terça-feira, 26 de agosto de 2014
3587) Cortázar 100 Anos (26.8.2014)
(foto: Sara Facio)
“Você sabia que os índios chirkin, à força de exigirem tesouras aos missionários, possuem tais coleções que, com relação ao seu número, são o grupo humano que mais tesouras possui?” (“O Jogo da Amarelinha”). “Meu jeito malicioso de compreender o mundo me ajudava a rir baixinho” (“Reunião”). “Há uma coisa que se chama tempo, e é como um bicho que anda e anda” (“O Jogo da Amarelinha”). “Um teatro não é mais do que um pacto com o absurdo, seu exercício eficaz e luxuoso” (“Instruções a John Howell). “Compreendíamos cada vez menos o que é um peixe; e por não compreender, íamos ficando cada vez mais próximos deles, que não se compreendem” (“O Jogo da Amarelinha”).
“As passagens e as galerias sempre foram minha pátria secreta” (“O outro céu”). “Doadora do infinito, eu não sei tomar, perdoa-me. Tu pareces oferecer-me uma maçã e eu deixei os dentes sobre a mesa de cabeceira” (“O Jogo da Amarelinha”). “Podem acontecer coisas irrisórias ou terríveis, podemos ter acesso a ciclos que começam na porta de um café e desembocam numa forca na praça central de Bagdá” (“Prosa do Observatório). “Imaginar um repertório de insignificâncias, o enorme trabalho de investigá-las e conhecê-las a fundo” (“O Jogo da Amarelinha”). “Amarrar-se no mastro por medo da música” (“62: modelo para armar”). “Nenhuma namorada minha se suicidou até agora, embora o meu orgulho sangre quando revelo isto” (“O Jogo da Amarelinha”).
“Conheci um cavalheiro que jamais ouvia discos de música clássica porque, segundo ele, o chiado da agulha o impedia de fruir a obra em sua perfeição total; baseado neste exigente critério, era um tal de passar o dia escutando tango e bolero que dava medo” (“Para chegar a Lezama Lima”). “Um cronópio pequenino procurava a chave da porta da rua na mesa de cabeceira, a mesa de cabeceira no quarto de dormir, o quarto de dormir na casa, a casa na rua. Aqui o cronópio se detinha, porque para sair à rua precisava da chave da porta” (“Histórias de cronópios e de famas”). “Ah, deixa-me entrar, deixa-me ver algum dia como veem teus olhos” (“O Jogo da Amarelinha”).
“Tudo em nossa América é o começo do Cão Andaluz, velho, poucas vezes conseguimos olhar alguma coisa de frente sem que a navalha ou o punhal venham furar nossos olhos” (“Fantomas contra os Vampiros Multinacionais”). “É maravilhoso que o conteúdo de um tinteiro possa se transformar em ‘O Mundo Como Vontade e Representação’” (“Os Prêmios”). “A porteira, que gostava muito deles, disse-lhes que ambos tinham cara de desenterrados, de homens do espaço, e foi desta maneira que descobriram que Mme. Bobet lia science-fiction, o que lhes pareceu sensacional” (“O Jogo da Amarelinha”).
domingo, 24 de agosto de 2014
3586) "Missa do Galo" (24.8.2014)
(ilustração: Renato Alarcão)
Já tive muita professora de Português chata, mas nenhuma
mais chata do que uma que tive no Ensino Médio há muitos anos, contando eu
dezessete, ela trinta. Na primeira semana, me mandou ler e comentar uma
história chata sobre uma noite de Natal. Eu morria de medo de ser reprovado, e
faltei no dia. Foi no Educandário PhD, o famoso “Ou Paga ou Dá”. Eu era também do
grupo de teatro, e naquele tempo teatro era pretexto para alguém comer alguém,
como aliás sempre foi.
É verdade que não era tão pentelha feito o resto. Era meio
tristinha, nem bonita nem feia, mas receptiva. O caba tendo quinze anos a mais
estava tudo resolvido. O ano foi se passando, eu fiquei em segunda época ou
recuperação (sei lá como se falava naquele tempo, não sei mais nem em que
década foi), e ela fez comigo a decisiva prova oral.
Eu tinha lido a história, que era sem pé nem cabeça, não
acontecia nada. Era diferente dos “Três Mosqueteiros”, que era grande, tinha
erro de continuidade até no título, mas era mais tchans. Dia da prova ela
mandou abrir o livro com a história. Sentou na cadeira em frente. Perguntei se
não estava chateada por eu ser o único que ficou para aquela prova, atrasando
as férias dela. Ela disse que tudo bem. Perguntou se eu não estava chateado por
estar fazendo prova, etc., e eu respondi o mesmo. Ela estava com olhos de quem
não tinha dormido, a noite inteira pensando.
Me pediu pra dizer minhas leituras, falei minhas agaquê,
meus mangá. Ela me vigiando, me
espionando pelo meio das pestanas... A certa altura estranhou algumas coisas
que eu disse que tinha lido. Me arrependi no ato, porque estava gostando
daquilo, era uma prova diferente. Ela parecia estar indo e voltando, andou pela
sala, valorizou a saia e os saltos que tinha escolhido. Devia achar muito importante poder controlar o olhar do
cara, ter o poder de reprovar o cara... É sempre assim.
sábado, 23 de agosto de 2014
3585) Gírias (23.8.2014)
Uma gíria é um apelido numa coisa que já tinha nome.
Linguagem para uso interno, que se espalha por ouvidos e bocas de
desconhecidos, chega ao rádio e à TV, vai parar no dicionário. Acho que também
toda família tem gírias internas, tem palavras inventadas ou redefinidas,
termos meio absurdos que só fazem sentido para as pessoas que moram naquela
casa.
Um dos termos mais curiosos que já vi foi, num estúdio de
gravação, um bando de músicos discutindo um arranjo e usando o termo
“carrapateira”, onomatopéia pura, para descrever um riff instrumental.
Muitas gírias musicais têm essa intenção de
onomatopéia, um cascatear de sons. O famoso samba-enredo do Império Serrano,
“Bumbum Paticumbum Prugurundum”, surgiu de uma tentativa de descrever para
alguém como era uma das batidas básicas do samba.
No meio musical circulou durante muito tempo o termo “chacundum”
para designar certo tipo de música dançante e padronizada.
Músicos chamam de “gig” (pronuncia-se GUÍ-gue) qualquer
trabalho, tarefa, contrato, viagem. De
início pensei que era alusão às viagens aéreas, pois a sigla do aeroporto do
Galeão, no Rio, é “GIG”. Depois
descobri que já era usada entre músicos de jazz, quando o Galeão nem existia.
“Terça-feira eu tenho uma gig em Belo Horizonte mas na quarta de tarde estou de
volta.”
Para a turma de teatro, branco é a amnésia súbita que se
sente no palco, diante do público, quando nos foge da memória um texto mil
vezes repetido; bife é um trecho longo a ser dito pelo ator do começo ao fim,
um parágrafo que ocupa grande espaço
semirretangular na página; merda é uma exclamação de “boa sorte!” antes de uma
apresentação qualquer. (Em inglês, atores dizem antes da cortina abrir: “break
a leg, quebrem a perna!”. Uma maneira de exorcizar o azar dizendo o contrário
do que se pretende.)
A gíria de um grupo é um pouco como aqueles segredos
gastronômicos a que só uns poucos têm acesso. Quem vem de fora diz: “não quero
jantar nos lugares para turistas, quero comer onde vocês comem”.
Todo grupo tem
sua linguagem das-internas só conhecida de quem faz parte. O grupo se expande,
sua ação se multiplica, começam a crescer a bolha do conhecimento indireto à
sua volta: histórias, relatos, pistas de seus hábitos e atitudes. O grupo fica
conhecido, começa a ser admirado, cobiçado, endeusado, mal entendido.
Quem vem
de fora do grupo apressa-se a usar, forçoso, as gírias do grupo para mostrar
que está enturmado, sabe das coisas. Certos termos de gíria funcionam como um
“xibolete”, teste de familiaridade com a língua no qual uns passam e outros
não. A ansiedade em se fazer “de casa” indica quem não é bem dela.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
3584) Escravos nas paredes (22.8.2014)
Durante um fim de semana, um grupo de pessoas se reúne numa casa de campo para se divertir, socializar, prevaricar, lavar roupa suja; uma delas é necessariamente assassinada. É a célula narrativa básica do que se chama “country-house murders”, um subgênero do romance policial que Agatha Christie muito contribuiu para aperfeiçoar. Outro subgênero é o dos “locked-room murders”, os crimes em quartos trancados por dentro, onde um assassino não poderia entrar, ou de onde não poderia sair, sem ser visto. O crime de quarto fechado é um caso mais específico dos “crimes impossíveis ou “desaparecimentos impossíveis”, um rótulo mais abrangente. Seu executor mais brilhante e seu hábil legislador é John Dickson Carr.
O romance de Marcelo Ferroni, Das paredes, meu amor, os
escravos nos contemplam (Cia. das Letras, 2014) reúne essas duas fórmulas
britânico-americanas e o resultado é curiosamente brasileiro. A família rica e
decadente, dona da fazenda onde a história acontece ao longo de uma noite de
tempestade, tem cadeira cativa em nossa literatura, em nosso cinema, está
presente por toda parte deste país, de sul a norte. É uma família de memória
nebulosa e história construída a golpes de certidões e de relatos. A banalidade
dos seus diálogos, dos seus assuntos, é cruelmente verossímil. Todos são seguros de si, da inteireza do seu
mundo, todos são rápidos como um reptiliano no instante de reagir ao aguilhão
alheio.
Quase todo o livro transcorre em um pouco mais de vinte e
quatro horas. Durante essa jornada insone noite adentro, cadáveres são
descobertos, vidas são sacrificadas, mistérios são propostos e solvidos,
máscaras caem, teorias são confrontadas. É a impiedosa noite acesa dos
culpados. O mistério policial é
colocado e resolvido com clareza, mas mais importante do que o truque do quarto
fechado é o modo gradual como o mistério vai se aclarando, por não haver um
herói detetive centralizador. Cada um explica
um detalhe e um ou outro sugere uma teoria geral para tudo.
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
3583) 9 últimas frases (21.8.2014)
“Vocês dois me dão cobertura enquanto eu rodeio a casa e ataco a porta dos fundos.” (Bradley Coulton, 25 anos, soldado norte-americano, quarterback dos Kalamazoo Bats, para dois companheiros de batalhão que sobreviveram, durante a tomada da vila de Ancozzo, Itália, 1944.)
“Eu sabia que não dava para confiar em nenhum de vocês.”
(François Cuvillier-Dessange, 78 anos, ex-senador da República,
multimilionário, no leito do hospital, na presença dos seis filhos e de quatro
médicos perplexos que não conseguiram conter a inexplicável reação alérgica que
o vitimou de súbito, 1962.)
“Procurem meu filho. Eu tenho um filho chamado Pablo. Nasceu
em 1975, registrado em Vitória da Conquista. Não sei o nome da mãe dele, eu
conhecia ela por Babete. Digam a ele que a culpa não foi minha.” (Denilson
Lucena, 55 anos, baterista, para a camareira do hotel onde se sentiu mal de
repente, São Paulo, 2011.)
“Vamos ter calma, o barco ainda aguenta uma meia hora, já
que vocês não sabem nadar eu vou buscar socorro, é menos de dois quilômetros
daqui até a praia.” (Kim Sin-Nyeng, 31 anos, coreano de nascimento, piloto de
barco, filatelista amador, após uma explosão no motor que os deixou à deriva,
Japão, 1999.)
“Fique de olho no forno, é pra tirar o empadão daqui a dez
minutos. Vou correndo ali na praça, antes que o banco feche, vai dar quatro
horas, é só atravessar a rua.” (Paula Mesquita, 41 anos, dona de casa,
distraída como sempre, apressada como sempre, cheia de coisas para fazer como
sempre, Porto Alegre, 2005.)
“Só mais uns dois, e a gente volta para almoçar.” (Ilya
Rostov, 33 anos, capricorniano, sniper russo, acreditando pela primeira vez que
seria capaz de bater seu próprio recorde de vinte e seis inimigos derrubados
numa semana, Ucrânia, 2014.)
“Eu estava pensando se não era melhor refazer esses exames
todos, as contagens não estão batendo, e cada vez que eu venho aqui preciso me
estressar para ser atendido.” (Pavel Rotski, 55 anos, agricultor, atormentado
por um mal estar que não o deixava em paz,
e cada vez mais irritado com a lentidão e a má vontade do sistema
estatal de saúde, no qual não confiava nem um pouco, Varsóvia, 1953.)
“Que porra é essa ali na frente?...” (Grant Malloy, 31 anos,
caminhoneiro, viajando desarmado numa noite de neblina, porque achava
suficiente ter dois metros e cento e oitenta quilos, avistando um tronco
atravessado na pista, nos arredores de San Diego, Califórnia, 1987)
terça-feira, 19 de agosto de 2014
3582) Histórias absurdas (20.8.2014)
Tem Firricriz, por exemplo. Firricriz era um cão (=um diabrete), numa história que eu ouvi quando era pequeno e acho que nunca vi escrita em lugar nenhum. Ele aprontava traquinagens, era um “trickster” meio gremlin, meio saci. Às folhas tantas, todos o perseguiam e ele entrava pelo ouvido dum cara e se refugiava lá dentro. O cara doido, gritando de agonia com aquele diabrete desorganizando o juízo dele, e ninguém conseguia puxar o diabo pra fora. Aí alguém mandou a família à cozinha, trazer panelas e conchas e percussões de todos os tipos, e mandou todo mundo bater e gritar com toda força. Firricriz lá dentro espantou-se, chegou perto da orelha e perguntou o que era aquilo. Aí gritaram que era o mundo que estava se acabando e que todo mundo ia morrer. Firricriz apavorou-se, saiu do juízo do cara e assim que saiu foi preso.
Esta história, por sua vez, me lembra uma anedota meio ionesca, sobre uma mulher que estava grávida e nada de parir. Nove meses, dez, onze, já estava pra inteirar um ano e nada do menino se manifestar. O médico disse ao casal: “Só tem um jeito de obrigar ele a sair. Vamos apertar o espaço lá de dentro. Pra desalojá-lo. Vamos empurrar pra dentro da barriga da senhora essa poltrona.” Aí empurraram a poltrona do consultório pra dentro da mulher, mas o menino teimou em não sair. O médico disse: “Vamos empurrar aquele violão ali!” Empurraram o violão na mulher, e nada. Em desespero de causa, o médico disse: “Vamos enfiar uma garrafa de cana! Quero ver se ele não sai!” Fizeram, e coisa nenhuma. Aí o médico pediu arrego e disse: “Prepara a cesariana.” Abriram a mulher e o menino estava sentado na poltrona, tomando cana, tocando violão e cantando: “Daqui não saio / daqui ninguém me tira...”
A primeira história (que não é anedota) parece fazer mais sentido do que a segunda, até porque parece ter (e não tem) uma mensagem moral. A segunda não parece significar nada. Numa mesa de bar as pessoas riem, mas se lerem algo assim num livro de contos, p. ex., acham que não entenderam. A anedota, o episodiozinho surreal com “punchline” acachapante, não tem obrigação de fazer sentido, nem tem compromisso com algum código moral, nem intenção de parecer um retrato realista da vida. A anedota é por um lado o mais livre dos gêneros, porque a rigor trata-se apenas do episodiozinho, mas nem todos são capazes de apreciá-lo, e menos ainda são capazes de criar material original dentro duma fórmula tão presa. Porque de uma coisa a anedota jamais pode prescindir: da gargalhada incontível ao ouvir a última linha e ver espoucar o flash do humor rápido, que é como porre de lança, dá um zuín e logo passa.
3581) O que é a vida (19.8.2014)
Reza a lenda que numa certa tarde sombria e invernal, na cidade de Göttingen, o filósofo Arthur Schopenhauer vinha caminhando lentamente pela avenida, mergulhado em metafísicas inquietações. Chuviscava, o chão estava cheio de poças dágua, e o filósofo se deteve perto do meio-fio, esperando que diminuísse um pouco o entrecruzar de cabriolés e tílburis sobre as pedras da rua.
O espetáculo do mundo passava, alheio à sua presença, e o filósofo deixou-se embalar por pensamentos, sem notar sequer, em torno dos seus pés, uma poça dágua, visto que a chuva continuava a cair, molhando seus cabelos e o seu casaco.
Vendo aquela cena, e notando as roupas puídas do transeunte, um policial de cassetete em punho aproximou-se e o interpelou: “Quem é você? De onde vem, para onde vai? O que está fazendo aqui?”
Schopenhauer voltou-se lentamente para ele e respondeu: “Que coisa interessante. Eu estava justamente perguntando a mim mesmo: Quem sou eu? De onde venho, para onde vou? O que estou fazendo aqui?"
Os filósofos e os soldados de polícia fazem as perguntas essenciais da razão de nossa presença na Terra. Todos temos a obrigação de fazer essas perguntas, embora ninguém que seja sensato espere respondê-las em algum momento. São perguntas que não procuram descobrir “a resposta”, como numa charada ou numa adivinhação. O que essas perguntas pretendem é, sendo formuladas a sete bilhões de pessoas, produzir sete bilhões de respostas. Nenhuma delas mais verdadeira ou mais equivocada do que as outras.
Jean-Paul Sartre contava em suas memórias que durante a vida toda se sentiu um fingidor, uma fraude, um cara sem direito de estar no mundo. Ele usava a imagem do sujeito que está viajando num trem mas não tem o bilhete. “Passei a vida escrevendo livros,” dizia ele, “porque se um dia o fiscal do trem viesse me pedir o bilhete, que continuo não tendo, eu lhe mostraria os livros e diria: Estou na Terra com esta função.”
Todo mundo está aqui para fazer alguma coisa. Mesmo o viciado da cracolândia sente que precisa fumar crack todo dia, para justificar sua presença no mundo. Mesmo um monge indiano que vive de jejum e meditação usa os dois como um bilhete para exibir ao fiscal do trem.
Bob Dylan dizia: “You gotta serve somebody”. Não existe almoço grátis, e a vida é um banquete caríssimo e você tem que deixar algo em troca. Vamos ter que fazer alguma coisa para responder aquelas quatro perguntas. Podemos até nos recusar a respondê-las. Mas nenhum ser humano consciente as ignora, nenhuma pessoa capaz de pensar escapou de fazer essas perguntas a si mesmo em algum momento, e elas são perguntas para as quais é preciso inventar respostas.
domingo, 17 de agosto de 2014
3580) Borges e Cortázar (17.8.2014)
(ilustração: Chelo Candia)
Parece que nunca
existiu uma amizade de fato entre esses dois grandes escritores argentinos, que
frequentemente são citados na mesma frase.
Havia quinze anos de diferença etária entre eles, e é natural que o mais
novo visse no outro o seu mestre. Ambos produziram uma literatura fantástica de
matriz urbano, cosmopolita, com inspiração literária e filosófica. Bem diferente da literatura fantástica de
matriz rural ou interiorana (Márquez, Astúrias, Rulfo, Scorza, p. ex.), com
matriz indígena e mitológica. Ambos
livrescos e um tanto tímidos, ainda assim são diferentíssimos. Cortázar um
sujeito afetuoso mas auto-suficiente, que ousou deixar a pátria e viver em
terra estranha. Borges morou com a mãe até que ela morreu, embora depois de
cego e famoso tenha corrido o mundo inteiro. (Talvez um cego se canse menos em
viagens internacionais. Nossa memória visual exige muito do processamento
central.)
Em 1956 Cortázar
estava na Índia e ao conversar sobre Borges veio-lhe a idéia para um poema, que
ele acabou publicando muito tempo depois, em seu “almanaque” A Volta ao Dia Em
Oitenta Mundos. O
título é em inglês: “The smiler with the knife under the cloak”. E diz: “Bem no meio da ensaimada /ele se
plantou e disse: Babilônia. / Muito poucos entenderam / que queria dizer o Rio
da Prata. / Quando se deram conta já era tarde, / quem detém esse potro que
galopa / de Patmos a Gotinga a meia rédea. / Começou-se a falar em vikings / no
Café Tortoni, / e isso curou a alguns de Juan Pedro Calou / e fez os fracos
adoecerem com as runas e David Hume. // Enquanto isto ele lia / romances
policiais.”
Nos comentários
que faz após o poema, Cortázar observa que só viu Borges pessoalmente “duas ou
três vezes na vida”, mas que Borges foi para a geração dele uma lição de
escrita. Mais do que temas e idéias, a literatura de Borges lhes passou a
sensação de uma lâmina afiada até o limite. Uma frase refeita dezenas de vezes,
começando longa e tortuosa, e se limando por dentro até se tornar concisa,
sonora e perfeita. Uma antítese classicista ao derramamento verbal dos
românticos.
sábado, 16 de agosto de 2014
3579) Singularidade Absurda (16.8.2014)
A Singularidade, segundo os cientistas e os escritores de FC, será aquele momento em que todos os processos de inteligência artificial que estamos criando irão convergir para a formação de um estado supra-biológico de consciência humana/cibernética. Como um piloto automático que se apossasse do avião e impedisse os pilotos humanos de entrar na cabine.
O que acontecerá então?
Temos a tendência de projetar um perfil antropomórfico, ou
uma essência semelhante à humana, em todo fenômeno que nos transcende, sem
atentar para essa contradição. Se nos transcende, não é como nós. Não parece
conosco. Não pode ser descrito em nossos termos. Deus não é um homem de barbas brancas
sentado num trono.
A Super Inteligência Artificial do futuro não será um cientista (benigno ou psicótico) dando ordens que não conseguiremos desobedecer.
A Super Inteligência Artificial do futuro não será um cientista (benigno ou psicótico) dando ordens que não conseguiremos desobedecer.
É bastante possível que estejamos criando não uma, mas uma
série de Semi-Inteligências Artificiais, e que a Singularidade, o momento
irreversível em que esse processo escapará das nossas mãos, não tenha uma
consciência central. Não será um computador gigantesco dizendo: “Agora, vocês
vão ter que me obedecer”.
Fico até incomodado quando penso nisto, mas acho que a Singularidade não vai parecer nem com uma Divindade nem com um Super-Cérebro, vai parecer com um Doido.
Fico até incomodado quando penso nisto, mas acho que a Singularidade não vai parecer nem com uma Divindade nem com um Super-Cérebro, vai parecer com um Doido.
Milhares, milhões de processos eletrônico-digitais
controlando nossas finanças, nossas identidades sociais (documentos, senhas,
acesso a tudo), nossos bancos, nossos meios de transporte, nossas formas de
comunicação. Quem me garante que a Singularidade não será capaz de produzir
pastiches perfeitos do meu texto e do meu estilo, postar em redes sociais,
mandar emails para minha família dizendo o que bem entender – e fazer-se
acreditar?
A Singularidade será um universo beckettiano ou douglasadamsiano. A vida no planeta correrá o risco de ser destruída justamente pela falta de um ditador antropomórfico em busca do poder. Serão mil ditadores algorítmicos, conflitantes, contraditórios, tentando se sobrepujar por mero determinismo de programação.
E o mundo se transformará num pesadelo surreal-cubista, numa peça de Ionesco montada pelos loucos do Asilo de Charenton, e a vida humana se tornará finalmente um conto contado por um louco, cheio de som e de fúria e significando rigorosamente nada.
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
3578) Robin Williams (15.8.2014)
Tem atores que são capazes de se concentrar num personagem real ou imaginário e recriá-lo com competência: o Hamlet de Laurence Olivier, o Hitler de Bruno Ganz, o Gandhi de Ben Kingsley, o Gonzaguinha de Júlio Andrade, o Aguirre ou o Fitzcarraldo de Klaus Kinski. Ele cria um personagem como quem ergue uma catedral, com tudo que isso envolve de planejamento a longo prazo e de improviso instantâneo, com tudo que isso implica de filigrana milimétrica e de megalomania estrutural.
Não era o caso de Robin Williams, e não porque ele não fosse
um excelente imitador. Imitou competentemente desde Theodore Roosevelt até
Oliver Sacks e o marinheiro Popeye. É
que Williams era mais capaz de reproduzir os tiques exteriores de alguém do que
de se transformar naquele alguém, com memórias profundas e tudo o mais. As
pessoas e os personagens não lhe despertavam tanto interesse assim, a ponto de
fazê-lo dizer: “Passarei dois anos estudando e compondo esse personagem”. Não,
acho que era mais aquela coisa do cômico de vaudeville, do rádio e do cinema
mudo, que abre uma folha: “Qual é o próximo papel? Ah, pirata decadente. Já
sei.”
Vi duas ou três entrevistas de Williams na TV e ele era aquele
tipo não-entrevistável, porque ele nunca é ele mesmo, ele está sempre fazendo
um personagem, e nunca é o mesmo personagem por mais de vinte segundos
consecutivos, às vezes um pouco mais, quando a piada que está inventando se
prolonga. Me lembra o que disse uma vez uma esposa de Peter Sellers: que era
impossível conversar com ele, porque não havia “ele”, havia milhares de
personagens que ele imitava quando precisava dizer alguma coisa. Eram mil
máscaras sem um rosto por trás.
Williams sempre caminhou naquela linha difícil dos atores
careteiros, a que também pertencem Jerry Lewis e Jim Carrey. Sabem que estão sempre a um milímetro de
resvalar no mau gosto, no patético, no cafona, no escatológico, mas é algo mais
forte do que eles. Fariam assim mesmo
que a lei proibisse. Só sabem fazer se for assim.
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