quinta-feira, 1 de agosto de 2013

3253) A arte do repente (1.8.2013)




(Sebastião da Silva e Louro Branco)

A arte do repente é vítima de vários equívocos quando é estudada nos livros. Estudar o repente de violeiros num livro é muito útil, mas se o estudante não frequenta cantorias é como estudar futebol num livro e nunca assistir sequer um jogo de pelada. De que adianta?

O repente é um verso feito em poucos segundos com a obrigação de ser cantado naquele instante exato. O violeiro não pode “pedir pausa” enquanto dá uma ajeitadinha nas rimas ou na ordem dos versos. Verdade que em qualquer cantoria usa-se muito “balaio”, muito verso preparado. Isso é outra coisa. Estou falando daqueles momentos, no transcorrer de uma cantoria, em que a gente vê que tudo está sendo criado na hora, pra valer, no calor da batalha.

Quando alguém pratica muito, consegue fazer tudo mais depressa. Tem um repertório de saídas espertas para situações difíceis. Tem um processo qualquer para acessar rapidamente uma palavra, uma rima, uma informação guardada na memória. Já é capaz de dividir o problema, instantaneamente, em diferentes blocos, e resolvê-los em paralelo, quase que com diferentes cérebros. Tem o talento de desligar a chave da emoção, para que a angústia da dúvida ou o pânico de errar não o atrapalhem. A emoção se canaliza para o sensorial, e o cantador vê-se vibrando em uníssono com o diapasão do recinto; canaliza-se para a memória, para o “jogo de Lego” da verbalização metrificada.

A Cantoria é poesia acima de tudo, mas não é só a poesia, a palavra. Tem um lado indispensável que é feito de música; e tem outro, também essencial e meio indefinível, que pode ser chamado de performance, de canto, de representação teatral, de articulação oral, de histrionismo. A Cantoria não repousa somente na substância verbal de uma sextilha, mas (para os privilegiados que a acompanham ao vivo) o modo como se encaixou na sextilha do parceiro, o modo como a rebateu ou confirmou, o tom com que foi cantada, as nuances de voz ou de expressão. Um pouco disso passa para o vídeo, a TV, os clipes de cantorias no YouTube.

Para o livro, passa pouco. Por isso, talvez, criou-se desde muitos anos, na literatura sobre Cantoria, uma figura de linguagem quase obrigatória. Quando o autor quer citar uma grande estrofe, primeiro diz quando se deu o fato, faz uma breve descrição do ambiente, cita a sextilha precedente (ou mais frequentemente os dois últimos versos dela), e só então transcreve a sextilha que está citando. Porque sabe o quanto ela dependeu do momento, do contexto.

O valor do verso aumenta quando sabemos a “deixa” que recebeu, a pergunta que está respondendo, o erro que está ironizando, o assunto novo que está pegando no ar sem deixar cair.


quarta-feira, 31 de julho de 2013

3252) Fogo de inverno (31.7.2013)




As nevadas foram mansas durante aqueles meses na província de Wu Wei. Quando o dia clareava, o Budista Tibetano saía de sua confortável casa de madeira, cumpria às pressas as tarefas necessárias para que o mundo não se acabasse, e voltava correndo para dentro, onde sua assistente (ou concubina, segundo outras traduções) já lhe preparara um narguilê. Todo dia passavam por ali jornaleiros de bicicleta, distribuindo folhetos com a tinta ainda úmida. O Budista Tibetano lia e balançava a cabeça, desconsolado.

“Saques e depredações na capital,” queixou-se ele. O Pavilhão do Chá, a Ópera de Arame, o Museu do Olho, tudo estava conflagrado por quebra-quebras e por confrontos entre os soldados do Império e os estudantes da Universidade das Filosofias. “Eles acusam os militares de golpistas, mas são mais golpistas que qualquer um, só querem o poder agora se for agora. São capazes de dar a vida pela Revolução, mas não admitem esperar dez anos por ela.”  Tomou um gole de chá e tentou ser filosófico. “A tragédia do revolucionário jovem é querer que tudo aconteça no seu tempo de vida, e de preferência no auge de sua energia e disposição. Vai precisar delas, porque vai ter que bater a cabeça numa parede por trinta anos.”  A companheira pegou na bandeja um biscoitinho da sorte e o entregou. Ele quebrou o biscoito, desenrolou o papel, leu: “E você, o que sugere?”

“Bem observado,” disse ele, jogando o papelucho pela janela. “Vem cá.” Ela veio, bem obediente, os dois se encostaram no peitoril, e ele apontou: “Estás vendo toda esta encosta, com suas casas? Neve e fogo. Nevascas e fogueiras. Isso é a política. A neve é a natureza. São as coisas que acontecem acima da nossa vontade ou da nossa conveniência. A seta do tempo. É o corpo do universo começando a esfriar. Já o fogo é cultura, é revolta, é vida proibida, é a vingança do homem contra a natureza, por lhe roubar o sol no inverno.” 

Ela assentiu, e disse: “Lindo, mas e os estudantes, que podem perder a qualquer momento os dentes ou o nariz? Enquanto isso, ficas aqui bebendo e fumando. Neve e fogo! Ora muito bem! O que tem isto a ver com os estudantes de filosofia e os guardas do palácio?” O Budista Tibetano espantou-se: “Mas em que é que a política ou o mundo podem te interessar?” E ela: “Não me diga que só porque você é homem, é filósofo, tem trinta papiros publicados, tem direitos que eu não tenho!” O Budista Tibetano se maravilhou, porque sabia que acabava de testemunhar a primeira frase feminista dita no Himalaia nos últimos mil anos. Fechou a janela e levou-a para dentro, pensando: “Administrar um Império deve ser mais fácil, mas administrar uma mulher é mais divertido.”


terça-feira, 30 de julho de 2013

3251) Galo! (30.7.2013)



Os torcedores do Treze que me desculpem, mas é do Galo mineiro que vou falar hoje. Para muita gente o conceito de torcer por mais de um clube é tão inadmissível quanto o de rezar para mais de um Deus. Se for assim, eu assumo: sou politeísta em matéria de futebol. Tenho vários altarezinhos com bandeiras e camisas de cores diferentes. E presto minhas homenagens a cada um desses santos, principalmente quando um deles faz milagre.

“Milagre” chega perto de descrever a façanha do Atlético-MG em conquistar a Taça Libertadores das Américas, no final de uma campanha tanto heróica quanto imprevisível. Faz parte do karma dos grandes clubes que todo mundo, a começar pela torcida e pela imprensa, lhe cobre a conquista de títulos importantes. O Atlético tem títulos regionais mas não ganha há cerca de 40 anos um Campeonato Brasileiro que já foi conquistado por times de menor projeção, como Coritiba, Guarani de Campinas e Atlético Paranaense. “Bateu na trave” algumas vezes, principalmente na derrota de 1977 para o truculento São Paulo de Rubens Minelli, e no ano passado, quando afracou na reta final e deixou o título, de mão beijada, para o Fluminense.

Depois de uma primeira fase arrasadora, em que “passou no rodo” todos os adversários, o Atlético sofreu nos jogos decisivos. Nessa fase final, raramente repetiu as atuações confiantes da primeira metade do torneio. Parecia haver um milhão de toneladas de concreto pesando nos ombros dos jogadores. Permitiu gols bobos, perdeu gols incríveis, deu aquelas mancadas que nos grandes times estão associadas ao apagão mental de quem está chegando próximo ao limite. Fez gols salvadores nos últimos minutos, quando tudo parecia perdido; e o goleiro Vítor defendeu pênaltis históricos em momentos cruciais.

Falei em milagre porque o Atlético criou, para si mesmo, problemas quase insuperáveis, e acabou superando-os, quase que sadicamente, só para fazer a torcida gemer mais fundo. Não sou torcedor de acompanhar o time, até porque os jogos do Atlético só passam na TV quando ele enfrenta os times do Rio. Destes seis últimos jogos, vi cinco, e em todos passei perto do enfarte. Logo eu que me considero muito mais torcedor do Treze ou do Flamengo. Quando o Flamengo trouxe Ronaldinho Gaúcho, fiquei imaginando que uma alegria muito grande estava reservada para mim. E estava mesmo, só que não para o flamenguista,  e sim para o atleticano. Podem torcer o nariz, mas essa vitória de Ronaldinho, comandando um time com muito talento e muita garra, valeu tanto quanto qualquer outra. Ele não é mais o mesmo que foi no passado. Nenhum de nós será, no futuro. O Atlético é campeão no presente. Viva o Galo.


domingo, 28 de julho de 2013

3250) Os Idealistas (28.7.2013)




(foto de Robert Frank)

Eles estão por toda parte. São pessoas que têm uma visão idealizada do mundo, uma visão excludente que procura o tempo inteiro distinguir o que se aproxima de um ideal estabelecido por eles, e depois descartar o resto. 

São chamados às vezes de elitistas, mas o seu elitismo social, que de fato existe, talvez não seja a origem de tudo. A origem de tudo é essa atitude filosófica, digamos, de quem diz mais ou menos: “Só o que é Bom merece existir”.

É uma atitude meio torre-de-marfim, sem dúvida, e que atrai com muita força aquelas pessoas ansiosas pela ascensão social, pelo reconhecimento intelectual ou pela criação de um ambiente utópico e superficialmente perfeito que lhes dê a ilusão de estar vivenciando O Mundo Como Deveria Ser. 

É uma atitude assim que deu origem àquelas expressões que vemos com tanta frequência em colunas sociais: “Sábado passado, a sociedade carioca esteve presente nos salões do Copacabana Palace para a festa de casamento de...”. Ora, “a sociedade carioca”, em termos realistas, pressupõe a totalidade dos 6 milhões de habitantes do Rio de Janeiro. Para quem se exprime assim, no entanto, “a sociedade carioca” são alguns milhares de pessoas que realmente contam, que têm de fato importância. O resto não existe.

No jornalismo cultural acontece o mesmo. Ele reflete a mentalidade das pessoas para quem rock-and-roll não é música, ficção científica não é literatura, cordel não é poesia, e assim por diante. 

Os defensores dessa visão definem cada uma dessas atividades a partir do perfil das obras que eles consideram importantes. Já que existem as grandes obras literárias, para o restante não basta dizer que são má literatura, é preciso dizer que não são literatura, que estão excluídos do campo literário, das discussões literárias.

Para esse idealismo, só “é” de fato o que corresponde ao seu ideal. Os idealistas têm uma concepção seletiva do mundo. Só existe o que se aproxima do modelo. São eles os primeiros a dizer: “Esse criminoso não é um ser humano”. Dizer que esse indivíduo não é um ser humano os autoriza a negar-lhe tudo que somos obrigados a conceder aos seres humanos por força da lei ou das tradições não escritas. 

Enquanto o ideal de ser humano foi o homem branco, considerava-se que as mulheres não tinham alma e que os negros eram animais.

O contrário dessa visão é a visão realista, que nos diz: cada grupo de seres inclui o que tem de melhor e de pior, e é pelo seu conjunto que deve ser julgado. De nada adianta um país ter dez milhões de milionários se nele ainda existirem dez mil miseráveis. 

O retrato de um país não é sua camada superior, é a justaposição e a comparação entre seus pontos extremos.







sábado, 27 de julho de 2013

3249) Mídia transparente (27.7.2013)



Vamos voltar um pouco ao tema da Mídia Ninja e das tecnologias de vigilância mútua entre o aparelho do Estado (e das Corporações) e a população civil. A onipresença das câmeras de segurança em nosso mundo urbano torna possível vigiar em tempo real (ou reconstituir “a posteriori”) os movimentos dos cidadãos através de uma cidade. A grande imprensa mostrou as deslocações do brasileiro Jean Charles antes de ser equivocadamente morto pela polícia londrina, sob suspeita de terrorismo, em 2005, e o modo como o carro da juíza Patrícia Accioly foi seguido pelos policiais que a mataram em Niterói, em 2008. Reconstituições assim poderão ser possíveis (em tese) em relação à maioria das pessoas, pois todas elas estarão em algum momento de seus trajetos urbanos passando pelo campo visual de uma câmera.

Nos EUA, carros da rádio-patrulha levam uma câmera apontada para a dianteira do carro; desse modo, quando os patrulheiros detêm um suspeito e param atrás do carro dele, todas as ações subsequentes (descer, mandar o motorista descer, revistá-lo, algemá-lo, dar-lhe uns safanões quando necessário) estarão sendo registradas para posterior avaliação no tribunal, se for requerido por alguém.

Milhares de câmeras portáteis nas mãos de manifestantes, cobrindo o tumulto de uma passeata, podem ser uma arma poderosa, se não para dissuadir a polícia de praticar as barbaridades costumeiras, pelo menos para atribuir responsabilidades “a posteriori”. Outra arma importante seria (não sei até que ponto isto já é contemplado pelas nossas leis atuais) a exigência de que qualquer procedimento policial fosse obrigatoriamente registrado em vídeo e áudio; e que no caso de a polícia não fornecer essas gravações, quando solicitadas por um juiz, isto fosse considerado um indício de possível culpabilidade. Uma micro-câmera numerada no capacete de cada policial envolvido na repressão de manifestações de rua. (E só faltava agora eles quebrarem a câmera com a mesma cara-de-pau com que arrancam o nome da farda.)

Câmeras no interior das delegacias, principalmente nas salas de interrogatório. É possível? Câmeras nos guichês de atendimento do Detran e outras repartições notórias pelo descaso, corrupção ou bagunça. É possível? Câmeras onde quer que ações governamentais e corporativas possam estar se chocando com o interesse da população. É possível? Se for, é preciso votar para que isto se transforme em lei, e que os bancos de imagens sejam acessíveis à sociedade organizada. Em termos enxadrísticos, o Povo precisa deixar de jogar com as peças pretas. Precisa jogar com as brancas, tomar a iniciativa contra (e colocar em xeque) Governos e Corporações.


sexta-feira, 26 de julho de 2013

3248) Fenda no espaço (26.7.2013)




Seu Claudionor ajeitou o boné, limpou as sobrancelhas e olhou de novo o relógio de pulso. Quase meio-dia e o ônibus das onze, que passava ali onze e meia, estava atrasado. Sentado no tronco, ele puxou mais uma vez a maleta para perto de si, embora estivesse sozinho na beira da estrada, à sombra de uma mangueira. No sábado e na quarta aquela estradinha tinha um movimento danado, mas em dia comum era um eterno problema. Seu Claudionor olhou a cerca às suas costas, e por trás dela a pastagem que se estendia em colinas bem verdes sob um céu bem azul, parecendo uma foto que tinha no computador do filho dele.

De repente ele deu um pulo, porque ouviu um barulho atrás, como uma coisa se dilacerando, só que muito alto, alto mesmo, como uma vez que ele ia passando do lado daquelas caixas pretas depois de deixar as sobrinhas num show e partiu dali um guincho indescritível que o deixou quase surdo uma semana, um problema médico que o namorado da sobrinha lhe explicou depois chamar-se microfonia. E viu que junto com o ruído às suas costas a paisagem colorida se rasgava, verticalmente se dilacerava, abrindo uma obscena boca vertical alargada à força, com emprego de músculos e de puxões, por dois homens que pareciam passar através dela, cruzá-la, até tombarem os dois quase desfalecidos a três metros de distância.

E pela fresta saía uma luz escura, uma tenebrosidade de treva reluzente, mas era possível avistar por trás uma parede de coisas como massas moventes cobertas de sinais coloridos em líquido cristal. Os dois homens vestiam roupas resistentes e (Seu Claudionor só então percebeu) capacetes transparentes que cobriam o crânio e o rosto com uma folga interna de um centímetro. Tiraram os capacetes, sem olhar para Seu Claudionor. “Eu lhe disse que se aumentasse demais ia romper a película, e olha aí o que você aprontou,” disse um. E o outro: “A medição disse que podia. O que fazemos agora?”. O outro deu um tapinha na palma da mão esquerda, leu alguma coisa nela. “Temos que esperar quase dois minutos, até que ela se recomponha.”  Ergueram os dois o olhar. “Tem um nativo aí.” “Fornique-se o nativo. Valem menos que um algoritmo em alta.”

Eles falavam um português de sotaque arrevezado e de palavras desconfortáveis, mas falavam português. Seu Claudionor abaixou-se, pegou a maleta, abriu a maleta, tirou a doze, armou a doze, detonou os miolos de ambos, guardou tudo de novo. Só então foi até lá, enfiou um e depois o outro por aquela fenda que já se fechava. Sentou de volta, limpou as sobrancelhas, olhou o relógio, pensou no ônibus, deu uma passada geral em torno, viu a paisagem verde-azul, cuspiu de lado e disse: “Vôte”.


quinta-feira, 25 de julho de 2013

3247) Artista profissional (25.7.2013)


Duas coisas que correram estes dias nas redes sociais me chamaram a atenção. 

Uma delas dizia respeito a um divertido post (cuja leitura aconselho) no blog “Recordar, repetir e elaborar” de Camila Pavanelli (em: http://bit.ly/1amO2EZ). O título já diz tudo: “Gente de humanas que faz um monte de coisa que não dá dinheiro”, onde ela relaciona e comenta algumas dezenas ou centenas de atividades que não dão dinheiro (eu próprio me enquadro numas 35). 

O outro foi um comentário de Fábio Cabral, da loja Passadisco (Recife), sobre um rapaz que lhe anunciou que ia montar uma banda e gravar um disco em 2015.

O cara que em 2013 já determina que vai gravar um disco em 2015 (por mais que gravar discos tenha se tornado fácil ultimamente) é claramente um futuro artista profissional, ou pelo menos tem a intenção de sê-lo. Está com um cronograma de compromissos. (O primeiro deve ser: “Compor doze músicas”). Será que está botando o carro adiante dos bois? Se ele tiver talento, até que não. Sei de muita gente que preparou cronogramas assim e depois sentou e produziu obras de alta qualidade.

Acontece que isso não é o comportamento típico da “gente de humanas” citado no post de Camila. “Gente de humanas”(leia-se: que estudou Ciências Humanas, em vez de Ciências Exatas ou Ciências Médicas) já é uma expressão irônica com que o pessoal designa a minha tribo, o pessoal que estudou artes, comunicação, ciências sociais, letras, filosofia, etc. 

Eita pessoalzinho desprovido de magnetismo financeiro. Se colocarem a gente a meio metro de distância de uma moeda de 1 real, a moeda não se move um milímetro. Por outro lado, existem profissões em que o dinheiro literalmente corre atrás do sujeito.

Scott Fitzgerald já disse: “A gente não escreve porque quer dizer alguma coisa, escreve porque tem alguma coisa para dizer”. Parafraseando: a gente faz músicas, e um dia vem a necessidade de gravar um disco; mas existe gente que se compromete a fazer um disco (para ganhar dinheiro, claro) e isso o obriga a fazer músicas. A ordem desses dois fatores altera o produto. 

Gente-de-humanas pensará primeiro nos aspectos humanos das coisas que lhe passam pela cabeça, e só muito depois irá avaliar se aquilo dá dinheiro ou não. Para o artista “de humanas”, o dinheiro é consequência. 

Para certos artistas profissionais, o dinheiro é o objetivo, e a arte é uma mera obrigação tediosa.  (E eu sou um profissional, portanto a crítica que faço não é ao profissionalismo em si, mas à mentalidade que coloca o profissionalismo acima de tudo. Torna-se muitíssimo mais fácil manipular ou subornar um artista “profissional” do que um artista “de humanas”).





quarta-feira, 24 de julho de 2013

3246) Cordwainer Smith (24.7.2013)





Muitos centenários ilustres sendo comemorados este ano (Albert Camus, Vinicius de Moraes, Rubem Braga, para não falar no meu pai, Seu Nilo, e em seu/nosso amigo “Seu” Brasil). Quase deixei escapar o de uma das figuras mais talentosas e insólitas dentro da ficção científica.  Cordwainer Smith era o pseudônimo de Paul Linebarger (1913-1966) para sua obra de FC, da qual apenas uma parte foi publicada em vida.

Seus contos (não li os romances) mostram um futuro remoto em que pilotos de espaçonave ligam-se telepaticamente a gatos para absorver a energia necessária aos saltos no hiperespaço, e tecnologias extraordinárias permitem aos povos do futuro reconstituírem a cultura de uma época remota (a nossa) e viver nessas simulações. Os títulos dos seus contos têm uma poesia única, inconfundível: “Alpha Ralpha Boulevard”, “The Ballad of Lost C’Mell”, “The Dead Lady of Clown Town”, “Golden the Ship Was – Oh, Oh, Oh!”, etc.

Seu pai morou na China e colaborou na revolução republicana que destronou o “Último Imperador” (o do filme de Bertolucci). Ele próprio tornou-se oficial do exército dos EUA e voltou a morar na China, onde trabalhou com o serviço de inteligência. Seu livro Guerra Psicológica (1948) é considerado um clássico do gênero. A edição brasileira (Biblioteca do Exército, 1962) tem esta interessante epígrafe do autor: “O gênero humano seria certamente melhor se todos os homens do mundo fossem um pouco mais brasileiros do que o são hoje”.

É um dos “grandes autores pouco lidos” da FC. Seus contos são humanistas, e têm uma visão ética das situações extremas de um conflito militar ou social. São criações notáveis seu “Underpeople” (animais artificialmente evoluídos à forma humana, versão benigna das criações de Wells em A Ilha do Dr. Moreau), a Instrumentalidade do Homem (uma elite político-científica que governa os mundos), e as diferentes drogas (“santaclara”, “super-condamine”) que ele emprega ora como vício ora como alívio do sofrimento. Certa vez ele levou as filhas pequenas ao México e lhes mostrou as pirâmides de Chichen Itzá, onde havia sacrifícios humanos, e os murais de Siqueiros, para mostrar-lhes a medida da dor humana.

Smith emprega com frequência uma prosa poética como a de lendas orientais ou sagas antigas. Seus contos são vislumbres de um complexo futuro com dezenas de milhares de anos, numa colagem multicultural, onde a presença do Oriente é indireta mas forte. A antologia The Best of Cordwainer Smith (Ballantine, 1975) reúne seus doze melhores contos, uma preciosa introdução de J. J. Pierce, e uma cronologia do seu Universo. Seu websaite é: http://www.cordwainer-smith.com/.


terça-feira, 23 de julho de 2013

3245) Vai dar certo (23.7.2013)



(Max Klinger)


Eu sei. Eu sei que, avaliando bem, parece uma situação forte-apache-cercado-pelos-índios, mas dane-se, melhor cercado pelos índios dentro de um Forte Apache do que a pé, no descampado, tendo no bolso um canivete cego. 

Nenhuma situação é irremediável. Pra tudo na vida tem um jeito. A esperança é a última que morre. Bora jogar clichê por cima da paliçada e derrubar esses índios, não tem tribo que consiga fazer a reposição, porque o repertório de clichês positivistas e de auto-ajuda na língua portuguesa ultrapassa de muito o poder de expansão demográfica dos nativos americanos. Segure as pontas. Arroche o cinto. Assungue os cunhão da alma, e bora em frente.

No fim tudo dá certo, e se não está dando certo é porque ainda está longe do fim. Tudo está bem quando acaba bem, disse Shakespeare, e se o maior poeta do mundo disse isso quem sou eu para jogar a toalha, bater pino, correr de campo, baixar a crista? Eu vou é em frente. Vai dar certo. Vai melhorar. Vai dar certo sim, e é como dizia Augusto Matraga com fervor de cristão recém-convertido: “Pro céu eu vou, nem que seja a porrete!”. 

Daqui a pouco as coisas se aprumam. Se as coisas não se aprumarem, basta pespegar nelas um bom safanão, um contravapor daqueles de braço em recuada, que bote moral e mostre quem manda nessa tiborna. As coisas que se cuidem comigo, porque essa bixiga vai dar certo.

Pensamento positivo, concentração, determinação, feito jogador de futebol quando ouve preleção sobre “o objetivo do grupo”. Vai dar certo. As chances são boas, as estatísticas ajudam, o horóscopo de hoje deu otimista, o céu tá bonito, o pulso ainda pulsa. Por que não daria certo? Já deu certo antes, inclusive quando os prognósticos eram mais sombrios. Deu uma vez vai dar de novo. É só turbinar os neurônios, relaxar a kundalini, processar os fatores bioquímicos, respirar fundo, confiar na conjunção dos planetas e na maré favorável das probabilidades, arregaçar as mangas e cair na luta. 

Vai dar certo, prometo. Tem que acreditar, tem que entrar em campo com autoridade de time grande e furiosidade de time pequeno. O problema é dinheiro? De dinheiro está cheio o mundo. O problema é saúde? Saúde se cultiva e se desenvolve. O problema é a situação mundial? Daqui que o mundo se acabe meus átomos já estarão espalhados pra lá de Cochabamba. O problema é desilusão amorosa? Vista uma camisa nova, faça a barba e circule. 

Não interessam os índices da bolsa de apostas, os prognósticos da ciência, os tabus da superstição. A carne é fraca, a alma está rouca, o osso estala, o dente range, a boca seca, o mundo treme, mas eu vou mostrar quem sou, vou provar a todo mundo que no fim vai dar certo.





domingo, 21 de julho de 2013

3244) Lima Barreto (21.7.2013)




Há um movimento nas redes sociais, lançado por Josélia Aguiar, Álvaro Costa e Silva (“Marechal”) e André Vallias, e divulgado pela tradutora Denise Bottmann (do blog “Não gosto de plágio”) para que a Festa Literária de Paraty (Flip) de 2014 homenageie a obra de Lima Barreto. Há outros possíveis homenageados, como Rubem Braga. Essas homenagens causam sempre um momento de hesitação e remorso, porque de um modo geral todos os sugeridos merecem, e a gente, mesmo celebrando o escolhido, fica com pena dos descartados. Em todo caso, Lima Barreto é uma escolha justa, e mesmo que não se confirme vou aproveitar para conhecer melhor sua obra, da qual já li vários contos e artigos, mas nenhum romance. (Pois é, galera, não tenho problema em revelar o que não sei. O pouco que sei já me garante.)

Lima Barreto (1881-1922) teve que batalhar contra muitos preconceitos. Primeiro, o da cor, que o fez compartilhar o destino de Cruz e Sousa, Machado de Assis (em parte) e outros autores negros ou mestiços de cem anos atrás, num Brasil branco que cerrava fileiras em torno de sua brancura como um time que está ganhando o jogo de 1x0 mas sente no adversário cada vez mais volume de jogo.

Outro preconceito foi devido à bebida e à loucura, um karma permanente do destino literário. Já frequentei o prédio da UFRJ na Praia Vermelha, no Rio, inclusive para fazer palestras, e sempre alguém comenta que foi ali que Lima Barreto ficou durante suas internações psiquiátricas. Algo parecido me ocorreu quando visitei há 30 anos o antigo presídio da Ilha Grande, e lembrei de Graciliano Ramos e suas memórias do cárcere. Alguns dos grandes escritores brasileiros do futuro talvez sejam pessoas de que nem eu nem vocês jamais ouvimos falar, pessoas que talvez estejam hoje numa cadeia, ou numa clínica de desintoxicação. Quem pode garantir?

Um traço notável de Lima como escritor é a clareza e a precisão de sua prosa, sem nada daquele maneirismo dos beletristas do seu tempo. Lima era direto, coloquial, usava um português sem paletó nem gravata, e isso era muitas vezes alegado como falta de cultura. Já comentei aqui nesta coluna o livro que contrapõe artigos de Lima Barreto e de Coelho Neto sobre futebol (O Fla-Flu literário, de Mauro Rosso, http://bit.ly/13yAvnj). É espantosa a atualidade da linguagem de Lima, comparada à do autor de “Sertão” – que aliás admiro, é um dos autores queridos da minha juventude. Sua prosa ornamental e pomposa envelheceu; a de Lima parece escrita dez anos atrás, ou mesmo este ano. Mas foi escrita naquele Brasil da República Velha, engessado, costurado por privilégios raciais e feudos políticos.