quarta-feira, 17 de junho de 2015

3842) Giulietta de Fellini (17.6.2015)



Giulietta (L&PM, 1989) é o romance resultante do roteiro de Julieta dos Espíritos (1965), de Federico Fellini. A edição brasileira (tradução de José Antonio Pinheiro Machado) saiu simultaneamente com as edições italiana e alemã. O livro saiu 24 anos depois do filme; há muitos pontos de contato, a idéia geral do enredo, mas, no mais, livro e filme são diferentes.

Giulietta (a narradora do livro) é uma mulher tímida, sensível, com uma autoestima um pouco baixa, ansiosa para agradar o maridão rico, charmoso e infiel. As amigas são todas sofisticadíssimas, sensualíssimas, moderníssimas e ela as contempla embevecida e resignada. Ela descreve a mãe como “elegante, formosa, autoritária”, e vê-se logo que ela é a patinha feia da família. Giulietta participa de umas sessões espíritas meio fajutas, entre outras socialites (tema recorrente em Fellini: o misticismo-como-entretenimento) e começa a receber visitas de uma tal de Íris, um espírito que vem revelar-lhe alguns segredos da feminilidade.

Giulietta fica atarantada e jubilosa com as revelações. “Nós mulheres sérias nunca pensamos nessas coisas; temos a impressão de que esse tipo de coisa diz respeito, digamos assim, às putas.  E quando passam os anos, de repente percebemos que nos enganamos completamente e que a razão estava com elas, as putas. Muito mais importante do que manter a casa em ordem, do que ir ao cinema com o marido, do que garantir domingos divertidos em família... nós deveríamos ser... não digo que deveríamos ser mais putas... mas enfim, no fundo, é isso mesmo: ser mais putas”.

Essas idas-e-vindas ansiosas anunciam um renascimento que num filme norte-americano talvez resultasse em Giulietta se transformando numa “sereia vulcânica da Broadway”, mas Fellini opta (no filme e no livro) por outra solução. Como o filme veio antes, é impossível deixar de ver a personagem do livro sem as expressões da atriz Giulietta Masina: seu rostinho atento a tudo, os olhos ansiosos, meio dissimulados, o semissorriso permanente e oblíquo com que ela parece achar graça nas saias-justas em que se mete.

No último capítulo, ela pressente em sua paranóia que a casa está sendo assediada por soldados bárbaros, e que o marido a abandonou. Aparece então, num balão, seu avô ateu, barbudo, amante de uma dançarina, o mesmo que interrompeu anos atrás a pecinha católica em que ela era “queimada viva” pelos romanos, dizendo que aquilo era uma imbecilidade e uma violência contra a neta. É o Fellini livre-pensador, irreverente, libertário, ajudando Giulietta a fazer as pazes com o espelho. Comparar o filme e o livro é um exercício divertido e proveitoso.


segunda-feira, 15 de junho de 2015

3841) O guitarrista Ivinho (16.6.2015)




A morte anda solta, ceifando gente da música popular, e nos últimos dias, por enquanto, lá se foram o grande jazzista Ornette Coleman, o poeta do Clube da Esquina, Fernando Brant, e o guitarrista Ivinho, do Recife.  Falarei um pouco, então, sobre o menos famoso dos três.



Ivinho surgiu para nós-o-público ao tocar sozinho no Festival de Montreux, na Suíça, no seu velho violão de 12 cordas com o tampo quebrado, produzindo longos improvisos como as 23 minutos estonteantes de “Partida dos Lobos” (aqui: http://tinyurl.com/odgrtuj) onde se sucedem ponteados nordestinos, frevo, temas de flamenco, riffs roqueiros, o escambau. (Saiu depois em disco; está em mil lugares na web.) Ele se tornou um dos músicos geniais que acabaram meio que pirando, como Lanny Gordin (o guitarra-chefe do Tropicalismo) e Arnaldo Baptista, dos Mutantes, para não falar em Brian Jones (Rolling Stones), Syd Barrett (Pink Floyd) e mil outros que chegaram perto demais do fogo que os aquecia.



Fez parte da geração psicodélica da música recifolindense, que incluía bandas como Ave Sangria e Batalha Cerrada, e malucos geniais como Lula Cortes, Lailson, Marconi Notaro, Marco Polo, Flaviola e tantos outros. O espesso caldo cultural de onde emergiram nomes como Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, Robertinho do Recife. Todos reproduziam o clima maluco-beleza da época e cada um tinha um perfil único.


Os improvisos de Ivinho mostram como a arte de improvisar música é dependente da arte de estudar música, da arte de dominar o instrumento, aquilo que chamamos de “praticar escalas” ou “exercícios de digitação”, aqueles sons aleatórios que não têm propósito musical mas visam a tornar os dedos mais flexíveis, mais precisos, mais rápidos. Ninguém pagaria ingresso para ver um saxofonista ou um guitarrista praticando escalas, mas todo mundo se deslumbra quando vê um músico de talento utilizando esses trajetos-um-milhão-de-vezes-percorridos para produzir algo que está um degrau acima em termos de criação, colagens de melodias caídas-do-céu, tendo o palco como laboratório e a platéia como a turma de estudantes de medicina que vê o professor deitar um Frankenstein na pedra e extrair dali uma Isadora Duncan. Os dedos de Ivinho recorriam à memória pessoal e ao inconsciente musical coletivo, e ouvindo-o tocar (o primeiro brasileiro a tocar em Montreux, reza a lenda) a gente percebe que ele está fazendo, no que era então o palco mais disputado da Europa, o mesmo que fazia na sala de casa e no terraço dos amigos, mergulhando nas harmonias, mergulhando nas cadeias melódicas, mergulhando na bricolagem de ritmos, um mergulho tão profundo que só acabou agora.


sábado, 13 de junho de 2015

3840) Ler pela primeira vez (14.6.2015)



Tenho uma velha coletânea de contos de Robert Louis Stevenson (PocketBooks, 1951) em cujo prefácio os editores, anonimamente, comentam a obra e o estilo do autor, e anunciam cada um dos contos, todos clássicos: “Dr. Jekyll and Mr. Hyde”, “O duende na garrafa”, “O Clube dos Suicidas”, etc. A certa altura eles dizem:  

“Não precisamos dizer uma só palavra, estamos certos, sobre ‘The Sire de Malétroit’s Door’, exceto que se vocês ainda não a leram, nós os invejamos do fundo dos nossos corações – porque nenhuma alegria no que diz respeito a livros se compara à alegria de ler um belo conto pela primeira vez.”

Essas linhas me ficaram desde então como um sinal de qualidade, ou pelo menos de um tipo específico de qualidade que algumas histórias têm: o dom de produzirem seu clarão na primeira leitura, de caírem inteiras do céu, com seu peso total no coração do leitor.  A primeira vez tem algo de revelatório. 

Hoje em dia, por causa da publicidade, fala-se muito essa forma de frase, “o primeiro X a gente nunca esquece”. Mas uma história envolve algo mais complexo do que a mera nostalgia do tempo em que a vida era só de coisas novas. Não se pode falar de uma história sem a ler por completo, até o fim, vendo-a então em sua totalidade. Essa primeira experiência é marcante: os contos com final surpresa, os contos com revelações repentinas, os contos com uma situação humana que tem começo-meio-e-fim...

Hemingway jactou-se uma vez (1935): 

“Eu preferiria poder ler de novo pela primeira vez Anna Karenina, Far Away and Long Ago, Os Buddenbrooks, O Morro dos Ventos Uivantes, Madame Bovary, Guerra e Paz, A Sportman’s Sketches, Os irmãos Karamazov, Hail and Farewell, Huckleberry Finn, Winesburg, Ohio, A Rainha Margot, La Maison Tellier, O Vermelho e o Negro, A Cartuxa de Parma, Dublinenses, a autobiografia de Yeats e mais alguns poucos, do que ter uma renda garantida de um milhão por ano.”

Levando em conta que não li quase nada dessa lista e um milhão está um pouco fora do meu alcance por enquanto, há sempre uma antologia galáctica de primeiras vezes à nossa espera. 

Eu diria que a história ideal é a que na primeira leitura cai como uma bigorna da Acme, na segunda revela uma segunda ou uma terceira face, na décima leitura parece uma pirâmide sendo desenterrada aos poucos.

O saite Open Culture oferece (aqui: http://tinyurl.com/po9vm47) versões em texto e versões de áudio (na língua original) de todos esses livros citados por Hemingway.  

Quem já leu, pode experimentar ouvir pela primeira vez. Não creio que perca seu tempo, pelo contrário, acho que vai ter boas surpresas.







sexta-feira, 12 de junho de 2015

3839) "A Estrada Perdida" (13.6.2015)




Estou coordenando, para a Escola de Cinema Darcy Ribeiro (Rio de Janeiro) uma Mostra do Cinema Fantástico, com filmes nos sábados às 14:00h, entrada franca. A escola fica na esquina da Rua 1º. de Março com Rua da Alfândega, pertinho do CCBB. (Após a sessão, neste sábado, haverá debate com o prof. Sérgio Almeida.)

Hoje, sábado 13 de junho, será exibido A Estrada Perdida (Lost Highway) de David Lynch (1997), que é um filme difícil de colocar numa categoria: não é uma fantasia como O Ladrão de Bagdá nem um filme de terror clássico como Sangue de Pantera ou Os Inocentes. É um filme em que coisas estranhas acontecem com pessoas comuns, e onde em certos momentos a realidade (a realidade vivida por elas) parece se fraturar e depois se recompor de um modo improvável e incômodo. Lynch dizia: “Gosto de fazer filmes que acontecem na América, mas que levam as pessoas para lugares onde elas nunca poderiam ter ido; para dentro das profundezas do seu ser.”



O filme começa mostrando um casal que recebe anonimamente fitas VHS mostrando sua casa filmada de fora. Logo depois chegam imagens do lado de dentro, e por fim fitas filmadas dentro do quarto, mostrando o casal adormecido. A sensação de insegurança e medo fica mais intensa, principalmente pelo uso da música e do som. Neste filme, além do seu compositor habitual (Angelo Badalamenti), Lynch usou canções de David Bowie, de Trent Reznor (da banda Nine Inch Nails) e da banda alemã Rammstein, que segundo ele virou a favorita da equipe e cujos cassetes tocavam o dia inteiro nos intervalos da filmagem.



Segundo Lynch, a idéia para o filme veio da vida real, quando um dia o interfone do seu apartamento tocou, ele acordou, atendeu, e uma voz de homem disse: “Dave!”, e ele: “Sim?”, e o homem: “Dick Laurant morreu.” E desligou. Lynch foi à janela olhar lá fora e não viu ninguém; e não conhecia ninguém chamado “Dick Laurant”. Que evidentemente tornou-se um dos personagens do filme. Sobre este, o diretor diz: “É sobre um casal que sente que em alguma parte, bem na fronteira da sua consciência, ou do outro lado dessa fronteira, existem problemas sérios, muito sérios. Mas eles não conseguem trazer esses problemas para o mundo e encará-los. De modo que essa sensação ruim fica pairando, e os problemas se abstraem e se transformam em outra coisas”.


A Estrada Perdida tem uma narrativa fraturada, desconcertante; é uma história de mistério e suspense, aparentemente comum, mas com “quebras de realidade” que deixam o espectador sem chão.  É um filme à altura dos trabalhos mais inquietantes do diretor, como 
Veludo Azul ou Cidade dos Sonhos (Mullholland Drive).




quinta-feira, 11 de junho de 2015

3838) "Eunoia" (12.6.2015)



O cara está em casa, aí o Correio traz um pacote do estrangeiro. É um livro, não muito grande, e, a julgar pelo recibo impresso que vem dobradinho dentro, não saiu caro. Mas é tanta coisa na vida que o cara não lembra que livro é esse, ou quem foi que encomendou. 

Pra saber do que se trata, abre meio ao acaso, numa página qualquer do começo. E lê: 

Hassan can watch, aghast, as databanks at Nasdaq graph hard data and chart a Nasdaq crash – a sharp fall that alarms staff at a Manhattan bank. 

Mais ou menos: 

“Hassan pode observar, estupefato, os bancos-de-dados da Nasdaq processando estatísticas e traçando um gráfico de uma quebra da bolsa Nasdaq – uma queda brusca que alarma os funcionários de um banco de Manhattan”.

OK, pensa o cara. Um thriller sobre o mundo empresarial. Abre noutra página: 

Westerners revere the Greek legends. Versemen retell the represented events, the resplendent scenes, where, hellbent, the Greek freemen seek revenge whenever Helen, the new-wed empress, weeps. 

Oxente, agora parece ser um épico greco-troiano: 

“Os ocidentais reverenciam as lendas gregas. Versejadores recontam os acontecimentos retratados, as cenas esplendorosas, onde os homens livres da Grécia, resolutos, buscam vingar-se sempre que Helena, a imperatriz recém-casada, chora.”

Não darei mais exemplos: o livro (Eunoia, Christian Bok; Edinburgh: Canongate, 2001) é uma narrativa em 5 capítulos em forma de “monovocalismos”, textos onde só se pode usar uma das vogais. (Ele dedica seus capítulos, respectivamente, a Hans Arp, René Crevel, Dick Higgins, Yoko Ono e Zhu Yu.) 

Quem escreve coisas assim (eu já o fiz) tem que fazer certas ginásticas de sintaxe e semântica para não quebrar a regra, mas, com um pouco de boa-vontade, o resultado é totalmente legível.

O livro de Bok tem uma segunda parte intitulada “Oiseau” (a menor palavra em francês contendo as cinco vogais; “Eunoia” é o equivalente em inglês). Faz homenagens a Georges Perec, um mestre do monovocalismo. Tem um poema composto apenas com as letras da palavra “vowels” (vogais): “Loveless vessels / we vow solo love / we see love solve loss...”. 

Tem uma paráfrase fônica (mais uma vez, contando com a imaginação e a boa-vontade do leitor), onde reproduz em inglês o soneto francês “Voyelles” de Rimbaud: “Anywhere near blank rage you veer, oblivial” (“A noir, E blanc, I rouge, O vert, U bleu; voyelles...”). 

É um discípulo da OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentielle), um grupo de meta-literatos que faz com a linguagem o que os físicos do CERN fazem com as partículas subatômicas. 

Combinar, explodir, reagrupar, testar os limites, impor uma harmonia e um sentido ao caos primordial.






quarta-feira, 10 de junho de 2015

3837) 5 achados (11.6.2015)



 (foto: Campina Grande, Rua Miguel Barreto, por Sergio Nascimento)

Encontrado, pelas irmãs Nizinha e Bebeca Mariz, em Mossoró (RN), um envelope de Sedex todo amassado, jogado intacto numa lixeira, o qual elas abriram conforme o peso fatal da curiosidade, e encontraram ali uma carta suplicante de um tal de Valdir para uma tal de Eleonora, dizendo (pra encurtar a história) que desta vez ia se emendar mesmo e que não podia viver sem ela, e as irmãs deduziram que Eleonora jogou a carta no lixo assim que leu o nome do remetente, e as duas agora estão em pleno processo de se tornar “casualmente” amigas de Eleonora para acompanhar o desenrolar do caso com carinhas de inocentes.



Por baixo do banco-da-frente de um táxi, na Avenida Caxangá, no Recife, num anoitecer de trânsito engarrafado, foi encontrado por Daniel Livorni, 25 anos, escriturário de uma companhia de calçados, que sentou exausto e faminto no banco traseiro, um saco plástico branco contendo duas pamonhas e um pratinho de plástico com canjica, tudo envolto em papel laminado, e um embrulho com dois pães e um pacote de café Pilão de 250 gramas.



Num cinema de Florianópolis foi encontrado por Alípio Nogueira, 61 anos, aposentado, um smartphone destravado, que a princípio ele pensou em devolver ao dono, idéia que logo lhe sumiu da cabeça quando Sua Alteza o Destino o levou a percorrer a galeria de fotos onde predominava uma mulher loura e linda por quem ele se apaixonou, e hoje mantém o celular mudo, junto ao travesseiro, repassando as fotos antes de dormir, vendo-o reluzir sempre que alguém liga em vão, e criando coragem para localizar sua deusa.



Pedro Paulo de Lima, 11 anos, encontrou em 1993, quando ia para o colégio, no chão de um ônibus da linha 416 (Usina-Forte), na Tijuca, um livro de bolso em inglês, cheio de desenhos de posições sexuais, coisa sobre a qual tinha a mais superficial das informações, o que o levou a esconder a relíquia e pedir ao pai, pastor evangélico e síndico, um dicionário inglês-português, sob pretextos escolares, e hoje Pedro mora em San Francisco, Califórnia, onde é crítico de artes plásticas, casado há 7 anos com a mesma pessoa, e vive muito bem, obrigado.


Encontrado por D. Joana Sales da Silva, 49 anos, dona da floricultura “Verde e Rosa”, no chão junto a um banco metálico de um ponto de ônibus em Campina Grande, uma caixa de papelão com a tampa presa por fita crepe, contendo o corpo de um gatinho morto cuidadosamente acondicionado em algodão, tendo por cima uma correntinha de prata com um minúsculo crucifixo, e um bilhete escrito com caneta esferográfica azul numa metade rasgada de uma folha de caderno escolar, dizendo: “Um amor para sempre o coração nunca esquesse.”


terça-feira, 9 de junho de 2015

3836) Escrever em público (10.6.2015)




A experiência de escrever obras literárias é tão distinta de escrever textos narrativos para outros meios (cinema, TV, teatro, etc.) que pode-se muito bem argumentar que são feitas com partes diferentes do cérebro.


Quem faz literatura escreve sozinho. Existem casos de parcerias literárias, em literaturas-de-gênero como policial e ficção científica, mas mesmo estes são uma minoria dentro do quadro geral. 

O trabalho literário é um trabalho de concentração, introspecção, intensa atividade íntima. São numerosos os testemunhos de escritores que falam em trancar a porta, proibir a família de chegar perto, desligar o telefone, isolar-se numa cabana ou num hotel para produzir obras literárias. É uma atividade que tipicamente se dá na solidão, e mesmo os mais extrovertidos dos escritores precisam desse tipo de recolhimento para produzir. 

Muitos têm leitores fiéis (a esposa, o marido, amigos próximos) a quem dão para ler trechos do trabalho à medida que vão ficando prontos, e escutam suas críticas e conselhos. Mas a escrita propriamente dita é no isolamento. 

Carson McCullers tem um livro chamado O Coração é um Caçador Solitário; isso exprime uma faceta essencial da literatura. Só se acessa literariamente o coração, por assim dizer, quando se está a sós.

Escrever para cinema, TV e teatro, contudo, é escrever em público, cercado de gente, mesmo considerando-se os eventuais períodos de isolamento. 

Quem escreve roteiro escreve (em geral, é claro; há todo tipo de exceção – mas me refiro ao formato preferencial adotado no ofício) um texto a ser lido e questionado por parceiros e outras pessoas: “E por que isso? E para que serve aquela cena?  Não entendi esse diálogo!  Essa descrição está errada!”. E por aí vai. 

Roteiro (e peça teatral) não são um produto final, são uma matéria-prima verbal que o autor coloca no papel com sangue, suor e lágrimas, para vê-la ser manuseada, manipulada, esquartejada, recomposta, refeita e transformada por um grupo de indivíduos que podem ser anjinhos-do-Senhor, mas ele vê como carrascos cruéis estraçalhando suas melhores frases, bombardeando suas idéias mais originais.

Se você, amigo, é um escritor introspectivo, cujas melhores idéias ocorrem quando está ouvindo estrelas, fique longe desses ofícios. Sua procura é dentro de você mesmo, e só você vai poder achar o que talvez exista. 

Mas se você não vê nadinha de sagrado numa página escrita, e a encara simplesmente como um meio para chegar a um fim, e, principalmente, se você acredita que meia dúzia de cabeças pensam melhor que uma, até mesmo se essa uma for a sua... Então bata às portas dessas outras nobres artes, e boa sorte.







3835) Palíndromos (9.6.2015)



Falo aqui de vez em quando sobre a arte do palíndromo, a frase que lida ao contrário é a mesma coisa. O exemplo-padrão, que conheço desde guri, é “Roma me tem amor”. 

Fazer palíndromos é uma arte barroca, cuja característica principal é um excesso de complexidade no processo para um excesso de perplexidade com o resultado. 

Uma matéria recente no “Globo” (http://tinyurl.com/pr8b8hu) lista entre os praticantes da Grande Arte o escritor e ator Gregório Duvivier (autor de “Soluço-me sem óculos” e do fescenino “E até cu buceta é”) e o cartunista Laerte (autor de “Rir, o breve verbo rir”). 

A matéria também cita palíndromos de Chico Buarque (“Até Reagan sibarita tira bisnaga ereta”), Millôr Fernandes (“A grama é amarga”), Paulo Henriques Britto (“Ótimo, só eu, que os omito”), Marina Wisnik (“Lá vou eu em meu Eu oval”).

Brincadeira de gente desocupada? Não acho. Acho que é brincadeira de gente ocupada – e doida para achar um pretexto qualquer pra não começar a trabalhar. Para adiar o instante terrível do trabalho, o cara se dedica à invenção de palíndromos. 

Eu diria quase “a descoberta”, em vez de “invenção”, porque um palíndromo tem algo de inevitável: se a palavra “lâmina”, lida ao contrário, dá “animal”, todos os sujeitos que perceberem isso vão fazer palíndromos parecidos. É como se essas frases se formassem a si mesmas, precisando apenas de uma ajudazinha de uma equipe de seres humanos.

A literatura não deixou de perceber as propriedades mágicas de fórmulas tão enigmáticas. 

Osman Lins usou o palíndromo latino “sator arepo tenet opera rotas”, “o lavrador mantém com cuidado a charrua nos sulcos”, como mote gerador de seu romance Avalovara (1973). 

Tim Powers, em Expiration Date (1996) conta sobre caçadores de fantasmas que escrevem palíndromos em folhas de papel para aprisioná-los: os fantasmas começam a ler o palíndromo e ficam indo e voltando, em loop, sem conseguir sair dali.

Fraga, um dos maiores frasistas brasileiros, inaugurou mês passado em Porto Alegre uma exposição de palíndromos (veja aqui: http://tinyurl.com/o6jfsyy), entre os quais façanhas como esta: “Será sol e pane para plano Ícaro. O voo racional para. Pena pelos ares”. 

Ao me avisar, mandou-me este: “Ser avatar: ele duplica fácil. Pude ler a Tavares”. Que eu respondi assim: “A semana à toda: a garfada, Fraga adota-a na mesa”. 

Brincadeira de desocupados? Não, acho que é um exercício de mentes capazes de pequenas proezas em atividades para as quais o Capitalismo, esse vagaroso dinossauro rumo à extinção, não conseguiu conceber recompensas pecuniárias à altura do tempo, do esforço, do talento envolvidos.



domingo, 7 de junho de 2015

3834) A frase de Groucho (7.6.2015)



Groucho Marx foi um dos mais inteligentes e imprevisíveis cômicos do cinema norte-americano. Também do rádio, do teatro, e da TV, mas tudo que vi dele foi no cinema, em filmes absurdistas como Uma noite na Ópera, Uma noite em Casablanca, Animal Crackers, Duck Soup e vários outros. Os Irmãos Marx eram um grupo anárquico: Chico, o espertalhão; Harpo, o mudinho que transformava em qualquer coisa qualquer objeto que houvesse no cenário; e Groucho, o trocadilhista, insultador de senhoras e figurões, aprontador de pequenos esquetes improvisados.  Um filme dos irmãos Marx é uma comédia romântica, ou aventura policial, ou outro gênero, desde que os irmãos (Groucho principalmente) não estejam na cena. No momento em que eles aparecem, subvertem o gênero. Fica o filme querendo ir numa direção e os Marx empurrando-o na direção da bagunça surrealista e irreverente.

Groucho tem um dito famoso: “Jamais entrarei para um clube capaz de me aceitar como sócio”.  É uma das suas frases paradoxais, muito citada; diz-se que ele a enviou num telegrama para um clube de Beverly Hills que o convidou para se associar.  Como se dá com os grandes paradoxos de Oscar Wilde ou de G. K. Chesterton, é uma frase que faz sentido imediato quando a lemos, apesar da aparente contradição.

Dei uma pesquisada a respeito dela, para saber a data, por causa de um conto de Monteiro Lobato que reli por acaso. O conto é “Um homem de consciência”, em Cidades Mortas (1909), a história de João Teodoro, um homem pacato e meio decepcionado com a decadência de sua cidadezinha, Itaoca. Certo dia ele é nomeado delegado, bota os baús em cima de um burro e vai embora, dizendo: “Terra em que João Teodoro chega a delegado eu não moro”.  É a mesma lógica grouchiana, sendo que em 1919 o Marx bigodudo (então com 29 anos) mal estava iniciando sua carreira artística.

Mexe aqui, mexe acolá, encontrei a referência de que John Galsworthy (Prêmio Nobel de Literatura em 1932) teria dito sobre um personagem, na Parte I de The Forsyte Saga: “Ele tinha um desprezo natural por um clube capaz de aceitá-lo como sócio”. É a mesma idéia.  A obra de Galsworthy pode ter influenciado independentemente tanto Groucho quanto o americanófilo Lobato, pois é um famoso conjunto de romances publicados entre 1906 e 1922 (em 1921 já havia uma tradução brasileira, da Ed. José Olympio). Não é absurdo supor que essa frase, curta porém marcante, tenha se grudado na memória do comediante de Hollywood e do autor do “Picapau Amarelo”. Ou – o que é igualmente provável – que este seja um sentimento intuitivo, presente em todos os que sabem o que é não pertencer às classes “diferenciadas”.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

3833) "Sangue de Pantera" (6.6.2015)



Estou coordenando, para a Escola de Cinema Darcy Ribeiro (Rio de Janeiro) uma Mostra do Cinema Fantástico, com filmes nos sábados às 14:00h, entrada franca. A escola fica na esquina da Rua 1º. de Março com Rua da Alfândega, pertinho do CCBB. (Após a sessão, neste sábado, haverá debate com o prof. Sérgio Almeida.)

Hoje, sábado 6 de junho, será exibido Sangue de Pantera (1942) de Jacques Tourneur. Este é talvez o mais famoso do ciclo de filmes de terror que o produtor Val Lewton (1904-1951) ajudou a criar na década de 1940, um projeto pessoal dele dentro da produtora RKO. Supervisionando o trabalho de diretores como Jacques Tourneur, Mark Robson, Robert Wise e outros, Lewton definia o estilo geral dos filmes, reescrevia o roteiro, escolhia o elenco. Seu nome é muito citado quando se discute o papel criativo de um produtor, principalmente em filmes B, de baixo orçamento, e até que ponto um produtor que é também um criador (Lewton era romancista, e publicou contos em revistas de pulp fiction da época) pode contribuir para a qualidade de um filme.


Sangue de Pantera recupera um tema antigo do cinema de terror, o de pessoas híbridas de felino, mito cuja versão mais popular é a do lobisomem. O filme conta a história de Irena (Simone Simon), uma mulher de origem sérvia que acredita na lenda do “povo pantera”, que quando sexualmente excitados transformam-se em feras. Isto a leva a resistir a todas as tentativas do incauto norte-americano (Kent Smith) que se apaixona por ela.

Foi o primeiro filme produzido por Lewton em seu projeto de filmes de terror, e o seu enorme sucesso (foi a maior bilheteria da RKO naquele ano) deu ao produtor a carta branca necessária para impor seu estilo sem interferências dos executivos. Lewton produziu entre 1942 e 1946 nove filmes de consistente qualidade em roteiro, fotografia, montagem e interpretação. Sangue de Pantera foi refilmado anos depois por Paul Schrader como A Marca da Pantera, com Nastassia Kinski.

A direção de Jacques Tourneur faz um uso sugestivo da iluminação em preto-e-branco, com luzes e sombras produzindo uma impressão permanente de indecisão, onde não se sabe direito o que está sendo mostrado na tela. Câmera subjetiva, câmera em movimento, cortes bruscos, uso imaginativo de sons e silêncios, tudo isto ajudou a criar um clássico do estilo “não mostrar o monstro”. A violência ocorre geralmente fora da tela, sugerida por uma narrativa indireta, onde pequenos detalhes ganham uma ressonância ameaçadora.  É um clássico do cinema de terror, e muitas vezes citado quando se quer mostrar que um baixo orçamento é um problema que pode ser superado por criatividade.