segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

4008) Adeuses 2015 (27.12.2015)



Amílcar era cineasta e corintiano. Ria de incredulidade quando eu falava dos times por que torço: Treze, Flamengo, Sport, Atlético Mineiro... Para ele, time era paixão, e paixão não pode haver duas. Entre outras coisas em comum, tínhamos o cinema de Roberto Santos, seu mestre. Um dia ele largou São Paulo, perdemos o contato até por Facebook. Só voltei a ter notícias dele quando a doença estava em estágio avançado. Um amigo de sorriso calmo e luminoso, com que compartilhei menos tempo do que pude.

Quando os shows de Elba Ramalho estrondavam no Canecão, com três mil pessoas de pé pulando ao som de ”Caldeirão dos Mitos”, a sanfona estava a cargo daquele paraíba moreno e magrinho que anos atrás tinha sido o esteio melódico e harmônico da banda de Jackson do Pandeiro. Severo ficava às vezes meio deslocado entre aquele grupo de cariocas, meio desconfortável com os figurinos “modernos” que era obrigado a vestir, e nas longas horas de camarim se aproximava de mim para trocar histórias da “Paraíba réa”.

Foram poucos meus encontros com Pipol, cujo nome não sei até hoje, figura querida na contracultura digital paulistana. Foi um dos criadores do websaite Cronópios, onde republicava meus artigos do JPB. Gravou para a web minha palestra sobre Edgar Allan Poe, até hoje um dos meus vídeos mais assistidos. Eu o saudava: “Power to the Pípol!”. Na competitiva São Paulo, ele se destacava pela precisão da ação e pelo alto astral do sorriso, sempre com um bonezinho e um par de óculos jonleno que me lembravam eu mesmo aos 25 anos.

Quando meus pais chegaram a Campina Grande, muito cedo ficaram amigos dos irmãos Félix e Mário Araújo. O primeiro foi morto quando vereador, num crime célebre em 1953. “Seu” Mário era uma espécie de tio a meia distância, morando perto do Ponto 100 Réis. Seus filhos eram quase que meus primos, ele nos dava a todos o mesmo carinho, os mesmos conselhos bem humorados, com seu riso baixo, discreto. Num ambiente carregado como o da política campinense, era referência de elegância, bom senso e bom caráter. Qualidades abstratas que fazem falta, mas nem tanto quando o ser humano concreto.

No Encontro Para a Nova Consciência, Pedro Camargo era o “mestre sem cerimônia”, o apresentador das mesas redondas e dos palestrantes. Mediava conflitos, informava a imprensa, entretinha o público com miniparábolas zen. Ao longo de mais de vinte anos, foram muitas as nossas conversas sobre filosofia, Tarô, cinema carioca, literatura fantástica, política. Dirigiu comédias no cinema, foi editor da revista “Ano Zero”, professor universitário. Um mestre sempre leve, sempre arguto, irônico, compassivo, solidário.




domingo, 27 de dezembro de 2015

4007) Livros do ano 1 (26.12.2015)



Esta é a época em que os críticos fazem listas dos melhores livros do ano, mas os críticos parecem ler somente o que foi lançado agora. Minhas leituras são aleatórias. Tenho muito mais interesse pela literatura de cem anos atrás do que pela atual. Não que uma seja melhor do que a outra. É mera veneta, cacoete mental; é como achar que qualquer rua de Istambul ou Toronto deve ser mais interessante do que a rua aqui do lado. Dito isto, vamos em frente.

Terminei este ano de ler a coletânea Ghost Stories of Henry James. James é um desses casos meio raros de autores de estilo refinado que escreviam caudalosamente. Como produziu esse sujeito! Seus contos de fantasmas são quase todos psicológicos, de clima, ambientação, ilustrações perfeitas para a teoria todoroviana da oscilação entre explicação real e sobrenatural. Vão do gótico puro de “The Romance of Certain Old Clothes” (1868) até o desdobramento físico em “The private life” (1892). Todos são muito bons. Há uma certa falta de surpresa nos desfechos, mas a literatura de James reside mais nos detalhes do que na estrutura, que é clássica, previsível.

Li este ano O Mago (2008) de Fernando Morais, biografia de Paulo Coelho, desmerecida por alguns por ter sido uma biografia “chapa branca” (autorizada). Biografias autorizadas podem ser boas, sim, menos para quem só pensa em escândalo. Morais traça com precisão o histórico do Mago, e mostra, curiosamente, que desde a adolescência ele sonhava em ser o escritor mais bem sucedido do mundo. Eu achava que ele era um roqueiro que virou best-seller meio por acaso. Não era. Foi um projeto profissional que, com desvios inevitáveis pelo temperamento malucão do personagem, e também da época, sofreu mil contratempos, mas se realizou.

Também este ano terminei finalmente de ler The Crying of Lot 49 (1966), o mais curto dos romances de Thomas Pynchon, mas espantosamente concentrado. A prosa de Pynchon é pesadíssima de alusões culturais, mas em seus momentos mais leves é uma delícia de barroquismo pop. Este livro é um clássico das teorias da conspiração romanescas (ou seja, as que não se propõem como verdadeiras), sobre uma organização secreta de correios infiltrada nos EUA.

The third policeman (1967), de Flann O’Brien, é um dos melhores romances absurdistas que já li (há tradução brasileira). Uma sucessão de episódios fantásticos que parecem dar acesso a universos paralelos, ao Além-túmulo ou a delírios do personagem. Há momentos que lembram Alice de Lewis Carroll, outros que lembram Ubik de Philip K. Dick, outros que dão a impressão de um Jorge Luís Borges tentando escrever um romance policial metafísico. (Continua)




4006) Natal 2015 (25.12.2015)




(ilustração: Remedios Varo)

... e a gente arranca ao Tempo mais um ano
como quem despe as roupas da Verdade
e a deixa reluzindo, à claridade
que ela mesma produz, ao ver-se exposta.
A Verdade é mulher, e mulher gosta
de revelar-se aos poucos, mas inteira,
e a vida só é bela e verdadeira
quando exibe seu corpo em sombra e luz,
claro-escuro no ar, que nos seduz
e nos faz mergulhar no seu mistério.

Mas os tempos de hoje... Fala sério!
Será tudo um teatro dadaísta?
E o que terá fumado o roteirista
que escreveu o Brasil de atualmente?
Basta olhar para a comissão de frente
que encabeça a terrível procissão
nas praças e avenidas da nação,
pesadelo hi-tech e surreal.
E quem sabe onde está oculto o Mal
no coração humano? O Sombra sabe.

É Moby Dick o monstro, ou é Ahab?
A Natureza, ou o engenho humano?
Quem tem poder, ao sol de um fim de ano
de erguer a mão e despejar a chuva?
Não existe. O que existe é a saúva
de terno e de gravata, anel no dedo,
que todo dia acorda muito cedo
e rói sem pena o que possível for.
Perdoai (e evitai) o roedor:
está sendo roído, ele também.

Eu só sei que o Natal um dia vem.
Impressionante como ele não falta.
E todo ano a humanidade incauta
ouve a sineta que a faz salivar.
A igreja do vender e do comprar
reza missa após missa o mês inteiro.
Quem tem mais sorte vê raiar janeiro
e recomeça o ciclo, o carrossel,
outro tijolo ao muro de Babel,
outra volta cruel do parafuso.

E a cada livro que eu em vão produzo
feito um mudo pregando no deserto
em linguagem de Libras, fico certo
de que mais vale a dor de estar fazendo
do que a não-dor do não fazer, e entendo
que a resposta virá. Mas não pra mim.
Se assim for, maravilha; e sendo assim
“taca-le pau”, poeta, faz sextilhas.
Imperfeitas ou não, são tuas filhas,
serão um dia o que restou de ti.

Quando meu pai erguia um Bacardi
inebriava o mundo num sorriso,
mandava um chiste, um verso, um improviso...
e esse momento reverbera ainda.
Se o Natal é um dia em que se brinda
e transformam-se em vinho águas passadas,
então que venham renas, rabanadas,
pacumês, espumantes, Concha y Toro!
Gasta logo, se o Tempo é teu tesouro,
a moeda de ouro deste dia.

Que o mundo fosse outro, eu bem queria,
mas aceito este fato consumado,
de vê-lo assim, desnudo, desvendado
pelo excesso de ser que é sua essência.
Se ele um dia notar a minha ausência,
que faça bom proveito destes versos!
Estarão os meus átomos dispersos
sem notar que outra vez bimbalham sinos
e que nascem milhões de outros meninos
neste ciclo-espiral do circo humano...







quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

4005) Os dois filhos (24.12.2015)



Uma família humilde tinha dois filhos, um de quinze e outro de doze anos. O mais velho nasceu de um parto difícil, sobreviveu com sequelas. Precisava de fisioterapias, etc., e se desenvolveu muito lentamente. Passava o dia na cama, falava com dificuldade, e nos fins de semana a família o levava para tomar sol no parque municipal numa cadeira de rodas. Já o garoto mais novo era muito esperto, estudioso, um menino bom que ajudava a cuidar do irmão mais velho. Os dois aliás se gostavam muito, eram unidos, dentro das limitações de linguagem do primeiro.

É quando o pai ganha um dinheiro numa loteria qualquer. Nada que o tornasse milionário; mas de repente ele tinha em mãos muito mais grana do que seria capaz de imaginar. Parentes se reaproximaram do casal, dispostos a ajudar num momento tão delicado. Passada a euforia inicial, todos, em volta da mesa, com lápis e papel, faziam contas e listavam as diferentes maneiras possíveis de aplicar aquela pequena fortuna caída do céu.

Anota daqui, risca dali, ficaram com apenas dois projetos em mãos. Fazendo as contas e as projeções futuras, descobriram que a grana recém-chegada lhes dava a chance de optar entre duas utilizações diferentes. Havia nos EUA um hospital especializado no tipo de problema do garoto mais velho. Com dois anos de tratamento, grande parte dos problemas dele poderiam ser revertidos: ele conseguiria andar, alimentar-se sozinho, falar de maneira inteligível, quem sabe até ser matriculado numa escola especial.

A outra opção era mandar para um curso de dois anos na Europa o garoto mais novo. Estudioso e bom em matemática, ele ganhava todas as competições desse tipo, era saudado como “futuro gênio” pelos professores, e os pais já colecionavam um álbum de matérias de jornal (e DVDs com reportagens de TV) sobre “o Einstein de Vila Junqueira”, como o menino era chamado no bairro onde sempre residiram.

Só que o cálculo era mesmo na ponta do lápis, despesas reduzidas ao mínimo do mínimo. Não dava para cortar aqui-e-ali e realizar os dois projetos. Colocava-se diante dos pais a famosa “escolha de Sofia”. Tentar diminuir o sofrimento e as limitações do menino mais velho, aumentar sua relativa autonomia, aliviar o peso que recairia um dia sobre o mais novo, já que os pais já estavam envelhecidos, cansados, com a saúde meio-lá-meio-cá? Ou explorar o potencial do menino mais novo, podendo inclusive, quem sabe, transformá-lo num fenômeno nacional, o que, a se confirmar essa hipótese, geraria um excesso de renda capaz de a longo prazo, reverter em algum benefício para o menino com problemas? Os pais continuam debatendo. Cartas para a redação.



terça-feira, 22 de dezembro de 2015

4004) Linha de chamar verso (23.12.2015)



(Nei Lopes)

No trabalho da gente, seja ele qual for, a gente cria às vezes um dicionário pessoal para indicar coisas sem nome definido. Na poesia de estrofes rimadas e metrificadas, eu sempre usei, por conta própria, dois conceitos relativos ao improviso com batuque. Tinha o “refrão de chamar verso” e a “linha de chamar verso”.

O refrão de chamar verso é aquele velho esquema de canto com palmas: “Chora bananeira / bananeira chora / chora bananeira / meu amor já foi embora.” Aí alguém dá um passo pro meio da roda, ou (se numa mesa) ergue o braço pedindo a vez, e manda uma quadrinha improvisada, ao fim da qual todos voltam a cantar juntos: “Chora bananeira... (etc)”.

Já a “linha de chamar verso” é como se fosse um mote de uma linha só, mas ao invés de aparecer no fim da estrofe aparece no começo, e o cantor improvisa o restante. A linha-de-chamar-verso mais antiga que conheço é “Lá em cima daquela serra...”  Quantos milhares de quadrinhas não já terão sido escritas ou improvisadas pegando a partir de um início tão promissor?

Em Partido Alto – Samba de Bamba (Pallas, 2005) de Nei Lopes há uma porção de termos para essas linhas. À pág. 107, Nei Lopes explica que muitas das quadras cantadas em partidos altos, seja de memória ou de improviso, se desenvolvem “a partir de um pé-de-cantiga, isto é, de um verso inicial padronizado, bastante conhecido.”  À pág. 139, ele amplia essa definição: “Grande parte das trovas, quadras e outros tipos de estrofes da poesia popular se inicia por versos padronizados através dos quais se propõe e estabelece o tema a ser trovado e cantado. A esses versos-matrizes costuma-se chamar ‘trampolins’, ‘muletas’ (...), ‘pés-de-cantigas’, no dizer de Joaquim Ribeiro (...), ou ‘versos feitos’, segundo Mário de Andrade.” Ou seja, é o mesmo princípio do mote na Cantoria nordestina – só que vem no começo, e não no fim.

Nei Lopes lista alguns desses começos, e mostra com que frequência eles iniciam estrofes em nossa música popular: “Vou-me embora, vou-me embora”, “Minha mãe me deu dinheiro” (no Nordeste usa-se tipo assim: “Minha mãe me dê dinheiro / preu comprar um cinturão / o punhal e a cartucheira / pra brigar mais Lampião”), “Alecrim na beira d’água”, “No tempo em que eu cantava”, “Dizem que cachaça mata”, “Minha mãe sempre me disse”... Eu lembraria outros como “Quando eu vim da minha terra” (resgatado por Paulo Vanzolini em sua “Capoeira do Arnaldo”), “Vou falar pra todo mundo”, etc.

Esse mote inicial (ao invés de mote final) é mais um parentesco entre o partido alto e a cantoria, mostrando que os dois compartilham as mesmas raízes e o mesmo espírito, apenas evoluíram por caminhos diferentes.




segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

4003) Como odiar Lovecraft (22.12.2015)



(ilustração: Selin Arisoy)

H. P. Lovecraft foi um dos escritores mais influentes da literatura de horror, que ele misturou com ficção científica para produzir uma espécie de “horror cósmico”. Ele apregoava ser “um homem do século 18 perdido no insuportável século 20”. Criado com certo luxo até os 14 anos, depois teve que se adaptar a uma vida de penúria financeira, doenças na família, um casamento fugaz, daqueles que nunca poderiam ter dado certo. Era em essência um solteirão calado, cheio de venetas, que gostava de dar longos passeios e de ler alfarrábios antigos. E escrevia longas cartas para colegas escritores que, em muitos casos, nunca veio a conhecer.

A cabeça de Lovecraft, esculpida por Gahan Wilson (famoso pelos seus cartuns de humor negro) tornou-se a materialização do World Fantasy Award, um dos principais troféus anuais da literatura fantástica. A lista de quem já ganhou o troféu é enorme, e inclui autores como Fritz Leiber, Gene Wolfe, Tim Powers, Peter Straub e Jack Vance.

Acontece que Lovecraft tinha uma visão muito peculiar a respeito de outras raças, como os negros e os judeus. Seu aristocratismo pomposo exigia esse tipo de esnobismo, e ele parece ter acreditado, como tantos intelectuais brasileiros da mesma época, que a mistura de raças empobreceria ambas. Vai daí que escritores atuais, informados das idéias racistas de HPL, questionaram o uso de sua imagem no troféu. Como se dissessem: “Esse cara é o modelo que devemos seguir?”.

A substituição da estátua foi anunciada na entrega dos prêmios de 2015. Uma reação imediata foi a de S. T. Joshi, biógrafo de Lovecraft, que devolveu os troféus que já tinha ganho e disse ser tudo aquilo “uma concessão covarde ao pior tipo de atitude politicamente correta”. Eu mesmo fiquei pensando: Quem tem razão? Quem acha que HPL por ser grande escritor já está anistiado? Ou quem acha que não, que preconceitos racistas devem ser sempre denunciados e punidos, mesmo que postumamente?

Leio no fanzine eletrônico Ansible (#341, dezembro 2015) o comentário de Dave Langford: “De qualquer maneira, trata-se do adeus do que é largamente considerado o prêmio mais feio concedido na longa e irregular carreira dos prêmios para literatura de gênero.” A visão de Lovecraft sobre a humanidade é que era feia – ele era um misantropo sem generosidade com os que considerava “inferiores”. Apesar dessa deformação, foi também (como tantas vezes acontece) um grande escritor, no sentido de que produziu uma visão do mundo única, vívida, através de imagens que revelam esse mundo ao leitor. O erro talvez tenha sido terem colado sua imagem pessoal a um prêmio que deveria ser algo neutro, sem viés individualista.




sábado, 19 de dezembro de 2015

4002) Seis lendas urbanas (20.12.2015)



(ilustração: Eleonore Weil)

O Homem Sem Cabeça de Badrajupur, na Índia, é uma entidade misteriosa que aparece nas festas e peregrinações populares. É visto seguindo os cortejos, movimentando-se como uma pessoa normal, mas sua cabeça é cortada à altura do pescoço. As pessoas que o tocam são percorridas por uma espécie de choque elétrico suave e têm a sensação de que sua própria cabeça está começando a desaparecer. Ele se aproveita disto para dançar numa clareira da multidão.

Os Ladrões da Lua. Num povoado do Chile é hábito das famílias sentarem na rua nas noites de lua cheia e inventarem histórias que se passam nessa lua sobre suas cabeças. Inventaram a história de um povoado na lua, assaltado por bandidos perigosos. Inventavam cada ladrão mais perigoso do que o outro. Preocupavam-se tanto com as famílias da lua que deixavam suas portas e janelas mal trancadas, para bom proveito dos meliantes de cá.

O Tonel Rolante do Sêrro (MG). Em noites muito silenciosas ouve-se pelas ruas da cidade o ruído de um tonel de metal, oco, sendo empurrado por cima das pedras do calçamento, às vezes descendo uma ladeira com um clangor infernal, às vezes escalando os paralelepípedos devagar e sempre, como que empurrado por mãos vigorosas. Abrem-se as janelas e ninguém vê nada. Fantasma auditivo.

O Brinquedo do Miúdo é um episódio misterioso que se dá em Coimbra e no Algarve. Um miúdo (um menino) aborda um transeunte numa rua escura e pede que devolva o seu brinquedo, que (segundo ele) a pessoa traz no bolso. Em todos os relatos a pessoa mete a mão no bolso e de fato tira de lá o objeto que o menino lhe pedira: uma gaita, um par de óculos, um confeito, um versinho manuscrito, uma bola de gude, um isqueiro, um soco-inglês... E todas as vezes a criança recebe, agradece e some para sempre.

O Carro Que Não Pega. Uma lenda frequente na Ucrânia, na Rússia, na Letônia, e, curiosamente, também no Estado de Sergipe. Um carro fantasma acorda de repente uma vizinhança inteira, com aquele ruído insano, engasgado, de uma ignição que não pega de jeito nenhum, sendo coagida por uma pessoa que não vai desistir com facilidade. Um engasgo torturante, que até parece vai redundar numa explosão, mas não, fica só taxiando. Para quem dirige, é o mesmo que injetar querosene na veia.

A Ponte Fantasma da Kawa-kahihi, no Havaí, é uma ponte que muda de aspecto: é de madeira, ou de pedra em estilo antigo, ou de ferro fundido, de mármore cheio de ornatos... Ela aparece unindo as margens de um rio ou de um desfiladeiro. É uma ponte sempre diferente, mas tão real quanto qualquer outra até o momento em que o viandante encontra-se lá pela metade, quando então ela some no ar.




4001) A roda gigante (19.12.2015)



Ele estava passando uns dias naquele lugar, a serviço. Era uma cidade pequena mas tinha cinema, tinha um teatro com cartazes anunciando show musicais, e tinha um parque de diversões. Chamar aquilo disso era força de expressão. Tudo bastante precário. Brinquedos enormes, mas muito velhos e desgastados. Na segunda noite ele entrou, pensando somente em fazer algumas fotos com o celular, porque havia uns cartazes e uns ângulos interessantes. Comprou ingresso aqui, cerveja ali, puxou conversa. Na bilheteria viu a morena, a quem chamou brincando de Luluza, ao recolher o troco, e ouviu dela uma resposta que o fez dar uma gargalhada e olhar naqueles olhos pela primeira vez.

Voltou na noite seguinte (o trabalho o ocupava das dez até o anoitecer) e retomou o papo com ela numa brecha entre o fim de uma fila e o começo da próxima. Perguntou: “Parquezinho esquisito, hem?  Por que não botam luzes coloridas, como todo mundo?” Ela de olhos baixos, arrumando notas por ordem de valor: “O dono gosta assim. Tudo preto e branco.”  Ele falou: “Que coisa, hem. E você? Gosta mais de preto e branco ou de colorido?”  Para ele era só um puxa-conversa pra não deixar a peteca cair, manter o timing da simpatia. Teria pegado mal para ela?  Que disse: “Eu danço conforme a música, amorzinho,”. Plantou as mãos na bancada, ergueu os olhos para ele, e abriu um sorriso dentifrício. “Eu sou a esposa dele, e danço a música que ele tocar.” “Oooops,” disse ele, gargalhando, “não se ofenda. Não estou achando feio. Torna-se até uma coisa bastante cult.”

Foi quando ele viu o homem descer da roda gigante, e entrar cambaleando num pequeno chalé de madeira ali perto, passando a menos de cinco metros da bilheteria onde estavam. “Lá vai ele,” disse ela. E depois: “Deixou de beber. Agora ele dá uma volta na roda, desce tonto, e escreve.” “Escreve o que?”  “Romance. Vai dizer que nunca ouviu falar de...” Ele anotou o nome, soletradamente. “E como deixaram ele fazer a cabana dele aqui dentro?”, perguntou, e ela: “Ele é o dono do parque. Ninguém vive de literatura neste país. Quando sobrevive, pode pegar uma cerva e comemorar.” Ele entendeu “uma serva”, gargalhou, fez sinal de positivo, legal.

A outra reportagem, a que o levara ali, foi feita, mas logo em seguida ele entregou as fotos e a história (meio dramatizada, e com certa licença poética) do “Eremita High-Tech”. Não, não houve intenção, houve oportunismo. Ele não podia saber que o eremita pularia do alto da roda apenas três dias depois da reportagem.  Deixou a coisa marinando 48 horas e foi apresentar os pêsames à viúva, perguntar se precisava de alguma coisa. “Música, amorzinho, música”.




quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

4000) Problemas de escritor (18.12.2015)



Carlos Drummond de Andrade publicou em 1967, pela Editora do Autor (Rio), o curioso livro Uma Pedra no Meio do Caminho – Biografia de um Poema. Durante anos o poeta arquivou tudo que saía sobre seu poeminha da pedra, fosse a que pretexto fosse, e foi separando tudo em pastas. Os títulos de alguns capítulos dão uma idéia da variedade do material: “Reação pelo ridículo”, “Muita gente irritada”, “Popularidade, mesmo negativa”, “Os amigos da pedra”, “E os inimigos”, etc. Pena que seja meio difícil de obter, e não sei se foi reeditado.

Poucos poemas daquele século provocaram reações tão esperneantes. A pedra de Drummond tirou do sério muitos críticos. Deixaram-se perturbar demais pelo que o próprio autor considerava um poema interessante mas menor, quase uma brincadeira, por que estaria produzindo tanta raiva?

O momento auto-ajuda é você perceber que nem sempre a sua obra que vai ter impacto é sua epopéia de dois mil versos ou sua trilogia que engloba seis gêneros. Às vezes basta um pequeno escândalo estético desse tipo para fazer uma fama. Drummond impressiona pelo modo aparentemente tranquilo e equilibrado como descreve, transcreve e comenta o que disseram a seu respeito. Ele tem o ar kafkeano de um entomólogo examinando a si mesmo. Nesse livro ele republica também o poema em prosa “O Enigma” (Correio da Manhã, 1947; depois em “Novos poemas”, 1946-7), uma clara resposta ao poema da pedra, invertendo apenas seu ponto de vista narrativo.

O bombardeio massacrante dos articulistas que não gostaram da “pedra” é atenuado em parte pelos que a traduziram, a adaptaram, ou lhe deram variadas utilidades a título de homenagem. O poema mais famoso de Drummond virou um meme do seu tempo. Um meme cuja viralidade durou várias décadas e ainda não se esgotou de todo, porque hoje ou amanhã um cartunista do Norte ou um diretor de teatro do Sul vai lançar mão dele para produzir um efeito qualquer.

A pedra no caminho viralizou na administração pública, no esporte, na moda, no rádio; foi vítima de insinuações políticas e era citada nas propagandas. Virou, a julgar pelas centenas de notas e de matérias transcritas por Drummond, uma dessas coisas que você usa sem saber quem inventou e sem ligar a mínima para isso. Poucos poetas que tiveram inclinações modernistas deixaram de fazer algum tipo de paródia, citação ou homenagem a ele. Como se diz da massa de bolo e de alguns clubes de futebol (“quanto mais apanham mais crescem”), Drummond apanhou, certamente preferiria não ter que passar por aquilo, mas como não podia mesmo mudar nada parece que decidiu se divertir um pouco e dar risada de quem dele ria.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

3999) Os estrangeiros (17.12.2015)




Anthony Boucher é um nome familiar a quem conhece a literatura policial e de FC norte-americana de 50 anos atrás. Ele foi uma figura decisiva nos dois gêneros, como autor, editor, crítico, resenhador. Era um escritor católico, com formação latina que lhe permitia traduzir do espanhol e do português para o inglês. Philip K. Dick foi grato a ele pela vida inteira, pelo incentivo que recebeu. Foi ele quem traduziu e publicou (no Mistério Magazine de Ellery Queen) o primeiro conto de Jorge Luís Borges a sair nos EUA.

Entre 1942 e 1947, Boucher manteve uma coluna periódica no San Francisco Chronicle.  Em um artigo de 5 de maio de 1946, ele comenta duas traduções recentes para o inglês: O Homem que Via o Trem Passar de Georges Simenon e O Estrangeiro de Albert Camus (ambos traduzidos por Stuart Gilbert). Diz ele:

“Trata-se em essência da mesma história: a de um homem que não consegue aceitar em seu íntimo as convenções usuais da sociedade, mas apenas deixa-se levar por elas até que um assassinato, cometido quase por acaso, lhe dá a chance de explodir a moldura social”.  Boucher descreve Camus como “um jovem romancista com respeitável estatura filosófica e estética, que é uma das duas figuras-chave do curioso movimento contemporâneo francês do Existencialismo”. O ano era 1946 – ainda não era o Camus do Prêmio Nobel; era apenas mais um jovem escritor botando as unhas de fora.

Boucher lembra: “Camus se dedica à criação de um personagem extraordinário, um caixa de banco na Argélia cujas reações (ou ausência delas) apenas não são aquelas que a sociedade exige. Comentaristas do Existencialismo parecem dar a esse personagem um valor filosófico para além da literatura; mas ao nível do romance propriamente dito, é um retrato espantosamente bem executado de um indiferentista em estado puro.”

De fato, o jeitão à deriva do “estrangeiro” Meursault está somente um degrau acima de um indiferentista total, no caso o escrivão Bartleby, de Melville, que reagia a todos os pedidos para que fizesse não importa o que, dizendo: “Eu preferiria não fazer isto”. Meursault é meio que uma versão pop disso, porque tem namorada, toma cerveja com amigos, se preocupa com isso e com aquilo... Mas é como se a vida dele fosse ligeiramente irreal, sem propósito.

Boucher lembra que Camus trabalhou como leitor na editora Gallimard, que publicou o livro de Simenon em 1938. Não é exagero supor que Camus o leu e que foi um dos policiais “hardboiled” que ele diz ter querido emular quando escreveu O Estrangeiro, quatro anos depois: os livros (provavelmente) de Hammett e Chandler... Talvez se possa colocar Simenon nessa lista.