domingo, 24 de fevereiro de 2013

3118) O Convertido (24.2.2013)




Todos nós conhecemos o tipo. 

Pode ser o sujeito farrista e raparigueiro que um belo dia descobre a Bíblia e o culto de domingo à noite.  

Pode ser o rapaz de boa família burguesa que a certa altura descobre os livros de Marx e Che Guevara e fica rodando pela cidade atrás de companheiros para fundar uma célula subversiva e tomar lições de tiro ao alvo. 

Pode ser o pai de família discreto e moralista que na meia-idade começa a sair com uns rapazes exuberantes e em breve separa da mulher, vai morar com um deles, e passa a soltar a franga como quem quer tirar décadas de atraso. 

Pode ser o oposicionista implacável que sempre castigou com seu látego verbal todos os sucessivos governos mas de repente deixa-se cooptar por um deles e agora vive bordando elogios e mensagens de otimismo à mera menção do nome do caudilho da vez.  

Pode ser o beberrão incontinente que depois de anos de vexame descobre uma terapia qualquer, cura-se e passa ser o arauto da temperança e da sobriedade, pra quem até um carro a álcool é um passaporte para o inferno.

Os exemplos são tantos que acabam convergindo todos para uma coisa só. O Convertido é simplesmente um radical que só sabe ser radical; sente tal volúpia na própria radicalidade que pouco importa em nome de quem ou do quê ela esteja sendo praticada. Depois que esgota um lado do problema, ele arregaça as mangas e começa a se dedicar ao outro.

A questão mais interessante é, para mim, a facilidade com que o cara se converte, a absoluta sinceridade com que o faz, e a felicidade esfuziante que experimenta com essa mudança. 

Na verdade, o Convertido é um sujeito que nunca havia se dado o trabalho de prestar atenção no lado oposto. Fez sua primeira escolha muito cedo na vida, ou talvez seja melhor dizer que a escolha foi feita por ele, e ele a aceitou, porque, como todo jovem, estava pensando noutra coisa. O tempo o fez roer essa outra coisa até os ossos. Instalou-se um vazio nele, e em volta dele.  

Um belo dia, sucedeu algo que o fez pela primeira vez prestar atenção naquelas pessoas a quem detestava ou desprezava, com quem se recusava a dialogar, e cujos argumentos desconhecia. Esses novos argumentos preencheram aquele vazio, fizeram-no abrir os olhos para um milhão de coisas novas que o invadiram por um flanco desguarnecido. A ficha caiu. 

Aliás, era um tal cair de fichas uma atrás da outra que o sujeito acabou se convertendo justamente àquelas idéias que se esforçara para ignorar, com as quais nunca debatera, aquelas idéias que nunca examinara, aquelas idéias para as quais ele sempre fechara os olhos e os ouvidos – vai ver porque sabia que era daquilo mesmo que estava precisando.



sábado, 23 de fevereiro de 2013

3117) O gozo da santa (23.2.2013)




(Bernini, "Êxtase de Santa Teresa", detalhe)


Uma piada irreverente diz que o lugar mais religioso do mundo é o Motel, porque se alguém pudesse sair escutando às portas ouviria em todas elas alguém gemendo: “Ai meu Deus... ai meu Deus do céu... ai minha Nossa Senhora... valei-me meu Jesus...”. Não é desrespeito, minha gente; aliás, se quem está por trás daquelas portas são casais cristãos e cheios de fé, melhor dizerem isso do que dizerem aquelas outras coisas impublicáveis que nos ocorrem nesses momentos.

O êxtase religioso e o êxtase sexual são um tema antigo na arte, e me referi dias atrás nesta coluna ao poema de Manuel Bandeira onde ele comenta a “transverberação” (=trespassamento) do coração de Santa Teresa de Ávila. Esta santa escreveu algumas das páginas mais belas da poesia cristã, junto com as de San Juan de la Cruz. Não li muitos poemas dela, mas sua sensibilidade e sua agudeza psicológica me lembram Emily Dickinson ou Cecilia Meireles.

A transverberação é um episódio biográfico em que ela assim descreve a visitação que recebeu de um anjo: “Vi na sua mão uma comprida lança de ouro, em cuja ponta de ferro havia um pequeno fogo. Ele parecia enfiá-la de vez em quando no meu coração, até perfurar minhas entranhas; e quando a puxava para fora arrastava tudo consigo, e me deixava em chamas, com um grande amor por Deus. A dor era tão grande que me fazia gemer; e no entanto era tão extraordinária a doçura dessa dor excessiva que eu não queria que ela parasse”.

Em 1652 o escultor Bernini traduziu esse episódio num famoso grupo de estátuas, em Roma, onde a imagem do rosto da santa, jogado para trás, olhos cerrados, boca entreaberta, é a pura imagem do gozo físico. (Ver aqui: http://bit.ly/a6WfOp). Bernini produziu outra estátua em 1674, da beata Ludovica Albertoni, em que o momento da morte e o momento do êxtase igualmente se confundem (ver: http://bit.ly/YeVUQ0). Para nós, são imagens que evocam de imediato o gozo feminino, o transporte de prazer que já foi chamado “a pequena morte”. A mistura de prazer carnal e transcendência espiritual é um dos aspectos mais curiosos de certas religiões, onde o êxtase pela fé é sem dúvida uma sublimação para o sexo (onde ele é vetado) ou uma focalização de suas energias (onde o sexo é parte de um ritual).

Santa Teresa afirmou num poema: “Deus não tem outro corpo senão o teu / nem mãos, nem pés sobre a terra senão os teus; / são teus os olhos com que a compaixão de Deus contempla o mundo”. Poderíamos teorizar que o orgasmo é uma das raras ocasiões em que o ser humano se torna completo, em que corpo e alma se tornam uma coisa só, e Deus (aceitando a premissa de que haja um Deus) habita alguém por inteiro.



sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

3116) Antídoto contra o tédio (22.2.2013)




Os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, criadores do Concretismo paulistano com Décio Pignatari, costumavam mencionar em seus livros o mistério que cercava uma palavra do antigo idioma provençal. Era a palavra “noigandres”, que nenhum linguista conseguia entender o que era. 

Virou um pequeno enigma, tão fascinante que foi a palavra escolhida para dar nome à revista literária que os concretistas começaram a publicar em São Paulo em 1952. (E eu a citei ao chamar de “Campinoigandres” a cidade imaginária onde ocorrem alguns dos meus contos e meu romance A Máquina Voadora).

Quem quiser saber a história detalhada, leia aqui o ótimo artigo de Antonio Risério (http://bit.ly/YwwnlS); basta dizer que o provençalista Emil Lévy pesquisou a palavra e concluiu que seria uma forma abreviada de “d’enoi gandres”, onde “enoi” é uma forma aparentada ao termo francês “ennui”, tédio; e “gandres” viria de “gandir”, proteger. 

A expressão significaria, portanto, algo que protege contra o tédio. Um antídoto contra o tédio – para ser fiel ao amor concretista pelas assonâncias. E, por uma casualidade serendipícia, é uma boa descrição para a injeção de novidade e estranheza que o Concretismo aplicou em nossa poesia, em nossa crítica literária.

Isto sempre me trouxe à mente a famosa frase de Maiakóvski, que dizia: “É melhor morrer de vodka do que de tédio”. Melhor naufragar na tormenta do que apodrecer na calmaria. Maiakóvski, o futurista “de estatura quilométrica”, com sua camisa amarelo-berrante, dizendo: “A anatomia ficou maluca comigo: sou coração dos pés à cabeça”. 


E me lembra também o conto de Ray Bradbury, no livro homônimo, A Medicine for Melancholy (1959). É a história de uma linda mocinha londrina do século 18, que está definhando de fraqueza e nostalgia. A família coloca sua cama na calçada, em frente à casa, para pedir opiniões aos transeuntes. Um jovem lixeiro aconselha que ela passe a noite ali fora, porque a melancolia que ela sente só pode ser curada por um remédio: a lua. Seguem seu conselho, e durante a noite quem aparece não é a lua, é o próprio lixeiro, agora limpo e cheiroso, que se enfia entre os lençóis da moça e a cura da melancolia com o mais antigo dos remédios.

E não acho que exagero quando vejo na letra de Cazuza em “Todo Amor que Houver Nessa Vida” um pouco disso tudo: “Transformar o tédio em melodia... algum veneno antimonotonia... algum remédio que me dê alegria...”. 

Tudo que as pessoas buscam na vodka, na droga, no amor, na música, na poesia. A novidade, a estranheza, a intensidade, o furacão, a tempestade, a alucinação dos sentidos, a eletricidade na medula, o antídoto contra o tédio: noigandres.





quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

3115) O lutador de Bandeira (21.2.2013)




("Êxtase de Santa Teresa", de Bernini)


Manuel Bandeira refere-se também, a respeito dos seus poemas feitos pelo inconsciente, a “Lutador”, soneto que aparece no livro Belo Belo (1948). Diz ele que a idéia surgiu de uma conversa com sua prima Maria do Carmo do Cristo Rei, monja carmelita, que lhe contou uma viagem feita por umas amigas dela a Ávila, onde viram o coração transverberado da santa local. O poeta impressionou-se com essa palavra, “transverberado” (=trespassado, atravessado) e passou o dia com esta palavra na cabeça, mas sem tentar compor nenhum poema. Diz ele: 

“No dia seguinte de manhã acordo com o soneto pronto na cabeça, com título e tudo. ‘Believe it or not’. Não sei até hoje quem seja o lutador. O primeiro quarteto não permite supor que se trate de Cristo: aplica-se, sim, a Beethoven, cuja biografia escrita por Romain Rolland li e reli comovidíssimo aos vinte e tantos anos. Tanto este soneto como a “Palinódia” [em Libertinagem, 1930] são coisas que tenho que interpretar como obra alheia”.

Eis o soneto: 

Buscou no amor o bálsamo da vida, 
não encontrou senão veneno e morte. 
Levantou no deserto a roca-forte 
do egoísmo, e a roca em mar foi submergida! 

Depois de muita pena e muita lida, 
de espantos caçar de toda sorte, 
venceu o monstro de desmedido porte 
a ululante Quimera espavorida! 

Quando morreu, línguas de sangue ardente, 
aleluias de fogo acometiam, 
tomavam todo o céu de lado a lado, 

e longamente, indefinidamente, 
como um coro de ventos sacudiam 
seu grande coração transverberado!.

Impressionante o cara compor dormindo um soneto que eu não faria nem duplamente acordado. Os versos “levantou no deserto a roca-forte do egoísmo, e a roca em mar foi submergida” são titânicos, uma mistura de Gustave Doré com El Greco. E essa “ululante Quimera espavorida” não é menor que Goya ou (mais obviamente) Géricault. (Relendo o trecho percebo que só me ocorreram comparações com pintores, não com poetas; a forte visualidade das imagens, domesticada por decassílabos quase perfeitos, mostra o duplo nível de criação e elaboração que resultou em “Lutador”).

O coração “transverberado” de Sta. Teresa foi retratado na famosíssima escultura de Bernini em que um anjo atravessa seu coração com uma seta; é a escultura que foi chamada de “o santo orgasmo”, pela intensa expressão de êxtase da santa. Na memória inconsciente de Bandeira, fundiram-se talvez a prima, Beethoven, a escultura de Bernini, a sexualidade sublimada, as imagens extremadas e delirantes de paixões reprimidas. Libido sublimada em imagens, imagens sublimadas em versos. Quem é poeta mesmo, é poeta 24 horas por dia, queira ou não queira.


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

3114) "Persona" (20.2.2013)












Revi este clássico de Ingmar Bergman, um dos mais meticulosamente belos que ele executou. É a história de uma atriz que teve um esgotamento nervoso e ficou muda (Liv Ullmann) e a enfermeira encarregada de cuidar dela (Bibi Andersson). O filme todo é um “pas-de-deux” entre elas. Logo no início do tratamento, vão para uma casa na praia, e lá ocorre o filme quase todo. A expressão “uma casa na praia” é uma das mais vulneráveis à geografia. A praia sueca de Bergman é pouco mais que um sertão: uma região em preto-e-branco coberta de rochedos, pedregulhos, lajedos partidos cheios de arestas e quinas agudas, um mar cinzento que fustiga sem cessar essa superfície árida, estéril. Uma praia que reaparece em outros filmes do diretor, como O sétimo selo, A hora do lobo, etc. Uma praia inóspita, cruel, sofredora. Depois não digam que eu não avisei.


Elizabeth (a atriz) não diz uma palavra; Alma (a enfermeira), fala compulsivamente, sem parar. E então, na convivência solitária das duas, algo começa a acontecer. Ao invés da enfermeira tratar da doente, é a doente que parece tratar da enfermeira, impondo sobre ela aquele terrível e pressionante silêncio do psicanalista sobre o falante indefeso que dá com a língua nos dentes no divã. Alma fala o tempo inteiro, sobre seus planos, seus projetos de vida, seu passado. Há uma cena famosa (que Godard confessa ter imitado em Week-end à francesa) em que ela conta ao longo de infinitos minutos uma experiência sexual que teve na praia, com uma amiga e dois rapazes desconhecidos. Alma se abre, se derrama sobre a sua suposta paciente, e esta, pacientemente, mantém seu silêncio. Como se as duas fossem vasos comunicantes e Elizabeth, num plano mais abaixo, sugasse para si tudo que há na outra.

E elas começam a se fundir, como duas partículas subatômicas que, submetidas a uma experiência, permanecem ligadas, mesmo distantes. Como se uma soubesse o que se passa na mente da outra. Há uma cena com dois monólogos sucessivos em que Alma, parecendo ler a memória de Elizabeth, descreve de maneira impiedosa os comos e os porquês de sua repulsa emocional pelo único filho. Ou na cena (de sonho?) em que o marido de Elizabeth confunde Alma com a esposa e Elizabeth, ao lado, aparentemente sem ser vista por ele, força a enfermeira a abraçar-se com ele, dialogar com ele em seu nome.

Bergman fazia um cinema de prospecção de camadas profundas da mente e da memória, que não se pode alcançar sem altos custos e sem altos sacrifícios. Tirando este aspecto, o filme é de uma linearidade e uma limpidez espantosas, graças às atrizes, à fotografia de Sven Nykvist e à música de Lars Johan Werle.



terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

3113) "Literatura Nazista" (19.2.2013)





Não sei se foi Jorge Luís Borges quem inventou a biografia literária como gênero da ficção (Pierre Menard, Herbert Quain, etc.), mas o chileno Roberto Bolaño produziu um dos mais saborosos e intrigantes títulos desse gênero: A Literatura Nazista nas Américas (1996). Não sei se já saiu no Brasil. 

[ Saiu agora, pela Companhia das Letras, em tradução de Rosa Freire d'Aguiar. ]

É uma coletânea de biografias curtas de 30 escritores de variadas tendências direitistas. Os capítulos variam entre duas e trinta páginas. A imaginação de Bolaño é notável, mas mais notável ainda é seu olho jornalístico: os personagens que ele descreve são caricaturas ou esboços descritivos de escritores em que a gente esbarra em qualquer esquina.

Há por exemplo os irmãos Ítalo e Argentino Schiaffino, chefes da torcida organizada do Boca Juniors, envolvidos com gangsters, celebrantes da violência física e da briga de rua, e colocando a culpa de todos os problemas do país na burguesia judaica e nos intelectuais comunistas. 

Há o plagiador inveterado Max Mirebalais, haitiano, cuja obra é uma gigantesca antologia de autores obscuros cujos poemas ele copia e assina. 

Há a socialite argentina Luz Mendiluce Thompson, cuja maior honra foi ter posado nos braços de Hitler quando era bebê e sua mãe visitou a Alemanha. 

Há o norte-americano Zach Sodenstern, autor de romances de ficção científica sobre o super-herói Gunther O’Donnell, que é acompanhado por seu cão, “um pastor alemão mutante, com poderes telepáticos e tendências nazistas”. 

Há o poeta Rory Long, que cultiva a poesia falada e funda a Igreja Carismática dos Cristãos Californianos. 

Há a poetisa mexicana Irma Carrasco, que afirmava estar “apaixonada por Deus, pela Vida, e pela Nova Aurora Mexicana, à qual se referia indiscriminadamente como ‘ressurreição’, ‘despertar’, ‘sonho’, ‘apaixonar-se’, ‘perdão’ e ‘casamento’”.

Deixo para depois o comentário sobre os dois brasileiros que entram no catálogo imaginário de Bolaño. Os autores que ele inventa (ou que recompõe das memórias de suas andanças por América Latina e Europa) não são todos propriamente nazistas. São aquela mistura informe e desorientada (que aliás não é privilégio da Direita) de vaidade, tacanhez espiritual, leituras desordenadas e cheias de lacunas, alpinismo social, idealismo egoísta, fervor missionário. 

Seus “nazistas” na verdade não passam desses indivíduos que ouvem dez galos tecendo a manhã em diferentes pontos cardeais e querem descobrir todos ao mesmo tempo. 

O único personagem realmente ameaçador é o último, Ramírez Hoffmann, que Bolaño retomou brilhantemente, com o nome de Carlos Wieder, no romance Estrela distante, já comentado aqui nesta coluna (http://bit.ly/SgYxoE). 









sábado, 16 de fevereiro de 2013

3112) O mais e o menos (17.2.2013)





(Saul Steinberg)



O que é o “mais” em arte, literatura, design, etc.? 

Em geral é um “mais” quantitativo: mais formas, mais cores, mais palavras, mais páginas. Um número maior de elementos, enfim. Pode ser também um “mais” relativo à dinâmica, no sentido musical do termo: trechos executados com maior intensidade. 

Nada disso é uma qualidade em si nem um defeito em si. E isso não vale só para a música, vale em toda expressão. É a alternância entre o forte e o suave, uma maior e uma menor concentração. Um tipo de impressão estética que a música orquestral do Ocidente refinou a um grau incomparável.

O “menos” é necessário para efeito de contraste (ou seja, para que se estabeleça essa dinâmica) mas ele pode ser um valor em si, tanto quanto o “mais”, quando há fases históricas em que um deles surge para combater os excessos do outro. 

O Modernismo no século 20 foi, em muitos campos artísticos, uma tentativa de “limpar as estrebarias” atulhadas de resíduos do Barroco, do Romantismo e de outros movimentos que, por diferentes caminhos, pregavam e praticavam a exuberância, a torrencialidade, a multiplicação e acúmulo de sensações, de efeitos. 

Quando a geração de Picasso aderiu à arte africana não foi por um simples exotismo étnico, foi em busca de uma expressão mais sintética, mais direta-ao-ponto, menos dependente de firulas, babados, aquele realismo detalhista chegando à beira do fractal.

Mario Quintana, um dos nossos sacerdotes do “menos”, refere-se no poema “Retrato” (em Apontamentos de História Sobrenatural) a um velhinho “suave como os couros gastos, as madeiras polidas pelo uso, como os seixos rolados – suave e rijo!”. 

É a essência do minimalismo. Não é a mera economia de efeitos, mas uma economia voltada para a concentração, compactação, solidez.

E a verdade é que ninguém trabalha numa única escala. Todo mundo flutua, ao longo do processo criativo, entre momentos-do-mais e momentos-do-menos, como uma orquestra tocando o “Bolero de Ravel” ou uma banda tocando “Stairway to Heaven”. 

Quando escrevemos de verdade, mergulhados no texto e só no texto, sem perceber o que acontece à nossa volta (jogo da Copa, incêndio no prédio, virose no bebê), sabemos quando o texto nos pede três páginas de catadupa verbal em parágrafo único ou um simples bloco de três linhas com cada palavra escolhida após longa deliberação (o que às vezes nos pede mais tempo do que a outra opção). 

Escrever prosa de ficção exige talentos de maestro – o conhecimento dos naipes disponíveis, o saber intuitivamente onde empregar o quê, e principalmente a dinâmica entre o poderoso e o delicado, o transbordante e o contido, a holoilustração em 3D e a foto 3x4.










3111) Ser escritor (16.2.2013)






Volto a lembrar a frase famosa de Ferreira Gullar: “A pior coisa de ser poeta é convencer sua mulher de que, quando você está sem camisa, debruçado na janela, fumando um cigarro e olhando lá pra fora, você está trabalhando”. O lado positivo é que qualquer vagabundo pode adotar essa atitude e defender-se dizendo: “Não me atrapalhe, estou escrevendo um poema”. Corolário: na dúvida, julga-se um poeta não pelo seu comportamento pessoal, mas pelos textos que produz. Ponto final.

Para romancistas ou redatores de obras de maior espessura o debruçar-se à janela não adianta muito. É possível conceber um poema apenas pensando, mas um romance de 300 páginas eu duvido. Em todo caso, não há muita diferença (do ponto de vista da família de um cidadão) entre um marido-e-pai que passa o dia fumando na janela e um marido-e-pai que passa o dia trancado num gabinete, digitando sem parar. São dois indivíduos ausentes, e um processo por abandono do lar pende como espada de Dâmocles sobre suas cabeças, eternamente, porque não basta a presença física. Família que interagir, crianças querem brincar, filhos maiores querem um dedo de prosa, a esposa quer aconchegos e afagos. E o sujeito se obstina em trancar a porta e passar o ferrolho por dentro, dizendo: “Não atrapalhem, estou criando uma obra-prima”. Muita pretensão.

Conversei uma vez num lançamento com a esposa do autor, que ao meu ver elogiar profusamente a obra do marido me agradeceu mais profusamente ainda. Era uma senhora com pés na terra, pão pão, queijo queijo, e me disse: “Eu não entendo nada do que ele escreve, e sou muito sincera, só percebi que ele era importante quando vi o que vocês jornalistas escreviam sobre os livros dele”. É aquela situação meio melancólica da mulher surda que casa com um pianista de concerto. Por mais que ele conquiste prêmios e viaje para tocar com a Sinfônica de Moscou, ela vai sempre ficar roendo um grão de dúvida. “Por que será que o valorizam tanto?...”

O escritor alcança seus maiores triunfos na solidão um escritório. Ele finaliza, de madrugada, o melhor conto que escreveu nos últimos dez anos, e não tem a quem mostrar. A casa está silenciosa. A família dorme; mesmo que seja acordada para participar dirá “Hum-hum, maravilha, boa noite”, e virará pro outro lado. Resta ao escritor ir à geladeira, pegar uma cerveja, debruçar-se na janela e comemorar a façanha ouvindo estrelas. Menos mal, não é mesmo? Existem vocações piores. A certeza do dever cumprido e da “Última Ceia” com tinta ainda fresca deve bastar para reconfortá-lo; e se tem uma coisa no mundo que nunca vai faltar é cerveja na geladeira e estrela no céu.



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

3110) O vírus de McAfee (15.2.2013)



(John McAfee, em foto de Brian Finke)

Desde o ano passado leio notícias sobre as tribulações de John McAfee. Para quem não está ligando o nome à pessoa, ele é o criador do antivírus McAfee, que a maioria de nós já teve ou tem em seu computador. 

De tanto ver seu nome no noticiário (envolvido em crimes, drogas, tiroteios, perseguições, etc.) foi com curiosidade um ponto acima do normal que fui ler a matéria sobre ele na revista Wired de dezembro (http://bit.ly/WBS2dm).

McAfee é o que em Campina a gente chama “um pertubado” (atenção, revisão, é com um R a menos). 

Um “pertubado” é um sujeito que não consegue parar quieto num canto, que parece ter um pequenino alien roendo suas entranhas. Um cara que faz tudo certo e de repente bota tudo a perder com uma gigantesca mancada, que se mete em complicações todos os dias, que faz besteira, que às vezes é agressivo, violento ou criminoso; que não encontra paz em si mesmo nem deixa em paz que está à sua volta. E alguns pertubados são inteligentes.

McAfee era um programador que inventou um antivírus, ficou milionário, entupiu-se de drogas de todo tipo, pirou, teve surtos paranóicos que continuam a atormentá-lo. 

Com uma fortuna de 100 milhões de dólares, refugiou-se em Belize, na América Central, onde foi há pouco acusado de estar fabricando metanfetamina e de matar a tiros um vizinho que envenenou seus cachorros. 

A matéria da Wired (assinada por Joshua Davis) o mostra cercado de guarda-costas, praticando roleta russa, alimentando-se de enlatados e refrigerantes, namorando meninas adolescentes (ele diz: “Quanto mais feia a mulher, melhor o sexo com ela”). Seus delírios mirabolantes (ele é do tipo que resolve qualquer problema metendo a mão no bolso e gastando) e a crise de 2008 consumiram quase todo seu dinheiro.

McAfee é o tipo “rico excêntrico” gerado a partir do mundo internético. São diferentes dos burgueses de limusine, dos yuppies de Wall Street, dos burocratas ricos do mero capitalismo financeiro, porque são indivíduos que criaram algo concreto e difícil. Têm inteligência excepcional, e gostam de viver no fio da navalha. Têm algo de nerd, algo de pirata, algo de rei maluco. 

São os equivalentes, em nossa era, a Kurtz, a Rimbaud, a Aguirre e a Fitzcarraldo. Numa entrevista recente (http://bit.ly/XtiGWq), McAfee afirmou: 

“Não adianta estocar dinheiro. Dinheiro não é algo que você possui. O dinheiro quer fluir através de você, ele é o fluxo livre de energia, ou de capital. É como o sexo. Ele precisa fluir.” 

A sabedoria desses caras, que parecem personagens de Philip K. Dick, é “só de experiências feita”, e eu presto mais atenção nas falas deles do que nas de qualquer PhD formado em Yale ou em Oxford.





quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

3109) Bandeira inconsciente (14.2.2013)





(Manuel Bandeira)



No seu livro de memórias literárias Itinerário de Pasárgada (Global, 2012) Manuel Bandeira comenta os poemas que fez dormindo. Pode parecer estranho a quem não é poeta, mas se um sujeito que anda de bicicleta pode sonhar que está bicicletando, o que há de estranho em um poeta sonhar que está poetando? Ele cita, p. ex., o poema “Palinódia” (no livro Libertinagem, 1930). Diz que sonhou com uns versos, e ao acordar conseguiu lembrar estes: 

Não és prima só 
senão prima de prima 
prima-dona de prima 
- Primeva. 

E um pouco dos versos iniciais: 

Quem te chamara prima 
arruinaria em mim o conceito 
de teogonias velhíssimas 
todavia viscerais.

E diz: “Para completar o poema, tive que inventar a segunda estrofe, que não saiu hermética, como a primeira e a terceira. Achei que seria melhor isso do que fingir obscuridade, coisa que jamais pratiquei. É verdade que tentei o ditado do subconsciente, segundo a receita ‘surréaliste’ (fracassei, como sempre)”. 

É bom ouvir isso de Bandeira, cuja poesia lindamente espontânea esconde um trabalho rítmico e sonoro tão minucioso quanto o de João Cabral, embora dê menos na vista, porque é mais integrado (eu diria “mimetizado”), aos ritmos e sons da fala cotidiana, incluindo-se aí a fala carregada de emoção.

A segunda estrofe, inventada lucidamente pelo poeta, diz: 

Naquele inverno 
tomaste banhos de mar 
visitaste as igrejas 
(como se temesses morrer sem conhecê-las todas) 
tiraste retratos 
enormes 
telefonavas telefonavas... 
hoje em verdade te digo 
que não és prima só / ... etc.”.  

Fico imaginando se esse poema não teria a ver (tal como o “Lutador”, do livro Belo Belo) com sua prima Maria do Castro do Cristo Rei, que era monja carmelita. Trata-se, afinal, de um poema sobre uma prima, com referências religiosas (“teogonias”, “igrejas”).

O poema, mesmo sem ser uma obra-prima (o trocadilho é proposital) parece ter certa importância para Bandeira, não só porque o incluiu em livro, mas porque se deu o trabalho de construir uma ponte entre os dois trechos sonhados. 

A leitura que posso fazer dele agora, obviamente depois de municiado com informações do próprio autor, é que o poeta se dirige a uma prima observando que durante um certo inverno os dois pareceram mais próximos, porque a prima não apenas teve uma vida social mais intensa (indo à praia, visitando igrejas, tirando fotos) como porque ela também lhe telefonava o tempo todo. Há uma relação indiscutível de afeto entre o poeta e a inspiradora do poema, que o faz remontar à própria origem dos deuses (teogonia) e do homem, porque ela é a “prima Eva”.