sábado, 28 de junho de 2008

0428) Robôs que parecem gente (3.8.2004)




Tenho um carinho especial por imagens de robôs, que me acompanham desde a infância, e que representavam, para o menino de 10 anos que nunca deixei totalmente de ser, uma síntese entre o passado (gente de carne e osso) e o futuro (as máquinas). Sim, eu achava que o futuro estava nas máquinas, nas engrenagens de metal e vidro que aos meus olhos exprimiam o que havia de mais moderno e de mais futurista. 

Muita água passou por baixo da ponte desde então, e cheguei a passar por uma fase de imensa antipatia e preconceito contra qualquer tipo de máquina. Tudo bem. Acho que, se o mundo não está chegando a uma síntese entre o orgânico e o mecânico, meu gosto pessoal pode estar aprendendo a unir esses dois polos.

Vou dar um exemplo. Em 1991 traduzi para a Editora Record um livro de Isaac Asimov, Sonhos de Robô, cuja capa tinha uma magnífica ilustração de Ralph McQuarrie, desenho que o próprio Asimov admite ter sido a inspiração para o conto que dá nome à coletânea. 

A imagem mostra um sofá, num terraço que dá para uma praia em cujo céu se vê um sol nascendo, ou se pondo. E sobre o sofá está um robô adormecido. Ele tem um corpo esguio, bem proporcionado, mas indiscutivelmente metálico, feito de placas articuladas, dobradiças, etc.; mas a posição e a atitude são humanas, flexíveis. Sua cabeça repousa sobre o braço esquerdo, o pé esquerdo está enfiado sob a outra perna, na atitude relaxada de quem sentou por ali e acabou dando um cochilo.

Não há como não perceber a semelhança desse robô com o famoso robô de Metrópolis, o filme feito em 1926 por Fritz Lang, que revolucionou o cinema de ficção científica, e que vi pela primeira vez aos 19 anos. 

Uma mulher, Maria, é colocada numa máquina que a transforma em robô (a ciência de Metrópolis é o que eu chamo de “ciência gótica”: um delírio fantástico onde a ciência e a tecnologia são mera roupagem). Só que um robô-fêmeo: corpo alto e esguio, pernas longilíneas, andar insinuante... e um belo par de seios metálicos. “Que diabo!...” pensava eu, “Pra quê que um robô precisa de seios? É um robô mamífero? Um robô erótico?”




(o robô de Metropolis)

A mesma sensação me deu, num saite dedicado a trucagens fotográficas em Photoshop, a visão da imagem de um robô gordo. Robô gordo é, mais do que um robô erótico, um contra-senso magistral, uma ironia que tem algo de Zen, algo de infantil. É uma imagem que concretiza essa síntese entre o humano e a máquina, sínese que coube à literatura de ficção científica trazer para o interior de nossa cultura. 

Quanto mais a ciência se pretende utilitária, funcional, mais a ficção científica se mostra contaminada de humanidade. Os robôs industriais das fábricas de automóveis, que parecem aranhas mecânicas, são a realidade; mas a poesia do nosso tempo está em nossa capacidade de imaginar robôs adormecidos, robôs sensuais, robôs gordos. Robôs que a outros robôs jamais ocorreria criar: somente a nós, simples humanos.





quinta-feira, 26 de junho de 2008

0427) Poesia e crise psíquica (1.8.2004)




(Fernando Pessoa fazendo um poema)


Comentei ontem nesta coluna episódios ocorridos com Augusto dos Anjos e Cole Porter, que em momentos de doença grave compuseram versos impecáveis. Uma espécie de crispação mental foi capaz de elevá-los a um estado alterado de consciência, a uma epifania criativa. 

Outro episódio curioso, e em alguns pontos semelhante, é narrado por Fernando Pessoa numa carta a Mário Beirão, em fevereiro de 1913 (“Crise psíquica”, em O Eu Profundo). 

Pessoa atravessava uma fase de atividade febril, escrevendo aos borbotões. Uma fase que ele denominava “crise de abundância”, em que a mão mal tinha tempo de registrar por escrito a cachoeira de versos que lhe brotava da mente. 

O poeta (que tinha fobia de trovoadas, desde a infância) voltava para casa certo dia, quando o céu carregou-se de nuvens escuras, e uma chuva pesada começou a cair. Tenso, angustiado com a possível proximidade de um ribombar de trovões, Pessoa apavorou-se e começou a correr para casa. Mas (como diria Veríssimo) deixemos que o próprio Fernando nos conte o que aconteceu.

“Atirei-me para casa com o andar mais próximo do correr que pude achar, com a tortura mental que você calcula, perturbadíssimo, confrangido eu todo. E neste estado de espírito encontro-me a compor um soneto – acabei-o uns passos antes de chegar ao portão de minha casa --, a compor um soneto de uma tristeza suave, calma, que parece escrito por um crepúsculo de céu limpo. E o soneto é não só calmo, mas também mais ligado e conexo que algumas coisas que eu tenho escrito. O fenômeno curioso do desdobramento é coisa que habitualmente tenho, mas nunca tinha sentido neste grau de intensidade.”

Eis o tal soneto, que ele intitulou Abdicação

Toma-me, ó Noite Eterna, nos teus braços 
e chama-me teu filho... Eu sou um Rei 
que voluntariamente abandonei 
o meu trono de sonhos e cansaços. 

Minha espada, pesada a braços lassos, 
em mãos viris e calmas entreguei, 
e meu cetro e coroa – eu os deixei 
na antecâmara, feitos em pedaços. 

Minha cota de malha, tão inútil, 
minhas esporas dum tinir tão fútil, 
deixei-as pela fria escadaria. 

Despi a Realeza, corpo e alma, 
e regressei à noite antiga e calma 
como a paisagem ao morrer do dia.

A história torna-se plausível quando vemos que o soneto, apesar de bom, tem todas as imperfeições de um improviso: repetição de palavras que se enfraquecem mutuamente (“braços”, “calma”), um primeiro terceto bem fraquinho, rimas óbvias. 

Existe no entanto uma coerência estilística na descrição desse Rei que se despe de seus atributos de realeza; e existe verossimilhança psicológica nesse percurso mental de quem foge às angústias e às batalhas da vida real para regressar à paz dessa Noite simbólica. 

Que um indivíduo seja capaz de produzir um poema tão articulado enquanto corre na base do pernas-pra-que-vos-quero debaixo de um toró, é para mim uma prova definitiva de que todo momento poético é um momento de loucura sob controle.





0426) A epifania da criação (31.7.2004)

(Cole Porter)


Sempre acreditei que o momento da criação artística (tanto quanto o momento da criação científica, visto que os dois são essencialmente a mesma coisa) é um estado alterado de consciência, um momento de epifania em que todos os interesses de ordem prática recuam para segundo plano, e a mente focaliza-se com toda sua energia naquela idéia que está brotando e desenvolvendo-se. São momentos raros, decerto. A maior parte da criação artística é pedestre, sofrida, e não se compara ao vôo de uma águia, e sim a um hipopótamo escalando uma montanha. Mas sempre me impressionou o fato de Augusto dos Anjos ter composto em seus últimos dias, febril, delirante, invadido pela pneumonia, um dos seus sonetos mais belos, “O último número”: “Hora da minha morte. Hirta, ao meu lado, a idéia estertorava-se...” Sim, mas mesmo estertorando-se compunha um poema de inquietante simbolismo filosófico – o conceito de Último Número é notável, ainda mais numa época em que poesia e matemática eram consideradas coisas incompatíveis.

Um artigo recente de John Lahr na revista The New Yorker comenta um episódio curioso na vida do compositor Cole Porter. Aos 46 anos Porter estava andando a cavalo num clube quando o cavalo tropeçou e caiu sobre ele, quebrando-lhe as pernas. Este acidente mudou a vida do compositor, que passou por numerosas cirurgias e nunca se recuperou totalmente, sendo forçado a usar muletas até sua morte, muitos anos depois. Sobre este episódio, Porter afirmava (e o seu biógrafo William McBrien achava difícil acreditar) que durante as seis horas em que ficou caído, esperando socorro, ficou trabalhando mentalmente numa das estrofes de uma canção que compunha na época, “At Long Last Love” (“O amor, até que enfim”). Os versos dizem: “Is it an earthquake or simply a shock? / Is it the good turtle soup or merely the mock? / Is it a cocktail, this feeling of joy? / Or is what I feel the real McCoy?” (“Será um terremoto, ou apenas um choque? É uma sopa-de-tartaruga legítima, ou uma falsa? Será que é só um coquetel, esta sensação de felicidade? Ou isto que eu estou sentindo é a-coisa-pra-valer?”).

Talvez num estado de tensão extrema a mente busque energias onde parecia não as ter; talvez o desespero, a dor física, desencadeiem no cérebro alguma compensação química que uma mente criativa seja capaz de utilizar como combustível para a criação. Em todo caso, o que é admirável é a decisão de criar, a decisão de, mesmo diante da morte certa (caso de Augusto) ou possível (caso de Cole Porter), concentrar o que resta de energia na composição de versos que, sem dúvida, já vinham sendo ruminados e planejados pelo poeta há algum tempo, como é habitual na criação literária. O momento de criar é uma epifania, um momento de iluminação íntima, um momento revelatório. O fato de versos serem produzidos em circunstâncias tão adversas não são um contra-senso: ele demonstra por A + B a excepcionalidade do momento da criação.

0425) Os “racconti” de Luis Fernando Borgerth (30.7.2004)

(Fernando Borgerth,
"Cinturão de Asteróides")


Alguns artistas plásticos se impõem à nossa imaginação pelo uso das formas, outros pela pesquisa de texturas, outros pela coerência cromática... Não prolongarei esta desnecessária enumeração. Prefiro dizer que tenho uma curiosidade especial pelos artistas cujas obras mostram uma dimensão que chamarei de “literária” à falta de um termo melhor. São “literárias” porque parecem contar uma história, parecem mostrar algo que aconteceu há poucos instantes ou que está a ponto de acontecer, parecem nos dar entrada num universo de lugares e criaturas muito distintos do nosso. Artistas cuja matéria prima são os seres e os eventos de um espaço-tempo vizinho ao nosso, mas puramente imaginário.

No carioca (radicado em Belo Horizonte) Luiz Fernando Borgerth existe esta coerência obsessiva, que se espalha por um espaço pictórico aparentemente inesgotável. A maioria dos seus quadros mostra cenas da vida cotidiana num mundo que, pela arquitetura, pelas roupas, lembra uma Europa medieval; parecem ilustrações de contos de Boccaccio, mas um Boccaccio dotado de um olho tão esperto e contemporâneo quanto um Ítalo Calvino. No catálogo da exposição individual que acontece em Belo Horizonte até 30 de julho, Eulalia Jorda-Poblet lembra os nomes de Bosch e Brueghel, e de fato o trabalho de Borgerth tem em comum com o destes o uso de um espaço amplo com dezenas de personagens que, em grupos de três ou quatro, dedicam-se a ações distintas, como que compondo mini-quadros dentro do quadro maior.

Só que Bosch e Brueghel, diz ela, são pintores invadidos por um senso de ameaça e de pecado ausente dos quadros de Borgerth. Obras como “Em Cinemascope” (2003), cheia de mulheres seminuas e de gente bebendo, ou “Folhagens” (2004), um matagal repleto de fadinhas igualmente nuas e álacres, podem evocar o “Jardim das Delícias” boschiano, mas o espírito que os governa parece mais próximo da inocência de certas visões de Chagall ou de Paul Klee, um olho meio infantil, ainda não corrompido pelo mundo, e que se dedica ao traço com a aplicação de um pré-adolescente.

Falei em conteúdo literário, e não sei por que me vêm à mente as “Fábulas Italianas” de Calvino, contos folclóricos recontados pelo escritor; ou os contos de Ray Bradbury sobre as cidadezinhas do interior onde basta chegar um circo ou um parque-de-diversões para que coisas extraordinárias comecem a acontecer. Há algo de histórias-em-quadrinhos nestes pequenos quadros (quase todos acrílico sobre tela, com cerca de 30x40cm), há algo dos anacronismos propositais de Moebius, algo das aparentes incongruências de Lewis Carroll... Imagens (infelizmente pequenas) dos trabalhos de Borgerth podem ser vistas em: http://www.murilocastro.com.br/expo/expo.php?expo=10. São pequenas polaróides de um mundo onde algo extraordinário está acontecendo, e se olharmos para elas por bastante tempo acabaremos nos transportando para lá e descobrindo o que é.

terça-feira, 24 de junho de 2008

424) Che Guevara e a arte de matar (29.7.2004)


(capa de Nadir, de Ricardo Soares)

Uma das maiores contradições de quem quer fazer o Bem é a aparente impossibilidade de fazer um Bem que seja puro, sem nenhuma dosezinha de Mal. Parece que não existe esta fórmula. Um ditado antigo diz: “Se queres a paz, prepara-te para a guerra.” Um jagunço sertanejo costumava dizer: “Eu detesto brigar. Quando um cara me chama pra briga eu mato ele bem rapidinho, só pra não ter que brigar.” Tudo isto me vem à mente ao ver o Diário da Motocicleta de Walter Salles e pensar no que terá transformado aquele rapaz idealista do filme no Che Guevara que liderou guerras de guerrilhas em Cuba e outros países, e que certamente matou muita gente pelo meio o caminho.

Será que não tem outro jeito? Será que contra um inimigo armado é obrigatório usar armas, será que contra um inimigo desleal é preciso ser desleal, será que contra um inimigo que não recua diante de nenhuma sordidez é preciso não recuar também diante de nenhuma sordidez? Só assim, em igualdade de condições, teremos alguma chance de derrotá-lo? Lembro de uma frase de Sartre em algum do volumes de Situations (cito de memória): “Quando enfrentamos um inimigo numa luta de vida ou morte, quando uma barreira de fogo o separa de nós, é preciso considerá-lo como a própria encarnação do Mal, senão não teremos chance de derrotá-lo”. Essa retórica guerrilheira foi largamente capitalizada pela direita, principalmente nos EUA, onde ser marxista era sinônimo de ser comedor-de-criancinhas.

Esta ética cruel, no entanto, não tem nada a ver com esquerda ou direita, com capitalismo ou comunismo. A guerra tem uma ética (ou anti-ética) própria que prescinde de ideologias. Todo ato intencional de matar é um assassinato, não importa se se trata de legítima defesa, de um carrasco executando um condenado em nome do Estado, ou de um soldado matando um inimigo em nome da Liberdade e da Democracia. Quem vai à guerra é para matar. É a ética do crime, a ética da briga de rua. Recordo a descrição impecável de Ricardo Soares em seu romance Nadir (Campina Grande, 1975): “Pirajibe sempre imaginara que um dia haveria de enfrentar o João Cláudio. Seu último sucesso, numa briga, remontava aos quinze anos. Depois é que aprendeu, em teoria, que, ao enfrentar um homem, deveria colocar o medo de matar ou de ferir gravemente de lado. Brigar pra valer. Nada de avaliar conseqüências, pois isto, já sendo um medo, derrotá-lo-ia de saída. Foi o que procurou pensar quando enfrentou João Cláudio. Sabia que ele era ágil, feroz e criminoso. Fez-se criminoso, feroz e ágil.”

Será mesmo preciso igualar-se ao inimigo, para ter alguma chance de derrotá-lo? Será que só é possível chegar a Poder e manter o Poder fazendo o jogo sujo do Poder? Brecht dizia que para mudar o mundo a gente não devia recusar-se nem mesmo a se aliar ao carrasco. O problema é que tem cada vez mais gente se aliando aos carrascos, e o mundo não muda nem a pau.

0423) As mãos sujas de Che Guevara (28.7.2004)



O lançamento do bom filme Diário da Motocicleta de Walter Salles tem trazido a figura de Che Guevara de volta às páginas dos jornais. Um artigo recente de Sean O´Hagan no The Observer faz uma reavaliação do mito do Che, ressaltando a ironia de um revolucionário radical ter se transformado em ídolo romântico. No filme recente do “Casseta & Planeta”, um personagem confunde Guevara com Raul Seixas, uma piada que ressalta a semelhança de destinos de dois personagens tão diferentes. Diz O´Hagan que a figura de Che hoje em dia lembra mais a de um herói romântico como Byron do que a de um soldado que matava a sangue frio; o filme de Salles reforça este lado dourado da lenda.

Parte deste mito se deve à famosa foto que Alberto Korda fez de Che, com o cabelo ao vento e a estrela na boina, quando este estava numa sacada de Havana, ouvindo Fidel Castro discursar, em 5 de março de 1960. Existe naquela foto um pouco do olhar de bezerro desmamado de Gael Garcia Bernal no Diário da Motocicleta (não, não estou ironizando o ator, que é bom); mas existe também o que O´Hagan chama de “absoluta implacabilidade”. Àquela altura, Guevara não era mais o rapaz ingênuo que saiu de moto para conhecer o mundo e acabou conhecendo as injustiças sociais da América Latina. Era o revolucionário que tinha seguido o conselho de Bertolt Brecht: “Mergulhe na lama, abrace o carrasco, mas mude o mundo, porque ele precisa ser mudado.”

Guevara matou muita gente com as próprias mãos, antes que elas fossem cortadas pelos soldados bolivianos que o executaram. O´Hagan cita um trecho de um discurso seu onde ele diz: “O que nos impulsiona é um ódio incessante ao nosso inimigo, que nos transforma em máquinas de matar, eficientes, seletivas, frias, violentas.” Não é este o tipo de retórica apreciado pelos rapazes e moças que compram posters ou camisetas com a imagem do ídolo. A frase que eles preferem (ainda bem) é a famosa “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.” Uma frase que tenta nos garantir que é possível ser revolucionário e continuar sendo poeta, ser soldado e continuar sendo um namorado carinhoso, ser um líder e continuar sendo um sujeito legal.

Há outra frase de Che, menos conhecida, mas que tem a ver com a parte final de Diário da Motocicleta, quando ele trabalha como médico num hospital de leprosos no meio da selva. Diz ele: “Um dia o mundo compreenderá por que deixei de curar homens doentes e fui matar homens sãos.” É esse salto qualitativo (para usar o velho jargão marxista) que transformou aquele rapaz tímido, asmático, e que não sabia dançar, no soldado que fuzilou sem pena muita gente em Sierra Maestra, e que, na crise dos mísseis de Cuba, sugeriu que os mísseis atômicos fossem disparados contra os EUA. Che tinha um lado cruel, um lado sombrio, mas, como na famosa foto, as sombras servem apenas para realçar o seu lado luminoso.

0422) Refilmagens (27.7.2004)



Em geral, por puro e simples preconceito, eu me recuso a ver as refilmagens que o cinema americano faz de filmes estrangeiros. Besteira minha. Não existe coisa melhor do que isto para nos mostrar o que é a indústria cultura norte-americana, mas mostrar mesmo, pra valer, com a riqueza de detalhes de um quadro de Renoir e a frieza clínica de uma tomografia computadorizada. A maioria dessas refilmagens se deve a um gesto mental típico do produtor e comerciante hábil: o sujeito vê um concorrente fazendo algo de uma maneira que ele considera meio desajeitada, meio amadorística, e pensa de imediato: “Mas que cara burro. Eu posso fazer isso muito melhor do que ele, e ganhar muito mais grana.” Surgem então as refilmagens que querem açambarcar a idéia básica do filme original, e dar-lhe um tratamento que (acham eles) vai ser mais adequado ao gosto do público americano.

Surgem assim refilmagens como Kiss me goodbye de Robert Mulligan, que reaproveita a idéia de Dona Flor e seus Dois Maridos, ou Três solteirões e um bebê, baseado no sucesso francês Trois hommes et un couffin. Um dos exemplos mais conhecidos é o thriller francês La femme Nikita de Luc Besson, rapidamente refeito nos EUA com Bridget Fonda, sob o título Point of no return. Quando essas coisas se dão no interior do cinemão comercial, tudo bem, porque na verdade eu até hoje não distingo um hamburger do Bob´s de um do MacDonald´s. O problema é quando pegam os clássicos do cinema. Até hoje recusei-me a ver Breathless, a refilmagem do Acossado de Godard, como também Willie & Phil de Paul Mazursky, que não é outra coisa senão um “remake” do clássico Jules et Jim de Truffaut.

Em princípio, nada contra. Quando não se conhece o filme original, aceita-se a refilmagem com o mesmo prazer com que aceitei Vanilla Sky de Cameron Crowe (aquele em que Tom Cruise fica desfigurado num acidente de carro e daí em diante nem ele nem nós sabemos mais se o mundo é real ou não), porque não cheguei a ver Abre los Ojos, o original espanhol. O problema é quando se pega um filme de verdade, arranca-se dele a carne, a alma, a substância, e enfia-se ali uma trinca de atores em evidência, e um fio de enredo que só se parece com o original quando é resumido em duas ou três linhas numa resenha. Parece aqueles CDs em que a banda Mastruz Com Leite regrava “os grandes sucessos de Elba Ramalho”, com uma cantora imitando a voz de Elba.

Dias atrás, conversando com amigos, ficamos conjeturando como Hollywood adaptaria alguns clássicos do cinema. Alguém perguntou como seria La Strada de Fellini. Eu sugeri que o papel do brutamontes Zampanò, que fora de Anthony Quinn, seria entregue a Arnold Schwarzenegger; o da ingênua Gelsomina, que fora de Giulietta Masina, seria entregue a Julia Roberts; e o “Louco”, antes interpretado por Richard Basehart, seria agora Jim Carey. Vocês acham engraçado? Pois todo ano acontece algo assim.

0421) Navegar é preciso (25.7.2004)




É um texto famoso de Fernando Pessoa, desses que se incorporam à memória cultural de um povo. Cito de memória: “Navegadores antigos tinham um lema: navegar é preciso, viver não é preciso. Quero para mim este lema, adaptando-o à minha vida e à minha missão no mundo: viver não é necessário, o que é necessário é criar.” 

Para a minha geração, a frase lembrada por Pessoa foi popularizada por Caetano Veloso em sua canção “Os argonautas”, no seu “disco branco” saído em 1969, logo após sua prisão pelo regime militar. 

Nenhum de nós tinha a menor idéia de quem fosse Fernando Pessoa. Era apenas um nome que Caetano tinha bradado, enfurecido, para a platéia que o vaiava durante sua interpretação de “É proibido proibir”, num daqueles festivais. Com a vaia, o cantor interrompeu o canto e disparou na direção da platéia um monólogo a plenos pulmões com uns dez minutos de duração, no qual, a certa altura, gritava: “Hoje não tem Fernando Pessoa!”

Fernando Pessoa? Quem diabo é esse cara? Corremos todos para as enciclopédias e descobrimos que era um “poeta modernista português, falecido em 1935”. Ficamos mais perplexos ainda. Oi... quer dizer que o Modernismo tinha chegado em Portugal?! Pensávamos que Portugal tinha estacionado em Camões e Gil Vicente. 

Aí saiu um compacto simples, tendo no lado B a faixa “Ambiente de festival”, com a vaia do teatro e a diatribe de Caetano, e no lado A a canção “É proibido proibir” (“A mãe da virgem diz que não... e o anúncio da televisão... e estava escrito no portão...”), na qual, a certa altura, brotava a voz surda e angustiada de Caetano recitando: “Esperai! Cai no areal e na hora adversa que Deus concede aos seus...” Eram os versos do poema “D. Sebastião”, na parte III de Mensagem, único livro publicado em vida por Fernando Pessoa.

Até hoje não sei o que diabo têm a ver Dom Sebastião e o slogan “É proibido proibir”; mas foi este talvez o primeiro link “pessoano” na obra de Caetano, retomado depois com “Os argonautas”: “O barco... meu coração não agüenta tanta tormenta, alegria, meu coração não contenta...” 

"Os Argonautas":
https://www.youtube.com/watch?v=Pi34gRiCt_Y 

Era um fado nostálgico em tom menor, ao som de bandolins, onde se misturavam temas como a navegação sem rumo e o vampirismo (“O barulho do meu dente em tua veia... o sangue, o charco...”). E o refrão, em tom maior ascendente, triunfante: “Navegar é preciso... Viver não é preciso!”

Só muitos anos depois é que vi comentários sobre a ambigüidade da frase. “Precisão” pode significar necessidade: navegar é necessário, viver não é necessário. Mas pode significar também exatidão, e aí teríamos: navegar é uma ciência exata, viver não o é. O que está muito mais de acordo com os argonautas da Escola de Sagres, com suas bússolas, astrolábios e portulanos. 

Naufrágios, calmarias e tempestades, no entanto, nos mostram a ingenuidade dessa distinção. Viver e navegar estão submetidos ao mesmo princípio de incerteza. Não nos esqueçamos de que para navegar é preciso viver, não é preciso?






0420) Muito livro, pouco leitor (24.7.2004)

(Biblioteca Joanina, da Universidade de Coimbra)

Quando entro numa livraria, chega sinto um aperto no coração diante de tanta coisa boa que tem. Nunca os livros brasileiros foram tão bons, tão bem apresentados, tão bonitos e agradáveis de manusear (a Companhia das Letras foi uma editora que ajudou muito a subir este nível). Por outro lado... o livro anda muito caro. Nas livrarias do Rio, o que tem de livro por 35 ou 40 reais não é brincadeira, e não me refiro a livros em papel cuchê com ilustrações coloridas, é o livro comum mesmo, com 200 ou 300 páginas.

No Brasil, aumenta sem parar o número de editoras e o número de títulos lançados. Mas não aumenta o número de leitores, nem o de livrarias, nem o de bibliotecas. O que temos é livros cada vez melhores e mais caros, destinados a um público consumidor que é sempre o mesmo: uma elite minoritária, esclarecida, gente que tem dinheiro no bolso, que ama os livros, e que não faz questão de pagar mais caro por um livro cuja importância é capaz de reconhecer. Há dez anos, uma pessoa nessa faixa de consumo podia escolher todo mês (suponhamos) entre 10 e 20 novos títulos para decidir o que comprar. Hoje, essa mesma pessoa tem 30 ou 40 títulos para escolher.

O problema é que tantos novos livros e tantas novas editoras brigam ferozmente pelo mesmo público, um público que não cresce. Não é nem uma questão de preço, porque álbuns de luxo são um produto com vendagem garantida no Brasil. (É um pouco como no mercado imobiliário, onde os corretores dizem: “A coisa mais difícil hoje em dia é vender um quarto-e-sala, porque a população do quarto-e-sala não tem dinheiro. Mas apartamento com 4 suítes, quantos a gente oferecer a gente vende – tem gente comprando um pro filho, um pra nora, um pro neto, um pra alugar...” Isto é Brasil.) O problema é que mesmo quem pode comprar livros sem perguntar o preço só compra uma quantidade limitada, ou porque não tem tempo de ler, ou porque não quer abarrotar a casa. Não adianta aumentar a oferta: há um limite para a possibilidade de compra.

A solução é expandir o mercado – vender livros a outras pessoas, fora dessa elite. Mas como, se está todo mundo liso? Desde que me entendo de gente há tentativas de fazer livros populares. Os livros de bolso das Edições de Ouro estão aí até hoje, mas no meio do caminho tombaram coleções importantes como a “Catavento” da antiga Editora Globo (Porto Alegre), a BUP (Biblioteca Universal Popular) da Civilização Brasileira, o “Jornalivro” que nos anos 1970 era vendido em bancas, as numerosas coleções mirins com que a Brasiliense sacudiu o mercado nos anos 1980. Hoje temos coleções de livros de bolso voltadas principalmente para os clássicos da literatura (livros que são de domínio público) como a da Martin Claret, ou de clássicos contemporâneos que já foram tão reeditados que podem negociar direitos mais baratos, como nos livrinhos da L&PM vendidos nos aeroportos. Mas tudo ainda muito longe do poder aquisitivo do grosso da classe média.

0419) Privacidade zero (23.7.2004)



(capa do exemplar do Secretário de Justiça)

Os assinantes da revista Reason tiveram um susto no mês de junho ao receber seu exemplar pelo Correio. Ao pegar a revista, William Thompson, morador de Nova York, não acreditou. A chamada de capa, em grandes letras, dizia: “William Thompson, eles sabem onde você está!” E um subtítulo, em letras menores: “Os benefícios não-celebrados de uma nação transformada em banco de dados”. A ilustração mostrava uma foto aérea do quarteirão onde ele morava, com um círculo vermelho assinalando o seu prédio. “Fiquei famoso!” pensou William, e ligou para seu pai, Bob Thompson, que mora em Miami. O pai atendeu e foi logo dizendo: “Você não vai acreditar... Meu nome e a foto daqui de casa saíram na capa da Reason!”

“Reason” é uma dessas revistas liberais tipicamente norte-americanas, defensoras “da liberdade e das escolhas individuais em todas as área da atividade humana.” A revista se propôs a enviar, para cada um dos seus 40 mil assinantes, um exemplar com capa personalizada, contendo seu nome, a foto do lugar onde ele morava, e (na matéria interna) dados sobre sua vizinhança. (Os exemplares vendidos nas bancas saíram com uma capa padrão, não personalizada) Assim, cada assinante recebeu a “sua” revista, inclusive o todo-poderoso John Ashcroft, Secretário de Justiça dos EUA.

A façanha técnica foi resultado de uma aliança da revista com vários parceiros. O banco de dados foi fornecido pela Entremedia, uma empresa de marketing direto de San Bernardino (Califórnia), que baixou da Internet todas as fotos aéreas e os mapas, além dos dados sobre os assinantes e suas ruas, recolhidos do saite do Escritório de Recenseamento dos EUA. A empresa levou uma semana criando um arquivo individual para cada um dos assinantes. Armazenados em dois discos rígidos, os arquivos foram transferidos para o Laboratório de Comunicação da Cal Poly (California Polytechnic State University, em San Luis Obispo), onde os dados foram organizados, diagramados, e alimentados numa máquina Xeikon DCP 50D, fornecida pela Xeikon America. Cada capa foi impressa individualmente e depois reunida ao corpo da revista.

Segundo o editor-chefe da “Reason”, Nick Gillespie, a equipe levou seis meses reunindo dados e imprimindo cópias-teste antes de se lançar à empreitada. “Nenhuma das principais pessoas envolvidas trabalhava no mesmo escritório, nem sequer no mesmo fuso horário,” disse ele. E qual o objetivo disto tudo? A revista pretende mostrar ao cidadão comum que, em certa medida, já vivemos na civilização do “Big Brother” – o de George Orwell, por favor, não aquela bobagem da Rede Globo. No momento em que o Governo (norte-americano, no caso) quiser reunir uma quantidade massacrante de dados sobre qualquer cidadão, isto pode ser feito em questão de horas. “Isto levanta questões sobre privacidade,” admite Gillespie, “mas também torna nossa vida mais fácil e mais próspera. Talvez estejamos dando adeus ao conceito de privacidade, mas já era tempo.”