terça-feira, 12 de abril de 2016

4100) O Kafka da era digital (12.4.2016)



(ilustração: Elena Scotti)

A fazenda de Joyce Taylor, 82 anos, no Kansas, tem sido assediada nos últimos anos, para grande espanto na região, por “agentes do FBI, xerifes federais, cobradores da receita federal, ambulâncias tentando socorrer veteranos-de-guerra suicidas, policiais à procura de crianças desaparecidas”.  Ninguém ali sabe por quê. É uma zona rural, e a cidade mais próxima tem 13 mil habitantes. Levou algum tempo para alguém perceber que isso se devia a um erro básico de mapeamento da Internet.

Quando a gente diz que “está na Internet” pensa o que? Eu penso em algo como uma biblioteca, onde a localização exata de um livro obedece a um código numérico. Tendo o número de código, a gente se encaminha para o andar, o setor, a estante, a prateleira, o volume procurado. Do mais amplo para o mais restrito. É como procurar a cidade, o bairro, a rua, o prédio, o apartamento.

A Internet é um pouco assim, só que mais bagunçada. Todo computador (celular, etc.) tem um endereço IP, que é como um CPF, da máquina que você usa. É um número único, que fica registrado cada vez que a gente conecta em algum ponto. (Teoricamente, é assim que a polícia localiza os pretendentes a malfeitores do ciberespaço – os verdadeiros malfeitores sabem como evitar isso.)

Uma matéria recente de Kashmir Hill no websaite Fusion revela o lado avesso desse processo que parece tão certinho. Explica ele que existem empresas especializadas em mapeamento digital, ou seja, em informar a localização de um endereço IP. Digamos que alguém me mandou mensagens ameaçadoras, ou que me aplicou um conto-do-vigário via Internet, e que eu consegui descobrir o endereço IP do computador original, que fica nos EUA. O que faço? Entro em contato com uma empresa como a “MasterMind”, e ela me diz o endereço onde está essa máquina.

Só que o processo de rastrear a máquina é falível, imperfeito, cheio de buracos. Às vezes chega à precisão de indicar um quarteirão, uma casa. Mais frequentemente, diz apenas: “Este IP está na cidade tal”. Quando ela não consegue saber algo mais específico, diz em que país está, mas para isso precisa fornecer coordenadas (latitude e longitude). O que faz a MasterMind, quando um IP é difícil de rastrear, e sabe-se apenas que está nos Estados Unidos? A companhia indica as coordenadas relativas ao centro geográfico do país. (É o mesmo raciocínio, acho eu, que faz com que quando o computador seja iniciado o mouse apareça exatamente no centro do monitor).

Sempre que um endereço de IP fica difícil de rastrear e sabe-se apenas que está no país, o “país” é indicado pelo seu centro geográfico. Acontece que esse centro, conforme foi calculado pela MasterMind, fica perto da fazenda de Joyce Taylor! O autor da matéria pediu um levantamento desses endereços e encontrou nada menos de 600 milhões de endereços IP que ninguém pôde localizar com mais precisão e jogou para o centro dos EUA, ou seja, para a fazenda da pobre sra. Taylor.

A matéria cita vários outros exemplos dessa nuvem de endereços fantasmas que ninguém sabe onde estão situados mas um cálculo meio descuidado (os próprios diretores da empresa admitiram) acabou empurrando para uma direção física, cheia de gente real, cuja vida começou a ser bagunçada unicamente por conta de um “gatilho técnico”. É o Kafka da era digital.

A matéria completa, de Kashmir Hill:
http://fusion.net/story/287592/internet-mapping-glitch-kansas-farm/





segunda-feira, 11 de abril de 2016

4099) Literatura e coincidências (11.4.2016)



Por que motivo ficamos um pouco decepcionados com um livro (um filme, etc.) onde uma grave situação de mistério ou de ameaça é resolvida por causa de uma coincidência espantosa e bem vinda, dessas de uma em um milhão?. O leitor sente que o autor trapaceou em benefício próprio.

Eu já vi em último capítulo de telenovela um crime antigo ser finalmente desvendado quando a polícia faz uma última varredura no local, e acha a carteira de identidade do assassino, que ele perdeu no dia em que praticou o crime.  Nem ele tinha voltado para buscar nem a polícia tinha encontrado na primeira investigação, cinquenta capítulos atrás.

O público se julga trapaceado porque o autor está usando um “deus ex machina”, está resolvendo de uma maneira meio ditatorial um problema que precisaria de uma certa diplomacia dramatúrgica. Li recentemente um ótimo livro policial onde se conta um sequestro. Procura-se por toda parte, em várias estradas do município, algum vestígio da pessoa sequestrada. A certa altura, um amigo do protagonista pede a este que pare o carro ali numa estrada remota, pois ele precisa ir urgentemente ao banheiro. Ele para, e quando fica esperando resolve ele próprio tirar água do joelho. Quando vai até o mato, vê brilhando ali o capacete da pessoa sequestrada.

Já aconteceram comigo coincidências de cair o queixo, mas não tinham outro significado a não ser o de sua raridade estatística. Não parecia que era uma falha da Matrix, ou que era uma forma nova de mandar recados. Mesmo que se prove que somos o videogame de Alguém, isso não resolve nenhum dos nossos problemas. A história continua a mesma.

Emma Coats, roteirista da “Pixar”, diz: “Coincidências para botar os personagens numa confusão, ótimo; mas coincidências para salvá-los são trapaça.”  Não sei até que ponto a maioria dos leitores controla esses detalhes à medida que vai lendo. O melodrama teatral e o folhetim literário de antigamente usavam muito a coincidência nesses dois sentidos. Uma conversa entreouvida ao pé de uma janela, uma carta ou documento que se perde por acidente, pessoas compartilhando nomes, lugares, sendo ligadas entre si por um número ou por um fato aleatório.

A coincidência “a favor do roteirista” (para tirá-lo de um beco narrativo sem saída) é golpe baixo, é como um coringa sujando uma canastra quase real. Perderá esse agravante se outras coincidências randômicas se abaterem sobre a narrativa, em diferentes pontos, sem propósito específico. Aleatório como a realidade. Num contexto assim, a coincidência salvadora se dilui entre outras que se abateram sobre o protagonista. Uma porção de coincidências inexplicáveis e sem grande repercussão no enredo podem atenuar a presença eventual de uma coincidênciazinha que ajuda o personagem.





sábado, 9 de abril de 2016

4098) Os extraordinários (10.4.2016)



É um personagem recorrente na história da humanidade. É o sujeito que tem todas as qualidades: gente boa, honesto, simpático, inteligente, trabalhador, esforçado, um profissional realizado, quando maduro, um grande potencial de futuro, quando jovem. Alguém detentor de todos os méritos, herdeiro de todas as conquistas. É o personagem sonho-de-consumo de incontáveis pés-rapados, zés-ninguém, borra-botas, os sem ofício, os sem preparo, os sem fuga, os sem noção. A fantasia de quem para na calçada e fica olhando na vitrine uma TV ligada, onde acontecem coisas incompreensíveis que despertam a veemência do senhor de terno. Nessa imagem o transeunte reencontra o personagem que ele queria ser se um dia crescesse.

Há milhões de sujeitos iguaizinhos a ele (ao notívago na calçada, no clarão da vitrine, regressando a contragosto para uma casa que é um moído de problemas que nunca se acabam) que já tiveram a chance de se aproximar do homem de terno. Puderam pedir um autógrafo, apertar sua mão por cima dos braços retesados dos seguranças, fazer um selfie, ganhar um tapinha no ombro dado por ele (o homm de qualidades). E nesse instante, ao ser valorizado pelo líder, zé-mané se infla de cidadania, sente-se realizado.

No momento republicano do selfie, o fã e o ídolo são nivelados diante de uma lei maior, de um espírito cujo culto criou as circunstâncias concretas para aquele encontro e aquela mensagem de otimismo. O fã pensou: “Somos cidadãos, somos iguais.”  E o ídolo pensou consigo: “Sim, mas é claro que uns merecem ser mais iguais do que os outros”.

E na hora em que isso é pensado (e pior, quando é agido) pela primeira vez, some tudo que não é o Arquétipo, somem o terno Armani e a toga romana, some o coronel do rancho e some o lorde inglês. Quem está ali é o arquétipo, o personagem, o cara que descobre em si mesmo um insuspeitado (ou melhor, implícito, quase minimizado) superpoder.

É por isso que o Raskólnikov de Crime e Castigo pergunta: o que aconteceria se no lugar dele estivesse Napoleão, e como um obstáculo à sua ascensão houvesse apenas alguma velha ridícula, usurária, e fosse preciso matá-la e saquear seu cofre para financiar os estudos, uma carreira literária, quem sabe um cargo de projeção política na Corte?! O Corso titubearia? Não, porque ele sabe que é um extraordinário, se não pelo sangue nobre, pela ousadia. Napoleão forneceu a Raskólnikov o argumento de passar por cima dos inferiores, a crença de que o mundo pertence a eles, os Extraordinários, e que eles não precisam sequer de justificativas. “Eu não matei para obter recursos e poder,” diz ele, “eu simplesmente matei; matei para mim, só para mim.”

(Esta foi a minha última coluna no "Jornal da Paraíba", cujas atividades impressas se encerram neste domingo, dia 10 de abril de 2016. A publicação de novos artigos continuará normalmente, apenas aqui no blog Mundo Fantasmo.) 






sexta-feira, 8 de abril de 2016

4097) A Ciência numa frase (9.4.2016)



Richard Feynman, ganhador do Prêmio Nobel de Física, foi professor numa universidade carioca durante algum tempo. Era um cientista questionador, anticonvencional. Embora tivesse adorado o Brasil pelo seu espírito extrovertido, alegre, ele deu em seus livros de memórias um retrato muito pouco elogioso da educação brasileira. “A maioria dos universitários não são estimulados a pensar,” dizia ele, “tudo que querem é decorar fórmulas e aplicá-las nas provas, sem muito interesse pelo seu significado”.  Diagnóstico que bate com a minha experiência pessoal.

Propuseram a Feynman certa vez um problema conceitual. Digamos que acontecesse na Terra um cataclismo e toda a nossa civilização fosse destruída, com todas as nossas conquistas científicas e tecnológicas. 

E digamos que fosse possível preservar, para a humanidade futura, apenas uma frase, uma frase que contivesse o máximo de informação sobre nossa ciência, sobre o máximo a que conseguimos chegar na decifração dos segredos do Universo. Que frase seria essa?

Feynman propôs esta resposta: 

“Todas as coisas são feitas de átomos, pequenas partículas que giram em movimento perpétuo, atraindo-se umas às outras quando estão próximas, mas repelindo-se quando são ‘apertadas’ umas de encontro às outras”.

Para Feynman, bastaria um pouco de imaginação filosófica e de experiências práticas para, partindo desse ponto, recomeçar a civilização. É algo que a humanidade procurava tateando, desde os filósofos pré-socráticos, e acabou estabelecendo como hipótese central de trabalho, milhares de anos depois, no decisivo século 20. 

A definição “partículas” é questionável, mas é um bom ponto de partida para discutir a natureza da matéria. O fato de que se atraem e se repelem em diferentes condições deixa implícita a cadeia de reações cuja existência comprovamos, e cuja natureza até hoje tentamos explicar (“força forte”, “força fraca”, “gravidade”, “eletromagnetismo”, etc.). 

Como faria a civilização futura para reconstituir todo o nosso edifício científico a partir dessa frase? Bem, isso aí daria um bom romance de FC na linha de Um Cântico para Leibowitz

A frase de Feynman mata a charada? De jeito nenhum. Um biólogo, um químico, um antropólogo, um economista etc. proporiam frases-síntese muito diferentes. 

O que desafios desse tipo têm de bom é que nos forçam a voltar para o básico-das-coisas, como quando uma criança nos faz totalmente a sério uma pergunta fatal: Por quê que chove? O sol é feito do quê?  Por que umas coisas caem e outras (uma pena, p. ex.) não? Pra onde a gente vai quando dorme? O que tem embaixo do chão? De que é que eu sou feito?





quinta-feira, 7 de abril de 2016

4096) Como narrar histórias (8.4.2016)



(Emma Coats)

Volta e meia estou aqui comentando conselhos narrativos de Emma Coats, roteirista da Pixar que vive tuitando pequenas dicas. Alguns roteiristas curtem, alguns literatos acham meio plebeu ficar usando o cinema norte-americano como referência para a literatura. Ora, a arte da narrativa é algo que corta transversalmente tudo: literatura, cinema, teatro, histórias em quadrinhos, poema épico... A Narrativa tem certas regras topológicas internas que independem da linguagem utilizada. Contar uma história é uma arte transversal.

Nem toda regra se aplica a tudo, mas quanto mais atentarmos para elas mais perto estaremos de entender como se conta uma história. Estou falando de entender intuitivamente: aquele entendimento que vem de muita informação prática acumulada e que nos faz perceber de imediato o melhor caminho. É assim que um mestre de xadrez olha uma posição no tabuleiro e rapidamente elimina algunas dezenas de milhões de possibilidades nulas, para se concentrar na meia dúzia que podem dar-um-caldo.

Diz Emma: “Quando você estiver bloqueado, sem saber como avançar no enredo, faça uma lista das coisas que NÃO aconteceriam em seguida. Muitas vezes isso vai fazer aparecer as idéias para desencalhar sua história.” Esse conselho é hábil, porque quando queremos saber apenas o que DEVE acontecer, isso põe um peso muito grande na lógica, nas relações causa-e-efeito. Ficamos mais presos à explicação da história do que à dinâmica viva da história. E muitas vezes acabamos derivando para a região de alta redundância narrativa. Aquela guinada plenamente justificada mas que faz o leitor pensar: “Oi, era só isso?”.

Pensar no que não deve acontecer significa abrir diante de si mesmo todo o leque de opções da história. Se você admite que algo não deve acontecer aos personagens naquele momento é porque a narrativa está com um viés, com uma direção que precisa ser seguida. Às vezes a gente não percebe esse viés, está escrevendo somente pelo prazer de criar os episódios isolados, mas esses episódios podem estar pendendo a história numa direção geral que a gente não percebe.

Por isso acho interessante um aspecto do método criativo de William Gibson (Neuromancer), embora seja algo que eu jamais faria. Diz ele, numa entrevista recente à Paris Review: “Todos os dias, quando me sento com o manuscrito, começo na página 1 e releio o texto completo, revisando à vontade.” Quem faz isso todo dia percebe com muito mais clareza para onde a história está indo. É diferente de quem todo dia pega onde largou e, se estiver na página 120, a esta altura já esqueceu o que tem na página 50 (comigo é assim).





quarta-feira, 6 de abril de 2016

4095) Falando paraibano (7.4.2016)



No capítulo da fala paraibana (ou nordestina), tenho recorrido às minhas anotações para ver até que ponto certas expressões que sempre me pareceram “nossas” são brasileiras de ponta a ponta. Ou se (caso também possível) são nordestinas mesmo, mas as migrações e as trocas culturais já as espalharam pelo resto do país. Aqui vão mais alguns verbetes do meu inédito Dicionário Paraibano.

“Amarrar o cocó”. Diz-se de quando a chuva torna-se mais forte e mais cerrada, ameaçando durar por muito mais tempo. “Eu estava pensando em ir pra casa, mas agora a chuva amarrou o cocó e acho melhor dormir aqui mesmo.”

“Desconfiado que só cachorro em bagageiro de bicicleta”. “Desconfiado”, no caso, vem no sentido de “pouco à vontade, inseguro, receoso”.  No Rio usa-se muito uma variante: “Desconfiado que só cachorro que caiu da mudança.”

“Dar uma subida”. Passar uma descompostura; repreender alguém com veemência e agressividade.  “Quando eu cheguei atrasado no primeiro dia de trabalho, o cara me deu uma subida na frente do escritório todo, morri de vergonha.”  Tem relação com a expressão “subir de tamanco”, que tem sentido semelhante: “Com Fulano a gente tem que subir de tamanco nele de vez em quando, senão ele bota tudo a perder.”  É frequente usar complementos exagerados: “Ele subiu de tamanco e desceu de botina em cima do porteiro, porque ele dormiu e deixou a porta aberta.”

“Carrego (ê).” Pessoa complicada, com energia negativa, que só atrai problemas e confusões.  “Fulano é um carrego muito grande, quando ele senta na mesa eu vou logo perguntando quanto foi minha parte na conta”.  Tem ligação com expressões como “Aquele ambiente é muito carregado”, ou “Vou tomar um banho de sal grosso pra descarregar”.

“Bufo-bufo”. Onomatopéia usada no futebol: é o jogo à base de chutões para a frente e muita correria. "Eu não sei qual foi o milagre desse técnico pra fazer o Treze baixar essa bola, o Treze sempre foi um time de bufo-bufo."

“Até meia noite.” Modo brincalhão de confirmar uma data perguntada por alguém. "-- Hoje é sábado?...  -- Até meia-noite!"   Tem relação com o hábito de pessoas do tipo "idiotas da objetividade", que, quando alguém diz: "O aniversário de Fulano é amanhã", o sujeito exibe o relógio num inexplicável gesto de triunfo: "Amanhã, não!  Hoje!  Já passou de meia-noite!" Reflexo da substituição da noção natural de dia, que se inicia ao nascer do sol, pelo dia conceitual, que se inicia à meia-noite. 

“Despranaviar”. Cair na farra, cair na gandaia.  “O carnaval está chegando, eu agora quero é despranaviar”.   Termo popularizado pelo Coronel Ludugero, personagem criado por Luiz (pai de Lula) Queiroga.




terça-feira, 5 de abril de 2016

4094) As cartas de Cortázar (6.4.2016)



Em 1951, Julio Cortázar mudou-se de Buenos Aires para Paris. Aos 37 anos, já tinha publicado Bestiário (1951), um dos seus melhores livros, mas a pressão política do regime peronista era insuportável. Um médico, com quem se consultou devido a crises de alergia e cefaléia, disse: “Seu problema não é de doença, é de opinião. Vá embora daqui”. Na época, dois de seus melhores amigos eram o casal Eduardo e Maria Jonquières, com quem começou uma longa correspondência que durou até o fim da vida.

Cartas a los Jonquières (Buenos Aires, Alfaguara, 2010, 576 págs.) reúne 126 cartas que ele mandou ao casal. Eduardo era pintor e poeta, e grande parte da correspondência consta de discussões sobre arte, e relatos das viagens que JC fazia visitando museus, igrejas, galerias de arte. Mais velho que o amigo, Cortázar lhe dava conselhos estéticos, fazia piadas, comentava a vida dos amigos em comum. Essas cartas (diz um dos organizadores do livro, Carles Álvarez Garriga) equivalem a um diário dos seus primeiros anos em Paris.

“Ir embora não é nada,” diz Cortázar em 8.11.51, “o pior é dar-se conta de que existe uma mecânica de chiclete, de que a gente continua aderido e vai se esticando.”  Ele vai se embebendo da cultura local e da vivência. “Rimos dos turistas,” diz em 24.2.52, “mas te asseguro que quero ser até o final um turista em Paris. (...) O que é atroz em Buenos Aires é que se trata de algo muito mais intelectual do que estético, e acelera esse horrendo processo de cristalização de um homem. Por isso os argentinos são pessoas de tanto caráter (!), de tanta ‘personalidade’, repertórios de idéias definitivamente fixas, coaguladas, sem movimento possível. Todo mundo lá tem sua ‘opinião’ sobre as coisas, mas concordarás comigo que basta opinar sobre uma coisa para no mesmo instante deixar de vê-la. (...) Todo homem inteligente e sensato sabe que uma ‘prova’ é sempre outra coisa, que não toca em nada a realidade essencial daquilo de que se fala.”

Ao longo dos anos, ele oscila entre a alegria de estar no centro de uma cultura que admira e a preocupação pelos que ficaram, como a mãe, a avó e a irmã. “Sim, tens razão,” diz em 5.4.52, “fui embora na hora certa. Mas se achas que isso é um consolo te equivocas. Estar fora do incêndio não é um consolo, quando as pessoas que estão queimando te são queridas.”  As cartas documentam, indiretamente, o período em que ele produziu seus melhores contos, inventou os cronópios e os famas; curiosamente, há muito poucas alusões à criação de O Jogo da Amarelinha, seu romance principal. Mas existe aqui material suficiente para alegrar qualquer estudioso do escritor.




segunda-feira, 4 de abril de 2016

4093) Briga de cachorros (5.4.2016)



A Teoria dos Jogos é uma das partes mais interessantes da matemática, até porque em seu estágio básico é de fácil compreensão por qualquer pessoa capaz de entender as regras do par-ou-ímpar ou do xadrez. 

Ela consiste basicamente em examinar, no contexto de um jogo qualquer (uma ação recíproca, disputando objetivos antagônicos, com regras claras e fixas, dependendo de avaliações e decisões), quais as chances de (por exemplo) vitória de A, empate ou vitória de B. 

Daí parte-se, é claro, para um enorme barroquismo de hipóteses e cálculos cada vez mais complexos. Em todo caso, da guerra às especulações financeiras, dos esportes à política, me parece que as aplicações práticas são inúmeras e utilíssimas.

Existe toda uma formalização lógica para avaliar situações como conflito de interesses, alianças, relação custo/benefício em diferentes ações possíveis, gratificação, punição... A Teoria dos Jogos é de certa forma o folhetim de matemática, o melodrama da lógica, onde se parece lidar com emoções violentas o tempo inteiro.

A Teoria dos Jogos faz a análise lógica das situações de conflito. Anatol Rapoport, no entanto, faz esse comentário: 

“Inexistem considerações de ordem estratégica numa luta de cães. Este conflito pode ser melhor visualizado como uma sequência de eventos, cada um dos quais deflagra o seguinte.”  

Ou seja: quando um conflito humano está açulado a esse ponto, ele está sendo desencadeado por pessoas tão fanaticamente resolutas a não se deixar derrotar que qualquer interpretação lógica de suas ações vai ser em vão.

Ficam os analistas, em situações assim de pandemônio, tentando aferir o peso estratégico desta ou daquela ação, mas é como interpretar como intencional o trajeto errático de um avião recém-alvejado. Uma tarefa tão sem sentido quanto a de um locutor de futebol tentando transmitir, como se fosse um jogo, uma batalha campal entre os dois times.

A política em tempos de paz é um jogo, mas ela tem seus momentos em que ferve até virar luta. Diz Rapoport:

“A motivação de uma luta é a hostilidade. O objetivo é eliminar o oponente, que se afigura como um estímulo nocivo. (...) A inteligência, no sentido da capacidade de calcular, da previsão e comparação de cursos de ação alternativos, não tem a desempenhar, como geralmente não o faz, nenhum papel numa luta.”

Interessa a alguém fomentar lutas num contexto que desfavoreça a inteligência. Num contexto em que os estúpidos e bitolados se movimentem mais à vontade, onde a disputa deixa de ser um xadrez entre cavalheiros de diferentes persuasões ideológicas e se transforma no que tanto nos aterra e nos mesmeriza assistir: uma briga de cachorro grande.







sábado, 2 de abril de 2016

4092) "Sagarana" (3.4.2016)



Em abril de 1946 Guimarães Rosa publicou Sagarana pela Editora Universal, uma editora pequena, de vida curta, que produziu as duas primeiras edições do livro. A segunda saiu no mesmo ano (sem indicação do mês). 

Tenho exemplares das duas. Meu exemplar da primeira edição, com a capa (de autoria de Geraldo de Castro) bastante dilacerada, foi comprado por 1 real na calçada da Estação Carioca do metrô do Rio de Janeiro. Nela, lê-se a menção: 

“Do autor: MAGMA, Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras, 1936 (A sair)”. 

Ledo engano: Magma só foi oficialmente publicado 51 anos depois, em 1997, pela Nova Fronteira. Magma também é comentado nas orelhas do livro (meu exemplar não tem a contracapa, portanto falta-lhe a 2a. orelha), com um trecho do parecer da Comissão Julgadora que lhe conferiu aquele prêmio.

No final destas duas edições da Ed. Universal, há um texto explicativo do autor que, pelo que me consta, foi suprimido nas edições subsequentes. Sob o título em caixa alta “RESSALVAS”, diz Rosa:

“SAGARANA foi escrito em 1937, na seguinte ordem: O Burrinho Pedrês; Sarapalha (Sezão); Minha Gente; A Volta do Marido Pródigo; Duelo; Conversa de Bois; Corpo Fechado; S. Marcos (Envultamento); A Hora e Vez de Augusto Matraga (A Oportunidade de Augusto Matraga). // As cantigas e os provérbios entre aspas foram ouvidos mesmo em Minas Gerais; a canção ‘De madrugada, quando a lua”, etc. ( Minha Gente) deve ser paraibana; o coro que serve de epígrafe à Conversa de Bois é uma variante deste, que figura no interessante livro ‘O GOROROBA’, de Lauro Palhano: “Lá vai!... Lá vai!... Lá vai, / -- Queremos ver. – Lá vai boi Pingo-Prata / Fazendo a Terra tremer!...” // Qualquer homonímia ou semelhança de caracteres, entre personagens e gente existente, será puro acaso e lamentável coincidência. // O Autor.”

Sagarana é a melhor porta de entrada para a obra rosiana. São contos longos, largos, de ritmo amplo, que criaram um novo regionalismo em nossa prosa. A paisagem convencional (mundo rural, gado, fazendas, matas, plantações, morros, rios) é vista de ângulos inusitados, é descrita por um olho sagaz e uma voz narrativa dotada de imensa informação cultural, usada de maneira fluida, descontraída, antipomposa. Mesmo quando erudito ou catalográfico, Rosa nunca é pomposo. 

No prefácio à décima edição, o crítico português Óscar Lopes refere-se seguidamente ao lado bem-humorado do autor: “um humor que desconhecíamos...”, “esta versatilidade viva de humor...”,  “um humor humano muito especial que nos leva a sorrir”. Não é o humor da piada, e sim o da revelação, da redescoberta de algo que não sabíamos que sabíamos.







sexta-feira, 1 de abril de 2016

4091) O comissário Montalbano (2.4.2016)



Meu romance policial predileto é o romance detetivesco clássico, de mistérios intrincadíssimos e barrocos, à maneira de Ellery Queen, John Dickson Carr ou S. S. Van Dine. Nem por isso deixo de gostar do romance policial realista, centrado em ações e emoções humanas verossímeis. Comecei agora a ler as aventuras do Comissário Montalbano, escritas pelo italiano Andrea Camilleri ( A Forma de Água, 1994; A Paciência da Aranha, 2004), e ambientadas em Vigata, uma cidade imaginária da Sicília.

Montalbano não vive trocando socos como Philip Marlowe e outros. Nos dois romances que li ele não dispara um tiro, e acho que não briga uma vez sequer. Tem uma namorada que mora em outra cidade e o visita às vezes; vão para a cama, cozinham, bebem, brigam, fazem as pazes, como qualquer casal. Como Marlowe, ele é capaz de encontrar em sua cama uma mulher linda, nua, e mandar que ela se vista. Mora sozinho, tem uma criada que vai lá e dá uma geral de vez em quando. Gosta de cozinhar para si mesmo. Seu temperamento é brusco, emotivo mas contido, impaciente com a burrice ou a canalhice alheia. Trabalha bem em equipe com os outros policiais, mas tem um certo desdém pelos superiores.

Detetivescamente, Montalbano é observador, metódico, gosta de pegar o carro e sair checando pessoalmente cada detalhe dos casos que investiga. Um dado curioso é seu envolvimento emocional com o processo dedutivo. Faz muitas de suas descobertas analisando sua própria reação emocional ao se defrontar com as pistas ou interrogar os suspeitos. Certas coisas o inquietam sem que ele saiba por que; ficam remoendo em sua cabeça, até que por uma associação de idéias ou um fato fortuito tudo se encaixa e a explicação aparece. Seu método é o de checar pistas, conversar com todo mundo (ele tem uma percepção afiada da natureza humana e da mentalidade dos seus conterrâneos).

Camilleri escreve com agilidade, rapidez, ótimos diálogos. Pertence à escola não-rebuscada do romance policial. Os enredos são complexos mas verossímeis, e tanto a realização dos crimes quanto a investigação estão próximos do realismo cotidiano de Simenon. A narrativa é toda numa terceira pessoa limitada: temos acesso à maioria das reflexões do detetive, mas não a tudo. Camilleri usa o direito de omitir diálogos cruciais para não antecipar a solução. Seus romances são daqueles onde o mistério policial empurra a narrativa, mas o prazer vem das reflexões do protagonista a respeito do que vê e ouve; dos tipos humanos surpreendentes e verazes; e da descrição, cheia de humor, dos pequenos quiproquós cotidianos que nem um detetive está livre de encarar.