sexta-feira, 21 de agosto de 2009

1210) Canções de cidade (28.1.2007)



Como sabe o leitor, estou em plena campanha visando à redefinição dos gêneros da MPB a partir das letras, e não dos ritmos. Abaixo essa besteira de samba, xaxado, hip-hop. Que tal classificarmos as músicas pelo que elas efetivamente dizem, e não pela gratuita variação de padrões percussivos? Vejamos o exemplo de hoje: Canções de Cidade. Poderíamos encher um Napster inteiro só com canções que homenageiam cidades famosas ou obscuras, reais ou imaginárias. Está na memória racial da Humanidade, há milênios. É algo com mais tradição do que a valsa ou os blues.

Há cidades óbvias pela sua beleza ou sua importância histórica, portanto não vou perder tempo enumerando canções que celebram Paris, Nova York, Rio de Janeiro ou Campina Grande. Prefiro as canções onde alguém canta uma cidade que nunca nos tinha passado pela cabeça. Uma das cidades mais vilipendiadas de nosso país é São Paulo, mas o amor por ela gerou jóias como "Sampa" de Caetano ou "São São Paulo Mon Amour" de Tom Zé. São “canções de migrante” ao contrário: o migrante celebrando o lugar onde foi parar, e não o lugar de onde partiu. Algo parecido com que fez o exilado Caetano em “London, London”.

É natural que um compositor celebre a cidade em que nasceu, daí termos Ataulfo Alves falando de Miraí, Antonio Maria falando de Recife, Ednardo e Fagner falando de Fortaleza, Lennon & McCartney celebrando Liverpool através de “Penny Lane” ou “Strawberry Fields Forever”. Mas prefiro lembrar surpresas como Chico Buarque fazendo uma canção de ficção científica para a cidade natal de Zé Ramalho, Brejo do Cruz (embora ele intitule a música “Brejo da Cruz”). Garotos que comem luz, que voam pelos céus do Brasil, que viram mutantes nas grandes metrópoles... Uma homenagem indireta ao nosso bardo rock-surrealista, talvez, através da celebração do seu lugar de origem.

A improvável Londrina ganhou uma canção homônima de Arrigo Barnabé, defendida num festival por Tetê Espíndola: “Nuvens vermelhas no céu / na terra, silêncio...” Curiosamente, esta música aparece em vários saites atribuída a Eduardo Dusek. Outra curiosidade é a canção “Maringá” de Joubert de Carvalho, que cita uma cidade paraibana (Pombal) e batizou uma cidade paranaense. A famosa “Petrolina e Juazeiro”, regravada e recantada Brasil afora, consegue diplomaticamente celebrar as duas cidades separadas por um rio e unidas por uma ponte. Milton Nascimento homenageou sua “Três Pontas”. Chuck Berry homenageou “Memphis, Tennessee”. Leiber & Stoller celebraram “Kansas City”, gravada até pelos Beatles.

Celebrar uma cidade não é apenas fazer uma canção ufanista, mas capturar em letra, melodia e ritmo alguma coisa do espírito dessa cidade, o suingue local, a fala das ruas, o som do sotaque, o balanço de seu ritmo urbano, o sentido de suas casas e suas cores, mesmo quando a canção é sofrida, quando fala da distância entre a cidade e o poeta, que afinal é a distância entre qualquer cidade e cada um de nós.

1209) No reino da Dinamarca (27.1.2007)



Acabei de ler um artigo publicado no respeitável British Medical Journal. Na verdade, não sei se é tão respeitável assim, mas, com este título, permito-me ceder à mais conciliatória forma de preconceito, que é render homenagem imediata à pompa e à autoridade. Enfim: o BMJ afirma, num artigo assinado por dois cientistas dinamarqueses e um alemão, que os dinamarqueses são o povo mais feliz da Europa. O artigo está em: http://www.bmj.com/cgi/content/full/333/7582/1289. E não é só isto. Esta posição vem sendo ocupada pela Dinamarca desde 1975, nas pesquisas do chamado “Eurobarômetro”, com os habitantes da Holanda, Luxemburgo e Suécia revezando-se no segundo lugar.

Os dados podem ser conferidos também no “Mapa da Felicidade Mundial” divulgado pela Universidade de Leicester, que classifica o grau de bem-estar subjetivo dos países de acordo com um sistema de cores numa escala de seis, que vão de Infeliz (amarelo claro) a Feliz (vermelho escuro). Neste caso, vale a pena notar que os países mais felizes, além dos escandinavos, são os EUA e Canadá, Austrália, Nova Zelândia e alguns outros europeus. A Argentina, na segunda faixa, é mais feliz que o Brasil, que está na terceira.

No artigo do BMJ, os cientistas descartam fatores como genética, cor do cabelo (parece que na Europa se crê, por um consenso difuso, que os louros são mais felizes), alimentação, clima. Certa importância é dada à comida: os três países mais felizes de acordo com o Mapa de Leicester (Dinamarca, Suíça e Áustria) têm algo em comum: uma culinária meramente utilitária e sem imaginação. Anotem e meditem, amigos gastrônomos.

Os dinamarqueses estão entre os povos que consomem mais álcool e tabaco na Europa; têm altos índices de casamentos e de divórcios; têm uma das maiores taxas de fertilidade européias; praticam muito os exercícios, principalmente bicicleta. Será que isto influi ou contribui? Os cientistas também registraram que depois que a seleção dinamarquesa tornou-se campeã da Europa em 1992, derrotando a Alemanha, o gráfico da felicidade nacional deu um pulo para cima e nunca mais desceu.

Um parágrafo no final do estudo, no entanto, nos dá o que pensar. Dizem os profs. Christensen, Herskind e Vaupel:

“Foi sugerido que há uma relação com boas expectativas sobre o futuro, mas se tais expectativas são exageradamente altas podem também se tornar uma fonte de desapontamento e baixa satisfação. Os dados do Eurobarômetro remontam a 1980 e mostram que os dinamarqueses, embora satisfeitos, mantêm suas expectativas para o futuro bastante baixas, abaixo da média. Em contraste, Itália e Grécia, com índice mais baixos do que os deles, têm expectativas altas para o ano que vem. (...) Os dinamarqueses exprimem sua satisfação com a vida com a expressão “lige nu”, que significa “por agora”, e expressa a idéia de que ‘por enquanto estamos felizes, mas talvez não dure muito”. Quando acabar, é o brasileiro que vive para o aqui-e-agora!

1208) “Henry e June” (26.1.2007)



Vi no DVD este filme de Philip Kaufman, que narra o período, no início dos anos 1930, em que o americano Henry Miller e a francesa Anaïs Nin se conheceram em Paris, tiveram um caso amoroso e decolaram em suas respectivas carreiras literárias, ambas fortemente marcadas pelo erotismo. O filme poderia chamar-se Henry e Anaïs, mas o título que tem rende homenagem a June, a esposa americana de Miller, a qual durante muito tempo fez programas para sustentar a literatura do marido, que ela considerava um gênio. As duas mulheres executam em torno dele um complexo bailado de idas e vindas, atração e ciúme. Seu comportamento soa curiosamente reprimido e problemático, numa época permissiva como a nossa. Naquele tempo, as revoluções sexuais eram revoluções morais, porque os indivíduos se sentiam na obrigação de justificar moralmente seus atos. Hoje, o sexo tornou-se uma mercadoria como qualquer outra, mesmo quando não envolve dinheiro vivo. É moeda-de-troca nas relações de poder, de fama, de controle social. A imprensa descreve Henry Miller como “um dos pioneiros da liberação sexual de nossa sociedade”, mas se Miller visse o preço dessa liberação, pediria eutanásia.

Anaïs Nin é interpretada por Maria de Medeiros, atriz portuguesa com tipo de Betty Boop e enormes olhos expressivos. June é Uma Thurman, longa, esguia, problemática, depressiva. Miller é Fred Ward, que tem uma certa semelhança física com o escritor e cujo olhar de permanente deboche tem algo da sua impudência naquela época. Miller é um autor execrado pelas feministas, por sua masculinidade agressiva, escrachada, polígama. Sua obra foi um corte definitivo entre os conceitos de amor e de sexo, coisa que os autores (e autoras) de temperamento romântico jamais lhe perdoaram. Miller defendia a idéia de que o sexo é bom, é natural, é legítimo, e que o compromisso entre as partes se encerra quando elas saem da cama. Por outro lado, Miller dizia que a sociedade americana transformava tudo em mercadoria e em jogo de poder, e que o sexo deveria afastar-se disso, ser vivido fisicamente, duas mentes e dois corpos voltados um para o outro.

J. G. Ballard via em Miller o apogeu da literatura operária, da literatura feita por sujeitos simples, sem formação sofisticada, autodidatas, que se acham no direito de viver a vida como lhes dá na telha e de escrever uma literatura própria, sem se preocupar com modelos. Seus livros mais conhecidos são os “Trópicos” (de Câncer e de Capricórmio) e a trilogia da “Crucificação Encarnada” (Sexus, Plexus e Nexus). Não se espere de Miller a criação de tramas originais ou a descrição de personagens memoráveis. Sua literatura é um relato pessoal, centrado no próprio Eu, como um livro de viagens. Foi chamado de barroco, de beatnik, de surrealista, de pop. Tinha um pouco disto tudo, mas sua obra foi acima de tudo um dos maiores auto-retratos literários de seu século.

1207) Usina de Sonhos (25.1.2007)



Essa noite eu estava numa cidade qualquer com amigos, de madrugada, fazendo farra. Fizemos tanto barulho na rua que a polícia veio e nos levou para a delegacia, onde um delegado nos passou uma descompostura, dizendo que aquilo não era papel para jovens de família, e ameaçando fazer-nos passar a noite no xilindró. Eu estava meio de banda, sem dar muita atenção, e, para me distrair comecei a improvisar um repente, dizendo em voz alta: “Eu sou tão pobre / tenho um par de chinela / um paletó de flanela / pra fazer comida fria”. O verso saiu tão ruim que acordei, sobressaltado.

De vez em quando me acontece compor versos inteiros, geralmente sextilhas ou versos de embolada, durante um sonho. Imagino que jogadores de futebol sonhem que estão batendo um escanteio, e que mecânicos sonhem que estão às voltas com um platinado ou um virabrequim. Faz parte dos resíduos do cotidiano que a mente reprocessa durante o sono. Dizem algumas teorias psicológicas que quando dormimos o cérebro age como um caixa de Banco ao encerrar o expediente: dá uma geral em tudo que foi feito, verifica se não houve algum erro, joga fora o que não presta mais, arquiva no devido lugar as coisas que podem ter alguma importância. Esta seria, dizem os especialistas, uma das principais funções do sono e do sonho. Pessoas com privação de sono são acometidas, depois de certo tempo, de surtos de amnésia. Por que? Porque seu processo de “salvar arquivos” foi interrompido.

Ora, depois das 16:00 horas o caixa do Banco não se limita a salvar arquivos. Enquanto faz isto, ele conversa com os colegas, escuta MP3 no Ipod (se o gerente for gente boa), atende o telefone, fala da vida alheia. No caso do nosso cérebro, a função organizadora de memórias atua em paralelo com as outras funções, entre elas o que eu chamo de “função fantasista” ou “função fabulatória”, aquela que nos faz inventar pequenos episódios que não aconteceram, a partir de detalhes que vemos ou lembramos.

Fazemos isto o tempo inteiro quando estamos acordados. Às vezes, temos três convites para sair à noite: cerveja com amigos, cinema com a namorada, festa na casa de Fulano. Temos que escolher apenas um, e no processo de escolha criamos pequenas ficções antecipatórias para avaliar qual das opções é mais promissora. Imaginamos velozmente, em cada caso, como vai ser, como vamos chegar no local, quem poderemos encontar, as situações que podem surgir, o grau de diversão e de prazer de cada uma. E este sistema de criar historinhas nos ajuda a tomar decisões.

Durante o sono, inventamos situações, só que desta vez não é a mente consciente que cria, a mente voltada para administrar nossa relação com o mundo exterior. Desta vez quem cria não é o médico, é o monstro. No bom sentido, claro: o monstro é essa coisa torta, barroca, gigantesca, descomedida, a que o médico chama “o Inconsciente” e que deveríamos ter a coragem, como Augusto dos Anjos, de chamar apenas, em letras garrafais: EU.

1206) A ciência no escuro (24.1.2007)



Li uma receita infalível para perder peso. Não lembro os detalhes mas vou reinventar. Você pega um “santinho” de São Tomás de Aquino, benze na igreja com água benta, tranca durante 24 horas numa caixinha, junto com um grão de milho, um de arroz, um de feijão, e um galhinho de arruda. Depois, forre uma esteira no chão, coloque o “santinho” embaixo, e faça 100 flexões abdominais. Repita isso durante um mês, diariamente, não esquecendo de rezar um Pai Nosso no fim de tudo, e de doar no fim do mês 50 reais para uma instituição beneficente. É tiro e queda: você vai perder alguns quilos.

Não sei se ficou engraçado, mas não importa. Durante milênios a Medicina (assim como muitas outras práticas científicas) funcionou deste jeito, e em muitos aspectos é assim que ainda funciona. Em casos mais enigmáticos, que fogem ao feijão-com-arroz, temos um vago palpite sobre o que está afligindo o paciente, e aí tomamos uma série de providências, cruzando os dedos e rezando para que algum daqueles detalhes funcione; e às vezes funciona. O médico cura o sujeito, mas ele mesmo não sabe como, porque no estágio de conhecimento em que se encontra, todas aquelas providências são plausíveis, todas têm algum tipo de justificação. Houve um tempo (lembram-se do Dom Quixote?) em que não existiam médicos propriamente ditos. Quando um sujeito estava doente, chamava-se um barbeiro e este fazia uma sangria no enfermo, abrindo uma veiazinha e tirando-lhe alguns decilitros de sangue. Hoje parece absurdo, mas vai ver que em casos como pressão alta ou infecção localizada isso podia até ter um efeito positivo.

É o que me vem à mente quando vejo atividades extremamente subjetivas como a Cientologia (ou Dianética), a Meditação Transcendental, a Terapia Primal e assim por diante. Fazem um bem enorme a uma porção de pessoas, mas macacos me mordam se eu (ou qualquer dos envolvidos) puder apontar o dedo e dizer exatamente por quê. Todas elas me parecem tiros no escuro, tentativas de mexer com coisas que nunca conseguimos enxergar em sua totalidade, coisas de comportamento imprevisível. É como jogar bilhar no escuro, num navio. Quem foi que disse que a gente não encaçapa uma bola de vez em quando?

A Psicanálise é colocada nessa lista ainda hoje, mais de cem anos após seu início, por muita gente cética que não bota muita fé nas suas premissas e nos seus métodos. Nunca fiz psicanálise e lamento ter lido pouco sobre o assunto, mas como todo sujeito verbal tenho curiosidade por um método que examina o discurso verbal do paciente para perceber sintomas, e promove a cura através de estímulos verbais. Psicanálise é Literatura. O paciente chega com uma história troncha no juízo. O médico escuta, e ajuda o cara a recontar aquela história de uma maneira não-troncha, percebendo e eliminando as tronchuras. É uma forma de crítica literária que lida apenas com Autobiografias, ou Memórias.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

1205) Os piratas analfabetos (23.1.2007)



Chegam-me à razão de uma dúzia por dia, pela Internet. São mensagens contendo vírus, programas executáveis que depois de entrar no seu computador irão apagar o disco rígido, roubar senhas bancárias, etc. Mas o problema dos piratas internéticos é semelhante ao dos vampiros nas histórias de Drácula. Se o leitor está em dia com suas leituras de Bram Stoker, deve lembrar que um Nosferatu nunca pode entrar pela primeira vez na casa de alguém sem ser convidado por alguém da casa. A partir daí, entra e sai à vontade; mas para a primeira vez precisa de autorização. Esta é uma metáfora sutil e poderosa para certas manifestações do Mal. Elas só grudam em nós quando o permitimos.

Pois assim são os vírus: programas daninhos que para invadirem nosso PC precisam de uma autorização, ou seja, de um clique. Todas estas mensagens desembocam na famosa frase “CLIQUE AQUI”. São mensagens falsas do Submarino informando uma compra caríssima e dizendo que se quisermos cancelar a compra basta clicar aqui. Mensagens oferecendo vídeos de Daniela Ciccarelli dançando o galope da beira do mar. Mensagens oferecendo fotos das vítimas da cratera do metrô de São Paulo. Mensagens dizendo que nosso nome está no SPC e que para saber o motivo basta “clicar aqui”. Mensagens (esta é do tempo do escândalo do Mensalão) dizendo que o deputado Roberto Jefferson foi assassinado e que para ver as fotos do corpo basta clicar aqui.

Existem também os famigerados “VoxCards”, e os cartões sentimentais enviados por “Seu Amor” ou “Alguém Que Te Ama Muito”. Existem ofertas de fotos de turmas escolares, onde o remetente sempre fala que a gente está meio de lado, junto de uma árvore, e pergunta se a gente reconhece alguém. Existem as falsas mensagens do nosso Banco (ou de um Banco onde nunca tivemos conta) avisando de algum problema grave ou pedindo atualização de cadastro. Existem as mensagens dizendo “você está sendo traído, estou enviando as fotos feitas num motel, clique aqui”.

Meu caro leitor: nunca clique ali. Eu prefiro o risco de apagar mensagens enviadas por amigos do que clicar num troço desses. Cliquei uma vez para visualizar um cartum do saite Humortadela, e o técnico teve que ficar aqui do meio-dia às 3 da tarde consertando o estrago. O que me consola é que 99% dessas mensagens se auto-entregam: são redigidas por capadócios precariamente alfabetizados. Nunca vi uma mensagem pirata que não tivesse erros de ortografia, mesmo quando estão cheias de logotipos da Microsoft ou do Bank of Boston. Eis um exemplo recente: “Aconteceu um terrivel acidente envolvendo um membro da sua familia sei que essa nao e uma boa maneira de se dizer isso mais enfim e melhor que fique sabendo, prezenciei as imagens de como ficou a situação do carro e da pessoa e tirei algumas fotos se quiser dar uma olhada nas fotos estao aqui as fotos -- VISUALISAR F0T0S”. Não precisa ser Zarinha nem Anésio Leão pra perceber que é golpe. Não clique ali.

1204) O crime “naïf” (21.1.2007)




(Pulp Fiction)

Você gostaria, caro leitor, de mergulhar nos desvãos mais recônditos da mente humana, de desvendar os seus segredos mais contraditórios, de ter acesso aos seus mistérios mais sutis? Pois basta ler os jornais. É nestas humildes e farfalhantes páginas que a Humanidade acaba revelando, geralmente a contragosto, o que tem de mais incrível, mais espantoso, mais paradoxal. 

As notícias de crimes, por exemplo, não têm a nos revelar apenas as estratégias de guerrilha do tráfico de drogas ou a explosão cega da raiva mal administrada. Elas nos mostram também episódios de inocência e candura capazes de provocar a incredulidade de leitores mais céticos.

Em 1997, na cidade japonesa de Ishioka, um casal de jovens de 17 e 16 anos entrou num Banco com a intenção de assaltá-lo. O rapaz puxou a faca que trazia oculta, abordou um cliente e anunciou o assalto. O cliente olhou-o de cima a baixo, deu de ombros, e continuou a fazer o que estava fazendo. O garoto foi até o caixa e voltou a proclamar o assalto. Nisto, sua namorada começou a arengar com ele, dizendo em altas vozes que ele era incompetente até para assaltar um banco. Os dois começaram uma briga-de-namorados que não foi interrompida nem mesmo pela chegada da polícia. Foram levados num camburão, onde continuaram a “discutir a relação”.

Em 2002, um rapaz chamado Katsuhiro Sekine entrou armado numa loja de conveniência em Hitachi, e anunciou um assalto. Quando o balconista lhe entregou 10 mil ienes, ele começou a queixar-se de que esquecera de pôr uma máscara, que seria facilmente identificado, e que era melhor entregar-se logo. Pediu ao balconista que ligasse para a polícia, pegou o fone e ficou conversando com um investigador até que o camburão veio e levou-o embora.

Entre 1996 e 2003, Noboru Ohashi foi preso após realizar numerosos furtos em apartamentos, entrando pela janela. Como tinha medo de alturas, fazia isto com um paraquedas às costas. O jornalista pergunta: Qual é a chance de um paraquedas abrir quando você cai de uma altura de cinco andares? Não ficaria mais difícil de carregar o produto do roubo, com aquele volume às costas? E quem não teria sua atenção atraída por um cara que anda na rua usando uma mochila de paraquedas?

Estes casos (e outros, comentados num artigo de Ed Jacob, “The Ten Dumbest Criminals in Japan”) mostram que no crime, como em outras atividades, inclusive a criação artística, é muito grande o número de pessoas que ouviram o galo cantar mas não sabem onde. 

O criminoso que sai no jornal é geralmente um sujeito que fica ouvindo falar de gente que deu um golpe e se deu bem – e acha que ele pode fazer o mesmo. 

A seqüência inicial de Pulp Fiction de Tarantino mostra um casal decidindo se vale ou não a pena assaltar a lanchonete onde estão; guardadas as proporções, não são muito diferentes dos assaltantes jovens do banco de Ishioka. Existe também o criminoso “naïf”, o criminoso primitivo cuja pureza chega até a comover.








1203) A arte de Rob Gonsalves (20.1.2007)


("Deluged")

Um homem se refugia entre os galhos de uma árvore; à sua volta tudo está invadido por uma enorme extensão de água, da qual emergem apenas alguns troncos de árvores distantes. Mas, se olharmos para as vizinhanças de árvore onde ele se encontra, veremos que aquela superfície azul é formada apenas por milhares de guarda-chuvas azuis embaixo dos quais protegem-se milhares de pessoas, algumas delas com o braço estendido tentando sentir os pingos da chuva que os ameaça (“Deluged”, “Invadidos pelo Dilúvio”). Na sala escura de uma casa, um menino está se divertindo com seu trenzinho de brinquedo. Os pequenos trilhos onde ele puxa o trenzinho se prolongam na direção do corredor, o qual à medida que se alonga vai aumentando de dimensões, até que vemos um enorme trem de verdade, avançando por eles no meio da noite, em rota de colisão com o trem minúsculo com que brinca o garoto (“House by the Railroad”, “A Casa Junto à Estrada de Ferro”). Dois homens estão no interior de uma cripta, cheia de arcadas e de colunas de pedra; quando olhamos melhor, percebemos que as pedras amontoadas não passam de livros, e que um dos homens está usando uma escada em “V” para retirar o livro numa parte mais alta (“The Library”, “A Biblioteca”).

São apenas três dos 50 quadros do artista Rob Gonsalves que podem ser vistos no saite “Imagine Art Studios” (em: http://www.hrosecure.com/firstclass/store08/page14.html), dedicado a pintores que trabalham nesta nebulosa área que alguns chamam de “realismo mágico”. Gonsalves é um artista hábil, mas dificilmente vejo algo em seus quadros que já não tenha sido executado num quadro de René Magritte ou de M. C. Escher, principalmente este último. Seu processo mais freqüente é a justaposição de espaços incompatíveis (um do lado direito, outro do lado esquerdo da pintura; ou um na parte superior e outro na inferior), os quais vão se penetrando mutuamente através da metamorfose gradual entre duas classes de objetos (mar/guarda-chuvas, pedras/livros, etc.).

Se o saite mostrasse apenas 3 ou 4 quadros de Gonsalves produziria um efeito mais intenso do que mostrando meia centena. O excesso de exemplos evidencia o que a obra do artista tem de repetitivo, de formulaico. Há uma receita que ele aplica reiteradamente. A mesma crítica poderia ser feita a Escher, mas neste caso há a atenuante de que foi Escher quem inventou (e com minuciosa teorização geométrica) os processos que emprega. Escher é (na classificação de artistas proposta por Ezra Pound) um Inventor; Rob Gonsalves é um Diluidor. Pound vê a importância de ambas as categorias mas dá preferência óbvia aos Inventores. O mercado artístico, contudo, sabe que Inventores são raros, e Diluidores surgem a torto e a direito, porque para sê-lo basta dominar uma técnica e ser bem informado. Uma tela de Gonsalves produz em nós um “oh!” de surpresa; cinqüenta nos provocam um bocejo de “déjà vu”.

1202) “Retrato de Memória” (19.1.2007)


(Gonzaga Rodrigues)

O narrador do conto-título deste livro de Gonzaga Rodrigues (João Pessoa: Ed. Dinâmica, 2005) tem origem obscura (é largado pela mãe doente na casa da família que acaba por criá-lo) e seu nome nunca é dito. Não importa; a história não é sobre ele, é sobre o pai, cujo nome só é pronunciado uma vez, quase no final, quando alguém pergunta ao filho: “Quedê Manuel?” É a pergunta que percorre todo o texto, multiplicada em variantes: Como era Manuel? Quem era Manuel?

História de uma Paraíba que perdeu contato com o passado, uma Paraíba aderida às recompensas rápidas da vida urbana, milagroso alívio quando comparadas à rotina embrutecedora do trabalho rural. Quando o Narrador desembarca, menino, em Campina Grande, vê a “maior cidade do mundo”, cheia “de imagens novas, sons novos, de novos e estranhos ritmos”. É esta cidade que acabará por seduzi-lo na adolescência, quando, recusado no Seminário (talvez por não ser filho legítimo), vai morar com os primos e se deixa encandear pelas opções de lazer, e por uma permissividade moral que desconhecia.

A literatura de fundo psicanalítico fala em “romances da psicogênese”, em que se conta a evolução do herói, partindo da infância, um estado narcísico, egocêntrico, voltado para o prazer, e alcançando aos poucos o princípio da realidade, a capacidade de ter relações maduras e de aceitar as frustrações emocionais que a vida social impõe. O Narrador do conto de Gonzaga faz o percurso inverso. Ele parte de uma infância de solidão e medo numa família taciturna, junto a um pai que só faz trabalhar, que mesmo dono de um pequeno engenho veste a mesma roupa e calça as mesmas alpercatas dos empregados, e que nas refeições leva a comida à boca com a faca. Adolescente, ele descobre na cidade a sinuca, a agitação estudantil, o volibol, e por fim o desfalque financeiro, que lhe proporciona “a roupa de linho”, o “sapato fox”, as “camisas de colarinho impermeável”.

Um dos poucos momentos em que ele, menino, emociona o pai bronco e analfabeto é quando mostra já ser capaz de ler em voz alta os folhetos de Ataíde e de José Pacheco, os mesmos que provocavam no velho a risada diante do mote profético: “Quem quer ser mais do que é / fica pior do que está”. Com seu trambique bancário, ele provoca a morte do pai, por pura vergonha, e experimenta em seguida a incapacidade de evocar com nitidez seu rosto.

O Passado era uma escravidão rude, sem horizontes e sem ternura, numa terra onde se já trabalhava antes do sol sair e ainda depois dele se pôr. Mas algo bom se perdeu desse Passado nesta Paraíba onde os produtos dos shopping-centers são tão abundantes quanto os frutos que no engenho se espatifavam no chão, por não haver gente bastante para comê-los todos. Esquecemos o rosto daquela Paraíba, e talvez estejamos nos despedindo dela um pouco às pressas demais, entusiasmados com o dinheiro fácil dos Bancos e com a promessa de que a infância consumista vai durar para sempre.

1201) O Procrastinador (18.1.2007)




Um cara me contratou para redigir um texto. Era no início do mês, e ele me disse: "Basta entregar no dia 31". Trabalho fácil, que eu faria em menos de uma semana. Passei o mês inteiro me roendo de remorsos por não estar fazendo. Doía o fígado, doía o baço, doía a cabeça. Tomei remédios, li meia dúzia de livros para "entrar no clima", passei dias na Internet sob o pretexto de "estar pesquisando". Na tarde do dia 30, exaurido, cheio de olheiras, e com tremores pelo corpo inteiro, sentei ao teclado e produzi doze laudas de texto que no dia seguinte foram elogiadas pelo contratante, que declarou: "Meu Deus, eu não conseguiria escrever isto nem que passasse um ano tentando!"

O Procrastinador é aquele cara que tem a intenção de fazer o trabalho, está precisando do dinheiro, sabe que tem condições de atender a encomenda, mas uma força cega e inexplicável o bloqueia. O medo de começar faz o Procrastinador inventar tarefas caídas do céu. Tem que consertar o chuveiro, tem que levar o lixo para fora, tem que comprar café que acabou, tem que levar o cachorro pra passear. Como no Paradoxo de Zenão, antes da tarefa principal há sempre uma tarefa secundária a ser cumprida, e antes desta outra, e antes desta mais outra. Até o infinito. Em meu livro O Anjo Exterminador (Rocco), analisei este processo no capítulo "Os infortúnios da vontade".

Piers Steel, professor de psicologia da Universidade de Calgary, fez um levantamento da literatura científica sobre o vício do adiamento, do deixar-para-mais-tarde. Algumas estatísticas são curiosas. Uma firma que prepara declarações de imposto de renda diz que cada cliente perde em média 400 dólares por ano devido a erros nas declarações, feitas às pressas no último dia do prazo. Dois terços dos doentes de glaucoma ficam cegos porque não usam o remédio com regularidade.

Steel concebeu uma equação para descrever o Efeito Procrastinador. Ele usou um conceito econômico chamado "desconto hiperbólico" (hyperbolic discounting), nossa tendência a considerar que pequenos lucros imediatos são melhores do que lucros maiores a longo prazo. Combinou isto com uma teoria motivacional chamada "teoria da expectativa" (expectancy theory). Sua fórmula é esta: Utilidade = E x V / Gama D. "Utilidade" é a desejabilidade geral de conclusão da tarefa. "E" significa expectativa positiva, confiança. "V" é o valor do trabalho, e pode ser um valor positivo ou negativo. "Gama" é o cálculo básico da tendência da pessoa a atrasar seus compromissos. E "D" quer dizer demora (delay), ou quanto tempo vai levar para que surjam as conseqüências positivas ou negativas de fazer ou não fazer o trabalho. Portanto, quando o contratante ligar, é só explicar a ele que um incremento monetário em "V" pode elevar "E" e deflacionar "Gama", para que os dois efeitos combinados provoquem um aumento em "Utilidade". Se a Ciência não adiantar, meu amigo, o jeito é ir no terreiro e mandar bater bombo.