terça-feira, 16 de março de 2010

1797) Para que serve o Cinema (12.12.2008)




Para que um garoto de dezenove anos pegue o trem para a cidade grande e não desça nem para comprar leite. 

Para que um figurante sertanejo carregue na cabeça uma pedra que não é de papelão.

Para flutuar no céu com uma corda presa ao pé.

Para assistir a sessão das 15:30, ir em casa jantar, e depois assistir a das 19 e a das 21.

Para gostar tanto de trailers que o começo do filme seja visto como um anticlímax.

Para ser barrado num “filme 18 anos” e ficar duas horas na praça esperando que os amigos saiam e digam como foi.

Para a gente ver o quanto a beleza das mulheres independe da época e das roupas.

Para a gente se flagrar torcendo pelo bandido.

Para que duas pessoas passem uma noite inteira tentando lembrar o nome de um filme cujas cenas não esqueceram.

Para que as guerras pareçam um confortável conflito entre heróis indestrutíveis e nítidos vilões.

Para colecionar fotos de diretores e de atrizes, cartazes, canhotos de ingressos, figurinhas, fichas técnicas. 

Para podermos espionar a vida íntima de gigantes por um buraco retangular de fechadura.

Para assobiar pro urubu da Condor.

Para a gente saber que existe uma outra realidade, um mundo mais perfeito, um universo criado por uma inteligência superior, mas que não é este.

Para saber de cor as fotos expostas na sala de espera e ficar contando à medida que surgem durante o filme.

Para que a palavra se faça carne diante dos nossos olhos.

Para alguém ver uma cena como se fosse a câmara, como se fosse o personagem, como se fosse o homem que a escreveu e dirigiu, como se fosse o menino que a viu pela primeira vez.

Para arremessar um osso para o espaço sideral.

Para viajar na máquina do tempo, na máquina do espaço, na máquina da matéria, na máquina do espírito.

Para esperarmos quarenta anos pela chance de ver um filme que todo mundo diz que não presta.

Para sentarmos lá na frente e vermos tudo antes de todos.

Para aprendermos como erguer uma taça, como desmontar e montar um fuzil, como cavar um túnel, como estaquear um vampiro, como roubar um milhão de dólares, como enlaçar uma cintura.

Para pregar um lençol esticado na parede.

Para andar de bicicleta sob a chuva, em volta de uma moça bonita.

Para entregar uma flor ao porteiro e entrar sem pagar ingresso.

Para continuar sentado após o fim do filme e ver de novo o Canal 100 na próxima sessão.

Para ser o único a perceber um erro de continuidade.

Para ver dinossauros dançando a sagração da primavera.

Para que uma Paillard-Bolex e um Nagra imortalizem uma velhinha que não sabe ler.

Para que a nossa mente seja uma cebola que cresce 24 camadas por segundo.

Para aprender a ver um filme búlgaro com legendas em holandês.

Para ver um menino sertanejo imitando o andar do pai.

Para encontrar o homem de areia, a mulher de palha, o coração de vidro, a cruz de ferro, a lua de papel, o mar de rosas, o gosto de mel.

Para que a tela seja janela – seja pintura – seja bola de cristal – e seja espelho.










1796) FC ou Fantasia (11.12.2008)



(A Sombra do Torturador, de Gene Wolfe)

A diferença entre ficção científica e fantasia, dois gêneros tão próximos, não é tão evidente quanto imaginamos à primeira vista. Nosso primeiro impulso é defini-los a partir do “mobiliário”, por assim dizer. A Ficção Científica é mobiliada com espaçonaves, robôs, alienígenas, máquinas futuristas. A Fantasia é mobiliada com dragões, encantamentos, feiticeiros, castelos, elfos, unicórnios e assim por diante. Dito assim, parece muito simples, mas um dos principais impulsos que movem a imaginação dos escritores é justamente “desobedecer” a esses cardápios, misturar uma coisa com a outra. Um dragão pode ser uma criatura extraterrestre, como em algumas obras de Anne MacCaffrey; uma torre “medieval” pode se revelar, como num livro de Gene Wolfe, um foguete espacial, estacionado verticalmente há tantos séculos que ninguém se lembra mais de sua função antiga.

Podemos também esquecer o mobiliário, os elementos visíveis, e pensarmos na mecânica interna de cada gênero. Existe uma ficção baseada na lógica, no rigor, nas relações de causa e efeito, no encadeamento racional dos fatos, não importa o quanto eles sejam fantásticos; e existe ficção movida por associações de idéias, justaposição de imagens, criação de situações que são logicamente improváveis ou são construídas sem obedecer a uma lógica interna, mesmo que sua aparência exterior recorra à ciência e à técnica.

No primeiro destes casos, temos narrativas que de imediato identificamos como Fantasia, mas é uma fantasia rigorosa, lógica, tratada como se fosse Ciência. Não há arbitrariedade, mas regras que, mesmo fantásticas, são seguidas à risca pelo autor e pelos personagens. Isto ocorre muitas vezes com histórias que lançam mão da Magia, mas uma Magia que tem regras, onde as coisas funcionam sempre da mesma maneira, e onde tudo está vinculado a causas e efeitos. Não importa se o ambiente consiste em castelos, se as armas são espadas, se os inimigos são feiticeiros ou dragões: esta é uma literatura inspirada pela Ciência e pelo rigor de idéias que a Ciência impõe. Isto acontece com certas obras de Ursula LeGuin, como a “Trilogia de Terramar”.

Por outro lado, há histórias de FC que usam espaçonaves, viagens interplanetárias, raios atômicos, etc., mas que se baseiam em fatos extremamente improváveis do ponto de vista científico (viagens no tempo, p. ex., ou então viagens instantâneas através do espaço), e cuja lógica narrativa nada tem de científica. Entram aqui os filmes do tipo Guerra nas Estrelas, que são crivados de inverossimilhanças científicas, e mesmo obras-primas literárias como As Crônicas Marcianas de Ray Bradbury, onde vemos um planeta Marte coberto de florestas, com atmosfera respirável e canais cheios de água onde flutuam barcos. O mobiliário pode ser importante para definir um gênero, mas sua mecânica profunda e a visão do mundo que ela implica podem fazer com que uma obra vá na direção da Ciência ou na direção da Fantasia.

1795) A nota de mil dólares (10.12.2008)




Terremotos financeiros têm abalado nos últimos meses as Bolsas de Valores do mundo inteiro, e derrubado bancos norte-americanos como se castelos de cartas fôssem. É, segundo dizem, a maior crise internacional do capitalismo desde a quebra da Bolsa de Wall Street em 1929. Isto me lembra. um contozinho obscuro de 1935, “The Thousand Dollar Bill”, de Manuel Komroff, um conto típico desse tempo da Grande Depressão. Já vi o conto em mais de uma antologia, e para mim ele exprime bem o espírito do capitalismo, principalmente do capitalismo norte-americano, no que ele tem de bom e de ruim.

É a história de Henry Armstrong, um rapaz de Fairview, típica cidadezinha do interior. Um belo dia, andando pela rua, ele acha no chão uma nota de mil dólares. Mal pode acreditar no que vê, mas como é um rapaz consciencioso dirige-se ao jornal local e pede para botar um anúncio alertando o dono da nota (parece Machado de Assis, com seus personagens que não param de achar dinheiro na rua). Henry trabalha numa seguradora local, e ao conversar com o redator do jornal diz logo que pretende casar com sua noiva Dolly e cair fora de Fairview, que é uma cidade estagnada e sem futuro.

Quando a matéria sai no jornal, a cidade entra em polvorosa. De uma hora para outra, Henry, que era um rapaz tímido, enche-se de confiança pela posse da nota, e praticamente “toca fogo” na cidade, despertando uma polêmica sobre trabalho, emprego, futuro, oportunidades, etc. O Conselho Municipal envia um protesto contra Henry. O patrão dele manda chamá-lo para repreendê-lo, mas Henry se demite no ato. Enquanto isto, o editor do jornal simpatiza com ele e contrata um seguro para o jornal (coisa que a companhia tinha tentado negociar há anos). A população, vendo o debate, se divide, uns apoiando Henry, outros discordando dele.

Em uma semana, tudo muda em Fairview. O patrão de Henry não aceita seu pedido de demissão e dá-lhe uma promoção com ordenado maior e comissões. O Conselho Municipal reconhece a importância de suas críticas e o nomeia como membro. E uma tarde, quando ele e a noiva estão conversando, examinam melhor a nota de mil dólares e percebem que ela é falsa.

A nota era falsa, mas o acesso de auto-estima que ela despertou era verdadeiro. Graças à auto-confiança de quem julga ter mil dólares no bolso, Henry não apenas deu uma sacudida em sua própria vida, mas na de toda a cidade, que despertou de sua letargia. Assim é o capitalismo financeiro. É dinheiro de mentira, e a maioria dos que o cultivam sabe disso. O sujeito clica num link e vê um saldo que é mentiroso, mas, enquanto isso gerar mais atividade econômica, é tão bom acreditar! O problema é quando a quantidade de dinheiro falso gerada por este processo supera em muito a quantidade de riquezas reais que lhe dão lastro. As notas de mil dólares da prosperidade neo-liberal estão pipocando e sumindo aos milhões a cada segundo que passa, e desta vez deixarão mais prejuízo do que lucro.

1794) Paraíso Decorado (9.12.2008)



(John Basinger)

O único poema épico clássico que já li do começo ao fim foi Os Lusíadas. Estou em dívida com Homero, Dante, Virgílio e muitos outros, entre eles o grande John Milton, autor do Paraíso Perdido (“Paradise Lost”), um clássico da literatura inglesa que para mim irá melancolicamente justificar seu título, pois nunca o lerei. Minhas prioridades são outras, não sei se há traduções confiáveis, e não me atrevo a enfrentá-lo no original. O poema se divide em doze partes, ou doze “Livros”. Não consegui saber sua extensão total, mas a Wikipedia afirma que o Livro mais longo é o IX, com 1.189 linhas, e o mais curto é o VII, com 640.

Pois há um herói chamado John Basinger que está anunciando uma performance do texto completo do poema de Milton. Não uma simples leitura, mas um recital de cor. Ele memorizou o texto integral do poema, e pretende recitá-lo numa única sessão neste mês de dezembro, que marca o 400o. aniversário do nascimento de Milton. (Mais informações, inclusive clips dos ensaios de Basinger, podem ser obtidas em: www.paradiselostperformances.com).

O recital de um poema longo é sempre uma façanha. Aqui no Rio de Janeiro, há cerca de vinte anos, o poeta Tite de Lemos costumava fazer recitais da “Tabacaria” de Fernando Pessoa. Segundo os que os assistiram, eram uma experiência notável, pela intensidade da interpretação. Mas a “Tabacaria” é – comparado ao “Paradise Lost” – um poema relativamente curto. Como ter na mente milhares de versos, e, pior ainda, como ser capaz de dar a cada um deles o peso, a força, a emoção, as nuances que um recital de um texto clássico exige?

Milton compôs seu poema depois dos cinquenta anos, quando já estava completamente cego. Concebia os versos mentalmente e depois os ditava a um escriba, método que outros poetas cegos (como Jorge Luís Borges e Glauco Mattoso) também utilizaram, por ser o mais prático. Mas mesmo Milton certamente não sabia o poema de cor. Memorizá-lo é uma façanha e uma prova de amor à literatura, ou pelo menos àquela obra literária específica. Ao que se diz (em: http://www.hartfordadvocate.com/article.cfm?aid=10298) Basinger vem decorando o poema há quinze anos, e nos últimos tempos tem repassado um “Livro” de cada vez, todos os domingos, diante de uma platéia, preparando-se para o recital da obra inteira, que ele espera começar às 9 da manhã e terminar às três da madrugada seguinte.

Aos 74 anos, Basinger insiste em que existe uma grande diferença entre ler um poema e recitá-lo de memória, e eu concordo. Pegar um livro e ler significa que você tem admiração por aquele texto. Mas sabê-lo de cor, dedicar a ele semanas, meses e anos de vida, até martelá-lo para dentro da memória, linha por linha, estrofe por estrofe, é uma prova de amor e de devoção que se encontra muitas vezes no teatro, mas nem sempre na literatura. Eu aguentaria assistir as 18 horas de um recital assim? Não sei. Será que eu não amo tanto assim a literatura?

1793) “Foi nada!” “Foi não.” (7.12.2008)





(Machado, por Toni d'Agostinho)

Uma piada meio boba que ouvi na adolescência falava de dois amigos que se reencontram depois de vinte anos de ausência. Trocam abraços, felizes da vida. Um deles diz: “Mas você está com ótimo aspecto! Saudável, bem disposto... O que aconteceu? Dieta, exercícios, o quê?!” O outro responde: “Nada disso. Apenas deixei de discutir por qualquer bobagem”. O primeiro diz, incrédulo: “Foi nada!” E ele: “Foi não”.

Esta é uma das minhas piadas formadoras, pequeno fragmento oral a que sempre recorri para consolidar um aspecto do meu caráter. Toda vez que alguém diz: “Ora, duvido que seja assim”, eu respondo: “Tudo bem, então não foi”. 

Ora, quem diria, séculos depois reencontro minha piada, intacta e diferentíssima, nos parágrafos iniciais de “O Espelho” de Machado de Assis, que aqui reproduzo, para deleite dos “connoisseurs” e edificação dos pósteros:

“Havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e cinquenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante e respondeu: -- Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.”

Grande Machado! Eis aqui um parágrafo com o peso de várias Bíblias. Há toda uma Ética, muito de uma Estética e pinceladas de uma Cosmogonia neste pequenino trecho. Nunca li uma biografia do autor de Dom Casmurro, mas a imagem que tenho dele bate em muitos aspectos com a do seu meditativo Jacobina. 

Sabemos que muita gente meteu-se a polemizar com Machado, sem sucesso algum. O principal talvez tenha sido o grande Sílvio Romero, que através da imprensa alfinetava, provocava, cutucava, soltava cascavéis e calangos no caminho do nobre romancista. Este desviava-se dos répteis e seguia em frente, sem dar-lhe o braço a torcer.

A recusa de um intelectual de peso à discussão com um polemista profissional equivale, no mundo das idéias, ao que no mundo dos amores figura como a resistência de uma mulher belíssima à corte de um sedutor. O sedutor, habituado a ver vítimas tombando aos seus encantos, manda-lhe dezenas de iscas, e a beldade não morde nenhuma delas. 

Sílvio Romero puxava Machado pela mão: “Vem, vamos ali naquele recanto escuro”, e Machado dizia: “Não, fiquemos aqui, à vista de todos”. A analogia é fraca, porque a polêmica só tem brilho justamente sob luzes e atenções; mas o leitor há de captar o sentido.







domingo, 14 de março de 2010

1792) O Escoteiro e a Meretriz (6.12.2008)





Suponhamos que ela seja Doralúcia, vinte e dois anos, e mora na Zona Norte. São onze horas da noite e ela acabou de sair de um hotelzinho barato na Praça Tiradentes, onde fez um programa com um senhor de seus 70 anos. Subiram para o quarto do hotel, ela recebeu seus quarenta reais, atendeu o pedido do cliente e deixou-o aparentemente adormecido. Tomou um banho rápido, vestiu-se e saiu. Precisa pegar o ônibus na Praça XV e não gosta de andar àquela hora pelas ruas desertas do Centro.

Quando vai atravessar a avenida, Doralúcia vê um rapaz de seus quinze anos vestindo uniforme de camisa e bermuda cáqui, chapéu marrom de formato esquisito, e um lenço vermelho no pescoço. Uma coisa meio fora de moda no século 21, mas ela já encontrou alguns antes, e sabe que é um escoteiro.

O que o rapaz não sabe é que Doralúcia tem um fraco por escoteiros. Ela mesma nunca procurou analisar esse fato. O máximo que faz é comentar com alguma amiga: “Ai, quando eu vejo aqueles meninos... eu passo mal!” E se abana, às gargalhadas. 

Falta-lhe teoria para explicar que o escoteiro é um entrecruzamento icônico de elementos que lhe despertam a libido: o Adolescente, com seu mito de priapismo perpétuo e inexaurível; o Caubói, ícone da masculinidade, da dominação, de uma certa rudeza animal que a deixa de pernas bambas; e o Bom Rapaz, sempre gentil e atencioso (ninguém é gentil e atencioso com as doralúcias), tímido, meio ousado e meio inconcluso, sempre pronto a uma boa ação, a “fazer uma caridade”.

Ele se chama Valberto e ainda é virgem. Os amigos não sabem, os pais não sabem, só quem sabe somos ele e (agora) eu. Ninguém desconfia, porque ninguém se interessa por ele, que é filho único. O pai é aposentado da Rede Ferroviária e só pensa em futebol pela TV, assiste até o videotape de Ituano x Bragantino. A mãe cuida da casa e suspira. Empurraram Valberto para o escotismo para poderem imaginar que ele já era adulto e os tinha deixado em paz.

Valberto pára junto à faixa de pedestres. Ônibus passam, fluorescentes, sacolejantes. Ele olha para a direita e vê Doralúcia. Não é tão menino que não a rotule de imediato: “Garota de programa meio gostosinha, voltando pra casa depois do expediente”. 

Tem tempo de examiná-la dos pés à cabeça sem que seus olhos se cruzem, uma vez que ela o está examinando da cabeça aos pés. Ele vê um casaco jeans por cima de um mini-vestido azul-marinho, meia pretas de nylon cobrindo umas pernas que não são de se jogar fora, e umas botas que não batem bem com o restante mas lhe dão uma pose de valquíria disposta a tudo.

É neste momento que eu surjo, momentos depois do meu infarto fulminante no quartinho do Hotel Magnólia. Passo os braços sobre os ombros do rapaz que parece com meu neto e da moça compassiva que me proporcionou meu derradeiro prazer. Foram feitos um para o outro e o descobrirão de hoje em diante, mas foi preciso que eu estivesse aqui, onipotente, onisciente, para reuni-los por fim.





1791) A chuva de dinheiro (5.12.2008)



Anos atrás a Veja fez uma capa exaltando a nova era do capitalismo neo-liberal e mostrando uma nuvem de não-sei-quantos bilhões de dólares que, segundo a matéria, chovia a seu bel-prazer, onde mais lhe agradasse. Na economia globalizada, bastava um investimento começar a dar menos lucro do que o previsto para que o dinheiro fosse imediatamente transferido para um lugar remoto e começasse a “chover” em outra atividade mais proveitosa. Não me lembro se a matéria da revista levava a metáfora às últimas consequências e explicava que as nuvens de chuva não se formam por decreto, e sim pela evaporação de águas já existentes.

Parece que não, porque surgiu uma moda de formar chuvas por decreto. Cria-se dinheiro inexistente através de projeções em mercados futuros, preços futuros, negociações futuras, lucros futuros. Não poderia durar para sempre, e não durou. Os dominós começaram a cair. Não posso saber o que direi deste nobre fenômeno nesta coluna, em novembro de 2009. Não sei se eu, o jornal ou o Brasil ainda estaremos por aqui (em um ano, “ou morro eu, ou morre o rei, ou morre o burro”). No entanto, como o mundo já se acabou várias vezes e continua funcionando, tudo indica que o Apocalipse recém-começado é apenas mais um episódio na novela.

Num capítulo de seu livro The Way the Future Was Frederik Pohl analisa uma crise na distribuição de revistas de ficção científica nos EUA, graças à quebra da American News Company, a principal empresa distribuidora. A ANC teve suas ações compradas aos poucos por especuladores que, assim que assumiram o controle, “quebraram” a empresa vendendo os numerosos imóveis que ela possuía e tendo um lucro fabuloso. (O fato de dar um golpe mortal na distribuição de revistas foi um efeito colateral, para o qual eles não deram a mínima atenção).

Pohl diz: “Nós todos acreditamos nas lendas que ouvimos na infância: Papai Noel, a Fadinha dos Dentes-de-Leite, e a auto-regulação de preços no Mercado de Ações. Vamos fazer um pequeno teste de múltipla escolha. Pergunta: O preço de um lote de ações reflete o quê? a) Seu valor proporcional no capital da empresa? b) A expectativa de ganhos futuros? c) A expectativa quanto ao crescimento da empresa? d) A segurança do investimento? Resposta: Nenhuma das respostas acima. O preço das ações reflete nada mais nada menos do que o estado de espírito das pessoas que as compram”.

O aquecimento dos mercados de ações, com a Bolsa subindo e batendo recordes todos os dias é aquilo que podemos chamar de Irracionalismo Benigno. Não existe razão para tanto otimismo, mas as pessoas estão eufóricas e não param de botar seu dinheiro lá dentro. Por outro lado, o Estouro da Boiada, quando todo mundo ao mesmo tempo, apavorado, quer tirar seu rico dinheirinho para protegê-lo, é um Irracionalismo Maligno. Ambos são comportamentos irracionais. A Bolsa é um cassino, não é um sistema de planejamento coletivo para capitalização de empresas.

1790) O romance em blocos (4.12.2008)



(Robert Heinlein)

Podemos dividir qualquer narrativa em prosa em pedaços, blocos de informação que vão se sucedendo ao longo da leitura. Em dramaturgia de cinema e TV chama-se a isto “escaleta”: a descrição breve do que acontece, sem descer a detalhes. Poder imaginar uma seqüência inteira de ação ajuda muito a quem está escrevendo. “Fulano chega no escritório de manhã e encontra tudo revirado. A polícia examina tudo e não acha pistas. Fulano almoça com Sicrano e este lhe diz que com ele ocorreu o mesmo. Fulano abre o carro na garagem do restaurante e é atacado por trás. Fulano acorda no hospital com a esposa na beira da cama dizendo que assaltaram a casa deles.”

Cada unidade destas é completa em si e pode ser escrita independentemente. Andei lendo uma entrevista de John Barnes, escritor de FC cujas obras nunca li, mas tem romances com belos títulos, como A million open doors (1992) e The sky so big and black (2002). Barnes diz que quando estava se preparando para escrever uma série de romances juvenis, pegou os romances escritos por Robert Heinlein para leitores juvenis e descobriu neles um padrão. “A cada 25 mil palavras,” diz ele, “Heinlein colocava seu herói numa situação tal que a única conclusão seria dizer: E então ele morreu”. E nesse ponto crucial acontecia uma reviravolta completa na narrativa, que Barnes chama brincando de “um momento A Vida De Brian”, referindo-se à cena, nesse filme do Monty Python, em que o personagem cai de uma torre e só não morre porque é abduzido, durante a queda, por um disco-voador.

Barnes prossegue: “Se você é um garoto esperto, que lê rápido, 25 mil palavras correspondem mais ou menos a três horas de leitura ininterrupta, de modo que esse momento de reviravolta coincide mais ou menos com alguma interrupção, porque a mãe do leitor o chamou para jantar ou porque o pai lhe disse para ir cortar a grama”. Barnes colocou essa estrutura em prática, mas a resposta não foi bem a que esperava. “Recebi muitos emails de leitores de 40 anos,” diz ele, “mas ao que parece este tipo de ritmo estrutural continua a funcionar com eles, mas não funciona com os garotos de agora”.

Isto é algo interessante, porque 25 mil palavras é uma boa quantidade de texto. Em 1947, A. E. Van Vogt deu uma receita estrutural parecida, num artigo intitulado “Complication in the Science Fiction story”. Van Vogt se referia a contos, não a romances, e dizia que concebia seus enredos em unidades de até 800 palavras, e quando ia chegando nesse limite ele dava uma reviravolta completa, que obrigava o leitor a continuar lendo. Talvez seja este o tipo de ritmo que os leitores de hoje esperam de uma narrativa. Não é muito longo. Qualquer um destes meus artigos, por exemplo, tem sempre em torno de 450 a 500 palavras. O dobro disto é extensão suficiente para situar e desenvolver uma situação, e, chegando ao limite, “virar uma esquina” inesperada. É a velha técnica do romance-folhetim e a técnica atual da telenovela.

1789) O céu dos agnósticos (3.12.2008)



(Blaise Pascal)

Ah, a imensa solidão do agnóstico! No centro da esfera escura e oca que é seu mundo, ele contempla à distância duas luminosidades: a luminosa certeza dos Crentes, e a luminosa certeza dos Ateus. Essas luzes (que sejam duas, que seja uma só, tanto lhe faz) não existem para ele. Ele habita o centro da treva do não-saber, do não-acreditar, e talvez os Iluminados, que o percebem de longe, dele se compadeçam. “Coitado,” pensam, “vive ali, no escuro, no frio, sem certeza de nada... Por que não lhe mandamos uma marmita, uma garrafa térmica com café, uma manta, um colchonete?...”

Obrigado, queridos amigos! Não preciso, não precisamos. Sei que “o silêncio eternal destes espaços infinitos vos amedronta”, como disse Pascal; mas a mim ele não passa do silêncio acolhedor e aconchegante que precede o sono e nos sossega as pálpebras. O ser humano é um bípede pensante, e mais do que isto: um bípede que se agita, que se socializa, que precisa desesperadamente acreditar que os outros bípedes à sua volta são reais, e daí é só um passo silogístico para acreditar na existência de um Bípede Supremo que criou o universo bipedal e o administra. Assim se criam as religiões. Tudo nelas é imagem e semelhança.

Suponhamos (por obra de argumento) que não haja um Deus. O que somos, então? Acasos biológicos que se organizaram em sociedades e criaram idiomas. É uma resposta paupérrima, insatisfatória. Eu próprio não a ouço com bons ouvidos. Suponhamos (caso contrário) que haja um Deus. Tudo que conhecemos, por conseguinte, é obra sua. Cada spin de cada elétron em cada nanossegundo é ordenado pessoalmente por ele; cada ascensão e queda de Império, cada formação de Sistema Solar, cada Big Bang. Vem daí minha questão: por que nos preocuparmos, então? Se Deus é Onisciente, Onipresente e Onipotente, é o mesmo que não existir, visto que qualquer alternativa que nos ocorra já lhe ocorreu a ele, e qualquer decisão que tomemos já foi tomada por ele desde um trilhão de Eternos Retornos atrás. É como, amigos, pegar os dois termos de uma equação e multiplicar cada um por um bilhão de bilhões de bilhões. Dá no mesmo.

Pascal (lá vem ele de novo) ponderou com argúcia sobre a conveniência de crer. Disse ele que é melhor crer do que não crer, porque se estivermos errados e Deus não existir, então nada se perde; mas se não acreditarmos em Deus e ele existir, então toda a Eternidade estará perdida para nós. Eu proponho o seguinte a Pascal: já que Deus é Onisciente (e conhece inclusive o futuro, está olhando agora o que pensarei e farei daqui a dez anos) ignoremo-lo. Ajamos como se ele não existisse, mas existisse, entre os seres humanos, um pacto recíproco de ajuda, respeito e equilíbrio. Ajamos como se o Universo fosse uma treva sem Deus, e coubesse aos homens acender nessa caverna uma luz. Que Deus (que Deus antropomorficamente bom e ético) condenaria uma humanidade tão agnóstica, mas tão mais humana do que esta?

1788) Obama x Roberto Dinamite (2.12.2008)



Eu tinha registrado o título acima no caderno onde anoto temas para estas colunas. O título já diz tudo, e eu considerei a possibilidade de sugerir ao JPB que publicasse o título e deixasse o resto do espaço em branco. Para que chover no molhado? Mas, ai! Folheando o “Globo” no café da manhã, deparo-me com a coluna do impagável Agamennon Mendes Pedreira, e a foto de Barack com a legenda “Roberto Dinamite”. Agora vou ter que me explicar publicamente.

A eleição de Dinamite para presidente do Vasco da Gama e de Obama para presidente dos EUA me produziram emoções entrecruzadas. Por um lado, tive a alegria pela vitória de um candidato que, não importam os defeitos que certamente tem, é infinitamente melhor do que o presidente que o antecedeu. (E olha que eu nem torço por Vasco e EUA – sou Flamengo e Brasil.) Por outro lado, o desespero de ver o quão pouco essa vitória vai adiantar. São vitórias de Pirro. Roberto e Barack assumem o comando de entidades sangradas, enfraquecidas, dilapidadas. Um Vasco moribundo, uma Norte-América agonizante. Suas vitórias lembram, melancolicamente, a entrada de Napoleão em Moscou, que ele supunha uma invasão triunfal, e que se limitou ao desfile de um exército exausto por uma capital que os próprios habitantes incendiaram antes de evacuar. Que raio de vitória é essa?!

George W. Bush e Eurico Miranda (como eu gostaria de ver um curta-metragem com esses dois caras frente a frente, numa mesa de bar!) fizeram com suas respectivas entidades a política da terra-arrasada, de deixar para o sucessor um cabide de papagaios e micos, um jacá de pepinos e abacaxis. Bush deixa um país refém das próprias guerras, com a coluna vertebral econômica partida e sem chances de cura no horizonte. Eurico deixa um Vasco sem time, sem dinheiro em caixa, e infiltrado de sabotadores a seu soldo, destinados a minar tudo que for tentado pelo novo presidente, para produzir na torcida (como já está produzindo) aquela sensação de “Pois é, com O Outro era melhor...”

Lembra a frase sarcástica de Borges, ao narrar a derrubada do ditador Perón, inimigo de sua família: “Não se sabe com quanto dinheiro conseguiu fugir”. Eurico já bateu em retirada e está por aí, “guardado por Deus, contando os seus metais”. Bush ainda tem pela frente dois meses de melancolia a sós na Casa Branca (todo mundo o desertou, segundo a imprensa, menos Condolezza Rice) antes de mergulhar no oblívio. Queira Deus que não volte a beber; nem a ele desejo isto. Enquanto isso, os novos presidentes terão que remar contra uma correnteza de dívidas, problemas, projetos insensatos, desconfiança interna e externa, cobranças desesperadas de quem já não aguenta mais. São anos e anos de despautérios, de bombas-relógios armadas pelo antecessor e que pipocarão nas mãos dos recém-eleitos. Como diz a antiga frase: “Cuidado com o que você deseja, porque o conseguirá, mas não como pensou que ia ser”.