1)
Eu me lembro de uma música de Renato e Seus Blue Caps,
num dos seus elepês de maior sucesso (1967), onde o cantor, numa vocalização
pra lá de melancólica, cantava “Menina
feia que mora... na mesma rua que eu... com ela ninguém namora... sozinha
sempre viveu...”
https://www.youtube.com/watch?v=T-99vNQGZiM
Essa música era usada a toda hora como gozação e
provocação com as garotas que a gente conhecia. Amizade de adolescente, em
geral, é com quem mora perto, ou com quem estuda no mesmo colégio, e sempre
existia uma menina para quem alguém podia dizer no meio de uma festa, ao trocar
o disco e colocar a agulha naquela faixa: “Essa música agora é uma mensagem
sonora dedicada de todo coração a Fulana...”
Fulana ficava toda fofa na expectativa da homenagem, e quando a música
começava, rolava a mangação.
Pouco importa que nos versos seguintes a música dissesse:
“Menina feia... não chore assim... você é
feia pra eles... mas é a mais linda menina pra mim, linda pra mim...” O que valia de fato era a provocação no
início. Ressalte-se que não me lembro disso sendo feito em tom de bullying contra alguma menina feiosa. Em
geral, dedicavam às bonitonas da turma, que davam de ombros, entortavam a boca
e diziam: “Muito engraçadinho você, achando que tem chance.”
2)
Eu me lembro de vez em quando que há um livro a ser
escrito, na História Secreta da Música Popular Brasileira, ou se não um livro
pelo menos um capítulo, intitulado: “As Músicas Sem Pé Nem Cabeça”. Se tem uma
coisa que música precisa ter é pé e cabeça, não é mesmo? Ou a música faz a
gente dançar, ou diz alguma coisa que faz pensar. Quando não serve para essas
duas coisas, serve pra quê então, meu Deus do céu?
É o caso desta obra-prima do surrealismo, “A Mulher Que o
Trem Matou” (1961), da Dupla Ouro e Prata. Uma composição (registremos, para a
História) de Waldomiro “Dinho” da Silveira. E diz:
A mulher que o trem matou, morreu; morreu pela primeira vez...
Morreu,
que triste fim, morreu com o nariz fazendo assim:
Hum, hum hum, hum,
Hum, hum
hum, hum.
Quando ela estava enterradinha,
o mundo inteiro quis saber: “Morreu?”
Morreu! Que triste fim!
Morreu com o nariz fazendo assim:
Hum, hum hum, hum,
Hum, hum hum, hum.
3)
Eu me lembro, ainda no capítulo de músicas sem pé nem
cabeça, vai ser difícil arrancar o troféu das mãos de Geraldo Nunes e seu
clássico “A Velha Debaixo da Cama” (composição de Jonas de Andrade):
“A véia debaixo da cama, a véia criava um
rato...
À noite que se danava, o rato chiava, e a véia dizia:
Ai meu Deus se
acaba tudo, tanto bem que eu te queria!...”
É um poema cumulativo, porque debaixo da cama são
acrescidos um gato que mia, um cachorro que late, um veado que corre, um galo
que canta, um macaco que pula, um porco que fuça, um bode que berra, um jumento
que rincha, um leão que esturra, e uma cobra que morde rato, gato, cachorro,
veado, galo, macaco, porco, bode, jumento, leão, a própria véia... “e não
sobrou nenhum”.
É um formato folclórico, no estilo do tradicional “A Velha A
Fiar”, e neste caso a cobra serve para dar um fim a uma história infinita, matando
os outros figurantes.
O mais curioso é que dá para entender que a velha era uma
velha comum, e era embaixo da cama que ela criava esses bichos todos. Mas no tempo em
que essa música tocava O DIA TODO, O DIA TODO nas rádios de Campina Grande,
todas as caricaturas, desenhos, charges, cartazes, graffiti de parede que se
referiam a ela desenhavam uma cama e... a véia debaixo da cama!
4)
Eu me lembro de outra música da infância, que jamais
seria gravada hoje: “Maria Chiquinha”. Verdade que acabou sendo gravada anos
atrás pelos infantis Sandy & Júnior, e que deu o que falar. É aquela música
dialogada em que “Genaro”, o namorado, submete a namorada “Maria Chiquinha” a um
interrogatório sobre um passeio suspeito que ela deu no mato.
Parece que a gravação original de 1961, é de Evaldo
Gouveia e Sônia Mamede:
https://www.youtube.com/watch?v=Ny8S9nb4nzg
“Que é que ocê foi
fazer no mato, Maria Chiquinha? Que é que ocê foi fazer no mato?”
“Eu precisava de
cortar lenha, Genaro meu bem... Eu precisava de cortar lenha.”
E por aí vai, Genaro encurralando a moça cada vez mais,
para saber quem era a pessoa “de culote” e “de bigode” que estava com ela.
Insatisfeito, ele ameaça:
“Então eu vou te
cortar a cabeça, Maria Chiquinha... Então eu vou te cortar a cabeça.”
“Que é que ocê vai
fazer do resto, Genaro meu bem? Que é que ocê vai fazer do resto?”
“O resto? Pode
deixar comigo que eu aproveito!...”
É uma música surrealista, punk, que envolve ciúme, assédio,
feminicídio e necrofilia, tudo ao mesmo tempo. E a gente ouvia isso sem
problema algum, porque o tom caricato e meio infantil da melodia e das vozes
projetava tudo num plano cartunesco, de gibi, e a violência era tão abstrata
quanto a dos desenhos de Tom & Jerry.
O grande mistério para mim era “jamelão”. Eu já sabia que,
como nome próprio, era um sambista; entendia que era uma planta; mas como seria
essa planta? E durante muitos anos fiquei guardando o jamelão na prateleira mental
das plantas exóticas, junto com o ruibarbo e a salsaparrilha.
5)
Eu tenho a mania de gostar de doidos, e nisso me sinto
bem avalizado estando na companhia de Ariano Suassuna, Guimarães Rosa, Raymond
Queneau, Werner Herzog, André Breton e muitos outros. É preciso ficar claro que
não é qualquer doido, pois muitos deles são dignos de pena, ameaçadores, ou
incômodos; mas o doido que se manifesta de maneira absurdamente profunda, ou imaginativamente caótica.
Quando eu era garoto, tocava demais no rádio esse rock de
Gordurinha (sim, o rock quando apareceu todo mundo fez algum tipo de rock,
inclusive os nordestinos). Ele me fazia largar o que estivesse fazendo e correr
para a sala, para escutar de perto. (Naquele tempo, era preciso aproveitar
qualquer chance para ouvir uma música que a gente gostava; a gente não sabia
quando teria outra.)
“Tô Doido pra Ficar Maluco” (de Ataíde Pereira e
Rodrigues Da Silva).
https://www.youtube.com/watch?v=Tvb7Mgg7fEs
Eu estou doido pra
ficar maluco
estou doidinho
mesmo pra ficar maluco
tenho calo na
memória, tirei curso de caduco
sou um matusquela
que chegou de Pernambuco.
Alô alô, Jacarepaguá,
voluntariamente vou me apresentar
Alô alô,
Jacarepaguá, guarde o meu cantinho que eu já vou pra lá.
O “Jacarepaguá” é no caso uma referência à Colônia
Juliano Moreira, que meio século depois voltaria a ser famosa através da figura
do artista Bispo do Rosário. Naquele tempo, o bairro virou sinônimo de “lugar
pra doido”, e lembro também a música “Neurastênico” (“Brrrum, ai que nervoso estou; brrrrum, tou neurastenicô... Brrrrum,
preciso me casar, senão... eu vou pra Jacarepaguá”).
No rock de Gordurinha, o melhor era a letra, onde eu
reencontrava a poesia do absurdo, ao estilo de Zé Limeira:
Lá na Colombo eu
fiz uma confusão
pedi água sanitária
e sanduíche de sabão;
mexi o cafezinho
com o cabo da vassoura
mandei somar a
conta num pedaço de cenoura...
A Colombo é sem dúvida a famosa e chique Confeitaria
Colombo, um dos lugares mais bonitos do Rio de Janeiro. Gordurinha fecha a
canção com esta quadra impecável:
Trabalho atualmente
numa fábrica de areia
Me deito às quatro
horas e levanto às três e meia
Sou telefonista, só
atendo quando quero:
“ – Zero mil e
zerecentos e zerenta e zero!...”
O nonsense dos versos da “Colombo” são no clima dos
versos absurdistas que Aloysio de Oliveira compôs para a melodia do clássico de
Glenn Miller, “In the Mood”, que ele aproveitou por assonância para intitular
“Edmundo”:
Edmundo nunca sabe
bem o que faz
ele é um sujeito
distraído demais
dizem que uma noite
quando em casa chegou
antes de ir pra
cama ele fez tal confusão
que os chinelos no
seu travesseiro botou
e se ajeitando foi
dormir no chão...
Na manhã seguinte,
depois de levantar,
encheu a banheira
para um banho tomar,
foi para a cozinha
e fritou o roupão,
e a água da
banheira ele mexeu com a colher,
depois de passar
pasta-de-dentes no pão
foi se lavar na
xícara de café...
É demais, o homem
não sabe o que faz
eu tenho pena do
rapaz,
o Edmundo, todo
mundo diz que não tem jeito mais...