlem Globetrotters, que jogavam tão bem que não precisavam ganhar.

Fazer como a trapezista que explicou: “o segredo é não acreditar que tem a rede.”

Fazer como Raymond Chandler, que enxugava uma garrafa de uísque antes do almoço, e com isso economizava o almoço.

Fazer como a Princesa Isabel, que resssignificou o conceito de interinidade.

Fazer como Neymar, que quando soube do 7x1 na véspera pediu para ficar de fora, e aí inventaram uma "fratura da coluna vertebral".

Fazer como Raskolnikóv, que viu a merda que tinha feito e não sossegou enquanto a polícia não somou dois mais dois.

Fazer como Snoopy, que tinha plena consciência da importância da frase inicial de um processo criativo.

Fazer como aquela moça da NASA que conseguia dar uma mamadeira enquanto calculava uma órbita.

Fazer como o anarquista espanhol que entrou na cabine eleitoral, votou, depois puxou o detonador, e explodiu o próprio voto.

Fazer como Emily Dickinson, que ela mesma escrevia, ela mesma lia e ela mesma criticava.

Fazer como Lutero, que descobriu que para enfrentar o diabo não servia água benta, era preciso um tinteiro.

Fazer como o co-piloto do Boeing, que quando o piloto disse: “Fulano, me acode, estou morrendo, botaram alguma coisa no meu suco”, ele disse: “Fui eu.”

Fazer como Michelangelo que estava pintando, foi interrompido pelo Papa, e jogou uma caixa de ferramentas na cabeça do intruso.

Fazer como a dona da pensão que botou em cima da mesa uma terrina de arroz, uma de carne moída, e disse: “Quem não gostar vá almoçar na casa da puta que o pariu.”

Fazer como Sísifo, que considerava como seu objetivo fazer a pedra rolar de cima do morro até o vale.

Fazer como a roqueira punk que conclamou a multidão: “Bora, sobe todo mundo no palco, bora pular até essa porra vir abaixo”, e assim se fez.

Fazer como L. Ron Hubbard, que mandou a ficção científica às favas, inventou logo uma religião e ficou milionário.

Fazer como Lampião, que olhou Maria Bonita de cima a baixo e disse: “Venha, que eu vou lhe fazer a mulher mais feliz do mundo Já sabe como é o sistema. Se tiver coragem, pode vir.”

Fazer como D. Elaine, minha professora de Geografia, que no dia da prova anunciou para a classe: “Quesito único: Fale sobre agricultura”.

Fazer como Augusto dos Anjos, que publicou um livro intitulado “Eu” onde só existe meia dúzia de cisquinhos autobiográficos.

Fazer como Dolores Duran, que escrevia em qualquer papel, em qualquer hora, em qualquer lugar.

Fazer como Augusto Matraga, que matou um adversário e depois protegeu o corpo dele contra a turba enfurecida.

Fazer como Ana Maria, secretária da FURNe, que um dia me falou: “A vida passa e nós vamos ficar, aquecidos pelo calor imundo das árvores, sangrentas e miseráveis”.

Fazer como Groucho Marx, que esvaziava um revólver com uma piada.

Fazer como Lillian Hellman, que conseguiu passar quinze anos sem perguntar ao marido por que ele tinha deixado de escrever.

Fazer como Zabé, que morava na loca e vivia do vento.





quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

4300) Alguns livros de 2017 (28.12.2017)




Não faço listas dos “melhores do ano”, porque como não trabalho no jornalismo cultural não tenho a obrigação de ler os lançamentos recentes. Leio mais livros antigos do que livros recentes, não porque menospreze a literatura contemporânea, mas porque os livros antigos têm um histórico de referências, que despertam minha curiosidade. O que se segue abaixo é o registro de alguns bons livros que li este ano, por ordem aproximadamente cronológica. Ainda pretendo escrever mais a vagar sobre alguns deles.



Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, de Lima Barreto. O romance é um retrato de um intelectual mais velho feito por um amigo mais jovem, e de quebra uma série de quadros vívidos sobre o centro e o subúrbio do Rio de Janeiro, cheios das observações originais e bem argumentadas do autor. É um livro crepuscular e humano, menos satírico que Isaías Caminha ou Policarpo Quaresma, menos cruel do que Clara dos Anjos.



Os Invisíveis 1, de Grant Morrison. Uma das coisas mais curiosas nas HQ é o filão que mistura ficção científica e ocultismo, com rupturas brutais no tempo e no espaço. Pretendo avançar mais nesta série que tem algo de Philip K. Dick  e da “gonzo fantasy” de Tim Powers.



Circo Nerino, de Roger Avanzi e Verônica Tamaoki. Pesquisando sobre circos, peguei com Eduardo Rios (o Escaramuça do Suassuna - o Auto do Reino do Sol) este álbum notável com a história (numa profusão de fotos excelentes) de um dos grandes circos brasileiros, que infelizmente nunca frequentei. (“Meus” circos foram o Tihany, o Gran Bartholo e o Garcia.) Biografias de inúmeros artistas, episódios curiosos, viagens pelo Brasil inteiro (há inclusive transcrição de um artigo de Ednaldo do Egypto, quando o circo passou pela Paraíba.)


The Life Cycle Of Software Objects, de Ted Chiang. Não sei ainda se vai ser este o título da coletânea de contos de Chiang (o autor de “A Chegada”, filmado por Denis Villeneuve) que traduzi para a Intrínseca. É um dos melhores contistas da FC contemporânea, um dos meus preferidos, e este volume, embora sem o peso de Stories of Your Life and Others, recheado de clássicos, tem histórias excelentes como “The Merchant at the Alchemist’s Gate”, uma narrativa de viagem no tempo no universo das Mil e Uma Noites. (A capa acima é da edição isolada do conto-título.)



Red Harvest, de Dashiell Hammett. O romance de estréia de Hammett é um clássico em que o Continental Op, o detetive anônimo, chega a uma das cidades mais corruptas do país e joga todas as quadrilhas dentro de um frenesi de extermínio recíproco. Política, mentira, traição, ação constante e uma versão cruel do “jeitinho americano” de liquidar bandidos.



Consternação, de Jadson Barros Neves. Contos ambientados principalmente na região do garimpo de Tocantins, uma fronteira rude com garimpeiros, pistoleiros assalariados, indivíduos sem rumo e sem escrúpulos, crimes passionais, assassinatos por dinheiro. Histórias ganhadoras de prêmios literários no Brasil e fora dele.




Conclave e Munich, dois romances de suspense de Robert Harris (o autor de Enigma), que traduzi para a Companhia das Letras. Harris tem um estilo seco, enxuto, detalhado e rápido que dá inveja. O primeiro livro é sobre os bastidores da eleição de um Papa; o segundo, sobre uma conspiração para matar Hitler durante a Conferência de Munique de 1938.


Now Wait For Last Year, de Philip K. Dick. Traduzi para a Suma de Letras este romance de Dick, que eu não tinha lido ainda. Achei uma ótima narrativa, meio desconcertante devido a freqüentes saltos irregulares no Tempo. Tem um dos melhores personagens messiânicos de PKD, Gino Molinari, líder da Terra numa guerra interestelar; drogas mirabolantes, um casamento cruelmente disfuncional e a empatia dickiana em alguns dos seus momentos mais verdadeiros.


A Hipótese Humana, de Alberto Mussa. Um romance policial ambientado no Rio do século XIX, com boas descrições de ambientes e tipos. Parte de uma série que fiquei com vontade de conhecer melhor.


The Edge Of Running Water, de William Sloane. Um romance esquecido de um autor bissexto, de quem eu já li e comentei To Walk the Night (aqui: https://tinyurl.com/yajmdedc). Sloane é um excelente escritor, e esta história tem momentos arrepiantes numa mistura entre FC e sobrenatural.


O Fogo Na Floresta, de Marcelo Ferroni. Um romance ambientado no mercado editorial (uma editora que está sendo comprada e reformulada por um grande grupo econômico), com uma protagonista que se debate de forma alternadamente cômica e trágica nos absurdos do mundo corporativo, do casamento, do adultério, das catástrofes financeiras, da maternidade e do cuidado com os pais idosos, tudo ao mesmo tempo como na vida real.


The Drowned World, de J. G. Ballard. Um dos primeiros romances-catástrofes de Ballard, mostrando uma Inglaterra submersa pelo aquecimento global, transformada num pântano semelhante aos do período Triássico.


Presos No Paraíso, de Carlos Marcelo. Um romance policial ambientado em Fernando de Noronha com algumas reviravoltas hábeis de enredo, recriação eficaz de ambiente humano e geográfico e uma alternância de pontos de vista que ajuda o leitor no esforço detetivesco. Do mesmo autor de O fole roncou, perfil histórico do forró nordestino.

Registro também os numerosos bons livros de poesia que li ao longo do ano, e destaco estes: João Paraibano, O Herdeiro Dos Astros (org. Ézio Rafael, Marcos Passos e Santanna o Cantador), Servir A Quem Vence (Astier Basílio), Velório Sem Defunto e Aprendiz De Feiticeiro (Mario Quintana), Miolo Da Rapadura (Klévisson Viana), O Vendedor De Berimbau (Chico Pedrosa), A Desmedula da Seta (Alan Mendonça), O Mínimo Possível (Adriano Cabral).

Além destes, outros livros interessantes que comentei neste blog durante o ano:

O Espírito Da Ficção Científica, Roberto Bolaño

No Tempo De Almirante, Sérgio Cabral

A Lua Vem Da Ásia, Campos de Carvalho

Santaninha, Arievaldo Vianna e Stélio Torquato

O Bigode, Emanuel Carrère.

O Horlá, Guy de Maupassant.

Baudolino, Umberto Eco

Mar Paraguayo, Wilson Bueno

Incrível! Fantástico! Extraordinário!, Almirante

Malpertuis, Jean Ray

The Yiddish Policemen’s Union, Michael Chabon.














segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

4299) Natal 2017 (25.12.2017)





(ilustração: Galina Kim)

...e o mundo gira a sua bolandeira
de planetas, satélites e luas
como giramos no vaivém das ruas
e no círculo astral do calendário.
Fim de ano é igual aniversário:
um ano a menos resta à nossa frente.
Quem quiser comemore este presente:
mas eu celebro o fluxo, e não o saldo,
a travessia, e não o esforço baldo
de guardar este rio em algum bolso.

As alcatéias cantam, e eu só ouço,
esperando chamarem minha senha,
escutando o machado sobre a lenha,
respirando a fumaça da fogueira,
vendo a vida passar Aleph-inteira
cada vez que me deito pra dormir,
sendo ainda capaz de ler, sorrir,
já que tudo é clicar aplicativos;
cada vez que desperto ao sol dos vivos
sou eu mesmo de novo, e sou um só.

E eu fui feliz, no meu Bodocongó!
Tocando, via o dia amanhecer...
Era uma luz que não voltei a ver
uma alegria de elevar balões
um aconchego de saber canções
sentimento de noite de luar
ascendendo na perpendicular
rumo ao zênite bom de um dia claro
sentimento tão puro, forte e raro
que deve ser produto da memória.

Sentir saudade é maquilar a História;
um direito de todo cidadão!
Ah, se não fosse a imaginação
como ficar em paz dentro de si?
Tudo quanto eu sonhei, pensei, vivi,
era o centro vital daquele Instante,
um “agora” em que todo ser pensante
tem ponto de chegada e de partida,
cartesiano zero, o “x” da vida,
onde o espaço e o tempo entram em foco.

Pois este mundo só existe “in loco”,
o átimo, o momento, o here-and-now,
o passo à frente, o quantum-leap, o vau,
o fotograma que “eppur si muove”.
Porque tudo que pulsa e nos comove
só pulsou desta vez, neste presente;
é o Tempo do corpo, e não da mente;
a mente é transversal, não-linear,
randomizada, ortogonal – lugar
capaz de superpor tempos distintos.

Então... vamos brindar brancos e tintos.
Eu morrerei, e tudo vai passar.
Meus átomos irão se dispersar
e nessa hora não serão mais meus;
só me faltava que existisse um deus!
Um síndico do cosmos, registrando
quem entrou, quem saiu, quem-onde-quando...
O tempo; o espaço; dois vetores; “x”.
E nesse encontro está tudo que eu fiz,
o ponto luminoso em que eu pisquei.

O ano se passou... e eu nem liguei.
Impressionante um ano como passa.
Como um poema escrito com fumaça,
ou ser humano escrito em carne e osso;
ou como passa este universo-esboço,
rascunho escrito em turbilhões de quarks
que me aceitou, como se a Groucho Marx
aceitasse algum clube dadaísta;
não importa; meu nome entrou na lista
e o convidado-trapalhão nasceu.

E aqui estou, por fim. Não mangue d’eu!
Mangue do mundo que me produziu,
mangue dos séculos, ou do Brasil,
que deu matéria pro meu torvelinho.
Sou só um velho contemplando um vinho
sem saber qual dos dois vai durar mais.
Deixo que o mundo me deguste em paz
como o degusto eu, que vou passando,
vendo, sendo, sorrindo, versejando
esta estrofe que emenda com a primeira...