sexta-feira, 13 de julho de 2012

2922) Não dá pra ler tudo (13.7.2012)








O aumento exponencial de textos eletrônicos disponíveis e gratuitos causa uma euforia sem limites e um pessimismo sem volta. Centenas de milhares de livros, milhares de filmes, milhões de músicas!  Tudo ao alcance de um clique, de graça!  O único senão é o fato de que o dia continua tendo apenas 24 horas.  Nosso tempo de leitura é o mesmo de que dispunham os leitores do século 18, ou mesmo os leitores da Grécia Antiga (e mesmo eles certamente se queixavam de que “não dava pra ler tudo”).  Esse “não dá pra ler” é relativo, e não faz muita diferença. Digamos que eu conseguisse ler um livro por dia; seriam 30 livros por mês.  Se meu limite é esse, não faz muita diferença se estou deixando de ler 100 livros ou um milhão.  Leio trinta, e acabou-se.

A questão é: Que trinta?  Porque era mais fácil escolher trinta entre 100 do que trinta entre um milhão. Não teríamos desculpa para estar lendo algo a contragosto, porque teríamos acesso, se não a tudo, pelo menos a uma quantidade inesgotável de obras que de fato queremos ler.  Tem muitos leitores de bibliotecazinhas humildes do interior, mundo afora, que ficam relendo seus autores preferidos, ou avançando aos bocejos por entre obras que não lhes interessam, apenas porque não aparecem livros novos.

E como ter acesso a informações novas, a autores que ainda não conhecemos? Cory Doctorow (do saite BoingBoing) diz: “Twitter e blogs são a única maneira de administrar a enorme quantidade de material disponível. Sem isto, ninguém sairia de sua órbita de contatos sociais, ninguém trocaria idéias com os milhões de pessoas que conhecem outros milhões, os polinizadores que pegam uma informaçãozinha aqui e levam para acolá. Sem eles, a conversa morreria. Essas pessoas garantem que o que é realmente bom acabará chegando ao topo da pilha e ficando acessível”.

O dia continua tendo apenas 24 horas, mas por isso mesmo é preciso preenchê-las bem. O leitor não deve imaginar que os milhões de livros possíveis de ler já lhe pertencem, ou estão de alguma maneira a cobrar-lhe um posicionamento. O leitor deve se perguntar: Entre trabalho e outras atividades, hoje em terei meia hora para ler.  Ou duas horas, ou cinco, etc.  Vou preencher esse tempo com que?  Você não precisa ter um iPod com mil romances, basta ter um livro por perto, um livro que lhe interesse. (Tanto pode ser digital quanto de papel.) Se você pensar nos mil livros extraordinários que gostaria de ler, não vai sair do canto. Basta ter sempre coisas boas por perto, e todo dia pensar: vou ler o que?  O fato de haver 100 vezes mais títulos disponíveis não me obriga a ler 100 vezes mais, apenas me ajuda a escolher melhor.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

2921) Ciência vs. Fantasia (12.7.2012)



Nem sempre (ou melhor, quase nunca) é fácil traçar uma linha separando FC e fantasia, pelo modo peculiar como os elementos das duas sempre aparecem misturados. 

Arthur C. Clarke já afirmou que qualquer história onde se viaje mais rápido do que a luz é fantasia, e não FC, porque uma tal viagem é cientificamente impossível.

Há uma história de Ursula LeGuin (uma das primeiras que ela publicou) em que elementos dos dois gêneros estão misturados de um modo muito inteligente. 

“Semley’s Necklace” (1964) conta a história de um povo humanóide num planeta remoto, que tem uma civilização meio artesanal (suas armas são espadas, lanças, etc.), e que monta cavalos alados, uma espécie de “pégasos” naturais do planeta. Um mundo de fantasia heróica, por assim dizer. Semley é uma jovem que por uma série de motivos precisa reaver um precioso colar que foi subtraído do seu povo e levado para um museu em outro planeta. 

Ela viaja até a base dos colonizadores, e insiste tanto que eles a levam ao planeta onde a jóia foi guardada, prevenindo-a de que a viagem é longa mas vai durar apenas uma noite. Ela consegue a jóia de volta, mas quando retorna para sua aldeia descobre que não se passou um dia inteiro, mas nove anos. Seu marido morreu na guerra, e sua filha pequena é agora da mesma idade que ela.  

É um conto que contrapõe duas civilizações, uma “medieval” e a outra tecnológica, e mostra o choque cultural de uma pessoa ingênua ao se deparar com os efeitos relativísticos de um voo espacial.  Jamais passaria pela cabeça de Semley, em sua cultura, que uma viagem pudesse durar uma noite num lugar e nove anos em outro. A ciência vale inclusive para os que a desconhecem.

Um divertido filme de FC é Viagem Fantástica (1966) de Richard Fleischer.  Nele, um cientista tem um coágulo no cérebro que precisa ser operado; a única maneira de chegar lá é miniaturizando um submarino com uma equipe de médicos e injetando-o na corrente sanguínea do paciente, para que o veículo chegue até o cérebro e a operação possa ser feita.  

O filme impressiona até hoje pelos efeitos especiais, excelentes para a época, mas tem uma falha fundamental. Um submarino com sua tripulação, mesmo com seu tamanho diminuído para uma fração de milímetro, continuaria pesando as mesmas toneladas que pesa, porque sua massa continua sendo a mesma – apenas os espaços intra-atômicos foram reduzidos (mais ou menos como um livro sem espaços em branco mas com o texto completo gastaria a mesma tinta para ser impresso).  

O próprio Asimov, autor da novelização, teve que aceitar essa premissa obviamente anticientífica, e ela contamina de fantasia toda a narrativa subsequente.








quarta-feira, 11 de julho de 2012

2920) "Prometheus" (11.7.2012)








O novo filme de Ridley Scott parece iniciar uma fusão entre os dois clássicos que ele dirigiu na FC (Alien, o 8. passageiro, 1979, e Blade Runner, 1982).  Os filmes ocorrem em diferentes universos, oriundos de autores não relacionados um ao outro, mas que Scott parece querer botar esses universos embaixo da sua própria asa.  Em ambos os filmes existiam andróides (chamados “replicantes” em Blade Runner) e parece ser este o elo entre as duas linhas ficcionais.  Em Alien e Prometheus não vemos a Terra, a não ser em duas cenas curtas no início do segundo filme, cenas em lugares desertos, que nada nos mostram da realidade urbana desse futuro. Uma Terra capaz de gastar um trilhão de dólares mandando uma nave a um planeta distante, para que dois arqueólogos confirmem ou não sua tese sobre a origem de humanidade. Será a mesma Terra cuja Los Angeles em 2019 produzia  replicantes?

Se as histórias vão se mesclar através do enredo, contudo, é menos importante do que o fato de que se mesclam através da temática.  A expressão “encontrar o seu criador” (“to meet thy maker”), usada em Blade Runner, é retomada insistentemente neste filme, só que desta vez não são os replicantes que querem um tête-à-tête com o engenheiro que os criou (Tyrell, da Tyrell Corporation) e sim os humanos que descobrem (ou imaginam ter descobertos) indícios de que a humanidade foi criada por uma raça de Engenheiros que veio de outra parte da Galáxia.

Blade Runner já questionava a frieza com que os humanos tratavam os replicantes, frieza e insensibilidade dignas de qualquer andróide.  O David de Prometheus é um andróide que trata os humanos com a polidez impecável e desdenhosa de um mordomo inglês administrando uma família nobre mas disfuncional; mas a executiva de carne e osso interpretada por Charlize Theron não é mentalmente menos andróide do que ele.  Ela e David confirmam a frase de Philip K. Dick de que alguém que não se preocupa com o sofrimento de uma criatura viva é uma máquina, mesmo que seja uma criatura viva.

Prometheus deve elementos aos filmes já citados mas também a 2001 de Kubrick (sinais achados na Terra remetem expedição a um planeta distante) e a Missão: Marte de Brian de Palma (montanha oca, estatuária colossal, tempestade de areia, nave soterrada, fecundação dos oceanos terrestres com DNA alienígena). É o próprio DNA do gênero que Ridley Scott está mais uma vez dissecando e recombinando, e em termos de perfeição técnica e ousadia visual ele está mais próximo de Kubrick do que de De Palma.  Esta primeira metade da sua nova narrativa justifica a expectativa pela segunda.

terça-feira, 10 de julho de 2012

2919) Anderson x Sonnen (10.7.2012)








Sábado passado, a luta UFC 148, em que o brasileiro Anderson Silva derrotou o norte-americano Chael Sonnen no 2o. assalto, deu a bilheteria mais alta na história desse esporte: 7 milhões de dólares de ingressos, sem contar os lucros de patrocínio e de transmissões na TV aberta e em pay-per-view. A publicidade foi incrementada pelas entrevistas e declarações de Sonnen, que, derrotado na primeira luta, soltou o verbo contra o brasileiro (e contra o Brasil).  Nos dias antes da luta, falava-se: “Não vai ser uma luta, vai ser um massacre”, ou então “Não vai ser uma luta esportiva, vai ser uma briga entre dois caras que estão cheios de ódio um pelo outro”. 

Nem tanto.  Sonnen atacou mais no primeiro assalto e Anderson se defendeu com perfeição. No segundo foi a vez do brasileiro ir para cima e nocautear o outro.  Fez mais ou menos como seu time, o Corinthians, fez nos dois tempos contra o Boca Juniors semana passada.  No final, Anderson (que cultiva a imagem “bom rapaz”) puxou para perto de si um Sonnen contrafeito (ele cultiva a imagem “bad boy”), falando ao microfone que aquilo era apenas um esporte, que nada tinham um contra o outro, etc.

Temos milhões de anos de luta gravados em nosso DNA, e poucos séculos de esporte. O esporte é luta sublimada, esvaziada de raiva real, transformada num ritual simbólico onde se confrontam as respectivas habilidades (futebol, tênis, natação, basquete, tudo).  As lutas tipo box e luta-livre, no entanto, são esportes ainda perigosamente próximos da selvageria primitiva. Deslizam com facilidade para o terreno da raiva, do impulso matador, predador. 

E o público oscila entre as duas experiências. Uns (eu, por exemplo) querem o jogo, a luta violenta mas sem raiva, em que depois do fim os lutadores se abraçam, o perdedor parabeniza o vencedor, que por sua vez o elogia, e depois vão comer churrasco juntos. Mas existe uma parte do público a quem esse fingimento incomoda.  Eles querem briga de verdade.  Não querem essa “hipocrisia” de dois caras quebrando a cara do outro e depois dizendo-se amigos.  Querem ter certeza de que está acontecendo alguma coisa de verdade, de que aquela luta exprime um conflito real entre minha raça e a sua, meu país e o seu.

É como nos velhos tempos da Cantoria de Viola, quando o cantador-de-fora tentava humilhar o cantador-local dentro do seu reduto, e o outro tentava defender a honra de seu vilarejo. Quando Sonnen insultou o Brasil em suas entrevistas, estava tentando recuperar esse espírito de briga-de-verdade. Algumas pessoas (basta lembrar Mike Tyson) só brigam bem quando estão sentindo raiva.  Sonnen, pelo que foi visto, nem assim. 

segunda-feira, 9 de julho de 2012

2918) "Memorial de Aires" (9.7.2012)








É o que chamam de “o romance crepuscular de Machado”.  A viuvez do protagonista deste romance é a mesma do escritor, a viuvez sem filhos, que aliás é um dos temas centrais do livro, tanto quanto o amor entre dois jovens que (a julgar pelo narrador) parecem ter sido feitos um para o outro.  Reli agora esse livro, se é que o li todo aos vinte e poucos anos.  Dele só me lembrava que nele não acontece nada.  Aqueles chás contemplativos de fim de tarde entre uma porção de gente com cabelos brancos e roupas pretas européias.  O mundo descrito por um introspectivo. E os personagens realistas de Machado mantêm pelo menos um elo em comum com os personagens de folhetim: parecem amarrados a um destino de ferro.  Os personagens do melodrama eram pessoas desesperadas que veem a vida ser destruída por forças que elas não conseguem sequer imaginar; os personagens realistas veem sua vida destruídas por eles mesmos.  Profetizam, contemplam, descrevem, choram, celebram, rememoram a própria destruição.  Mas não a evitam.  Estava escrito.

A expressão “estava escrito” sugere a imagem de algo gravado com cinzel no mármore ou escrito a laser no metal.  Comparada à palavra falada, a palavra escrita parece ter um peso de infalibilidade.  O Memorial, que é um diário mantido pelo Conselheiro Aires entre 1888 e 1889, é o contrário da palavra impressa.  Mal nos dá conta do que acontece no país, quanto mais no mundo.  O Conselheiro, diplomata aposentado, sexagenário, sujeito caladão e observador, vem a conhecer uma jovem viúva, e fica meio balançado para o lado dela.  Aproxima-se dela, que é meio filha adotiva de um casal idoso e sem filhos, os Aguiar.  O Conselheiro escreve comentando que sabe que após sua morte alguém vai ler aquelas páginas. Conta-nos a história de como um outro meio filho adotivo dos Aguiar, o jovem Tristão, voltou de Portugal (onde morava há muitos anos).  Tristão e Fidélia (a jovem viúva) são o casal de filhos quie os Aguiar nunca tiveram. O Conselheiro frequenta os saraus, conversa, ouve os jovens tocando piano, e de volta a casa lamenta não ser músico. Seu espetáculo é aquele casal que parece se aproximar por uma fatalidade simétrica do destino humano.

Há algum reflexo biográfico em três casais: os Aguiar, os jovens Tristão e Fidélia, e o narrador e sua irmã Maria Rita.  Machado tinha enviuvado há poucos anos, e não acho que teve irmã.  Maria Rita é meio fofoqueira, é um pouco a irmã do Dr. Shepard, o narrador não confiável de O assassinato de Roger Ackroyd (1926) de Agatha Christie.  Brás Cubas, Dom Casmurro, Aires: todos três parecem corresponder a um arquétipo oracular que um escritor produz para si próprio, o da velhice a sós.

domingo, 8 de julho de 2012

2917) O poeta Ronaldo (8.7.2012)








Ronaldo Cunha Lima foi de uma geração de poetas boêmios, uns com um pé na advocacia, outros com um pé no jornalismo, todos com um olho na política.  Uma geração que incluiu Palmeira Guimarães, Raimundo Asfora, Orlando Tejo...  Eu os conheci primeiro pelas histórias contadas por meu pai, poeta boêmio de uma geração mais velha, que via essa rapaziada com admiração e bom humor.  O poeta boêmio é aquele que não escreve pensando na Literatura Brasileira, escreve para si mesmo e para as pessoas que o cercam.  A poesia é reflexo da vida, parte da vida, não tem sentido se lida em separado. 

Esses poetas faziam sonetos impecáveis em cinco minutos, pegando como deixa uma frase que alguém soltou na mesa do restaurante. Neste sentido, se assemelham ao cantador repentista.  Essa geração que nomeei acima conviveu muito com os repentistas, porque a escada que dava acesso à Rádio Borborema ficava entre o Café São Braz e a Sorveteria Flórida, numa cidade que não existe mais, ou que a cada dia existe menos.

Depois de adulto, eu próprio passei a conviver com Ronaldo, que, longe da política (era um ex-prefeito cassado) vivia no Rio de Janeiro, advogando, e doido por um pretexto para vir passar uns dias em Campina Grande.  Esse pretexto, da minha parte, foi o Congresso de Violeiros, em cuja organização eu trabalhava, e onde Ronaldo várias vezes fez parte do júri ou da comissão de seleção de assuntos, a convite nosso.  Fornecia motes românticos, apaixonados, falando de amor e saudade, e que quando caíam no sorteio para uma dupla bem inspirada induziam glosas de grande popularidade junto à platéia feminina.

A política chamou o boêmio de volta. A política é um destino grego ao qual não se desobedece. O que mais marcou as campanhas de Ronaldo, e que vive até hoje na memória dos que as assistiram, foram seus discursos em redondilha, naqueles versos simples de rimas exatas que o povo reconhece tão prontamente, porque faz parte de nossa memória cultural. Improvisador fluente, familiarizado com os truques dos repentistas, Ronaldo era capaz de versificar a propósito de tudo que estivesse ao alcance do olho: o garçon que demorava, a gravata torta de Fulano, o uísque com gelo demais, a TV ligada, o casal na mesa vizinha.

Augusto dos Anjos foi o poeta que marcou sua carreira.  Bastava abrir o livro ao acaso e ler uma linha qualquer: Ronaldo dizia de imediato as linhas seguintes.  Isto lhe valeu a fama num programa de TV e provavelmente o fez ganhar um sem-número de apostas.  A aposta maior, claro, era fazer da poesia o bálsamo em cada purgatório, o salva-vidas em todo naufrágio, o brinde em cada triunfo, e o espelho na manhã seguinte.

sábado, 7 de julho de 2012

2916) Marte Um (7.7.2012)








Um grupo de holandeses malucos está tentando criar um projeto espacial mais ousado do que o das sondas marcianas e da estação espacial.  A idéia é mandar para Marte uma expedição tripulada, que lá deverá construir uma base, onde todos eles habitarão até o fim de suas vidas, sabendo que sua volta à Terra não está prevista. Tudo que lhes acontecer no outro planeta será visto como um reality show por países da Terra inteira. Pensa-se de início num custo de 6 bilhões de dólares, que, comparados às cifras das primeiras páginas dos jornais de hoje, são até uma soma modestíssima.

O dono do projeto é Bas Lansdorp, de 35 anos, dono de uma companhia de energia eólia. Ele ainda está em busca de patrocinadores para o projeto, que se chama “Mars One”. A idéia é treinar os astronautas durante dez anos, e mandá-los para Marte em 2023. Será arriscado?  Será desumano? Será lucrativo? Só se sabe fazendo, assim como (admite Lansdorp) o treinamento não pode se comparar, ainda mais no aspecto psicológico, ao indivíduo vivendo uma situação “agora é pra valer”. 

Luís Buñuel pensou numa possibilidade parecida. Comentando o misterioso enclausuramento dos comensais em O Anjo Exterminador, ele disse que o filme dele não pode se comparar nem ao famoso quadro de Géricault A Jangada da Medusa (náufragos amontoados numa balsa) nem a “um filme de ficção científica sobre quinze astronautas numa espaçonave perdida pelo espaço”.  Porque o que distingue essas histórias é que os personagens estão fisicamente impedidos de escapar, mas no filme de Buñuel nada os impede, além das coisas que pensam; sua barreira é mental.  Em Marte, será física.

Talvez o projeto de Lansdorp tenha um aspecto buñuelesco. O mundo (este mundo) está preso numa sala de visitas, num coquetel ou jantar-de-gala interminável, enquanto a cozinha pega fogo, os quartos se deterioram, e o mato bravo toma conta do jardim. Como na festa dos burgueses em L’Âge d’Or, em que uma carroça de camponeses bêbados cruza o salão de baile, sem que ninguém dê o braço a torcer percebendo-a, continuamos em plena Ilha Fiscal. Só falta mesmo é criar um reality show interplanetário, uma mistura do Show de Truman com Robinson Crusoe em Marte.

Nada impede, também, que o reality vire, sei lá, uma série policial. Digamos que um dos “marcianos” enlouqueça e, mostrado pelas câmaras para toda a Terra, mas não para a Base, a história se tornará um mistério policial, tipo “dez negrinhos” morrendo em contagem regressiva. Uma espécie de thriller de suspense onde um bilhão de espectadores, impotentes para interferir, verão o criminoso executando os colegas um por um, sem que ninguém possa avisá-los.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

2915) O livro pós-eletrônico (6.7.2012)






O elevador era silencioso, macio, quase sem inércia. Estirei o corpo na chaise-longue até chegar ao 235o. andar do edifício-sede da Star Tech, onde Benedict Willhauser, vice-diretor de divulgação, me recebeu em tapetes de vison sintético. Tínhamos estudado juntos em Yale e ele me concedeu o privilégio de uma entrevista pessoal.

“O livro mudou de natureza sem perder seu fascínio”, falou, quando nos sentamos em poltronas invisíveis, campos de força eletromagnéticos que resistem e se amoldam ao peso do corpo humano. “Poucas pessoas de fora da empresa manusearam este protótipo. Queremos sua opinião. Se quiser bancar o advogado do diabo, fique à vontade. Nós aqui estamos tão entusiasmados com o produto que algum defeito dele talvez nos escape. Seu feedback é essencial”.

Sentamos diante de um cubo de metal, num canto da enorme sala. Ele digitou comandos.

O livro era uma pequena nuvem acinzentada de coruscantes grãos em preto-e-branco, vagamente esférica, flutuando a meio metro de altura. Enfiei nas mãos as luvas (que tinham formatos e consistências diferentes), e mergulhei as mãos ali dentro. Foi um choque elétrico de um milhão de volts no cérebro, mas sem dor, sem incômodo, apenas um surto quase insuportável de luz, de lucidez. E me veio a lembrança nítida, vívida, de tudo que havia ali dentro. Digo lembrança pela sensação de familiaridade com cada frase, cada ilustração, cada abertura de capítulo ou nota no índice remissivo; como um livro lido e relido ao longo da vida inteira, debulhado com gosto e conhecido quase de cor, que folheamos depois de algum tempo enquanto sentimos nosso espírito se deleitar com aquele reencontro. Um livro com um milhão de páginas que eu enxergava simultaneamente e era capaz de comparar uma a uma, ou de cem em cem. E vi (sim, vi!) cada espiral de DNA do meu corpo se retorcendo e recompondo, recebendo uma quinta letra.

Fiquei mergulhado ali, lendo, lembrando, passeando pelo passado e pelo futuro... Quando retirei as mãos da nuvem, Willhauser estava de pé junto à janela, onde o sol estava terminando de se por. “Não deveriam ter criado isto”, falei. “Sim”, disse ele, “isto destruirá todos os tablets, iPads, todo o conceito do livro-pixel, da leitura visual, do texto pousado sobre uma superfície. Texto e mente agora serão uma coisa só”. Esfreguei os olhos; minha mente ainda ardia numa adrenalina selvagem de frases e imagens 3D. “É o fim do livro eletrônico?”, perguntei. “Ou o começo do livro biológico”, disse ele, voltando-se para mim e tirando os óculos escuros. Por entre as pálpebras, seus olhos eram duas réplicas da nuvem, e entendi naquele instante que de agora em diante os meus também.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

2914) Biografia romanceada (5.7.2012)





A biografia romanceada é um gênero literário de alto risco. Como toda tentativa de juntar duas coisas diferentes, na esperança de agradar a dois públicos, corre o risco de desagradar a ambos. O leitor de romances preferiria, às vezes, que a história seguisse um caminho que lhe parece dramaturgicamente mais promissor, mas a história não pode fazer isto, porque o autor precisa se ater aos fatos. (Ainda escreverei uma biografia de Bob Dylan em que ele morre naquele acidente de moto em 1966, e uma de Augusto dos Anjos em que ele vive e escreve até os 80 anos.)  Já o leitor que tem um apego técnico às leis e regras da atividade biográfica sente-se incomodado o tempo inteiro por certas liberdades imaginativas do biógrafo.  Inventar cenas, diálogos e pensamentos e atribuí-las a uma vida que de fato aconteceu parece uma coisa meio desonesta. É como retocar uma foto no Photoshop incluindo objetos que não estavam lá.

Isto me volta à mente com o lançamento recente de Edgar Allan Poe, o Mago do Terror de Jeanette Rozsas (Melhoramentos). É um livro agradável, muito ilustrado, com cronologia e bibliografia, e, até onde pude ver (não li o livro todo), dramatiza de maneira não-invasiva os fatos conhecidos da vida de Poe, um dos escritores mais biografados e mais estudados do mundo (até eu já fiz um livro sobre ele). Poe se relacionou e se correspondeu com centenas de pessoas que deixaram testemunhos escritos sobre sua convivência. É possível reconstituir encontros que teve com A ou B, diálogos, reuniões, conferências que proferiu, fatos da sua vida pessoal, etc.  O biógrafo-romancista tem em mãos duas ou três versões incompletas de uma briga de Poe com Fulano, por exemplo; cabe a ele escrever a cena como se a tivesse presenciado, tentando manter-se fiel aos documentos que são de conhecimento público, e usando sua “licença para mentir”, mas mentir no bom sentido – preencher com material “neutro” os trechos que ninguém sabe como aconteceram.

Ruy Castro, um biógrafo experiente, já disse: “Quando eu falo que no dia tal Fulano chegou à casa de Sicrano vestindo uma camisa azul, é porque perguntei a Sicrano qual era a cor da camisa. Não invento nada”. Ruy Castro não chama (pelo que eu saiba) seus livros de biografias romanceadas, mas de biografias mesmo, afirmando que cada detalhe ali está documentado. É a vantagem de quem escreve sobre pessoas e fatos relativamente recentes (Garrincha, a Bossa Nova, Carmen Miranda, etc.). Mais difícil é escrever sobre quem viveu há mais de 150 anos, pois não é mais possível entrevistar testemunhas. Temos o que ficou registrado no papel, mas não podemos fazer perguntas específicas. 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

2913) Ser célebre (4.7.2012)






Um número imenso de páginas (cartas, diários, relatos de viagens, etc.), escritas nos séculos 18 e 19 antes da invenção da fotografia, é dedicado a encontros que o autor teve com personalidades ilustres do seu tempo: estadistas, artistas, aristocratas, etc.  Daria uma antologia que poderia furtar o título do livro de Peter Brook, Encontros com Homens Notáveis.  Stendhal conta um episódio divertido de sua estadia em Terracina (Itália) em 1817, quando, conversando com um grupo de italianos, entabulou um diálogo sobre música com um homem jovem, de cabelos claros, bem apessoado; Stendhal teceu os maiores elogios às óperas de Rossini, dizendo ser o único compositor de gênio daquela época, e pelas risadas dos outros acabou descobrindo que o jovem sentado à sua frente era o próprio Rossini.

Era uma época em que o nome de um indivíduo podia ser famoso e respeitado em toda a Europa sem que se tivesse uma idéia muito clara de como era seu rosto. A fotografia não tinha sido inventada. Nobres e reis eram conhecidos através de pinturas, desenhos e gravuras, que, como se sabe, nem sempre são unânimes em sua reconstrução de fisionomias, além de correrem o risco de ficarem rapidamente defasadas porque o indivíduo envelheceu, engordou, etc. Quantas pessoas, na Paris de Maria Antonieta, tinham visto de perto o rosto de Maria Antonieta?  Há um interessante filme sobre Napoleão (A Roupa Nova do Imperador, de Alan Taylor, 2001) em que ele foge do exílio, retorna a Paris para reconquistar o trono, mas a conspiração que o ajudou é desmontada. Ele se vê sozinho, anônimo e sem dinheiro numa cidade onde ninguém o reconhece, e não adianta dizer que é Napoleão porque há centenas de malucos dizendo o mesmo.

No conto “A Liga dos Cabeças Vermelhas” (1891), Sherlock Holmes a certa altura encontra-se frente a frente com John Clay, um bandido que ele classifica como “o quarto homem mais esperto de Londres”. Críticos perguntaram: esse homem tão esperto não saberia que aparência tinha Sherlock Holmes? Talvez sim, talvez não, mas essa é uma questão que hoje, 120 anos depois, em plena ditadura da imagem, se coloca de outra forma. No tempo de Jesus Cristo, se alguém chegasse numa cidade da Judéia dizendo ser o próprio ia ter que fazer um ou dois milagres para convencer os relutantes. Duvido que durante a vida de Jesus (mesmo durante os seus três anos de militância intensa, até a crucificação) tenham circulado desenhos ou pinturas com a representação do seu rosto. O que se tinha eram descrições e comparações verbais, imprecisas como sempre, e não era uma tarefa fácil a qualquer sujeito convencer os outros de sua própria identidade.