sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

1646) Chuck Berry fields forever (21.6.2008)





Dando prosseguimento ao trabalho de campo para minha tese de doutorado (“Frankensteins Eletrificados: o Rock na Quarta Idade”), fui ver (depois dos shows de Bob Dylan e John Mayall) o show de Chuck Berry no Vivo Rio. 

Foi o show mais idiossincrático dos três. Berry entrou no palco pontualmente às 21:35. Vestindo calça escura, camisa de mangas compridas, vermelho-berrante, cheia de lamê, e um boné branco, parecia um capitão de marujada. A banda tinha um baterista brasileiro (Maguinho) e na guitarra o filho de Berry, que toca bastante bem.

Diz o jornal que CB tem 81 anos, mas as fontes divergem. 

A Encyclopedia of Rock de Nick Logan e Bob Wolfinden afirma que ele nasceu em 18-10-1931. 

A de Jon Pareles e Patricia Romanowski confirma o dia, mas deixa a dúvida: “1926 ou 1931”. 

A Bob Dylan Encyclopedia de Michael Gray diz: “Nascido como Charles Edward Anderson Berry em San Jose, California, em 15 de janeiro ou 18 ou 26 de outubro de 1926”. 

A Beatles Encyclopedia de Bill Harry reitera o ano de 1931. 

A Wikipedia contrapõe: 18 de outubro de 1926... mas diz que ele nasceu em Saint Louis, Missouri. Precisa mais para afirmar que o sujeito é uma Lenda Viva?

Berry pisou no palco visivelmente “triscado”, se bem que eu não acho nada de mais o artista tomar umas caébas antes de começar um show. Entrou meio sem bússola, os dedos sem encontrar as cordas, a guitarra alta demais, o vocal trôpego, pastoso. 

Começou pianinho, com uma das minhas músicas favoritas, “Memphis, Tennessee”. Aos poucos foi esquentando, com os gritos de entusiasmo e os aplausos fervorosos da congregação. Cantou um bolero em espanhol (devia estar se achando em Buenos Aires). Esquentou mais com “Let it Rock”. Os dedos estavam erráticos, mas a guitarra plangente era a mesma de 50 anos atrás.

Fez um contracanto animado com a platéia em “Ding-A-Ling”. Depois vieram “Sweet Little Sixteen”, “In the Wee Wee Hours”, depois um rhythm-and-blues que não identifiquei. Alguém da platéia gritou algo e ele disse: “Yesterday? Adoro essa música. Mas não é uma música minha, é dos Beatles...” Gargalhadas da platéia... e Berry, meio desentoado, cantou a primeira parte de “Yesterday”, sob aplausos gerais. 

Emendou com “Nadine”, um dos rocks anos-50 sobre garotas e carros, depois mais um rock animado e, aos pedidos berrados pela platéia, “Johnny B. Goode”. Foi impressionante: acima das mesas, no recinto escuro, erguiam-se centenas de retangulozinhos azulados e brilhantes. Eram os celulares gravando a cena, que a esta altura já deve estar no YouTube.

O show esquentou a partir daí, e Berry fez o impensável. Havia uma galera dançando diante do palco, e ele chamou todo mundo para cima. Ficaram umas 40 garotas no proscênio, dançando e se exibindo como loucas, e o véi tocando sentado no praticável da bateria. Rock puro. Depois dessa apoteose, como vou me queixar que tenha havido apenas 50 minutos de show? Esperei 50 anos por isso!





1645) Brasil 0x0 Argentina (20.6.2008)



Para a torcida mineira foi uma noite de festa, com “muito samba, muito choro e rock-and-roll”. O rock ficou por conta das bandas mineiras (Skank, Jota Quest). O samba, das batucadas da torcida. E o choro coube aos torcedores favoráveis a Dunga (porque torciam por uma vitória consagradora, que não veio) e aos que lhe são contrários (porque torciam por uma derrota dessas de rolar cabeça de treinador, a qual também não veio).

Não farei comentários técnicos da partida porque confesso que não a vi por inteiro. Ia lá na Globo de vez em quando, mas passei a maior parte do tempo assistindo Jessier Quirino no programa de Fernando Faro, na TV-Cultura. E a poesia de mestre Jessier me dá inspiração para tentar entender o que sucede com a nossa Seleção. Todo mundo na Paraíba conhece aquele número de Jessier sobre o matuto que vai ao cinema mas, como não sabe ler, não entende as legendas, assim como não entende os diálogos em inglês. Isso de maneira alguma o impede de entender o filme, porque ele vê o bandido gritando: “Não-sei-que-lá, não-sei-que-lá, não-sei-que-lá, seu fila da mãe!” Ora, todo mundo sabe o que foi que o cara disse, não é mesmo? Como diria um acadêmico, em exemplos que tais o nível vérbico prima pela superfluidade.

Eu também sou incapaz de entender o que Dunga tanto grita e tanto conversa com nossos jogadores, mas acho que o Brasil inteiro sabe qual é o “não-sei-que-lá” de Dunga. É o velho vocabulário zagueirístico e volântico do nosso futebol atual: “Fecha! Compacta! Cerca! Mata a jogada!”, e que o nosso saudoso Urai condensou numa fórmula perfeita: “Ataia o home, cumpade!” Tenho que ser justo com o treinador e com o time, que desta vez – pressionado e amparado por um Mineirão repleto – tentou jogar, tentou tocar, tentou marcar gols. Teve uma meia dúzia de chances, e pelo menos umas três bolas que mereciam ter entrado. A Argentina também perdeu seus golzinhos, mas francamente, se tivesse feito um deles o resultado seria injusto. Se alguém tinha de ganhar esse jogo tão truncado, seria o Brasil.

A Seleção Brasileira vem, desde a vitória na Copa de 2002, passando por mais remendos, reformas e agruras do que a lata dágua de Jessier Quirino. Parreira conseguiu levantar o melhor elenco possível de craques, mas enredou-se em politicagem, em delírios congratulatórios (os recordes de Cafu e Ronaldo, a tietagem desbragada da mídia brasileira, a logística principesca da CBF, etc.), e acabou amargando um fiasco histórico. Caiu. Ninguém quis sua vaga. Sobrou para Dunga, que pelo menos teve a coragem de estrear na profissão pegando logo de cara o maior rabo-de-foguete que ela oferece.

Fiquemos calmos; o Brasil não deixará de se classificar, nem que tenhamos de subornar um juiz para ganhar a repescagem contra os times da Oceania. Ninguém é besta de fazer uma Copa do Mundo sem o Brasil. Agora, ganhar? Só em 2014, amigos. “Vou-me embora pro passado”, pegando carona no DKW-Vemag de Jessier.

1644) A voz de Deus (19.6.2008)




Numa história indiana, dois vizinhos discutiam por um lote de frutas. A árvore ficava no terreno de um deles, mas seus ramos se projetavam por cima da cerca, de modo que as frutas caíam no terreno ao lado. O primeiro alegava ser dono do lugar de onde vinham as frutas; o outro alegava ser dono do lugar onde elas brotavam e caíam. 

O juiz lhes perguntou: “Querem uma decisão tomada pelos homens, ou por Deus?” Os dois concordaram que a decisão de Deus teria mais credibilidade. O juiz então dividiu as frutas em dois lotes, tendo num deles apenas uma, e no outro todo o restante. 

E sorteou os lotes entre os dois vizinhos.

Este episódio é um entre milhares em que um tribunal humano confessa sua dificuldade em tomar uma decisão justa, e recorre a um sorteio. 

O sorteio surge da noção de que no mundo não existe o Acaso, pois mesmo os acontecimentos mais banais são determinados pela vontade de Deus. O que chamamos de Sorte ou Azar pode nos parecer inexplicável, mas faz parte dos planos divinos. Foi uma decisão dele. 

Não adianta discutir os méritos do resultado, pois, como todas as religiões repisam desde que o mundo é mundo, “os desígnios de Deus são inescrutáveis”.

Talvez por isto os jogos de azar nos despertem uma fascinação tão grande. O baralho, a roleta, o bingo, o bicho, a loteria, tudo isto são cerimônias que concebemos para, lidando com um conjunto nítido e finito de elementos, podermos ficar sabendo com certeza absoluta o que foi que Deus quis que acontecesse, mesmo que jamais percebamos o porquê.

A coisa se complica quando chega no universo tribunalício. Li em num conto de Mark Twain que os esquimós tinham uma maneira prática de saber se um sujeito era culpado ou inocente do crime que lhe atribuíam. Levavam-no para um rio de águas revoltas, e atiravam-no lá de cima. Se ele sobrevivesse, era culpado; se morresse, era inocente. 

Há um vislumbrezinho de lógica nesse sistema – se o sujeito escapava era porque era esperto, e todo sujeito esperto está a um passo de ser desonesto, ou seja, esperto às custas dos outros. Mas convenhamos que para um indivíduo inocente era um tribunal do tipo “cara eu ganho, coroa você perde”.

Quanto ao cara-ou-coroa para conhecer a Decisão Divina, há um episódio curioso ocorrido no Maracanã lá pelos anos 1950, quando o Fluminense e outro clube disputavam uma decisão. Deu empate no jogo e na prorrogação. Não se usava ainda a disputa de pênaltis, e o título seria decidido no cara-ou-coroa. 

O juiz chamou os dois times ao centro do campo, rodeados por radialistas e fotógrafos. Antes da disputa, Pinheiro, capitão do Fluminense, chamou o time de lado e cochichou algumas instruções. 

O juiz jogou a moeda para o alto, estendeu a palma da mão, mas, antes que a apanhasse, os jogadores do Fluminense esbarraram nele, e se espalharam berrando, agitando os braços, abraçando-se, e logo os foguetões pipocavam e o pó de arroz subia. Até hoje ninguém soube qual tinha sido a vontade de Deus.






1643) Um Brasil paraguaio (18.6.2008)




Estou rezando para que o Brasil não se classifique para a Copa do Mundo – e pelo que a Seleção tem jogado, minhas preces serão atendidas sem tardança. Não é por nada. É porque quando vejo nosso time e vejo a Holanda comendo a bola na Eurocopa (3x0 na Itália, 4x1 na França...), meu medo é que na Copa a gente pegue a “Laranja Mecânica” pela frente e sofra uma daquelas “lavagens” de ficar na História, coisa de 6 ou 7x0. Nas eliminatórias, até agora, o Brasil só jogou uma boa partida, quando goleou o Equador por 5x0 no Maracanã. Belo resultado para o “melhor time do mundo”, não é mesmo? Há muito tempo que a Seleção está se transformando num timezinho doméstico, que só joga diante da própria torcida. Parece o Flamengo. Nos campos adversários ela se encolhe, se apequena, e a Comissão Técnica repisa a surrada conversa, típica de time de segunda, de que “o empate lá dentro é um bom resultado”.

Espero que estas minhas palavras sejam exemplarmente desmentidas no jogo de agora, contra a Argentina. Até porque vamos jogar em casa, e contra um adversário que nos últimos anos amarelou sistematicamente contra nosso time. Ainda assim, não vejo como ter muitas esperanças. A rigor, o futebol brasileiro hoje em dia só tem três craques: Ronaldinho Gaúcho, Kaká e Robinho. O santo dos dois primeiros não cruza com o santo do técnico Dunga, isso é claro e evidente. Dunga até hoje não digeriu o lençol que Ronaldinho lhe aplicou num Gre-Nal, anos atrás – e tem razão, porque foi um lençol humilhante, dado por um garoto-revelação em cima do homem que ergueu a Copa do Mundo. O time do Brasil fica, assim na dependência de jogadores como Josué, Julio Baptista, Anderson, Diego, Luís Fabiano... Atletas que seriam ótimos para reforçar a atual equipe do Treze, mas que, vestidos com a camisa da Seleção, soletram a palavra “e-n-t-r-e-s-s-a-f-r-a” com todas as letras.

O jogo de domingo em Assunção pareceu roteirizado pelos inimigos de Dunga, porque nunca as limitações do técnico foram tão evidentes. O Brasil entrou para se defender, rezando para que o Paraguai não furasse sua retranca. Só chutou uma bola no primeiro tempo. No segundo, o Paraguai teve um jogador expulso e ainda assim fez 2x0 com o gordo Cabañas, o carrasco do Flamengo e do Santos. Dunga pôs em campo todos os atacantes de que dispunha. Eram tão numerosos que não se conheciam uns aos outros, a julgar pela sua visível relutância em trocar passes e fazer lançamentos.

Sem craques, sem técnico, sem esquema, o Brasil deve comemorar se se classificar para a Copa de 2010, a qual, aliás, já pode dar por perdida, pois é cada vez mais provável que a de 2014 seja nossa. “Eles” não nos deixarão ganhar duas Copas seguidas, e ao que parece a CBF concorda. Vide o futebol que temos apresentado nas Eliminatórias e nos amistosos; vide o perfil atual da Seleção. Eu vou ali dar um cochilo, e quando começar o primeiro jogo de 2014 vocês me acordem.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

1642) A escrita automática (17.6.2008)




Os surrealistas dos anos 1920, com André Breton à frente, criaram o que chamavam de “escrita automática” como um dos meios para desacorrentar o fluxo de idéias da mente, o chamado “stream of consciousness”, e revelar através dele o funcionamento real do pensamento, livre de considerações estéticas, morais, etc. Livre de qualquer tipo de censura ou auto-coerção. 

Os resultados são discutíveis, porque produziram inúmeros bons poemas ou textos em prosa (do próprio André Breton, de Benjamin Péret, Paul Éluard, etc.) como também uma quantidade enorme de textos desconexos dos quais é impossível (pelo menos para mim) extrair qualquer arremedo de impressão literária.

Na mesma época, os escritores da “pulp fiction” norte-americana estavam descobrindo o filão das revistas populares, que pagavam alguns centavos de dólares por palavra. 

Para tornar rentáveis esses centavos, precisavam escrever uma quantidade imensa de texto por dia; e acabaram desenvolvendo o seu próprio sistema de “escrita automática”. 

Escreviam sem pensar, sem parar, sem voltar atrás, sem corrigir, sem revisar.

Isaac Asimov orgulhava-se de jamais revisar um texto. Punha o papel na máquina, mandava ver, e quando escrevia “The End” colocava a maçaroca de folhas num envelope e a enviava para a revista de sua preferência. 

Há uma conferência muito divertida em que ele satiriza as preocupações estilísticas dos autores “literários”. Diz ele que o sujeito escreve o início de um conto: “Era uma noite escura e tempestuosa..” Aí pára para ver se a frase está boa, e decide mudar: “Era uma noite tempestuosa e escura...” Ainda não parece o ideal, e ele muda mais uma vez: “Era uma noite cheia de escuridão e de tempestades...” Passa dias inteiros nessa frase, e nada de história.

Philip K. Dick, que era capaz de datilografar cem palavras por minuto, dizia conceber mentalmente seus romances por inteiro, e depois tinha só que colocá-los na página; chegava a escrever sem parar três ou quatro dias seguidos, praticamente sem dormir, mantendo-se acordado à base de café e comprimidos. 

O mesmo acontecia com Lester Dent, o criador de Doc Savage, "o Homem de Bronze”: dezoito horas de trabalho por dia, que lhe permitiram escrever um livro de 60 mil palavras por mês ao longo de doze anos (ele é autor de 165 dos 182 livros sobre Doc Savage). Robert Silverberg costumava escrever um conto de 7.500 palavras por dia, durante dias a fio.

Diferentemente de Breton, todos estes escritores trabalhavam com prosa neutra, fosca, sem inovações, sem vanguardismos, prosa de gramática transparente e regras estilísticas convencionais. 

O fato de não pararem para burilar frases brilhantes, no entanto, lhes possibilitava mergulhar diretamente no domínio fantástico da história em si, das peripécias incríveis, das ações dos personagens. 

Escrevendo dentro das convenções da FC, eles produziram uma escrita automática que revelava um nível mais profundo da imaginação criadora.







1641) Ainda a Copa do Brasil (15.6.2008)



Perdoe o leitor se volto a comentar o jogo da última quarta-feira, em que o Sport do Recife derrotou o Corinthians por 2x0. Mas, reflita: qual foi a última vez que um time do Nordeste ganhou um título nacional? Que me lembre (e mesmo assim tive que pesquisar, para conferir o ano) tem o Campeonato Brasileiro conquistado pelo Bahia em 1988. Um ano antes, o Sport tinha sido campeão de um dos módulos do confuso Campeonato da época. O outro foi vencido pelo Flamengo. O regulamento previa uma disputa entre os dois vencedores; o Flamengo recusou-se a disputar e proclamou-se campeão. Para mim (que torço pelo Flamengo no Rio) o campeão brasileiro de 1987 é o Sport, que não “correu com a sela”.

Cada jogo decisivo entre um time nordestino e um time carioca ou paulista é uma remontagem da Revolução de 1817. Ao dobrar dos sinos e clangor das trombetas, abrem-se as sepulturas seculares e de lá emergem Frei Caneca, Peregrino de Carvalho, José de Barros Lima, o “Leão Coroado”... Este último é ainda mais relevante agora, quando é o Leão da Ilha que re-encarna nossos sonhos independentistas, separatistas, autonomistas ou que nomes lhes queiram dar. Sou um defensor resignado da unidade da Pátria, mas tenho plena consciência de que um abismo histórico nos separa, e nunca fica ele tão visível quando das grandes disputas futebolísticas.

Quando o Treze empatou duas vezes com o Corinthians pela Copa do Brasil (e foi eliminado nos pênaltis) recebi emails de gente do Brasil inteiro me dando os parabéns. Idem quando o Galo derrotou o Fluminense em Campina, perdendo igualmente nos pênaltis. Em momentos assim, qualquer nordestino vira trezeano, seja ele maranhense, baiano ou potiguar. Arma-se de repente uma conspiração de espíritos, uma telepatia do DNA. Todos se sentem irmãos, ou pelo menos irmanados durante os 90 minutos em que aquela Confederação do Equador procura reafirmar, desta vez sem sangue ou pólvora, que não somos inferiores a quem quer que seja; que temos luz própria; que somos diferentes; e que temos todo o direito de sê-lo.

Dizem os antropólogos que ninguém inventou ainda um sucedâneo para a guerra melhor do que o esporte. Pode até ser que, com a criação da realidade virtual e do ciberespaço, venhamos a criar novas formas de liberação da agressividade e da nossa tendência cromossômica a quebrar a cabeça do vizinho com uma pedra por mero receio de que ele esteja pensando em fazer o mesmo com a nossa. O ser humano terá sempre essa camada profunda e paleolítica, e por enquanto o futebol é a forma mais divertida de trazê-la à tona para manutenção pacífica. Empunhamos lanças, bandeiras, pipocamos foguetões, falamos em dar o sangue e o suor, enaltecemos a raça e a valentia, enquanto nossos gladiadores maltratam as canelas uns dos outros. Antes assim! O Sport foi campeão sem derramamento de sangue, o Brasil continua intacto, e o Nordeste, pelo menos por dentro, voltou a ser maior do que o Brasil.

1640) Ficção interativa via Web (14.6.2008)




No tempo em que eu ainda usava máquina de escrever, e nunca tinha nem chegado perto de um computador, escrevi um conto de ficção científica (“Paperback Writer”) em que num futuro remoto as pessoas se reuniam num teatro para assistir um concerto de literatura. O concertista subia ao palco, sentava ao teclado, e começava a escrever; o texto aparecia num telão ao fundo do palco, sendo lido por toda a platéia. Em momentos-chave da história, o escritor parava e pedia sugestões à platéia sobre o que deveria acontecer em seguida. No braço de cada poltrona havia um teclado com um “menu” de opções, e cada espectador votava numa delas. Na tela, aparecia a opção escolhida pela maioria; e o concertista recomeçava a escrever, direcionando a história de acordo com a vontade da platéia.

Não era preciso conhecer computadores para saber que eles se prestariam a coisas assim, porque o gérmen disto já existia desde os folhetins europeus do século 19. As telenovelas de hoje pesquisam através do Ibope para colher opiniões sobre o destino preferencial dos personagens – quem morre, quem casa com quem, quem é premiado, quem recebe castigo. E os leitores mais jovens devem conhecer as incontáveis séries de livrinhos do modelo “Escolha sua Aventura”, nos quais, ao fim de cada capítulo, o leitor se depara com opções tipo: “Se você quer que o detetive desça para examinar o porão, vá para o capítulo 25. Se prefere que ele saia e persiga o vulto que avistou no bosque, vá para o 31”.

Uma experiência de literatura interativa foi iniciada no saite da Underland Press (http://www.underlandpress.com/wovel.cfm), onde o escritor Brian Evenson está escrevendo uma história que mistura zumbis e trama policial, e os leitores votam nos momentos cruciais da história. Eles chamam a isto “Wovel” (“web novel”), e aqui vai a descrição fornecida no saite:

“Toda semana, o autor posta um segmento da história. Um segmento tem a duração ideal para leitura online: longo o bastante para manter o interesse, curto o bastante para poder ser lido no escritório, durante o trabalho. No fim de cada segmento, o autor coloca um ponto de bifurcação. Deve a heroína matar seu amante? Os zumbis agarrarão o soldado? A caixa está vazia, ou cheia de insetos? Os leitores decidem. Na 2a-feira, o texto é postado. A votação dos leitores se estende até a 5a. O autor escreve o segmento seguinte na 5a. e 6a. Os editores editam a página na 6a. e sábado. O novo segmento editado vai ao ar na 2a. Parte literatura, parte cadáver-delicado, reunindo o ritmo do jornalismo impresso, a imaginação da ficção, e a centelha da participação dos leitores”.

A referência ao “cadáver-delicado” recorda um jogo dos surrealistas dos anos 1920, com esse nome, em que várias pessoas escreviam um texto coletivo, sem ver o que os demais haviam escrito. O uso da Web pode trazer para a história centenas, talvez milhares de votantes. É um dos muitos caminhos para a ficção atual.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

1639) Eu sou o Leão do Norte! (13.6.2008)




A vitória do Sport sobre o Corinthians por 2x0, na quarta-feira passada, não foi apenas de lavar a alma. Foi de lavar, enxaguar, secar ao vento e ao sol. Não faço conta das besteiras e das arrogâncias que vi na imprensa, pela Web afora, desde que na semana anterior o Corinthians tinha ganho o primeiro jogo das finais por 3x1. Para uma parte (sempre faço a ressalva: uma parte, e não calculo que seja a maior parte) da imprensa e da torcida de São Paulo, a decisão já estava ganha, e o único contratempo era ter que ir ao campo do adversário para receber a Copa do Brasil e dar a volta olímpica.

É impressionante como os times de futebol se comportam de maneira suicida, mesmo carecas de saber o que vai lhes acontecer. São como aqueles personagens dos filmes de terror, que ouvem um barulho no porão e levantam a tampa para ver o que tem lá embaixo. Os times de futebol geralmente ganham quando jogam para ganhar, e perdem quando jogam para se defender. No Morumbi, o Corinthians encurralou o Sport no primeiro tempo, botou 2x0. Contou com a sorte no segundo, porque quando o Sport dominou por completo a partida e perdeu várias chances, o time alvinegro fez o terceiro num contra-ataque implacável. Os 3x0 em São Paulo obrigavam o Sport a uma vitória de 4x0 em Recife, o que, convenhamos, seria dificílimo. Mas no fim do jogo Enílton fez um gol cuja pedra eu cantei na hora: “Vamos ganhar o título por causa desse gol”.

No Recife, aconteceu o que eu rezava para que acontecesse: o Corinthians entrou para se defender, chamando o Sport sobre si. Tire-se o chapéu à marcação corinthiana, que, à parte algumas violências, foi incansável e prendeu o Sport, até que num lançamento rápido Carlinhos Bala (uma espécie de Chico César atlético) desferiu um tijolo no canto direito, e cinco minutos depois o bom goleiro Felipe acabou aceitando um chute que ele pensava que ia desviar no atacante.

Vi na imprensa que o time do Sport tem média de idade de 30 anos. Deve ser. Tem até Leandro Machado, que jogou aqui no Flamengo quando meus cabelos eram todos pretos. Não vejo jogos do Sport, que só passam na TV daqui quando ele enfrenta um time carioca. Vi os dois jogos com o Vasco e os dois com o Corinthians. O Sport atual é um time rápido, habilidoso, firme, com a cabeça equilibrada. Jogou no Morumbi e em São Januário com desenvoltura, com cabeça erguida, como se estivesse em sua própria casa. Vi-o jogar mal em vários momentos das partidas, mas não o vi nunca jogando como time pequeno.

Quando eu era garoto, meu pai me levou de Campina ao Recife para assistir um Sport x Corinthians na Ilha do Retiro, que o Corinthians ganhou de 5x2. Vi Alemão, zagueiro rubronegro que tinha o chute mais forte do Brasil, ir cobrar uma falta dentro do grande círculo, e o goleiro Cabeção pedir barreira. Jornadas épicas que não esqueço, como meu filho talvez não esqueça o jogo que vimos esta noite, a noite em que o Leão rugiu mais alto.

1638) A visão da FC (12.6.2008)



Existem muitas diferenças entre a literatura fantástica e a literatura do “mainstream”. (“Mainstream”, correnteza principal, é um termo muito usado pela crítica para designar a parte principal da literatura de uma época, a tendência dominante. A correnteza principal da literatura de hoje no Ocidente é o romance realista.) Se considerarmos todos os títulos produzidos durante um ano, ou dez anos, veremos que a literatura fantástica (incluindo ficção científica, terror, fantasia, etc.) é apenas uma pequena parte disso. Apenas uma fatia numa pizza redonda e gigantesca. Em outras culturas (no Oriente, p. ex.) o romance realista é cultivado mas não tem uma predominância tão grande. Achar que a literatura serve para reconstituir o mundo em que vive o autor é um cacoete cultural do Ocidente.

Vista desse modo, a literatura fantástica é uma literatura menor: menos títulos, menos autores, menos leitores. É como os partidos pequenos num Congresso, que precisam sempre estar se associando aos partidos maiores para ganharem um mínimo de visibilidade.

Tudo isso ocorre porque a literatura realista pretende lidar com algo mais importante, a Realidade, e o fantástico atrai menos leitores porque lida com coisas tidas como secundárias como a imaginação, o sonho, o irreal, etc. Mas se pegarmos essas duas formas de narrativa e examinarmos como elas abordam a Realidade, vamos ter um gráfico que é o contrário do anterior. Porque o Realismo aborda apenas uma fatia de uma imensa pizza, e o Fantástico aborda a pizza inteira.

O mundo que vemos à nossa volta não é a única coisa real. Coisas imateriais, como as representações subjetivas do pensamento, são reais. O que se passa na cabeça de cada um de nós também é real. Um pensamento não precisa estar “certo” para ser real. As idéias erradas também existem, também são entes, mesmo que sua interpretação dos fatos esteja equivocada. A teoria de que a Terra é oca, por exemplo, é real, existe, embora a Terra não seja oca. Os discos voadores, para Jung, eram uma realidade psíquica tão verdadeira quanto qualquer outra realidade psíquica baseada em objetos concretos. É um erro afirmar que algo, simplesmente por não existir no mundo material, não existe. Se fosse assim, toda a Filosofia seria irreal, porque os conceitos da Filosofia só existem em nossas mentes. Não há filosofia na Natureza.

O fantástico lida com sonhos, com fantasias; propõe situações absurdas que jamais poderiam ocorre no mundo aqui em redor. Através da ficção científica, descreve planetas imaginários, civilizações inexistentes. E tudo isso, curiosamente, é tão real – no plano das idéias – quanto descrições de cavalos e bois, ou histórias ambientadas na corte de Luís XIV. É irônico que a parte maior da pizza literária (o mainstream) se dedique apenas à parte menor do Real, e que caiba à fatiazinha representada pelo Fantástico a abordagem da pizza inteira do Universo.

1637) A micropulverização do empreendedorismo (11.6.2008)



No meio das entrevistas que cercam o lançamento de seu disco Banda Larga Cordel, Gilberto Gil fez alguns comentários sobre aquilo que o pessoal chama “a nova cena musical”. Estão brotando nas periferias e nas regiões remotas do Brasil uma série de fenômenos musicais que a gente não sabe classificar facilmente. É baile funk, é forró de plástico, é tecnobrega, é reggae-maranhense... Sabemos pouco a respeito disso, até porque o que sabemos é de segunda mão, pelo menos no meu caso. Assistir DVDs ou matérias de TV não vale. Se valesse, amigo, eu já tinha ido à Lua e voltado, nas asas de Stanley Kubrick. O que vale é conhecimento “in loco”, é ter mergulhado durante alguns dias, no mínimo, no olho desses furacões, conversado com as pessoas, visto o mundo delas e examinado a relação entre aquela música e aquele mundo.

Diz Gil do tecnobrega paraense: "Eles têm ali palcos ambulantes, ao estilo do trio elétrico, e essa nova cena passa batida pelos jornais, rádios e estúdios de TV de São Paulo e Rio de Janeiro. Muitas vezes não ficam sabendo de nada disso, dessas realidades novas com maquinarias novas." Para algumas pessoas a simples menção da palavra tecnobrega produz comichões equivalentes aos do pó-de-mico, mas essas bandas, como a famigerada Calypso, representam, pelo menos como alternativa de comércio, uma realidade nova. Não do ponto de vista estético, porque sua música nada traz de novo (ou, para mim, de interessante), mas porque começam a demonstrar a força econômica do show-business paralelo. É diferente da tradicional “música alternativa”.

Em primeiro lugar, essas bandas – que se auto-produzem – ganham rios de dinheiro. Seu perfil é diferente do perfil das bandas tipos mastruz-com-leite, bandas de um nome só, nas mãos de um único empresário. A Calypso chama a atenção por suas vendas milionárias, mas ela é a ponta de um iceberg de bandas que vendem menos do que ela – mas vendem. Diz o ministro Gil que o que está havendo, com o enfraquecimento das gravadoras e a proliferação de música digital gratuita, é um florescimento do show como principal atividade econômica da música. Nas palavras dele, uma “micropulverização do empreendedorismo”. Já que se torna cada vez mais difícil vender os 100 mil discos que há dez anos eram favas contadas a partir de certo patamar de sucesso, o que conta agora é a expansão do mercado e a tentativa de assegurar continuidade a longo prazo, em vez do enriquecimento a curto prazo.

"Não há condição de todo mundo ser rico, então todo mundo quer viver e sobreviver”, diz Gil. “Então a arte passa a ser informada por isso, a produção passa a ser informada por isso. Enfim, a vida. Processos organizados com liberdade, com fragmentação empreendedora, protagonística". A banda Calypso já vendeu milhões de discos e recusou todos os convites das gravadoras. É o equivalente atual dos 100 mil discos do Boca Livre e 150 mil de Arrigo Barnabé no começo dos anos 1980.