sexta-feira, 30 de abril de 2010

1981) Fantasia Cartesiana (15.7.2009)




(René Descartes)
 

A abreviatura tradicional para “science fiction” é SF. Indico de saída o termo inglês porque foi nos EUA que essa literatura, antes dispersa em obras individuais, transformou-se, por força do ímpeto comercializador dos norte-americanos, em gênero literário. 

É bem verdade que na Grã-Bretanha usava-se o termo “scientific romance” para designar obras como as de Julio Verne, H. G. Wells e outros. Mas o que colou, pra variar, foi o termo norte-americano, que aqui em português acabamos traduzindo como “ficção científica”. 

Este termo, aliás, traduz a rigor a expressão parecida “scientific fiction”. “Ficção ciência” seria a tradução mais ao pé da letra. Uma palavra bem mais rica de conotações seria a designação italiana para o gênero: “fantascienza”, que em português daria “fantasciência”, fazendo uma correta alusão ao elemento de fantástico ou de fantasia que permeia o gênero. 

Em alemão existe um termo igualmente adequado do ponto de vista semântico: “Wissenschaftlich-phantastische Erzählung”, ou “narrativa científico-fantástica”. Mas quem seria capaz de utilizar um semelhante escolopendro na linguagem cotidiana? Usa-se a siglazinha FC, e estamos conversados. 

Assim como serve para designar “ficção científica”, FC serviria também para indicar um outro rótulo igualmente aplicável ao gênero: Fantasia Cartesiana. Não imagino que este termo venha a suplantar o já consagrado, mas como alusão à ciência moderna ele me parece insuperável. 

Poderíamos dizer, para justificá-lo, que o lema da Fantasia Cartesiana é: “Penso, logo existe”. Se eu penso em alguma coisa, ela torna-se real no plano do pensamento. Os pensamentos que ocorrem numa mente humana são tão reais quando os objetos físicos – eis um postulado capaz de ser aprovado tanto pelos Materialistas Empedernidos quando pelos Idealistas Radicais. 

Tudo que se passa em nossa mente atinge um nível inicial de realidade; se é registrado por algum meio de expressão (fala, escrita, representação visual), sobe a um patamar mais alto de realidade; se é captado por outras consciências e se propaga, atinge um patamar mais alto ainda. Torna-se mais real. Existe com mais intensidade. 

Além do mais, lembremo-nos de que foi Descartes quem concebeu a arte de, com um eixo de coordenadas numéricas (as famosas “ordenadas” e “abscissas”), criar uma equivalência entre grandezas aritméticas e formas geométricas – entre o digital e o analógico, portanto. (Ver artigo “A cruz de Descartes”, 5.11.2003.) 

Uma equação do 1o. grau é uma linha reta; uma de 2o. grau é uma parábola. Cada intersecção entre um “x” e uma “função de x” determina um ponto que se torna um átomo de uma imagem. Podemos gerar imagens a partir de dados numéricos, e vice-versa. 

A Fantasia Cartesiana homenageia aquele que, sem o prever, criou a base para a Computação Gráfica, os efeitos especiais e a arte eletrônica. Ele pensou. E agora, algo existe.







1980) A praga do PPS (14.7.2009)



Não se passa um dia sem que eu receba um spam em forma de arquivo PPS (que imagino significar Power Point System ou coisa parecida). O Power Point é um programa do Windows que produz aquilo que antigamente chamávamos de “projeção de slides” – uma sucessão de imagens fixas e de textos, com ou sem acompanhamento de áudio. Um recurso que o programa torna facílimo produzir. Daí que nossas caixas de mensagens amanheçam todos os dias entupidas por PPSs de todos os tipos.

Não vou dizer que não olho. Olho de vez em quando, e com proveito. PPSs com fotos da natureza, de paisagens, de arquitetura e imagens deste ou daquele país, etc., costumam ser de uma beleza surpreendente. Imagino que o pessoal captura isso de saites como National Geographic. Prefiro aqueles que vêm sem trilha sonora, a qual costuma ser com melosos violinos, pianos dietéticos ou gravações padronizadas de folclores locais. Os PPSs de mensagem cristã eu pulo por cima; afinal já li e assimilei a Bíblia (embora ainda esteja atrasado nos Apócrifos). Os PPSs de mulheres peladas têm qualidade variável, mas se existe uma coisa fácil de obter hoje em dia na Internet é foto de mulher pelada. É mais rápido do que ver que horas são.

Um recurso que me irrita sempre é o fato de que o programa dá ao usuário diversas opções sobre a maneira como o texto vai ser adicionado. Em vez de simplesmente aparecer a foto e depois, sobre ela ou ao lado dela, aparecer o texto correspondente, criou-se um mecanismo teratológico que trata o texto como se as linhas fossem serpentinas e as letras confetes. Aparece uma foto interessante, mas o texto que a explica surge como se o computador estivesse bêbado. Uma linha desliza horizontalmente da direita para a esquerda, a linha seguinte faz o mesmo da esquerda para a direita... Ler uma coisa assim é um suplício.

Pior ainda é quando o engraçadinho faz com que as letras venham caindo de uma em uma do alto e se encaixando em suas posições. Quem faz isso lê pouco, ou lê “assoletrando”. Não perceberam que ninguém lê palavras letra-a-letra. Reconhecemos a forma inteira da palavra, quando já a conhecemos, sem atentar para os detalhes. É por isto que cometemos tantos erros ortográficos, porque não damos atenção ao detalhe, e sim ao conjunto. É por isto que também circulam por aí outras mensagens provando que podemos ler um texto em que as palavras estão escritas com erros, desde que se mantenham iguais a primeira e a última letra. Difereçnas peqeunas são ignroadas durnate a leitrua; as palarvas são reconecihdas pelo seu fomrato e pela probablidade estatítica de frequêcnia das letars.

Meu conselho à galera do PPS: deixem o leitor ler em paz. Não obriguem as letras a fazerem rodopios, piruetas, cambalhotas. Isto incomoda a vista, atrapalha a concentração... Equivale a telefonar para alguém junto de um liquidificador ligado. A menos que seja PPS de mulher pelada. Nesse caso, tanto faz, ninguém vai ler mesmo.

1979) O país dos espiões (12.7.2009)



(William Gibson)

Em seu recente Spook Country, William Gibson produz um curioso romance de espionagem que “The New York Times Book Review” chamou de “o primeiro exemplo do romance pós-11 de setembro, cujos personagens estão cansados de serem empurrados para lá e para cá por forças maiores do que eles – a Burocracia, a História, e, sempre, a Tecnologia – e finalmente decidiram-se a enfrentá-las”. Chamar o livro de Gibson de “thriller” seria forçar um pouco a barra, porque um thriller é por definição um livro que visa produzir emoções fortes, e Gibson afasta-se mais disso a cada livro que publica. Seu estilo é lúcido, contemplativo, e mesmo quando descreve intensa ação física, como uma perseguição, uma tentativa de atropelamento, uma briga, ele verbaliza as coisas de tal modo que o leitor sente estar tendo acesso a uma descrição analítica de um fato, e não à ilusão do fato propriamente dito.

Spook Country conta a minuciosa preparação de algo que imaginamos ser um atentado terrorista, ou um assalto de grande porte, ou um crime político... Vemos os preparativos, mas os vemos através dos olhos de personagens que no livro são protagonistas, mas não passam de meros figurantes no fato. Eles entendem as coisas fragmentadamente, com avanços e recuos, dúvidas e surpresas... Aos poucos vão montando o quebra-cabeças; e nós também.

A certa altura, um dos personagens de Gibson diz: “Uma nação consiste em suas leis. Uma nação não consiste em sua situação num dado momento. Se a moral de um indivíduo é uma moral situacional, este indivíduo não possui uma moral. Se as leis de uma nação são leis situacionais, essa nação não possui leis, e dentro em pouco deixará de ser uma nação. (...) Será que vocês estão tão apavorados com os terroristas que estão dispostos a destruir as estruturas que fizeram da América o que ela é? (...) Se for assim, estarão permitindo que os terroristas vençam. Porque esse é exatamente o seu objetivo, seu único e específico objetivo: amedrontar vocês até fazê-los abrir mão de suas leis. É por isto que são chamados terroristas. Eles usam ameaças aterrorizantes para fazer com que vocês degradem sua própria sociedade. (...) E tudo se baseia no mesmo defeito da psicologia humana que faz as pessoas acreditarem que podem ganhar na loteria. Estatisticamente, quase ninguém ganha na loteria. Estatisticamente, ataques terroristas quase nunca acontecem”.

Desde que Gibson inventou o conceito literário de ciberespaço e fundou o movimento “cyberpunk” sua literatura mudou enormemente, embora em essência permaneça a mesma. Seu estilo tornou-se mais límpido; perto de Spook Country, um livro como Neuromancer é um delírio surreal. Seu tema básico – humanismo vs. alta tecnologia – continua a perpassar tudo que escreve. Vinte e cinco anos após sua estréia em livro, o humanismo está descendo aos Infernos, e a tecnologia subindo ao Paraíso. Gibson tem a ubiquidade de espírito necessária para documentar os dois.

1978) Os jogos simétricos (11.7.2009)



Não deve ter escapado à maioria dos torcedores a curiosa simetria de resultados nos dois jogos da semana passada, realizados em Porto Alegre. Na quarta-feira, o Internacional recebeu o Corinthians para decidir o título da Copa do Brasil. Na quinta, o Grêmio recebeu o Cruzeiro, na decisão da semifinal da Copa Libertadores da América. Os dois times gaúchos estavam em desvantagem, pois ambos tinham perdido o primeiro jogo para seus adversários por dois gols de diferença: o Corinthians vencera em São Paulo por 2x0, e o Cruzeiro vencera o jogo de Belo Horizonte por 3x1. Mesmo assim, tanto os colorados quanto os gremistas tinham esperanças justificadas, pois bastaria vencerem por 2x0 (no caso do Grêmio) ou por 3x1 (no caso do Inter) para ganharem a disputa. Resultado normais em jogos entre equipes equivalentes.

Na quarta-feira, no entanto, o Corinthians desmantelou as esperanças do Inter logo no primeiro tempo, quando marcou dois gols e aumentou sua vantagem acumulada nos dois jogos para 5x1. Mesmo sendo um dos melhores times brasileiros do momento (na minha opinião), o Inter não tinha como tirar uma diferença tão grande em 45 minutos, enfrentando um time tão bom quanto o seu. Ainda assim, conseguiu fazer dois gols no segundo tempo. O jogo acabou 2x2, e o Corinthians foi campeão com o placar acumulado de 5x3.

Imagino as gozações que os torcedores do Grêmio fizeram durante o dia seguinte, zoando dos derrotados e esperando a noite, quando teriam a chance de ganhar do Cruzeiro e completar a festa. Quando a bola rolou, parecia um VT do jogo da véspera. O time visitante, que já entrara em campo com vantagem de dois gols, fez mais dois no primeiro tempo e foi para o intervalo com vantagem de quatro. O Grêmio, abatido, jogou no segundo tempo sem muita esperança de vitória, apenas para honrar a camisa. Fez dois gols; empatou o jogo em 2x2, mas saiu tão derrotado quanto saíra o Inter na véspera.

É muito raro que duas partidas importantes, na mesma cidade, em dias consecutivos, envolvendo dois times rivais, tenham uma marcha do placar absolutamente idêntica. Até mesmo no detalhe de que o último gol de cada jogo foi marcado aos 30 minutos, o que daria tempo, teoricamente, para que o time em desvantagem fizesse, nos quinze minutos que restavam, os 3 gols de que precisava para vencer a disputa. Não aconteceu, claro. Os visitantes souberam administrar a vantagem que tinham. Corinthians e Cruzeiro ganharam com méritos, principalmente o primeiro, considerando-se que o time do Inter é muito superior ao do Grêmio.

Jung falava em sincronicidades – coincidências significativas e inexplicáveis. Mais do que isso, no entanto, às vezes me parece que a vida é um poema rimado. Simetrias improváveis aparecem quando menos se espera, e nos dão a impressão de que vimos a repetição de um padrão, de um ornato, a justaposição de duas coisas que alguém tornou iguais porque isso lhe dava algum tipo de prazer estético.

1977) Michael Jackson (10.7.2009)



Me deixem correr aqui o restinho de tinta que sobrou para falar desse personagem. MJ surgiu para mim como um neguinho de cabelo bombril, cantando, no Jackson Five, uma açucarada canção de amor, “Ben”, que fez sucesso enorme nos anos 1970 e foi sua primeira música a atingir o #1 da “Billboard”. O que ninguém sabe é quem era Ben. Não, não era um menininho impúbere. Ben era um rato inteligente. Ele se comunicava meio telepaticamente com Willard, um garoto esquisitão cuja mãe viúva era maltratada pelo dono da casa onde viviam, a tal ponto que o garoto e o rato, agora comandando um exército deles, desencadeiam uma horripilante vingança sobre o vilão, interpretado por Ernest Borgnine.

Willard (1971), dirigido por Daniel Mann, foi um sucesso de bilheteria tão estrondoso que logo veio uma continuação, Ben (1972), dirigido por Phil Karlson. Este segundo filme lançou a canção interpretada por Jackson (composta por Walter Scharf e Don Black). Vejam só: um menino antissocial e vingativo, cujo melhor amigo (ousarei dizer “cujo único amor”?) é um rato assassino, a quem ele dedica essa canção... Fico imaginando as dezenas de vezes em que Jackson, com 14 anos, viu e reviu os filmes que lhe deram seu primeiro grande sucesso, e as cenas em que os ratos, comandados por Willard & Ben, devoravam vivo o adulto cruel que os perseguia.

A vida de Jackson foi uma mistura de tudo isso: filme B de terror, palco de megashow, barraco-de-família-pobre. Ele era frágil, temperamental e histérico, como aqueles “castrati” de ópera do século 18, produzidos pela indústria do sucesso a qualquer custo. Virou um perverso polimorfo, que menos explorou do que foi explorado. Era tão pouco pedófilo quanto Lewis Carroll.

Sentia-se um Deus e um Monstro. A imprensa diz que ele comprou o esqueleto de J. Merrick, o “Homem Elefante”, por um milhão de dólares. Jackson negava, mas dizia: “Eu gosto da história do Homem Elefante. Ele parece muito comigo, e eu consigo entendê-lo. Essa história me fez chorar, porque eu me vi refletido nela, mas não, nunca tentei comprar nada... Onde iria pôr aqueles ossos? E para quê iria querer ossos?”.

Jackson tentou fazer em seu próprio rosto aquele “morph” que transformava umas pessoas em outras no seu clip “Black and White”. Foi um dos primeiros a tentar manipular a própria carne e o próprio osso como se fossem pixels, grãos de luz digital. Devia considerar sua imagem mais real do que seu corpo. Era um ser artificial num corpo biológico, algo que os EUA têm produzido em série, como seu contemporâneo Ronald Reagan, um canastrão obtuso que exerceu a Presidência dos EUA como se interpretasse um papel a mais em mais um filme, decorando textos e obedecendo instruções da equipe. Jackson fazia o mesmo, só que era um menino violentado, ressentido, afetado e talentoso, capaz de se apaixonar por um rato. Parecia-se mais com sua estátua no Museu de Cera de Madame Tussaud do que com uma pessoa.

1976) Literatura online (9.7.2009)



Num artigo recente, Steve Johnson imagina que a evolução da literatura online não vai mexer apenas com os modos de comercialização, mas principalmente com o que poderíamos chamar de “nuvem de leitura” em torno de um livro. Chamo de nuvem de leitura aquele agregado difuso de leitores, críticos, estudiosos, etc., que se aglomeram em torno de uma obra, produzindo desdobramentos dela sob formas, que vão desde as mais sofisticadas, como os ensaios acadêmicos, até as mais superficiais, como os comentários de mesa de bar ou de festas (“estou lendo um livro muito interessante, fala de tal ou tal coisa...”) Esse agregado de informações cerca qualquer livro. A nuvem de leitura em torno de best-sellers como Código da Vinci ou de clássicos como Dom Quixote seria, se transformada em texto, algo da ordem de alguns gigabytes. É nesse sentido que Osman Lins afirmava que a Divina Comédia consistia nos três livros escritos por Dante Alighieri e em todos os textos decorrentes deles: todas as análises, traduções, interpretações, etc.

Johnson acha que a fartura de informação e a velocidade de acesso contribuem para dispersar nossa atenção. “Iremos ler os livros”, supõe ele, “cada vez mais do modo como lemos jornais e revistas: um pedacinho aqui, outro pedacinho ali”. Concordo, porque minha apreciação do cinema tem sofrido, por causa da TV a cabo, esse mesmo tipo de mutação. Antigamente, para mim era ponto de honra ver um filme do começo ao fim. Nunca saí no meio de uma sessão, por pior que fosse o filme. Hoje em dia, isso foi para o espaço. Vejo filmes assim, um pedaço hoje, outro pedaço daqui a um mês. Os filmes se repetem muito na TV a cabo. Há filmes dos quais já vi 3 ou 4 vezes as partes do meio, sem nunca ter visto o começo ou o fim. E acho isso normal.

O mesmo deve se dar com as pessoas que não têm muita paciência para ler um livro inteiro. Lêem qualquer livro como eu li o Ulisses: somente as partes que me despertaram a atenção. O resto eu pulei. Uma tendência assim, quando se generaliza, acaba produzindo uma cultura fragmentária, em que todo mundo entende um pouquinho de tudo mas não conhece nada a fundo. Pode ser uma desvantagem, pois estará se criando uma população de cultura superficial. Por outro lado, isto abre a possibilidade de existência de um ambiente de gente mais ou menos bem informada, no qual os especialistas podem vir a ser vistos com respeito: primeiro, porque serão raros; segundo, porque haverá (mais do que hoje) um grande número de pessoas parcialmente informadas e capazes de constituir um público leitor para ele.

Essa democratização superficial da cultura pode ser benéfica. Não no sentido de produzir mais escritores, e sim mais leitores; não de mais conferencistas especializados, mas de maiores platéias em condições de ouvi-los. Intelectuais precisam de pessoas que, sem deter a mesma massa de conhecimentos, sejam capazes de se interessar pelos conhecimentos que eles detêm.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

1975) “Spook Country” (8.7.2009)



O romance mais recente de William Gibson mostra que o criador do movimento cyberpunk está cada vez mais longe da ficção científica tradicional, fazendo literatura “mainstream” sobre um mundo transformado pela tecnologia. Gibson não mais escreve sobre realidade virtual, sobre ciberespaço, sobre mentes plugadas nos computadores. Seus personagens continuam sendo fetichistas tecnológicos, mas suas aventuras acontecem “aqui fora”. Spook Country (que tanto pode ser “País dos Fantasmas” como “País dos Espiões”) é um thriller de espionagem em que a tecnologia tem um papel essencial. Não é um livro de ficção científica. É um romance realista sobre um mundo que foi irremediavelmente transformado pela ficção científica e pela ciência.

Como em todo livro de Gibson, os capítulos se alternam em linhas narrativas convergentes. São três grupos de personagens, que não interagem entre si, mas fazem parte, todos, da mesma história. De vez em quando, seguindo a linha narrativa “A”, temos um vislumbre dos personagens da linha “B”, vistos através dos olhos daqueles. Pouco a pouco, vai se desenhando uma trama. Algo está para acontecer. Alguns personagens trabalham para que aconteça, e outros trabalham para evitá-lo. Alguns deles têm um papel importante na trama mas não têm uma compreensão geral do que está havendo, e em geral são estes que servem de pontos-de-vista para Gibson. O leitor os acompanha, e compartilha suas descobertas, perplexidades e revelações.

Um dos “gimmicks” mais gibsonianos deste romance é a Arte Locativa, uma mistura de realidade virtual com GPS. Os artistas produzem um programa que superpõe imagens a uma paisagem real qualquer; estas imagens só podem ser vistas com um sistema de capacete e óculos especiais, com uma antena que recebe e transmite coordenadas GPS via satélite. Indo numa determinada praia de Los Angeles, o espectador coloca o capacete, liga o botão... e vê o corpo de uma Estátua da Liberdade emergindo das águas. Essa imagem só é visível para quem esteja precisamente naquelas coordenadas: mesmo com o capacete, se o observador se afastar dali algumas dezenas de metros deixa de receber o sinal, a obra deixa de ser visível.

Num dos primeiros capítulos, um personagem diz: “Tudo começou em 1o. de maio de 2000. O governo desligou o sistema de Disponibilidade Seletiva, e as coordenadas de GPS, do posicionamento global por satélite, ficaram pela primeira vez ao alcance de qualquer civil.” O resultado mais prático disto é já termos, por exemplo, táxis com aquele pequeno visor onde aparece um mapa mostrando onde estamos e para onde estamos indo. Rastreamentos desse tipo aparecem o tempo inteiro em “Spook Country”, o que leva um personagem a dizer que “o ciberespaço está sendo virado pelo avesso”, ou seja, ele não reside mais “lá dentro”, mas ajuda as pessoas a navegarem “aqui fora”, e se superpõe (como na Arte Locativa) às próprias imagens que enxergamos com os olhos.

1974) “Profanação”(7.7.2009)



A TV a cabo exibiu este filme de Jules Dassin, de 1962, que já tentei assistir no cinema mas era proibido para menores de 18 anos. Hoje passou na TV proibido para doze. Alguns detalhes justificam em parte essa censura: um caso de incesto (madrasta e enteado se apaixonam) e uma sugestão de lesbianismo. Diante do que vemos nos cinemas em 2009, é um filme quase puritano. Até mesmo pela mensagem do seu final, que, como em qualquer tragédia grega, pune os transgressores com a morte.

Dassin foi um cineasta transnacional. Nascido nos EUA, filho de um judeu russo, tornou-se cineasta, foi perseguido pelo macartismo, mudou-se para a França onde fez nova carreira, e depois criou uma ligação muito forte com a Grécia, onde fez numerosos filmes, alguns deles com sua esposa grega Melina Mercouri. O roteiro de Profanação (cujo título original é “Phedra”) se inspira superficialmente numa peça de Eurípides (Hipólito). Fedra (Melina Mercouri) é casada com o armador grego Thanos (Raf Vallone) e se apaixona pelo seu filho Alexis (Anthony Perkins). Os dois têm um caso. Ela não pode se divorciar, pois isto seria a ruína do marido (que depende do dinheiro do pai dela). Alexis se revolta e passa a desprezá-la. Ela volta a persegui-lo. No final, todos saem perdendo.

Dassin é um cineasta de narrativa tradicional, criando imagens de valor simbólico mas justificadas pelo contexto. A festa noturna em que os convidados atiram pratos brancos ao mar; Alexis ferido deitando-se sob uma torneira aberta para lavar o sangue; Thanos e Alexis subindo num andaime e contemplando os enormes navios em construção. Objetos adquirem valor simbólico: Alexis chama de “my girl” o carro em que morrerá no final, e o naufrágio do navio “Fedra” anuncia a destruição da personagem.

Profanação pertence a um gênero cinematográfico que floresceu nos anos 1960, a Tragédia Amorosa da Burguesia Européia. Nunca os desencontros amorosos dos milionários europeus foram descritos com tanta beleza plástica e tanta impiedade, antes ou depois. Antonioni (quase toda sua obra na época), Fellini (Doce Vida), Resnais (Marienbad), Pasolini (Teorema), Visconti (vários filmes), e inúmeros outros cineastas deram à burguesia capitalista daqueles tempos uma importância cósmica semelhante à que tinham os reis e as rainhas no teatro elizabetano. Ou na tragédia grega, que no caso deste filme serviu de inspiração direta.

Não vejo hoje em dia muitos filmes com essa temática. É uma mitologia que os intelectuais europeus cultivaram com fascinação, como se vissem um significado transcendental naquelas pessoas riquíssimas, frias, ressecadas por dentro, tempestuosas e cruéis, hedonistas e introvertidas, consumidas pelo torpor de quem pode tudo mas não deseja nada. Filmes assim encorparam o “cinema de autor” daquele tempo. Por alguma razão misteriosa deixaram de ser feitos, não sei se por falta de artistas à altura ou por esgotamento do tema.

1973) Os castigos eternos (5.7.2009)



Na infância, amedrontavam a gente com o Inferno através da descrição de torturas físicas horrorosas. As aulas de Religião nos ameaçavam com o Fogo Eterno, em que nossas almas iriam arder para sempre, caso a gente morresse em pecado. Um dia, um aluno mais blasê retrucou: “Eu não ligo, porque é a alma, alma não sente dor”. A freira o fuzilou com o olhar: “Pois fique sabendo que quando a alma está no fogo do Inferno ela sente muito mais dor do que o corpo! E o que é pior: não morre! É um fogo tão grande que o corpo não ia aguentar nem um minuto, mas como a alma é imortal, ela queima ali eternamente!” Era o quanto bastava para de noite eu cair de cama e arder numa febre antecipatória.

Teólogos adultos são mais sofisticados. Dizem-nos que “o Inferno é a ausência de Deus”, o mais intolerável dos castigos. Imagino que para uma pessoa religiosa a ausência de Deus deve provocar uma Náusea, uma ausência de sentido nas coisas, mil vezes maior do que a do protagonista do livro de Sartre quando olha para a raiz de uma árvore e percebe que ela não significa nada, apenas está ali, e isso é tudo. Será que este castigo é mesmo o mais cruel de todos? Parece ser assim para Neil, o protagonista do conto “Hell is the absence of God”, de Ted Chiang (2001), no qual ele vai parar no Inferno, um lugar de onde Deus está ausente a ponto de não saber que Neil está ali. Diz o autor: “Neil sabe que, estando fora da percepção de Deus, seu amor por Ele não é retribuído. Isto não afeta os seus sentimentos, porque o amor incondicional nada pede em troca, nem mesmo reciprocidade. Mas ele continua a amar Deus, pois essa é a natureza da verdadeira devoção”.

Espíritos céticos, no entanto, continuam a se alinhar com a opinião daquele meu colega blasê da escola. É o caso de Oscar Wilde e sua famosa frase: “Livre-me Deus da dor física, e pode deixar que da dor espiritual eu mesmo me encarrego”. Tem razão, em parte. Quando eu tinha 12 anos tive uma dor de dentes que durou dias, tão violenta que pensei em me suicidar. Em alguns momentos o medo de ir para o Inferno me detinha. Em outros eu pensava: “Dane-se o Inferno, eu quero é acabar com essa dor!” E então me veio a idéia salvadora. Compreendi que o Inferno era aquela mesma dor – só que em todos os dentes ao mesmo tempo, e por toda a Eternidade. Essa noção pode ter salvado minha vida.

E tem a história de Rudyard Kipling dando conselhos ao jovem escritor Ford Maddox Ford, então um garoto. “Se você for bom, Fordie”, disse ele, “irá um dia para um lugar cheio de nuvens e de harpas. Você vai sentar numa nuvem e cantar hinos em louvor ao Senhor, para sempre, e sempre, e sempre. Você vai vestir eternamente uma túnica branca, e estará cercado por criaturas parecidas com sua mãe, só que todas têm asas. Mas se você for um menino mau...” Aí ele fazia uma pausa ameaçadora e concluía: “Se você for mau, vai parar num lugar muito, muito pior do que esse”.

1972) A Jovíssima Guarda (4.7.2009)



Os puristas irão torcer o nariz diante do superlativo do título, mas sinto muito, a Língua se faz com “a contribuição milionária de todos os erros”, como disse Oswald de Andrade. Passemos ao assunto. Vi dias atrás, pela primeira vez, um show do Skank, o que não deixa de ser surpreendente, pois o grupo mineiro está na estrada há pelo menos uns quinze anos. Não é um dos meus preferidos. As bandas do Rock Brasil que sempre ouvi com prazer são Paralamas, Titãs e Barão Vermelho. Mas por trás destas existem, ou existiram, pelo menos umas vinte em cujo rock em vejo qualidades, mesmo quando tende para o lado bobinho do Kid Abelha ou o lado truculento do Sepultura.

O que ficou martelando com insistência no meu juízo, durante o show do Skank, foi a enorme distância entre essas bandas e as bandas que eu próprio ouvi no começo da adolescência, nos tempos da Jovem Guarda. Muita gente vê a Jovem Guarda com nostalgia, dizendo que “eram tempos mais puros”, e reclama que o rock dos anos 1980 em diante foi um movimento comercialesco, manipulado pelas gravadoras multinacionais. Parece. Mas não é.

Vejo com o maior carinho a Jovem Guarda dos anos 1960. Se deixarem, sou capaz de pegar o violão e tocar 50 músicas seguidas sem errar a letra. Bom ou mau, aquilo fez parte da minha formação, e sou capaz de me despir de qualquer intenção crítica ao cantar músicas de Wanderléia, Golden Boys, Renato e Seus Blue Caps, Os Vips, Jerry Adriani, Bobby de Carlo... São bobinhas? Sem dúvida. Mas eu as conheci numa época em que era tão bobinho quanto elas. Tocá-las e cantá-las, de misturada com a MPB e o Tropicalismo nascentes, dava a sensação de lidar com algo confortavelmente unidimensional.

Com poucas exceções, as letras da Jovem Guarda eram no nível mental dos gibis de Luluzinha ou Pato Donald. As versões, comparadas aos originais, eram de uma vacuidade assombrosa. E vejam, naquele tempo as gravadoras mandavam e desmandavam, embora comparadas às dos anos 1980 fossem tão bobinhas quanto os intérpretes. O Rock Brasil dos anos 1980 em diante, mesmo num ambiente de gravadoras muito mais multinacionais e poderosas, teve um lado de rebeldia e de “atitude” que a Jovem Guarda nunca foi capaz de sonhar. Sendo uma cópia ou transcrição do rock que se fazia fora, o Rock Brasil copiou também muitas coisas boas daquele rock. Não apenas o vigor eletrificado e a postura desafiadora, mas uma consciência crítica nas letras, uma disposição de dizer verdades incômodas, uma irreverência que, mesmo diluindo-se com frequência em mera “atitude”, produziu canções notáveis que ainda hoje são lembradas e cantadas.

Comparados aos ingênuos rapazes de franjinha e às mocinhas de minissaia da Jovem Guarda, os roqueiros dos anos 1980 fizeram rock de verdade, um similar nacional que imitou com sucesso as qualidades do original estrangeiro. Comparado a eles, a Jovem Guarda foi algo tão infantil quanto o repertório de Xuxa e Angélica.