sábado, 6 de abril de 2013

3153) O cientista Frank (6.4.2013)





Frank se considerou o sujeito mais azarado do mundo quando sua esposa o largou. Felizmente (pensou ele) tenho meu laboratório de Topologia Quântico-Temporal.  As descobertas que fiz nos últimos seis meses, e que estão sendo codificadas por meus assistentes, estão com resultados muito melhores do que os que eu previa, e o relatório está gerando uns três artigos que irão desencadear um novo “Ano Miraculoso” na ciência.

Serões e mais serões se sucediam, e ocorreu que num daqueles intervalos de descontração, que às vezes duravam duas ou três horas, Frank viu-se preenchendo cadastro num saite de relacionamentos. E considerou-se o sujeito mais sortudo do mundo quando, poucos dias depois de se pavonear nos chats, fóruns e assemelhados, descobriu que tinha uma alma gêmea. Uma modelo, muito conhecida e fotografada, mas sofrendo de solidão crônica, tédio e repulsa pelo meio dos paparazzi e do show-business. Queria jogar tudo pra cima, casar, ter uma casa bem tradicional e alegre, ter filhos... “Eu nasci de quina pra lua”, disse, numa frase-feita equivalente, o pobre Frank. “Com 68 anos, gordo, baixinho, vivendo de salário de universidade pública... e uma mulher dessa quer casar comigo”. A essa altura, Frank já conferira que a modelo existia mesmo, e uma rápida intimação ao Google lhe produziu fotos bastante animadoras.

Depois alguns meses de correspondência cada vez mais íntima, ele passou a insistir para que ela o visitasse em Oklahoma, e ela dizendo sempre que estava na ponta aérea entre Paris, Londres, Milão, Zurique e Istambul. Ele terminou de redigir o terceiro “paper” enquanto revisava o segundo e abria a revista que acabava de publicar o primeiro. Logo voltou a se achar o sujeito mais azarado do mundo, porque a prometida turnê dela pela Costa Oeste tinha sido cancelada. Teria sido o encontro dos dois face a face, certamente um jantar juntos, quem sabe mais o quê! Ela disse que ia fotografar uma campanha na Bolívia. Se ele quisesse...

O aeroporto da Bolívia parecia um posto de gasolina, mas quem disse isso foi o executivo da poltrona ao lado; para ele, que nunca saíra de seu Estado, aquilo era um mundo de pulp fiction ou de seriado de TV. O hotel era desconfortável, e na portaria ele recebeu um envelope. O bilhete explicava que a sessão fotográfica tinha sido cancelada. Que ela estava indo para Amsterdam. Mas que por acaso deixara para trás uma de suas malas. Será que ele podia ser um doce, e trazer a mala dela para Amsterdam, onde ele o esperava cheia do amor pra dar? Eu sou o sujeito mais sortudo do mundo, disse ele. Por uma mulher como essa eu faço qualquer coisa.



sexta-feira, 5 de abril de 2013

3152) Reality shows (5.4.2013)





Num artigo de 2001 sobre os “reality shows”, que ele comparava aos espetáculos sangrentos do Coliseu romano, Salman Rushdie perguntava quanto tempo iria demorar até acontecer a primeira morte ao vivo, e quanto tempo iria decorrer entre esta e a segunda. Essa pergunta começou a ser respondida, de certo modo, nos últimos dias, quando morreu um participante do programa Koh Lanta (a versão francesa do Survivor), e uma semana depois suicidou-se um médico da equipe do programa, acusado de negligência. As duas mortes não ocorreram ao vivo, diante das câmaras, mas acho que não devemos ser tão puristas. Aliás, acabará acontecendo.

Gerald Babin, de 25 anos, sentiu-se mal em 22 de março, no primeiro dia de gravação, durante um dos puxadíssimos exercícios que os participantes tinham de fazer. Foi retirado de barco da ilha onde as provas acontecem (a imprensa considerou que se o levassem de helicóptero talvez ele tivesse sido salvo), e morreu em seguida, de ataque cardíaco. A imprensa francesa, ao que parece, fez inúmeras críticas ao programa e responsabilizou o médico Thierry Costa, de 38 anos. Entre outras coisas, foi dito que a gravação continuou durante nove minutos sem ser interrompida, mesmo com o participante sentindo-se mal, e que ele ainda teria tido que dar uma entrevista antes de ser socorrido.

Uma semana após a morte de Babin, Costa suicidou-se num hotel do Camboja, pedindo que seu corpo fosse cremado e as cinzas espalhadas lá mesmo, e nunca fossem levadas de volta para a França. Numa nota manuscrita, o médico afirmou que a imprensa enxovalhou seu nome, e que nunca mais teria coragem de voltar para a França e encarar as pessoas.

Existem situações humanas tão viciadas e tortas desde a origem que todo mundo lá dentro é vítima e é culpado. Os programas tipo Big Brother que se misturam com esportes radicais ou técnicas de sobrevivência alimentam um voyeurismo doentio na platéia – aquela expectativa de que a qualquer momento vai acontecer alguma coisa séria. Não diferem muito de uma tourada, onde a expectativa do sangue e da morte (da morte humana) está implícita na fórmula. Uma morte humana ganha outro significado se existe uma câmara apontada para ela, acompanhando-a, registrando-a, preservando-a para sempre. Pouco importa se tudo foi arranjado de tal jeito que a morte, por caminhos aleatórios, acabe acontecendo; não se sabe bem quem vai morrer, como, nem quando, mas no momento em que essa morte é transmitida estamos tocando com o dedo numa medula proibida da existência. É como se víssemos o instante da fecundação de alguém; a forma mais requintada de invasão de privacidade.



quinta-feira, 4 de abril de 2013

3151) Carnacki (4.4.2013)






Um dos capítulos mais interessantes da literatura fantástica é o ocupado pelos chamados “detetives do sobrenatural”. Estiveram meio que na moda durante o fim do século 19 e começo do 20; depois foram sumindo, se bem que parecem estar voltando, inclusive no cinema. São detetives tipo Sherlock Holmes, mas que, ao invés de investigarem crimes comuns, investigam casas mal-assombradas, fenômenos poltergeist, possessões demoníacas, maldições, etc.  São, de certa forma, os precursores dos conhecidos “Caça Fantasmas”.

O que há de interessante neles é que conjugam um gênero literário extremamente cartesiano e materialista (o romance de mistério detetivesco) com a narrativa sobrenatural. Uma grande parte da literatura detetivesca consiste em crimes espantosos que parecem desafiar as leis da natureza, ou parecem resultados da ação de forças demoníacas, mas logo aparece um detetive (como nos livros de John Dickson Carr ou de Ellery Queen) que no final põe tudo nos eixos e mostra que aquilo não passou de um crime humano, muito bem urdido e muito bem executado.

Li agora The Casebook of Carnacki, the Ghost-Finder, de William H. Hodgson, com as aventuras deste “caçador de fantasmas”, contos publicados na imprensa inglesa entre 1910 e 1912.  Lidos cem anos depois, são contos bem estruturados e bem escritos, que se sustentam admiravelmente, embora sofram com uma estrutura formulaica. (A estrutura de todos os contos é idêntica: Carnacki convida quatro amigos para jantar em sua casa, e após o jantar conta uma aventura em que se meteu; finda a narrativa manda os amigos embora.)

Carnacki recorre a uma intrincada e semi-oculta mitologia de rituais, inscrições, invocações mágicas que o ajudam a lidar com o sobrenatural: “o manuscrito Sigsand”. “o Pentáculo Elétrico”, “o ritual Saaamaaa”, “o encantamento de Raaaee”, etc., sugerindo um panteão obscuro de criaturas e forças astrais. Por outro lado, em suas investigações usa lanternas elétricas, geradores, máquinas fotográficas com flash, gravadores de som. Ou seja, ele conjuga como nenhum outro nesse gênero o lado ocultista e o lado científico. E os casos que desvenda são, em proporção igual, histórias de influências sobrenaturais (Hodgson descreve muitíssimo bem esses confrontos com forças titânicas, malignas, inexplicáveis) e histórias de espertalhões ou gangsters fingindo a presença de fantasmas numa casa para alcançar seus objetivos. Essa constante indecisão, só resolvida no fim, entre a explicação sobrenatural e a explicação realista dá um suspense adicional a esses contos meio esquecidos, que influenciaram uma geração inteira de autores, a começar por H. P. Lovecraft.



quarta-feira, 3 de abril de 2013

3150) Futebol Vertical (3.4.2013)




Mais uma tarde de fortes emoções esportivas em nosso condomínio! Quando terminaram de montar as duas barras (uma no décimo andar, no fim do corredor; a outra no térreo, no saguão em frente ao elevador), os dois times subiram para o corredor do 5º  e se posicionaram. Eram 3 da tarde de um domingo de sol, e todo o bairro de Presidente JK estava mobilizado para a decisão do campeonato de Futebol Vertical. Câmaras de circuito interno de segurança transmitiam o jogo para tevês, notebooks e celulares num raio de dois km. O “toss” beneficiou o América, que previsivelmente escolheu atacar pra baixo no primeiro tempo. A saída pertenceu ao Humaitá. Bola rolando, Beto Xixi enfiou-se aos esbarrões entre os adversários e já diante da escada recebeu uma cavadinha-pelo-alto de Normando: matou no peito e conseguiu dar um bico lá para cima. A bola subiu quicando e os dois times subiram atrás dela aos esbarrões. Jogo de Futebol Vertical é pra homem, só tem falta quando ocorre algo muito grave. A manobra surtiu efeito e pegou a defesa do América ainda fria. Logo logo o bafafá tinha chegado ao oitavo andar, enquanto em cada porta a torcida rodava reco-recos e entornava latas de cerveja. Zé Martins, zagueiro do América, levou um tombo e abriu a testa num degrau, foi a primeira baixa. Com muita pressão o América empurrou a bola para baixo até o sexto, mas a dupla Beto Xixi e Leandrão abriu caminho de novo. A bola chegou ao décimo, sob ovação ensurdecedora, aos onze minutos; o ricochete era violento, mães escondiam filhos enquanto os maridos vociferavam na porta e davam gritos de “cazá, cazá”. Coube a Leandrão empurrar a bola para o gol. Abraços, espuma de Skol derramada no monte de jogadores, foguetes pipocando em todo o quarteirão. Nova saída. Desta vez o América não perdeu tempo, desencadeou uma blitz de esbarrões, fez o Humaitá recuar para o quarto andar, o terceiro, com boladas violentas em todas as direções à procura da escada, botando em prática a filosofia de que quando se ataca pra baixo o principal armador de jogo se chama Isaac Newton. Quando a bola chegava em cada andar era recebida por um coro de gritos, cornetas, bate-latas. Por fim desceram aos trambolhões até o térreo, onde emergiu, da escada do saguão, uma turbamulta suada, de roupas rasgadas, de homens que rolavam uns sobre os outros, por entre cotoveladas e sangramentos, até que Cidão, mesmo caído, desferiu um bico que agasalhou a redonda no filó. Foguetes pipocaram, charangas entoaram vassourinhas, houve beijos e lágrimas entre a torcida – emoções inesquecíveis que somente o Futebol Vertical pode proporcionar.


terça-feira, 2 de abril de 2013

3149) Um Jogo de Tronos (2.4.2013)




Recomeçou a série Game of Thrones pela HBO, movimentando um enorme fã-clube mundo afora, inclusive no Brasil.  Já me referi à série em artigos anteriores (aqui: http://bit.ly/10fKNKO, http://bit.ly/XRJr5Z, http://bit.ly/KHji6y, http://bit.ly/O5994l), e não custa nada repassar alguns aspectos importantes dela. 

O primeiro é o fato de que o mundo de Westeros, onde ela acontece, não tem relação visível com o nosso (Tolkien também era assim). A geografia, a história, a cultura de Westeros, tudo isso é criado a partir do zero pelo autor George R. R. Martin. Já é uma façanha fazer isso num romance; o que dizer de uma série de 5 romances (até agora), cada um deles variando entre 600 e 900 páginas?  

Não é fácil sustentar uma história onde é preciso inventar todas as religiões, todas as genealogias, todos os países, e assim por diante, com dezenas de protagonistas e centenas de personagens importantes pertencendo a uma dúzia de culturas/nações diferentes.

Outra coisa que seduz na série é a sua política, que, diferentemente de Tolkien – cuja moralidade é estritamente medieval, maniqueísta, idealizada – tem um cinismo e um realismo que a fazem tão moderna quanto qualquer luta pelo poder em Brasília ou em Wall Street. 

Na primeira temporada, a morte de Ned Stark anunciou que naquele mundo não há lugar para alguém que comete o pecado de ser ingênuo, de não ter traquejo político, e de não saber praticar “direção defensiva” no meio das raposas traiçoeiras da intriga palaciana. Stark era um personagem simpático mas ridiculamente fora de moda; sua inocência ética me lembrou o Rocco de Rocco e seus irmãos de Visconti. Um sujeito tão determinado em ser bom e honesto que destrói tudo que tentava defender. 

O mundo se encaminha para um terreno ético em que o Bem não pode ser mais defendido pela pureza de coração. Estamos adentrando um mundo manipulado por enganadores, por gente maquiavélica, por serpentes que roubam por instinto e matam por reflexo. Só quem pode salvar o Bem é a Malandragem: a capacidade de ser mais malicioso do que o Mal, de combater o gelo com o fogo e o fogo com o gelo.

Uma terceiro aspecto sedutor da série é de natureza técnica: uma complexa cena de negociação política e cabo-de-guerra psicológico é resolvida em um minuto, coisa que muitos filmes glosariam durante um tempo interminável. 

Excelentes diálogos, atores incisivos e intensos, cortes nos momentos precisos; a narrativa de Game of Thrones, onde uma temporada tem dez episódios de menos de uma hora cada, poderia dar lições de compactação narrativa a muitos filmes de hora-e-meia que passam por aí.




domingo, 31 de março de 2013

3148) Apartamento 505 (31.3.2013)




(by Alex Howitt)


Ela era uma das três supervisoras trazidas pelo cara que assumiu a direção do nosso Laboratório. Depois das denúncias, dos escândalos, das prisões, o governo precisava demonstrar mão firme e investigar aquela história até o fim.  Nós, que trabalhávamos na parte burocrática e jurídica, tínhamos na verdade uma noção muito vaga do que acontecia nos andares superiores, onde nunca subíamos. De qualquer modo, não era da nossa conta. A ordem que o Interventor nos deu foi continuar trabalhando normalmente, e ficar à disposição deles para explicar qualquer assunto.

Eu e ela passamos um pente fino num complicado vai e vem de material biológico em contêiners, com alguns países; uma espécie de mala direta semanal com amostras, culturas, etc.  Isso nos aproximou, porque eu, que evidentemente não tinha nada a esconder, mostrei-lhe todas as faturas, notas fiscais, guias de importação, etc., tudo rigorosamente em dia. Ela começou a brincar dizendo que aquilo estava tão certinho que devia estar escondendo alguma coisa. Eu fiz uma cara meditativa e ponderei: “Talvez eles quisessem que este lado aqui estivesse 100% em ordem, para que ninguém viesse a voltar a atenção para aqui”. “É bem possível”, disse ela, “aliás, por que você não me convida para jantar?”. Eu tive presença de espírito para convidar na hora.

Começamos a ir para a cama naquela mesma semana e o interessante é que o próprio trabalho começou a fluir mais rápido. O novo diretor me encarregou de assinar tudo que fosse preciso nesse setor de cheques, empenhos, valores, etc.

Dez dias depois, ela me chamou para jantar na casa dela pela primeira vez. Avenida Porthos, apartamento 505, disse ela. Era uma área nobre, mas tinha umas quebradas meio derelitas, e a Porthos era uma delas. Tranquei o carro, liguei o alarme, apressei-me até o vestíbulo. O elevador estava quebrado e tive que subir.

Quanto mais eu subia menos o prédio se parecia com o que eu tinha imaginado. No quinto andar, parei na porta com o número dela. Bem, só podia ser aquela porta mesmo. Bati, e ela abriu. Estava vestindo alguma coisa oriental meio exótica, mas que caía bem nela, como tudo, aliás. Lá dentro estava muito escuro, mas me dava a impressão de ser um lugar grande e cheio de gente, que não era possível ver devido à escuridão. A pouca luz vinha de uma espécie de mesa ou de maca, a meia distância. “Jantar à luz de velas?”, perguntei. “Tem um pouco disso”, disse ela, afastando-me para me dar passagem e depois trancar a porta, com a luz das chamas brilhando em suas luvas de látex. “Que pé direito alto tem isso aqui”, comentei, e só então percebi onde estava.




3147) O sol e o mundo (30.3.2013)



Nos livros de Monteiro Lobato em que os personagens do Picapau Amarelo voltam à Grécia da mitologia, volta e meia aparece uma discussão sobre o formato da Terra, que os garotos insistem ser redondo. Os gregos negam com veemência: “Não, a Terra não é redonda, é montanhosa.”  Há uma heterogeneidade nessa conta. Os dois termos não pertencem à mesma ordem de coisas. Dizer que a Terra é redonda é ser capaz de imaginar que a está vendo à distância, “sair de dentro de si mesmo”, de certa forma. E o homem medieval não conseguia sair de si mesmo porque se julgava habitando um Universo cujo centro era a Terra, e na Terra, ele. Para ele, o universo era uma esfera e o mundo que ele via à sua volta era apenas uma secção horizontal dessa esfera, um plano infinito se estendendo de norte a sul, de leste a oeste.


Eu seria desonesto se dissesse que esse modo de ver me é estranho. Mas isto me lembrou duas frases emblemáticas sobre o poder do homem sobre a terra, o poder do Homem sobre a Terra, e concepções cosmológicas sucessivas.

No tempo da Rainha Vitória, o auge do colonialismo cuja faceta talentosa são Kipling, Rider Haggard, Conrad, Wilde, Stevenson, etc., dizia-se do império britânico ser “aquele império onde o sol nunca se põe”.  Durante a lenta rotação da Terra sobre si mesma, ao longo de 24 horas, há sempre metade dela exposta à luz do Sol, e nessa metade havia sempre algum território, havia inclusive um considerável território, de propriedade de Sua Majestade.

Já o coronel de José Lins do Rêgo dizia: “O sol que nasce no Santa Rosa, morre no Santa Rosa.” Uma bela imagem, mas uma imagem bidimensional, de quem considera o Universo o chão retilíneo (ou montanhoso!) que se expande à sua volta, com ele no centro. Ver-se no centro de tudo dá uma sensação de poder, de importância, de fazer sentido... Temos milênios dessa fantasia grandiloquente. Não é fácil aceitar que não somos o centro do Universo.

A frase dos ingleses mostra noção tridimensional do mundo, uma presunção, já espontânea, de que a Terra gira em redor do sol.  O velho senhor de engenho, por outro lado, ainda reflete um esquema visual do mundo. Uma planta-baixa do Universo, se quisermos, onde o mundo é um chapadão em volta do qual o Sol orbita, com pontualidade absoluta. O Coronel talvez não entendesse (visualmente, tátilmente) essa imagem de que o sol jamais se põe sobre a Terra inteira. O mundo dele é (como o dos gregos em O Minotauro) uma superfície plana, onde suas posses precisam cobrir 360 graus de superfície. Um sonho grandioso, respeitável, atingível (não importa por que meios) mas, aqui pra nós, insustentável por mais de alguns séculos.



sexta-feira, 29 de março de 2013

3146) A crônica (29.3.2013)



Dizem que é um gênero que se popularizou no Brasil mais do que em outras culturas. A crônica é uma espécie de transgênico literário, um texto em prosa que flutua entre gêneros diferentes de acordo com a veneta do redator naquele dia e naquela hora. 

Muitas vezes a crônica tem algo de parábola, porque envolve pequenos fatos do cotidiano em reflexões mais amplas. Ela enriquece de significados as pequenas coisas, e numa literatura diária (de jornal), como a nossa, há mais de um século que beletristas afiam suas penas-de-ganso em temas como “uma gota de chuva”, “um grão de areia”, “a ponta de um lápis”, “um cãozinho abandonado” e assim por diante. 

Começou como uma espécie de teste de habilidade: O que você consegue dizer sobre um assunto tão limitado? E hoje já subiu de nível: O que você consegue dizer sobre isto, que já não tenha sido repetido nos últimos cento e vinte anos?

A crônica é mais subjetiva do que o ensaio ou o artigo. Cabe nela, mais do que nos outros, a presença da pessoa do autor com suas idiossincrasias, suas pequenas inclinações subjetivas, que num artigo ou num ensaio pareceriam uma intervenção excessiva do “eu”. O ensaio ou artigo precisa ter um tema central, nítido. A crônica não: pode ser o simples registro de estados de espírito sucessivos, de reflexões íntimas sem um foco central.

Algumas crônicas, mais narrativas, se aproximam ora da anedota, ora do conto. Narram uma história, mas num tom mais leve e superficial do que o autor empregaria num conto. A diferença entre conto e crônica é equivalente à diferença entre cantar e cantarolar. 

Autores como Fernando Sabino ou Luís Fernando Veríssimo trabalham geralmente nessa faixa.

Outras crônicas se aproximam do poema, ou mais precisamente do poema em prosa. São textos onde o lado “factual” se minimiza e o autor se dedica ao texto em si, com ou sem certas simetrias estruturais que remetam ainda mais a esse perfil poético. Um bom exemplo é o clássico texto de Rubem Braga, “Ai de ti, Copacabana” (1958), uma crônica com ressonâncias de poema profético do Velho Testamento.

Este texto, por exemplo, não é uma crônica. Chamo isto de artigo: um texto onde, com ou sem a presença do “eu” que narra, descreve, opina, o foco está na elucidação de uma questão intelectual precisa – no caso, a definição do que é crônica. Pouca elaboração literária, pouca “viagem mental”, pouca ligação direta com a vida pessoal do redator. 

O que não significa que o mesmo redator não possa, eventualmente, discutir o sentido do gênero “crônica” numa crônica propriamente dita. O que não se dá aqui, neste artigo de viés utilitário, prático, meramente descritivo.




quinta-feira, 28 de março de 2013

3145) O Vampiro Parasita (28.3.2013)




Falei dias atrás do Vampiro Predador, caçador implacável, de porte aristocrático e dominador, explorador de escravos. O vampiro como senhor dos destinos alheios, cruel, inabalável, como um senhor de engenho ou um coronel do sertão. 

Existe outro tipo de vampiro, entretanto, que é tão perigoso quanto este, ou talvez mais, porque enquanto estamos nos precavendo contra o primeiro acabamos sendo assaltados pelo segundo.

O Vampiro Parasita é uma criatura frágil, insegura, carente. No primeiro contato não nos causa medo, antes desperta um misto de repulsa e piedade. 

É um Penitente, e um Penitente hábil: com meia hora de conversa bem encaixada vai diluindo a repulsa na piedade ou em outros sentimentos como uma vaga simpatia, uma sensação benfazeja de que estamos “fazendo o bem a um pobre coitado”, e uma impressão de que somos infinitamente mais fortes do que ele. É o contrário. Ele é mais forte do que nós, como as baratas que são capazes de resistir até a uma explosão atômica.

O Vampiro Parasita me faz lembrar aquela parábola oriental em que um rei pergunta a um sábio qual o animal mais perigoso. O sábio responde: “Entre os animais selvagens, o tirano; entre os animais domésticos, o adulador”. São, respectivamente, o Vampiro Predador e o Vampiro Parasita. 

Este último se infiltra em nossa vida fazendo, à força de blandície e puxação de saco, com que a gente se sinta bem em sua companhia. “Vamos dar uma festa! Tem que chamar Fulano. Me divirto tanto quando ele está por perto... pobre diabo, não tem quem dê uma força a ele.”.

Por trás do seu exterior sorridente e prestativo, o Vampiro Parasita é um Gollum, uma criatura sequiosa de nossa energia vital, que ele suga com o entusiasmo de Bela Lugosi abocanhando o pescoço de uma aldeã holandesa. Ele vive grudado de mil formas a um hospedeiro, porque se largado sozinho se dissolveria, em meia hora, num montículo de matéria orgânica inaproveitável. 

É o marido encostadão que obriga a esposa a sustentar os dois. É a esposa ambiciosa que induz o marido a financiar seus delírios de consumo e badalação. É o sócio espertalhão que vai aos coquetéis políticos enquanto o outro vira noites para entregar o projeto em dia. É o amigo prestativo e fofoqueiro que enreda todo mundo numa rede de culpas, segredos, traições. É o funcionário indemissível e intragável que azeda para sempre uma repartição inteira. 

O Vampiro Parasita não faz outra coisa senão induzir você a fazer tudo por ele, para ele. Em outro rasgo de sabedoria oriental, Bertolt Brecht definiu estes dois tipos de vampiros em seu poema curtíssimo: “Escapei aos tigres. Alimentei os percevejos”.






quarta-feira, 27 de março de 2013

3144) Ficção apostólica (27.3.2013)




(Chuck Palahniuk)


Os críticos literários inventam muitos termos interessantes, mas os rótulos inventados pelos meros escritores merecem atenção. 

Chuck Palahniuk, por exemplo, ao descrever seu romance Clube da Luta (que deu origem ao filme de David Fincher, com Brad Pitt e Edward Norton), disse que se trata de ficção apostólica. O que é isso? Ele explica: “Uma história onde um apóstolo, sobrevivente, conta a história do seu herói”.

O próprio Palahniuk dá O Grande Gatsby como exemplo desse tipo de livro.  Isso é o que? É um novo gênero literário? Uma nova classificação bibliográfica? Eu diria que não. É o modo como Palahniuk, ou Fulano, ou Sicrano, organiza algumas leituras suas. 

De fato, ele tem razão. Podemos considerar todas as histórias de Sherlock Holmes não apenas como ficção policial, mas ficção apostólica, devido ao narrador (não-confiável ao extremo) que é o Dr. Watson. Um modelo recolhido nos contos de Edgar Allan Poe sobre o Cavalheiro Dupin e seu anônimo narrador e amigo.

No Clube da Luta, conta-se a história do “herói” Tyler Durden; em Rant, Palahniuk traz dezenas de narradores para compor um mosaico da vida de “Rant” Casey. 

Alguém será capaz de narrar com isenção e objetividade os feitos do heróis a quem admira? Duvido. Toda vez que vemos grandeza em algo nosso impulso irresistível é de ampliar essa grandeza. O peso, a impressão, a presença, a influência que aquilo teve enquanto acontecia. Toda ficção apostólica tem algo de delírio de grandeza; um delírio sobre a grandeza alheia, no caso.

Ficção apostólica seriam talvez os Diálogos em que Platão preservou a figura de Sócrates, que sem ele talvez tivesse escorregado para um limbo onde provavelmente estão filósofos ainda mais lúcidos do que ele, mas que não dispuseram de um taquígrafo tão dedicado. 

Temos casos de não-ficção apostólica: a Vida do Dr. Johnson contada pelas anotações de James Boswell, e o Borges de Adolfo Bioy Casares, ambos baseados em décadas de anotações minuciosas, quase diárias, sobre todo tipo de conversa ou fofoca literária.

O ciclo de livros de Carlos Castañeda sobre o mago Don Juan tem esse aspecto apostólico, até pelo lado místico do personagem retratado. Essas histórias são ficção ou relato autêntico? Nunca se saberá, mas o aspecto apostólico (alguém entreviu um personagem complexo, e trouxe algo do que assimilou) está presente. 

Pode ser um narrador deslumbrado com um super-homem, como no Odd John de Stapledon. Pode ser um apóstolo perplexo como o Ismael de Moby Dick, para quem o herói, Ahab, é o maior mistério de todos. A ficção apostólica é sempre a de alguém que sobrou no fim para contar a história.