sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

2465) Drummond: "Poema que Aconteceu" (28.1.2011)


(M. C. Escher, "Mãos")

Alguém devia editar uma antologia de Carlos Drummond sob o título de Poemas de Aceitação, e essa recolha nos revelaria um lado importante e profundo do poeta. 

Drummond tem um estoicismo que pende mais para o zen do que para o masoquista, e não envolve uma resignação passiva da realidade, mas um gesto filosoficamente assertivo, conquistador, de aceitar a realidade dominando-a, subjugando-a através de um abracadabra filosófico que se exprime em palavras poéticas. 

Temos a sensação de que se alguém despejasse sobre Drummond todos os blocos da Pirâmide do Egito ele seria capaz de (se lhe dessem alguns minutos) descobrir uma fórmula verbal de aceitar sua enxurrada e manter-se intacto na base do entulho. 

A aceitação tem sete faces, como tudo que CDA compôs, porque um poema não é uma bula de remédio, fórmula exata e definitiva do produto que acompanha. Um poema é o registro sismográfico das inquietações intelectuais e emocionais de um sujeito, e sua tentativa de dar um nó de tinta em volta de cada problema. 

Um problema sério do jornalismo cultural de hoje em dia (não me atrevo a chamar isso de “crítica literária”) é uma profunda incompreensão do que é a criação literária. Há sujeitos capazes de, num perfeito jargão acadêmico, criticarem um autor por “contraditório” simplesmente porque dois poemas dele, num mesmo livro, exprimem idéias opostas. 

Quem chega à poesia pelas fórmulas didáticas, e não pelos poemas, nunca vai saber o que é poesia. (E me refiro aos poemas no cru, sem anestesia, sem assinatura, sem comentário, sem preparação, o poema caído de uma fenda no céu no colo do leitor). 

Em Alguma Poesia, cujos 80 anos foram comemorados ano passado, surge o singelo “Poema que Aconteceu”, uma dessas pequenas epifanias não-poéticas, não-conceituais, não-estéticas que os poetas tantas vezes procuram. Escrever algo que representa a vida, mas a vida sem enfeites, a vida sem beleza ou drama, a vida sem profundas palavras ou nobres conceitos, a vida que lateja nos animais e nas plantas. “Life, and life only” como disse Bob Dylan. Uma tentativa de auto-despojamento que Alberto “Fernando Pessoa” Caeiro conseguiu por outros meios e caminhos. 

Nenhum desejo neste domingo 
nenhum problema nesta vida 
o mundo parou de repente 
os homens ficaram calados 
domingo sem fim nem começo. 

Não é apenas a letargia dos nossos domingos urbanos e modernos; é a polaróide de um instante sem desejos, sem problemas, sem movimento, sem palavras, sem espaço nem tempo. A vida em Modo Sleep, a vida latente mas com o intelecto desligado. O corpo apenas, vivendo um segundo de cada vez. E ele conclui: 

A mão que escreve este poema 
não sabe que está escrevendo 
mas é possível que se soubesse 
nem ligasse. 

A mão sem Eu, a mão sem mente, a mão mediúnica, a mão-desenhando-a-mão de M. C. Escher, a mão que produz a poesia sem que o dono precise pensar. (Claro que, como Escher, Drummond sabe que está sugerindo algo impossível).





quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

2464) A pornografia e o progresso (27.1.2011)





A economia informal (aquela que se dá do lado de fora das leis e da fiscalização do Poder Público) é uma grandiosa cordilheira de montanhas, cada uma delas parecendo mais alta do que as outras, dependendo do ponto de vista. 

O Tráfico de Drogas, por exemplo, tem crescido exponencialmente nas últimas décadas. 

A Pirataria Digital evolui com tal rapidez que se fosse mesmo uma montanha e tentássemos fotografá-la a foto provavelmente sairia borrada, porque ela cresce a olhos vistos. 

A Pornografia provavelmente é a mais antiga das três, mas nem por isso perdeu impulso. Pelo contrário; no saite Cracked.com (http://bit.ly/f1kbvp) surge um argumentativo texto de Cezary Jan Strusiewicz sob o título: “Cinco aspectos em que a pornografia criou o mundo moderno”.

O primeiro, segundo ele, são as tecnologias de vídeo doméstico, que começam com o VHS. Strusiewicz observa que a idéia de podermos gravar e ver nossos próprios vídeos quando quiséssemos era praticamente inexistente antes do VHS. Diz ele: “Até o final da década de 1970, filmes de sacanagem correspondiam a metade de todas as vendas de fitas de vídeo nos EUA. Na Grã-Bretanha e na Alemanha esse número chegava a 80%."  

A razão disto é que, antes do VHS, a única maneira de ver filmes de sexo era comprar ingresso num cinema pornô, que não é, convenhamos, um lugar onde todo mundo se sente à vontade.

Segundo: a pornografia tornou possível a existência de sua câmara digital. Um dos grandes incentivos para a popularização deste formato foi quando as pessoas perceberam que, pela primeira vez, as fotos que elas tirassem na intimidade dos seus lares não teriam que ser reveladas num laboratório de uma loja, cujos funcionários, é claro, iriam copiar para si próprios as fotos mais picantes do casal. 

O artigo reproduz comerciais de revista, na época, em que essa associação entre foto digital e privacidade erótica é claramente sugerida. O VHS e a foto digital se conjugaram para permitir que qualquer pessoa gravasse e exibisse imagens por conta própria, na hora que quisesse, sem que elas tivessem que passar pela mão de ninguém.

Terceiro: Gutenberg inventou a imprensa; a pornografia a alavancou. Strusiewicz dá um pulo para séculos atrás e mostra algo parecido ocorrendo no começo da imprensa. Diz ele: 

“Gutenberg e sua Bíblia deram o pontapé inicial, mas durante séculos um dos autores mais lidos na Europa foi Pietro Aretino, hoje considerado um dos pais da literatura erótica, com seu livro de 1524 I Modi (As Maneiras), com gravuras de Giulio Romano”. 

Uma espécie de Kama Sutra italiano enumerando posições e técnicas. Ainda hoje, os Sonetos Luxuriosos de Aretino são traduzidos e lidos no Brasil. 

A tese de Strusiewicz é que sempre há compradores para a obra erótico-pornográfica, independentemente de seu acabamento técnico ou valor artístico. Isto faz desta indústria um excelente campo de testes para novas tecnologias e para novos experimentos de transações comerciais.


Continua aqui:

https://mundofantasmo.blogspot.com/2011/01/2467-pornografia-e-internet-3012011.html




quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

2463) Um conto em Power Point (26.1.2011)



Novas tecnologias criam novas maneiras de manipular textos. Com sorte, podem produzir também novas dinâmicas internas: o modo de organizar as palavras; o modo de destacá-las; o modo de conduzir o olhar do leitor e o fluxo de leitura; o modo de alternar cenas; o modo de encadeá-las produzindo a impressão de continuidade ou sequência. Tudo isto faz parte da arte da narrativa, e o surgimento de novos suportes para a palavra escrita pode nos ajudar a contar histórias de uma maneira que não poderia ser contada num texto apresentado de modo convencional, como este aqui.

A escritora Jenifer Egan produziu um conto narrado em forma de apresentação de Power Point, este popularíssimo recurso que possibilita a conferencistas projetarem os parágrafos de sua conferência numa tela, em grandes letras coloridas, e lerem o texto em voz alta para uma plateia que lê ao mesmo tempo, movendo os lábios. Paulo Freire não teria concebido uma maneira melhor de alfabetizar professores e doutores!

O conto de Egan se intitula “Great Rock and Roll Pauses” e utiliza o sistema de “slides” sucessivos do Power Point, telas que se sucedem, cada uma com certa quantidade de texto organizada em torno de formas geométricas, induzindo diferentes fluxos de leitura. O conto foi incluído em seu livro A Visit from the Goon Squad (Knopf, 2010), e pode ser visto em sua forma original (quadros coloridos, sucessivos), aqui:
http://www.slideshare.net/JenniferEgan/rockandroll97-2004cppt.

O conto, aliás,tem como tema um garoto autista (irmão da narradora) cujo hobby é colecionar e analisar o que em música de chama de “pausas Clearmountain” – aquelas pausas bruscas no meio de uma canção, para logo em seguida a música voltar com força total. (Têm este nome por terem sido usadas e abusadas pelo produtor musical Bob Clearmountain). Talvez o estilo Power Point ajude a reproduzir a mentalidade precisa, ordenada e meio mecânica de um autista.

Não se trata, como tanta gente repete, passivamente, de “destruir as formas arcaicas e superadas de literatura”. Nenhuma forma é tão arcaica e superada que não possa ser usada de maneira eficiente ou original. Trata-se de experimentar formas novas, não para “renovar a literatura”, coisa que nenhum escritor pode fazer sozinho, mas pelo espírito lúdico de se divertir com uma maneira diferente de contar. Se isto vai ser assimilado pelo chamado “corpus” literário, não depende de nenhum autor individual. É um processo coletivo e randômico. Melhor ir se preocupar com outra coisa.

Alguém um belo dia teve a ideia de usar tipos de letras diferentes (que hoje chamamos de itálico e negrito) para destacar partes diferentes do texto – mudar de interlocutor, distinguir entre frases pensadas e frases ditas em voz alta, sugerir a presença de uma consciência externa à cena e que a contempla, etc. No começo isto pode ter parecido mero exibicionismo ou excentricidade; mas hoje é um recurso usado em qualquer best-seller.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

2462) “A Rede Social” (25.1.2011)



O filme de David Fincher sobre a invenção do Facebook parece plausível (não li o livro original nem sei os detalhes da história). Ele deixa claro o lado meio aleatório da coisa: o sucesso involuntário, o processo que foge ao controle de seus criadores. O Facebook deixou de ser um passatempo para tirar nerds da obscuridade social em que viviam e se transformou numa fortuna de bilhões de dólares. O livro em que o filme se baseia chama Mark Zuckerberg e Eduardo Saverin de Bilionários por Acidente. Longe de ser um hino à iniciativa individual ou à genialidade, este episódio é um hino ao Acaso. Centenas de redes sociais de diferentes tipos são criadas por mês no mundo. Umas dão certo, outras não. Sabemos por quê deram ou não deram, mas só o sabemos retrospectivamente. Impossível prever. Saverin (no filme) desembolsa 19 mil dólares para fazer o Facebook decolar. Tem gente por aí que já desembolsou milhões, e a idéia deles não decolou ainda.

O Zuckerberg do filme é um nerd radical, inteligentíssimo mas inábil no trato com seres humanos, o que fica bem claro no modo agressivo com que ele trata uma namorada na sequência inicial do filme, metralhando-a com questionamentos e sarcasmos até que ela o manda pro inferno e cai fora. Vê-se que ele é muito mais aparelhado para disputas judiciais, porque durante as sessões em que é acusado de roubar as idéias alheias ele usa essas mesmas armas de maneira exemplar, demolindo os opositores. A mesma nerdice e agressividade de Bill Gates e tantos outros.

Roger Ebert, comentando o filme, observa que existem tradicionalmente três atividades que produzem gênios infantis: matemática, música e xadrez. E sugere que a programação de computadores pode ser uma quarta área. Por que não? Esses geniozinhos têm cérebros capazes de façanhas espantosas mas tendem a ser tímidos, rudes, introvertidos, antissociais. Fala-se a propósito deles na Síndrome de Asperger, que é uma condição próxima do autismo. Zuckerberg, segundo os depoimentos, seria assim; Ebert o compara com Bobby Fischer, o neurótico campeão de xadrez.

A crítica de Peter Travers na Rolling Stone comenta a imagem de Zuckerberg, milionário, sentado sozinho numa sala escura, “com o rosto iluminado pela luz azul do monitor, e fingindo que não está sozinho”. É uma maneira bitolada de ver as coisas. Muita gente pulando carnaval também finge que não está sozinha. Os nerds estão reinventando o mundo à sua imagem e semelhança. Dizer que um computador não faz companhia é tão injusto quanto dizer o mesmo de um livro ou de uma vitrola tocando Beethoven. O Facebook pode dar uma simples ilusão de sociabilidade, mas esta não é mais ilusória, para as pessoas “que não se encaixam”, do que a sociabilidade em carne-e-osso de uma festinha no campus, uma platéia de rock ou um churrasco na laje. O filme mostra que o mundo está cada vez mais formatado pelos nerds, após séculos de ditadura dos extrovertidos.

domingo, 23 de janeiro de 2011

2461) Vou mandar o clone (23.1.2011)



Por um lado meu problema é tempo. Me envolvo em atividades que se bifurcam em duas, que por sua vez se bifurcam em quatro, e como o tempo disponível não se bifurca da mesma forma, vejo-me saltando feito um louco daqui para ali, tentando comparecer a compromissos, perdendo um tempo irrecuperável em deslocamentos tartarugais pelo trânsito, dormindo às pressas, comendo mal, falando em dois celulares ao mesmo tempo, voltando para casa três vezes antes de chegar ao elevador porque me lembro que esqueci alguma coisa, faltando a encontros, confundindo terça-feira às cinco horas com quinta-feira às três... Não, não, impossível viver assim. Felizmente a engenética e a biotecnologia já me presentearam com uma solução rápida (mesmo que não muito barata).

Amanhã, churrasco na cobertura do industrial argentino que gostou do meu livro sobre Jorge Luís Borges e se comprometeu a financiar sozinho a edição do meu DVD ao vivo. Gente fina, o Lorenzo; culto, bom papo, amante da boa comida e das bebidas geladas. Problema são os amigos dele, igualmente ricos mas que nunca ouviram falar no Aleph, não sabem quem é Funes nem onde fica Tlon. Vão me encher de perguntas bobas sobre minha vida, vão ficar querendo comparar Dilma e a Sra. Kirchner, comparar Messi e Ronaldinho Gaúcho... Ora, que se danem. Vou mandar o clone.

Depois de amanhã vai ser pior. Tenho uma reunião numa produtora que vai avaliar meu projeto de documentário sobre coco de embolada e hip-hop. “Avaliar” não é bem o termo porque o projeto já foi aprovado e essa reunião é meramente pró-forma, já sei que eles vão fazer o possível para inflar a parte de hip-hop e minguar a parte do coco. Acham que coco é coisa de gente descalça, e que o hip-hop, por ser conhecido no mundo inteiro, tem mais resposta de público e mais chances de passar nas TVs a cabo do Azerbaijão e da Nigéria. Não sabem de nada. Não tenho paciência para ficar argumentando: vai ser como eu disse, e já passei para meu representante ordens tão inflexíveis quanto as Leis da Robótica de Asimov. Isso mesmo – não vou lá, vou mandar o clone.

Bendita solução, que me custou os olhos da cara, mas me permite pôr os pés somente onde me interessa e onde estou me divertindo ou aprendendo algo útil. Ninguém vai mais malbaratar meu tempo, espremer em gotas de suor inútil os minutos de ouro dos meus últimos anos de vida. Não fico mais em fila de banco (ele mesmo renegocia o empréstimo com o gerente) ou em sala de espera de médico (perto da minha vez de ser atendido ele me avisa pelo celular e eu chego num instante). Quando for apenas para estar presente, apertando mãos, ouvindo e respondendo bobagens anódinas, fingindo que estou me divertindo; quando fôr para aguentar com estoicismo o embate inútil das ondas da aporrinhação alheia; quando fôr para esperar sentado que a aranha do tempo termine de tecer seu relógio com a hora marcada, já sei o que vou fazer.

sábado, 22 de janeiro de 2011

2460) “Europa 51” (22.1.2011)



Este filme de Roberto Rossellini faz a ponte entre o neo-realismo italiano do pós-guerra e o cinema dos anos 1960, chamado de “realismo crítico” e que teve como grandes nomes Antonioni, Visconti, Pasolini, algumas obras de Fellini, etc. Europa 51 já se afasta do neo-realismo (uma escola de filmes feitos nas ruas, com personagens populares, atores não-profissionais, “modus operandi” de documentário) em ser parcialmente ambientado nos apartamentos da alta classe média. Irene (Ingrid Bergman) é a esposa norte-americana de um industrial e sofre uma crise ao perder o filho de doze anos. Influenciada por seu primo, um jornalista marxista, começa a frequentar favelas e a se comover com o destino dos pobres. Torna-se um desses personagens que, sem ideologia política ou fé religiosa, sentem a compulsão de fazer o bem e de ajudar pessoas que antes eram-lhe invisíveis. Irene é um desses personagens que tateiam o mundo em busca do caminho de uma possível santidade. Como o Nazarín e a Viridiana de Buñuel, como vários personagens de Pasolini, como o São Francisco cuja vida o próprio Rossellini filmara em 1950, como o Rocco de Visconti (cada um desses personagens com nuances bem diferenciadas), Irene tenta justapor a um mundo áspero e pragmático um ideal intuitivo, não-racionalizado, de bondade, caridade e fraternidade.

A beleza nórdica de Ingrid Bergman faz um contraste interessante com os rostos mais feios, porém imensamente mais vívidos e reais, dos pobres com quem ela contracena. Estrangeira no país, ela é mais estrangeira ainda naquele mundo de pessoas que convivem diariamente com a doença, a violência, a fome e a morte. Aos poucos ela abandona a família (como os personagens de Pasolini em Teorema) e acaba sendo internada numa clínica para doentes mentais, onde nem o psiquiatra nem o padre conseguem entender com clareza qual é o mal de que ela sofre. Sua santidade fora de lugar contrasta incrivelmente com a personagem Passerotto (Giulietta Massina), uma mãe solteira de seis filhos, incorrigível namoradeira, e que tira de letra todos os problemas do cotidiano. É para que Passerotto não perca um emprego que Irene a substitui em alguns dias de trabalho numa fábrica de papel, onde parece entender pela primeira vez o gigantismo das engrenagens que tornam possível o mundo de onde ela vem.

Outra sequência notável é quando Irene caminha pela clínica e encara as loucas, uma por uma, que olham para a câmara com diferentes graus de desequilíbrio e com expressões “uncanny” de total alienação, desenraizamento, perda de contato humano; ainda assim, Irene ajuda a salvar uma mulher que tenta se enforcar. Acalma-a com as mãos e o olhar, e lhe diz: “Você não está sozinha”, antes de deitar-se ao seu lado, como fizera com o filho, antes da morte dele. Na cena final, somente os pobres que ajudara parecem compreendê-la; ela não tem lugar no seu mundo pequeno-burguês, e caberá a Antonioni na década seguinte mostrar que mundo é esse.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

2459) Drummond: “Política” (21.1.2011)



Existem mil histórias de poetas que entram para a atividade político-partidária e se desiludem. O exemplo mais trágico é Paulo Martins (Jardel Filho) em Terra em Transe.

Um Dom Quixote se debatendo num mundo de Sanchos Panças. Um Jesus destrambelhado chutando-o-pau-da-barraca dos vendilhões do templo. Um idealista que foi naquela velha onda do “sonhar mais um sonho impossível...” e quando viu tinha cochilado ao volante e quem o acordou foi a colisão com o muro do Palácio do Governo.

Em seu livro Alguma Poesia, Drummond dedicou ao seu amigo Mário Casassanta (intelectual e educador, que veio a ser reitor da UFMG) o poema “Política” em que relata algumas melancolias desse personagem-tipo:

Vivia jogado em casa.
Os amigos o abandonaram
quando rompeu com o chefe político.
O jornal governista ridicularizava seus versos,
os versos que ele sabia bons.
Sentia-se diminuído na sua glória
enquanto crescia a dos rivais
que apoiavam a Câmara em exercício.

Vidinha antipoética, não é mesmo? Triste do poeta que para saber-se poeta depende dos elogios da imprensa ou dos amigos. Não que os dois não tenham importância, mas escrever poesia é uma façanha íntima que se esgota na página e na consciência do valor da página recém-escrita; o resto é política, é marketing, é comércio editorial.

E tem gente que para ser chamado de poeta é capaz de tudo, até de escrever poemas, mesmo não gostando de fazê-lo. Não buscam a poesia. Buscam o elogio do jornal governista (ou do oposicionista, o que dá no mesmo).

Entrou a tomar porres
violentos, diários.
E a desleixar os versos.
Se já não tinha discípulos.
Se só os outros poetas eram imitados.

Ter discípulos e imitadores é o horizontezinho de expectativa do nosso personagem; como não achar uma graça cruel nas desgraças que sofre? Mas para o cristão Drummond todo mundo é capaz de se auto-destruir por dentro, de renascer, de se auto-salvar:

Uma ocasião em que não tinha dinheiro
para tomar o seu conhaque
saiu à toa pelas ruas escuras.
Parou na ponte sobre o rio moroso, o rio que lá embaixo pouco se importava com ele
e no entanto o chamava
para misteriosos carnavais.
E teve vontade de se atirar
(só vontade).
Depois voltou pra casa
livre, sem correntes
muito livre, infinitamente
livre livre livre que nem uma besta
que nem uma coisa.

É o grito de ruptura do cara que percebe o grande engodo da política, onde “amizade” significa gratidão cega e lealdade não-crítica. O poeta dá um chute nos engodos e foge para um “rio” que lhe promete “misteriosos carnavais”.

Por outro lado, é o rompimento com a forma tradicional de poesia, parnasiana ou simbolista. Se Bilac quisesse falar sobre esse assunto aí escreveria um soneto, “A Desilusão de Péricles” ou coisa parecida. Drummond frita aquele conjunto de ilusões poético-alegórico-mitológicas no óleo fervente do coloquialismo, do jornalismo, do modernismo, da poesia livre que nem uma coisa.





quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

2458) “_Não contem com o fim do livro” (20.1.2011)



O primeiro livro interessante de 2011 está sendo esta coletânea de diálogos (Ed. Record, 2010) travados entre Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, com intermediação do escritor Jean-Philippe de Tonnac. Gosto de livros de diálogos assim, porque muitas vezes (como no presente caso) temos a sensação de estar na mesma sala, sem direito a voz, mas com direito a testemunhar a troca de idéias e de informações entre dois sujeitos que têm grande quantidade delas. Umberto Eco, autor de O Nome da Rosa é mais conhecido do que Carrière, que os cinéfilos conhecem como roteirista de dezenas de bons filmes, entre os quais alguns dos melhores de Luís Buñuel. O tema das conversas é o Livro, na era das tecnologias eletrônicas, das novas formas de edição e comercialização; e este tema tem um interesse adicional porque os dois, além de escritores, são bibliófilos e colecionadores de obras raras, com grande conhecimento da literatura e do mercado editorial dos últimos séculos.

Eco e Carrière conversam como quem joga frescobol, procurando devolver a bola ao outro da melhor maneira possível para que este abra uma nova vereda no diálogo. Mesmo quando discordam, o fazem com leveza e bom-humor. O fato de um ser italiano e o outro francês os leva a fazer comparações constantes (sem ufanismo, sem bairrismo) entre as artes dos respectivos países. A certa altura, Eco se pergunta por que motivo não havia uma grande pintura inglesa no tempo de Shakespeare, enquanto que no tempo de Dante havia Giotto, e na época de Ariosto havia Rafael. É como se em dado momentos as energias criativas de um país inteiro convergissem para uma única forma de arte, enquanto que em outros, por motivos obscuros, elas florescessem simultaneamente em muitas direções. Carrière cita uma frase meio cruel de François Truffaut, que dizia: “Não existe cinema inglês, não existe teatro francês”.

Com relação ao desaparecimento do livro, os dois observam com razão que as tecnologias digitais ficam obsoletas muito mais rapidamente que o livro impresso. Carrière vai buscar em sua biblioteca um pequeno incunábulo em latim, impresso em Paris em 1498; com exceção de umas poucas palavras obscuras, é perfeitamente legível como linguagem e como tecnologia, cinco séculos depois. E ele cita o caso de um cineasta belga, seu amigo, que tem no porão de casa 18 computadores diferentes, para poder consultar trabalhos antigos, criados em programas de PC que não são mais usados hoje.

Os dois comentam que a possibilidade atual de armazenar quantidades imensas de dados não significa que tudo isto continuará armazenado (e acessível) indefinidamente, e observam que mesmo uma biblioteca gigantesca não passa de uma mera seleção, um filtro de escolha, de prioridades, aplicado a uma cultura. “O que devemos preservar?” – eis a questão, porque é impossível preservar tudo, tanto quanto é impossível consultar tudo quanto foi preservado (e que é necessariamente uma pequena parte desse todo).

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

2457) As telenovelas de Woody Allen (19.1.2011)



Em cartaz na Paraíba, Você vai conhecer o homem dos seus sonhos, de Woody Allen, é uma espécie de novela da Globo, comprimida em uma hora e meia e falada em outra língua. O filme se passa em Londres mas só percebi isso quando vi o volante do automóvel no lugar errado; para mim, era a mesma Nova York de sempre, os mesmos casais-em-crise de sempre, os mesmos artistas frustrados, os mesmos cinquentões neuróticos. Não tenho visto seus filmes mais recentes, mas Woody Allen parece ter cristalizado um estilo em que cada filme parece se passar no quarteirão vizinho ao dos filmes anteriores.

Aqui estão de volta alguns personagens clichê de Allen: o ricaço de meia-idade que larga a esposa idosa por uma sirigaita que o trai com meio mundo; o escritor que nunca escreve, limita-se a queixar-se em voz alta do desinteresse dos editores e dos críticos; a mulher que recorre a cartomantes para ouvir coisas que lhe fazem bem; o marido jovem e ocioso que trai a mulher com quem quer que apareça à sua frente. São personagens e situações clichê, e por isto mesmo dependem do charme do ator ou atriz que os interpreta. Os melhores neste caso são Gemma Jones (a velhota que acredita no astral), Lucy Punch (a garota-de-programa vulgar e desengonçada), Naomi Watts (a secretária de Antonio Banderas), Josh Brolin (o escritor-marido cafajeste). Allen parece um diretor de óperas montando pela vigésima vez Aida ou Turandot pelo prazer de ver novos atores em velhos papéis.

Falei em novela; a vantagem de fazer cinema, como no caso de Allen, é o fato de poder comprimir os oito meses de uma novela em uma hora e meia de projeção. Se este filme fosse uma novela da Globo veríamos Banderas e Watts visitando vinte artistas plásticos e dizendo as mesmas coisas a cada um deles; veríamos todos os preparativos do casamento de Allan e Dia até seu cancelamento na véspera; veríamos 150 cenas de Anthony Hopkins sendo traído pela despilotada com quem casou. Um filme de hora e meia permite ao diretor resumir isso em meia dúzia de cenas, e dar a cada uma um quê de surpresa ou de reviravolta, antes que seu interesse se esgote.

O filme é mais divertido pelas situações do que pelos diálogos. Se o víssemos sem saber de quem era poderíamos pensar que era de um imitador de Allen (pois se trata de uma imitação, só que feita pelo próprio autor dos originais), porque desta vez há raros diálogos que valem como piada autônoma, piadas-de-uma-linha, frases devastadoras. As falas de Gemma Jones (“Cristal me disse que eu fui uma aristocrata numa vida passada...”) não são engraçadas em si, não são piadas; rimos porque nos parecem patéticas e estranhamente próximas de nós, e isto não se deve ao dialoguista, e sim à atriz. A crítica vive a cobrar de Woody Allen, aos 75 anos, uma nova obra-prima. Se ele fizesse um artesanatozinho como este todo ano eu me dava por satisfeito

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

2456) "O Cavaleiro de Bronze" (18.1.2011)



As chuvas catastróficas no Estado do Rio neste começo do ano aconteceram, por sincronicidade, na mesma semana em que eu estava lendo, no livro de Marshall Berman Tudo que é Sólido se Desmancha no Ar, o capítulo dedicado à cidade de São Petersburgo, e à sua importância na consolidação dos projetos modernistas da Europa. Berman explica que Petersburgo foi uma cidade conquistada ao mar, um triunfo da engenharia e do urbanismo de sua época, uma espécie de apoteose do pensamento modernista de que a ciência, a tecnologia e a razão são capazes de vencer qualquer obstáculo, e que suas vitórias sempre representam a passagem para um estágio superior da vida humana.

Berman comenta o poema de Puchkin “O Cavaleiro de Bronze”, em que Petersburgo é destruída por uma enchente do rio: “O rio desabou com ódio e tumulto, inundou as ilhas, fez-se cada vez mais feroz, elevou-se e rugiu como uma máquina exalando vapor e, frenético, desabou finalmente sobre a cidade. (...) Um cerco! Um ataque! Ondas sobem até as janelas, como bestas selvagens. Barcos, numa massa desordenada, quebram os vidros com as popas. Pontes que o dilúvio rompeu, fragmentos de cabines, vigas, tetos, as mercadorias dos comerciantes precavidos, os pertences arruinados dos pobres, as rodas das carruagens da cidade, os caixões do cemitério, tudo flutua à deriva pela cidade”.

A criação da cidade pela engenharia e sua parcial destruição pelo rio/mar ganham dimensão simbólica pela força da poesia de Puchkin e da análise de Berman. Cada cidade é um pequeno triunfo modernista e tecnológico, uma modesta derrota imposta à Natureza (porque é em termos de conflito contra a Natureza que as cidades em geral são vistas). Cada vez que o império da Natureza contra-ataca, conquista, por sua vez, uma modesta vitória. O mundo moderno, conforme Berman o enxerga, perde cidades inteiras como uma cobra perde pele: como uma fase natural de seu próprio crescimento.

As obras da antiguidade sonhavam em permanecer de pé durante 40 séculos; as de hoje querem ser a apoteose do presente. Até quando desmoronam são um triunfo, porque o capitalismo/modernismo, insaciável, constrói outra por cima das ruínas da primeira. Nossas cidades são o avanço do descartável, do efêmero, bairros construídos sobre lixões, favelas espalhadas no mangue da beira-rio, efeitos colaterais da briga com a Natureza e primeiras vítimas dos seus contragolpes. Cada pirâmide precisa de 150 mil operários e consequentemente de 150 mil barracos; não existem pirâmides onde não existem barracos.

As enchentes de Teresópolis, Friburgo, São Paulo, bem como as de Palmares e de cidades alagoanas ano passado, são a pororoca entre civilização e natureza. Nossas cidades se desmancham no ar porque seu sentido se esgotou (para quem as construiu) no empreendimento da construção. É a civilização do presente, que constrói como se o futuro não viesse nunca, como se já tivéssemos atingido o fim da História.