quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

3704) Henry James e Machado (7.1.2015)



De vez em quando alguma coisa de Henry James me lembra Machado de Assis.  Não sei se alguém os acha parecidos; eu acho, e muito.  Quando se fala nas influências britânicas de Machado é lembrado Laurence Sterne, citado nominalmente (e bem visível, em estilo) no Brás Cubas.  Eu penso na semelhança de Machado com James. Aqueles salões, aquelas paixões furtivas, senhores emproados, damas melífluas, aquele ambiente de chás e comendadores e intrigas a meia voz por entre leques e mantilhas. Sem falar nos dois estilos, que correm em paralelo, como dois pianos acompanhando, cada um a seu modo, uma melodia que só os dois escutam.

No conto “The Romance of Certain Old Clothes” (1868) vi esta cena breve de uma discussão de casal, onde o autor diz: “Lloyd put his arm around his wife’s waist and tried to kiss her, but she shook him off with magnificent scorn.”  Que eu traduziria assim, ao meu modo: “Lloyd passou o braço pela cintura da esposa e tentou beijá-la, mas ela o repeliu, com soberano desprezo.”  O adjetivo “magnificent” me lembrou uma cena parecida.  Fui encontrá-la no capítulo XV do Brás Cubas, quando nosso herói está tentando subornar Marcela (a dos “quinze meses e onze contos de réis”):

“No dia seguinte levei-lhe o colar que havia recusado. — Para te lembrares de mim, quando nos separarmos, disse eu. Marcela teve primeiro um silêncio indignado; depois fez um gesto magnífico: tentou atirar o colar à rua. Eu retive-lhe o braço; pedi-lhe muito que não me fizesse tal desfeita, que ficasse com a jóia. Sorriu e ficou.”

É pouco; mas é típico.  A “magnificência” dos gestos deixa a entender que são resultado de longo estudo por parte da mulher. Há em Machado e James uma espécie de ironia bem-humorada no acompanhar das ações dos personagens, menos para diminuí-los do que para divertir-se, por meio de certa malícia paternal, com seus percalços. Onde se distinguem mais é na presença mais ativa (e mais moderna) do Eu-Narrador de Machado, mais desenvolto do que o de James, mais disposto a ocupar o proscênio, a fazer parar a história enquanto proseia com o leitor. 

No mais, ambos os romancistas são discretos, meditativos, mais à vontade com salas de visitas do que com batalhas campais; ambos conscientes do público feminino que os lia, ambos mais afeitos à observação atenta do que à ação arrebatadora.  Seu mundo é o de cavalheiros que nunca trabalham, de uma vida social de regras rígidas e maledicência constante, repleta de duplos sentidos, evasivas, dissimulações, pequenos rituais de salão que mal ocultam a dinâmica real dos amores e dos ódios, um estilo indireto de vida social que impregna e modula a frase, o enredo, a voz narrativa.




3703) Contracapa de chip (6.1.2015)



(ilustração: Supranav Dash)

&  poesia não tem regras que é preciso obedecer, tem hábitos que é possível mudar  &  já que é assim, regulamentemos a propina e incorporemos o trambique  &  bastaria o mundo inteiro ficar sem luz elétrica sete dias para destruir a civilização como a conhecemos  &  na política só existem dois objetivos: chegar ao poder, e manter-se no poder; o resto são tarefas perfunctórias e retórica tecnocrata  &  a Natureza foi sábia quando nos fez sem botão de autodesligamento  &  certas drogas dão uma aparente grandeza a quem não consegue mais crescer  &  vá à luta; a única coisa que cai do céu é satélite sem manutenção  &  a vida é feita de alegrias equivocadas e sofrimentos inúteis  &  tem gente que se comporta como se estivesse cercada de biógrafos autorizados  &  aquela extenuante sensação de viver numa vitrine iluminada em plena avenida  &  não me lembro a última vez em que eu abri os olhos de manhã e disse “oba!”  &  a vida é como o futebol, para cada gol sofrido é preciso fazer pelo menos dois  &  toda foto é um fotograma de um filme que se perdeu  &  não abra minha cabeça não, que vai ser barômetro explodindo pra todo lado  &  a imbecilidade chega a ser perdoável, quando desacompanhada da grosseria e da pretensão  &  será que uma biografia só pode escolher entre ser uma versão imposta e uma calúnia gratuita?  &  ricos não se contentam com animais, eles precisam de pessoas-de-estimação  &  e aqui estou eu de novo, entrando nas águas daquele outro rio e tomando meu último banho mais uma vez  &  a vida é uma fruta onde a gente é obrigado a engolir casca e caroço  &  o mundo fez da minha alma massa de pão  &  quem me dera lembrar de dez por cento dos repentes bonitos que eu ouvi  &  fazer um poema concreto em forma de formigueiro  &  o supersticioso está sempre a um passo de explodir o mundo  &  tem histórias que são tão inverossímeis que só podem ser verdadeiras  &  qualquer dia desses vai ter aplicativo de smartphone com primeiros socorros, com canivete suíço, com psicanalista  &  a poesia é um macaco segurando uma banana de dinamite  &  feliz de quem não usa a força bruta mas poderia se precisasse  &  a esperança é a única que move  &  eu sou contra o latifúndio, mas quando é preciso eu defendo o meu  &  é o Acaso quem distribui os destinos  &  o mau gosto é mais próximo do sentimental do que do distanciado, mais próximo do bonito do que do grotesco  &  toda verdade humana é parcial, ou não seria humana  &  tudo que pode servir de prova da existência do Destino pode servir também de contraprova  &  a gratidão é o reconhecimento de uma dívida que não precisa ser paga  &

3702) Colecionar livros (4.1.2015)



Ser colecionador de livros não é comprar tudo que aparece pela frente. 

O colecionador de verdade entra muitas vezes num sebo atrás do outro e sai de mãos vazias, por orgulhoso amor à arte.  

Ele reconhece, numa prateleira de livraria a três metros de altura, uma lombada que não vê há trinta anos, e aponta: “Aquele ali”.  

Ele completa uma coleção específica (uma Futurâmica, uma Vagalume, uma Os Audazes) e continua em busca, para a lenta substituição dos volumes mais estragados por outros mais apresentáveis.  

Ele vai passando de ônibus num bairro desconhecido, vê de relance uma livraria, salta, entra, e sai de lá com uma preciosidade caída como um raio em céu azul.

O colecionador de verdade olha para suas estantes e considera a sério a possibilidade de começar a guardar livros no corredor do prédio, no elevador. 

Ele ouve a pergunta-padrão: “Você já leu esses livros todos?” e responde: “Sim, agora estou relendo”.  

Ele tem o mesmo livro em cinco versões diferentes: uma 1ª. edição, uma cópia autografada pelo autor, um exemplar para ler metendo a caneta, outro com uma capa que vou-te-contar, e uma edição eletrônica para fazer buscas rápidas. 

Ele tem a ousadia de botar dois livros improvavelmente lado a lado na estante, e sabe que isso é uma pequena obra de arte conceitual. 

Ele separa para doação 200 livros inúteis, e no dia seguinte traz metade deles de volta às estantes, porque foram reavaliados e achados imprescindíveis.

O colecionador não consegue esquecer até hoje o livro raríssimo e caríssimo visto num sebo e deixado para comprar no dia seguinte, quando, é claro, já não havia mais sinal dele. 

Ele tem uma primeira edição rara, toda estropiada e dilacerada, e não sabe se encaderná-la é um benefício ou um sacrilégio.  

Ele para numa calçada onde há uma lona coberta de livros, avista uma preciosidade largada por entre o resto, pensa: “Até 150 reais eu pago”, pergunta quanto é, e o cara responde com um muxoxo: “Tá velhinho... me dá 1 real.”

O colecionador encontra no sebo, numa daquelas prateleiras rente-ao-chão, um livro estranho, ininteligível, de autor ignorado, sobre tema controverso, folheia, fica perturbado, leva pra casa, e meses depois esse livro torna-se a única vítima de um inusitado e nunca repetido ataque de cupins. 

Ele viaja pelo mundo e tem o hábito de, em cada cidade por onde passa, comprar pelo menos um livro que vai ficar associado àquela cidade em sua memória.  

Ele folheia seus livros ao acaso e encontra entre as páginas fotos, flores secas, sedas, ingressos de teatro ou cinema, bilhetes, pequenos souvenires que valem, cada um, um livro inteiro – tal como cada livro vale uma biblioteca.





3701) O traidor Snowden (3.1.2015)



O criador do Netscape, Marc Andreesen, diz, curto e grosso: “Se você procurar a palavra ‘traidor’ numa enciclopédia, vai achar uma foto de Edward Snowden”.  

Diz Bill Gates: “Ele violou a lei, então eu certamente não o considero um herói. Ele não tem muita admiração de minha parte.”  

A CIA (onde ele trabalhava) e o FBI ganharão a megassena no dia em que botarem as mãos nele.  Edward Snowden é mais um norte-americano (como Daniel Ellsberg, que divulgou os “papéis do Pentágono” durante a Guerra do Vietnam) que aceitaram se tornar um Judas diante de todo o seu país, por motivos de consciência.

Snowden trabalhava em tecnologia da informação para a CIA e depois para a National Security Agency, e percebeu os desmandos que essas entidades praticavam contra o cidadão comum, violando emails e telefonemas, espionando pessoas sem autorização judicial, colocando filtros de investigação em canais públicos e privados onde não tinham o direito de fazê-lo. 

Ele era funcionário de alto escalão, com acesso a senhas e códigos.  Um belo dia, encheu o bolso de pendraives com documentos secretos a que teve acesso (cerca de 1 milhão e 700 mil) e fugiu para Hong Kong.  O material que ele copiou está hoje nas mãos de três grupos de jornalistas.

Refugiou-se na Rússia, enquanto os EUA torciam para que ele entrasse num avião que pudesse ser forçado a aterrissar num país aliado.  Uma situação surrealista: um norte-americano que defende a liberdade de informação fugindo do governo de Barack Obama e se refugiando sob o governo de Vladimir Putin.  (Nada no mundo é tão preto-ou-branco quanto nossa preguiça mental gostaria que fosse.)

Na revista Wired de setembro (http://tinyurl.com/q2gqxzz) Snowden diz como é viver num ambiente onde quem tem o Poder faz o que bem entende: 

“É como a história da rã na água fervendo. Você é exposto a um pouquinho de maldade, um pouquinho de violação das regras, um pouquinho de desonestidade, um pouquinho de trapaça, um pouquinho de desserviço ao interesse público, e vai aprendendo a deixar pra lá, e acaba justificando aquilo tudo.”  

Antes que a água começasse a ferver pra valer, Snowden pulou fora.

Jorge Luís Borges, no conto “Três versões de Judas”, propõe uma tese herética: a de que o Filho de Deus que veio salvar o mundo não foi Jesus Cristo. Ser chicoteado e crucificado, diz ele, era um preço irrisório a pagar pela glória de ser endeusado por todos os milênios vindouros.  

Foi Judas quem aceitou praticar a pior das vilanias: a traição a um amigo. E sofrer o castigo que nunca se apaga: o da infâmia.  Cada vez que execramos Judas, aumentamos o preço que ele (o verdadeiro filho de Deus) pagou para nos salvar.











sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

3700) O quadro perdido (2.1.2015)



(foto do leilão do quadro)

Em 2014 aconteceu uma curiosa descoberta no mundo das artes.  O quadro Dama Adormecida com um Vaso Negro, do artista húngaro Robert Bereny (1888-1953), estava desaparecido há décadas. A última vez que tinha sido exibido publicamente fora em 1928.  Ninguém sabia do seu paradeiro, e supunha-se que tivesse sido destruído durante a II Guerra, como aconteceu com tantas outras obras. Ora, aconteceu que o pesquisador húngaro Gergely Barki, que escrevia na época uma biografia de Bereny, estava um dia assistindo o filme Stuart Little com a filhinha quando viu o quadro, na parede de uma casa no filme!

A história completa está aqui (http://tinyurl.com/q5frtkc).  Barki passou dois anos mandando cartas e mensagens para o estúdio, o diretor, os produtores do filme.  Acabou recebendo resposta da cenógrafa.  O quadro não era uma cópia; tinha sido comprado por ela num antiquário da Califórnia por 500 dólares. Foi revendido por um preço muito maior, recambiado para Budapeste e, agora em dezembro, foi vendido em leilão por cerca de 229 mil euros, cerca de 732 mil reais.

A história acaba aí para quem vê as artes plásticas como um possível investimento, mas ela tem outras ramificações.  A primeira que me ocorre é uma releitura da famosa frase de Paulo Coelho, de que “quando você tem um sonho pessoal tudo no universo conspira a seu favor.” O filme é de 1999, portanto passaram-se quinze anos sem que ninguém notasse o bendito quadro, que aparece, por trás dos atores, em várias cenas do filme.  Eu, por exemplo, jamais percebi sua presença ali, quanto mais seu potencial de mercado. Mas quando você é crítico de arte e está escrevendo a biografia de um artista, examinando foto por foto de quadro por quadro, todo aquele material está vivo e aceso em sua memória.  Não precisa muito para aquele estalo de “oxente, olha lá aquele quadro...”

No mais, é a lei dos grandes números.  O filme estreou em 2.878 salas nos EUA, e chegou a um pico de exibição em 3.151 salas simultâneas.  Depois, foi para a TV a cabo e o DVD doméstico, canal que o levou à Hungria e ao sofá onde Gergely Barki estava comendo pipoca com a filhinha pequena. O nome disso é fatalidade estatística. Se um evento excepcional só tem 0,1 de chance de acontecer, mas a quantidade de reiterações é multiplicada por cem milhões, algo me diz que vai acabar acontecendo.  É a varinha de condão dos milagres capitalistas e dos milagres estatais, dois sistemas que lidam com grandes orçamentos, grandes massas de informação, grandes públicos...  Quando a regra se conta em centenas de milhões, você acaba esbarrando numa exceção em cada esquina.




quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

3699) Quem sou eu? (1.1.2015)



Eu sou aquele cara preguiçoso que, numa noite de inverno, está lendo na cama, todo enrolado nos edredons.  Na hora de dormir, ele precisa levantar e ir até a parede do quarto para desligar a luz, mas o frio o impede. Uma noite ele joga o chinelo e acerta o interruptor, apagando a luz. E desse dia em diante a hora de dormir se transforma num campeonato-contra-si-mesmo, em que ele arremessa chinelos, livros, travesseiros, tudo que tiver à mão, até que lá pela décima-quinta tentativa consegue acertar o interruptor e apagar a luz.

Eu sou aquele velhinho que no sábado manda comprar um saco de milho e no domingo pede para ser levado à praça pela manhã, para dar milho aos pombos; e que no domingo em que por algum motivo não pode ir, fica tendo palpitações porque acha que os pombos vão sentir sua falta.

Eu sou aquele troll rancoroso que passa o dia inteiro pulando de saite em saite e insultando pessoas que não conhece, a respeito de assuntos que não entende, e quando sai do computador começa a chutar a mobília, machuca o dedo do pé e fica pulando num pé só e gemendo de dor no meio da sala e berrando “vocês vão ver uma coisa, vocês vão ver!”.

Eu sou aquela noivinha cansada de pensar no futuro, e que acha que a penúltima coisa da vida dela vai ser o casamento e a última vai ser a viagem de lua de mel, e que depois disso vai ser uma imagem congelada de um beijo e uma música de violinos tocando em loop até o final dos tempos.

Eu sou o taxista que pega um passageiro à noite para uma corrida longa, pergunta a ele de onde é aquele sotaque, recebe a resposta, diz que já morou lá, o passageiro pergunta o que ele fazia, ele diz que jogava futebol, o passageiro manda acender a luz interna do táxi, ele acende, o passageiro olha a cara dele e diz: “Adroaldo, lateral-esquerdo do Juventus!”, e ele grita: “Está paga a corrida!”.

Eu sou aquele cara que acorda no meio da noite silenciosa, aterrorizado, lembrando que pediu emprestado a um amigo um captador de violão caríssimo, 28 anos atrás, e agora não lembra mais se devolveu ou não.

Eu sou a dona de casa que desenvolveu um sistema memorizador de todas as coisas da casa, por ordem alfabética, e antes de dormir vai repassando todas, uma por uma, enquanto discute com o marido fleumático que fala, “minha filha, vem te deitar, aproveita que eu tou novo ainda”.

Eu sou o cara que um dia toma um pileque e vai bater na porta da casa onde morou quando menino, e não consegue explicar à família assustada que quer apenas saber se o carrinho que enterrou no quintal continua a salvo dos ladrões, dos meninos invejosos, da chuva, da ferrugem, do moinho implacável do Tempo.


quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

3698) Outros adeuses do ano (31.12.2014)



Tive poucos papos com Eduardo Coutinho, um dos maiores documentaristas brasileiros, mas um ficou na História. Eu estava em Campina Grande e me liga Rômulo Azevedo avisando que Coutinho estava na cidade, com equipe. Estavam filmando na Paraíba, o dia era de folga, e queriam saber “o quê que rola”. Eu anunciei: “Show de Braulio Tavares no Buracão, o bar de Noaldo Nery, Campina inteira conhece, atrás da AABB.” Vai a equipe (Edgar Moura é testemunha), eu canto as lorotas de sempre, toma-se a cerveja de sempre, conversa-se o que se conversa entre cinéfilos meio de-fogo e embalados pela música.  Nem Coutinho nem ninguém quis revelar o que estavam filmando. Dois anos depois, eu soube: era Cabra Marcado para Morrer.

O tempo silenciou André Carneiro, mas só metaforicamente.  Ele, que publicou aos 85 anos um volume de contos inéditos com mais 600 páginas, deixou também inéditos, aos 92, textos suficientes para mais uma coletânea.  André foi poeta, fotógrafo, editor, hipnotizador, artista plástico, e um dos grandes autores da Primeira Onda da ficção científica brasileira, nos anos 1960. Até o fim, esteve produtivo e lúcido. Via a ficção científica como uma parte especialmente brilhante de um vitral muito grande, muito complexo, feito de imagens e de histórias. Tinha razão.

Hermano José foi o primeiro diretor que montou na Paraíba minhas primeiras peças de teatro, escritas quando eu morava em Salvador: Quinze Anos Depois” (com Ranulpho Cardoso Jr. e Socorro Brito, ou Numa Ciro) e Trupizupe, o Raio da Silibrina, também chamada O Casamento de Trupizupe com a Filha do Rei.  Eu e Hermano tínhamos um senso de humor e de sátira muito parecido.  Ele era sempre um gentleman, e defendia um teatro devastadoramente sarcástico, cheio de raiva e de riso.  Alguém que sempre me dizia: escreva mais, todo mundo gosta do que você escreve. 

André Setaro foi o primeiro cinéfilo com quem engatei um diálogo ao botar os pés em Salvador em 1973, para assistir a II Jornada Nordestina de Curta Metragem.  Poucos anos depois eu já estava morando lá, escrevia sobre cinema do Jornal da Bahia, e André na Tribuna da Bahia.  Ditávamos cátedra um para o outro bebendo e pontificando, sem levar nada muito a sério, a não ser os filmes propriamente ditos. Fui embora da Bahia, sei lá mais por quê.  Depois do Facebook, nos reencontramos.  Conversávamos sobre Hitchcock e Buñuel, sobre Brigitte, sobre cigarro. André era um cineclubista de causas impossíveis.  Saiu a notícia de sua morte. Depois, a página do Facebook continuou a ser alimentada, com posts que pareciam dele.  Para mim, André Setaro é o primeiro habitante da Singularidade.




terça-feira, 30 de dezembro de 2014

3697) Mais adeuses do ano (30.12.2014)



Moacy Cirne foi um dos nossos grandes estudiosos das Histórias em Quadrinhos, e ajudou a dar respeitabilidade ao gênero no meio acadêmico. Cinéfilo, foi também o criador, na UFF de Niterói, do primeiro curso acadêmico de ficção científica em nossa universidade. Foi um dos meus vizinhos nordestinos no Flamengo, primeiro, e depois em Laranjeiras. Redigia uma folha-volante “jomardiana”, o Balaio Incomum, que distribuía com os alunos, cheia de poemas, provocações políticas, versos fesceninos do lendário Chico Doido de Caicó. Vou rever A Aventura de Antonioni, seu filme favorito, e pensar para onde vão as pessoas que não vemos mais.

No Curso Clássico, no turno da noite no Estadual da Prata em 1969, um dos colegas mais bem-falantes da turma era um “cabôco” moreno, magro, de testa enorme, sorriso confiante e voz metálica. Anos depois, quando me aproximei dos cantadores que frequentavam o Bar de Seu Manu, lá estava ele, agora com uma viola do lado.  Apolônio Cardoso formou-se em Direito, mas para mim foi sempre o poeta. Voltamos a nos cruzar na redação do Diário da Borborema, onde ele tinha uma coluna periódica sobre cultura popular.  Faleceu nas vésperas do Natal; eu não o via há anos. Em alguma caixa de fitas cassete em minha casa, a voz metálica ainda canta sextilhas.

Quando eu tinha uns 8 ou 9 anos o mundo parava para a gente ouvir a radionovela As Aventuras do Flama. Eu e minha irmã Clotilde colecionávamos rótulos do Drops Dulcora (“quadradinhos, embrulhadinhos um a um”) para entrarmos no clube do Agente Secreto. O Flama era uma espécie de Batman que combatia tanto gangsters quanto monstros-robôs, acompanhado por Zito, Eliana, o Raposa, o Comissário Lawrence, Bolão...  Era tudo criação de Deodato Borges, que também criou uma revista em quadrinhos com as aventuras dele. Deodato, tal como Péricles Leal (criador do Falcão Negro), foi um pioneiro paraibano de quadrinhos e de novelas num mundo de pulp fiction. As últimas imagens que vi dele foram desenhadas por seu filho Mike Deodato, retratista de heróis.

Como tantos craques do futebol paraibano, Zezinho Ibiapino brilhou tanto no Treze quanto no Campinense. Era um meio-campista atarracado, com um domínio de bola impressionante, especialista nas cobranças de falta com folha-seca e naqueles lançamentos de 40 ou 50 metros que geralmente associamos a Gérson ou Rivelino. Uma vez brigou com a diretoria do Campinense, foi a julgamento, meu pai foi o advogado dele e conseguiu absolvê-lo e trazê-lo para o Treze, onde ele acabou sendo campeão em 1966.  Onde quer que eu o encontrasse pelas ruas de Campina Grande, ele me cumprimentava: “Diz, fí de Nilo”.


domingo, 28 de dezembro de 2014

3696) Reescrever (28.12.2014)



(manuscrito de George Orwell para 1984)

John Casey é um romancista com alguns livros premiados, e reuniu num volume (Beyond the First Draft: The Art of Fiction) reflexões a partir de suas palestras nos Encontros de Escritores de Sewanee, dos quais ele participa.  Que me perdoem os colegas críticos e teóricos da literatura, mas em termos de discussão do ato da escrita eu prefiro dar atenção ao que dizem os escritores. É mais perto da experiência real de quem escreve.  Crítico literário é muito bom para avaliar o que já está publicado.  Pra ajudar a enfrentar a página em branco e o arquivo zero byte, só escritor.

Casey diz, logo no começo: “Não posso ensinar uma pessoa a escrever, mas às vezes posso ensiná-la a reescrever”.  Isso me lembrou outra sugestão que não sei se é de Hemingway ou de Faulkner, mas poderia ser uma colaboração de ambos: “Escreva bêbado, reescreva sóbrio”.  A escrita envolve dois tipos de ação, cada um suprindo as limitações do outro.  Há um primeiro movimento que é o Despejo, onde o sujeito derrama em cima da página toda a confusão mental de que fica possuído no momento em que inventa de contar uma história.  É um momento de liberação do inconsciente, como se diz; um momento em que ele precisa remexer bem no fundo de um baú de coisas nunca-ditas e dizê-las pela primeira vez.

Depois vem o segundo momento, em que uma mente mais racional e crítica vai capinar esse matagal de rascunhos, arrancando o que não se aproveita. É nessa parte que (segundo Casey) um olhar externo pode ajudar.  O olhar de alguém capaz de perceber o que estava acontecendo na mente do autor e dizer-lhe: isto está longo, isto está curto, isto é repetição, isto é imitação, isto está muito verde ainda, isto é clichê.  Sempre (acho eu) pedindo para que o autor mude, mas refreando a vontade de sugerir a mudança.  Quem passa pente-fino em texto alheio tem o direito de criticar e sugerir mudanças, mas não de impor frases suas.

Um problema que se vê muito por aí é texto que não foi revisado. (Não falo em manuscritos: falo em livro publicado em editora profissional.)  Houve uma revisão ortográfica, mas às vezes penso que o que está ali é o primeiro rascunho, a primeira versão, com todas as suas repetições, redundâncias, imprecisões, incoerências, quebras involuntárias de fluxo narrativo. Revisar um texto não é passar corretor ortográfico.  Vários destes meus artigos são enviados sem uma revisão decente, devido à pressa.  Mas livro não tem a desculpa-esfarrapada da pressa.  Livro fica meses nos corredores da editora.  Dá tempo de reescrever, sim. Às vezes a pressa em publicar é tanta que o autor publica aquilo do jeito que jogou no papel, e se queima para sempre.





sábado, 27 de dezembro de 2014

3695) O tiro no rosto (27.12.2014)



Caminhando devagar, o homem de blusão negro chegou à esquina de uma ruazinha estreita, calçada de pedras, iluminada por um poste. Casas estreitas se sucediam, como livros numa estante. Na luz arroxeada do anoitecer, janelas projetavam retângulos amarelos até a calçada oposta. Algumas crianças brincavam em torno de um carro estacionado.  Diante do batente de uma casa de janelas fechadas, um velho de pijama cochilava com a cabeça abaixada, numa cadeira de balanço. O homem tirou do bolso um papelzinho, enquanto caminhava, e conferiu o número que tinha anotado.

Bateu à porta, pediu para ver o dono da casa. Uma criada de roupa amarfanhada o fez entrar e pediu-lhe que esperasse. A sala tinha um cheiro úmido como se há muito tempo as janelas não fossem abertas para o vento e o sol. Farelos de comida pelo chão indicavam que não tinha sido varrida na véspera. Ele sentou no sofá, que cedeu mais do que era de se esperar. A parede onde estava encostado o sofá vibrava: no quarto contíguo havia uma TV ligada, bradando o ruído irritante de um filme de mercenários em guerra.

Há dez anos ele tentava localizar aquele homem. Viajou o país inteiro, remexeu arquivos, consultou cartórios, rastreou os indícios de sua passagem. Uma pista o trouxe àquela cidade de um milhão de habitantes, onde parecia fácil desaparecer.  Era fácil esconder-se ali, dissolver-se para sempre num subúrbio, numa ruazinha remota, cercado por gente que não dava atenção a nada.  De posse do endereço anotado, ele voltou ao hotel, almoçou, deu alguns telefonemas, e ao anoitecer pegou o ônibus que o trouxera ali.

“Quem lhe deu meu endereço me ligou em seguida,” disse a voz à janela, sobressaltando-o. Olhou: era o velhinho que estivera cochilando na calçada, e o revólver em sua mão não tremia. “Não pense que me caçou. Fui eu que o pesquei.”

A escolha do filme e o volume alto tinham sido propositais. O estalo do .22 passou despercebido. O velho e a criada arrastaram o corpo para o buraco retangular cavado às pressas. Para eles era um ritual longamente aguardado, que se cumpria em alguns minutos e sinalizava o início de uma nova espera. Pás de uma terra escura, empapada de chuva, foram jogadas sobre o cadáver e sobre os ossos carcomidos que despontavam no fundo, de mistura com roupas apodrecidas.  Dentro da casa, o tiroteio do filme continuava, e não deixava ninguém escutar aquele outro tiroteio esparso, que de ano em ano reduzia o número dos herdeiros de um segredo mortal, um tesouro escondido, uma fórmula secreta, um manuscrito raro, alguma dessas coisas pelas quais os homens matam e morrem ao fim de uma longa busca e de uma longa espera.